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Mayura &...
O frio a despertou do sono profundo. Ela puxou o cobertor tentando captar as últimas imagens do sonho vívido. As armaduras douradas brilhavam ao redor de uma menina franzina que falava repetidamente a frase... Bem, Mayura não lembrava mais a frase, mas teve a impressão de que não era a primeira vez que sonhava com aquilo. Abriu os olhos e as palavras se dissiparam com a claridade do quarto.
Costumava acordar antes do amanhecer, seu corpo ganhava um ritmo diferente nos dias próximos ao Equinócio de Outono, contudo, aquela não era uma manhã comum, não podia se dar ao luxo de se atrasar. Mayura seguiu os raios de sol e viu o homem que lhe fez companhia durante a noite. Estava próximo a janela, observando preguiçosamente a paisagem, como se não houvesse risco algum de ser visto ali, no quarto da líder das amazonas. As chances eram realmente pequenas de alguém vê-lo naquela região voltada para a floresta, o que não significava que ele deveria ficar tão à vontade em exibir sua nudez. Afinal, estavam nos limites da Vila das Amazonas, e se uma guerreira, em sua corrida matinal, passasse por ali?
Mayura admirou os contornos de seu corpo destacados pela luz do alvorecer. Ele estava de perfil e escondido pela cabeleira bagunçada, era impossível ver suas expressões, mas sabia o que ele pensava:
- Você sente falta daqui.
O Cavaleiro de Câncer se virou, exibia um sorriso misterioso:
- De tudo.
A amazona respirou fundo. Era impressionante como os traços de seu filho estavam ali, naquele rosto arrogante:
- Ikky já tem idade. Pode ir com você dessa vez.
Manigold se ajoelhou na cama e inclinou o corpo sobre o dela:
- E você? Já pode vir comigo também?
Ela riu das falas ousadas e fingiu desinteresse na proximidade perigosa:
- É isso que você fala para conquistar as mulheres em Elêusis? – sussurrou tocando seu peitoral bem definido. O toque leve manteve-o distante de seus lábios – Elas acham esse convite romântico?
O cheiro de sua pele era o suficiente para deixar seus sentidos confusos. Como se soubesse disso, o rapaz não forçou o peso sobre ela, respeitando a distância que a amazona impôs quando murmurou:
- Elas se convidam, na verdade.
A loira sentiu uma angústia em sua garganta. Imaginava que Manigold tinha várias pretendentes fora dali. Apesar de não ser o líder de sua família ou o principal herdeiro de Elêusis, era importante fazer alianças, especialmente nesse período instável. E qual seria o elo mais forte do que um casamento? Bem, talvez um filho:
- Se elas souberem do gênio de Ikky, talvez desistam de ser madrasta dele.
- Ele não precisa de madrasta. – disse, resoluto. Abaixou o rosto e sua respiração tocou os lábios de Mayura - E eu não preciso de uma esposa. Ou amante. Eu já tenho você.
Mayura abriu os lábios convidando-o a se aproximar mais:
- A cada três, quatro meses, dependendo do ritmo da guerra.
- Ou do humor das anciãs.
- Elas têm outras preocupações agora. Outros guerreiros rebeldes para vigiar. Nossa população duplicou com tantos herdeiros abrigados aqui. E você pode imaginar que elas não querem que aumente mais fora de época.
- Talvez elas voltem a me acolher então, agora que vou levar alguns desses guerreiros embora. – Mayura já estava de olhos fechados, antecipando o beijo que ele daria. Subitamente sua boca se afastou. - Você realmente acha que Ikky pode vir comigo?
A voz preocupada daquela pergunta era a de um pai e não a de um futuro mestre. Estava na hora de Manigold entender que o filho deles precisava de alguém com mais experiência, que o orientasse melhor sobre seu cosmo especial:
- Ele precisa de um desafio maior agora. - A amazona se esforçou para falar mais delicada. - Um mentor. E é seu direito levá-lo.
- Levá-lo para a guerra? – o canceriano se afastou subitamente e se sentou na beirada da cama. – Ele é tão pequeno... Como será quando ele presenciar um massacre? É cruel para uma criança.
- Quando você começou a visitar o mundo dos mortos, Manigold? Sei que você já via algo muito pior que a guerra na idade de Ikky. Se a sua armadura quiser escolhê-lo, ele precisa estar preparado. Cruel é privá-lo da sua técnica. Já o ensinamos a ter autonomia aqui, acredite, Ikky não é como uma criança que nasceu em uma família cheia de regalias. Ele já sabe sobreviver sozinho.
O Cavaleiro de Câncer olhou para a porta do cômodo, mantendo uma postura tensa, como se fosse sair pela Vila daquele jeito mesmo, nu e furioso. Empática a sua angústia, se aproximou e envolveu-o por trás, apoiou sua cabeça no ombro esquerdo do cavaleiro e o observou de perto. Aquele provavelmente foi o gesto mais paciente que demonstrou em anos de convivência. Entendia que tudo demorava para ser processado pelo Cavaleiro de Câncer, ele precisaria de mais tempo para ficar confortável com esse medo, por enquanto ele precisava simplesmente aceitar levar o garoto:
- E se ele morrer, Mayura?
- E se você morrer antes de ensiná-lo? – a frase soou fraca e a mulher se esforçou para afastar aquela possibilidade de sua cabeça. Pensou em todos os guerreiros que havia perdido nos últimos anos. Teve muita sorte que suas pupilas ainda estavam vivas, era dolorido enviá-las para estratégias tão arriscadas. Aquilo fazia parte de seu dever. Assim como era seu papel de mãe deixar Ikky desenvolver toda sua potência. Desafrouxou o abraço e passou as mãos na nuca de Manigold, ajeitando seu cabelo. – Quando Ikky nasceu era tudo diferente, sei que não era como você idealizava. Mas por favor, não pense o pior. - Sussurrou em ouvido.
Ele se virou e encostou sua testa na dela. Mayura o beijou delicadamente e, antes que pudesse falar qualquer outra coisa para acalentá-lo, o moreno deu continuidade a carícia. O quanto o desejo latente era uma forma deles fugirem das dúvidas sobre o futuro? Esse questionamento interno foi esquecido quando o beijo se tornou mais intenso. Seu corpo inteiro reagiu a intensidade dos lábios de Manigold, beijava-a com volúpia como se nunca mais fossem se ver. E com a lembrança de que tinham pouco tempo antes de alguém vir incomodá-los.
O amante a puxou para que se sentasse em seu colo e ela envolveu seu quadril, deixando-se levar pelas carícias que a conquistaram desde a primeira noite que passaram juntos.
Eles nunca foram amigos. Quando o guerreiro passou a conviver com as amazonas, ela demorou para conhecê-lo. Era uma fase de treinos intensos e constantes idas as cidades gregas, mas quando finalmente o viu... O desejo que sentiu com apenas um olhar a assustou.
Sempre quis ser a líder e, quando jovem, não escondia isso de ninguém. Nunca imaginou que algo a atrapalharia, até que Manigold invadiu seus sonhos e Mayura começou a questionar sua fidelidade a deusa Artêmis. Compreendia a importância dos rituais de estação, se não fossem eles provavelmente as amazonas não teriam aliados em toda a extensão do mediterrâneo, a maioria das famílias antigas consideravam uma honra ter um herdeiro nascido com a benção de Artêmis. Porém não foi com essa intenção que escolheu participar da primeira vez. Mayura queria saciar seu desejo com aquele rapaz espirituoso e, assim, parar de fantasiar com seu toque.
Naquela noite de seu primeiro ritual, soube que tinham algo além de atração física. Passaram grande parte da noite descobrindo segredos nunca ditos a ninguém. Entre conversas e carícias, suas almas foram reveladas. Ao longo dos anos, nunca falaram de amor, não precisavam de declaração, sua conexão única era palpável tanto nos momentos de silêncio quanto nos gemidos de prazer a cada reencontro de seus corpos.
Como agora.
Manigold sussurrou algo em seu ouvido e ela intensificou o ritmo de seu quadril, mantendo-o cada vez mais perto. Agradeceu a Artêmis por tê-lo ali mais uma vez completamente entregue ao ato de amor. Independente das regras das anciãs, intuía que a deusa não a julgava por acolher o guerreiro em sua cama nesses tempos de guerra. Forçou o corpo a mudar de posição para senti-lo com mais intimidade e o ápice levou seus sentidos.
Os dois relaxaram na cama, Mayura afastou os lençóis bagunçados e recuperou o fôlego olhando para a janela. A luz da manhã estava mais forte. Tinha que se levantar, se reunir com as anciãs, chamar Ikky e ... Uma lembrança do sonho lhe veio à mente. O estado após o torpor resgatou sua visão de alguma forma. Permitiu que a intuição a guiasse até que Manigold tocou em sua mão, percebendo que estava usando seu cosmo:
- Mayura?
A loira se virou para o amante, deixando o cosmo se dissipar junto com a história de seu sonho. Ele leu sua expressão deslumbrada e deu um sorriso arrogante:
- Você descobriu algo, não foi?
- Todos os Cavaleiros de Ouro estarão em Delfos durante a cerimônia? O Cavaleiro de Áries tem certeza?
- Foi ele que sugeriu esse encontro no Equinócio, para aproveitar o plano de Kardia.
- O meu plano, você diz?
- Bem, foi de vocês dois.
A loira revirou os olhos impaciente. Quantas vezes mais suas estratégias ganhariam o nome de um Cavaleiro de Ouro? As anciãs a alertaram sobre isso, mas imaginava que com o tempo de guerra pelo menos esses homens a reconheceriam como uma igual:
- Não precisa fazer essa expressão, todos sabem que sem sua amazona não conseguiríamos tirar o herdeiro de Touro e... – Manigold tentou acariciar suas costas, mas a amazona se esquivou e se levantou da cama. Antes que ela conseguisse se afastar muito, o guerreiro segurou seu pulso e a puxou gentilmente para que se sentasse em seu colo. Murmurou em seu ouvido. - Ei, Mayura... Por que você perguntou sobre a reunião?
- Todos vocês, Cavaleiros de Ouro, juntos no Equinócio. É muito raro, não é?
- Eu, sinceramente, não me recordo de ter acontecido antes. Com ou sem Equinócio.
- Se é verdade que todos vocês são descendentes dos deuses... Acho que esse encontro pode nos ajudar a resgatar a coisa mais importante que perdemos nessa guerra.
Eles se encararam por um tempo, Manigold lhe pareceu mais cansado do que nunca:
- Você ainda crê na criança?
- Confio no que Artêmis nos contou. Em nossos oráculos. – A loira acariciou o belo rosto de Manigold, paciente com aquele momento de descrença do cavaleiro. Beijou-o suavemente e disse – Eu vou com vocês até Delfos.
Dessa vez, quando Mayura se levantou, o moreno não a impediu:
- E vamos mesmo levar Ikky?
- Você conta para ele enquanto eu converso com as anciãs? Preciso resolver algumas coisas antes de ir. – Propôs, objetiva, esperando que seu tom de voz de líder o desencorajasse a expressar seus medos novamente.
- Claro, Amazona de Pavão – Manigold murmurou, apresentando mau-humor em cada letra.
Mayura reconheceu o temperamento característico do canceriano tomar conta do quarto enquanto se arrumavam. Cada gesto e resmungar era como um aviso que ainda não tinha aceitado completamente aquela ideia e ficaria o resto do dia aborrecido. Argh. Almejou mais do que nunca que sua intuição estivesse certa. Ir a Delfos aguentando esse mau-humor teria de valer a pena.
... Marin
Os números de guerreiros, vilas e barcos começaram a virar uma massa amorfa na cabeça de Marin. A discussão sobre os pormenores da guerra já durava algum tempo sem conclusão produtiva. Ela procurou no recinto qualquer coisa para aliviar seu cansaço mental e conseguir se manter acordada. Normalmente participava ativamente de encontros estratégicos, mas concluiu que ali sua voz seria ignorada. Os líderes presentes não concordavam com nada, a cada nova informação o tumulto de teorias se espalhava. Eram apenas sete representantes dourados e alguns de seus pupilos, cada um com uma perspectiva completamente diferente de qual seria o próximo passo da guerra. Será que algum dos cavaleiros ausentes fará diferença nessa bagunça?
Frustrada com a discussão implicante entre o Cavaleiros de Escorpião e o de Aquário, a amazona passou a estudar as paredes do salão administrativo de Delfos. As pinturas em relevo contavam o nascimento de Apolo e toda a perseguição de Hera para matá-lo. Marin focou na serpente que atacava o bebê e se questionou quando veria uma pitonisa* declamar a voz de Apolo. Provavelmente dormindo, se a reunião continuar nesse desperdício de teorias:
- Bem, Leão está aqui. - A voz apaziguadora do Cavaleiro de Libra impôs silêncio ao ambiente e Marin ouviu passos de aproximação do amigo. Aiolia entrou no cômodo com uma expressão curiosa. Era nítido sua surpresa por aquele anúncio de Dohko. – Aiolia pode confirmar os números de barcos necessários para reconquistar os domínios de Delos.
O recém-chegado observou o mapa gigantesco que destacava as ilhas de seus ancestrais. Respirou fundo e acrescentou mais quinze barcos de madeira sobre a região do Mar Egeu:
- Como disse a Kardia ontem, não acredito que temos força suficiente para essa retomada. Não sem deixar as outras regiões em perigo. – Antes que qualquer um pudesse questioná-lo, ele fez um sinal com a mão. – Senhores. Eu vim avisar que o Cavaleiro de Câncer e o Cavaleiro de Áries chegaram. Virgem também. Eles já estão na caverna aguardando o Pôr do Sol. Vamos precisar falar sobre isso após os rituais:
Os homens presentes se entreolharam contendo a ansiedade de recomeçar a discussão. Sabiam que não poderiam rejeitar o ritual de passagem para a nova estação, especialmente com o convite expresso de um dos anfitriões do lugar. Marin empertigou o corpo, aliviada por poder sair daquela tensão. Percebeu que Aiolia a fitava do outro lado do cômodo e seu sorriso a despertou de vez da sonolência. Enquanto todos saíam da sala, o herdeiro de Leão seguiu o caminho contrário, indo ao seu encontro, os olhos fixos nos seus:
- Não me contaram que você estava aqui. – O leonino disse e se inclinou para abraçá-la. Marin não resistiu ao calor de seus braços e retribuiu o abraço carinhosamente. Não se viam desde que ele foi enviado para ajudar Sisifos no ano anterior. – Como é bom te rever. Mesmo com a máscara.
Aquelas palavras, ditas em um sussurro íntimo, fizeram seu coração acelerar. Torceu para que Aiolia não percebesse como sua proximidade física a afetava, preferiu não dizer nada a deixar que sua confusão ganhasse um tom vacilante. Se afastou um pouco e fingiu naturalidade ao perceber que ele manteve uma das mãos em suas costas, mantendo-a mais próxima do que seria a conduta ideal entre uma amazona e um outro homem. Fugindo de seu olhar intenso, observou o Cavaleiro de Peixes redistribuindo algumas posições sobre o mapa da guerra:
- Imaginei que você participaria dessa reunião.
- Escorpião está preocupado com os números para recuperar Delos. Aquário não confia nos estrangeiros do Norte para nos ajudar. Participei desse impasse ontem. – O loiro soltou um longo suspiro entediado. O último ano em Delfos trouxe um ar taciturno ao herdeiro de Leão. – Quando Shion confirmar os números dos lemurianos teremos mais clareza sobre o que fazer... Bem, passei o dia ajudando Sisifos com as acomodações de todos e os pormenores do ritual. Você chegou com a comitiva de Libra hoje cedo? Ainda estava em Meteora com Dohko?
- Sim, fiquei muito mais tempo lá do que deveria, os ataques na região foram intensos. Só nas últimas luas que as coisas melhoraram.
- São muito dias de viagem até aqui... Conseguiu dormir um pouco quando chegou?
Marin negou com a cabeça:
- Reencontrei uma amazona que não via desde Atenas, conversamos por um bom tempo. Ela confirmou que o plano de Mayura e Kardia deu certo. Agora você ganhou oficialmente a armadura de Leão.
Aiolia ignorou o entusiasmo em sua voz e retirou a mão de suas costas. Fingiu interesse na reorganização dos territórios do Cavaleiro de Peixes:
- Sim, eu a recebi. – disse, inexpressivo - Os curandeiros recomendaram que sua amiga e o herdeiro de Touro se resguardassem. Eles ficaram muito tempo resistindo a magia de Éris.
- Eles acham que ainda há resquícios de magia?
Aiolia murmurou um sim e apontou para a saída do salão, o Cavaleiro de Peixes já havia se retirado e precisavam ir também. Marin não participaria do ritual com os Cavaleiros de Ouro e as Sacerdotisas de Apolo na caverna, porém os ritos no anfiteatro começariam no mesmo horário para os demais presentes no Santuário de Delfos:
- Ambos tiveram os mesmos sintomas de febre à noite, não era nem para o Cavaleiro de Touro ter participado dessa reunião, mas ele insistiu em ir para a cerimônia também.
A ruiva o seguiu em silêncio e refletiu sobre a conversa que teve com Shaina. Após tantos anos sem se ver, a fraqueza da garota a assustou. Parecia que ainda expurgava os anos de confinamento naquela outra identidade. Ela lhe contou dos feitos de Atenas sem orgulho na voz. Havia apenas apatia em cada frase.
Percebeu que algo afetava Aiolia também e não era a preocupação com a saúde dos dois guerreiros. Cuidadosa, sem querer acuá-lo, esperou saírem da construção para perguntar:
- Aiolia. E sua armadura?
Ele resmungou algo indecifrável, (talvez "a caixa..") e esperou terminarem de descer as escadarias para responder direito:
- A caixa de Leão é... como eu lembrava, mas achava que seria diferente quando a recebesse. – Confessou baixinho – Pensei que meu cosmo reagiria como antes, quando eu era mais jovem ... Sei que já faz anos que Ilías se foi e que é meu dever honrá-la por ele. Porém, quando a vi, só consegui pensar no que essa herança significa. Fiquei pensando como foi que o mataram. Como conseguiram roubar a caixa, o que aconteceu com o corpo dele, enfim... e que eu nunca mais poderia falar com meu irmão.
Sua angústia era palpável, não precisou fazer a pergunta em voz alta para saber que Aiolia não ousou colocar a armadura ainda. Provavelmente, nem abriu a caixa:
- Você tem direito de sentir saudade dele.- Tocou em sua mão - Apenas não deixe esse luto consumi-lo.
Seus dedos se entrelaçaram por um momento, foi tão natural que ela só percebeu o gesto íntimo quando avistou uma figura familiar em meio aos Cavaleiros de Ouro. Mesmo muito distante reconheceu o brilho da máscara de Pavão :
- Mayura... – sussurrou soltando do toque do leonino – Não sabia que ela viria.
- Mayura e Ikky vieram com o Cavaleiro de Câncer. Acredito que o garoto será treinado por Manigold agora. – Aiolia estudou seus olhos tentando ler o que Marin pensava. Um pouco de diversão voltou em sua expressão. – O que você está desconfiando?
- Nunca a vi se ausentar da Vila das Amazona durante os Equinócio. – Refletiu, tentando organizar os pensamentos em meio a música cada vez mais alta que se espalhava pela Santuário de Delfos. Sua mestra não viria apenas para acompanhar o filho nessa nova jornada. - Ela sempre tenta voltar para casa para honrar Artêmis.
- Assim que chegou, ela pediu para se reunir com Sisifos. – Ele revelou, tentando superar os sons ao redor decidiu falar mais alto – Não sei se irá para a Caverna ou para o anfiteatro.
Marin ia perguntar mais sobre a sequência dos ritos da noite, contudo a música engoliu suas dúvidas. Conforme se aproximavam da área sagrada os acordes hipnóticos reverberava cada vez mais alto entre os monumentos em homenagem aos deuses.
Chegaram em uma bifurcação do caminho que mostrava todo o esplendor do Santuário de Apolo. Marin reconheceu aquele ponto, seria ali que se separariam. Várias pessoas se direcionavam até o anfiteatro, ansiosas pelo espetáculo que aconteceria em céu aberto até o amanhecer. Dali podiam ver diversos barcos na praia e todo o trajeto montanhoso até a subida a Delfos. A Vila das Amazonas era impenetrável graças a floresta densa e proteção furtiva. O que fazia Delfos difícil de ser conquistada era sua altura. O caminho íngreme só não era pior que os picos rochosos da morada de Dohko:
- Acho que Sisifos está te chamando também.
Aiolia apontou para a rota que os Cavaleiros Dourados seguiam. O responsável por Delfos os observava e pedia com a mão para que se aproximassem. Ao seu lado estava a Amazona de Pavão, ela copiou o gesto assim que fitou sua pupila:
- Você já foi até a Corycian?
- Não, achava que as únicas mulheres permitidas eram as sacerdotisas.
- Eu também. - Ele riu – Você vai gostar, tenho certeza. Nos falamos melhor mais tarde? Antes de você ir embora?
Marin assentiu com a cabeça e o viu se afastar. Aiolia apressou os passos para alcançar Sisifos, que já seguia caminho deixando Mayura para trás. Sua mestra a esperava com a mesma postura confiante de sempre, o olhar ferino estudava cada movimento de Marin e não demonstrava qualquer tipo de empolgação por revê-la. A mestra ajeitou seu cabelo, uma forma silenciosa de lhe dizer que notou que estava muito mais longo do que se lembrava, e então a abraçou. A ruiva aproveitou a proximidade para que sua pergunta fosse ouvida:
- Vamos também para a caverna?
- Sim. Hoje será necessário. O herdeiro de Sagitário abriu uma exceção para nós. Considerando o que aconteceu na floresta, acho que temos direito de estar aqui tanto quando os Cavaleiros Dourados.
Floresta? A lembrança da tempestade de anos atrás invadiu sua mente:
- Você diz... quando vi o cervo?
- Artêmis. Quando ouviu a mensagem de Artêmis – O nome da deusa fez o corpo de Marin se arrepiar e ela fitou o exuberante colar que sua mestra usava. A Pedra da Lua brilhava e seus tons de arco-íris pareciam reagir aos acordes que reverberavam pelo Santuário. Já havia visto aquele objeto antes, era um dos artefatos do Templo de Artêmis. - Sugeri que deixassem Shaina dormindo, se ela não estivesse com febre, também estaria aqui. Não sabemos direito qual pode ser sua reação ao ritual. Os anciões deles são piores do que os nossos – ela confidenciou em seu ouvido e Marin imaginou que Sisifos teve que impor sua autoridade para conseguir essa exceção.
A acústica das montanhas impediu que uma conversa se estabelecesse por um tempo. Seguiram o caminho estreito aceitando que a música impedia que uma conversa decente fosse estabelecida, até que Marin se lembrou da Amazona de Cavalo Menor. Ela era uma das amazonas mais intuitivas que conhecera, também deveria estar ali:
- E Lara? Veio com o Cavaleiro de Áries?
Mayura olhou para trás, claramente incomodada com as batidas intensas da música. E algo a mais:
- Perdemos alguns prateados nas batalhas do Leste, Shion trouxe suas armaduras.
Marin sentiu as pernas fraquejarem. Aquela frase objetiva dizia o suficiente para atestar que sua amiga estava morta e Mayura não lhe daria mais detalhes naquele momento. Pensou nos filhos de Lara e na pequena Shunrei. Era tão, tão jovem... quem lhe daria essa notícia?
Sua mestra enlaçou seu braço, empática a sua dor:
- Teremos tempo, em casa, para prestar homenagem a todos eles.
A Amazona de Águia assentiu com a cabeça. Se esforçou para conter as lágrimas por um tempo. Mayura manteve seu toque por toda a subida até que chegaram a um grande descampado. Era possível ver melhor como os Cavaleiros de Ouro e seus herdeiros estavam distribuídos naquela pequena viagem. Marin reparou no Cavaleiro de Libra, seguindo sozinho muito mais à frente dos demais:
- Dohko já sabe? – sussurrou.
- O Cavaleiro de Áries contará mais tarde. – Sua mestra respirou fundo e apontou para a entrada da caverna escondida no pé de uma montanha. – Agora precisamos celebrar o último dia do Verão.
Caminharam mais um pouco em silêncio até que a música e o calor do Sol ficaram para trás. Era possível ver a luz do entardecer refletida nos cristais pontiagudos compondo o teto da caverna. O lugar era muito maior do que ela imaginava, no chão havia um labirinto de pedras formando desenhos concêntricos que indicavam que era ali que o oráculo ficava e naturalmente os presentes foram se colocando ao redor desse traçado.
Um cheiro estranho pairava no lugar, como se a caverna respirasse um calor úmido. Não era o odor de lugares fechados ou passagens subterrâneas. Parecia mais um cheiro cítrico e alguma outra coisa difícil de identificar. Marin procurou a origem daquele perfume e nada achou. Podia sentir que a caverna tinha uma energia própria, um cosmo de linguagem única que ressoava em todo seu corpo. Olhou para os demais guerreiros presentes e soube, por suas expressões atônitas, que todos sentiam aquilo também.
Ali não era audível o que se passava no restante do Santuário, mas havia um pequeno grupo de músicos introduzindo os ritos do entardecer. As canções realçavam a sensação de que todos estavam ligados a uma teia invisível e que pulsava por todas as pedras do local. Seu olhar cruzou o de Aiolia e por uma música inteira eles se encararam, ignorando tudo que acontecia ao seu redor. Ela perdeu a noção do tempo até que percebeu que sua mestra se posicionou um pouco mais a frente, ficando na mesma roda dos demais cavaleiros. Foi então que a jovem amazona constatou que a roda de Cavaleiros Dourados seguia a mesma ordem das constelações que serviam de caminho do Sol, o zodíaco, e que Mayura estava justamente no ponto que unia Peixes e Áries. Entre o último e o primeiro signo. Aquilo não era ocasional.
Quando o Sol estava prestes a se pôr, a oráculo de Apolo apareceu. A menina era muito jovem e de expressão vazia. Ela foi trazida por um sacerdote até o centro do círculo de pedras e fechou os olhos, se entregando aos seus processos intuitivos. A música havia parado, mas a caverna pareceu ganhar mais vida com aquela última peça do rito. Sisifos falou o nome da Amazona de Pavão e Mayura deu um passo à frente e perguntou:
- Estamos aqui para saber o paradeiro de Atena?
E, para a surpresas de todo, a voz de Apolo respondeu.
Obrigada a todos que comentam, é sempre bom interagir com vocês sobre esses personagens que adoramos e isso me lembra de voltar aqui e postar os textos que já estão prontos. Não esqueçam de deixar seu review :).
Vai rolar futuramente uma postagem paralela da história do Dohko, seus pupilos (Shiryu :) ) e a Shunrei, dentro desse universo, se vocês curtirem a ideia, posso postar no fanfic também.
Acho que o mais difícil de escrever essa história é que eu fico ansiosa para escrever a parte romântica e sei que é por essas partes que vocês estão aqui hahaha, mas calma que agora a coisa vai começar a esquentar...
Antes de revisar, esse capítulo acontecia todo no Inverno, então, se virem algo como "Solstício de Inverno" ao invés de "Equinócio de Outono" me avisem, por favor.
*Pítia, Pitonisa, Sacerdotisa de Apolo: todos nomes referentes ao oráculo de Delfos.
Personagens:
Kardia - Cavaleiro de Escorpião em Lost Canvas
Degél – Cavaleiro de Aquário em Lost Canvas
Mayura – Amazona de Pavão em Santia Shô. – obs: acho que o pai da Mayura aqui nessa história deve ser um cavaleiro dourado, mas até agora não sei quem combinaria com ela, talvez o El Cid, o Cavaleiro de Capricórnio.
Manigold – Cavaleiro de Câncer em Lost Canvas.
Lara - Eu inventei essa personagem para ser um apoio às amazonas, mãe da Shunrei etc. A armadura de Cavalo Menor aparece em Santia Shô.
Lugares:
Meteora – procurem a foto do mosteiro de Meteora e vejam se essa região montanhosa não é muito perfeita para ser o local dos picos que o Dohko mora, hahaha.
