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Marin

Um som fino ecoou pela caverna. Marin conteve o impulso de dar um passo para atrás, era diferente de tudo o que conhecia e não vinha da garganta da pitonisa ou de um instrumento presente. O cosmo da caverna ganhou som, como se ecoasse os últimos raios de Sol que agraciavam suas rochas. Até os sacerdotes estavam surpresos, buscavam entender aquela melodia e se esqueceram que a pitonisa canalizava uma resposta para A Amazona de Pavão.

A jovem garota se mantinha de olhos abertos e encarava o colar de Mayura, hipnotizada pela Pedra da Lua. Sua voz se misturou com o ruído do entardecer e ecoou pela caverna. Era como se as pedras, em coro, falassem:

- Longe do abraço do Mar, a seta do poente protege a ... Marin não entendeu algumas das palavras dita e ao buscar resposta no rosto dos demais cavaleiros, percebeu que Sisifos era o único dos doze que não fitava a sacerdotisa, algo fora da caverna guiava o seu olhar – A Justiça cresce onde o fogo dos heróis ainda arde.

Antes que a garota terminasse sua sentença, o protetor de Delfos já havia se afastado da roda sagrada. Seguiu determinado até o brilho cada vez mais nítido na entrada da caverna. O cosmo dourado de Sisifos ardia com aquela proximidade e Marin ouviu o Cavaleiro de Áries murmurar:

- É a armadura de Sagitário?

- Não é, não é real. – Manigold afirmou e então olhou para o Cavaleiro de Gêmeos e questionou – Você sente que está aqui mesmo?

- Definitivamente é um portal. – o geminiano respondeu, o sorriso misterioso demonstrava que aquela visão não era maligna.

O cosmo de Sisifos continuava a demonstrar afinidade com aquela visão e o guerreiro seguiu determinado até a armadura, suas peças formavam um Centauro, seu arco apontava para o poente. Antes que o guerreiro tocasse a superfície de ouro, um brilho intenso iluminou toda a caverna. Cegando todos. A armadura desapareceu com o Pôr do Sol e por um momento o silêncio governou. Quando Sisifos se virou para o grupo, uma flecha dourada tremulava em suas mãos:

- Era a armadura de Sagitário. – Enquanto o rapaz afirmava, o objeto perdeu a forma, restando apenas um rastro dourado. - Tenho certeza.

- Aiolos nos mandou isso? – o Cavaleiro de Escorpião questionou.

- Ele não abre portais. – Aiolia disse analisando a mão do irmão.

- Foi Apolo. – O guerreiro de Virgem afirmou, resoluto. – A armadura apontava para o oeste, o poente. "a seta do poente protege a sabedoria".

- Ele poderia ter deixado o portal aberto para trazermos Atena de uma vez... – Manigold murmurou para si mesmo, mas alto o suficiente para que todos escutassem.

Marin compreendia a amargura. Essa seta, essa resposta, era claramente o presente mais palpável dos deuses desde que a guerra começou. Seria o suficiente para a continuação dessa jornada?

- Manigold. Você está questionando Apolo? - repreendeu El Cid, o Cavaleiro de Capricórnio. Sua voz autoritária demonstrava que não achara graça no comentário.

O canceriano pareceu não ouvir a represália e focou sua atenção na discussão entre Shion e Dohko, eles debatiam os possíveis significados das palavras enigmáticas. A guerreira de Águia, não conseguiu se interessar pela especulação, a energia exaurida da sacerdotisa pesava na caverna e ela não sabia como aquelas guerreiras podiam ignorar isso. Enfraquecida após o seu transe, a menina tinha dificuldades para se manter em pé, nada em sua compostura lembrava seu grande feito de outrora. Havia canalizado a mensagem de um deus e nem se quer ouviu um agradecimento. Foi levada pelos sacerdotes como uma ferramenta qualquer. Aquila indiferença constrangeu Marin. Sabia que não deveria julgar os mistérios de cada Templo, contudo, na Vila das Amazonas a menina receberia outro tratamento. Será que Mayura estava incomodada também?

Sua mestra ouvia as discussões do enigma sem transparecer emoção alguma. O colar ganhou um tom mais alaranjado do que outrora e, ao fitá-lo, Marin teve certeza de que sem a representante de Artêmis, sem aquele colar, a sacerdotisa não teria canalizado sua resposta. Sentiu orgulho por ser amazona e ter aquela mulher como mentora:

- Olympia...– o Cavaleiro de Capricórnio falou alto, silenciando os demais. Fitou Mayura - Onde o "fogo dos heróis ainda arde..." faz sentido que seja a região de Olympia.

A Amazona de Pavão assentiu com a cabeça, reconhecendo que havia informantes ali:

- As vilas aceitaram a dominação e não houve profanação de nenhum templo. Os governantes são simpatizantes ao culto de Hera, ainda temem Zeus. Claramente estão se resguardando para não perder vidas nesse caos.

- Não há sinal de Éris por ali. – Kardia disse, cruzando os braços - Estão focados em fortalecer as fronteiras, Esparta pode ataca-los assim que eu retornar.

- Ah, por favor, – o Cavaleiro de Aquário falou impaciente - Um ataque agora só vai chamar mais atenção para a região.

- Não se formos rápi...

- Cavaleiros. – Sisifos interrompeu a rixa iminente e respirou fundo. – Os sacerdotes farão seus ritos aqui na caverna. Podemos continuar lá fora, um banquete nos aguarda.

Os guerreiros assentiram e saíram da gruta silenciosamente, apenas Aiolia ficou para trás resolvendo algo com os sacerdotes. Demorou para a alegria tomar o grupo, aos poucos as conclusões do enigma criaram forma e a conversa fluiu mais solta com a presença do vinho. Todos pareciam convencidos de que Aiolos protegia Atena ao Oeste, na região de Olympia.

Mayura e o guerreiro de Capricórnio se afastaram para confidenciar questões estratégicas. Ou familiares, já que tinham o mesmo pai. Próximos ao banquete, Shion e Dohko lideravam a conversa, provocando os demais a confraternizarem nesse momento único. Nem todos se conheciam antes de hoje, alguns, como o Cavaleiro de Virgem e de Touro, haviam herdado sua posição há pouco tempo. O Cavaleiro de Libra brindou pelo encontro e comentou sobre a raridade dessa reunião, relembrando os guerreiros que se foram.

Um cansaço súbito tomou conta de Marin. Quando alguém lhe contaria sobre a morte de Lara? A Amazona de Águia pegou um cacho de uvas e se afastou, feliz por sua máscara servir de desculpa para comer sozinha. Apesar de achar importante a interação com os demais, precisava de um tempo para processar a perda da amiga. Foi até a ponta de um desfiladeiro e tirou a máscara, deixando o vento bater em seu rosto desnudo por um tempo. O sabor doce da uva acalentou seu luto e lhe deu permissão para deixar algumas lágrimas caírem. Era muita informação em pouco tempo, a volta de Shaina, a morte de Lara, a resposta de Apolo... Estava cansada das constantes surpresas da guerra e torceu para que tudo mudasse quando encontrassem Atena.

Contemplou o Santuário de Delfos à distância. Parecia efervescer dali, o aglomerado de luzes criava a ilusão de chamas se espalhando pela montanha. Estava tentando identificar o que era cada uma das construções, quando ouviu passos a suas costas. Incerta sobre aquele cosmo dourado, cobriu parte do rosto para ver quem se aproximava.

Os olhos esmeralda de Aiolia reluziam com a chama da lamparina:

- Águia. Não sei como você consegue ficar tão confortável nesse escuro.

Marin observou a fonte de luz que ele trazia e então escorregou a máscara, expondo o rosto.

- Apenas segui o brilho de Delfos.

Ele assentiu e se colocou ao seu lado. Olhou para a encosta iluminada e apontou para o anfiteatro, a construção parecia mudar de cor, ora vermelha, ora amarelada. Disse baixinho:

- Estamos perdendo o rito de Dionísio.

Marin se lembrou dos rumores sobre essa parte da celebração de Delfos. A festa realmente virava uma orgia como alguns acreditavam? Crispou os lábios, incerta se sua curiosidade o ofenderia:

- Acho que máscaras e dança não combinam muito com os Cavaleiros Dourados.

- É um momento importante para esses tempos de guerra – ele murmurou e se virou para ela. Aiolia conseguia ler em sua feição o que ela insinuava? A forma como a encarava lhe dizia que sim. Sorriu – Não é tão diferente dos rituais que eu presenciei na Vila das Amazonas.

- Não sabia que vocês lutavam aqui também.

- Não, não há luta, mas...

- E nós não nos embebedamos ou dançamos a noite inteira - A ruiva deu um sorriso singelo - não é a mesma coisa, Iolia.

- Vocês lutam ... e celebram o poder da escolha que Artêmis trás. Aqui há música, dança e os casais se escolhem. Como qualquer ritual que honra Dionísio. As jovens fazem seus ritos a Artêmis, pedem permissão a deusa, como vocês.

Marin olhou para a lamparina estudando cautelosamente as próximas palavras:

- As amazonas ficam a noite inteira com apenas um homem.

- Vocês lutam com vários homens boa parte da noite. – seu tom cínico a provocava para continuar a ser mais clara.

- Você entendeu o que eu quis dizer.

Aiolia ignorou sua seriedade e observou o anfiteatro a distância:

- É um reiniciar de um ciclo, as pessoas dos vilarejos querem comemorar. Ter esperança de que o próximo será melhor. Como podem festejar a vida se julgarmos quem fica com quem ao longo da noite? Desde que não invadam o Templo de Apolo ou haja brigas... não interferimos. Mas meu pai odiava.

O Cavaleiro de Leão riu e Marin se deixou levar por aquele som, dando um sorriso singelo, satisfeito por vê-lo menos sombrio que outrora. Como tudo era mais fácil sem máscara:

- Seu humor era terrível nessa época, apenas minha mãe o suportava. A cada virada de estação ouvíamos suas reclamações e histórias dos exageros da noite. Ficava insuportável. Ilías e Sisifos nunca reclamaram dos ritos. Acho que só eu puxei o gênio do meu pai...

- Então você passou o dia reclamando?

Aiolia sorriu e a fitou intensamente:

- Acho que você me conhece bem demais... – ele tocou o rosto de Marin, reconhecendo o rastro de uma lágrima. Sussurrou. – Você está bem?

A ruiva balançou a cabeça em negação:

- Você lembra da Amazona de Cavalo Menor? Lara?

- É claro que lembro. – O rapaz analisou suas feições e concluiu a causa de sua angústia. Soltou um longo suspiro – Sinto muito... Você quer falar sobre isso?

- Não tem o que dizer. – Marin deu de ombros e fugiu do olhar íntimo. Fitou a lua cheia, ela emergia atrás da montanha revelando a hora avançada. - Você não precisa auxiliar o ritual? Preservar o Santuário dos bêbados?

- Temos guerreiros suficientes por lá... – ele murmurou – e os principais sacerdotes são os verdadeiros responsáveis. São tão eficientes como suas anciãs.

- Entendi.

- Marin. – Aiolia acariciou o seu ombro, um pedido silencioso para que voltasse seus olhos para ele. - Você quer que eu vá?

- Você não quer participar do ritual? – Marin falou pausadamente, sem saber muito bem por que sua voz soara tão boba. Só depois que disse as palavras, percebeu que aquilo parecia um convite, para que fossem juntos. Antes que o pânico a tomasse, Aiolia respondeu como se não notasse essa possibilidade:

- Acho que eu prefiro ficar um pouco mais aqui. Com você.

- E com os herdeiros dourados... – ela sussurrou em um tom divertido, esperava quebrar a seriedade do momento, mas os olhos de Aiolia continuavam a ler sua alma.

Marin queria saber como o guerreiro se sentia após a resposta de Apolo, como seria a continuidade da celebração... Todas as palavras se perderam naquele olhar esmeralda. Desde que pararam de se ver todos os dias, ela se imaginava constantemente em sua presença, confidenciando suas descobertas e ouvindo-o contar suas experiências em Delfos. Mas não foram esses sentimentos que levava sua atenção até a boca do leonino. A vontade de beijá-lo viera muitas vezes antes e sempre lhe parecia absurdo ceder a esse impulso em meio a tantas notícias de morte. O respirar do guerreiro estava tão próximo do seu que a razão e angústia se dissipavam, restando apenas o desejo e, então... um barulho de sua barriga chamou a atenção de ambos. Era fome. Os dois riram:

- Você só comeu algumas uvas? – ele tomou o cacho em suas mãos. - Não quer que eu pegue outra coisa para você?

- Não, não. Só preciso terminar esse aqui...

Ela segurou o cacho de uvas e comeu mais uma, se afastando enquanto mastigava. Evitando contemplar as feições do amigo, apontou o Santuário reluzente:

- Estranho não haver um Santuário como esse para a deusa da Sabedoria.

- Acho que Atena nunca requisitou tanta atenção quanto Apolo. Apenas ganhou uma cidade em seu nome.

Marin não conseguiu formular uma resposta a ironia, escutou algo diferente e espiou as oliveiras ao redor. Os galhos farfalhavam ao vento e revelavam a presença de outra pessoa:

- Amazona de Águia. – Mayura falou secamente. - Vamos retornar, quero ver com Shaina está. Cavaleiro, Sisifos está te chamando.

Intimidado pela presença da líder de prata, Aiolia se retirou apressado e Marin comeu mais uma uva antes de encaixar a máscara. A mestra estudou seu rosto, estudou sua proteção prateada, era um olhar de recriminação?

Não havia nada que a proibisse de mostrar sua face para um guerreiro que já a conhecia. "Não desonrei meus votos" se tranquilizou, respirando fundo:

- Marin, o que você está esperando?

- Como assim?

Ela soltou um som impaciente e se afastou mata à dentro. Retornavam ao Santuário sem passar pelo banquete que ainda acontecia com os demais cavaleiros.

- Você quer morrer intocada por um homem? – perguntou, ferina.

- Mestra... – a palavra saiu como um sopro. Marin não esperava aquela pergunta. – Eu não... Por que você está me perguntando isso?

As duas amazonas seguiram caminhando calmamente pelo bosque, O silêncio de Mayura pesou em seus passos, conseguia ler sua irritação a cada respiração. Quando se afastaram o suficiente da montanha, disse:

- Vejo como Aiolia te observa, desde que chegou aos nossos cuidados, ele te olhava diferente.

- Eu o ajudei, é normal que ele seja ... grato.

A loira fez um som de deboche:

- Se você me pedisse para participar hoje dessa festa, eu te autorizaria. Artêmis te abençoaria... Você sabe disso, não é? Nesse ritmo, você vai quebrar seus votos em um impulso de paixão.

A pupila demorou para responder as insinuações. Independente do quanto desejava Aiolia, não conseguia se interessar pelos rituais nesse estado de guerra:

- Bem, amanhã vamos para casa, não precisa se preocupar com isso.

- Os planos mudaram, Marin. Precisamos que você fique aqui em Delfos.

A Amazona de Águia parou de andar, um pedido silencioso para que Mayura lhe contasse mais. A mais velha seguiu caminho, limitando-se a dizer:

- Amanhã conversamos.


Personagens:

Kardia - Cavaleiro de Escorpião em Lost Canvas

Degél – Cavaleiro de Aquário em Lost Canvas

El Cid - Cavaleiro de Capricórnio em Lost Canvas

Mayura – Amazona de Pavão em Santia Shô. – obs: acho que o pai da Mayura aqui nessa história deve ser um cavaleiro dourado, mas até agora não sei quem combinaria com ela, talvez o Cavaleiro de Capricórnio.

Manigold – Cavaleiro de Câncer em Lost Canvas.