O Presente de Apolo I

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Shaina

A tensão era palpável no acampamento. Os jovens guerreiros de Sisifos exibiam sorrisos nervosos observando as amazonas ao redor, como se elas fossem criaturas mitológicas. Talvez esperassem que todas usassem máscaras, ou que todas fossem indiferentes a presença deles. Talvez alguns daqueles jovens já cobiçavam a participação de alguma festa de estação. Shaina sorriu por trás da máscara. O elo tão almejado por Mayura realmente aconteceu, mas isso não garantiu a proximidade entre a Vila das Amazonas e o Santuário de Delfos. A forma como aqueles meninos observavam as guerreiras de Artêmis era uma prova disso. Bastou os conflitos reduzirem e naturalmente todos que se uniram para achar Atena voltavam-se cada vez mais para as necessidades de seu próprio território.

Shaina buscou algum rosto conhecido entre os adolescentes e concluiu que nenhum deles participou de uma batalha com ela. Era compreensível tanto estranhamento, muitos ali vieram de criações bem diferentes das que os cavaleiros de prata estavam habituados. Durante a guerra, a amazona ficou isolada em Atenas e pôde atestar que as mulheres da cidade não tinham voz alguma. Shaina aprendeu a segurar sua língua ferina, aos poucos seu orgulho foi desconstruído e graças ao seu rosto inocente conseguiu todas as informações necessárias para libertar o Cavaleiro de Touro.

Nenhum ateniense desconfiou de suas intenções e na primeira troca de olhares com Debas Aldebaran ele já demonstrou que reconhecia sua origem. O rapaz era um pouco mais velho que ela, mas tinha expressões castigadas pelo sofrimento de ter perdido o mestre. Sofrimento também por ter perdido a criança que era responsabilidade do Templo de Vênus.

Nenhum daqueles garotos do acampamento esboçava uma expressão parecida. Era óbvio que estavam acomodados com a paz prestes a acontecer e podiam se dar ao luxo de ficar observando as curvas das mulheres ao redor. Percebeu que o principal alvo de malícia era Shunrei. A garota exibia sorrisos por onde passava, inconsciente do quanto seu rosto era atraente. Adoraria ver a expressão de Dohko ao ver aquela cena, ou melhor, adoraria ver o que os garotos fariam ao descobrir que ela era filha do Cavaleiro de Libra.

Apesar de achar a cena patética, Shaina considerava louvável a atitude de Sisifos de aceitar qualquer um que se oferecesse a ajudar Atena para participar de seu grupo. Mesmo os que não tinham mais idade para serem transformados em exímios guerreiros. A amazona viu muitos inimigos desistirem da batalha para se unir ao seu batalhão. O rapaz, como Aldebaran, como Dohko, tinha um carisma discreto. Apesar de toda a seriedade de um defensor de Delfos, ele nunca se mostrava superior a ninguém. Liderava sim com sugestões enfáticas, porém escutava todos os questionamentos de forma respeitosa. Nunca o viu dar ordens humilhantes a seus pupilos e toda vez antes de uma grande guerra era o primeiro a ir até o líder inimigo e propor paz.

Talvez fosse o dom de família, talvez o presente de Apolo. Suas palavras transformavam as expressões dos jovens soldados e os despertavam para a verdade de toda aquela bagunça provocada pelos gregos contrários aos deuses. Ah, Artêmis era testemunha do quanto Shaina testou sua paciência, as luas que passaram juntos para encontrar Atena foram desafiadoras. Todos os dias precisavam fingir ser um casal e se adaptar a situações adversas e Sisifos nunca questionou sua estratégia ou intuição. Mesmo quando ela errava, o herdeiro de Delfos trazia o acontecimento para discussão com o intuito claro de aprendizado mútuo.

Definitivamente ele seria um bom mestre para Régulus, o garoto não obedecia a ordens muito bem, mas o desafio, ideias inspiradoras, eram o melhor jeito de deixá-lo concentrado em um treino. Sim, Sisifos tomou decisões idiotas sobre o garoto, mas tinha um pulso firme e paciência suficientes para domar o pequeno Leão:

- As crianças estão cansadas, sugeri que fossem cochilar sobre as árvores.

A voz de Shunrei a fez ignorar o acampamento. Se virou para a jovem, ela tinha uma expressão cansada, contudo seus olhos gentis continuavam exibindo um brilho carismático, similar ao de seu pai:

- Claro, você merece um descanso da viagem. – Shaina ironizou observando os pestinhas se organizando para o repouso.

- Ah, não é por isso, eles já estavam começando a fazer tudo errado.

- Eu sei, eu sei. – A amazona mais velha murmurou – E eles precisam guardar forças suficientes caso tudo dê errado e precisem fugir.

Shunrei sabia que ela estava brincando e ainda assim exibiu um sorriso nervoso em resposta. A garota não gostava de matar, apesar de ser excelente com o arco, ela preferia ignorar a arma e focar em suas habilidades de cura. Porém, se tivesse algum ataque iminente, sem dúvida Shunrei viraria uma assassina para proteger os jovens aprendizes. Apostava que até despertaria o cosmo dourado de sua linhagem para isso.

Shaina observou novamente as crianças presentes e colocou as mãos no quadril:

- E Régulus?

- Ele estava muito inquieto, pedi para que desse uma olhada nos cavalos agora pouco. Mas vai ser ótimo se você pedir para ele dormir.

Shaina riu com escárnio da sugestão:

- Acho difícil o garoto aquietar hoje, deve estar eufórico.

- June me contou que ele combateu ladrões e foi salvo por um dourado – Shunrei murmurou desconfiada – mas ele está mais mal-humorado do que eufórico.

A Amazona de Ofíuco respirou fundo, um tanto frustrada por não saber exatamente o que aconteceu depois que saiu da tenda de Marin. Talvez a ruiva já revelou a relação familiar dos dois?

"Há, até parece" pensou contendo a risada amarga. A líder da comitiva jamais faria algo assim tão repentino. Seu foco agora deveria ser levar o grupo a salvo até o local que Dohko pediu, qualquer outra coisa deveria esperar. Shaina percebeu que seu silêncio não satisfez Shunrei, sabia o quanto a garota era preocupada com tudo e todos ao redor, era uma "cuidadora" nata. Qualquer tensão no ambiente não passava despercebida pelo seu olhar:

- Se Régulus continuar assim, chame alguém para treiná-lo, talvez gastar energia o acalme. Ou melhor, você mesmo pode fazê-lo enquanto as crianças dormem. Você é uma das poucas aqui que tem a mesma determinação para enfrentá-lo.

- June disse que o cavaleiro que o ajudou foi o de Leão. O irmão de Sisifos?

Encarou a jovem amazona e respondeu um "Sim" cheio de desdém. Era o mesmo tom que usava para tirar as dúvidas das crianças nas aulas e fazê-las entender que já estava sem paciência. Tudo relacionado a Régulus só dizia respeito a Marin e Aiolia. E a líder das amazonas. E Sisifos e Aiolos. Tsc... Talvez fosse por esse excesso de drama que há anos nenhuma amazona escolhia um dourado para aquecer sua cama.

Normalmente Shunrei se comportava muito mais sábia do que as adolescentes de sua idade, mas June... June foi treinada para ser uma espiã, tinha um pensamento rápido, olhar analítico, compreendia as nuances de um mero reencontro de guerreiros. Pelo visto ela ligou os pontos da tensão que viu naquela tenda. Shaina só não sabia se eram os pontos certos. Seus comentários eram levados muito a sério pelas demais meninas, deveria alertá-la para evitar uma fofoca:

- O que mais June disse? – Shaina sussurrou evitando chamar a atenção dos guerreiros que passavam, antes que a adolescente respondesse, ela fez um sinal, interrompendo-a. Um barulho entre as árvores da floresta chamou a atenção das amazonas e Shaina foi até o cavalo que se aproximava. A criança que o montava exibia cabelos de fogo e duas marcas na testa. Era um lemuriano e tinha um rosto familiar:

- Alto lá, garoto – disse se aproximando do cavalo – Você é o discípulo de Áries? O que está fazendo aqui?

Ele acalmou o animal e, em um piscar de olhos, desceu e se colocou a sua frente. Exibia um sorriso maroto (e irritante):

- Olá, Shaina! Ninguém aqui é da comitiva do Norte, é? Estou procurando o Mu.

Deveria ter vergonha que ele sabia seu nome e ela não sabia o dele, certo? Bem, não tinha, era responsável por muitos nomes entre os guerreiros de prata:

- Você não deveria estar com ele, garoto?

- Não, Mu viajou sozinho. - Shaina olhou o pergaminho nas mãos da criança. O símbolo de Libra brilhava com os raios de Sol. - Estou com Dohko, estamos no Templo de Quíron. Vim procurar mais tropas para nos reunirmos lá.

Ir para o Templo não era uma sugestão. Aiolos e Shion poderiam ser o conselheiro de Atena, mas Dohko seria para sempre o principal estrategista da deusa. A mulher fez um gesto para que Kiki a seguisse, não era ela quem tomava as decisões, entretanto sabia qual seria a resposta de Marin. O acampamento ainda não estava totalmente montado e o Templo de Quíron era impenetrável para os inimigos:

- Águia, temos um mensageiro de Dohko aqui – disse afastando a cortina e sendo surpreendida pelo rápido movimento de Kiki. Em um piscar de olhos, o garoto já estava dentro da tenda, logo a frente à mesa da ruiva:

- Marin! Quanto tempo! Seyia está aqui também? E Régulus?

A Amazona de Águia riu, levantando os olhos do mapa que estudava:

- Ora, você ainda está vivo, Kiki? - Não parecia nem um pouco surpresa ou irritada com aquela aproximação abrupta. Ela estendeu a mão para que o pré-adolescente lhe entregasse o pergaminho. Em tom baixo, recriminou discretamente aquela entrada não usual. – Se você fizesse isso na frente de Mayura, teríamos um problema.

- Ou na frente de Mu. - Shaina murmurou, detestava toda aquela velocidade dos lemurianos. Se aproximou e ignorou a criança sorridente. Adiantou o assunto – Dohko está no Templo de Quíron e está sugerindo para todos irmos para lá. Mas não sei se é uma boa ideia nos movimentarmos agora com uma comitiva tão grande.

Marin respirou fundo enquanto lia o papiro:

- Você está preocupada com as rosas. - Marin falou e apoiou o rosto na mão. Sua voz soava mais cansada que o normal – Elas são uma vantagem, lá poderemos dormir mais tranquilas.

- Nós sim – Shaina deu de ombros e se aproximou cautelosa. A ruiva poderia não ligar para hierarquias e condutas de guerreiros, porém a amazona de Ofíuco não queria demonstrar qualquer desrespeito (como aquele que o moleque fizera) – E esses homens de Sisifos? A comitiva do Norte? Você acha que eles vão mesmo conseguir distinguir rosas normais das rosas de Albafica? Se um deles resolver se aventurar a noite…

Foi a vez de Marin dar de ombros:

- Damos um aviso, Leão e Sagitário também. Se eles forem displicentes o suficiente para não saber onde mijar, o problema não é nosso. - Quem não a conhecia até podia acreditar naquelas falas indiferentes, porém Shaina sabia que tinha mais a intenção de ensiná-los do que castigá-los. Marin se levantou e tocou carinhosamente o ombro de Kiki. Apontou o mapa. – A comitiva do Norte chegou e Sisifos deve priorizar esse caminho para trazê-los até aqui. Vai ser mais rápido se você for logo até eles, até Mu, e der o aviso, vamos levar os homens de Sisifos. Se ele discordar, peça para vir falar comigo, tudo bem?

A amazona mais nova fez uma careta observando o mapa e as marcações das rosas mortais de Albafica. A técnica dos Cavaleiros de Peixes era incrível, se não fossem esses jardins envenenados, restariam menos templos e vilas dedicadas aos deuses. Contudo ela própria temia o que poderia acontecer com as crianças perto desse local.

Notou que Kiki já não estava mais lá, se despediu sem nem se quer perguntar novamente sobre Seyia ou Régulus. Já havia partido para a continuação de sua missão. Marin começou a enrolar o mapa e Shaina a fitou, incerta se deveria cutucá-la sobre Aiolia. Fugia claramente de seu olhar enquanto guardava o mapa e retirava o tampo da mesa. A amazona mais jovem deu um passo à frente e a ajudou até que a peça foi colocada no chão e ela interrompeu o movimento. Segurou a madeira e estudou os olhos da amiga:

- Marin…

- Sei que você está pensando nas crianças. - A líder de prata disse, seu olhar não demonstrava nenhuma emoção. - Shunrei as instruiu bem sobre essa possibilidade. Nós também. Precisamos confiar que será o suficiente. Você pode avisar nossos guerreiros? Vou avisar os de Sisifos e partimos.

A ruiva tentou erguer o tampo para continuar a arrumação, mas Shaina o manteve firme no chão e perguntou suavemente:

- Marin. Você está bem?

Ela piscou, quebrando o feitiço de líder e demonstrando as inseguranças que Shaina já via em toda aquela pressa. A ruiva encarou o tampo por um tempo, estava entre elas como um escudo, mas de nada serviria para proteger a vulnerabilidade da amazona. Shaina não queria que partissem floresta adentro com o risco dela estar distraída, ou pior, com o risco de começar especulações ridículas entre as amazonas. Sentiu seu coração pesar ao vê-la balançando a cabeça em negação:

- Régulus falou de um sonho… Você sabia que ele está sonhando com leões?

Shaina riu quebrando a tensão:

- Ah, ele falou isso na frente do Aiolia?! - A pergunta era retórica, mas a Águia a respondeu mesmo assim, confirmando a suspeita com um movimento de cabeça. Shaina riu mais alto. - Foi por isso que ele foi atrás daquele leão?!

Ouviu um som e concluiu que Marin sorria atrás da máscara. Era sua risada suave, incrédula, perante uma situação que saía de seu controle. Lembrou-se do pânico da amiga quando viu o garoto ferido após a mordida do animal. Tudo relacionado a Régulus parecia seguir esse ritmo indomável, cheio de surpresas. Tudo, até sua concepção:

- Marin. O jeito como ele te olhou… Aiolia se lembra de vocês, não é?

- Temos que levar centenas de guerreiros para o templo mais mortal da Grécia e você realmente quer ficar falando sobre isso agora? - sussurrou. Podia ver que Marin lutava entre a vontade de contar toda a conversa e a de usar sua autoridade para ordená-la a sair. Respirou fundo e puxou o tampo, dessa vez, Shaina a deixou se afastar – Não interessa mais o que ele se lembra, essa história já morreu. Há anos. Eu só preciso agora cumprir minha obrigação de comunicá-lo. De novo.

Sua voz tentou ganhar um tom de deboche, mas falhou. Soara tão triste que Shaina temeu que ela choraria. Decidiu, então, encerrar a conversa:

- Você está certa. - Enquanto Aiolia não precisava de tempo para processar nada e só seguia suas emoções, Marin sempre reagia muito mal a surpresas e as suas necessidades emocionais. Duvidava que a amiga tivesse realmente esquecido o guerreiro dourado, mas por ora mentiria para evitar magoá-la. - Vou mandar June te ajudar aqui e já preparo nossos guerreiros para partirmos antes do anoitecer.

A amazona pegou o invólucro que continha o mapa e saiu casualmente. Apertou o couro do objeto e concentrou em suas unhas toda a frustração por não poder ajudar a amiga. Marin sempre teve paciência para fazê-la contar sobre o que estava sentindo, mas Shaina preferia ajudá-la de um jeito mais prático. E aproveitaria essa noite, que tinham um jardim envenenado como muro, para descobrir o que aconteceu com aquelas cartas que desapareceram.


Albafica: Cavaleiro de Peixes em Lost Canvas (um maravilhoso...)

Aldebaran: lembrando que tem 2 Aldebarans (no Lost Canvas é o mesmo nome que da saga tradicional), mas o citado aqui é o que todos conhecem e já apareceu anteriormente.

Obrigado a todos que leem e comentam 😊. Espero que estejam se cuidando nesse momento tão delicado que o mundo está passando.