O Presente de Apolo II
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Aiolia
O Cavaleiro de Leão fitou a comitiva do Norte e diminuiu o ritmo de seu cavalo. Ouviu Gallan colocar suas ordens em prática e preferiu manter o silêncio e a distância enquanto todos se organizavam para deixar a navegação. Desde que saiu da tenda de Marin não conseguiu encarar Sisifos. As dúvidas sobre seu passado com a amazona formavam um nó em sua garganta. Cenas, datas e viagens se misturavam com a possibilidade de Régulus ser seu parente. Seu filho.
O coração ardia a espera de uma explicação, mas o irmão passou todo o trajeto lhe contando sobre as novidades do Santuário de Delfos e da Ilha de Delos. O sagitariano não percebeu seu humor taciturno ou simplesmente não se importava? Determinado a evitar uma briga, Aiolia propôs que Sisifos esperasse com seus homens, seria melhor que evitassem conversar até que as líderes do Norte estivessem em um local seguro.
- Gallan disse que o trajeto que me indicaram estava interrompido. Preocupado por que mudamos os planos? - questionou Mu, o Cavaleiro de Áries o encarava com curiosidade.
- Não, Sisifos garantiu que estamos seguros por aqui e eu... – Ia falar que confiava em seu irmão, mas as palavras não saíram – Bem, vai dar certo.
Hilda e sua irmã Lyfia se aproximaram, deslumbradas com tudo que viam na costa, nem olhavam para a areia que sujava seus vestidos. Percebeu que as duas mulheres ainda estavam com roupas típicas do Norte e se perguntou até quando aguentariam o calor daquela floresta. A cena de uma frágil criança correndo na neve passou em sua mente. Reconheceu o cenário da memória fugaz, era Delfos, a menina, Lyfia. Então quando a comitiva veio anteriormente tudo era muito diferente, era inverno e toda a floresta tinha um tom muito diferente de agora.
Os guerreiros e serviçais que as acompanhavam já vestiam trajes condizentes e não pareciam preocupados que as duas desmaiariam de calor no caminho. Estavam ocupados demais carregando seus baús. Mu apontou para que deixassem alguns para que ele "carregasse" e Aiolia o acompanhou enquanto o lemuriano levitava os pertences da comitiva:
- Quando fizemos o acordo com o Norte, você estava por aqui? – perguntou sem lembrar exatamente como as negociações aconteceram. Gallan lhe contou sobre o conflito iminente ameaçando o resgate de Atena, lhe contou as datas e o resultado. Não havia detalhes pessoais em suas narrativas.
Mu pensou por um tempo e reduziu suas passadas antes de responder:
- Não, eu estava em Esparta, já havia boatos de que a cidade seria o próximo alvo dos atenienses. Foi Kamus quem intermediou as negociações com você, acredito que foi ele quem trouxe Hilda para te encontrar, com certeza ele estava presente. Talvez meu mestre também estivesse com vocês, havia muita pressão para termos mais guerreiros para defendermos o Oeste, sei que Shion me enviou ordens diretamente de Delfos, assim que tudo foi acordado.
Lyfia olhou para trás e sorriu quando seu olhar cruzou o de Aiolia. Ele sentiu o nó na garganta voltar. Quando o acordo de noivado foi firmado, ela era só um pouco mais velha que Régulus. Será que foi consultada sobre seu destino ou apenas recebeu a notícia do que os mais velhos decidiram? Aiolia nunca perguntou, Lyfia sempre ficava ansiosa quando conversavam sobre o acordo desfeito e tudo o que aconteceu antes dele perder a memória. Falava rápido demais e com uma expressão pesarosa que o deixava desconfortável. Temia que, agora que Aiolia estava saudável novamente, a garota propusesse a retomada do matrimônio. E o leonino não aceitaria.
A aproximação de um cosmo o fez levar sua atenção para a floresta. Mu sinalizou que reconhecia aquela energia. Em um piscar de olhos, um borrão vermelho e dourado cortou o ar e um pequeno lemuriano surgiu na frente do Cavaleiro de Áries. Usava um bracelete com o mesmo símbolo de Mu e Aiolia não precisou de apresentações para saber que era um reencontro entre mestre e discípulo. A criança lhes contou sobre a alteração do plano. O Templo de Quíron seria agora o novo ponto de encontro:
- Já informei a Amazona de Águia, ela levará os seus guerreiros de prata e os homens de Sagitário para lá. – disse e observou Aiolia com curiosidade. Depois de um bom tempo falando com seu mestre, só agora a criança o notou. – Puxa, acabei de deixar meu cavalo com seu irmão. Você é igualzinho a ele. Impressionante!
Aiolia sorriu e Mu apresentou a criança oficialmente como seu aprendiz. Era seu sobrinho e se chamava Kiki. Ele ajudou o Cavaleiro de Áries com os baús e os dois se atualizaram sobre os meses que passaram separados. O cosmo deles era muito similar, como comentavam que era o de Ilías e de Aiolia. Aiolos e Sififos. Será que Gallan notou isso quando conheceu Régulus? Em breve ele perguntaria.
Enquanto caminhavam pela floresta, o Cavaleiro de Leão se esforçou para juntar os pedaços de memória que surgiam com o que lhe contaram. A armadura de Leão pesou em suas costas, como se quisesse participar daquela angústia mental. Será que ela se lembrava de toda sua trajetória? Todos os herdeiros, batalhas... mortes? Depois de Poseidon, ela perdeu a vida também e, se não fosse a técnica de Mu e o sangue de Sisifos, teria ficado destruída para sempre.
Se o Cavaleiro de Leão se lembrasse dos detalhes daqueles dias, seria isso que ele lembraria...
Por muito tempo Aiolia rejeitou seu presente dourado. Buscava tarefas, treinos, reuniões, o que fosse necessário para não ficar em sua presença. A armadura não havia exaurido, mas tê-la em sua morada em Delfos torturava-o diariamente, não sentia seu cosmo ressoar e demorou para se quer tentar abrir a caixa dourada.
Quando Sisifos partiu em busca de Atena, soube que seria impossível postergar mais aquela aproximação. Na época Gallan auxiliava a administração do Santuário de Delfos e foi encarregado de ajudá-lo diretamente. Não demoraria para que ele desconfiasse que a armadura não passava de um enfeite em sua sala.
O Santuário de Delfos se encontrava em polvorosa com a partida de Sisifos. Os principais apoiadores do lugar sagrado questionavam o afastamento do irmão, como poderia estar tão ausente durante os rituais de Apolo? Por que Aiolia virou o principal encarregado do lugar? Por que uma mascarada de Artêmis o acompanhava nas reuniões com os líderes anciões?
Seu temperamento impulsivo foi testado a cada olhar desconfiado que recebia. As constantes subidas e decidas do local sagrado começaram a irritá-lo e passou a usar seu cosmo para não perder tempo nas escadarias. As noites de insônia lhe fizeram perceber que sua cama era pequena demais para a sua idade atual e ordenou que a trocassem por uma similar à que tinha em Atenas. Nenhuma mudança pareceu satisfazê-lo, sentia-se ansioso e irritadiço o tempo inteiro:
- Acho que você chegou atrasado para a festa, Cavaleiro de Leão. – A voz da amazona o surpreendeu. Aiolia estava no último degrau da arquibancada, Marin estava na área mais central do anfiteatro, reservada aos músicos. O loiro respirou fundo. Nem se quer conseguia ver o rosto daquela mulher e sua presença já lhe trazia um estado de paz. – Gallan disse que danificaram a arquibancada. Fogo?
- Sim, mas não será necessário trocar a pedra.
Ela afastou a capa que lhe protegia do frio e subiu as arquibancadas rapidamente. Ficou ao seu lado e observou as manchas escuras, perguntou suavemente:
- Feridos?
- Não, apagaram rápido.
Ela assentiu com a cabeça e sentou-se, encarando-o. O azul de seus olhos parecia brilhar mais em manhãs ensolaradas como aquela:
- Você dormiu hoje?
Aiolia sorriu, consciente que era impossível disfarçar sua exaustão:
- Essa noite nem se quer tentei... – ele se sentou no degrau logo abaixo de de Marin e levou as mãos ao rosto. – Agora que o festival terminou, conseguirei.
- Nesse momento, então? – a ruiva se inclinou em sua direção, divertindo-se com a surpresa por aquela sugestão – Por que você não vai agora?
- O Sol acabou de nascer, Marin, logo no início da tarde terei uma reunião com os anciões e...
A amazona escorregou o corpo e ficou no mesmo degrau que ele:
- Eu te acordo. – Tocou seu pulso carinhosamente – Você sabe como o descanso é importante para o corpo, para tomar decisões com mais clareza.
O Cavaleiro de Leão fechou os olhos, sem medo de demonstrar sua frustração para a amiga:
- Só de pensar na cama, pensar em deitar e não conseguir dormir de novo...
Marin ficou de pé e subiu alguns degraus:
- Vem comigo. – Percebendo que ele hesitava, a ruiva insistiu usando um tom mais carinhoso. – Aiolia, venha comigo...
O rapaz observou os arredores, não havia ninguém por ali, as atividades dos Templos estavam em recesso, o Santuário de Delfos estava fechado para forasteiros e todos os guerreiros estavam concentrados em suas limitações. Seguro de que não havia alguém lhe procurando para alguma emergência, decidiu segui-la pelo terreno montanhoso. Marin era muito ágil, subia o terreno inclinado sem pestanejar e, como sempre, não se gabou de fazer isso com muito mais maestria do que ele. Apenas o observava ocasionalmente, para ver se ele continuava a segui-la.
Quando as árvores pontiagudas começaram a ficar mais próximas e o som dos pássaros mais alto, a Amazona de Águia parou. Flores roxas e brancas estavam espalhadas pelo local e Marin apontou para uma área com a grama baixa. Ela tirou sua capa e a estendeu:
- Eu vim aqui ontem, é um bom lugar para sentir a energia dessas montanhas. – Marin tirou a máscara e se sentou, a tranquilidade de sua expressão trouxe mais calma para o leonino. – Você e seu irmão devem ter vários refúgios assim por aqui.
Aiolia sorriu e se sentou no espaço disponível da capa:
- Temos sim. Delfos é especial. Te levarei no meu lugar favorito antes que o frio tome conta de tudo.
- Talvez seu irmão volte antes do Inverno. - Marin supôs abraçando os joelhos.
- Espero que sim. – Ele fitou a máscara da amazona e tocou em seus detalhes, fascinado pelo efeito da prata, se perdeu observando o vai e vem da vegetação refletido no objeto.
Os olhos da máscara serviam de moldura para o movimento da copa das árvores, foi necessário uma lufada de vento mais forte para que percebesse o que estava fazendo. E que Marin o observava. Uma sensação estranha invadiu sua barriga, consciente que de alguma forma aquilo os deixava mais íntimos. Temendo os limites que ultrapassava, colocou a máscara no chão:
- Desculpa, eu não deveria tocar nas sua máscara assim.
Ela colocou a mão sobre a dele:
- Não tem problema – a expressão séria da amazona não condizia com aquela permissão. Ele não conseguiu identificar o que seus olhos lhe diziam, tinha algo ali, uma busca silenciosa... Um vento forte levou algumas mechas ao rosto de Marin e ela se virou.
Aiolia continuou a observá-la, o cabelo avermelhado respondia ao vento rebelde e deixava exposta a curva do pescoço, parte do ombro... a cada novo reencontro achava Marin mais e mais bonita. Quando estavam na Vila das Amazonas evitava ao máximo fitar seu corpo, não queria desrespeitar Artêmis e suas guerreiras. Especialmente depois do que aconteceu quando saíram de Atenas, quando o veneno e a febre fizeram-no beijá-la.
Naquele momento em Delfos admitiu para si mesmo que a beleza de Marin o atraía sim, não era apenas admiração pelos seus traços exóticos. O jeito de se mover, os gestos, a voz, tudo em sua presença o seduzia. Esperou por um tempo que ela se virasse novamente, o encarasse e percebesse que ele a desejava. Não tinha certeza que aquilo era recíproco, obviamente Marin se importava com ele, mas a forma como mantinha o corpo encolhido agora, o silêncio que ela escolheu... O medo súbito de ser rejeitado o fez soltar a máscara e deitar, deixando o farfalhar das árvores desmanchar o momento que não retornaria mais. Pelo menos não naquele dia. Aos poucos foi sentindo os ombros relaxarem e os olhos ficando cada vez mais pesados:
- Águia, você não está com frio sem sua capa? – Murmurou.
- Não. O vento está bom. – Ela o fitou de relance, a expressão serena muito diferente de outrora. – Leão... Falei sério, eu te acordo antes da reunião começar.
- E se as formigas subirem em cima de mim? – o loiro perguntou, já de olhos fechados.
Ela riu e isso o relaxou mais ainda:
- Eu tiro. Formigas, abelhas, besouros...
- E seu treino? – perguntou baixinho e escutou sua voz se misturar com a do som dos pássaros.
- Hoje isso é mais importante, Aiolia.
Praticamente dormindo, ele sorriu:
- Que bom que você está aqui, Marin.
Obrigado a todos que leem e comentam 😊. Espero que a passagem de tempo não tenha ficado confusa dessa vez.
