XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Aiolia
A porta se abriu em um estrondo e a rajada de vento frio derrubou algumas peças sobre o mapa da guerra. Antes que Shion colocasse as peças em pé, mais uma lufada de ar percorreu o salão e afastou as peças para longe, bagunçando completamente as posições do Oeste da Grécia:
- Bem, espero que isso não seja um prenúncio... – O Cavaleiro de Áries disse, segurando as peças para não se afastarem mais e desordenar a parte central do mapa.
Aiolia olhou para fora do recinto, aguardava nuvens de tempestade e encontrou apenas o céu sendo dominado pelas estrelas. Nem havia percebido que a tarde se esvaiu em especulações:
- Acho que é apenas um aviso de que o Inverno será rigoroso. – ele murmurou enquanto Gallan fechava a porta.
Marin e Mu haviam se aproximado da mesa e ajudaram Shion a colocar as peças no local original. O cenário não mudou muito nas últimas semanas. Desde que o Outono começou e Sisifos foi em busca de Atena, nada impactante havia acontecido. Alguns batalhões inimigos recuaram e hoje Shion chegou com a notícia que alguns deles pareciam estar a caminho de uma vila montanhosa próxima a Delfos. Aiolia observou os rios que circundavam a pequena cidade e refletiu que seria muito difícil que fosse invadida por guerreiros sem cosmo. Viu Marin colocar uma última peça inimiga e retomou a conversa interrompida pelo vento:
- O Oráculo nos disse mais de uma vez que esse lugar tem energia de discórdia. Os moradores frequentam Delfos nas festividades, acredito que são fiéis. É uma vila tranquila. Talvez tenha algo lá que Éris precisa? Acho difícil que os atenienses queiram dominá-los pelo terreno ou pelos rios, não são terras muito férteis.
Marin levantou o rosto para ele, a máscara refletia as lamparinas do salão circular:
- Algo ou alguém... Já faz algumas luas que não há relatos de cavaleiros com um cosmo associado a Deusa da Discórdia.
O herdeiro de Leão fitou um dos anciões presentes, ele tinha em mãos o que os dirigentes dessa vila conversaram com as pitonisas. Tinha também o que outros povos ou pessoas perguntaram sobre o lugar. Todas as interações com os oráculos eram transcritas por algum escrevente. O idoso fez um muxoxo e respondeu ao pedido silencioso de Aiolia:
- No último festival, um dos líderes questionou o que faltava para sua esposa ficar grávida. Outros camponeses fizeram a mesma pergunta. E a resposta das pitonisas foi similar.
- "A inocência não nasce na terra da Discórdia". – um outro ancião, mais idoso que o anterior, falou em tom solene. – Eu lembro disso, seguimos o protocolo de cruzar as informações de todos que frequentaram o festival. Nada concreto apareceu.
- Há algum relatório de quem vocês enviaram para a vila? O espião não achou nada suspeitou? – Marin questionou, seu tom altivo era bem vindo entre os Cavaleiros Dourados e ... bem, assustava os anciões e Gallan. Os dois homens encararam-na desconfortáveis e depois olharam para Aiolia, como se esperassem um interferência. – Vocês enviam informantes para investigar casos assim, não é? Toda amazona treinada para ser espiã sabe dessa rede de espionagem.
O trio de Delfos não disfarçou a surpresa. E irritação. Aiolia sabia que detestavam ter que compartilhar seus segredos, especialmente com as indomáveis amazonas:
- E então? – perguntou O Cavaleiro de Áries. Shion não percebeu a tensão criada na sala, esperava a continuidade da conversa com a mesma expressão indiferente de outrora. Os lemurianos não viam sentido em guardar segredos entre os aliados de guerra, provavelmente o ariano não entendeu que havia um desafio ali com aquele silêncio. Queriam que Aiolia colocasse Marin em seu lugar de visitante:
- Vocês tem mais alguma informação relevante sobre essa fala do oráculo? – Aiolia questionou, impaciente.
- Não, senhor – um dos anciões respondeu, irritadiço. – Vamos precisar rever o nosso histórico com os demais, acredito que amanhã teremos uma resposta.
Marin cruzou os braços e o leonino temeu que ela insistisse em saber detalhes mais aprofundados, rapidamente ele disse:
- Muito bem, vocês podem ir.
O ideal seria mesmo que os detalhes fossem compartilhados nesse momento, contudo confiou que eles queriam rever se havia algo concreto a ser falado. Olhou para o Cavaleiro de Ouro mais experiente do local e propôs que encerrassem a reunião por hoje. Antes que Shion pudesse responder, o outro guerreiro dourado presente se aproximou. Shaka era o mais novo Cavaleiro de Virgem, seu mestre havia morrido recentemente e ele já assumiu a armadura e participava ativamente da guerra com ela. Era jovem, tinha a mesma idade de Aiolia, mas o leonino se sentia intimidado em sua presença. Talvez pelo guerreiro manter sempre os olhos fechados:
- Gostaria de informações mais detalhadas sobre a história da vila, se vocês compartilharem esses detalhes comigo, poderei contribuir mais.
Diferente do que o Cavaleiro de Leão esperava, o senhor que carregava os principais escritos deu um sorriso sereno:
- Claro, Cavaleiro de Virgem, escreveremos esse histórico e te entregamos assim que possível.
Então quando Shaka, um forasteiro, faz um pedido, o ancião responde de bom grado? Tinha impressão que nunca havia visto aquele homem sorrir. Aiolia era o defensor de Apolo e era tratado ainda como uma criança pelos anciões, todos seus pedidos ganhavam expressões carrancudas. Engoliu a sensação de rejeição e decidiu encerrar a reunião de vez. Desde que chegaram, no inicio da tarde, estavam confinados naquela sala:
- Bem, vocês devem estar exaustos da viagem. Precisam de mais alguma coisa para a noite? – fitou os três guerreiros de cosmo dourado. - Estão confortáveis em seus aposentos? Acredito que um jantar será servido para vocês, certo, Gallan?
O administrador assentiu e contou mais detalhes que interessavam os visitantes. Aiolia deixou que ele acompanhasse o trio para fora do recinto e olhou Marin. A amazona o estudava como se ele fosse o mapa da guerra, sua postura corporal estava tão tensa quanto a do amigo. Os servos haviam saído, e restavam apenas os dois ali, ainda assim, ela escolheu sussurrar:
- Você sabe que Shaka era sacerdote antes da guerra começar, certo?
- Hummm. Por que você está lembrando isso?
- Shaka estudou escrituras sagradas, entende os rituais... Enfim, os anciões de Delfos o veem como um igual.
- Eles o respeitam como um igual e não respeitam quem herdou os presentes de Apolo. - Murmurou amargamente e parou de encará-la - Isso deveria fazer eu me sentir como?
Silêncio. Marin não conhecia o pior lado dele, mesmo exausto, nunca a afastou ou foi rude. Até agora. Sabia que a última frase teve um tom que lembrou mais um rugido do que uma pergunta. A raiva por toda as semanas de tarefas infindáveis e a caixa que... Argh, a frustração chegou ao seu limite com a possibilidade de uma batalha tão próxima do Santuário de Delfos. Ouviu Marin juntar suas coisas e se afastar:
- Vou me recolher também.
- Marin...
- Boa noite, Aiolia.
- Marin, espera. – Ele deu alguns passos e ficou na sua frente - Eu... Isso não é sobre Shaka.
- Eu sei. – ela afirmou.
- Estou cansado como os anciões te trataram durante toda essa reunião. Eles precisam aceitar que ...
- Não é sobre isso também, Leão. – ela murmurou, mais para si mesma do que para Aiolia, então deu um passo em sua direção. – Eles estão apenas seguindo as regras, é o esperado de um Santuário que se manteve intocável até agora, Cavaleiro. Eu não me importo.
- Mas eu me importo, você é minha convidada e...
- Não é por isso que você está assim. – Marin insistiu em um tom suave. Ele quis protestar, ela ignorou. – É sobre sua armadura.
Marin inclinou o rosto e subitamente o mistério da máscara o incomodou:
- Você conseguiu abrir a caixa? – sussurrou.
O herdeiro de Leão arrumou sua postura, deixando a coluna ereta. Pensou em mentir e desconversar, entretanto os olhos azuis de Marin, como sempre, induziam-no a dizer a verdade. Antes que pudesse admitir, um jovem entrou no recinto:
- Senhor, boa noite. Gallan pediu para verificar, o senhor quer jantar agora mesmo? Prefere que deixemos para depois?
Ele respirou fundo:
- Sim, irei agora, mas não precisam esperar eu terminar para se recolher – olhou para Marin - Coloque utensílios para mais um, por favor.
Enquanto o garoto se retirava, colocou a mão em seu ombro e propôs:
- Vamos jantar?
- Foi um dia longo, Aiolia. - A ruiva respondeu, relutante – Você não prefere ficar sozinho?
- Prefiro jantar com você – ele confessou tentando deixar o tom o mais casual possível, como seria com qualquer outro guerreiro. Se afastou e apagou uma das lamparinas acesas sobre a mesa. – Vamos?
A amazona o acompanhou até seus aposentos a poucos metros do salão que estavam. A área era repleta de pequenas moradias de quem trabalhava no Santuário de Delfos. As fachadas similares tornavam impossível distinguir os donos de cada espaço. O diferencial encontrava-se no inferior. Marin notou isso e ficou surpresa com a simplicidade dos móveis. Estava comentando sobre quando viu a caixa dourada na sala, percebeu que ela ficou impressionada, algo em sua respiração mudou e não conseguia mais completar o que falava. Talvez quisesse comentar sobre a caixa, mas decidiu, por fim, ignorá-la, como ele fez solenemente, e o acompanhou até o jantar servido na pequena mesa de centro.
Não havia nenhum servo à vista, normalmente os jovens colaboradores de sua morada respeitavam seus pedidos de horário. Achava importante que eles não ficassem o tempo inteiro à sua disposição, mereciam descansar tanto quanto ele. Viu Marin tirando a máscara e limpando o rosto na bacia presente na sala. Não havia pensado nisso antes, mas dispensá-los facilitou também para que a amiga comesse em sua companhia sem preocupação.
A amazona sentou logo a sua frente e passou a comer timidamente. Conforme foram conversando ela foi ficando cada vez mais à vontade. Para sua surpresa, percebeu que até mesmo a risada da amiga parecia diferente agora, o calor de seu sorriso o estimulava a trazer mais assuntos que a alegravam. Conversaram sobre as diferenças de alimentos nas regiões da Grécia e o que sempre tiveram curiosidade para comer e ainda não conheciam. Ela lhe contou que se interessava mais sobre o segredo das plantas e ervas do que outras seguidoras de Artêmis, mas usava isso apenas para curar ou ajudar nas escolhas de fertilidade do ritual de estação. E foi, então, que o sorriso sumiu e Marin não o deixou colocar mais vinho em sua taça:
- Já bebi duas taças, é o suficiente. Estou satisfeita. – A amazona fugiu de seu olhar e fitou o ponto dourado no oposto da sala. – Ela é linda...
Aiolia bebeu o vinho tinto que restava em sua taça:
- Você diz a caixa, sim a caixa é linda.
- Ela faz parte. Você, o envólucro, a armadura. Seu cosmo. Tudo faz parte de uma energia só, a energia de Leão – Ela suspirou e apoiou o rosto nas mãos, sorrindo – Você não sente?
Aiolia olhou para aquele gesto tão delicado de sua amiga, as bochechas avermelhadas pelo calor do vinho, seus lábios... O olhar perdido no dourado da armadura. Observa-la suavizou sua desconexão com sua herança de Leão:
- Não – o loiro colocou mais um pouco de vinho para si - Eu não sinto nada olhando para ela.
Enquanto ele bebia, Marin levantou e ficou ao seu lado. O leonino percebeu algo novo naquela proximidade, algo que fez seu coração acelerar. Talvez ela estivesse mais perto do que normalmente ficava, ou simplesmente era a bebida deixando-o mais sensível para a atração que sentia. Nunca antes o toque em seu braço provocou o arrepio que sentiu agora:
- Por que você não conversa com Mu amanhã? Ou Shion. Eles são experientes em armaduras. Foi Mu quem ajudou a armadura de Touro voltar a vida, talvez te ajude a..
- Superar? – ele murmurou, satisfeito em perceber que a tristeza já era muito menor agora do que quando recebeu o envólucro dourado pela primeira vez. – Eu sei que preciso aceitar que tudo mudou. Aceitar que ela está aqui, disponível. E Ilías não. É isso que falta e não acho que é "só" isso... pode ter sido rápido para Shaka superar o luto de seu mestre ou Aldebaran aceitar o genocídio terrível que ele presenciou em Creta. O luto está enraizado em mim, saindo lentamente. Será que tem algo de errado comigo?
A ruiva tocou seu rosto e se inclinou para ele. Estava tão perto que podia ver as nuances de azul em sua íris:
- Não, meu amigo, cada um lida com a morte de uma forma diferente. – Ela se aproximou mais e beijou sua bochecha, o carinho era um gesto inocente de acolhimento e Aiolia refletiu como seu coração era idiota por acelerar mais. Mesmo quando ela se afastou de seu rosto, era difícil ignorar o seu cheiro, especialmente com o rastro de cachos ruivos roçando em seus ombros. – Sinto muito se parece que desmereço a sua dor, só queria apaziguar a sua dor.
- Você já faz isso, Marin – ele sussurrou e segurou suas duas mãos – Você sempre... Independente das minhas tarefas ou títulos, parece que você me vê, de verdade. E sinto que eu vejo você, quem você é e... – respirou fundo e sorriu, o que provocou um sorriso nela – Eu lembro que era assim, quando eu estava perto dessa armadura quando criança. Natural, acolhedor, intenso. O que sinto com você é... difícil explicar.
Marin arrumou o corpo, como se as falas dele percorreram sua pele. Podia ver que ela respirava intensamente, como ele. A amazona estava ciente da profundidade daquela conversa, ainda assim, não se afastou e isso encorajou Aiolia a continuar:
- Não quero te assustar, é só que às vezes é muito difícil não falar o quanto eu gosto de você. É uma sensação única e que parece ter uma voz própria.
- Eu entendi. –Ela sussurrou em uma expressão suave e fitou seus lábios, se inclinando vagarosamente em sua direção. – Você não me assusta. Esse sentimento sim, me assusta um pouco e...
Os dois sorriram envergonhados, estavam tão próximos que não havia mais nada a ser dito. Aiolia a beijou. A intensidade do mero toque de lábios confirmou que a conexão que tinham era muito maior do que sentiu com outras mulheres. Os beijos foram divertidos e com uma grande atração física, mas nada se comparava com esse. Sabia que nunca havia experienciado o amor antes e que era isso que o motivava agora a se aproximar mais e mais de Marin. Era impossível se afastar, tocou seu rosto e a manteve próxima, descobrindo o ritmo de seus lábios e deixando que ela escolhesse a intensidade do beijo.
Marin segurou pela nuca, tocando seu pescoço, ombro, peitoral, apertando-o entre murmúrios de prazer que ficaram mais audíveis no momento que ele colocou uma das mãos em sua cintura. Há quanto tempo ele sonhava em fazer isso?
Sons externos chamaram sua atenção, ele conhecia a rotina de sua casa e soube que alguém estava prestes a entrar em sua morada. Antes que pudesse se afastar o suficiente, ouviu uma porta abrindo. Marin percebeu aquele ranger e se afastou um pouco, mas nem tentou se levantar, sabia que seria inútil. Alguém entrou na sala e com certeza já os vira. O administrador de Delfos encarou Aiolia surpreso:
- Gallan – o herdeiro de Leão disse, em uma voz tempestuosa.
Obrigada a todos que estão comentando =]. Acho engraçado que no outro fanfic Marin & Aiolia nunca foram pegos no flagra (como?!) por ninguém e não é o caso desse fanfic aqui.
Obs: Vi uns errrinhos depois que postei e revisei dia 24.01
