DEAN & FILHO

SUPERNATURAL ALTERNATIVE UNIVERSE

CAPÍTULO 2


CINCO ANOS DEPOIS

.

- O que pode ser mais terrível que um pai se ver forçado a matar o próprio filho? É abominável. Pai algum deveria ter que passar por isso.

'E algo assim acontecer com quem já perdeu tanto só prova que não existe justiça neste mundo. Chuck, essa é mais uma que você me deve. Mais uma vez você pisou feio na bola comigo.'

Dean olha com resignação para o único cômodo iluminado da típica casa de subúrbio à sua frente e respira fundo buscando forças para fazer o que precisava ser feito.

- Vamos lá, Dean. Coragem! Você pode esperar 1000 anos que isso não vai tornar a tarefa mais fácil. Esta não é a primeira e, provavelmente, também não vai ser a última vez que você suja as suas mãos. Conforme-se. A sua vida é assim - sempre foi - quer você goste ou não. Você faz o que é necessário. Não o que gostaria de fazer.

Aquele era um bairro tranquilo e próspero de uma cidade perfeita para se morar ou, ao menos, era isso que os moradores dali acreditavam. Gente que tocava as próprias vidas na doce ilusão de que monstros não existiam ou que, se existissem, estariam distantes. Tão distantes que é como se não existissem.

Não poderiam estar mais enganados. As mortes recentes na cidade eram um aviso de que essa ilusão - e as certezas que ela criava - poderiam ruir a qualquer momento. E aquelas pessoas não estavam preparadas para encarar a verdade sombria do mundo. Cabia a ele, Dean, sujar as mãos para mantê-las naquela doce ilusão.

Dean estacionara o Impala bem em frente à casa, mas do lado oposto da rua. Acabara de chegar à cidade, mas já tinha todas as informações que precisava. Era entrar, fazer o que tinham combinado e deixar a cidade para nunca mais voltar.

Ser um caçador demanda preparo físico. Mas, condicionamento mental é ainda mais essencial. Não é qualquer um que tem estômago para tornar-se caçador. São poucos os que entram no jogo e sobrevivem ao primeiro ano. Muitos acabam mortos. A maioria perde a sanidade.

O segredo para não enlouquecer é não tornar a coisa pessoal. Se um homem é transformado num monstro, ele passa a ser visto e tratado como um monstro. Algo apartado da raça humana. Algo a ser exterminado sem culpa. Você mata e toca sua vida como se nada tivesse acontecido. Como se fosse um trabalho como outro qualquer. Porque é exatamente isso o que é. Um trabalho. Um trabalho duro, sujo, não remunerado e nem um pouco gratificante. Mas, que precisa ser feito.

Precisa ser feito e alguém precisa fazer. Infelizmente, esse alguém era ele próprio. Isso ficou definido lá atrás. Não foi sua escolha. Foi jogado sobre seus ombros quando ainda era criança. Dizem que as pessoas se acostumam com tudo. É verdade. Já não questionava as razões ou amaldiçoava seu destino. Fazia. Simplesmente fazia. Fazia o que era preciso porque era preciso. Era chegar, executar o serviço e pegar a estrada.

E seguir em frente sem nunca olhar para trás.

É assim na teoria: simples. Na prática, é bem mais complicado. Anos de experiência não tornam as coisas mais fáceis. A experiência apenas lhe ensinou que a linha que separa homens de monstros é fluida. Que o mundo não é preto & branco. Que as decisões nunca serão fáceis.

Na casa em frente morava um monstro. Alguém que antes era uma pessoa ou assim parecia. Até que algo mudou o que ele era sem um motivo aparente. O transformado não era um homem feito. Ainda era um adolescente. E não era um completo desconhecido. Sabia quem ele era. Sabia de quem era filho. Sentia-se em dívida com aquele garoto. Não convivera com ele, mas o conhecia de antes, de muitos anos atrás, de quando ele ainda era apenas um menino inocente e feliz.

.

- Ele está ...

- Está. Está morto. Sinto muito. Mesmo. Gostaria de poder dizer que ele não sofreu, mas .. ele atacou tão logo me viu .. veio enfurecido para cima de mim .. e eu .. bom .. eu me defendi. Eu reagi .. e, então, aconteceu. Não foi bonito.

- Dean, está tudo bem. Sério. Não precisa se justificar. Por favor, NÃO se justifique. Não diga nada. Por tudo que é mais sagrado, não me conte nenhum detalhe. Nem hoje, nem NUNCA. Ele está morto. Isso é tudo que eu preciso saber.

- Espero que um dia você consiga me perdoar.

- Não há o que perdoar. Eu não estou culpando você. Nem poderia. Não assuma essa culpa. Ela não é sua. Se existe culpa, se alguém tem que carregar esse fardo, esse alguém sou eu. Eu chamei você. Eu pedi que o matasse. IMPLOREI para que o fizesse. Eu fui covarde. Ele era minha responsabilidade. Eu é quem deveria ter feito. Era o meu filho. Era a minha esposa. Mas .. eu não consegui. Sabe que tentei. Acho que mesmo que eu tentasse mil vezes, eu falharia em todas. Não conseguiria ir até o fim. Eu jamais poderia.

- Você não foi covarde, acredite! Você fez o mais difícil. Encarou o problema de frente. Pensou nas vidas que seriam perdidas. Nas outras tantas que seriam destruídas. Você fez o que era certo. Por mais que doesse. Por mais que o amasse.

- Acredita realmente que fiz o que era certo? Que não havia outra maneira?

- Se existe uma cura, eu não conheço. E agora é tarde. Se quiser entrar para .. se despedir .. ou pegar algum objeto que seja importante para você .. esse é o momento. Queria poder dar a você todo o tempo que julgasse necessário, mas não podemos correr o risco. Não podemos ser vistos aqui juntos. A explosão tem que parecer acidental. O fogo vai destruir o sangue e os sinais de luta.

- E também o corpo.

- E também o corpo. Sinto muito. É necessário.

- Isso .. é gasolina?

- Para queimar o corpo e para garantir que o fogo se espalhe rápido. É comum uma explosão de gás resultar em incêndio. Por isso perguntei se quer pegar algum objeto pessoal. Sua casa, seu passado .. não vai sobrar nada.

- Melhor assim. Não quero nada que me lembre de tudo o que eu perdi. Quanto ao meu filho ... Prefiro guardar na memória a imagem do meu menino de como ele era até um mês atrás.

- Acho que é a decisão correta. É melhor você ir indo. Certifique-se que o vejam longe daqui no momento da explosão. É bom que tenha um álibi. Vou dar a você exatos 30 min.

- Depois do enterro e dos trâmites legais, eu deixo a cidade. Não haverá mais nada que me prenda aqui.

- Deixe comigo o celular que usou para me chamar e que está registrado no seu nome. Ele não pode ser periciado. Diga que deixou em casa carregando. Garantirei que seja destruído pelo fogo. O meu não é registrado. Nenhum dos meus é.

- Meu filho, o que restar dele, será enterrado junto da mãe. Creio que é isso que ela gostaria, apesar de tudo. Ela amava muito o nosso filho. O nosso garoto. Era assim que ela se referia a ele nas cartas que me mandava. Não creio que esse sentimento tenha se perdido num momento de .. loucura .. do .. nosso .. .. garoto.

- Chore! Chore à vontade. Não tenha vergonha. Eu chorei quando perdi meu pai, quando perdi a minha mãe pela segunda vez e quando perdi o Sam. Meu consolo é que eu não tenho mais ninguém para perder.

- Ninguém?

- Absolutamente ninguém.

Mentira! Havia o garoto que deixara em Topeka e a lembrança do filho fez o coração de Dean se apertar. Consolou-se na esperança de que se nunca o procurasse nada de mal aconteceria com ele. O sobrenatural nunca entraria na vida do seu filho.

Será mesmo?

Uma vez tocada pelo sobrenatural, a pessoa fica marcada para sempre. Você pensa que acabou, mas está se iludindo. Não acaba. Dura só o bastante para você começar a acreditar que finalmente está livre. Quando você passa a acreditar que superou a tragédia e que, finalmente, sua vida voltou aos trilhos, tudo volta a desmoronar.

Cole Trenton tinha 13 anos quando viu Dean Winchester matar seu pai na casa onde morava com os pais e o irmão. Cole pertencia a uma família de militares e o desejo de vingança foi um estímulo a mais para que ele seguisse os passos do pai e se tornasse fuzileiro naval.

Um militar cumpre ordens e fuzileiros podem ser mandados para longe de casa por um longo tempo. Servir no Congo, no Sudão e no Iraque - vendo de perto os horrores da guerra - fortaleceu Cole física e psicologicamente e o fez acreditar que finalmente estava pronto para enfrentar o assassino de seu pai.

De volta aos Estados Unidos, os contatos de Cole na comunidade de inteligência americana lhe permitiram rastrear Dean Winchester. Finalmente confrontaria o maldito assassino que destruíra sua família. Cole podia ter atirado de uma distância segura quando Dean estivesse distraído. Seria fácil e definitivo. Mas, seria uma opção covarde e não lhe traria satisfação. Não se tratava apenas de desejo de justiça ou vingança. Precisava entender. Precisava ficar cara a cara com o assassino de seu pai e questionar seus motivos, se é que existiam. Precisava pôr para fora tudo o que ficara entalado em sua garganta aqueles anos todos. O mataria, mas antes o assassino precisava saber quem o mataria e porquê.

Cole confrontou Dean pouco depois deste voltar à vida transformado em demônio e descobriu da pior maneira que não havia treinado o bastante. Foi uma derrota acachapante. Cole foi espancado e humilhado. Sua sorte foi Deanmon ter preferido torturá-lo psicologicamente esfregando na sua cara o quão impotente e patético ele era.

Ao se encontrarem pela segunda vez, o lado humano de Dean estava novamente no controle. Com a nova derrota, veio a explicação sobre a morte do pai que Cole tanto buscara. Seu pai tornara-se um monstro. Fizera vítimas e faria outras se não tivesse sido parado. Se Dean não tivesse agido, ele próprio, o irmão e a mãe poderiam ter se tornado as próximas vítimas. No fim, a responsabilidade com a família falou mais alto que seu desejo de vingança. Cole desistiu de sua cruzada e voltou para casa.

Quando tudo parecia ter voltado ao normal, Cole descobriu que Kit Verson, seu melhor amigo, voltara do Iraque infectado por um verme sobrenatural. E que os Winchester estavam na cola dele. Kit acabou morto, mas não foi um Winchester que o matou. Foi a própria esposa de Kit em legítima defesa e para salvar a vida de Sam.

Infectado ele próprio, Cole pediu a Dean que o matasse antes que sucumbisse ao verme e pusesse outras pessoas em risco. Antes que pusesse sua família em risco. Cole acreditava em Proteger & Servir. Dedicara sua vida à proteção de sua família e da sociedade. Estava pronto para morrer por eles. Sempre estivera. Preferia morrer a se transformar em um monstro assassino. Felizmente, sua determinação se mostrou maior que a influência do verme. Com a ajuda de Dean, Cole expulsou a criatura do seu corpo. Cole fora salvo e Dean quitara sua dívida com ele.

Seguiram-se anos de paz e de genuína e merecida felicidade. Mas, não durou para sempre.

O mal que dominou o pai de Cole, a necessidade de devorar fígados humanos, manifestou-se inesperadamente em seu filho adolescente. O rapaz matou a namorada, depois o pai da garota e, descontrolado, investiu contra a própria mãe, causando sua morte. Cole teve o filho na mira do seu rifle, mas não foi capaz de atirar. Sua hesitação quase custou-lhe a vida. E, nos anos seguintes, Cole muitas vezes se perguntou se não estaria melhor se tivesse morrido naquele dia.

Sem alternativa, Cole chamou Dean Winchester para fazer o que ele próprio sabia não ser capaz. Matar o filho que tanto amava.

.

Dean dirigiu a noite toda e, no início da tarde do dia seguinte, ele estacionou o carro em frente a uma outra casa típica de subúrbio, essa na cidade de Topeka, Kansas.

Duas horas depois, ele vê um carro entrando na garagem anexa à casa. E vê quando um garotinho de cabelos de um tom bem claro de louro sai correndo da casa e espera, com visível ansiedade, o homem sair do carro para dar-lhe um abraço apertado.

Um pai e seu filho. Felizes. Vivendo vidas normais. Era como toda criança merecia viver. Seu filho estava bem. Estava seguro. Dean suspira aliviado. Tinha tomado a decisão correta.

Ver o sorriso do filho, mesmo que por tão pouco tempo e à distância, faz o coração de Dean Winchester se aquietar e ele pode enfim afastar da mente a lembrança da expressão enlouquecida do adolescente que matara na véspera.

Dean esboça um sorriso triste, dá partida no carro e segue em frente. Topeka era próxima de Lawrence e Dean sentiu a necessidade de estar mais uma vez perto de Sam. Mesmo que fosse do pouco que restou dele neste plano da existência.

.

Um caçador é forjado na tragédia. Batizado com o sangue de um ente querido. Sem uma família para a qual retornar, Cole abraçou a vida para a qual foi empurrado. Ele e Dean formaram uma parceria que durou cinco anos.

Cinco anos não chega a ser muito tempo. Mas, a vida de um caçador não costuma ser longa.

Pode-se dizer que Dean era uma exceção à regra. Mas, não. Dean - assim como Sam - conheceu a morte ainda muito jovem. Ele só deu a sorte - ou teve o azar - de morrer e não permanecer morto. Morreu e ressuscitou. Mais de uma vez. Foi ao Inferno e voltou. Morte em pessoa o repreendeu por quebrar a ordem natural. E, no fim, foi ele, Dean, quem ceifou a Morte.

Já Cole morreu e continuou morto. Dean deu a ele um enterro de caçador. E seguiu em frente.

.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO: FOREVER YOUNG


ESCLARECIMENTOS:

1. Cole Trenton é personagem recorrente da temporada 10. O personagem é interpretado pelo ator Travis Aaron Wade.

2. A esposa e o filho de Cole aparecem no episódio 10x1 e não ganharam nomes. O ator que interpretou o garoto tinha na ocasião 11 anos. Nesta fic, o garoto tinha 8 anos e foi morto por Dean Winchester aos 19.


16.08.2017