DEAN & FILHO
SUPERNATURAL ALTERNATIVE UNIVERSE
CAPÍTULO 3
QUINZE ANOS DEPOIS
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- Você não envelheceu nada, Dean. O Aidan, que tem pelo menos 15 anos menos que você, agora parece ser mais velho.
- Genética privilegiada. E, você pode não acreditar, mas eu me cuido.
- Quando você diz que se cuida, está querendo dizer o quê? Que sempre passa um creme anti-idade milagroso no rosto antes de dormir? Se for, me diga que marca é essa que amanhã mesmo eu compro.
- Eu quis dizer que faço exercícios regularmente, tenho uma boa alimentação e não abuso do álcool .. eh! .. não muito.
- Dean, a quem você pensa que engana? Você sempre teve péssimos hábitos e, pelo que andei vendo nestes dias, você não mudou tanto assim. Sei que continua enchendo a cara com whisky barato e comendo as mesmas porcarias que comia 15 anos atrás.
- As porcarias de hoje não são como as de 15 anos atrás. Reduziram o sal, tiraram as gorduras saturadas e o gosto foi-se embora. Eu como por hábito ou pela praticidade, mas sem o antigo prazer. Os desgraçados do FDA mexeram até com as tortas de maçã e com os donuts, que hoje em dia praticamente não têm mais açúcar.
- Junk food nunca vai ser sinônimo de comida saudável. Não vi você comer nenhuma fruta ou verdura.
- Pra quê? Alimentação saudável não ajudou o Sam a viver mais. Nem eu tenho a pretensão de morrer velhinho. Agora podemos mudar de assunto?
- Não, Dean. Você não vai usar a morte do Sam para se safar dessa nossa conversa.
- Ok, Krissy! Você venceu! Eu falo. Quer saber o meu segredo? SEXO. Eu faço sexo. Muito sexo. Sexo casual. Sem compromissos ou obrigações. Sem flores, jantares ou DR's. É ótimo. Acaba com o estresse, ajuda a queimar calorias e vocês mulheres são as primeiras a afirmar que sexo faz bem para a pele. Como pode ver, eu sou a prova viva disso.
- Dean, se eu resolvi puxar esse assunto é porque eu gosto de você. Têm coisas que não passam despercebidas. ISSO é algo que não passa despercebido.
- Isso? Isso .. o quê?
- Essa "genética privilegiada" que faz você parecer ter hoje menos idade que tinha há quinze anos atrás. Eu sou do ramo. Já vi muita coisa. O bastante para saber que ISSO não é natural.
- Você não está achando ... ?
- Você foi próximo do Rei do Inferno por um tempo.
- Eu precisei me aliar ao Crowley algumas vezes. Para parar ameaças ainda maiores. Mas, nunca fomos amigos. E eu nunca beijei o desgraçado.
- Eu não acredito em metade das histórias que contam a seu respeito, mas não são poucos os que acreditam - ou morreram acreditando - que você morreu e ressuscitou. Assim como Mary, sua mãe, que voltou trinta anos depois como se o tempo não tivesse passado.
- Minha mãe voltou .. depois de anos de aposentadoria. E esse é um assunto sobre o qual definitivamente eu NÃO VOU conversar.
- Dean, sério, estou perguntando como sua amiga. Me diz que você não fez a besteira de fazer um pacto para manter-se jovem?
- Krissy, eu até faria um pacto com o primeiro demônio que aparecesse na minha frente .. se fosse para ter o Sam de volta. Não seria a primeira vez. Nunca para manter o meu rostinho liso para sempre.
- Talvez não pelo rostinho. Mas, pelo que vem junto. Você mesmo que acabou de afirmar que sexo é muito importante na sua vida.
- E na sua não é? Você e o Aidan não transam?
- Sexo é importante. Claro que é. Mas, nós não somos obcecados por sexo.
- E você acha que eu sou? É isso o que pensa de mim? Que eu sou tarado? Um sujeito não pode mais admirar os seios ou o traseiro de uma mulher bonita que é logo rotulado de obsessivo. Pois saiba que eu sou das antigas. Eu sou do tempo em que isso era considerado normal.
- Eu sei que você é das antigas. Mas, quem olha para você não diz.
- Krissy, preocupe-se com a SUA vida sexual. O Aidan foi o seu primeiro - e eu vou acreditar se me disser que o único - e estou começando a achar que ele não faz o serviço direito. Por isso você não ser ... obsessiva.
- Não pense que não percebo seu jogo de desviar o assunto para sexo achando que assim vai me constranger e eu vou dar a conversa por encerrada. Não vou. Se quer falar de sexo, vamos em frente. Eu deixei de ser virgem há muito tempo.
- O Aidan tem que ser um santo para aturar você por tanto tempo. Lembro de quando nos conhecemos. Me deixou exasperado com a sua teimosia. E vejo que não mudou. Continua dura na queda.
- Eu estava preocupada com meu pai que estava desaparecido e podia estar morto, mas não pude deixar de notar o quanto você era atraente.
- Eu ERA? Não sou mais?
- Você é! Melhor assim? Que o Aidan não nos ouça, mas você está mais gostoso que nunca. É aí que mora o problema.
- Quer dizer que desde menininha você arrasta uma asa por mim?
- Eu sei que, naquele tempo, para você, eu era uma pirralha. Mas, confesso que, quando tudo acabou, quando meu pai já estava à salvo em casa, eu fantasiei muitas vezes nós dois juntos.
- Jura?
- Não num contexto sexual. Eu ainda era uma garotinha boba. Era algo mais na linha romântica. Com flores, jantares e juras de amor.
- Para ver o quão pouco você me conhecia na época. Você deu sorte de encontrar o Aidan. Eu prestei atenção em vocês. Ele é realmente o homem certo para você.
- Já eu reparei o sucesso que você faz com as mulheres. Esse sucesso todo com a mulherada não tem nada de sobrenatural. Ou tem?
- Se tivesse, creio que estaríamos agora na cama nos divertindo. Não tendo essa conversa idiota.
- Fico um pouco mais tranquila. Mas, só um pouco. Cuidado, Dean. Como eu disse antes, não é algo que passe despercebido.
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´- Prepare-se, Dean! Isso foi apenas uma amostra do que vem pela frente. O pior é que a Krissy está certa. Alguém vai perceber e vão vir atrás de mim. Querendo arrancar o segredo da minha eterna juventude. Não, eterna não. Digamos que .. estendida. É isso: da minha juventude estendida. Gente capaz de me cortar vivo para descobrir a resposta.'
- Oi! Whisky, por favor! Pode trazer a garrafa.
O mundo mudara. E continuava mudando a uma velocidade cada vez maior. Já não havia tantos caçadores ativos como na época em que fazia dupla com Sam. Talvez porque já não fossem necessários tantos. A população de monstros, dramaticamente reduzida na primeira incursão dos Homens Britânicos de Letras, ainda não havia se recuperado. Talvez nunca se recuperasse. Algumas espécies, as mais animalescas, estavam aparentemente extintas. Sobreviviam os que conseguiam se passar por humanos. E a maioria destes agora se escondia em meio à multidão das grandes metrópoles.
A tecnologia evoluíra rápido e os caçadores não ficaram parados no tempo. Estavam mais bem informados e melhor armados. As armas introduzidas pelos britânicos, combinando tecnologia e magia, eram agora comuns. Geralmente contrabandeadas, mas começavam a aparecer novidades genuinamente americanas.
Num mundo conectado, as informações corriam rápido. Ataques a pessoas e desaparecimentos eram rapidamente descobertos e prontamente investigados pelas forças policiais e pelas agências governamentais. Os monstros estavam acuados e isso os tornava mais cautelosos e mais letais. Sabiam que não podiam deixar rastros. Não podiam deixar testemunhas vivas.
Dean adotara Los Angeles como base e a Costa Oeste como área de atuação. O tempo em que cruzava o país de um lado para o outro com Sam - ou com Cole - ficara para trás. O Impala fora aposentado. Ainda que a contragosto, Dean rendera-se aos modernos carros elétricos autônomos. Seu novo bebê era um Tesla.
Era cada vez mais raro seu caminho se cruzar com o de outros caçadores.
Os Homens Britânicos de Letras mataram muitos caçadores americanos. Pegaram a maioria dos veteranos. Homens e mulheres que conheceram John e seus filhos ainda crianças. Mas, não foram só os britânicos ou os monstros. O tempo é sempre o mais terrível dos inimigos. O tempo não pode ser vencido. Vai pegando todos, um a um. Daquela geração de caçadores, não sobrou ninguém. Mesmo a geração seguinte, dos contemporâneos de Dean, gente que lutou ao seu lado e de Sam, como Garth e a xerife Jody Mills, estava bastante desfalcada.
O fato é que sobrara muito pouca gente que conhecia Dean há mais de uma década. Menos ainda os que sabiam qual sua verdadeira idade.
A atual geração de caçadores teve que aprender com os próprios erros. Esquecer os velhos métodos e abraçar as novas tecnologias. Dentre os que estavam na ativa, alguns que Dean conheceu ainda crianças, como Krissy Chambers e o seu agora marido Aidan DiMarco.
Dean conheceu Krissy ainda menina e, naquele primeiro encontro, ela o chamou de VELHO. Natural. É assim que uma adolescente de 14 vê um homem de trinta e poucos. A diferença de idade entre eles superava 15 anos e isso era bastante evidente. Ao se reencontrarem 20 anos depois, a diferença de idade parecia ter desaparecido. Mais que isso. Krissy não estava exagerando. Dean realmente parecia ter menos idade que ela.
Dean até podia se fazer de desentendido ou fingir surpresa ou indignação, mas tinha plena consciência do impacto que sua aparência atual causava nos velhos conhecidos. Krissy apenas verbalizou o que Dean constatava todas as vezes em que se olhava no espelho. Não estava envelhecendo. Estava ficando mais jovem.
- Sam, você não imagina como eu me sinto toda vez que sou lembrado que sou um homem de cinquenta e cinco anos com um rosto de trinta. Os documentos que trago na carteira dizem que tenho trinta e cinco, mas as pessoas sempre me dão menos. Trinta anos no máximo. Chuck, onde isso vai parar? Como vai ser daqui a dez anos? Eu vou ser um homem de sessenta e cinco com um rosto de vinte? É a síndrome de Benjamin Button? Um dia eu vou morrer bebê?
Levou alguns anos para Dean se ver forçado a admitir para si mesmo que não estava envelhecendo e mais alguns para começar a suspeitar que talvez estivesse rejuvenescendo. Mas, uma vez tendo aceitado esse fato, não podia continuar fingindo ignorar a causa da sua atual condição: os acontecimentos que culminaram na morte de Sam.
Dean não gostava de lembrar das circunstâncias da morte de Sam. Quando alguém perguntava, saía pela tangente. A comunidade de caçadores sabia o quanto os irmãos eram ligados e, em geral, respeitavam o silêncio sofrido de Dean. Entendiam que era parte do seu prolongado luto. Dean mudava de assunto e as pessoas não voltavam a perguntar.
A verdade desconfortável é que Dean se sentia culpado pelo que recebera com a morte do irmão. Sua juventude prolongada, sua saúde excepcional e sua boa forma não eram dádivas. Pagara um preço terrível por elas. O preço da sua "genética privilegiada" fora a vida de Sam. E, em todos esses anos, Dean não encontrara um anjo, demônio ou bruxo com quem pudesse barganhar a reversão do feitiço.
Em momentos como o de agora somente o álcool para fazê-lo suportar a dor das lembranças e a culpa por continuar vivo.
- Mais uma garrafa, por favor.
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- Cuide-se, Dean!
- Cuidem-se vocês dois. Espero revê-los muito em breve. Coisa de uns cinco ou dez anos.
- Sei que não está falando sério. Sei o quanto nos ama. E, goste ou não, vou manter você no meu radar. Você devia se juntar a uma rede. Sabe que nós caçadores temos nossas próprias redes sociais.
- Sei e não mudei de opinião. Não acho que seja seguro. As agências governamentais têm hackers trabalhando vinte e quatro horas por dia. São obcecados por controle. Querem saber o que cada um faz minuto a minuto. Sem falar dos monstros. Algumas espécies de monstros têm inteligência comparável à humana e muitos são humanos transformados. Cada vez mais usam de tecnologia para atrair presas e se antecipar à polícia e aos caçadores.
- Temos nossos próprios hackers e fabricantes de armas. Recrutamos os melhores.
- Ainda assim. É mais seguro viver desconectado. Por melhores que sejam nossos hackers - e, caso não saiba, eu uso os serviços de vários - sempre pode aparecer alguém melhor.
- Isso sim é ser das antigas.
- Eu tive bons professores. E eles chegaram à velhice porque eram desconfiados ou paranoicos.
- Não é bom ser sozinho, Dean. Não é saudável. Você devia arrumar alguém.
- Não! Chega de parceiros. Eu hoje sou um velho lobo solitário. Trabalho melhor sozinho.
- Não estava me referindo a um parceiro. Pensei em uma .. esposa.
- Está me zoando? Só pode!
- Por que não? Soube que teve uma breve experiência de casado anos atrás. E que essa sua namorada tinha um filho. Acabou tão mal assim?
- Foi bom por um tempo. Não tinha como dar certo. Culpa minha. Culpa da forma como fui criado. Culpa deste estilo de vida em que fomos jogados. Ela era - é - uma mulher maravilhosa.
- Vocês nunca mais se viram?
- Não.
- E filhos? Nunca quis ter um filho, Dean?
- Nunca.
- Acho que você seria um bom pai.
- Acredita mesmo nisso?
- Piamente. É por isso que ..
- Que .. o quê?
- Dean, eu acredito que você vai viver mais que qualquer um de nós. Mais do que eu ou que o Aidan.
- Bobagem, Krissy!
- Não! Eu nunca falei tão sério em toda a minha vida. E é por acreditar nisso que eu quero te fazer um pedido. Por favor, não me negue esse favor. É muito importante para mim.
- ok. Qual é o pedido?
- Se acontecer algo a mim e ao Aidan ...
- Aaah, não! Para! Chega desse papo! Não vai aconte..
- Dean! Somos caçadores. Cedo ou tarde algo VAI acontecer. Se você sobreviver a nós, como eu acredito, eu quero que zele pelo nosso filho.
- Filho? Nosso filho? Nós ... ?
- Meu e do Aidan, é claro!
- Claro! Óbvio! Nós dois nunca .. ah! esquece! .. Espera! Eu nunca soube que vocês tiveram um filho.
- Pouca gente sabe. Nós entregamos para adoção. Éramos muito jovens. Achamos que ele estaria melhor com uma família que pudesse proporcionar a ele uma vida normal. Não espero que você entenda.
- Eu entendo, Krissy. Pode ter certeza que entendo.
- Pega! Guarde com carinho. Neste arquivo estão todos os dados que temos do Samuel e da família adotiva.
- Samuel? Você deu ao seu filho o nome do meu irmão?
- Não! Não eu. Samuel é o nome que ele recebeu dos pais adotivos, um casal de Chicago, David e Violet Lassiter.
Dean engole em seco e tenta disfarçar com um sorriso forçado o choque daquela revelação. Era o pesadelo de qualquer caçador. Krissy certamente não fazia ideia de que entregara o filho a um casal de monstros.
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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: VIVER É SONHAR
ESCLARECIMENTOS:
1. FDA (Food and Drug Administration) é o órgão federal americano responsável pela regulamentação de alimentos e remédios. No Brasil, é a ANVISA.
2. Krissy Chambers aparece nos episódios 7x11 (Adventures in Babysitting) e 8x18 (Freaks and Geeks). A personagem é interpretada pela atriz Madison McLaughlin.
3. O personagem Aidan (sobrenome desconhecido) é apresentado no episódio 8x18. É interpretado pelo ator Adam DiMarco. Dei o sobrenome do ator ao personagem. No episódio, ele mostra interesse por Krissy.
4. Dean conheceu o metamorfo David Lassiter e lobiswoman Violet Duval no episódio 9x20 (Boodlines). Na ocasião, eles eram noivos.
5. Passaram-se quinze anos da morte de Sam (evento de partida da fic). Não quinze anos da morte de Cole.
10.09.2017
