DEAN & FILHO

SUPERNATURAL ALTERNATIVE UNIVERSE

CAPÍTULO 7


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Salvar pessoas, caçar coisas. O lema dos Winchester não é diferente do lema de tantos outros caçadores, mesmo daqueles que nunca resumiram sua rotina numa frase de efeito.

Caçar "coisas". "Coisas" são tudo aquilo que não são pessoas. Coisas são os "monstros". Monstros são criaturas sinistras que se escondem nas sombras e que atacam e devoram pessoas inocentes. Quando não devoram, drenam o sangue, mutilam, ferem, assustam, tiram da zona de conforto. Se não é humano, pode e DEVE ser exterminado. Por quê? Ora, porque são monstros. Precisa de alguma outra razão?

E quando um caçador de monstros se torna uma destas "coisas" que merecem ser exterminadas? Um dia, caçador. No dia seguinte, vampiro. O caçador salva pessoas. O vampiro alimenta-se de pessoas. Como fica a sua cabeça quando você se torna aquilo que sempre combateu?

Dean já se tornara um vampiro antes. Ele SABE como é difícil resistir à insaciável ânsia por sangue humano. LEMBRA como foi difícil manter o controle e não avançar contra Lisa e Ben. A transformação de Dean foi revertida em menos de vinte e quatro horas. E se isso não tivesse acontecido? Quanto tempo até que ele sucumbisse à sede e fizesse vítimas? Quanto tempo até que o instinto de sobrevivência prevalecesse sobre a razão e a emoção? Quanto tempo até que deixasse para trás os escrúpulos e silenciasse sua consciência?

Quanto tempo até que ele se assumisse como monstro e descobrisse que ser um monstro é tudo o que ele sempre desejou ser?

Ennis Ross resistiu sofridos vinte e três dias até fazer sua primeira vítima humana. Um indivíduo que de vítima não tinha nada. Era um chefão do tráfico truculento e já tinha mandado matar muita gente. Sua morte era mais que merecida e ninguém chorou por ele. Ainda assim, ele era humano. E, ao beber seu sangue, o destino de Ennis foi selado. A transformação já não podia mais ser revertida.

Ennis nunca saberá. Mas, foi por pura falta de sorte que ele não recobrou sua humanidade. Bastaria ter bebido o sangue do vampiro que o transformou antes de começar a beber sangue humano. Mas, ele não tinha essa informação. Ennis foi transformado quando ainda estava engatinhando na carreira de caçador. Não tinha um parceiro. Não tinha um mentor. Não tinha contatos. Não tinha uma biblioteca especializada no sobrenatural.

Não tinha um amigo para lhe dizer que aquela brincadeira de caçador tinha tudo para acabar mal.

Ennis fora drenado e abandonado quase morto por uma gangue de vampiros renegados. Recém chegados sem vínculos com o clã de vampiros de Chicago. Eles não pretendiam transformá-lo. Apenas beber do seu sangue. Mas, ao confrontá-los, Ennis feriu um deles com uma estaca de madeira e esse vampiro, para vingar-se, cravou a estaca na coxa do agonizante Ennis antes de ir embora. A estaca molhada de sangue de vampiro o transformou.

Nos dias que se seguiram, Ennis ignorou a sede torturante e dedicou todo o seu tempo e energia para encontrar e exterminar o grupo que o transformou naquela abominação. Ele teve êxito em capturar e beber do sangue de quatro dos cinco vampiros. O quinto, o vampiro cujo sangue o transmutou, ele só capturou dois anos depois. Quando já era tarde demais. Se ele tivesse tivesse perseguido o vampiro que dobrou à direita ao invés de correr atrás do que dobrou à esquerda, tudo teria sido diferente.

No início, Ennis ainda pensava em si mesmo como um caçador. Quem sabe sua nova condição o ajudasse na cruzada contra os monstros que infestavam Chicago? Não precisaria atacar humanos. Sobreviveria bebendo exclusivamente sangue de monstros.

Ennis descobriu que isso não era possível da maneira difícil. Primeiro ele constatou que sangue de lobisomens é tóxico para vampiros. Falta aos vampiros uma enzima que lhes permita digerir as proteínas presentes no plasma sanguíneo dos lobisomens. É análogo à intolerância que alguns humanos apresentam em relação à lactose e provoca sintomas parecidos.

O sangue de metamorfos provoca em vampiros sintomas semelhantes aos de uma intoxicação aguda e os faz convulsionar. Sangue de ghouls incapacita vampiros da mesma forma que sangue de cadáveres. Se tivesse insistido nos experimentos e tentado beber sangue de djinns teria morrido em terrível agonia. Sua sorte foi ter testado o efeito num vampiro que capturara. A toxina que os djinns secretam pela pele também está presente no sangue destas criaturas numa concentração letal para vampiros.

Uma cidade com tantos monstros e todos completamente inúteis para um vampiro do ponto de vista alimentar. A natureza limitara o seu cardápio a humanos, animais de sangue quente e a outros vampiros.

Ennis era um homem bom. Com o passar dos anos, ele tornou-se um bom vampiro. Ser um bom vampiro é o contrário de ser um vampiro bom. Um bom vampiro não mata os seus. Um bom vampiro caça humanos e aceita o fato como parte da ordem natural do mundo.

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Quando os dentes do vampiro se fecharam sobre o seu pescoço, Dean desejou morrer. Antes morto que vampiro. Mas, suspeitava que pensaria diferente caso fosse transformado. Lembrou-se do seu período Deanmon, da escuridão em sua alma. E teve muito medo do que poderia se tornar.

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Embora Dean encarasse o lugar onde era mantido preso como a cela de uma masmorra sinistra, aquele era simplesmente o quarto do hospital para onde eram levados os pacientes sob efeito de anestesia. O quarto onde quem passou por um procedimento cirúrgico é mantido em observação pela equipe médica antes de retornar à enfermaria.

A diferença para um hospital humano é que pacientes lobisomens não costumam ser pacientes dóceis. Costumam despertar da anestesia confusos e raivosos. A imobilização é necessária para evitar que as suturas realizadas durante a cirurgia acabem se rompendo por conta da agitação e da impaciência dos pacientes no pós-operatório e também para que não firam os médicos com suas garras durante a execução de procedimentos de rotina.

A imobilização no pós-operatório não costuma a ser demorada porque lobisomens tem o chamado fator de cura, um processo acelerado de regeneração de tecidos normalmente atribuído à natureza sobrenatural da espécie. Ferimentos, por mais sérios que pareçam, acabam por cicatrizar por completo. Sem deixar sequelas nem cicatrizes. A imobilização raramente se estende por mais de três horas.

A própria existência de um hospital para lobisomens só passou a fazer sentido depois que as disputas entre clãs difundiu na cidade o uso de balas com ponta de prata. A prata é extremamente eficaz contra lobisomens, podendo matá-los mesmo quando a bala não acerta um órgão vital. Se todo e qualquer fragmento de prata não for removido do organismo em poucas horas, o lobisomem morre por envenenamento.

As figuras com aventais, luvas e máscaras faciais verdes que entravam e saiam do quarto eram realmente enfermeiros, não carcereiros sádicos. A dor excruciante a que submeteram Dean pouco depois dele ter despertado era apenas o procedimento de limpeza dos seus múltiplos ferimentos com um poderoso antisséptico à base de álcool. Depois do antisséptico, eles aplicaram pomada cicatrizante e cobriram com gaze. Eles apenas não levaram em conta que lobisomens são bem mais resistentes à dor que humanos.

A pasta que forçaram Dean a engolir contra sua vontade era nutritiva e saudável apesar da cor, cheiro e consistência suspeitos. Dean nunca aceitaria sequer provar a maioria dos componentes daquela pasta se lhe fosse dada escolha, mas já é querer demais que comida de hospital seja apetitosa.

Dean teria matado cada um daqueles enfermeiros se tivesse uma arma nas mãos, mas, se o fizesse, ele estaria sendo injusto. À sua maneira bruta, eles estavam cuidando bem de Dean.

E agora um destes jovens plantonistas lobisomens estava morto, abatido por uma bala de prata saída da arma com silenciador do caçador transformado em vampiro. Um tiro à queima-roupa na testa. Um ferimento muito acima da capacidade de regeneração da espécie.

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- AAAAAAAAAAAAAh! Seu sangue .. está envenenado!

- Envenenado? Eu fui envenenado?

- Veneno de djinn. Seu organismo ainda não eliminou completamente a toxina. Mas, não pense que isso vai salvar você. Você é humano. É frágil. É sangue e também é carne. O hospital pertence ao clã Duval. Se eu arrancar seu coração e sumir com ele, a culpa recairá sobre os lobisomens. Quando eu espalhar a notícia da sua morte, os caçadores virão para vingá-lo. Mato dois coelhos com uma só cajadada.

- Ennis, você era um de nós. Estava do lado dos mocinhos. O que fez você mudar?

- Uma estaca suja de sangue de vampiro. ISSO me fez mudar.

- Não! Não foi a estaca que o fez desistir da sua humanidade. Conheci outros vampiros. Até fui AMIGO de um. Foi outra coisa que fez você mudar.

- Meu pai. Meu pai ausente. O pai que me fez acreditar por anos que estava morto apareceu do nada na minha frente apontando uma arma. Não um revólver. Uma arma especialmente projetada para matar vampiros. Uma semiautomática capaz de disparar projéteis de madeira. Ele SABIA. Ficou sabendo e decidiu me matar. A mim, o seu próprio filho. Ele não quis saber como tinha acontecido, nem o quanto eu estava sofrendo. Não disse nem mesmo que estava fazendo aquilo porque me amava. Ele não disse nada.

- Ennis, eu .. sinto ter deixado você sozinho nesta luta. Tudo isso poderia ter sido evitado.

- Eu avancei e tomei a arma das mãos dele. E, então, o matei. Bebi até a última gota do seu sangue. Aquele sangue era meu por direito. O sangue que eu bebi era o meu próprio sangue.

- Não continue nessa trilha, Ennis. Hoje em dia, sangue é produzido por clonagem em escala industrial. Um vampiro hoje só mata humanos se quiser.

- Exatamente. Eu mato porque QUERO. Porque prefiro o modo tradicional. Gosto de beber direto da fonte. E eu já escolhi meu próximo alvo. Como foi que eu não pensei nisso antes? Era tão óbvio. Obrigado, Dean. Você me mostrou a melhor maneira de me vingar dos Lassiter e dos Duval.

- Está se referindo .. NÃO! Eu não vou deixar que o faça. O garoto está sob a minha proteção.

- Eu mudei de ideia, Dean. Não vou matá-lo. Não agora. Não antes de drenar o garoto Samuel Duval-Lassiter até a última gota. Vou mostrar o quanto valem as suas promessas. Gostaria muito de ver você dando a notícia aos pais biológicos do garoto. Não esqueça de contar também que foi você quem deu a ideia ao assassino do garoto. Tchau, Dean! Nos vemos em breve. Ou não.

- VOLTA AQUI. Você NÃO VAI matar o garoto. NÃO VAI. Eu não vou permitir.

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Foram trinta minutos até um enfermeiro encontrar o colega morto e dar o alarme. Ele apareceu na porta do quarto em que Dean estava preso, olhou, mas não entrou. O primeiro a entrar no quarto foi o médico lobisomem que o examinara antes, só que agora ele já não se esforçava para parecer simpático. Ele farejou o ambiente, depois cheirou o local da mordida por um tempo que pareceu excessivo, encostou de leve a ponta da língua no ferimento, fez uma expressão enigmática ao sentir o gosto do sangue e saiu.

Voltou com gaze embebida no tal antisséptico e a pressionou contra o local da mordida, fazendo Dean urrar de dor. Não perguntou nada e não respondeu a nenhuma das perguntas pouco educadas de Dean. Se aquele comportamento podia ser chamado de "profissional", Dean não saberia dizer.

Não demorou e o quarto encheu-se de lobisomens armados com semiautomáticas do tipo usado pelo pai de Ennis. Membros da tropa de choque do clã Duval. Eles entraram farejando o ambiente e com as armas apontadas para Dean. Como se, mesmo imobilizado, o caçador pudesse representar algum tipo de ameaça para eles.

Depois de se certificaram que as correias que prendiam Dean estavam bem firmes, reassentaram as correias da testa e do queixo, soltas pelo vampiro. Não satisfeitos, removeram os curativos e jogaram longe a toalha que cobria as partes íntimas do caçador. Examinaram como se acreditassem que uma bomba pudesse estar escondida sob os curativos e uma arma sob a toalha. Calaram os protestos de Dean tampando sua boca com fita adesiva e saíram.

Em seguida, vieram homens de jaleco branco. Pareciam humanos, mas o mais provável é que fossem metamorfos ou mesmo lobisomens em forma humana. Eles examinaram cada centímetro quadrado do lugar, coletaram amostras e tiraram fotos. Muitas fotos. Fotografaram Dean de todos os ângulos imagináveis e não apenas a marca da mordida.

Eram quatro os investigadores e todos tiraram fotos, mas Dean invocou com um em especial. O sujeito não disfarçava a satisfação com que fotografava as partes íntimas de Dean. Nada justificava tantas fotos do mesmo [grande] detalhe.

A perícia já tinha terminado quando o casal 20 de Chicago entrou. Ao deparar-se com o caçador nu, Violet desvia o olhar, constrangida. Já David apressa-se a pegar a toalha no chão e a cobrir Dean. Só isso já lhe valeu a gratidão do caçador.

- Dean, você está bem? Saiba que lamentamos o ocorrido.

- Não está vendo que ele está bem? Bem até demais para quem foi atacado por um vampiro sanguinário. Surpreendentemente bem se foi mesmo o Ross, como eu acredito. O que o Ross queria com você? Diga-me, caçador, por que ele o poupou?

- Violet querida, o interrogatório pode esperar. O Dean pode ter sido infectado. Se foi, talvez possamos impedir que a infecção avance.

- Eu não estou nem um pouco preocupada se esse cretino foi ou não infectado. Se foi, cravamos uma estaca no coração e o problema dele e o nosso estarão definitivamente resolvidos. O Dean é um caçador. Ele vai entender. Nós simplesmente estaremos agindo da forma que ELES costumam agir. ELES matam e seguem em frente. Diga que eu estou mentindo, Dean. Não é esse o tratamento que caçadores como você dão aos vampiros?

- Liga, não Dean. Ela ainda não esqueceu o incidente de ontem.

- David, fique tranquilo. Seu "amigo" NÃO ESTÁ infectado. Se estivesse, eu saberia pelo cheiro.

- Isso é maravilhoso! Dean, você é um homem de sorte. Sobreviveu aos djinns e a um vampiro cruel. Está recuperado. As coisas PODEM acabar bem. Depende apenas de você QUERER que tudo acabe bem. Você foi trazido a esse hospital para que se recuperasse das sequelas da toxina dos djinns e ficou mais um dia para esfriar a cabeça e ser medicado desses ferimentos no corpo. Ferimentos que eu próprio causei e lhe peço desculpas por isso. E então? Pensou com carinho em tudo o que eu lhe disse ontem? Vai esquecer essa ideia idiota que o trouxe aqui?

- Que ideia idiota? David, o que você está ESCONDENDO DE MIM?

- Algo que eu posso resolver conversando com o Dean. Não há necessidade de envolver você, docinho. Eu não quero que se estresse. Dean, diga apenas que ACEITA conversar.

Violet se aproxima sorrindo e remove com cuidado a fita adesiva que impedia Dean de participar da conversa.

- Você é conhecido por sua coragem, Dean. Repita para mim o que disse para o David. O que você veio fazer em Chicago que eu posso NÃO GOSTAR? VAMOS LÁ, CAÇADOR. DIGA NA MINHA CARA SE FOR HOMEM.

Atrás dela, tomando cuidado para que Violet não veja, David gesticula para que Dean não diga que veio com a intenção de tirar-lhe o filho.

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: MEU AMIGO VAMPIRO


ESCLARECIMENTOS:

1. Dean foi transformado em vampiro no episódio 6x05 (Live Free or Twihard).

2. Dean foi transformado em demônio (Deanmon) na virada da nona para a décima temporada.

3. No final do episódio 9x20, Ennis descobre que o pai está vivo e sabe dos monstros de Chicago.


16.10.2017