DEAN & FILHO

SUPERNATURAL ALTERNATIVE UNIVERSE

CAPÍTULO 8


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- É muito bom estar de novo em casa. Música suave. Um copo cheio na mão e uma garrafa de escocês legítimo ainda pela metade à minha frente. A lua cheia brilhando no céu. Uma bela garota ajoelhada na minha frente e eu estaria no Paraíso.

- A Cidade dos Ventos é úmida, gelada e cheia de monstros. Bem .. agora existem menos deles lá. Isso graças a mim. Já a Cidade dos Anjos é bela, ensolarada .. e, se ainda tiver monstros, estão bem escondidos. E isso .. também é graças a mim. Viva eu!

- Vamos lá, Sam! Cante comigo 'Sunny in California'. Lets go outside, it's sunny in California .. If you were by my side, and for a while I would feel like normal. .. Go back to the sun, back to everyone. .. Back to the sand and the sea, where I can be me.

- If you were by my side .. and for a while .. I would feel .. GOOD .. and I can be me.

- Não foi fácil, Sam. Ter de novo você ali na minha frente. Sorrindo para mim. Preocupado comigo. Eu quase pedi .. eu tive que me controlar para não pedir .. para o David assumir novamente a sua aparência. Eu queria poder abraçar você uma vez mais. Uma última vez. Teria sido bom. Mesmo sabendo que não era você de verdade. Maldito David. Ele não tinha o direito de trazer de volta esses sentimentos todos.

- Em momentos como esse, eu sinto a falta de um amigo. Alguém em quem eu confie de verdade. Confie a ponto de falar dos meus sentimentos. E dos meus medos.

- Os seis meses que passei em Chicago me fizeram ver que esse é o tempo e o momento certos para trazer de volta um dos poucos amigos de verdade que eu já tive. O que ele fez por você, Sam, só prova o quanto você foi injusto desconfiando dele. Acho que ele vai gostar de ver o quanto o mundo mudou nos últimos vinte anos. Desta vez ele vai querer ficar. A hora é essa. Se eu esperar mais, pode acabar sendo tarde demais para ele .. e para mim.

- E esse é só um dos muitos assuntos que eu deixei pendentes. O mundo já não precisa tanto de caçadores. E há coisas que não dá mais para empurrar com a barriga. É .. são coisas que eu preciso fazer.

- Só espero me lembrar disso quando eu acordar .. amanhã.

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Dean acostumara-se a viver sozinho. Era assim desde a morte de Cole. Foi mais ou menos nesta época que Dean começou a expressar seus pensamentos em voz alta. Uma forma de quebrar o silêncio e espantar a solidão. Compreensível nas circunstâncias. Todo caçador tem suas excentricidades e superstições. Dean não era exceção. Na estrada, cada dia em um lugar, poucos notavam e ninguém questionava.

Agora Dean tinha endereço fixo. Não morava mais num bunker isolado no meio do nada. Ele entrava e saia do prédio em que morava pela porta da frente. Circulava a pé nas vizinhanças. Fazia compras e saía à noite para se divertir. Era visto pelas pessoas com regularidade. Podia-se dizer que agora ele tinha uma vida normal. Que era visto como uma pessoa normal. Só que não.

O principal motivo para Dean ser reconhecido nas ruas e por virar objeto de comentários na vizinhança e de conhecidos eram algumas das suas excentricidades.

Dean era reservado. Mostrava-se cordial com as pessoas, mas nunca puxava assunto, falava apenas o estritamente necessário e nunca entrava em assuntos pessoais. Falar pouco com os outros não era, no entanto, o verdadeiro problema.

O problema é que Dean verbalizava seus pensamentos como se estivesse falando com um amigo imaginário que só ele via. Invariavelmente esses comentários eram dirigidos a alguém chamado Sam. É natural que as pessoas estranhassem esse comportamento e que muitos o olhassem torto. Se fosse uma pessoa de mais idade, talvez relevassem. Seria coisa de velho. Mas, Dean era jovem. Tinha, no máximo, vinte e uns quebrados. Isso fazia muita gente pensar que aquilo saíra do terreno da excentricidade para a esfera dos distúrbios mentais. O fato de Dean circular nas ruas portando armas era um motivo a mais de preocupação para os vizinhos.

Falar sozinho não era a única excentricidade de Dean. Ele também chamava a atenção pela forma como se vestia. Ninguém mais usava calças jeans e camiseta de algodão. O vestuário evoluíra de forma extraordinárias nas duas décadas anteriores. Tecidos tecnológicos agregavam cada vez mais recursos e funções: proteção solar; ação repelente de insetos; absorção e neutralização de suor; liberação de fragrâncias; autocompensação da temperatura. Cada ano, um novo aprimoramento. Agora era a vez dos tecidos que combinavam leveza a uma resistência mecânica extraordinária.

Um jovem bonito, rico, usando roupas de fibras naturais, muito surradas, em estilo militar antiquado, completamente fora de moda, chamava atenção por onde passava. Despertava a curiosidade e atraía o interesse das pessoas. No bom e no mau sentido. Exatamente o que Dean não queria. Se Dean não tinha amigos ou namorada fixa é porque não deixava ninguém se aproximar demais. Fosse para não colocar inocentes em risco, fosse por farejar de longe os aproveitadores, fosse por não ter interesses em comum - salvo sexo - com quem apenas parecia ter a sua idade.

Rico? Sim. Dean agora morava numa das áreas mais valorizadas da cidade e desenvolvera alguns gostos caros. A fonte do dinheiro? Um trevo de quatro folhas confiscado de um leprechaun. Dean entrou com o trevo no maior cassino da Costa Oeste e quebrou a banca. Ganhou em uma noite US$ 85 milhões. Metade investida em papéis de alto risco que triplicaram o capital investido em apenas um ano. O trevo garantia que ele nunca perdesse uma aposta. E o que é o mercado financeiro senão uma grande bolsa de apostas? A fortuna de Dean só crescia.

Sem esse dinheiro, seria impossível prosseguir com as caçadas. O avanço da tecnologia tornara impossível a clonagem de cartões de crédito. Os velhos truques que Dean usava para descolar alguma grana estavam expostos em detalhes na internet. Era o trevo da fortuna que financiava as caçadas de Dean e que pagava os salários dos vários especialistas que davam apoio logístico à comunidade de caçadores. Além dos hackers e dos fabricantes de armas que Krissy citara na conversa com Dean, ele também financiava pesquisadores do sobrenatural e tradutores de línguas mortas. Dean estava determinado a reconstruir o inestimável acervo dos Homens de Letras que fora perdido com a destruição do bunker.

O Impala fora aposentado como meio de transporte, não fora esquecido. Ganhara lugar de honra no centro da espaçosa sala de estar da luxuosa cobertura de Dean. Dean gostava de recordar dos seus tempos de juventude fazendo sexo no banco do motorista. Algumas reclamavam e tentavam arrastá-lo para a grande e confortável cama, mas invariavelmente a noite começava ou terminava dentro do carro.

Dean era considerado um sujeito estranho, mesmo para os padrões elásticos de Los Angeles.

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- Krissy?

- Dean? Você LIGANDO? O que foi que aconteceu? Está encrencado?

- Não. Tudo bem comigo. Eu liguei por outro motivo.

- Para você ter ligado é porque o problema é sério. Se está precisando da gente é só gritar que a gente aparece.

- Na verdade, é um motivo bom. Eu liguei para tranquilizar você e o Aidan. Acontece que eu passei uma temporada em Chicago.

- Chicago? Tem a ver com aquele pedido que eu fiz? Soube de algo e resolveu investigar?

- Calma! Eu fui a Chicago finalizar uma caçada que começou aqui mesmo, em Los Angeles. Mas, uma vez que eu já estava lá .. e que a minha estadia foi se estendendo .. bem .. tive curiosidade de conhecer o Samuel. Saber mais sobre esses pais adotivos. Acabei atrasando a minha volta por conta disso.

- Você conheceu o Samuel? Conheceu a família adotiva dele? Ele está bem?

- Por uma dessas incríveis coincidências eu fiquei um tempo internado num hospital de propriedade da família da mãe adotiva do Samuel.

- Hospital? Você foi ferido? Foi grave? Está recuperado?

- Eu fui capturado por djinns. Por pouco não me mataram. Minha sorte foi um amigo que eu ajudei no passado ter me resgatado e me levado para esse hospital. Eu fiquei vários dias em coma.

- Hospitais particulares cobram uma fortuna. Exigem várias garantias para aceitarem uma internação.

- Esse meu amigo tem recursos e conhecia o casal Lassiter. Por isso ele me levar para lá. Foi ele quem me apresentou depois ao casal.

- Amigo endinheirado? Você? Quem diria.

- O que eu fiz por ele não tem preço. Palavras dele. Ele estava em débito comigo.

- O importante é que você foi bem tratado e está bem.

- Super bem tratado. Me colocaram num quarto separado onde eu era monitorado o tempo todo. Eu não queria, mas eles insistiram. Esse meu amigo estava sempre lá, me dando toda a assistência. Parecia até meu irmão. Teve horas que eu olhava para ele e parecia que eu estava vendo o Sam. Posso dizer que tive um tratamento diferenciado. Não tenho do que reclamar.

- Que bom que foi assim. Mas, e a família adotiva? Como eles são?

- Maravilhosos. Pode ficar tranquila a esse respeito. Uma coisa que eu posso afirmar com toda certeza é que eles amam de verdade o Samuel. Você estaria comprando uma briga feia se resolvesse reclamar seu filho de volta.

- Quando o Samuel for maior de idade, eu penso em procurá-lo para que ele saiba que não foi entregue à adoção por não ser desejado. Mas, por ora, prefiro não bagunçar a cabeça do garoto.

- Eu entendo a sua atitude, Krissy. Entendo perfeitamente.

- Uma criança precisa de uma família bem constituída, com situação financeira estável, que saiba impor limites e proporcione uma rotina equilibrada de estudos, esportes e lazer. Segurança física, econômica e psicológica. É isso que o Samuel precisa e que eu sei que isso eu e o Aidan não temos condições de proporcionar a ele.

- Isso tudo ele tem. E eles estão atentos à questão da segurança.

- É muito bom saber que os pais adotivos do Samuel permanecem juntos. São tantos os casais que se divorciam.

- Eles parecem dois adolescentes apaixonados. Comemoraram bodas de prata enquanto eu estava lá. Eu fui como convidado. A festa foi bonita. Boa bebida e uns pratos um tanto .. exóticos para o meu paladar. Mas, pelo que vi, todos os outros convidados adoraram a comida.

- Bom saber que o Samuel é amado e tem pais que se amam.

- Acredite. Aqueles dois foram feitos um para o outro.

- Então acabou que você fez amizade com o casal?

- Confesso que quando conheci o David eu fiquei com um pé atrás. O fato dele ser um me .. membro de uma família rica e poderosa me preocupou. Mas, o David provou ser um sujeito confiável. Sensato. Conciliador. O oposto da esposa. A Violet é passional. Explosiva. Parece frágil, mas vira bicho para defender o marido e o filhote.

- Então, ela é das minhas. E o Samuel? Falou com ele?

- Falei. Tivemos uma conversa franca sem a presença dos pais adotivos. O garoto é marrento. Sabe se impor. Gostei dele. E, agora que me conhece, não vai estranhar tanto se eu aparecer no futuro.

- Obrigado, Dean. Por tudo.

- Foi um prazer ajudar, Krissy. Essa experiência foi importante para mim também. Me ensinou muito sobre a relação entre pais e filhos.

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- Você ainda não está aqui para me escutar, mas ouvir minha própria voz faz com que eu me sinta menos sozinho. Faz vinte anos que eu enterrei seu corpo aqui, no local exato onde surgimos depois de fazermos juntos a travessia de volta. No ponto onde a barreira é mais frágil.

- Pelo menos aqui, neste fim de mundo, tudo permanece igual. Intocado. Aqui parece que o tempo não passou. Essa névoa úmida, os ruídos da mata .. É bom saber que nem tudo mudou.

- Agora é escavar e torcer para estar tudo como eu deixei anos atrás. O eclipse lunar começa em três horas. Tive que esperar nove meses e, mesmo assim, para um eclipse apenas parcial. Se não funcionar, será preciso esperar mais oito anos até termos um eclipse total nesta região e eu não sei se tenho esse tempo todo. Algumas pessoas já estão me dando vinte e cinco anos de idade. O lado bom é que não faltam garotas na minha cama e a minha disposição é a de um adolescente. O lado ruim é que em breve não vou poder mais pedir bebida alcoólica num bar.

- Aaahh! Que cheiro medonho! Sorte sua que eu trouxe roupas novas. Essas aí a gente vai queimar. Cinquenta minutos. Agora é só um pouco mais de paciência e você vai estar sacudindo esse velho esqueleto. Está bom! Eu sei! Admito que essa foi péssima.

- Agora vou cobrir o terreno ao redor do túmulo com essa lona onde eu fiz um recorte no formato de um caixão bem no centro. Você tem que concordar que essa foi uma grande sacada. Eu precisava de uma superfície para desenhar os símbolos místicos. Eu testei e essa lona absorve bem o sangue. E eis aqui o sangue que eu trouxe para o nosso ritual.

- Sangue de virgem. Você não imagina como é difícil encontrar virgens maiores de idade hoje em dia. Foi preciso adaptar. O sangue não é de nenhuma bela e angelical menina entrando na puberdade. Entenda que hoje em dia bastaria alguém levantar a suspeita de eu tirei intencionalmente uma gota de sangue de uma inocente garota de treze anos, para eu ser considerado um monstro. Não importa o que eu dissesse. Eu seria acusado de crime sexual e só com muita sorte escaparia de ser linchado ou de sofrer castração química. Eu seria preso, condenado e jogariam fora a chave da cela. Desculpe, velho amigo, mas achei melhor não arriscar. O sangue é de um nerd de vinte e um anos que se encantou pelo meu charme viril e pelos meus belos olhos verdes. Eu o convenci a ir comigo numa clínica para doar sangue e, de noite, eu voltei e roubei a bolsa.

- Agora eu derramo o sangue do gayzinho sonhador no pote onde está o SEU sangue e temos a mistura do sangue de um habitante do Purgatório com sangue de virgem. E, na sequência, uso o sangue para desenhar os símbolos místicos.

- Sempre foi minha intenção trazer você de volta um dia. Quando eu cortei a sua cabeça, eu recitei um feitiço que capturou um fragmento da sua alma. E usei vários desses panos de limpeza de alta capacidade de absorção para reter a maior parcela possível do seu sangue. Os panos encharcados de sangue ficaram esse tempo todo guardados em potes de vidro muito bem lacrados. Um deles eu deixei aqui, ao lado do seu corpo. O outro eu enterrei na ilha dos vampiratas. E o facão que eu usei para matá-lo, ainda sujo do seu sangue coagulado, eu deixei no bunker.

- Os símbolos estão desenhados. Agora é esperar o momento certo para recitar o feitiço que vai abrir um portal para o Purgatório. Como o portal que o Castiel abriu anos atrás. Com a diferença que, desta vez, a sua alma será a única a atravessar. Sua alma será atraída pelos seus restos mortais reconstituídos pelo meu sangue.

O eclipse começa e Dean usa sua faca com lâmina de prata para fazer um corte no braço. Dean recolhe o próprio sangue numa tigela e o derrama com cuidado sobre os ossos no interior do túmulo. O sangue humano é absorvido pelos ossos do vampiro e tecido vivo volta a se formar e a recobrir o esqueleto com carne e sangue. Com o elipse em seu ápice, Dean recita o feitiço e por breves segundos o portal se mantém aberto.

Enquanto aguarda o resultado da sua última loucura, Dean pede a Chuck que faça que tudo saia como planejou.

- Dean? Você me trouxe de volta? Por quê?

- Senti saudades. Bem-vindo de volta, .. Benny.

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: UM ABRAÇO ANTES DE MORRER


ESCLARECIMENTOS:

1. O pop rock Sunny in California foi lançado em 2002, pelo grupo Aberdeen, no álbum Homesick and Happy to Be Here.

2. O vampiro Benny Lafitte é personagem recorrente da temporada 8. Benny aceitou o pedido de Dean para que voltasse ao Purgatório e resgatasse Sam. Isso acontece no episódio 8x19 (Taxi Driver).


23.10.2017