DEAN & FILHO
SUPERNATURAL ALTERNATIVE UNIVERSE
CAPÍTULO 9
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AGORA
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- Quantos anos desde que .. me pediu aquele favor?
- Vinte anos, Benny.
- Vinte? Pareceu toda uma eternidade. Só que .. Olhando para você .. não parece ter passado tanto tempo assim.
- Essa é uma longa história.
- Uma longa história que eu faço questão de escutar. Você me conta no caminho. Reconheço esse lugar. O mesmo da outra vez. É uma caminhada e tanto até o carro e mais uma hora de carro até o primeiro posto de gasolina.
- Essa é uma das mudanças que vai precisar de um tempo para se acostumar. Até hoje eu falo em 'posto de gasolina', mas .. postos de gasolina de verdade hoje são raríssimos.
- Sério?
- Seríssimo. Hoje praticamente toda a frota é composta por carros elétricos. Mesmo os caminhões são elétricos.
- Não acredito que o Impala foi finalmente aposentado. Como está se virando sem ele?
- A adaptação não foi fácil. Eu gosto de dirigir. Sempre gostei. Geralmente vou no modo manual. Mas, é possível programar o carro e ele segue sozinho até o destino escolhido. Você reclina o banco e esquece. Fecha os olhos e pensa na vida. Dá até para dormir a viagem inteira.
- Vinte anos e os carros já andam sozinhos? Só vou acreditar vendo.
- Breve você vai conhecer minha garota.
- Garota?
- O Impala era o meu bebê. Forte, robusto, linhas retas. Um bebê macho. Esse novo tem curvas. Curvas suaves e aparência frágil. Aerofuncional. É como dizem na propaganda. Não dá para pensar nela no masculino. E também não pegava bem eu ficar falando o "meu garoto". Iam achar que estava falando de .. um filho .. ou coisa pior.
- Você tem? Filhos?
- Essa é outra longa história. Aqui! Toma! Bolsas de sangue para o caso de estar com sede. Beba quantas quiser. E aqui tem uma muda de roupas. Essas que está usando estão literalmente cheirando a túmulo.
- Ahhhh! Maravilha! Eu tinha esquecido o quanto sangue humano é saboroso. E essa sensação de sentir-se revigorado e saciado? Há séculos que não me sentia tão bem. No Purgatório, eu bebia o sangue daqueles monstros todos, mas .. Engraçado! Não consigo lembrar que gosto tinha. Beber era algo .. mecânico. Matar, beber o sangue e seguir em frente. Isso repetido milhares de vezes. Não havia prazer. O sangue .. não saciava a sede.
- Quando eu voltei do Purgatório, descobri que não me lembrava do gosto das coisas que comia e bebia por lá. Talvez não tivessem gosto. O Purgatório não é um plano material.
- Essas roupas .. Parece que não estou vestindo nada. Que tipo de tecido é esse?
- É silkiron. A versão sintética do fio da teia de aranha. Leve e resistente.
- Começo a acreditar que passaram-se mesmo vinte anos.
- Me ajuda a limpar essa bagunça. Uma parte a gente queima e o resto a gente enterra. É importante não chamar atenção para esse lugar. Podemos precisar voltar aqui no futuro.
- Esse facão na sua mão .. Corremos o risco de sermos atacados?
- Não. As coisas andam bem tranquilas. É um dos motivos que me animaram a trazê-lo de volta.
- Se somos apenas eu e você .. Por que está segurando um facão?
- Não está achando .. Benny, se eu tivesse alguma dúvida - por menor que fosse - teria simplesmente deixado você lá.
- Fala a verdade, Dean. Você ficou um ano naquele lugar amaldiçoado e sabe muito bem como é. E, você mesmo disse que, desta segunda vez, foram vinte anos. Vinte anos no tempo da Terra. Lá parece ser muito mais. Não há descanso. Foram vinte longos anos lutando, matando, fugindo e me escondendo. Isso mexe com a cabeça da gente. Não tem medo que eu tenha voltado mais .. selvagem?
- Benny, você estava há décadas no Purgatório quando eu te conheci. Sem qualquer perspectiva de sair de lá. Eu cheguei e criou-se a possibilidade de sairmos os dois. Eu precisava de você para chegar ao portal. Você precisava de mim para atravessá-lo. Nós tínhamos um objetivo em comum, mas nenhum motivo para um confiar no outro. Eu poderia ter arriscado e tentado achar o portal sozinho ..
- Nunca teria encontrado.
- Quem sabe? Mas, fico contente de não ter arriscado.
- Eu conhecia o lugar e, mesmo assim, levamos um ano para chegar.
- Não é esse o ponto. Foi bom não ter tentado sozinho .. porque nunca me arrependi de ter confiado em você.
- Você sabia que eu não tinha escolha. Não fazia sentido traí-lo. Eu teria que ir até o fim. Você era o único que podia me tirar de lá.
- É verdade que você dependia de mim e que precisava ganhar minha confiança. Mas, uma coisa é alguém querer minha confiança e outra, muito diferente, é conquistá-la. Eu sou um caçador. Sou desconfiado por natureza e por profissão. Muita gente me decepcionou antes. Você não me fez promessas. Apenas foi correto. Foi leal. Isso nota-se nos pequenos detalhes. Eu sempre confiei nos meus instintos e eles me diziam para confiar em você. Contra todo o bom senso e toda lógica racional. Você se mostrou digno da minha confiança. Não acredito que isso tenha mudado.
- Se realmente acredita no que está dizendo, vem aqui e me dá um abraço.
- Você quer .. uma prova?
- Apenas um abraço! Um abraço de verdade. No meu tempo era assim que dois velhos amigos faziam quando se reencontravam depois de vinte anos. Eles sorriam e se abraçavam. Essa é mais uma das coisas que mudaram nestes vinte anos?
- Não, Benny. Isso não vai mudar nunca. Você merece esse abraço.
Dean deixa o facão cair de sua mão. Tira das costas a faca de caça que usara para sangrar o próprio braço e lança-a contra uma árvore próxima. Respira fundo e, com um sorriso esboçado no rosto, caminha desarmado e com o coração aberto na direção de Benny.
Benny sorri e faz crescer as fileiras de dentes pontiagudos.
- É hora de descobrir se a sua fé em mim é justificada.
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NOVE MESES ANTES
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Dizem que conflitos e desejos reprimidos pela mente consciente são trazidos à tona pelo subconsciente na forma de sonhos.
Os sonhos induzidos pela toxina do djinn foram perturbadores. Mas, não era para ser assim. Era para serem sonhos felizes. O subconsciente de Dean deveria ter criado cenários onde tudo fosse perfeito e harmônico. Uma bela esposa e uma transa épica. Ou um almoço das famílias Winchester e Campbell para comemorar as bodas de ouro de John e Mary. Ou uma pescaria no lago com o irmão, os dois rindo e falando bobagens.
Ao invés disso, seu subconsciente lhe mostrou futuros em que se via obrigado a encarar as consequências das suas atitudes com aqueles que poderia ter chamado de filhos.
Emma era uma estranha com quem convivera por poucas horas. Produto de uma transa de uma única noite. Aproximara-se de Dean apenas para matá-lo de forma traiçoeira. Morrera antes que tivessem tempo de estabelecer qualquer vínculo afetivo de parte a parte. Uma filha acidental que Dean não tivera oportunidade de conhecer.
Rhodes também era o resultado de uma transa de uma única noite. Se a mãe não tivesse sido assassinada e se Sam não tivesse morrido naquela exata semana, talvez Dean nunca soubesse da existência desse filho. Mas, quis o destino que soubesse e fosse forçado a escolher. O filho era uma realidade, mas conviver com ele era uma escolha. Escolhera deixar que fosse criado por estranhos. Uma escolha cujo acerto questionava em momentos de solidão.
Qual é a responsabilidade de um homem fora de um relacionamento com filhos que não planejou? As mulheres gostam de dizer que não fizeram o filho sozinhas. Mas, e quando o tal filho foi resultado de uma ação premeditada e abusiva da mulher? Porque foi isso o que aconteceu. Fora usado por mulheres que queriam gerar filhos com objetivos que eram só delas. Objetivos que o excluíam.
Mesmo assim, essas crianças tinham seu sangue. Crianças que nunca foram ou que já não eram mais crianças. Mesmo que fosse agora ao encontro do filho, muito da experiência da paternidade já teria se perdido.
Morreria mil vezes por Sam. Porque Sam era seu irmão. Porque eram irmãos DE SANGUE. É fato que tinham o mesmo sangue. Mas, sabia que isso não explicava seu comportamento obsessivo em relação ao irmão. Não era coerente com outras atitudes suas. Dean tinha as mãos sujas do sangue dos seus. Não movera uma palha para libertar o meio-irmão Adam Milligan do Inferno. Teria matado o avô Samuel Campbell se Sam não tivesse feito isso antes. Seu plano irresponsável para libertar Sam custara a vida do seu outro avô, Henry Winchester. Matara a prima Gwen possuído por um verme khan. E, em todos esses casos, apenas lamentara e esquecera.
Laços de sangue são assim tão importantes?
O que dizer do filho que, por um tempo, aceitara como seu? O filho que SUSPEITAVA ser seu? Pedira a Castiel que apagasse as memórias que o garoto tinha dele. Fizera isso para protegê-lo de Crowley. Será?
Por que nunca tentara acabar com aquela dúvida? Uma dúvida reavivada agora pelo sonho induzido pela toxina do djinn. Por que nunca fizera um exame de DNA para confirmar se Benjamin Braeden era realmente seu filho?
Sacrificara seu anseio de paternidade em nome da segurança dos filhos ou apenas usara a segurança deles como desculpa para fugir da responsabilidade pela criação dos próprios filhos?
Seu pai, John, soubera conciliar a criação de dois garotos com a cruzada contra o demônio que lhe roubara a esposa. Não entregara os filhos para a adoção. Era isso que gostaria que John tivesse feito? Preferia ter crescido seguro num lar adotivo? Teria sido mais feliz sem as regras rígidas e as responsabilidades que John lhe impunha? Poderia ter sido feliz crescendo longe do irmão?
Não tinha mais todo o tempo do mundo pela frente. Sua consciência da própria finitude ficava cada dia mais forte. Os velhos sentem que seu tempo está acabando. Não estava envelhecendo, mas sentia seu tempo se esgotando. Precisava repensar suas prioridades. Ainda havia tempo de refazer suas escolhas?
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Para a comunidade de caçadores, Dean era um lobo solitário. Um caçador das antigas, refratário às novas tecnologias e às mudanças da sociedade. Alguém que inexplicavelmente sobrevivia longe das redes sociais. Afastado das únicas pessoas que podiam verdadeiramente entendê-lo e apoiá-lo: a comunidade dos caçadores.
Não podiam estar mais enganados. Há muito que Dean assumira o papel que um dia fora de Bobby e depois de Garth. Não era quem fazia as pesquisas nem quem atendia as ligações para confirmar os álibis dos caçadores, mas atuava nos bastidores e sabia tudo o que estava acontecendo com cada um deles. Um segredo que poucos conheciam. Poucos, não. Uma pessoa.
Dean tinha vários agentes de campo. O principal, o único que conhecia a fundo as engrenagens da organização montada por Dean e a verdadeira posição dele na hierarquia da organização, chamava-se Timothy Conroy. Tim ficara órfão ainda menino e o fantasma de sua mãe, querendo protegê-lo de tudo e de todos, estava matando pessoas. Dean ganhou a confiança de Timmy e o fez convencer a mãe a seguir para a luz.
- Benjamin Braeden.
- O que quer que eu descubra sobre ele?
- Tudo.
- Quer que mande um dos nossos cuidar dele?
- Não. Não se trata de uma caçada. Trata-se .. de um assunto pessoal.
- Quer que investiguemos também a família e os amigos?
- A família dele resume-se à mãe. Deixe-a fora disso. Se ele estiver em um relacionamento fixo, pegue informações da garota e da família da garota. Identifique os amigos mais chegados, mas não é necessário investigar a fundo suas vidas. Apenas o básico.
- Amanhã já terei essas informações.
- Obrigado, Timmy. Fico no aguardo.
- Você manda, chefe!
- Espera. Última forma. Consiga uma amostra para análise de DNA. Mande alguém de confiança. E me mande dados atualizados sobre o Rhodes. Os últimos que tenho são de seis meses atrás.
- Essa é fácil. Pronto. Já estou transferindo as informações sobre o Rhodes da semana anterior à sua ida para Chicago até ontem à noite.
- Obrigado.
- Fique tranquilo, chefe. Eu fiquei de olho nele. Seu garoto está ótimo.
- Ele não é 'MEU GAROTO'. Mas, .. obrigado.
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AGORA
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- A sua garota tem nome?
- Tem. Eu sussurro o nome dela para o computador de bordo, usando um tom sensual, nos nossos momentos de intimidade. Já para você e o resto do mundo é apenas 'A Garota do Dean'.
- Entendi. Carro de amigo meu para mim é homem.
- E ai de quem tente se engraçar com ela. A minha Garota sabe se defender. Se não for eu a dar partida, o abusado é posto para dormir em dez segundos por uma descarga fulminante vinda diretamente das baterias que alimentam o carro.
- Dean, quando esse estoque de sangue acabar ..
- Será reposto. Fica tranquilo, Benny. Vai sempre ter sangue disponível na quantidade que você precisar. Pode até escolher seu tipo sanguíneo e o fator Rh preferido. Se apreciar sangue de uma determinada procedência, usamos o QR code da bolsa para pedir mais desse sangue específico.
- Fácil assim?
- É sangue humano. Mas, não é extraído de humanos. É sangue clonado, produzido em escala industrial em laboratórios farmacêuticos. Existem unidades no país inteiro e a operação toda é gerenciada .. por vampiros.
- Sério isso?
- Pois é. São outros tempos. O clã vampiro de Chicago financiou a pesquisa e patenteou o processo. Depois, abriu uma empresa regular e montou as unidades de produção e toda a rede de distribuição. Alguns executivos e os empregados podem ser humanos, mas as decisões corporativas são dos acionistas vampiros. Oficialmente, a produção é em pequena escala e o sangue destina-se a hospitais e clínicas humanas. Mas, a maior parte da produção, cerca de 80%, é desviada para o mercado negro. Alimenta uma rede clandestina que reúne vampiros traficantes e consumidores vampiros nas principais cidades americanas.
- E assim os vampiros param de atacar pessoas. Deixam de ser uma ameaça.
- Seria ótimo se fosse assim. Mas, muitos vampiros proclamam-se tradicionalistas e seguem matando. Os caçadores ainda são necessários.
- Acredita ser possível que vampiros se integrem à sociedade humana no futuro?
- Se me perguntassem isso há vinte anos, minha resposta seria não. Mas, estamos aqui conversando, caçador e vampiro, e nos consideramos amigos. Estive em Chicago e lá participei como convidado da festa de bodas de prata de um metamorfo e uma lobiswoman. Na festa, havia metamorfos, lobisomens, djinns, vampiros e ghouls. Se eles aprenderam a conviver civilizadamente entre si e estão buscando alternativas para se alimentarem sem fazer vítimas humanas, talvez um dia festas como aquela tenham mais convidados humanos.
- Então, Chicago é uma utopia para monstros.
- Monstropia? Ainda não, mas deram os primeiros passos nesta direção.
- Os caçadores vão permitir?
- No que depender de mim, e acredite quando digo que minha opinião conta, daremos a eles um voto de confiança. Mas, ficaremos de olho.
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- Seus documentos.
- Benjamin Munroe, filho de .. Elizabeth Lafitte-Munroe .. nascido em 28 de janeiro .. de 2000?
- Parabéns! Você é agora oficialmente filho da sua bisneta e de um rapaz que morava a duas quadras da casa dos pais dela. Um autêntico representante da geração Z.
- Elizabeth ...
- É falecida. Ela e o marido morreram num acidente de carro em 2021. Meus pêsames. Lembro-me bem dela. Sua bisneta era uma bela mulher.
- No sentido de uma mulher boa?
- Também. O rapaz que os documentos dizem ser seu pai morreu no Iraque em 2003 e não sabemos se ele e Elizabeth realmente se conheceram. O ideal seria você ser de 1995, mas seria estranho Elizabeth ser uma mãe tão jovem.
- Ela teve filhos? Me restou algum descendente vivo?
- Não que eu saiba. Creio que você é o seu único trineto.
- Não é justo. Um homem não deveria viver mais que a sua bisneta só para descobrir que sua linhagem foi descontinuada. Que sua marca no mundo foi apagada.
- Desculpe! Esqueci o quanto você é ligado neste lance de família. Por isso você ter procurado a Elizabeth quando retornou da primeira vez.
- Eu queria protegê-la. Ela era a única família que me restou. Agora, eu não tenho ninguém.
- Elizabeth não teve filhos. Mas, talvez haja alguém em outros ramos da família. O sobrenome Lafitte pode ter sido suprimido no casamento de suas descendentes mulheres.
- Está dizendo que só consegui rastrear Elizabeth porque ela seria a única da minha linhagem exclusivamente masculina?
- Benny, eu tenho à minha disposição os melhores especialistas que o dinheiro pode comprar. Se você tiver algum descendente vivo, nós vamos encontrá-lo.
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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: COMENDO O MORTO
ESCLARECIMENTOS:
1. Elizabeth, bisneta de Benny, aparece no episódio 8x09 (Citizen Fang). A personagem é interpretada pela atriz Kathleen Munroe.
2. Timmy (agora Timothy Conroy) conhece os Winchester no episódio 9x07 (Bad Boys). O personagem é interpretado pelo jovem ator Sean Michael Kyer.
3. O costume americano é a mulher adotar o sobrenome do marido e os filhos apenas o sobrenome do pai.
05.11.2017
