Dilemas Internos
"Engraçado... Isso dói muito, mas não é o que dói mais... Como todo mundo pôde se virar contra mim assim? Nem me deixaram nem falar! Nem mesmo o Tai, que era um dos meus melhores amigos!".
Com a mão segurando um saco de gelo, Davis estava sentado no refeitório do hospital. O local estava vazio a essa hora, o almoço já encerrado há muito tempo, mesmo que um leve resquício de seu cheiro continuasse pairando o ar. Numa pequena mesa circular, ele se encontrava no canto oposto à porta, um pouco longe do balcão em que uma moça de quase 20 anos, cabelos ruivos e óculos, estava mexendo no celular, sem prestar atenção ao líder dos digiescolhidos.
-AH, MAS QUE SACO! - grita Davis, batendo na mesa com força. Ele percebe que assusta a menina, que quase derruba o celular - Desculpa se te assustei...
Ela sorri para ele, como se dissesse "Já estou acostumada com pessoas que estejam chateadas", e volta para o que fazia.
-Esse saco está quase sem gelo já... - uma voz vem de detrás de Davis, assustando o rapaz. Ele vê Ken parado, olhando para ele, segurando outro saco de gelo, muito mais sólido e muito menos vermelho do que o do ruivo.
-Ah, obrigado... - Davis coloca o saco, o gelo já derretido, que segurava na mesa e pega o que Ken segurava, colocando-o sobre o roxo que se espalhara pela maçã do rosto até embaixo da boca, como se fosse um vírus se propagando em sua face, poluindo seu semblante.
-Posso me sentar? - quando o ruivo acena com a cabeça, Ken se senta - Nossa, o Tai fez um estrago...
-Nem me fala... - Ken já esperava encontrar o amigo abatido, mas o fato de Davis mal olhar para ele fez com que ele ficasse surpreso - Ninguém me defendeu, Ken. Como o pessoal pode me culpar assim?
-Davis, você que namora a Kari. Lógico que eles iam pensar que foi você.
-Eu sei, mas mesmo assim... O Tai fazer aquilo... Sabe, acho que desde o começo ele não queria que a Kari namorasse comigo... Ele sempre preferiu o TK.
-Davis... - Ken tenta interromper a tristeza do amigo, mas Davis parecia estar numa realidade separada da dele; o próprio fato de Davis falar o nome de TK certo já fez com que ele se preocupasse mais ainda, quase sem notar os olhos dele ficando opacos.
-Ele só me aceitou porque o TK já tava namorando. Eu fui o "prêmio de consolação" pra ele...
-Davis, não acredito que seja isso. O Tai tava confuso, só isso, não quer dizer que ele acha que você é a segunda opção da Kari.
-Ken, fala a verdade... - o ruivo olha para Ken com os olhos vazios, sorrindo com um sorriso sem alma - Quem você acha que a Kari ama de verdade? Eu ou o TK?
O digiescolhido da Bondade fica cada vez mais assustado com a forma com que Davis se encontrava. Ele em nada parecia com o seu melhor amigo, alegre, pró-ativo, enérgico; parecia desprovido de alma, vazio por dentro, seus olhos opacos e sem vida.
-Bom, Davis, o que eu sei é que a Kari escolheu você pra namorar, não o TK. Então acredito que isso fale por si só.
-É... Espero que você esteja certo...
Davis se levanta, logo seguido por Ken. Ele aperta a mão do melhor amigo e fala:
-Vou ficar bem. Estou indo pra casa, já está tarde, a Jun vai me matar...
Sem dar tempo do amigo de cabelos escuros responder, Davis se vira e vai embora. Ele agradece internamente por ter sido capaz de sair do recinto antes da primeira de muitas lágrimas caírem.
...
-Meus pais... Vão tirar a Kari de Odayba...
TK, Cody e Yolei ficam perplexos pela fala de Tai. Era evidente que os pais deles estavam chateados, mas chegar a esse ponto parecia um verdadeiro exagero para eles.
-Eles vão falar com meus tios do interior... Quando o ano escolar dela acabar, eles vão levá-la daqui.
-Mas... Por que algo tão drástico? - pergunta Yolei, embasbacada pela notícia.
-Eles acham melhor afastar a Kari do Davis o mais rápido possível... - fala Tai, visivelmente em choque - Não... Não tem o que fazer...
"Isso... Isso tem que ser mentira... Não pode tá acontecendo... A Kari... Vai embora?!". TK se sentia incapaz de se sustentar, sentindo seu mundo desmoronando pouco a pouco, pedaço a pedaço. Totalmente incapaz de pensar o quão longe as consequências de seus atos o levariam, sua alma cada vez mais sucumbia ao desespero.
-Com licença, eu tenho que ligar pra Mimi...- fala Tai, ainda catatônico - Vou precisar do carro dela pra levar a Kari daqui...
Em passos largos e desalinhados, Tai anda até uma área mais afastada do corredor. O trio de amigos se afastam, permitindo que o primeiro líder dos digiescolhidos, em sua dor, passasse por eles.
Depois que o mais velho não podia mais ser visto, eles olham para o interior do quarto. Eles veem Kari, olhando para a frente, inerte em seus pensamentos. Ela apertava os lençóis com força, ainda com os olhos cobertos por lágrimas.
-Gente, vão embora - fala TK, sentindo sua boca se mexer por vontade própria - Vou ficar aqui com ela. Vocês precisam descansar.
-Tem certeza, TK? Eu posso ficar - se voluntaria Yolei, mas o loiro não aceita discussão.
-Não, eu tenho certeza. Vão, vou ficar bem.
-Certo... Cuida bem dela - fala Yolei, se despedindo do loiro. Cody também vai embora. Ao ter certeza que os dois estavam longe, TK entra no quarto e fecha a porta, trancando-a.
Kari vira para ele, percebendo quão abatido ele estava.
-Você está melhor? - pergunta TK, ainda incapaz de encarar Kari com naturalidade - Eu fiquei sabendo que seus pais falaram...
-Eu... Estou me conformando... - fala Kari, sob um véu de tristeza e dor.
-Olha, Kari - o loiro se aproxima da amiga, segurando sua mão - Eu não tenho como não pensar que...
-Por favor, TK, não... - Kari puxa sua mão, colocando-a próxima ao peito logo depois - Eu não consigo suportar que as pessoas se preocupem mais comigo... Sem dizer que prometemos não falar mais nisso.
-Mas, Kari! Isso mudou! Não podemos mais ignorar isso quando você pode estar esperando um filho meu! Essa chance existe, não importa que fazermos, não importa que falarmos! - TK então abaixa a cabeça, depois continua - Eu vou falar com o Tai, preciso assumir a responsabilidade... Se há essa possibilidade, ele tem que saber!
-Não, TK! - fala Kari, olhando para seu melhor amigo - Por favor, não. Não quero envolver mais ninguém nisso!
-Kari, se for por minha causa que você está passando por isso, não tem como eu ficar quieto! Se o filho for meu...
-TK! Por favor, para... - Kari começa a chorar, enterrando a cabeça nas cobertas da cama - Eu... Não aguento mais... Por que isso tudo aconteceu? Parece que tá tudo... Desmoronando...
A perplexidade e a dor tomam conta de TK, vendo sua melhor amiga desabando na sua frente daquele jeito. Ele sempre vira Kari como uma menina forte, frágil apenas a sua maneira, mas forte, e vê-la desmoronar por completo daquela forma lhe suspende a fala.
-Por favor, TK... Vai embora. O Tai vai chegar aqui daqui a pouco. Não quero que ele estranhe você sozinho comigo aqui assim.
Mesmo que com seu coração em dúvida, TK aceita não insistir mais na ideia no momento, mesmo que determinado a tentar novamente convencê-la. Quando ele destranca a porta, ele ouve a jovem chamá-lo:
-TK, por favor, eu quero que você entenda que estou fazendo isso pra te proteger, não quero estragar sua vida também.
-Kari - TK se vira para ela, olhando-a com seriedade - A única forma que poderia estragar minha vida é se esse filho for meu e eu não estar por perto para apoiá-la.
TK sai do quarto, deixando Kari sem tempo de respondê-lo.
No mesmo dia, Kari recebera alta, sendo levada para casa por Tai e Mimi. Durante toda a noite, se sentiu uma estranha em casa, sendo tratada friamente por seus pais. Ao deitar sua cabeça no travesseiro, pouco antes de ter um sono perturbado e irregular, ela tinha uma única resolução em mente "Amanhã, tenho que ir falar com ele".
...
No dia seguinte, TK acordou com o barulho da campainha. Ao perceber a insistência do visitante, deduz que sua mãe não se encontrava em casa.
"Droga, quem é, a essa hora?" se pergunta o loiro, ao ver o quão cedo era.
...
Kari toca mais uma vez a campainha, ansiosa. Assim que acordou de algo bem menos relaxante do que um sono, se vestira o mais rápido possível e saiu. Ela aperta mais uma vez.
-Vamos, atende logo...
...
Depois de fazer uma rápida higiene, TK se aproxima da porta, falando:
-Já vai!
Ao se aproximar da porta, ele olha pelo olho-mágico, ficando surpreso. "Mas que diabos ela está fazendo aqui?!".
Ele destranca a porta, invariavelmente irritado.
...
-Kari? - pergunta Davis, surpreso por vê-la parada na sua porta. Ele estava com um grande roxo no rosto, deixando a menina se sentindo pior ao ver quão machucado ele estava.
-Oi, Davis. Posso entrar? Preciso muito falar com você.
-Cla-Claro, entra aí - fala o ruivo, deixando a namorada entrar, fechando a porta logo depois.
...
-Bom dia, TK! Como estava com saudade de você! - fala a menina parada na porta dos Takaishi. Com quase 1,6 metro de altura, cabelos negros como a noite, olhos verdes, usando uma saia preta e uma camiseta branca com desenhos negros de galhos envolvendo seu corpo, ela olha TK com um grande sorriso. Já o loiro parecia bem menos feliz em vê-la, dada sua resposta:
-O que você está fazendo aqui, Mirato?
Continua...
