Sentimento Incontrolável
O ar pesava no ambiente da sala dos Takaishi. TK e Kari se encaravam por alguns segundos, após o pedido da jovem se espalhar pelo ar como uma camada de fumaça que parecia calar a ambos.
"O que ele deve estar pensando de mim... Pedir algo assim... Ele deve tá pensando que sou...".
De repente, os pensamentos de Kari são interrompidos com um súbito sorriso de TK, que alivia o ambiente, retirando todo o desconforto do ambiente com uma simples palavra:
-Claro!
-Quê? - Kari fica surpresa, pega desprevenida com a forma com a qual TK havia recebido aquela pergunta com tanta facilidade - Você não vai discutir comigo por quê?
-Não; na verdade, isso era algo que eu mesmo tinha pensado de sugerir quando você voltasse. Eu quero assumir a responsabilidade assim que possível, é meu dever!
TK se levanta do sofá e vai até a cozinha, voltando com uma faca pontiaguda. Ele espeta o dedo indicador de leve, fazendo com que Kari se sinta culpada:
-TK! Não devia fazer as coisas assim!
-Não é por você que faço isso... - fala TK, apertando um pouco o dedo para que um pequeno filete de sangue começasse a escorrer, tomando cuidado para que não pingasse no chão.
-Então por que...
-Porque é o certo a se fazer - ele fala, pegando um papel pra secar o sangue, o pressiona por alguns segundos e depois o entrega para Kari. Ele fica um pouco surpreso ao ver que ela tira do bolso um pequeno saquinho ziplock, feito especialmente para evitar contaminação de DNA, e guarda o papel com a amostra dentro, selando-o logo depois.
-Onde você arranjou isso?
-Eu pedi pro Joe no mesmo dia que fiquei sabendo... - ela fala, tentando mencionar ao mínimo o dia em que sua vida fora completamente alterada.
-Entendo... - TK se senta ao lado dela e segura sua mão, nem percebendo que fazia - Toma cuidado, Kari, não me perdoaria que algo acontecesse com você...
-TK... - ela diz, nem percebendo que ela própria entrelaçava seus dedos com os dele.
Se lhes fosse questionado quem se aproximou primeiro um do outro, não saberiam responder. Suas mentes não estavam lúcidas no momento, focadas unicamente nos olhos um do outro, suas mentes criando uma conexão que transcendia em muito o que poderia ser colocado em palavras.
Seus corações batiam extremamente rápido, embriagados pelas suas emoções. Não importava que a razão lhes gritava o quão erradas suas ações estavam, o quanto que eles soubessem que a culpa lhes afligiria depois, o fato de estarem chegando numa nova definição da palavra "errado".
Nada importava, apenas o momento. Apenas seus olhares. Apenas a respiração deles tocando seus lábios superiores. Apenas a antecipação do momento.
Seus lábios se tocam, com suavidade. Eles estavam sem pressa; permitem que as preocupações, os arrependimentos, as dores, os problemas, que tudo que era negativo escoasse de suas mentes. Não haveria nada que poderia estragar o momento, eles tinham como objetivo único que o sabor de seus lábios se perpetuassem nas suas mentes quase sãs.
A língua do loiro é aquela que começa o avanço, e quando ela sente que ele pedia passagem, ela permite, também sem pressa. Quando suas línguas se tocam é o momento que a razão lhes abandonava de vez, só restava o desejo.
Kari se livra da manta que lhe cobria, subindo no colo do loiro e enrolando o corpo dele com suas pernas, se apertando contra o corpo dele, enrolando os dedos nos cabelos dele, pressionando com força a cabeça dele contra a dela. O corpo do loiro se arrepia ao sentir a pele ainda gelada da garota tocando a sua, mas não era algo com que ele se importasse no momento.
TK se ajusta no sofá para deixá-la mais confortável, logo envolvendo a cintura dela com os braços e a puxando com força contra si, sem se preocupar em respirar. Não lhe importava que desmaiasse a qualquer momento, não havia força na terra ou no céu que lhe obrigasse a separar o contato de seus lábios.
Alguns momentos depois, é Kari quem quebra o beijo. Ela não se afasta do rosto de TK, olhando de perto. Ela fica admirando a forma como o rosto dele estava vermelho, como ele ofegava para permitir que o ar voltasse ao seu pulmão.
Alguns segundos depois, por mais que evitasse, ela desmorona em lágrimas, enterrando seu rosto no peito de TK e manchando sua camisa de lágrimas.
-Kari! Que foi? - o loiro fica extremamente confuso com a forma como Kari mudara sua atitude. Ele coloca a mão no rosto da castanha, preocupado, apenas para ter sua mão rudemente afastada pela digiescolhida da Luz.
-Tá tudo tão confuso, TK... - ela continua com a cabeça no peito do loiro, ainda sem controle sobre as lágrimas - Eu tô tentando tanto ser forte, eu estou mesmo, mas tá tudo tão confuso... Não sei mais que é certo e errado, e às vezes parece que, pra mim, isso não importa, e é isso que me assusta mais! - ela enterra suas unhas no peito do rapaz, tentando de todas as formas colocar a grande nuvem confusa de pensamentos em ordem na cabeça - Meus pais me odeiam, o Tai não conversa comigo, o Davis... Você... Tá tudo... Tão difícil...
Kari começa a ter falta de ar e levanta, dando de costas para TK e escondendo o rosto nas mãos, completamente desolada.
-Eu... - ela começa a soluçar, incapaz de manter a fala de forma coerente - Eu nem sei... O que eu quero mais... Isso tá tão... Confuso... TK! ME DIZ QUE É CERTO, TK, POR FAVOR! EU NÃO SEI MAIS QUE FAZER!
TK desvia o olhar. Ele também não tinha a resposta para o questionamento de Kari. Tudo que ele queria ela levantar e abraçá-la com força, mas mesmo assim, ainda seria incapaz de chegar até ela. A vida dela virara de cabeça pra baixo de forma avassaladora, e nem ele seria capaz de consertar tudo.
-Sabe... Eu não queria isso... Por que tudo mudou tanto? - ela retira o rosto das mãos, olhando para frente sem enxergar nada, contemplando suas memórias - Por que tudo mudou desde que éramos mais novos? Era tudo tão mais fácil... Eu queria voltar pra aquela época... Não queria que tudo estivesse assim!
"Seu idiota! Por que você fez isso?! Por que beijou ela?! Eu sei como ela tá frágil, não devia ter feito isso! MALDIÇÃO!". Em sua própria mente, TK se via como o inimigo, como o responsável pela tormenta na qual se tornara a vida de Kari, sabendo bem a dor que ela devia estar sentindo. "Mesmo assim... Eu quero tanto chegar até ela, protegê-la, mas eu sei que não posso! Não com as coisas da forma que estão! Não com a Mirato por perto! Não sem destruir totalmente as coisas com o Davis! MALDIÇÃO! MALDIÇÃO!".
Kari consegue se controlar alguns momentos depois, esfregando os braços nos olhos, espantando as lágrimas para longe. Ainda incapaz de olhar para TK, ela diz:
-TK... Eu... Acho que vou embora...
-Kari, por favor, não vá - TK se levanta num impulso e coloca as mãos nos ombros de Kari, tentando consolá-la - Está muito tarde, você não pode sair sozinha dessa forma! Por favor, passa a noite aqui, eu posso dormir no sofá e...
-TK - de repente, a voz de Kari estava séria; ela fazia um esforço hercúleo para tentar se controlar - Eu sei que você quer me ajudar, mas sabe que não consigo passar a noite aqui... Se eu fizer isso, as coisas podem se complicar ainda mais...
O digiescolhido da Esperança fica chocado com a fala de Kari. Mesmo que ele soubesse que o objetivo dela era evitar mais dor, ainda assim era difícil ouvir aquelas palavras. "O que eu dizer e fizer agora pode mudar tudo daqui pra frente..." concluiu o jovem, percebendo o quão grave a situação estava ficando.
Relutantemente, ele afrouxa suas mãos dos ombros de Kari, fazendo com que ela feche os olhos, tentando controlar as lágrimas que em breve cairiam. Entretanto, as lágrimas cessam quando ela sente os braços dele envolvendo seu pescoço, o corpo dele encostando no seu e o sussurro em seu ouvido:
-Por favor, não vá... Confie em mim, não vá embora, passe a noite aqui. Se algo acontecer com você, vai ser muito pior...
As barreiras de Kari se desfazem por completo, fazendo com que ela comece a chorar ainda mais. Ela apenas balança a cabeça em um "sim", sem responder.
Quando ela se recupera, TK encaminha ela até seu quarto e lhe entrega a chave da porta, para dar mais privacidade pra garota. Naquela noite, tanto TK quanto Kari tiveram dificuldades para dormir.
...
Dois dias depois...
Um enorme pilar branco irradiava luz em uma caverna, uma brilhante luz que afugentava qualquer tipo de sombra que pudesse existir. Ela dava sua luz para enormes círculos de jardim concêntricos, unidos por quatro listras de um tapete de flores enorme e largo que se cruzavam bem no centro da torre.
Essas listras floradas separavam quatro grandes áreas de terra vermelha, que quase cintilava num tom rubi pela luz da grande torre. Nessas áreas, quatro grandes entidades discutiam, testemunhados pela grande estrutura em sua frente.
-Os digiescolhidos de todo o mundo não agiram ainda... - fala uma grande ave vermelha, cujas penas pareciam ter uma luz própria.
-Talvez, dessa vez, nós tenhamos que agir diretamente - comenta um grande tigre branco, cujas garras se alongavam pelo chão - O conflito direto está se tornando inevitável!
-Acredito que o melhor seja escolher um grupo seleto de digiescolhidos e fechar o Digiportal, para evitar que a situação se deteriore ainda mais - conclui uma grande tartaruga, com uma frondosa árvore em seu casco.
-Está na hora de chamar os pupilos diretos de Gennai. O Digimundo precisa de seus Digiescolhidos! - fala um grande dragão branco com correntes em seu corpo e um grande chifre em formato de raio no centro de sua testa.
E a guerra contra as Trevas Eternas finalmente começa...
...
Mesmo após a noite na casa de TK, os digiescolhidos da Esperança e da Luz ainda eram incapazes de ficar próximos um do outro sem desconforto. A situação estava entre eles se deteriorava a cada dia.
Eles haviam se tornado incapazes de sequer prestar atenção na aula daquele dia, algo que não passou desapercebido pela professora, uma mulher de quase 30 anos com um jaleco branco sem bolsos e cabelos ruivos. Quando a aula se encerra, ela fala:
-Takeru Takaishi, Kari Kamiya e Davis Motomiya, fiquem aqui, gostaria de ter uma palavra com vocês. O resto, podem ir para o intervalo - quando todos saem, ela se vira para os três, ajeitando seus óculos finos - Uma vez que durante a aula vocês estavam tão concentrados, acredito que seja melhor vocês passarem o intervalo fazendo uma redação sobre a matéria que foi dada... E antes de pensarem em protestar, agradeçam que não seja pela semana inteira! Comecem!
Como foi decretado pela professora, eles começam sua tarefa. Alguns minutos depois, TK e Kari ouvem Davis dizer:
-Tô indo no banheiro! - ele fala, seco. TK estranha o fato dele não se despedir apropriadamente de Kari, mas decide não falar nada a respeito. Tentando quebrar o silêncio constrangedor entre ele e Kari, ele tenta começar um assunto, sem tirar os olhos do lápis:
-Que seus... - de repente, as palavras morrem na boca dele. Kari olha para ele, curiosa.
-Quê? - ela responde, percebendo que ele tentava começar uma conversa.
-Que seus pais disseram quando você voltou?
-Ah, o Tai disse pra eles que eu tinha passado a noite na Mimi, por isso que eu não voltei depois do colégio.
-Hum... E que o Tai disse sobre você ter vindo.. - ao perceber que ele diria, Kari fala mais rápido.
-Eu não contei... Eu disse que passei uma noite no Digimundo, pra tentar colocar a cabeça em ordem. Ele brigou muito comigo por ter feito isso assim, mas não insistiu muito... Mas ele ficou realmente bravo pelo Davis...
-Hum? - TK larga seu lápis e se vira pra ela, receoso do que estava por vir - Ele ficou bravo pelo quê?
-É que eu... Eu terminei com o Davis ontem a tarde...
De repente, um sentimento estranho toma conta de TK. Ele não sabia dizer se era raiva ou culpa, mas ele se levanta e fala, olhando diretamente pra castanha:
-Kari, você não terminou com o Davis por que... - TK toma coragem antes de conseguir proferir as últimas palavras, como se temesse que dizê-las fosse tornar o fato menos verdade - Por que você pode estar esperando um filho meu, não é?
Antes que Kari fosse capaz de responder, eles ouvem a porta ser aberta. A pessoa que a abrira estava com o rosto vermelho e seus olhos cobertos por lágrimas. O suor escorria pela sua testa, encharcando seus cabelos vermelhos. Mesmo coberto por luvas, era evidente com quanta força que seu punho estava cerrado. Com uma máscara de raiva, mágoa e dor, Davis só é capaz de falar:
-Então... Foi você mesmo, TK... Como pôde fazer isso comigo, cara...
Continua...
