Laço Quebrado!
-A GENTE TEM QUE FAZER ALGUMA COISA!
O rugido do digiescolhido da Coragem é seguido por seu punho batendo na cama, um ato de frustração e nervosismo que pouco lhe serve de alívio.
-Já faz quase uma semana que mataram o Gennai e ainda não fizemos nada! - ele protesta, evidentemente nervoso - Se continuarmos assim, quem matou ele vai fugir e não vamos ter como vingá-lo!
-Você está certo, Tai, mas... Não temos como fazer nada agora - lembra Sora, evidentemente abatida, sem olhar para o líder, tentando se concentrar nas mãos do namorado, incapaz, como os outros, de encontrar uma solução.
-Ela tá certa, não consegui até agora nenhum contato com nossos digimons, e ir lá sem eles ia ser loucura.
-Mas, Izzy, se continuarmos esperando...
-Tai, todo mundo tá querendo mesma coisa que você, mas não podemos agir com cabeça quente - fala Matt desanimadamente. Em condições normais, ele iria cair em cima de Tai por ele querer agir tão imprudentemente, mas ele próprio estava afogado em sua própria frustração e impotência para fazê-lo.
Os digiescolhidos da Coragem, Amor, Sabedoria, Sinceridade e Amizade haviam marcado de se encontrar na casa do líder para debater sobre como agir para salvar o Digimundo, mas qualquer curso de ação parecia ser impossível sem eles conseguirem entrar em contato com seus parceiros.
-E ainda temos que fazer algo em relação ao TK e a Mirato -fala Izzy, colocando a mão na cabeça, a coçando - Ela com certeza ainda vai querer ir pro Digimundo com a gente.
-Verdade, a cara que ela fez quando o Tai falou que ela não iria não é a de alguém que aceitou isso de boa - comenta Mimi, olhando pros amigos, tentando pensar em algo que fosse útil para ajudá-los, mas a barreira imposta pela ausência de seus amigos era intransponível.
-Eu não ligo pro que a Mirato quer - cospe Tai, ainda sentindo o sangue ferver ao lembrar a forma como a garota quisera impor que iria acompanhar TK - Já temos muitos problemas pra ela querer meter o nariz lá!
"Ela parece adepta da arte de meter o nariz onde não deve" pensa rapidamente Sora, mas decide guardar o pensamento para si para não causar mais animosidades.
-Assim que ela ver o TK se reunindo com a gente ou mesmo indo pra sala de informática, vai grudar nele que ninguém vai conseguir afastá-la - menciona Matt de forma cansada, conhecendo sua cunhada o suficiente para saber como ela agiria.
-E se combinássemos com o TK? Ele com certeza daria um jeito de despistá-la...
-Eu duvido - Matt interrompe Mimi, colocando a mão no queixo de forma reflexiva - Desde que o TK voltou a namorar com a Mirato, ele vem agindo muito estranho... Acho que isso não é uma coisa que a gente poderia contar.
-Bom, ficar aqui não vai ajudar nada - Tai afirma antes de se levantar, se esticando.
-Onde você está indo? - pergunta Izzy, sentado no chão, observando o líder se levantar.
-Onde mais? Tô indo pro colégio da Kari. O diretor gosta muito da gente e com certeza vai entender se formos lá se pedirmos pra ir falar com seu irmão, né, Matt?
-Com certeza! - a ideia anima o loiro e o faz se levantar. Entretanto, o ânimo deles é logo cortado por Izzy:
-E o que vocês vão fazer se a Mirato estiver lá? Ela não parece ser burra pra não perceber o óbvio...
-Deixa que eu ligo pra Yolei! - fala Mimi, rapidamente - Ela não é da sala deles e deve ser capaz de checar isso sem que a Mirato perceba!
Quando a ligação se encerra, Mimi faz um "V" de vitória com os dedos e fala:
-Ela faltou hoje, vamos lá!
...
Os veteranos chegam no colégio de Odayba em poucos minutos com o carro de Mimi. Izzy ligara para o diretor no caminho, falando que era um assunto importante e rapidamente o diretor permitiu, ainda se lembrando de forma afetuosa das Crianças Escolhidas que salvaram o Digimundo e o Mundo Humano.
Quando adentraram o portão do colégio, se reúnem com Yolei e Cody, que os esperavam no portão.
-Vocês chegaram bem na hora, o intervalo tá quase acabando! - fala Yolei, feliz por ver seus amigos.
-O diretor Shinohara é um cara legal, ele nos disse que se precisássemos, poderíamos esperar até o fim da próxima aula e falar com ele no intervalo - comenta Izzy.
O grupo de digiescolhidos começa a subir as escadas com os outros alunos do colégio, fazendo com que o corredor ficasse um pouco apertado, mas eles continuam avançando pelos lances de escada sem se preocupar com isso, de vez em quando se acotovelando com alguns alunos.
Quando chegam no andar do segundo ano do secundário, o grupo tinha Matt e Sora na frente. À distância, o casal vê Davis parado na frente da porta de sua sala, que, estranhamente, estava aberta.
-Aquele... É o Davis? - pergunta Sora - O que ele tá fazendo parado ali?
-HEY, DAVIS!
O ruivo parece ignorar o chamado de Matt, entrando na sala alguns momentos depois. Eles estranham a forma como Davis andava, parecia cambaleante, fechando a porta após entrar.
Eles continuam andando em direção à porta, tão rápido quanto a turba de alunos que voltavam para suas salas permitia. Quando chegam a alguns metros da porta, tudo acontece de uma forma extremamente rápida.
Um agudo grito de Kari se adentra nos tímpanos de todos, tanto dos alunos quanto dos digiescolhidos. A porta da sala de aula desaba no chão, tendo sido arrancada pelo corpo de TK. O loiro bate com violência a parte detrás da cabeça contra a porta de madeira, ficando um pouco aturdido.
Antes que TK fosse capaz de se levantar, um Davis fora de controle pula sobre ele, desferindo uma sucessão relativamente rápida de socos contra o rosto do digiescolhido da Esperança, este sendo quase incapaz de reagir ao choque da agressão.
-QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO?! - grita Mimi, mortificada - VOCÊS SÃO AMIGOS, NÃO DEVIAM BRIGAR!
Entretanto, somente Izzy, que estava do seu lado, e Tai, que estava na sua frente, são capazes de ouvir seu apelo no milhar de vozes que já se manifestavam, gritando toda sorte de palavras.
Antes mesmo da porta bater totalmente no chão, uma maré de alunos parece ter varrido os veteranos para trás, gritando incentivos, sugestões e mesmo apostas na briga que presenciava, impedindo que qualquer um dos amigos de TK e Davis intervisse na briga. Mesmo o monitor do andar era incapaz de chegar até à dupla, preso na volumosa turba que se formara nos apertados corredores do colégio.
Mesmo sendo um pouco mais alto que o ruivo, TK estava totalmente imobilizado por Davis, que prendia seus braços com as pernas e jogava todo o seu peso sobre o peito do digiescolhido da Esperança, impedindo que ele se levantasse. Possuído pela raiva e pela mágoa, Davis não dava muito tempo para que TK se defendesse de seus punhos.
Demora um pouco, mas Matt e Izzy são capazes de atravessar a maré de alunos e retirar Davis de cima de TK, mesmo com ele se debatendo violentamente. O loiro não sai do chão, levantando sua cabeça e secando o sangue que escorria de sua boca em uma camada rubra que ia até o queixo.
Mimi e Yolei conseguem se livrar também, indo até Kari e a envolvendo em seus braços, mas a irmã caçula de Tai parecia estar catatônica, olhando fixo para a porta desabada no chão. Quando Tai se solta da multidão também e se coloca entre os dois, ele grita a plenos pulmões:
-QUE TÁ ACONTECENDO?! DAVIS, QUE DEU EM VOCÊ, CARA?!
-TAI! ME SOLTA! DE TODO MUNDO, VOCÊ QUE DEVIA TÁ QUERENDO BATER NA CARA DESSE LOIRO! - grita Davis, ainda se debatendo pra conseguir se livrar.
-Como assim? - Sora se aproxima, tentando entender como aquela confusão se instaurara. Ao ouvir as palavras de Davis, Tai abaixa a cabeça, olhando para o chão.
-TAI! QUER SABER QUEM ENGRAVIDOU SUA IRMÃ?! É ESSE FILHO DA PUTA QUE VOCÊS TÃO ME IMPEDINDO DE BATER!
Matt e Izzy instantaneamente olham para TK, que agora estava sentado no chão, mas ele não é capaz de olhar para eles, fixando seu olhar no chão.
-TK... Como assim... - fala Matt, estupefato - "TK... Que você fez... Por que não me contou?".
Ao ouvirem o que Davis dissera, Mimi e Yolei soltam Kari, a encarando, espantadas.
-Kari... Você não fez isso, né? - pergunta Mimi, totalmente surpreendida pela revelação, parecendo não reconhecer a menina de cabelos castanhos e trajes com detalhes cor-de-rosa que estava a sua frente.
Momentaneamente, se faz silêncio no corredor. Ao ver a gravidade do assunto, de repente faltava aos alunos ímpeto para continuar gritando e se divertindo à custa dos dois. Somente naquele silêncio que a resposta de Tai pôde ser ouvida.
Ele virara o rosto na direção de Davis, sorrindo enquanto algumas lágrimas escorriam de seu rosto. Era um sorriso amargo, cheio de culpa e arrependimento, permitindo que seu sussurro chegasse aos ouvidos de todos, especialmente ao de Davis:
-Davis, desculpa, mas... Eu sabia disso faz tempo...
Continua...
