O Novo e Destruído Digimundo!
Como tudo mudara daquela forma?
Essa era a única coisa em que o digiescolhido da Amizade conseguia pensar. Enquanto caminhava ao lado de seus amigos e irmão, Matt via como tudo que ele sempre prezara parecia ter sido corrompido.
Ele se lembrava ainda de oito anos atrás, quando fora convocado pelo Digimundo pela primeira vez, para lutar contra os Mestres das Trevas. "E eu achava naquela época que as coisas não podiam ficar piores!" ele reflete amargamente; tudo pelo que ele criara algum tipo de afeto parecia desfeito e destruído agora, tanto no Mundo Real como no Digimundo.
Olhando ao redor, ele se assustava; o lugar pelo qual andava agora em nada lhe lembrava o mundo pelo qual ele lutara. Mesmo na época em que Devimon dominava supremo, a Ilha Arquivo ainda tinha certo ar paradisíaco, com várias cores, digimons e horizontes que sempre prometiam muitas aventuras e diversões. O local que testemunhava agora mais se assemelhava a um cemitério, desolado e cinzento.
As árvores do Digimundo, outrora frondosas e verdejantes, perderam todas suas folhas; seus troncos e galhos se retorciam, enegrecidos, como mãos putrefatas tentando agarrar o céu numa eterna agonia.
O próprio terreno parecia ondular sob seus pés, adquirindo vida própria, uma grande entidade proibida que se estendia por quilômetros, desejosa de roubar os seres viventes acima. À distância, o monte Mugen se destacava no horizonte, seu cume encoberto por nuvens escuras, como se uma tempestade se assomasse no seu topo.
"E não é só isso... Parece que nem o grupo já é o mesmo". Era especialmente doloroso para o digiescolhido da Amizade ver como a união do grupo se ressecava que nem as árvores ao seu redor, enegrecida pelas mentiras e desconfianças. "E tudo começou com meu próprio irmão... ".
Por mais que tentasse pensar a respeito, Matt não conseguia entender como TK não só fizera aquilo com Kari, como também escondera dele, seu próprio irmão. Mil suposições para explicar aquilo ele fizera, e duas mil vezes elas se desfaziam totalmente em poucos segundos.
Mesmo agora, enquanto arrastava seu pé na lama negra na qual o solo se tornara, ele via a forma como TK se isolara do grupo, distante de tudo e todos, mesmo de seu próprio irmão mais velho.
"Sei que ele está sozinho, mas não consigo ir até ele e falar que está tudo bem. Não está tudo bem. Talvez nunca mais as coisas fiquem bens".
Era quase praxe que Matt brigasse feio com Tai, mas isso era a forma como a amizade deles se estabelecera: violenta, volátil, duradoura e resistente. Entretanto, a muralha que se erguera entre TK e Davis talvez jamais se desfizesse por completo, para sempre interferindo na amizade dos dois rivais.
"Isso se sobrar alguma coisa dela quando tudo isso acabar..."
...
Seguindo o caminho determinado pelos digivices, os digiescolhidos finalmente chegam ao local no qual seus digimons haviam sido marcados. Só havia um problema...
-Onde eles estão?! - pergunta Mimi, aflita, olhando para os lados.
O grupo chega a uma grande clareira aberta no meio do campo pútrido em que a Ilha Arquivo se transformara, e no centro dessa clareira estava uma grande árvore, cujo tronco recia ser tão grosso quanto a árvore no tronco de Xuanwumon; aquela era a única árvore com folhas e um tronco saudável que eles viram desde que chegaram.
-É melhor a gente achar eles logo, aqui somos alvos fáceis - fala Matt, olhando de canto de olho pra todos os lados ao redor, sentindo calafrios sempre que as sombras pareciam se mover entre as árvores.
-Mas onde que a Palmon e os outros tão? - pergunta Mimi, encarando seu digivice como se a informação nele mudasse, mas continua a mesma coisa: aparentemente, eles estavam no lugar certo.
-Isso é muito estranho... - fala Izzy, coçando seu queixo enquanto observava o digivice - Não tem como eles terem errado... - de repente, algo vem na cabeça de Izzy. Ele olha pra árvore e foca seus olhos. Ao perceber que poderia ter matado a charada, ele bate uma mão fechada na outra aberta e fala - Hey, Tai, você pode encostar na árvore?!
-Hum? Como assim, Izzy? - pergunta Tai, estranhando o pedido do ruivo.
-Que foi, Izzy? Pensou em algo? - pergunta Yolei, se aproximando do amigo.
-Acho que sim... Tai, por favor, apenas encosta nela...
Encarando o amigo, pensando se ele poderia estar de alguma forma brincando com ele, o digiescolhido da Coragem estende sua mão até a árvore. Quando achava que a tocaria, sua mão atravessa a casca marrom e ele quase tropeça para dentro, logo puxando sua mão para fora novamente, assustado enquanto checava sua mão, com medo que algo poderia ter lhe acontecido. Todos se aproximam mais, curiosos.
-Hey, que que foi isso, Izzy? - pergunta Joe, analisando de perto a árvore, ajustando de leve os óculos.
-Tai, Sora, lembram quando chegamos aqui pela primeira vez e aquele Kuwagamon atacou a gente?! Onde foi que a gente se escondeu?
Os dois digiescolhidos forçam um pouco a memória até que finalmente eles entendem o que havia acontecido, e é Sora quem confirma:
-Vocês se esconderam numa árvore que na verdade era um holograma! Eu encontrei vocês lá pouco depois de conhecer a Piyocomon!
-Exatamente! - confirma Izzy, se aproximando mais ainda da árvore e examinando de perto seu caule - Essa árvore deve ser algo parecido... - como se prestes a mergulhar em uma piscina, o ruivo inspira o máximo de ar e entra no tronco.
Os digiescolhidos ficam apreensivos, a árvore engolira o digiescolhido quase que instantaneamente, mostrando que pelo menos em parte ele estava correto. O grupo se entreolha por alguns instantes, antes que Davis se coloque à frente.
-Eu não vou ficar aqui parado enquanto o Veemon pode estar lá dentro me esperando. Lá vou eu!
Sem hesitar nem esperar uma resposta dos outros, Davis adentra na casca marrom. Por um segundo, o mundo ficou escuro, antes de revelar o que residia no seu interior. Pela primeira vez desde que Kari fora até sua casa, o coração do digiescolhido da Coragem e da Amizade se aquece. Em seus olhos, as lágrimas começam a brotar, escorrendo pelo seu rosto.
-DAVIS!
Incapaz de falar, o líder do segundo grupo apenas se ajoelha e abre os braços. Alguns segundos depois, uma pequena criatura azul se joga contra ele, envolveu seu corpo ao redor do pescoço do ruivo.
-DAVIS! DAVIS! QUANTO TEMPO, DAVIS!
-Veemon... - de repente, as lágrimas são mais fortes do que Davis é capaz de segurar e começam a afluir em abundancia, chegando mesmo a molhar as costas do pequeno digimon. Ele começa a apertar o digimon com mais força, se entregando totalmente aquele abraço - Veemon...
-Davis? Tá tudo bem? - pergunta Veemon, assustado. Ele esperava que Davis ficasse emocionado, mas ele parecia... frágil.
-Agora tá... - ele responde, estreitando ainda mais o abraço e praticamente enterra seu rosto no corpo do pequeno - Agora tá...
Veemon sente como o corpo de seu amigo tremia conforme ele o abraçava, mas decide não falar nada, permitindo que ele desabasse em paz.
...
-Hey... Eles já estão lá... - comenta uma voz em sussurro, um pouco grossa e impaciente.
-Obrigado por informar o óbvio, Fuijinmon! Eu tenho olhos... - responde outra voz, nervosa.
-Nós devemos fazer algo, Callismon. Se eles chegarem até os digimons, nós podemos ter problemas - retruca uma terceira voz, agitada e um pouco aguda.
-Suijinmon, você deve ter algo óbvio a dizer também, pra imitar seus irmãos! - fala Callismon, impaciente, sem tirar os olhos do grupo de digiescolhidos que entrava aos poucos na árvore.
O grande digimon responsável pela retaguarda apenas grunhe em resposta, indiferente à conversa. Ele focava seus canhões na grande árvore em que os digiescolhidos se encontravam, apenas esperando para o momento de atirar.
-Hum, quem diria, o grandalhão é o mais inteligente dos três... Eu já disse, temos que esperar que eles abaixem a guarda - fala Callismon, antes de dar um cruel sorriso e bater de leve na sua arma - Não se esqueçam da minha arma secreta...
...
-PALMON! PAMON! - desde que encontrara sua parceira, Mimi não deixara de abraçá-la. O espaço para todos era um pouco apertado, mas nada que impedisse que eles matassem a saudade.
Em outro canto, Sora brincava de bater as palmas com Piyomon, pareada costas a costas com Matt; este conversava calmamente com Gabumon, dividindo novidades sobre sua banda.
Bem no centro da árvore, um círculo composto por Tai, Agumon, Kari, Tailmon, Izzy, Tentomon e Cody, junto de Armadillomon, conversavam.
-Hey, Tentomon, como vocês vieram parar aqui?
-Izzy, eu tava na fábrica com o Andromon, tava sim! Do nada, uma luz brilhante me cegou e eu apareci aqui.
-E com você, Agumon? Foi a mesma coisa?
-Sim, Tai! Eu tava na Vila dos Koromons quando, do nada, eu tava aqui!
-O mesmo comigo, Cody - comenta Armadilomon, olhando Cody de baixo, enquanto o jovem acariciava a parte atrás de sua orelha.
-Kari, vocês têm alguma notícia do Gennai? Desde que chegamos aqui, não tivemos mais notícias dele... - pergunta Tailmon, olhando para sua parceira com uma sombra de preocupação.
"Eles não sabem..." pensa Kari, subitamente mais triste ainda pela morte de seu mentor. Por mais dura que fosse a dor, ela desejava estar lá para poder se despedir de Gennai. De todas as dores que sentia no momento, uma das piores era a de sequer se lembrar de quando fora a última vez que falara com seu mentor."Nós nunca esperamos que seja mesmo a última vez...".
Ao ver que a dor tomara o rosto de Kari e ter o vislumbre de uma minúscula lágrima, rapidamente suprimida, os olhos de Tailmon se arregalam, perplexos pelo fato. Como se para ter certeza, a felina fica encarando Kari, mas a humana era incapaz de responder o olhar, apenas mantendo seus olhos fechados e a cabeça abaixada.
-Hum? Que tá rolando, Kari? - pergunta Tentomon, olhando rapidamente para a garota e depois para seu parceiro, estranhando a forma como o clima de repente mudara no grupo - Izzy, que foi?
-Tai... - fala Agumon ao compreender o que ocorrera; ele se senta, abatido pela tristeza. Tentomon continua a pergunta o que ocorrera com Gennai, mas ninguém tinha coragem de contar para seus pequenos amigos; a alegria que seus parceiros estavam sentindo por reencontrá-los não deveria ser manchada com aquela triste memória.
Afastado de todos, TK estava sentado com as pernas cruzadas, Patamon sentado em seu colo. O pequeno digimon laranja olhava para seu amigo de forma confusa, sem parar de perguntar:
-TK, o pessoal tá logo ali. Por que a gente não vai ali se divertir com a Tailmon e os outros?
-Patamon... É que é meio complicado... - responde o loiro, tentando manter um sorriso no rosto enquanto seus olhos jaziam desprovidos de alegria. Ele sabia como seu parceiro deveria estar morrendo de saudade de seus outros amigos humanos, mas simplesmente não tinha coragem de ir até lá e encará-los. "Quando que eu me tornei tão fraco?".
-Mas vocês são amigos, não é? Amigos deviam ser capazes de resolver tudo...
-Patamon...
Não mais capaz de resistir; TK vira até ficar de costas para o grupo e abraça seu parceiro, começando a chorar. A aparentemente paradoxal combinação de inocência e sabedoria do pequeno digimon fazia com que toda a situação doesse ainda mais. "Ele tem razão... Nós somos amigos... Deveríamos ser capazes de resolver isso, mas por que eu sinto que cada ação minha piora ainda mais as coisas?".
Os pensamentos de TK são interrompidos. O abraço de Mimi e Palmon é interrompido. A difícil conversa no grupo de Tai é interrompida. Tudo é interrompido.
Um rugido de trovão ecoa por toda a árvore, fazendo com que toda a estrutura fosse abalada, chegando a fazer mesmo o chão tremer.
-O que é isso?! - pergunta Sora, olhando para cima, assustada. Todo o grupo olha para cima, para o topo da árvore, quando algo em formato esférico adentra a parede holograma, explodindo em milhares de gotas.
-Tá chovendo agora?! - pergunta Hawkmon, tentando se cobrir com suas penas.
-Não... - fala Tai, a voz em um crescendo de urgência - Estamos sendo atacados! FUJAM!
Pouco depois do grito do digiescolhido da Coragem, todos se postam a correr, para pouco depois algo parecendo uma lâmina de ar cortar o tronco da árvore. O grupo foge pelo lado contrário daquele de onde os ataques pareciam vir, escapando pouco antes da árvore colapsar sobre si mesma.
Enquanto os destroços do refúgio dos digimons se desfaziam, os atacantes se revelam: um grupo de quatro digimons extremos.
-QUE VOCÊS QUEREM ATACANDO A GENTE?! - pergunta Davis, erguendo seu punho cerrado para o alto, ameaçando os digimons.
-Meu nome é Callismon! - anuncia o grande digimon semelhante a um urso roxo, encabeçando o grupo - E nós viemos por vocês, digiescolhidos! Raijinmon, Suijinmon, Fuijinmon, ATAQUEM!
Tai rapidamente saca seu digivice e o ergue, gritando:
-DIGIEVOLUÇÃO!
Continua...
