Desesperança e Pesadelo

Flashback

Estava um tempo bem estranho para o primeiro dia letivo. Nas portas da primavera, o clima de inverno ainda fizera com que nevasse naquele dia, mesmo que fracamente. O portão em arco na entrada do Colégio Secundário de Odaíba estava com alguns salpicos claros, mas eram as árvores que mais estavam cobertas, um tímido lençol branco sobre as folhas.

Sentada num canto da sala, a recém-chegada no colégio observava a área externa com o queixo apoiado nas mãos, desinteressada no que o professor tinha a dizer sobre a aula inaugural e o regulamento interno.

-Hunf, não podia ser mais tedioso...

-Bom! – o professor fecha um livro que segurava, chamando a atenção da sala, até da garota de cabelos negros – Agora, quero propor uma dinâmica! Vou sortear vocês em duplas para que se conheçam um pouco melhor!

Com um pequeno suspiro de desdém, a garota espera até que seu nome seja sorteado.

-Certo... Mirato Tanamari vai se sentar com... Takeru Takaishi!

Ainda desinteressada, a garota começa a olhar ao redor até identificar quem aparentava ser seu parceiro. Ao ver um loiro com olhos azuis a encarando, deduz que ele deveria ser a pessoa certa.

-Oi, eu sou o Takeru Takaishi, mas todo mundo me chama de TK! – fala ele, sorrindo para ela e estendendo sua mão. Sem nem metade do entusiasmo dele, ela estende sua mão até a dele e a aperta.

-Eu sou Mirato Tanamari, pode me chamar do que achar melhor...

-Seja bem-vinda! Você é nova aqui, não é?

-Uhum... – a garota estava começando a se irritar com a espontaneidade do loiro, muitas outras coisas ocupando sua cabeça no momento. Enquanto ele começava a falar sobre como a escola funcionava e um pouco sobre o local, algo na mochila do rapaz captura totalmente sua atenção – Isso... Isso é um digivice?

-Hum? – TK se surpreende pela garota saber o que era um digivice, mas ainda assim ele saca seu D-3 e o exibe para ela.

-Posso? – pergunta Mirato, indicando o dispositivo. Ainda um pouco consternado, o loiro permite, depositando-o na mão dela com um olhar ainda desconfiado. "Esses padrões, esses desenhos... Definitivamente, esse não é um digivice comum".

-Er... Mirato? Como você sabe dos digivices? – o questionamento do loiro faz com que ela desperte de sua concentração, devolvendo o aparelho para o dono com algo que quase se assemelhava a rubor.

-Me desculpe, é que é tão estranho... – ela fala, subitamente desarmada de sua atitude fria, sua voz tremendo suavemente em alguns instantes – É tão estranho ver um desses de novo...

-De novo? – pergunta o loiro com súbita exaltação, se aproximando dela com um animado sorriso – Você também é uma digiescolhida?!

-Eu... Eu era... – fala ela, os olhos subitamente marejados – Mas não consegui continuar, então desisti...

-Desistiu? – pergunta TK, estranhando o fato – Por quê? – após alguns segundos de silêncio, ele percebe que ela não responderia, desviando o olhar. Sem aviso, ele coloca uma mão no ombro dela e sorri de forma incentivadora – Seja o que for, não desista do seu parceiro. Eles podem não saber sempre o que se passa na nossa cabeça, mas, com certeza, ele deve estar esperando por você, pronto para perdoá-la!

Na primeira vez em muito tempo, Mirato Tanamari sorriu. Sorriu com esperança...

...

Mas aquele dia aconteceu há muito tempo, e aquela esperança foi subitamente rompida. Ainda em choque, o grupo discutiu bem pouco e decidiram que o mais apropriado era remover Mirato do quarto e deixa-la num estado mais digno.

Mesmo com a insistência de Matt para que não o fizesse, TK auxiliou Joe a enrolar o corpo de Mirato no lençol do quarto e leva-lo até a mesa da cozinha, selando tanto este aposento quanto o quarto Norte.

O fato de esses dois locais estarem selados não fez muita diferença, nenhum dos digiescolhidos conseguiu ficar no interior de Xuanwumon após o ocorrido. O Grande Guardião do Norte parecia estar tão machucado como quando eles haviam chegado, mas no momento esse não era o maior dos problemas.

Com receio de que quem atacou Xuanwumon aproveitasse para ataca-los novamente, os velhos amigos que salvaram os digiescolhidos destruíram todas as árvores ao redor e se espalharam na floresta, patrulhando para que mais ninguém atacasse de surpresa.

Finalmente a noite se aproximava; a luz dourada do crepúsculo começava a fazer com que sombras de pessoas, digimons e árvores se misturassem na clareira recém-criada. Aproveitando que o dia se findava, TK se recolheu com Patamon até a parte detrás de Xuanwumon, se encostando em uma das pernas traseiras da enorme tartaruga, ocultos pela sombra.

Enquanto permanecia sentado, com as pernas dobradas e sua cabeça entre os joelhos, o digiescolhido da Esperança era atentamente observado por seu parceiro. O pequeno Patamon ficava olhando do casco de Xuanwumon para TK e de TK para o casco, totalmente incapaz de conseguir decifrar o que o parceiro estava pensando naquele momento.

-TK? – sussurra, incerto, o pequeno digimon, tombando sua cabeça para o lado – TK, você tá bem?

Quando o silêncio do loiro continua, Patamon se aproxima até ficar do lado de TK e inclina sua cabeça, se apoiando na lateral do corpo de seu parceiro, descansando após a luta em um solene apoio silencioso.

Após alguns minutos de silêncio, Patamon sente a presença de alguém próximo e desperta. Ao olhar para os dois que se aproximava, ele apenas acena com a cabeça e se afasta com o menor deles. O outro, sangue do sangue do loiro, se senta ao seu lado.

-TK... O que você está pensando?

Assustado, TK ergue sua cabeça e olha para seu irmão, surpreso por sua presença. Ao perceber que o irmão respondera ao seu contato, o Ishida fixa seu olhar em TK.

-Matt... Eu... – a situação finalmente chega ao ponto em que TK não aguentou mais ser forte. Ignorando o sentimento de vergonha, o digiescolhido da Esperança permite que as lágrimas escorram em abundância. Matt coloca seu braço ao redor do irmão mais novo, o aproximando de si em um forte abraço, permitindo que a emoção do mais novo escoasse. Após alguns segundos, TK consegue forças para falar – É minha culpa...

-Não, não é! – afirma Matt, colocando uma mão na parte de trás da cabeça do mais novo para aproximá-lo ainda mais de si.

-É... Ela veio por mim, eu envolvi ela nisso... Se eu tivesse feito o que era certo do começo, nada disso teria acontecido!

Matt estranha a frase, rompendo o abraço e colocando uma mão sobre o ombro de TK, o olhando nos olhos.

-Como assim? Do que você está falando?

-Eu... Eu estraguei tudo, Matt... Eu não devia ter ficado com a Mirato... Eu sabia que era errado, mas eu ainda assim... E, agora, ela está morta... Por minha culpa!

-Escuta, TK. Você não é o culpado por isso. Não foi você quem a matou, e nós não vamos parar até vinga-la, certo?

O loiro mais novo apenas acena a cabeça, incapaz de falar mais algo.

...

Com a aproximação da noite e da queda de temperatura, os digiescolhidos organizam uma grande fogueira para que todos possam descansar, providenciada pelas chamas de Meramon.

-Vamos ter que fazer vigia durante a noite... – fala Izzy apaticamente, olhando fixo para o fogo.

-Eu e Andromon podemos pegar o primeiro turno – fala Centalmon, se erguendo enquanto olhava fixo para o digimon androide – Só vamos esperar que Yukidaromon e Orgemon voltem da ronda deles.

Após a curta conversa, o silêncio caiu sobre os digiescolhidos, um silêncio tão profundo quanto a morte. Ninguém se arriscava a começar uma conversa ou mesmo a se olharem entre si, o luto lhes roubando qualquer resquício de alegria.

Aos poucos, eles e seus companheiros começaram a dormir, mesmo sob os protestos de seus estômagos vazios.

-Você queria isso...

-MENTIRA! EU NUNCA QUIS ISSO!

-Sim... Você queria... Apenas é fraca demais para admitir!

Ela não era capaz de ver onde estava, mas sabia quem falava à sua volta e sabia também que estava amarrada. Kari olhava ao redor, mas não conseguia identificar a fonte da voz, sendo que o que mais queria era que ela apenas se calasse.

-PARA! VOCÊ ESTÁ MENTINDO!

-Eu estou? Tem certeza, digiescolhida da Luz? Pois eu acho que isso se encaixa perfeitamente nos seus planos... Comigo morta, você não tem mais inimigos, não tem mais obstáculos...

-EU NUNCA QUIS ISSO! – fala Kari, colocando as mãos ao redor da cabeça numa tentativa desesperada para que a zombaria da voz se calasse, desabando no chão – EU NUNCA QUIS ISSO!

-Filha... – de repente, na frente de Kari, duas silhuetas aparecem. Susumu e Yuuko Kamiya olhavam para ela com grande tristeza e censura no olhar. Os dois falavam em uníssono, julgando a própria filha – Sentimos muito, mas você não pode mais ficar em Odaíba. Vamos leva-la para longe, precisamos afastá-la dessas más influências...

-Não... Mamãe... Papai... – a digiescolhida levanta o olhar devastado para seus pais, mas eles já não se encontravam mais lá. Ela se encontrava no mais completo silêncio, na mais completa solidão. Ainda com lágrimas escorrendo no seu rosto, ela começa olhar ao redor e, mesmo tomada de terror, arrisca – Tem alguém aí?

De repente, o choro ensurdecedor de um bebê começa a ecoar em um volume extremamente alto. O barulho foi tão opressor que ela cai novamente ao chão, incapaz sequer de gritar por ajuda. O choro continuou, continuou, continuou...

-Ah!

Kari desperta assustada, tremendo e suando. Ela olha ao redor, constatando que todos dormiam e que o fogo se extinguira. Ao olhar para seu lado, ela fica satisfeita por ver que não despertara Tailmon, mas ainda mais aliviada por não ouvir aquele choro.

Sabendo que tentar dormir novamente era inútil, ela se levanta cuidadosamente para que ninguém acordasse. Olhando ao redor mais cuidadosamente, percebesse que quem vigiava agora devia ser Igamon, Elecmon e Meramon, tendo certeza do último por ser capaz de ver o bruxulear das chamas dele à distância.

Mesmo que incerta de seus motivos, ela escala novamente as costas de Xuanwumon, entrando no casco da enorme tartaruga. Ela sentia muitos calafrios, sua pele eriçada e seu corpo tremia, e ela tinha certeza de que aquilo não era apenas pelo frio. Se armando de toda a coragem possível, ela se aproxima da porta da cozinha. Bem lentamente, ela abre a porta.

...

Um dia novo chega e, com ele, o primeiro contato dos Grandes Guardiões desde que a tragédia os atingira:

"Digiescolhidos, nós soubemos o que aconteceu. A situação do Digimundo não poderia ser mais grave, o ataque à Xuanwumon foi um doloroso golpe. Acreditamos que os inimigos possuem um espião infiltrado, apenas isso explicaria o ataque que vocês sofreram. Em breve, um de nós chegará para ajudar, então sejam pacientes...".

-Pacientes?! Eles tão brincando?! – fala Davis, apertando seu D-Terminal com raiva – Como vamos ser pacientes depois do que eles fizeram com a Mirato?!

-Calma, Davis... – fala Yolei, colocando uma mão sobre o ombro do amigo – Ninguém esperava por isso...

-Ela fala a verdade, digiescolhido! – fala Centalmon, se aproximando – Os Grandes Guardiões superestimaram a própria capacidade de prever as ações do inimigo, então eles agirão com bem mais cuidado a partir de agora...

Davis, com um sentimento que poucos já haviam testemunhado, remove rudemente a mão de Yolei de si e se afasta, indo para a floresta. Os outros ficam sem saber ao certo como reagir, mesmo Veemon fica indeciso se devia acompanhar o amigo.

-Enquanto esperamos, vamos continuar com a vigilância em alta! – comenta Andromon, olhando ao redor procurando por alguém – Agora que vocês estão acordados e descansados, nós 9 vamos sair para defender o perímetro. Não façam nada impulsivo, digiescolhidos!

-Pode deixar, Andromon! – fala Tai, afirmando com a cabeça.

Os nove antigos aliados dos digiescolhidos se dividem de forma proporcional ao redor da clareira, guardando o perímetro. Cody, entretanto, se encontrava reflexivo.

-Que estranho...

-Hum? Cody? Que foi? – pergunta Mimi, se aproximando do jovem.

-Vocês não acham que isso está tudo muito estranho?

-Como assim?

-Quero dizer, isso tudo começou com alguém destruindo as Pedras Sagradas antes que alguém pudesse reagir. Depois, foi o ataque ao Gennai. E agora, isso...

-Eu também estava pensando nisso, Cody – argumenta Izzy, colocando uma mão sobre a boca – Pra alguém ter conseguido invadir a casa do Gennai, ele ou ela teria que ter um conhecimento muito grande. Eles já deviam estar levando essa ameaça a sério há muito tempo!

-E o Xuan-san e a Mirato que pagaram por isso... – fala Mimi, olhando preocupada para o Grande Guardião caído.

-Psiu, Tailmon! – a felina se vira para o chamado, encarando sua parceira – Eu vou ver como o Davis tá, fica aqui com o Veemon, por favor!

-Ahn?! – pergunta Tailmon, surpresa – Kari, você tem certeza disso?!

-Não se preocupa, deixa comigo – fala a digiescolhida, sorrindo para a parceira.

Enquanto os outros debatiam sobre a atitude dos Grandes Guardiões, Kari silenciosamente dá a volta no grupo e vai por entre as árvores, avançando na direção em que Davis fora. Mesmo que atento à discussão, TK é capaz de perceber que Kari se dirigia ao mesmo local para o qual Davis tinha ido. Com um mal pressentimento, ele sussurra para Patamon que já voltaria e a segue, tomando cuidado para não se denunciar.

Se colocando atrás de uma árvore, ele observa que Davis se encontrava com a cabeça encostada numa árvore, a socando com força. Kari se aproximava silenciosamente por trás dele, sem que ele fosse capaz de percebe-la.

"No que ela está pensando..."

Surpreendendo o rapaz, a digiescolhida da Luz o envolve com seus braços, encostando sua cabeça nas costas do líder da segunda geração. Estranhando a súbita aparição da garota, Davis se vira, fazendo com que os rostos dos dois ficassem próximos.

-Kari? Que você está fazendo?!

-Oi, Davis – ela responde com um tom tenso na voz, ainda mantendo um triste sorriso – Eu vim ver se você está bem...

-Bom, eu... – totalmente confuso, o herdeiro de Tai não é capaz de pensar numa resposta concreta.

-Olha, desculpa pelo que aconteceu ontem... Eu sei que devia ter te contado, mas eu não queria te chatear... – ela fala, dessa vez sem nenhum sorriso no rosto e colocando as mãos atrás do corpo, se afastando um pouco – Eu não tinha intenção de te fazer mal com o TK...

-Kari, eu... – o rosto de Davis inicialmente mostrou uma grande chateação, mas mudou repentinamente para uma expressão mais compassiva – Eu entendo... E quanto ao que conversamos naquela semana, você tem uma resposta?

-Sim... Eu vou querer fazer isso... – a digiescolhida da Luz passa a mão no rosto de Davis, sorrindo pra ele enquanto algumas lágrimas ameaçavam brotar de seu rosto – Vai ser difícil, mas é necessário...

Muito discretamente, Kari aproxima o rosto de Davis ao seu, sem que nenhum deles quebre o contato visual, até que um breve beijo é trocado, anestesiando a tensão que dominava o corpo do ruivo e a fúria em seu coração. O segundo, entretanto, é mais longo.

Quando deu por si, TK já estava de volta ao acampamento. Ele não se lembra de como ou quando voltara, mas possuía uma única certa dentro de si. Por apenas alguns instantes, ele teve a certeza de que vira os olhos de Kari fixos nos seus, enquanto os lábios dela estavam fixos nos de Davis.

...

O sol estava a pino e ainda assim não se notava nenhum sinal dos Grandes Guardiões. Pra se proteger do calor escaldante, os digiescolhidos confeccionaram algumas barracas usando galhos de árvore, folhas e lama.

-Hey... TK... Que foi? – Patamon estava cada vez mais confuso. Desde que se afastara, o loiro se encontrava mudo. Mesmo que tenha ajudado a fazer as barracas, ele apenas respondera de forma apática o que seus amigos falavam enquanto continuava a trabalhar.

-Pata... Eu acho que fiz uma coisa horrível...

-Que foi? – cada vez mais preocupado, o pequeno digimon laranja alça voo para poder encarar seu parceiro cara a cara – Fala comigo, TK! Eu sei que posso não entender muita coisa do seu mundo, mas fala comigo!

-Eu... Eu sou uma pessoa horrível... – TK se encosta na parede de seu recinto, sem conseguir encarar Patamon – Eu traí uma pessoa por alguém que achava que conhecia... A Mirato, apesar de tudo, tinha razão... Eu não conheço a Kari tão bem quanto achava... Mas eu não entendo, Pata... Por que tudo isso tá acontecendo desse jeito? Em menos de um mês, parece que tudo... Desmoronou...

-TK, é claro que você conhece a Kari! – fala Patamon firmemente – Você está sempre com ela, sempre esteve, e se você acha que ela está agindo estranho, você tem que ir falar com ela e resolver o que for!

-Patamon... – sob o forte olhar de Patamon, o loiro fica um pouco perplexo antes de esfregar as lágrimas do rosto e se levantar, determinado – Você está certo, Patamon! Eu vou falar com ela agora e entender o que está acontecendo! Fique aqui, eu já volto!

Com um vigor que há muito não sentira, TK se levanta e começa a marchar na direção da cabana de Kari. Entretanto, quando estava a poucos passos, um grito ecoa pelo acampamento:

-CAT PUNCH!

Quando dá por si, TK só era capaz de ver Tailmon, o rosto coberto de fúria e a pata manchada de sangue, e, entre folhas e galhos partidos, o corpo de Kari voando, logo colidindo com a barraca mais próxima.

Continua...