O Show Macabro de Metamormon!

-CAT PUNCH!

Antes que qualquer um pudesse processar o que acontecia, o corpo de Kari atravessa a parede da própria barraca antes de atingir a próxima, a enterrando em um amontoado de folhas e galhos.

Mais próximo, Tai rapidamente corre até a felina, exigindo explicações, enquanto que Davis afastava alguns galhos para ajudar a castanha.

-TAILMON, VOCÊ ESTÁ LOUCA?! – o questionamento furioso de Tai é prontamente ignorado pela felina, que apenas grita:

-DAVIS, SE AFASTA, ESSA NÃO É A KARI!

...

Alguns minutos antes

-Hey, Kari, posso falar com você?

A garota de cabelos castanhos olha para sua parceira com uma sobrancelha erguida, estranhando a pergunta. Ela deixa de arrumar alguns detalhes do interior de sua barraca e se vira para a felina, se agachando e olha para a parceira com um sorriso:

-Claro que pode, Tailmon! O que você quer?

-É que eu conversei um pouco com o Patamon... Tem algum problema entre você, o Davis e o TK?

-Hum... – por um instante, Kari parece realmente perturbada pela pergunta da parceira, mas logo seu rosto fica normal e ela responde com um sorriso – Não é nada demais, Tailmon! Eu e eles só precisamos conversar um pouco...

A expressão de Tailmon se torna uma que Kari não é capaz de decifrar, mas a humana continua indiferente a isso, apenas dando uns tapinhas de leve na cabeça da felina e responde:

-Não se preocupa, as coisas vão ficar tudo bem em pouco tempo! Em breve, nós vamos caçar quem quer que tenha matado o Gennai e fazê-lo se arrepender de ter nascido!

Sem esperar a resposta de Tailmon, a digiescolhida dá as costas, não percebendo a expressão de espanto no rosto da parceira. Abaixando a cabeça, Tailmon aperta os punhos e fala com uma voz apática:

-Kari, sabe, às vezes eu sinto como se fosse ontem que eu encontrei você pela primeira vez – a felina olha fixo para a parceira antes de continuar - Aqui no Digimundo...

A garota para por alguns segundos, parecendo incomodada com algo, antes de se virar e sorrir:

-Eu também, Tail... – a garota não terminou a resposta, o punho de Tailmon foi mais rápido.

...

-DAVIS, SE AFASTA! ESSA NÃO É KARI!

Todos estranham o aviso de Tailmon, paralisando o ruivo no lugar em que estava.

-Do que você...

-Huhuhu...

O pequeno sorriso abafado por folhas e galhos interrompe o questionamento de Davis, que olha aterrorizado para os destroços ao seu lado. Ao ver o perigo que o ruivo corria, rapidamente Veemon grita:

-DAVIS, SAI DAÍ!

Antes que mais algo pudesse ser feito, uma explosão de vento afasta todos os destroços, arremessando o digiescolhido para o lado enquanto um turbilhão de folhas revela uma imagem assustadora: "Kari" estava de pé, seu rosto contorcido no formato das garras de Tailmon como se fosse uma massa mole, tornando o sorriso em seu rosto ainda mais perturbador.

-Huhuhu... – a voz de "Kari" estava distorcida, como se fosse um gravador com defeito – Tailmon, não tem vergonha de atacar sua parceira assim? Eu estou muito chateada...

-Maldito! ONDE ESTÁ A MINHA IRMÃ?! – grita Tai, dando um passo à frente, o coração cheio de fúria. Entretanto, o coração de outra pessoa estava ainda mais cheio de fúria:

-SEU... – em um passo, Davis se levanta e tenta desferir um soco na impostora. Apenas um dos olhos dela se vira para ele, como se um fosse desconectado do outro.

-Patético...

Das costas de "Kari", surge um enorme tentáculo verde com uma ponta vermelha, envolvendo o corpo de Davis como uma jiboia.

-Davis! – fala Veemon, aflito ao ver o parceiro em situação de perigo. Institivamente, Tai leva a mão ao digivice, mas "Kari" comprime o digiescolhido, fazendo com que ele perdesse o ar.

-Pense em digievoluir seus parceiros e transformo ele em polpa! – o sorriso cruel com que a impostora falava e o rosto da digiescolhida da Luz faz com que a atmosfera se tornasse ainda mais densa. Ao ver que sua estratégia funcionava, ela alivia a tensão de sua própria voz e continua – Você não respondeu minha pergunta, Tailmon! O que me entregou?

-Você não tem a menor ideia de como a Kari é! Ela não diria que tudo que ela está passando, que a morte do Gennai e todo o resto, era "pouca coisa"!

-Onde está minha irmã?! – grita Tai, mas "Kari" mantém seu sorriso cruel e aperta novamente Davis, dessa vez com mais força. Mesmo sentindo que seus ossos podiam quebrar a qualquer momento, o ruivo não se permite gritar, seu rosto vermelho vivo pela dor que sentia. Mesmo que discretamente, os digiescolhidos e seus digimons começavam a fazer um cerco ao redor da impostora, tentando procurar por uma brecha por entre as barracas.

-Realmente perspicaz... Bom, acho que no momento estamos numa situação complicada...

-Solta o Davis! – grita Veemon, prestes a atacar "Kari", só se contendo pela segurança de seu parceiro.

-Já que pediu...

Girando rapidamente em torno de si, a impostora arremessa Davis contra Veemon. Segundos antes do digiescolhido colidir violentamente contra o parceiro, um vulto surge e segura o corpo dele. Poucos segundos depois, Veemon agradecia Orgemon.

-Hum, não posso tirar o olho de vocês um segundo sequer, pirralhos! – resmunga o digimon verde. Aos poucos, os outros aliados dos digiescolhidos começam a surgir da floresta, cercando por vez a impostora.

-Fufufu... É tão emocionante... – "Kari" começa a girar em torno de si, apertando os braços contra o corpo, atraindo a atenção de todos – Agora, terei o prazer de concluir minha missão na frente de todos! Estou tão... Emocionado...

Conforme "Kari" girava, mais tentáculos saíam de suas costas, chegando a um total de cinco apêndices verdes com pontas vermelhas. Seu corpo começa a inchar, chegando a três metros de altura, revelando sua verdadeira forma. Fazendo uma reverência, o digimon na frente deles se apresenta:

-Prazer em conhecê-los, digiescolhidos, meu nome é Metamormon e venho em nome das Trevas Eternas!

-Como se fossemos deixar! Pessoal! – os digiescolhidos imediatamente sacam seus digivices e os outros digimons se preparam para a batalha, mas Metamormon imediatamente ergue suas mãos num sinal de rendição.

-Não façam isso, eu vim apenas para conversar! – a voz de Metamormon era indefinida, parecia o ruído de estática se projetando em palavras – Eu tenho uma mensagem de meu mestre, Trevas! Se me permitirem isso, prometo que darei a vocês a localização da digiescolhida da Luz!

-Mensagem? – pergunta Tai, desconfiado e sem abaixar o digivice – Que mensagem?!

-Qual de vocês se chama Takeru Takaishi?!

De repente, o mal pressentimento que TK sentira mais cedo surge ainda mais forte no seu peito. "Não é apenas isso... O que ele tem a dizer com certeza não é algo que eu quero ouvir, mas se quisermos alguma informação da Kari, eu tenho que jogar o jogo dele...". O loiro rapidamente olha para Tai e Matt, que estavam próximos, e eles fazem um aceno com a cabeça. Cauteloso, ele anda alguns passos pra frente, se aproximando do digimon metamorfo.

-Saiba que eu sou um grande fã seu, Takeru... – fala Metamormon, um tom condescendente na voz – Devimon e Piedmon devem estar te odiando até hoje nas profundezas do inferno...

-Onde que a Kari está?!

-Calma, calma... Primeiro, minha mensagem...

O corpo de Metamormon começa a se ondular, mostrando que ele tomava outra forma. Todos ficam alertas, mas ninguém poderia esperar pelo que estava por vir: Metamormon novamente assume uma forma humana, dessa vez com cabelos negros e com olhos de esmeralda. Toda a tensão no corpo de TK desapareceu, dando lugar para um tremor incessante e uma grande ânsia.

-Mi... Mirato?

-TK? – como se não visse mais o digiescolhido, "Mirato" começa a olhar para os lados. De repente, ela parece fixar seu olhar em algo pouco acima de si, um sorriso sarcástico lhe brotando em seu rosto. – TK! Que bom que você voltou, onde estão os outros?!

-O... O que está acontecendo? – pergunta Yolei, assustada com o que via, um sentimento horrível se formando em sua barriga, como se ela soubesse o que está por vir mas desejasse desesperadamente que não soubesse. O loiro, no entanto, não conseguia quebrar contato visual com o que via.

-Ah, entendo, mas e onde está Patamon? – "Mirato" parecia realmente estar conversando com o loiro, olhando na altura certa em que olhava quando ele estava em frente dela. Alguns segundos depois, como se tivesse recebido uma resposta, ela continua – Mas foi perigoso você ter vindo sozinho... Hum? Que foi? - De repente, Izzy percebe qual era a "mensagem" de Metamormon e se apressa a gritar:

-TK! SE AFASTE, NÃO OLHE PRA ISSO!

-Izzy, o que está acontecendo?! – pergunta Mimi, também muito assustada pelo que via.

-O Metamormon... Ele quer quebrar o TK!

Mesmo que tivesse certeza de que ouvira o aviso do ruivo, o digiescolhido da Esperança apenas não conseguia evitar olhar para a projeção de Mirato à sua frente, o coração cada vez mais apertado.

-Hum? Que você quer falar comigo, TK? – a pretensão na voz de "Mirato" era exatamente a mesma, o mesmo timbre, o mesmo tom, fazendo com que o loiro sentisse que estava vendo um passado que nunca teve – Você está brincando, não é? – mais alguns segundos de silêncio depois, um grande sorriso brota no rosto da cópia, algo que TK vira poucas vezes e que faz a voz dela desafinar um pouco – TK... Isso é... Tudo que eu sempre quis ouvir! Eu prometo que... – ela faz um arco no ar com os braços, como se abraçasse alguém.

De repente, toda a alegria que estava no rosto de "Mirato" desaparece, seu sorriso morre e seus olhos se abrem em grande espanto. Ela lentamente olha para baixo e finalmente o loiro entende o que Metamormon mostrava.

Para o ponto em que ela olhava, uma grande mancha vermelha começa a brotar, manchando sua camisa branca com um grande círculo vermelho. Sob efeito da dor, ela dá alguns braços para trás, olhando assustada para a pessoa invisível a sua frente.

Percebendo o objetivo de Metamormon, Matt corre até seu irmão para tentar impedir que ele continuasse a olhar aquilo, tentando freneticamente virar seu rosto, mas o loiro mais novo estava congelado no lugar, incapaz de não ver o que se seguiria.

-TK... Por que... – "Mirato" cai de costas no chão, se arrastando para trás, mas sua camisa é puxada pela pessoa invisível e se rasga, mostrando um corte superficial na barriga – NÃO, TK! PARA! PARA, POR FAVOR, PARA, NÃO FAZ ISSO! ARGH!

De repente, outro corte aparece, dessa vez no centro da sua barriga, logo abaixo do umbigo. Esse era bem mais profundo, permitindo que o sangue vazasse até que toda a pelve de "Mirato" estivesse sob uma camada escarlate, seu rosto cada vez mais contorcido pela dor.

-TK... Por favor, eu imploro... Para... – a voz da menina de cabelos escuros estava cada vez mais fraca, seus olhos já não conseguiam focar direito no agressor – Você vai matar... O bebê...

De repente, mais um corte surge, bem maior, indo desde o quadril até o ombro esquerdo, espalhando ainda mais sangue pelo corpo da garota. Ela dá apenas alguns espasmos, ainda olhando fixo para quem não estava lá, até que finalmente seu corpo para de se mover.

Sem conseguir se segurar, Yolei acaba vomitando depois de ver a cena, caindo sobre seus joelhos enquanto tremia violentamente após ver a cena. Tai, apesar de ser o digiescolhido da Coragem, não conseguia parar de sentir calafrios, sentindo o suor escorrendo pela parte de trás de sua coluna.

Matt não assistira o "show" até o final, incapaz de ver o desfecho de sua cunhada; ele só conseguia encarar o rosto de seu irmão mais novo. O rosto de TK era indecifrável, ele não se movia um músculo sequer. Mesmo que segurasse o corpo de seu irmão, o Ishida não sentia nada, nenhum tremor, não via nenhuma lágrima; o loiro mais novo estava catatônico.

-Você está mentindo...

-Hehe... – "Mirato" se ergue, o grande corte no seu corpo já não pingava mais, mas o corte era bem evidente. Rapidamente, Metamormon retorna à sua forma original, os cinco tentáculos brotando de suas costas.

-Você não matou ela... Não pode ter matado ela...

-Ah, eu matei, TK... Eu me transformei em você e fiz questão de que ela partisse achando que você a matou... Só depois de ela implorar pela vida dela e do bebê no ventre dela que eu a matei... Tive o cuidado de que ela visse que o filho estava morto para só então a matar! – o ruído que era a voz de Metamormon parecia se deliciar com a expressão catatônica de TK – Te garanto de que isso é verdade... Agora, o que não é verdade: eu não tenho só cinco tentáculos...

Assim que a mensagem de Metamormon se tornou claro, o caos mais uma vez se instaurou. Do chão, um novo tentáculo do digimon metamorfo brotou, rápido demais para qualquer um interceptar.

Sem nenhum tipo de aviso ou cerimônia, o alvo de Metamormon é arremessado por mais de quinze metros até colidir violentamente contra uma árvore, quase dobrando ao meio sua coluna.

-DAVIS, NÃO! NÃO! NÃO!

Apenas os gritos de Veemon conseguem fazer com que TK deixasse de encarar Metamormon. Sentindo seu mundo desmoronando, o digiescolhido da Esperança demora para registrar a cena em sua mente: o pequeno parceiro azul de Veemon correndo até Davis, um filete de sangue escorrendo de sua boca enquanto seus olhos permaneciam revirados da dor da colisão.

Os momentos seguintes ficaram nublados demais para que o loiro pudesse se lembrar. Ele tinha quase certeza de que Matt implorava para que ele desse alguma reação, de que alguém gritara para que Joe ajudasse, alguns digimons formando uma parede de proteção para o ruivo, Tai e Veemon gritando para que Davis respondesse, Yolei chorando enquanto segurava a cabeça dele, Ken tentando consolá-la enquanto chamava o amigo.

Somente uma coisa estava na sua cabeça: pegar seu D-3. Ele não percebeu mais nada, apenas completou essa tarefa. Nem os gritos de Matt, nem estranha cor negra que circundava seu digivice ou os lamentos de dor de seu parceiro. Ele apenas sussurrou:

-Patamon... Digivolva...

Uma grande explosão negra de energia encobre o pequeno digimon laranja, relâmpagos negros saindo do próprio ar em direção ao casulo negro que o envolvia, parecendo ressonar com uma frequência própria. Todos, inclusive Metamormon, sentem um grande tremor involuntário de medo ao ver que toda essa energia negra estava saindo de TK para Patamon.

Patamon megadigivolve para...

Quando a esfera se desfaz, um digimon envolto por grandes asas negras e um grande chapéu flutuava no ar. Ele abre suas asas lentamente, revelando seu corpo, enquanto ele estende seus quatro braços. Por detrás de sua máscara dourada com um sorriso insano, ele sibila:

-Boltboutamon...

Continua...