Amizade e Coragem

Cody P.d.v.

Eu não consigo entender! Como as coisas foram parar assim?! Poucas semanas atrás, estava tudo bem, parecia normal... Agora, parece que tudo foi água abaixo! Até o Gennai... E o Davis agora... Eu não quero ser um fardo para o grupo e tento me manter calmo, mas as coisas estão cada vez mais difíceis de compreender...

-Cody... Você está bem?

-Armadillomon... Eu também não sei... As coisas não estão mais fazendo sentido... – eu me ergo um pouco para deixar minhas costas mais confortáveis contra a árvore a qual estou sentado, mas tomo o cuidado de não quebrar o contato visual com ele.

-Cody, você não pode ficar assim, ânimo! Você sabe que tudo vai dar certo no final!

-Eu sei... – mas será que sei mesmo?

-Por que você não me conta tudo que aconteceu entre você e o TK? Quem sabe, eu posso te ajudar...

Demorou um pouco mais de dez minutos, mas consegui contar tudo para ele. Mesmo que eu tentasse explicar da maneira mais clara possível, eu via como era difícil para um digimon conseguir entender tudo com relação a sexo e gravidez, mas ele entendeu bem a parte a respeito do quão chateado eu estou com o TK.

-Hum... Então, o TK colocou um tipo de digitama dentro da Kari e da Mirato?

Não sei como fui capaz de fazer isso, mas eu acabei rindo um pouco da cara de confusão e da ingenuidade dele. Meu Kami, que horrível, como consegui rir nessa situação? Eu coloco a mão na cabeça para tentar pensar em como explicar para ele, mas nenhuma ideia apareceu.

Enquanto eu ainda tentava planejar alguma explicação, ouço meu nome sendo chamado por detrás.

-Cody, posso me sentar com você?

-Hum? Mas é claro, Yolei... – que estranho, a gente se conhece há tanto tempo que esse tipo de formalidade é estranha. Sem questionar, libero o local ao lado do meu. Ela se estica um pouco e deita no chão, Hawkmon voando até o topo da árvore.

-Ae, Cody, como cê tá?!

-Err... Tô bem...

-É? Sua cara não parece ser a de alguém que esteja bem... – é, admito que não estou com uma cara muito alegre, mas o que esperar numa hora dessas? – Sabe, Cody, em todos esses anos, eu nunca ouvi você falar de meninas... Você tem alguma namorada?

Eu levanto de forma tão brusca que minhas costas batem na árvore e quase derrubo Hawkmon. Ignorando o quão escarlate meu rosto deve ter ficado, não consigo evitar o grito:

-YOLEI! ISSO NÃO É HORA DE PERGUNTAR ESSAS COISAS!

-Ih, Yolei, acho que ele não curtiu a pergunta...- evidentemente que não gostei da pergunta, Hawkmon! E mesmo assim, ela ainda consegue ficar alheia à minha reação, como se minha resposta não fosse importante; ela só sorri para mim.

-Huhu... Então quer dizer que sim...

-NÃO, NÃO, EU... – essa pergunta tão fora de hora me impede de organizar meus pensamentos de forma apropriada e me atrapalho todo com minhas palavras.

-Mas, Cody, e aquela menina, a tal da Tsune que aparece lá em casa toda semana?

-ARMADILLOMON! – sei que ele não fez isso por mal, mas não consigo evitar de brigar com ele.

-Hum... Tsune... – droga, não vai demorar muito pra ela lembra... – Ah, aquela menina no seu grupo de kendo?

-Eu... Eu... – ah, não adianta negar mais, me limito a acenar a cabeça.

-Hehe, parabéns, Cody! Então, como foi?

-Como foi? O quê? – eu realmente me sinto desconfortável com isso...

-Hora, como é que vocês começaram a namorar! – fico olhando pra ela sorrindo pra mim até que eu percebo, e não consigo evitar de abaixar a cabeça.

-Yolei, não precisa fazer isso...

-Hum?

-Olha, eu sei que você está preocupada comigo. E sei que as coisas estão difíceis, mas você não precisa tentar me distrair dos problemas fazendo eu pensar em coisas boas.

Consigo ver pela cara dela que era exatamente isso que ela estava tentando fazer. Vejo como o sorriso dela vai desaparecendo centímetro por centímetro, como seu olhar vai perdendo um pouco do brilho e como seu corpo parece perder toda aquela animação, até que finalmente ela encolhe os joelhos e abraça as pernas.

Ela está tão chateada quanto eu... Talvez até mais, porque, afinal, ela confiava na Kari e era mais próxima dela do que eu sou do TK. Elas sempre estavam juntas conversando de várias coisas, se ajudando, e de repente ela descobre que a Kari escondia um segredo tão grande dela... Pra piorar, não temos ideia de onde ela está agora nem se está segura...

Além disso, o Davis, que, ela querendo admitir ou não, é um grande amigo dela, está tão machucado... Até mesmo o Joe não sabe mais o que fazer pra ajudar ele. E sem mencionar aquela... Coisa em que o Patamon se transformou... Eu vi o quanto a Yolei ficou com medo, o quanto ela ficou assustada com aquilo.

Vou até ela e coloco uma mão em seu ombro. Consigo ver o quanto ela se esforçava pra tentar lidar com tudo isso que está acontecendo, pra saber o que fazer de certo... Não era pra nada disso estar acontecendo... A Kari, o TK, o Davis... Até mesmo o Patamon e a Mirato...

Eu mesmo... Não consigo compreender mais...

Quanto me dou por mim, estou abraçando ela por trás. Acho que tanto eu quanto ela não esperávamos por isso, mas isso não evita que ela me abrace de volta, ambos sob os zelosos olhares de Hawkmon e Armadillomon.

...

Normal P.d.v.

-Hey, humano, você precisa descansar...

Dois minutos se passam sem resposta.

-Hey, você tá ouvindo? Se você cair também, não vai ter ninguém pra nos ajudar...

Dez minutos se passam e o grande digimon verde começa a se irritar. Bradando sua grande clava de osso, ele se levanta e grita:

-HEY, NÃO ACHE QUE EU VOU SER IGNO...

-CALE A BOCA!

O choque foi tão grande que Orgemon quase solta sua grave clava de osso na cabeça. Dando alguns passos para trás, ele era totalmente incapaz de reconhecer o digiescolhido da Confiança. Ele olha por alguns segundos para Gomamon e para Veemon, mas ambos não respondem.

-Nesse calor, você não vai conseguir cuidar deles!

-Eu preciso! Eles são minha responsabilidade!

Utilizando de alguns pedaços de madeiras e as videiras que estavam primeiro servindo como cobertas no interior de Xuanwumon e depois como coberturas para as barracas, uma grande tenda fora montada.

Dentro dela, deitados no chão e ainda desacordados, estavam Davis e TK. O segundo líder dos digiescolhidos estava brutalmente machucado, com curativos rudimentares cobrindo quase que todo seu corpo, um grosso coágulo na sua cabeça no lugar que colidira com a árvore.

As videiras, entretanto, tornavam o interior do local extremamente quente e abafado, não permitindo uma circulação de ar, então, mesmo com o tempo cinzento, o lugar se transformara num grande forno. E fora nessas condições em que Joe persistira sentado sobre suas pernas há quase duas horas, com o corpo ereto e esperando que a situação deles melhorasse.

Percebendo que o calor cobrava muito da condição física de Joe e de Gomamon, Yukidarumon deixara um amontoado de neve no centro, refrescando um pouco o ar, mas este já derretera a uma poça de água há muito.

-Hey, pequenos – Orgemon se dirige a Gomamon e Veemon, mas apenas o parceiro de Joe o olha em resposta – Por que vocês não vou procurar o Yukidarumon pra ele deixar mais um monte de neve pra gente?

Gomamon assente com a cabeça, mas tanto ele quanto Orgemon ficam olhando para Veemon, que aparentemente estava indiferente à fala do digimon verde.

-Hey, você também!

-Não vou sair do lado do Davis!

-Você vai ajuda-lo mais...

-Eu devia ter impedido isso! – fala o pequeno digimon azul, apertando as mãos relativamente grandes para seu corpo contra o chão, a cabeça baixa – Eu sou o parceiro dele e não consegui fazer nada para ajudá-lo! Eu estava bem do lado dele e não pude fazer nada! Que tipo de parceiro sou eu?!

-Você...

-Veemon, a culpa não é sua! – Gomamon interrompe a fala de Orgemon, se aproximando do parceiro de Davis e colocando uma de suas patas em suas costas – Ninguém poderia ter previsto o que Metamormon fez... Todos nós, especialmente o Davis, sabe o quanto você se esforçaria para tê-lo salvo, que teria feito de tudo para impedir que isso acontecesse, e isso que é o importante! Aconteça o que acontecer, ninguém nunca teria coragem de falar que a culpa foi sua!

Olhando atentamente o parceiro de Joe, Veemon assente com a cabeça. Sem que Orgemon tenha que dizer mais nada, os dois se afastam, procurando por Yukidarumon.

-Seu parceiro tem muito de você nele, sabia? – fala Orgemon, ainda olhando os dois se afastando, mas sem esperar que fosse realmente respondido. Para sua surpresa, no entanto, Joe responde.

-Orgemon... Eu queria te pedir um favor – o humano não chega a virar para o digimon verde, que fica espantado ao ouvir ele conversando – Estava esperando eles se afastarem para falar... Caso algo aconteça comigo... Quero que você leve o Gomamon e resolva as coisas, certo?

Orgemon sente algo estranho em seu estômago. Era como se alguém colocasse gelo em seu estômago, fazendo com que ele tremesse mesmo naquele calor intenso. Depois de espiar rapidamente para se garantir que nenhum outro digiescolhido estava ouvindo a conversa, ele continua:

-Você não acha que já está na hora de eles saberem? Tenho certeza de que isso seria melhor...

-Não... Do jeito que as coisas estão, isso só pioraria tudo... Só... Cuide... Disso...

Joe nem percebe o quão fraca sua voz estava. Ele tinha certeza de que sua visão estava focada em Davis... De repente, ela estava em TK... Depois, estava lentamente desviando para o teto...

Antes que a cabeça do digiescolhido colidisse contra o chão, Orgemon estende seu braço e o segura pelo corpo. Derrotado pelo cansaço, ele é carregado pelo digimon verde até perto dos outros digiescolhidos.

...

"Que calor... Está tão abafado...".

Levemente confuso e com uma terrível dor de cabeça, ele abre os olhos.

"Que lugar é esse? Onde eu estou?".

Acima de si, ele só via um emaranhado de folhas e galhos amontoados de forma grosseira, criando uma espécie de cabana que o abrigava. A fraca luz do sol que começava a se pôr conseguia penetrar com grande dificuldade, causando apenas uma penumbra, mas o calor era pleno.

Ao tentar se levantar do duro chão de terra, ele imediatamente se arrepende, pois isso faz com que a parte detrás de sua cabeça quase explodisse de dor. Entretanto, alguém próximo de si percebe sua tentativa.

-Finalmente acordado?

-Hum? – virando a cabeça com muito cuidado, ele percebe um digimon baixo ao seu lado – Igamon? O que você está fazendo aqui?

-Estou de olho em vocês... – fala o digimon encostado numa das paredes da tenda improvisada. Ele estava com os braços cruzados e sua espada se encontrava ao seu lado – Antes, o digiescolhido da Confiança estava cuidando de vocês, mas ele precisa de um descanso... Então me pediram para ficar.

-Entendo... – ele se levanta lentamente, os pensamentos ainda confusos, quando algo chama sua atenção - Espera, vocês?

O pequeno digimon aponta para o lado oposto, fazendo com que ele virasse.

Com uma súbita ânsia tomando seu estômago e uma grande pontada de dor na cabeça, o digiescolhido da Esperança finalmente percebe que ao seu lado se encontrava Davis. O choque de ver o corpo do amigo quase que totalmente enfaixado, o cheiro de sangue relativamente fresco e o som de sua luta para respirar deixa o loiro atordoado, incapaz de falar.

-O digiescolhido da Confiança fez o melhor que pôde para cuidar dele – Igamon continua a falar, certo de que TK estava em um choque muito grande para responder – Mas não conseguiu fazer muito... Metamormon realmente foi impiedoso...

-Metamormon... – o loiro repete inconscientemente, mas isso causa uma apreensão tamanha que ele é capaz de ignorar a dor em sua cabeça ao virar com tudo para Igamon – E Patamon?! Onde ele está?!

O digimon ninja não responde. Silenciosamente, ele apenas faz um gesto com a cabeça. Percebendo que algo não estava certo, ele olha para trás.

"Isso... Isso não está certo... Eu perguntei onde está o Patamon... Por que ele apontou para esse digitama? O que um digitama está fazendo aqui? E... E por que eu estou chorando de repente?".

-Ele conseguiu derrotar Metamormon, mas não resistiu depois...

-Isso... Isso é tudo culpa minha...

-Sim, é – perplexo pelo que ouvira, o digiescolhido da Esperança ignora novamente a dor para fixar seu olhar em Igamon, dessa vez de pé. O digimon, avançando em direção ao loiro, não se permite abalar pelo fulminante olhar do loiro – Você permitiu que seus sentimentos o dominassem e isso custou a vida de seu parceiro. Nós estávamos em completa vantagem contra Metamormon, não havia como ele escapar. A única coisa que você conseguiu fazer foi matar seu parceiro no campo de batalha!

-Como você...

-Takeru, escute – pego de surpresa pelo digimon o chamando por seu nome, o digiescolhido não continua. Pela primeira vez ele consegue perceber que nem o olhar nem a voz de Igamon estavam carregados de raiva ou de acusação, mas sim outra coisa... Parecia até empatia – Você sabe por que eu vim?

Ainda surpreso pelo tom de fala do digimon, ele se limita a balançar a cabeça negativamente.

-Eu vim não para devolver um favor, mas para alcançar remissão. Quando fui controlado pelo Anel das Trevas, fiz coisas horríveis. Mas a pior delas eu fiz quando fui libertado. Meu orgulho permitiu que eu manchasse minha honra de ninja, engajando em confronto contra o digimon que me derrotara. Nós dois cometemos o mesmo erro, deixamos que nossos sentimentos nos afastassem do caminho correto e agora devemos nos redimir – o digimon então se vira e se prepara para ir embora, deixando uma última mensagem – Seu parceiro com certeza vai perdoá-lo por isso, mas você ainda precisará se redimir pelo que fez...

TK observou enquanto Igamon se afastava lentamente, provavelmente indo avisar Joe ou retornar para seu dever na ronda. O torpor de suas palavras ainda dominava seu corpo quando algo o desperta:

-TK...

Sua cabeça já estava próxima a rachar ao meio pela dor, então o loiro, apesar de sua urgência, precisa virar-se bem lentamente. Ele fica assustado não pelo fato de tê-la ouvida, mas foi a forma como ela a ouviu... Ele nunca a ouvira daquela forma, tão fraca, tão frágil, tão dolorosa...

-Eu... Estava esperando que ele desse o fora...

-Davis! – imediatamente TK se aproxima do ruivo, para poder ouvi-lo melhor – Você está bem?!

-He... Você acha que esses arranhão são alguma coisa? – mesmo que tentando aliviar TK, era claro que cada palavra saía de forma dolorosa para Davis – TK... Preciso falar com você...

-Eu vou chamar o Joe! – fala o loiro, já se virando para chamar o amigo – Ele vai...

-Não... Preciso falar com você sozinho...

O tom na voz de Davis era o que mais assustou o loiro. Cada palavra saía como uma súplica, e aquilo foi mais que TK conseguiu aguentar antes de lágrimas começarem a se formar em seus olhos. Voltando a se virar para o amigo, ele se ajoelha, se aproximando para ouvir que ele queria.

-TK... Eu... Eu provavelmente não vou sair dessa, cara... Eu... Estou com medo, cara...

-Davis, não fala assim... Você vai ficar bem...

-Eu... Só estou me segurando... Porque preciso dizer algo pra você... Mas preciso que, independente do que você ouvir, você prometa que não vai desistir de salvar a Kari...

"Do... Do que ele tá falando? Por que ele está falando assim? É óbvio que eu nunca vou desistir de salvar a Kari...". As palavras do ruivo fazem com que um grande peso se criasse dentro de TK, tornando a atmosfera ao redor dos dois ainda mais tensa do que jamais fora, mas vendo o olhar do amigo, o loiro segura em a mão dele nas suas, afirmando com a cabeça e falando com firmeza:

-Prometo!

...

"Não... Ele não pode estar falando sério...".

Num reflexo, TK acaba soltando a mão de Davis. O ruivo, no entanto, consegue criar força para segurar a camisa do loiro.

-TK... Por favor... Nos perdoe... Eu... Eu sei que não foi certo, mas... Por favor... Nos perdoe...

Mesmo em choque, o loiro conseguia perceber... A respiração de Davis estava cada vez mais irregular... Seus olhos já não focavam mais em nada... Suas pálpebras cada vez mais pesadas... Sua voz se extinguira já...

Não havia tempo para chamar por ninguém... Nenhum dos outros chegaria a tempo...

...

Todo o grupo estava lá. Mesmo naquela cabana apertada e quente, nenhum deles parecia se incomodar, nenhum deles se permitiria não estar presente.

No chão, um loiro estava inclinado para frente, segurando contra o peito uma mão que já não fazia mais força. No lado oposto, um silencioso digimon azul segurava a outra, colocando ela no rosto como se esperasse que ela o afagasse.

Um par de óculos de natação descansava sobre o peito agora imóvel de Davis Motomiya...

Continua...