.
Cam Girl: Online
.
.
.
Pedido de amizade enviado
.
.
.
Se olhando no espelho mais uma vez, ele conferiu sua camisa preta meio velha e o moletom que tinha sido comprado na semana passada. Particularmente, o homem achava que se vestia bem dada as situações nas quais participava. Trabalho, bar, clínica, saída com os amigos, passeios no parque com os cachorros... Para tudo havia uma roupa adequada que já era escolhida meio que no automático, mas naquele momento ele queria parecer confortável, sem parecer desleixado não desleixado, queria estar bem para o tipo de evento que ninguém te prepara para e por isso suspirou.
Conferiu seu reflexo de vários ângulos se sentindo um adolescente com quase nenhuma confiança, e apesar de ter sido popular, Kakashi nunca foi o tipo arrogante que pensava estar bem em qualquer coisa, mas com o tempo aprendeu a valorizar o que tinha de melhor em si mesmo, abusando das cores que lhe favoreciam, entretanto nada no mundo poderia lhe preparar para aquele momento porque nunca na vida imaginou estar nervoso por ver uma camgirl numa noite de sábado.
No fundo sabia que estava sendo tão idiota agindo como um adolescente em seu primeiro encontro, mas algo nele se agitava com a ideia de Healer lhe vendo pela primeira vez. Sim, porque já estava sendo um grande expectador de suas live-cams a algumas semanas, inclusive tendo se tornado um superfã e sempre pedindo pelos shows privados que nunca eram cobrados, e num desses momentos que tinham a sós, Healer finalmente sugeriu que ele mostrasse seu rosto.
Ele não sabia ao certo se deveria fazer isso, afinal ele tinha uma vida bem estabelecida no mundo real. Era um importante veterinário tendo recentemente aceitado uma vaga como professor na universidade de Kyoto, então quando ele pensava nos seus clientes e alunos descobrindo suas predileções por conteúdo adulto, Kakashi questionava a si mesmo se estava tomando uma decisão prudente.
A moça de cabelos rosas não tivera uma resposta de imediata àquele pedido, entretanto ele queria surpreendê-la. Ficava ansioso ao pensar na reação dela ao pôr os olhos nele, porque ela sempre era tão vaga quando descrevia a ideia que tinha dele, dizendo que sempre focava bem na voz grave que o homem possuía. Talvez ela tivesse medo que ele fosse um velho de noventa anos, barrigudo e manco, ou talvez ele tivesse medo que ela fosse lhe achar estranho.
Sempre fora popular com as mulheres, no entanto. Não que se achasse muito bonito, mas de alguma forma nunca lhe faltara pretendentes na vida, ainda que sua única namorada tenha sido Rin. Oh, sim. Se conheciam desde sempre, estudaram juntos desde o primário, começaram a namorar no colegial e, durante a faculdade, terminaram. Um ano depois reataram, e poucos meses depois terminaram novamente, e assim a vida seguia entre seus términos e voltas.
Mas Rin não era o foco daquele momento, e sim sua insegurança. Ele não sabia porque, mas a opinião de Healer sobre si lhe deixava inquieto. Olhou mais uma vez no espelho querendo passar a impressão de alguém que estava em casa e usava roupas de casa, que estava confortável, mas ao mesmo tempo que ficava bonito em qualquer trapo.
Ele riu nervoso quando tirou sua camisa pela décima – ou vigésima – vez naquela noite, enfiou uma camisa branca simples de mangas e quando voltou a se olhar percebeu que estava sendo um completo imbecil. Riu de si mesmo tentando interiorizar que dane-se o que ela achasse dele, ele ainda era objeto de cobiça de muitas mulheres.
Mas bem que podia ser de Healer também, não é?
Pegou todas as roupas em sua cama e as jogou dentro do guarda-roupas sem muita cerimônia. A live dela já estava rolando a meia hora e logo seria aberto o botão para shows privados, porque ela havia feito essa regra boba só para ele, dito que não aceitaria seus convites antes de meia hora de show, porque precisava agradar a todos aqueles pervertidos fãs dela que não tinham um tostão para cinco minutos do tempo dela.
Empertigou-se na cadeira do computador deixando as luzes ambientes de seu quarto acesas, gerando aquele ambiente intimista em tons amarelos com um breve LED azul de um abajur que tinha na sua cabeceira para dar um contraste. Genma podia ser um idiota, mas entendia tudo de cor e sombra desde que era um importante produtor de videoclipes, e fora o homem quem insistiu para Kakashi instalar todas aquelas smartlamps. Tinha que agradecer ao desgraçado, porque podia estar vestindo um suéter de Natal, ainda assim pareceria sexy naquela luz.
Colocou a máscara preta no rosto, tinha comprado na sexta numa loja de produtos para tatuadores. Não que aquilo fosse poupá-lo de uma exposição se de fato acontecesse, mas seria engraçado desde que Healer também usava máscara que não escondia muita coisa, apesar de ele achar que teria dificuldade para reconhece-la na rua não fosse o cabelo e os olhos, e talvez a bunda.
Respirou fundo antes de clicar no botão que a convidava para um show privado. A moça que rebolava enquanto curtia uma daquelas música com batida lenta parou suavemente para sorrir de canto enquanto olhava a tela de seu computador. Os pervertidos já conheciam aquele sorriso e começaram a reclamar em peso no chat apertado no canto direito da tela, mas a mulher só pediu desculpas e num instante seu vídeo ficou preto.
Healer está em um show privado agora.
O homem passou a mão nos cabelos quando a janela em pop-up se abriu na sua frente com um buffering carregando. Imaginou se não deveria ter feito algumas flexões para inflar os braços, mas no fundo sabia que estaria apenas se constrangendo um pouco mais. Foi quando o vídeo carregou e lá estava a mulher, em seu lingerie que fazia do bege sua nova cor favorita.
— Sete minutos de atraso? – Ela disse com sua voz zombeteira — Estou deixando de ser novidade para você, Kakashi.
Ele riu com a provocação dela, passando a mão na sua própria coxa, nervoso com o olhar intenso dela para a câmera, quase como se pudesse vê-lo.
— Quer dizer que você conta os minutos para me ver, Sakura?
Foi a vez da mulher sorrir derrotada enquanto olhava levemente para além da câmera, balançando sua cabeça negativamente como quem está apenas se divertindo com a bobeira alheia. Passou a mão suavemente pela pele exposta de seu queixo e bochecha enquanto dava a volta na mesinha de centro para sentar.
— Acho que... – Ela pensou um pouco antes de sentar em posição de buda de frente para a câmera com aquelas pernas — ... Talvez? – E riu um pouco mais.
— Se realmente quisesse me ver então tirava essa regra inútil de meia hora – E continuou sua provocação tentando dissipar seu próprio nervosismo.
— Não seja ciumento, Kakashi – Falou fazendo um breve bico — Preciso ganhar alguma coisa aqui, senão não tem graça.
— Então me deixe pagar alguma vez. – Rebateu porque todos esses encontros estavam sendo gratuitos. Ele não entendia porque, mas ela jamais cobrava dele pelos momentos privados que tinham.
Healer jogou sua cabeça para o lado como se estivesse cansada, revirou os olhos como só alguém jovem o faria, e deu um longo suspiro.
— Gosto da sua voz.
Foi a resposta dela.
Kakashi olhou para a tela de seu computador por um longo momento observando a expressão dela, avaliando seu olhar e nada veio. Ele não conseguia decifrar aquela resposta que ela sempre lhe dava quando questionava sobre não ser cobrado. Aquilo não explicava nada, mas ao mesmo tempo ele sentia que havia algo ali que ela de alguma forma encontrou, algo que ela não queria tornar comercial.
— Eu espero que não só da voz.
Falou temendo que ela percebesse seu nervosismo. Healer era atenta aos detalhes, parecia que de alguma forma o sentia e podia dizer quando teve um dia ruim, ou quando estava tão relaxado quanto poderia estar.
— Não se preocupe com isso, Kakashi.
E ele também gostava do jeito que ela falava, do jeito que olhava para a câmera como se pudesse vê-lo por completo, gostava da voz dela e, depois das semanas que se passaram, adorava como Kakashi podia soar de tantos jeitos diferentes.
— Não sei se posso fazer isso – Respondeu — Mas vamos descobrir se tenho razão em me preocupar – E então finalmente habilitou a webcam que tinha comprado nessas lojas virtuais depois de muita pesquisa. 4k, 60 fps... O mais avançado que tinha em câmera para computador.
Ele a viu arquear uma sobrancelha confusa, a viu rir um pouco como se estivesse processando e principalmente a viu arregalar os olhos e pôr as mãos na boca como se de repente estivesse nervosa. Kakashi sabia que levava um tempo até a imagem de si chegar até ela, então sua reação era simplesmente ao buffering anunciando a conexão se estabelecendo.
Sakura estava obviamente rindo de nervosa. Ele não pode evitar sorrir quando a via tendo reações tão genuínas, e lentamente, no meio daqueles encontros não-casuais, o homem a via cada vez mais como a pessoa por trás da performer. É claro que Healer tentava manter sua postura de camgirl a maior parte do tempo, mas em momentos como esse, a pessoa que ela era em seu dia-a-dia escapava, seja por uma surpresa ou por uma gargalhada genuína.
Era assim que ele se sentia cada vez mais próximo dela, como se fosse possível.
— É você? – Ela perguntou olhando para a tela de seu computador levantando do sofá com suas pernas nuas, dando passos para mais perto. Logo seu rosto preenchia as 32 polegadas do monitor dele e o homem se sentia cada vez mais exposto, sorrindo torto por debaixo daquela máscara preta que usava.
— Sou eu – Respondeu gesticulando um pouco para a câmera — Mas prometo que sou muito mais bonito pessoalmente.
— Será...? – A moça perguntava passando a mão em seu próprio queixo como se estivesse analisando a situação — Não posso afirmar porque apesar de estar vendo seus olhos e parte do seu cabelo, seu rosto está coberto...
— Tiro a minha se você tirar a sua. – Respondeu com humor porque sabia que ela jamais revelaria o próprio rosto daquela maneira.
— Justo – Ela disse colocando as mãos na máscara verde oliva que vestia, ainda em clima de carnaval europeu. Fez seu suspense barato, mas acabou apenas rindo para a câmera enquanto o homem demonstrava sua expressão divertida com o olhar. — Mas olha, eu estou aqui apenas de calcinha e sutiã. – E deixou no ar.
— Tsc – Estalou a língua fingindo um problema — Eu não tenho um sutiã aqui pra vestir pra você.
Riram juntos e a mulher sustentou seu olhar por um longo momento na tela a sua frente, mantendo a leve curva de seus lábios como quem tem pensamentos e não conseguem escondê-los. O homem ainda se sentia ansioso com a reação dela, que riu, o provocou e fez piada, mas jamais declarou o que estava achando de verdade do que via naquela tela de computador.
Kakashi abaixou levemente a cabeça quando percebeu que aquilo era demais para ele. Talvez ela não tivesse gostado de sua aparência e talvez isso significasse o fim daquela estranha relação que estavam construindo. Ele não podia dizer que conhecia a garota, no máximo sabia reconhecer suas expressões e até diferenciar a camgirl da mulher real que era em seu dia-a-dia, mas era só.
Ele precisava de um comentário, qualquer coisa para confirmar que ainda teria a semana seguinte, que ainda seria alguém diferente para ela. Talvez fosse seu ego falando, talvez fosse uma crise de meia idade, mas ele não podia impedir o sentimento de querer que ela o visse não como um pervertido, não como um tarado qualquer, mas como um homem.
Não conseguia evitar sentir-se dessa forma com relação a ela, porque mais que a camgirl, Kakashi adorava a mulher que conseguia enxergar além disso. Adorava pensar que dentre todos os outros homens que ela conheceu daquela forma apenas ele conseguia ter o vislumbre da mulher que ela realmente era além da performer.
Então quando o silêncio pairava entre eles daquela maneira, soando ao fundo a batida arrastada da voz melodiosa que dizia que ninguém estava dizendo que era errado*, e os olhos dela se mantinham naquela tela tão verdes quanto as florestas mais densas, tão bonitos mesmo através daquele simples monitor. Kakashi levantava novamente sua cabeça, olhando para ela e se sentia um menino novamente.
— Diga alguma coisa.
Era o mais genuíno pedido enquanto ele tentava controlar aquela inquietude dentro dele. Não havia jogo ali, era ele mesmo diante dela, o homem que não era nenhum pouco perfeito, que tinha lá suas inseguranças e que, kami, todas elas surgiam diante daquela moça que ele sequer conhecia. Era estranho e confuso, mas estava tudo ali, e ele não podia negar.
Não ousaria negar.
— O que eu deveria dizer? – Ela respondeu com sua voz suave e não era mais Healer, era sua Sakura. — Não achei que você fosse fazer isso um dia, mas estou feliz que tenha feito – Disse e ele a percebeu cutucando a unha de seu dedo, mostrando que também não era a prova de balas. Ela se demorou um momento em seus pensamentos, com os olhos mostrando que estava passeando em algum lugar de sua memória — Você... – E riu brevemente — É bem melhor do que eu imaginava – Confessou arrumando os cabelos para trás da orelha — Pelo menos a parte que consigo ver.
Ele sorriu e não pela vitória ou pelo ego massageado, mas sim porque havia um certo alivio ali. Não que ele achasse que a moça seria fútil o suficiente para lhe negar os momentos, mas ela gostar de sua aparência tornava aquilo mais agradável para ela, não é? Sakura era tudo aquilo com seu jeito e cores, com seu rebolado e sorrisos, e ele queria ser alguém para ela da mesma forma, mesmo que soubesse que jamais passariam daquilo, que jamais ousariam dar um próximo passo, porque não havia mais passos.
Naquela noite, Kakashi e Sakura apenas conversaram, e daquela forma se sentiram muito mais realizados.
.
.
.
— Esse são os exames da Shakira? – Ele perguntou pegando a pasta azul com os papeis dentro enquanto passava pela recepção da clínica.
— Sim, Kakashi-san – O homem disse com um sorriso polido — Os da Kore também chegaram.
— Ótimo. Também os quero – E esperou até o outro lhe entregar os documentos, agradecendo antes de sair na direção de sua sala.
Kakashi era veterinário nessa clínica anexada ao petshop mais caro de toda Kyoto e trabalhava ali a mais ou menos dez anos, quando deixou a clínica comunitária onde prestava serviços quase que de graça. No final das contas, sua escolha em se manter numa clínica chique na parte alta da cidade se deu mais por questões sentimentais que dinheiro e prestigio.
Ele tinha se cansado de perder pacientes, e todo cachorro ou gato que não podia salvar lhe deixa um tanto depressivo, meio revoltado com o mundo. O fato era que criar um animal não era barato, e cada um dava o seu melhor do jeito que podia, mas quando um cachorro precisava de uma cirurgia cara, com medicamentos mais caros ainda, ou até mesmo com alimentação especializada, a parcela mais humilde da população era incapaz de manter essas necessidades e era inevitável que o animal eventualmente morresse.
Optou pela clínica chique no petshop porque os seus clientes tinham dinheiro e raramente um animal morria por falta de recursos. Era egoísta, mas foi o jeito que ele encontrou de continuar atendendo e não sofrer tanto pela perda dos seus pacientes. Mesmo Shakia, a cadela sem raça definida de 16 anos, tinha uma vida de rainha e parecia muito mais saudável que muitos cachorros com metade da sua idade.
Mas a Kore, a gata maine coon de 7 anos, tinha um caroço próximo ao pescoço, o que podia ser qualquer coisa. Ele abriu os exames da gata e suspirou. Não era nada muito grave, mas precisaria remover numa cirurgia. Pediu ao recepcionista que ligasse para o pai da gata e buscasse agendar mais uma consulta para providenciarem o pré-operatório.
Às terças eram seu dia de atendimento na clínica, no resto da semana ele era professor universitário, algo que lhe caiu como uma luva depois de ter saído da clínica comunitária. Lá eles também ofertavam serviços a baixo ou nenhum custo, e os estudantes eram ávidos por realizar os mais diversos procedimentos, deixando o ambiente sempre mais motivado.
Naquele final de tarde, Kakashi olhou para o relógio e percebeu que estava atrasado. Eram sete horas e precisava pegar Rin no trabalho para jantar. Enfiou os exames de seus pacientes numa pasta e os guardou dentro do arquivo devido, rapidamente se despediu do recepcionista e saiu rumando ao estacionamento.
Quando se sentou no banco do seu carro, rapidamente deu uma olhada no celular. 13 mensagens de Rin estampavam a tela querendo saber onde diabos ele estava que não havia chegado ainda. É claro que ele inventaria uma desculpa, e não seria muito boa porque depois de anos de relacionamento, Rin sabia exatamente que o homem apenas se distraia em suas atividades.
Puxou o cinto e partiu pelo trânsito caótico de Kyoto, pegando um engarrafamento logo depois da avenida principal. Para ser honesto, ele não estava muito preocupado desde que seu programa de rádio favorito estava sendo reprisado naquele horário, então ele só se permitiu curtir a viagem em seu carro confortável.
— Você tá muito atrasado! – A voz de Rin soava irritada quando ela abriu a porta e jogou sua bolsa no banco de trás — Custa se organizar pra sair um pouco mais cedo? – Perguntou fechando a porta depois de se acomodar.
— Tive um imprevisto – Se justificou da maneira mais vaga possível — E não se preocupe, eu liguei para confirmar as reservas, então não vamos perder a mesa.
— Eu espero que não – Ela resmungou olhando seu próprio celular.
Rin trabalhava numa revista gastronômica fazendo análise de restaurantes. Além de avaliar a comida e bebidas, ela também dava um panorama completo sobre o atendimento, o ambiente, e até mesmo as pessoas que frequentavam o local. A revista Queijos&Vinhos era tão esnobe quanto seus leitores, e Rin era basicamente obrigada a seguir essa linha editorial se quisesse se manter no trabalho.
O homem se lembrava da época de faculdade quando ela sonhava em ser repórter investigativa e viver a emoção das páginas policiais. Ela tinha talento para isso segundo seus professores, mas a realidade da profissão a levou para o caminho da crítica gastronômica, o que tinha deixado Rin cinco vezes mais exigente com refeições e locais, tornando a vida de Kakashi um completo inferno porque todos os locais que ela gostava eram muito caros.
Eles iam nesse novo restaurante aberto no centro da cidade. Rin particularmente não gostava tanto da localidade, mas como o jantar estava sendo financiado pela revista não havia desculpas para não irem. Demoraram um pouco para chegar, mas uma vez no local, Kakashi não enfrentou dificuldades para estacionar, e logo adentraram o local.
A fachada não era tão chamativa e na opinião nada profissional de Kakashi, com um clima meio retrô lembrando a Art Nouveau dos anos 20 na Europa. Era charmoso de um jeito descolado, não muito intimista para gerar aquele clima mais chique. Tinha um espaço bem aberto abusando de tons amarelados com um piso bem lustrado e jazz ao vivo.
Se ele pudesse fazer uma crítica diria que a música era alta demais, de resto, na sua humilde opinião, era só mais um restaurante novo querendo emplacar seu clima elitista na velha Kyoto. Qual era o problema dos bons e velhos restaurantes populares que serviam a boa e típica comida japonesa? Suspirou enfiando as mãos nos bolsos enquanto eram encaminhados para uma mesa um pouco mais para lá do meio do local.
Rin colocou seus olhos de águia para funcionar, analisando os menores detalhes que poderiam ser determinantes para sua avaliação na revista Queijos&Vinhos. O homem particularmente a achava charmosa demais quando apoiava os cotovelos na mesa e escondia sua boca atrás das mãos unidas enquanto olhava para tudo e todos. Sua namorada tinha uma beleza comum com seus cabelos castanhos e olhos de amêndoas, mas os detalhes que a transformavam numa pessoa única, como a pequena marca que aparecia entre os olhos quando ela focava demais em alguma coisa, ou o jeito com que ela desviava o olhar quando alguém descobria estar sendo observado.
Não podia ser leviano, haviam muitas coisas das quais gostava em Rin, mas a verdade é que as pessoas mudam, e depois de tudo o que viveram talvez seu relacionamento não estivesse indo num bom caminho. Depois que terminaram da primeira vez nada foi o mesmo. Desde o último termino estavam juntos a sete meses e nada havia mudado.
— Ok, eu já odiei o nome de todos os pratos – Comentou abaixando o cardápio para olhar o homem que tirava brevemente os olhos do celular — Vamos do básico? – Perguntou — Tem esse suflê de queijo com geleia de pimentão e salada de rúcula – Disse maneando a cabeça — Daí a gente pede esse ravioli e robalo grelhado, e pra sobremesa...
— Torta de morango. – Kakashi disse antes que ela pudesse completar.
Rin parou por um segundo e então não conseguiu segurar a risada. Colocou a mão na boca delicadamente enquanto sua voz escapava com as risadas. Kakashi sorriu de canto olhando para a mulher enquanto ela se recompunha, não era o ambiente para altas risadas.
— Sempre muito prático, Kakashi – Falou fechando o cardápio — Que seja torta de morango então.
Eles começaram a conversar depois que fizeram o pedido. Por ser jornalista, Rin ganhava muitos passes livres para eventos culturais e principalmente restaurantes. Frequentemente jantavam fora de casa para que ela pudesse fazer uma crítica segura, mas nem sempre ela exercia sua profissão apenas na Queijos&Vinhos, às vezes Rin era solicitada por algum jornal como freelancer e escrevia alguma matéria com um teor muito mais sério.
— O suflê estava bom, mas esse peixe... – E fez uma careta — Exageraram no alecrim – Disse deixando o garfo repousar, sinalizando que não iria mais comer.
— Eu achei bom – Ele disse dando os ombros enquanto a outra só revirou os olhos com divertimento.
Sim, ele era prático e gostava de comida simples. Por ele comeriam lamém na casa de macarrão da esquina da casa dela, o melhor lamém da cidade, mas é claro que aquilo era simples demais para a jornalista culinária Nohara Rin. Ele suspirou se resignando ao seu prato enquanto ela tomava notas em seu celular.
— Posso dormir na sua casa hoje? – Ela perguntou depois de um momento — Faz tempo que não passamos a noite juntos.
— Hoje não, tenho umas resenhas pra corrigir – Respondeu — Que tal no domingo?
— Fico imaginando quando a gente casar – Ela riu sem humor — Você se isolando num quarto com a desculpa que tá corrigindo provas.
— Nós nem somos noivos, Rin.
— E nesse ritmo nunca vamos ser.
O homem a olhou por um longo momento enquanto ela lhe lançava aquele ar afetado antes de voltar a atenção para o seu próprio telefone. Resolveu se resignar porque aquela discussão obviamente não valia a pena. Terminou seu robalo com ravioli que estava uma delícia e pegou o próprio celular, vendo logo de cara a notificação do Lime com Genma mandando algum pornô no grupo. Ele sorriu de canto ao ler a conversa idiota que estavam tendo, chamando Asuma de gado quando ele disse para o homem parar com a putaria no grupo.
Kakashi tirou uma foto da abusada Rin a sua frente e digitou rapidamente um "alguém quer robalo?". Seus amigos começaram a fazê-lo de chacota dizendo que ele só não era mais gado que Asuma. Aoba perguntou logo de cara porque o casal havia brigado, mas Genma foi mais rápido em responder "E precisa de algum motivo com a Rin?"
Se arrependeu imediatamente quando se viu virando chacota no grupo. Não que ele ficasse chateado por ser zoado pelos seus amigos, mas expor Rin daquela forma sempre o fazia se arrepender, porque Genma não sabia ser sensível com a situação de ninguém e Aoba sempre acabava indo com o outro nessas situações.
Suspirou percebendo que se tentasse defende-la só ia acabar sendo mais zoado que o Asuma e simplesmente resolveu se concentrar na torta de morango que acabava de chegar, pelo menos foi o que pensou quando o celular vibrou mais uma vez, anunciando uma notificação de e-mail que foi prontamente aberta.
Oh.
Era do site de performers. Uma mensagem que Healer havia enviado para todos os seus superfãs anunciando ter um brinquedo novo e que estava ansiosa demais para usá-lo, prometendo um show surpresa em uma hora para apresentar o brinquedinho, um show pocket totalmente fora da agenda. O homem sorriu sem perceber imaginando quais eram as ideias da moça enquanto relia a mensagem copiosamente, como se estivesse tentando descobrir alguma intensão que só existiria naquelas entrelinhas.
Deixou o celular de lado quando percebeu o olhar de Rin sobre si. Fingiu demência e começou a saborear sua torta de morango que tinha um sabor completamente novo diante da notícia que acabara de receber. Sequer as críticas de Rin sobre sua sobremesa favorita podiam lhe tirar o deleite que era ter a calda de morango viçosa e doce em sua língua.
— Ok, não vamos voltar nesse restaurante – Rin comentou desistindo da sobremesa completamente.
— Fale por você. Essa torta está incrível. – E puxou o prato dela para si, pronto para devorar mais uma fatia daquela saborosa torta, sabendo que seu sabor ficaria em sua mente por dias.
— As vezes você tem prazer em me contrariar, não é? – Ela perguntou apoiando o rosto numa das mãos, o tédio invadindo sua expressão enquanto o observava comer como se estivesse saboreando um manjar dos deuses.
— Você é muito exigente com comida – Alegou passando o ultimo pedaço em todo o prato para absorver a máxima quantidade de calda possível — Pra mim foi uma boa refeição, mas não vale o preço.
— A única coisa boa foi o suflê.
— O quê? Eu odiei o suflê.
Nohara Rin suspirou por um longo momento e o homem simplesmente ignorou, bloqueando qualquer coisa que pudesse estragar aquela sensação do doce em sua boca. Não, ele não era o tipo fanático por doce, mas torta de morango tinha seu apelo para ele.
Terminando sua refeição, ambos saíram na direção do estacionamento trocando poucas palavras. Depois de uma análise, Rin ficava estranhamente taciturna, quase como se estivesse de luto pelo alimento mal preparado segundo sua visão. Ele entrou no carro e ela resmungou sobre a falta de valet, fazendo Kakashi quase revirar os olhos com a exigência tão desnecessária.
Ele a levou para casa rapidamente. O trânsito já tinha se acalmado e as ruas da Kyoto noturna viravam uma pista suave com suas luzes progressivas. Kakashi gostava de dirigir a noite apesar de todas as adversidades. Em pouco tempo estavam de fronte ao prédio da mulher.
— Tem certeza que não quer subir? – Ela perguntou com um sorriso simpático e ele olhou a hora discretamente no painel no carro.
— Querida, eu adoraria – Falou amaciando a voz — Mas eu realmente não posso — Porque o show de Healer começa em apenas 20 minutos, pensou.
— Kakashi.. – E era a voz manhosa dela, juntamente ao toque no rosto e aproximar dos lábios. Ela o queria.
Eles se beijaram por um longo momento, e ainda que hesitante, Kakashi se deixou levar pelos lábios já conhecidos de Rin, que tinham aquele teor confortável de já saber o que esperar. Colocou a mão entre os cabelos dela e lentamente foi encerrando aquele beijo que ele sequer havia percebido ser o primeiro da noite.
— Eu também quero, querida, mas... – Ele soltou um ruído de quem lamenta ter que fazer alguma coisa — Eu realmente preciso ir.
Rin o olhou por um momento e ele não sabia dizer o que se passava na mente dela. A mulher concordou por fim, saltando para fora do carro depois de se despedir brevemente. Ele ficou o suficiente para vê-la entrar no prédio e simplesmente saiu dali sem o menor peso na consciência.
A noite estava apenas começando.
.
.
.
A sinfonia canina ainda soava quando ele fechou a porta da frente. Morava numa casa longe do centro, um lugar que permitia ter espaço o suficiente para os seus oito cachorros. Tinha muros altos, indo de encontro com a tendência japonesa dos campos abertos, mas ele sentia que sua privacidade era melhor garantida daquele modo, principalmente quando tinha cachorros que latiam por qualquer coisa que vissem.
Fez o seu caminho passando pela sala, subindo as escadas enquanto se livrava do próprio casaco. Jogou as chaves na mesa de cabeceira enquanto as luzes se acendiam automaticamente. Ele tinha que admitir que Genma tinha razão quando falava que uma casa automatizada era a melhor coisa que século vinte e um tinha propiciado para a vida doméstica. Ligou o computador porque a tela nanica do notebook não seria suficiente para Healer e sem tempo para tirar a camisa, ele viu aqueles cabelos rosas balançarem numa música lenta enquanto ela rebolava tortuosamente.
Sorriu quando percebeu que havia chegado a tempo para a grande revelação abrindo os botões de sua camisa e arregaçando as mangas porquê de repente sentia calor. Seus olhos não saiam da tela nem mesmo quando desceu as calças jogando-as na cama antes de sentar apenas em sua samba-canção na cadeira giratória.
Aumentou o volume das caixas de som porque essa era uma das vantagens de se morar sozinho e no fundo ele queria ouvir Sakura com todo o seu corpo, e assim a música que ela dançava ia lentamente ocupando os espaços enquanto ela performava toda sua sensualidade diante da câmera fazendo cada homem e mulher que a assistia ficarem hipnotizados com seu efeito magnético, porque era assim que ele se sentia, incapaz de tirar aquele sorriso de canto do rosto enquanto seus pensamentos voava com as possibilidades.
Quando a melodia foi escapando e ficando cada vez mais distante, ela parou de costas olhando por cima de seu ombro nu, e aquele verde brilhante de seus olhos o penetrou. Ele soltou o folego que não sabia que estava segurando e inevitavelmente se sentiu idiota. Era tão pouco e mesmo assim ali estava ele, como um gado nas palavras de Genma, babando em cima dela.
A moça riu para a câmera correndo para o lado para alcançar o interruptor e Kakashi fez uma nota mental para dizer a ela sobre automatização de residências. Healer voltou a tela com um sorriso satisfeito, como se a dança tivesse revigorado suas energias. Parecia agitada também, mas ele associou isso ao brinquedo novo que havia chegado.
— Hey, pervs! – Ela disse com o rosto perto da câmera — Acho que essa dança foi uma boa espera para o que tem por vir, não é? – E mexia um pouco no mouse, se fazendo ouvir o click-click característico.
Sua máscara do dia era aquela preta lisa, bem simples na verdade, mostrando que ela sequer tivera tempo para organizar seu figurino, mas o homem tinha que confessar que era uma das favoritas dele. Usava um espartilho vinho com uma daquelas calcinhas minúsculas e era só isso. Daquele ângulo, com o rosto tão perto da câmera, Kakashi conseguia ver o decote dela de forma privilegiada.
Na verdade, não só ele, como o chat fazia questão de salientar.
— Eu sei, eu sei que estou vestida demais, mas ei! Vocês vão gostar do que eu vou mostrar. – E riu como se estivesse se divertindo com o chat lhe pressionando sobre a surpresa e sua roupa — Ok, já temos aqui mais expectadores do que eu imaginei que teria num show anunciado tão repentinamente, e por isso... – Ela foi se afastando — Vamos começar com a grande revelação...
Healer se abaixou brevemente pegando uma caixa colorida de um lugar abaixo da câmera e rebolou sua bela bunda para detrás da mesa de centro, onde a moça colocou a caixa e sentou-se no sofá, olhando para a lente como se pudesse ver o rosto de cada um de seus pervertidos. A essa altura, Kakashi já queria martelar o botão de show privado, mas ainda não estava habilitado e ele amaldiçoou a regra da meia hora.
A mulher se empertigou, preparando-se num suspense fajuto para abrir a caixa branca. Deslizou a tampa para cima e mordeu o lábio inferior, colocando a mão para dentro e novamente fazendo aquele suspense idiota que funcionava tão bem em Kakashi, porque quando percebeu estava curvado na direção da tela. Riu de si mesmo antes que ela pudesse revelar, finalmente, o conteúdo.
E, oh...
Era um dildo bege. Daquela distância, Kakashi podia ver a simulação das veias, e em comparação com a mão dela, não parecia ser tão grande, na verdade, ele poderia dizer que tinha dimensões padrão, nada exageradamente grande e grosso. E não, ele não estava decepcionado, era até interessante ver a preferência dela por paus, mas diante de todo o rebuliço ele esperava mais que um dildo...
— Ok, eu sei que pode não ser o que vocês esperavam... – Ela disse com um risinho — Mas é que vocês não viram esse detalhe aqui... – E mostrou a base do objeto, fazendo com que Kakashi arqueasse uma sobrancelha.
O chat fervia parecendo não darem a menor atenção ao que ela estava falando, todos queriam vê-la simplesmente tirar a roupa e meter o tal brinquedo em si mesma, entretanto ela parecia alheia a tais comentários e Kakashi só queria sumir com todos eles. O grande diferencial daquele dildo para os outros era uma ventosa na base, que permitia que ela o grudasse em superfícies e o deixasse ereto sem precisar segurar.
— Vocês ficam falando tanto sobre como seria uma delícia me ver sentando em vocês, então eu quero dar uma amostra – E fincou o objeto na sua mesinha com um barulho.
O dildo estava lá, ereto e solitário. Kakashi gostava quando ela usava os dedos, e as vezes ela aparecia com aquelas bolas tailandesas que nas mãos dela eram tão eróticas quanto deveriam ser, mas um dildo...
Foi quando ela se sentou no chão bem de frente para o objeto e olhou para a câmera daquele jeito, cheio de expectativa, e então o lambeu da base para a ponta lentamente, com sua língua arrastando centímetro a centímetro até encontra a ponta, onde ela chupou levemente, masturbando o corpo do dildo enquanto sugava sua cabeça.
Kakashi já tinha mudado de ideia sobre o brinquedo novo dela àquela altura, mas quando ela olhou para a câmera ainda com sua boca naquele pau, o homem sentiu seu corpo contrair e um arrepio tomar conta de si. Era tão absurdo como ela conseguia fazer aquilo com ele daquela distância com apenas um olhar.
— Agora parece um pouco mais interessante, não é? – Perguntou depois de lamber os lábios — Mas como eu disse, é apenas a apresentação do meu novo brinquedo – E riu maldosa enquanto se levantava de sua posição — E é aqui que eu encerro o show, meus pervertidos.
O chat subia com protestos, pedindo, implorando para que ela por favor enfiasse aquilo ou qualquer outra coisa dentro de si. As vulgaridades só pioravam e Kakashi imaginou como ela simplesmente não se deixava afetar por tudo aquilo, ao mesmo tempo que amaldiçoava o tempo que não passava, porque o botão de show privado simplesmente não se ativava.
Ela começava sua despedida de seus fãs, agradecendo as doações da noite e rindo daqueles que estavam tão inconformados pela não utilização do brinquedo, mas ela estava resoluta em seu propósito, e Kakashi gostava disso nela, como ela colocava ordem naquela pequena balburdia que ela seu chat.
Mas o milagre acontece para os bons, porque no último segundo quando ela estava dizendo bye-bye para todos, o botão se ativou e Kakashi foi rápido em clicar ali. Ele a viu ter uma surpresa e depois rir genuinamente, colocando sua mão frente a boca para esconder aquela reação que ele tanto gostava. Sakura maneou a cabeça e pareceu pensar por um momento antes de simplesmente aceitar o convite, e num segundo estavam num show privado.
— Pensei que terça fosse um dia difícil para você conseguir me assistir – Ela disse ainda perto demais da câmera.
— A tarde, sim... Mas eu não perderia nenhum show seu que acontecesse a noite.
— Bom saber – Retrucou se afastando brevemente, lhe dando aquela visão de seu corpo. Ela girou como se tivesse lido os pensamentos dele e encostou a cabeça no ombro, como quem faz algum charme — Gostou desse espartilho? Você nunca o viu, né?
— Você fica fantástica nele – Kakashi respondeu com toda sinceridade que tinha — Adoro essa sua bunda. – Completou porque amava como o quadril dela se movia quando ela andava.
— E eu achando que você me adorava como um todo. – E riu se sentando no sofá, dessa vez com as pernas cruzadas. — E também achei que você ligaria a câmera pra mim a partir de agora.
Ele se sentiu intimidado pelas palavras dela, a maneira de andar e sentar-se. Healer soava diferente aquela noite apesar das provocações. Era como se ela quisesse dominá-lo, estar por cima naquele dia, e ele não tinha muita certeza se gostava, mas resolveu que iria lhe dar uma chance porque ela nunca decepcionava.
— Se quer me ver é só pedir – Rebateu catando aquela máscara estúpida em sua mesa e vestindo-a rapidamente. Ligou a câmera e em um instante o sorriso vitorioso dela estava ali.
— Agora sim – Aprovou quase como um dono com seu cachorro e ele se pôs a olhá-la tão intensamente quanto ela, medindo forças. — Kakashi – A voz dela soou suntuosa em seus lábios rosados pelo brilho labial — Eu menti agora mais cedo – Disse se levantando enquanto se livrava da própria calcinha, fazendo o homem franzir o cenho — Eu não comprei isso por eles ou pelo show. – E começou a abrir seu espartilho, desprendendo os fechos um a um — A verdade é que já faz algum tempo que só consigo pensar em sentar em você.
O homem se empertigou na cadeira sem dar-se conta, seu corpo apenas reagiu as palavras dela que ecoavam por todos os lugares no seu quarto, era como se ela estivesse por todos os lados, era como se a voz dela o envolvesse naquela frase tão obscena... Tão honesta.
Ela deixou o espartilho cair e lhe deu a melhor visão de seu corpo. Aquela pele tão lisa e convidativa, ela parecia algum tipo de divindade em forma de mulher com seus cabelos colorindo o tom alvo que contrastava com aqueles mamilos enrijecidos, tão delicados que pareciam suplicar para serem tocados. Toda ela parecia querer ser venerada, beijada desde seus lábios até a penugem rosa que crescia em sua virilha.
Kakashi queria devorá-la, principalmente quando ela agia daquele jeito tão decidida, tão arrogante...
— Fico feliz em saber que não sou o único aqui querendo isso – Respondeu depois de forçar sua mente a tal, mas a verdade é que era difícil pensar quando seu pau latejava daquela maneira tão forte.
A mulher deu a volta da mesa com seu dildo ainda fixo na madeira escura, sumiu da área da câmera por um segundo e voltou segurando uma bisnaga branca. Kakashi sentia seu corpo responder ao dela, querendo tocá-la, encostá-la contra a parede e lhe fazer suspirar seu nome antes que todos os sons dela virassem gemidos de prazer.
Droga, ele a queria tanto.
Mas lá estava Sakura, espremendo aquele líquido viçoso sobre o dildo, espalhando o lubrificante por toda sua extensão, e Kakashi só conseguia querer que fosse o seu pau ali sendo pressionado pelas mãos tão delicadas e experientes daquela mulher que só de tirar a roupa lhe levava a loucura.
— Sakura... – Ele pediu se sentindo um pouco perdido. Ainda que soubesse o que ela estava se preparando para fazer, ele também não sabia direito. Sakura lhe causava com frequência esse sentimento de confusão, como se fosse um virgem completamente perdido em sua primeira vez com uma mulher.
E que mulher.
— Eu quero, Kakashi, que você me acompanhe – Ela disse largando a bisnaga no sofá antes de andar na direção da câmera, rebolando aquele quadril tortuoso. — Quero que você se movimente no meu ritmo, entendeu? – Perguntou para a câmera, levando seu olhar diretamente ao dele, e o homem engoliu seco em expectativa.
— Entendi – Foi a única frase que conseguiu pensar, a única resposta possível para aquela situação.
— Agora espere mais um segundo, eu vou te dar a visão correta.
E com isso a câmera dela tremia, sendo movida de um canto a outro. Kakashi franziu o cenho, confuso por um instante, até perceber Sakura regulando o tripé de um modo que sua visão fosse angulada para cima, exatamente como a veria se fosse ele ali embaixo dela.
O ar lhe escapou quando a imaginou daquela maneira e ele já queria começar sem ela, sentia que não podia mais esperar quando ela, de frente para a câmera, masturbava a si mesma, mostrando sua expressão de prazer diante dele.
— Não comece – Ela ordenou depois de reprimir um gemido.
Mordeu o lábio e parecia estar chegando a algum lugar quando parou de repente, um pouco ofegante ao mostrar seus dedos para a lente, que demorou um instante para focalizar o líquido de prazer formando um fio enquanto ela abria seus dedos.
Tão molhada...
Muitas vezes ele desejou estar ao lado dela nesses momentos, mas ali diante de Sakura subindo na mesa e agachando diretamente contra o dildo, Kakashi quis poder se materializar imediatamente naquela sala e fazê-la sentar em si, rebolando aquela bunda na sua virilha, lhe falando indecências enquanto ela gemia cada vez mais alto.
Mas tinha que admitir que daquele jeito também era bom.
— ... Kakashi... – Ela disse sentando pela segunda vez e ele a acompanhou, utilizando um creme qualquer, simulando ela como podia, sabendo que nada seria igual a tê-la em suas mãos, que sua pele, seu cheiro, e calor eram únicos.
A moça começava lentamente, num ritmo que o fazia querer segurar os quadris dela para conduzí-la a uma velocidade maior, ele implorou para ela acelerar seus movimentos, sem ousar assumir um ritmo que não fosse o dela, afinal tinha se comprometido com isso.
Sakura riu para a câmera daquele ângulo tão revelador, ele via o abdômen dela contrair quando sentava até a base, suas pernas se movendo tortuosamente, seus seios tão delicados estavam expostos daquele jeito vulgar e era tudo em nome do prazer dela.
— Sakura... – Grunhiu o nome que deu a ela sentindo seu próprio corpo pedir por mais, se ela queria vê-lo enlouquecer pelas possibilidades, então estava conseguindo da maneira mais simples possível.
Não era só o corpo dela, não era só o que ela estava fazendo, era também a maneira com que os olhos dela nublavam enquanto olhavam para a tela onde ele aparecia, era o jeito com que ela sentia prazer ao perceber seu desespero por mais.
Mas não podia dizer que ela estava imune ao próprio feitiço, porque logo seus gemidos começaram a escapar e com isso a mulher sentava com mais vontade, apertando os olhos em algum momento enquanto pedia para que ele dissesse qualquer coisa, o problema é que ele não conseguia pensar em nada. Era como se sua capacidade de fala tivesse sido reduzida a quase zero, porque a única coisa que sua mente conseguia processar era o desejo de tomar aquela boca, de fazê-la sua repetidas vezes.
E quanto mais esse pensamento se apropriava de todo o seu ser, mais Kakashi sentia que precisava dela, mais se sentia pronto para qualquer coisa desde que Sakura estivesse consigo. Ela acelerava e seus longos gemidos ficavam mais agudos, sendo interrompidos pelo arfar que surgia da garganta enquanto que o suor se precipitava pelo corpo.
— ... como você consegue, Sakura, fazer isso comigo? – Perguntou sem sequer entender que estava falando em voz alta, e os olhos dela o encararam através daquela tela, tão verdes quanto pedras de esmeraldas reluzindo em malicia e desejo, porque sim... Ali ele conseguia ver que ela o desejava tanto quanto ele, que o imaginava ali sobre ela, querendo devorá-lo por inteiro.
Ele continuou seguindo o ritmo dela que se acelerou mais e mais até perder seu compasso. Nessa hora ele soube que ela já não tinha mais nenhuma força para continuar naquela posição, e que muito provavelmente estava perto demais de gozar.
Se ele pudesse só...
— Kakashi... – A voz dela soava sofrida, em pura agonia, sem aguentar mais a tortura que tinha se colocado. Ela sentou uma última vez se deixando ser preenchida pelo objeto logo abaixo de si, jogou sua cabeça para trás num movimento inevitável e se permitiu gozar, mordendo seu lábio, segurando a mesa com força, fechando os olhos e deixando seu corpo ser levado pelas sensações.
E ele amava quando gozava dizendo seu nome, não porque era uma mulher nua sentindo seu ápice enquanto pensava nele avidamente, mas sim porque era Sakura e toda sua energia, sua voz e seu desejo. Era aquela pessoa ali, e mesmo a quilômetros de distância, seu corpo respondia ao dela, porque se sentiu ejacular naquele exato minuto, como se ela tivesse virado uma chave dentro dele, como se tivesse esse poder nas mãos.
Ficaram num longo silêncio e ele ouvia a respiração dela. A mulher saiu de cima da mesa resignada, passando as mãos nos cabelos enquanto andava para além do alcance da câmera. Kakashi ainda se sentia atordoado, recostado na cadeira enquanto reunia forças para limpar sua bagunça. Ele ouviu lá longe o barulho da descarga vindo do microfone dela e sabia que logo ela estaria de volta.
Não demorou muito e Sakura retornava num roupão branco felpudo cheio de estrelas coloridas. Era algo meio infantil e não parecia ser o tipo de coisa que ela mostrava em seus shows, mas ali estava ela amarrando os cabelos e sentando no sofá um tanto encolhida enquanto estranhamente evitava olhar para ele.
É claro que tinha algo errado, ele podia sentir com cada centímetro do corpo dele. Tirou a camisa porque sentia calor, jogando-a para o lado enquanto se via preocupado com o que quer que estivesse acontecendo com ela. Sakura mordeu o lábio inferior enquanto olhava para o chão a sua frente, com o silêncio dominando aquele momento, o que era tão atípico para eles.
— Sak-
— Nós temos que parar com isso.
— O quê?
Foi quanto ela olhou para a imagem dele no monitor. Seu rosto era sério e decidido, como se aquela resolução tivesse lhe atingido de maneira irrevogável, de modo que Kakashi sentia a urgência do momento, estava prestes a perder o que quer que estivesse acontecendo entre eles.
— Não é saudável para nenhum de nós – Ela continuou dizendo virando o rosto brevemente.
— Eu fiz algo que te incomodou? Sakura..? O que está acontecendo?
Kakashi perguntou rapidamente, de repente sentindo tudo escapar pelos seus dedos. A voz dela, sua postura, o jeito com que olhava para ele e depois desviava lhe dizia tantas coisas ao mesmo tempo lhe rasgavam. Ele não sabia quando tinha sido a última vez que tinha se sentido assim, se algum dia algo tinha lhe feito sentir dessa maneira, mas ali estava aquela camgirl que ele via a sei lá quanto tempo lhe dizendo coisas que o faziam querer mudar tudo.
— Pare de me chamar assim.
— Tudo bem – Ele disse rapidamente sem entender nada do que estava acontecendo, com aquela necessidade de se explicar quando nem mesmo sabia o que estava acontecendo — Healer, por favor. Se eu fiz alguma coisa, então por favor, apenas me fale e eu vou...
— Não é você – A voz dela soava cansada, deitou a cabeça sobre o ombro e sorriu melancólica — O que estamos fazendo, sabe? – E gesticulou para a câmera mostrando sua angustia — Nos vemos duas vezes na semana, conversamos, rimos, transamos, mas e depois? O que é isso, Kakashi? – Ela disse passando a mão no rosto enquanto sua expressão mudava. Novamente ela desviou o olhar enquanto seus pensamentos voavam — Eu sei que deixei isso acontecer... Eu arrisquei e perdi, tudo bem... Então eu só quero parar agora.
— Se o problema é o sexo então vamos parar – E estava tão certo de suas palavras quanto sabia que o céu era azul — Se o problema é o nome pelo qual te chamo então que seja Healer. Se você não quer mais me ver nesse site, então arrumamos outro, mas eu não quero parar de ver você.
— Não fala essas coisas... – Ela disse com uma risada — Você acha que eu vou trocar o número do meu telefone com você e de repente vamos estar trocando nudes e...? – Riu novamente mordendo o lábio inferior, fechou os olhos por um breve momento enquanto balançava sua cabeça negativamente, como que se estivesse numa discussão consigo mesma — Eu sou uma camgirl, Kakashi. Eu não posso me expor mais do que já faço.
— Sakur- Healer... Droga.
Sequer sabia mais como chama-la, e quando a viu rir de seu momento atrapalhado ele também se permitiu rir. Kakashi ainda não sabia o que estava acontecendo, ainda não fazia ideia do porquê daquela repentina conversa e decisão. Ele não sabia o que ela havia provado naquele momento ou o motivo de tê-lo feito. Se foi um teste, então ele tinha falhado miseravelmente. A única coisa que ele sabia era que a muito tempo não se sentia excitado com alguém, e não apenas no campo sexual, mas em tudo.
Eram as conversas sem sentido, até mesmo as aleatoriedades que falavam eventualmente. Sim, ele tinha chegado ali puramente pelo sexo, pela necessidade que seu corpo sentira, mas tinha ficado por ela, pela mulher que mordia o lábio com frequência, que ria mexendo os ombros quase sempre, que tinha aquele olhar tão intenso a ponto de fazê-lo sentir completamente exposto.
Ele não queria perde-la, e essa era a única coisa que ele conseguia raciocinar naquele momento.
— Eu não sei te chamar de outro jeito além de Sakura – Ele riu sem jeito — Combina com você. – E suspirou percebendo que era um completo idiota. Talvez esse nem fosse o nome dela. — Eu só quero que você entenda que eu não vou pedir mais do que você pode me dar. Eu sei que pra você eu posso ser qualquer maluco na internet, afinal o jeito que nos conhecemos não é o jeito mais seguro – E riu nervoso — Mas eu to falando que se você não quer fazer mais isso aqui desse jeito, então podemos mudar o jeito. Tem aplicativos que não precisamos cadastrar número, com um e-mail falso conseguimos fazer um cadastro e de repente temos um chat a nossa disposição.
Sakura continuou olhando para ele com sua expressão enigmática. Ele não sabia dizer o que estava se passando na cabeça dela, se o que ele dizia a ela fazia algum sentido porque no final das contas Kakashi sequer entendia o que estava se passando na cabeça dela, mas queria de alguma forma dizer que tudo bem, que ele ainda estava ali para ela e que aquilo era, de alguma forma, importante para ele.
— Até que ponto, sem isso – E gesticulou com a mão indicando o site, a performer e tudo que fazia diante daquela câmera — eu serei interessante pra você? – Perguntou com sua voz séria, olhando para o rosto dele na sua tela.
— Eu faço a mesma pergunta – Kakashi respondeu — Até que ponto eu sou interessante pra você sem isso tudo? – Disse e também havia seriedade. Havia, mais ainda, a descoberta nas suas próprias palavras. — Eu não faço ideia, Sakura, mas quero descobrir se você estiver disposta.
O olhou por um longo momento. Seu semblante era sério enquanto pensava naquilo. Ele não queria pressioná-la, e no fundo sabia que faria o que ela decidisse, e se fosse definitivo que não queria mais lhe ver, então assim seria e só restaria a ele aceitar. Sim, ele ainda poderia assistir as performances dela no show público, podia ter aquela relação clandestina sem que ela fizesse ideia, mas não se sentiria confortável sabendo que ela o tinha rejeitado. No final, se ela pusesse um ponto final naquele estranho relacionamento, então restaria a ele apenas aceitar.
Passou a mão nos cabelos prateados sentindo que a resposta dela seria uma despedida final. Era um idiota. Estava implorando para uma garota qualquer que sequer conhecia para que não se afastasse. Quando ele se transformou nisso? Havia um misto de vergonha e nervosismo. Ao mesmo tempo que queria estar naquilo daquela forma, ele enfrentava a censura de sua consciência moral, que lhe dizia que a moça estava simplesmente lhe fazendo um favor.
Tinha tantas questões, tantas coisas que ele evitava pensar porque sabia que chegaria a conclusões estranhas e até mesmo cruéis, por isso até aquele momento ele tinha decidido viver Sakura daquela maneira, leve, sem saber que aquele momento iria chegar muito mais rápido do que ele imaginava.
Ele ainda a queria.
— Porque? – A voz dela soou em seus autofalantes.
— Eu... Não sei.
Não havia outra resposta. Não havia como ser mais sincero que isso. Não havia nenhuma certeza além da que ele queria tentar.
A mulher deslizou o dedo pela própria boca, e ele amou ver mais aquele gesto. Então era uma progressão? Ela começava pressionando os lábios numa linha reta, depois os mordia e por fim acabava passando os dedos nele quando seus pensamentos ficavam muito intensos. Ele riu ruidoso tirando-a de seus pensamentos.
— O que? – Ela perguntou sem saber do que ele estava rindo.
— ... Sakura, só diga sim. – Falou por fim, sentindo-se exposto, sentindo-se vulnerável — É só dizer sim.
O sorriso veio aos lábios dela enquanto seu dedo passeava no lábio inferior, nervosa, pensativa. Ela o olhava e, mesmo nunca tendo de fato se olhado nos olhos, ele sentia que aquilo era o mais perto que iriam chegar disso.
Diga sim! Ele mentalizou quando a boca dela se abriu.
— Escolhe o aplicativo.
.
.
.
Já posso pedir comentários? Vocês sabem que amo conversar com vocês!
Os comentários dessa fic foram respondidos através do sistema do ffnet, então fiquem ligadas ok? Hahahah
Continuem comigo, a história só está começando!
