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Haviam três coisas que Kakashi mais gostava nos sábados de manhã: Passear com seus cachorros no parque municipal, ter seus amigos por perto durante o passeio e o jeito como Pakkun se lambuzava ao comer sorvete.

Pakkun era um pug velho e rabugento, seu mais antigo filho e líder da pequena matilha que tinha se formado ao longo dos anos. Se pudesse falar, Kakashi tinha certeza que o cachorro seria daquele tipo de pessoa sem filtro, que fala tudo na cara de um jeito meio cômico, porque as vezes que conversava com o animal – e todo pai de pet fazia isso – ele sentia como se estivesse sendo julgado e despido de tudo.

Mas quando tomava sorvete na sua tigela de plástico descartável, o focinho achatado do pequeno cão ficava todo melado, e não só isso, ele era do tipo que ia lambendo ao passo que o recipiente se movia, então ele comia em círculos, o que era exatamente fofo.

Por isso ele filmou aquela cena rindo ao fundo enquanto seus dois amigos conversavam sobre alguma coisa. Quando o animal percebeu estar sendo gravado, levantou sua cabeça miúda e julgou Kakashi por estar filmando algo tão vergonhoso. Sou uma piada para você? A pergunta era visível no olhar languido de Pakkun.

Então ele enviou o vídeo de 12 segundos para Healer naquele aplicativo que ninguém usava, e logo a resposta surgiu com um emoji com corações nos olhos. Kakashi sorriu torto quando recebeu a mensagem logo em seguida, dizendo que cada dia que passava ela se tornava mais fã de Pakkun.

Já haviam se passado semanas depois daquela noite onde as coisas entre eles quase acabaram, e apesar de não ter entendido sobre o quê tinha sido tudo aquilo, Kakashi não tentou perguntar a mulher seus motivos, e ela também nunca se deu o trabalho de explicar. Talvez ambos estivessem com medo de que levantar o assunto pudesse fazer as coisas ficarem esquisitas, pelo menos ele se sentia assim. Na verdade, seu medo era que ao levantar esse assunto, talvez ela percebesse que ainda queria cortar todo e qualquer contato com ele, e Kakashi não estava pronto para abrir mão dela.

Ainda naquele dia, Kakashi e Healer continuaram conversando pelo site de performers por um longo período, nenhum deles parecera querer encerrar a conversa ainda que à medida que o tempo passava os períodos de silêncio iam ficando cada vez mais longos. Eles se olharam longamente, sorriram um para o outro, desviaram o olhar e havia tanta coisa nesses momentos onde não diziam nada.

Naquele dia eles escolheram um aplicativo qualquer e fizeram contas falsas para poderem trocar contatos sem revelar o número de telefone. Assim que desligaram do site, Kakashi lhe mandara uma mensagem dizendo que não queria que as coisas ficassem estranhas e ela concordou, todo o problema é que isso não dependia exatamente deles e inevitavelmente Kakashi sentia como se as conversas não fossem mais as mesmas.

Havia uma espécie de dificuldade, uma estranheza que o impedia de se sentir como se fosse ela ali, e talvez a mulher estivesse sentindo a mesma coisa, mas insistiram naquilo e depois poucos dias era como se conversassem daquele jeito desde sempre. Ela tinha umas manias engraçadas, um jeito de digitar peculiar, sem usar muitas abreviações e fazia parágrafos muito longos, usava muitos emojis e figurinhas. A risada dela era como se tivesse batido a cabeça no teclado, vinha todos os caracteres aleatórios possíveis.

E tudo foi se ajeitando dessa forma, conversavam sobre tudo naquele espaço privado onde cabiam não só as palavras, mas também as fotos e os vídeos, e claro os muitos áudios. Healer era fundamentalmente reservada, evitava compartilhar coisas que pudessem denunciar sua localização ou informações sobre seu trabalho e era compreensível, mesmo assim ela era pessoal de outras formas, as vezes tinham conversas tão profundas que acabava lhe fazendo sentir-se tão mais íntimo do que jamais imaginou que seria.

Mas é claro que naquelas noites de sábado Kakashi sentia falta dela. Na verdade, depois de migrarem para outra mídia, Kakashi sentia falta dos sorrisos tímidos, dos olhares divertidos, do jeito com que ela abanava a mão na frente do rosto quando fazia confusão com alguma coisa. Ele sentia falta de vê-la, e não era da parte sexual, mas sim dela como um todo. Quando percebera isso, o homem resolveu que quebraria aquela regra fundamental que tinham estabelecido e abriu mais uma vez aquele site tão caótico que sugava dinheiro de todos os pervertidos.

O lar de Healer.

Ele ainda era um superfã apesar dos protestos dela, então quando assim que entrara, a notificação subiu na tela dela e Kakashi viu a expressão no rosto feminino mudar. Sakura vestia aquela máscara branca do dia em que tudo começou, estava com aquelas meias de renda fina que escondiam o potencial de suas pernas, e mais ainda, seu cabelo estava trançado como ele nunca havia visto em qualquer outra situação.

Era o fim do show e ele solicitara o show privado sem saber se ela aceitaria. Aquela expressão que ela fizera quando o viu em sua notificação o deixara preocupado, quase como se ela fosse simplesmente fazer valer todas as ameaças e sumir completamente, mas pra sua surpresa o show fora aceito e lá eles se viram, ambos olhando para o rosto mascarado do outro e ele não sabia dizer se ela estava feliz.

Mesmo depois de tanto tempo, ele ainda conseguia lembrar o jeito distante que a moça assumiu diante da câmera, do jeito que desviou o olhar por um momento até suspirar. Ela ia falar alguma coisa se ele não tivesse interrompido, adiantando suas desculpas por violar o trato deles, justificando sua transgressão com a mais simples e pura saudades. Quando seu momento verborrágico passou e o silêncio sobrou, Kakashi se sentiu um idiota, mas manteve a pose, é claro, até a mão dela cobrir seus lábios e sua voz explodir numa risada, e mesmo com vergonha, Kakashi sentiu que finalmente estava tudo bem entre eles novamente.

Ali, a única regra tinha sido dissolvida e ela havia lhe dito que poderia voltar mais vezes, mas nada era como antes, e aquele espaço fora ressignificado, porque agora os shows privados de Healer envolviam café quente e biscoitos, com ela vestindo um de seus roupões quase infantis enquanto conversavam sobre qualquer coisa, rindo do filme trash que haviam assistido mais cedo, contanto histórias de infância, compartilhando músicas que gostavam.

E webtransavam.

Porque ela era linda, e o jeito que ela dançava aquela música estranha do outro dia lhe deixava excitado, porque ela mordia tanto aquele lábio quase como um convite, porque ele não conseguia parar de pensar nela a cada segundo do seu dia, em como seria passar o dia com Sakura, viajando de carro por todo Japão, a vendo falar horas e horas com sua voz melodiosa e seus sorrisos... Porque...

— Você está apaixonado por ela.

Ele girou a cabeça para ver a expressão de Gai a sua frente, tão sério e decidido apesar de suas palavras soarem zombeteiras. Girou outra vez para ver Yamato rir baixo como sempre fazia, compactuando com as palavras do outro sem declarar aquilo abertamente.

— Sério, gente? – Perguntou num suspiro, negando com a cabeça brevemente e voltando a olhar para o pug, que levantou sua cabeça para encará-lo dizendo um breve "sério" na voz canina que Kakashi havia lhe dado em sua mente. Suspirou novamente se sentindo traído pelo próprio filho.

— Senpai, você passou a manhã toda trocando mensagem com essa menina – Yamato disse na sua voz tranquila, sempre que falava qualquer coisa soava como se estivesse dizendo "e tá tudo bem" — E quando não estava, então ficava falando dela pra gente.

— O tempo todo. – Gai completou dando a casca do sorvete para Bisuke após dar o comando de senta.

— Ah, por favor... – Disse recostando no assento do banco — Eu admito que falei bastante sobre ela, mas isso não significa nada. – Completou — Tipo você quando achou aquele bar do outro lado da cidade e só falava sobre isso.

Kakashi nunca havia dito nada sobre Healer a ninguém. Nenhum de seus amigos tinha conhecimento de suas recentes aventuras virtuais, mas a cada dia que passava ele sentia que precisava compartilhar aquilo com alguém, porque era algo completamente novo e apesar de toda confiança e experiencia que tinha, Kakashi não sabia nada sobre essas coisas online. Era uma amizade completamente diferente do que ele já tivera na vida.

No fundo ele só queria dizer o que estava acontecendo sem ser julgado. Ele queria partilhar esse novo lado de sua vida que ainda era meio estranho, meio indefinido, mas que estava ali mais presente do que qualquer outra coisa que tenha feito antes.

— Ah, Kakashi – Gai disse na sua voz habitual de quem sabe tudo — Mas eu não disse que passava o dia todo pensando nesse bar, nem que o sorriso dele era lindo, ou que podia escutá-la falando por horas porque adorava a risada dele.

Yamato riu novamente daquele jeito cúmplice e Kakashi odiava quando a risada era contra ele. Gai tinha aquele jeito de falar qualquer coisa com um rosto muito sério, um hábito que havia adquirido por conta de sua profissão como segurança particular. Ele tinha que manter sua expressão quase sempre neutra e sua voz não podia se alterar tanto. Mesmo assim, Gai era um homem que facilmente se empolgava, e era visível que estava se segurando para não explodir em força da juventude pela possível paixão de Kakashi por Healer.

— Sabe, senpai, tudo bem se apaixonar. Acontece. – O outro disse tão calmo quanto o clima enquanto afagava a cabeça de Buru, que babava em puro relaxamento.

— Eu jamais poderia me apaixonar por alguém que eu nunca vi na vida – Kakashi rebateu — É impossível! Além disso, eu não sei nada sobre ela... Não sei onde trabalha, o que faz da vida, sequer seu o nome dela!

Sim, era uma questão de lógica. Era impossível que você pudesse se declarar genuinamente apaixonado por alguém quando não sabia de nada sobre essa pessoa. Vai que Sakura fosse alguém que trabalhasse na indústria de cosméticos e fizesse testes em animais. Kakashi jamais poderia se apaixonar por alguém assim.

Tinha que admitir, é claro, que ela era divertida e que estavam passando muito tempo juntos, mas isso não significava muita coisa desde que ele passa muito tempo com o monitor de suas disciplinas da faculdade e não estava apaixonado por ele, sem falar que também o achava divertido.

— Você não precisa de nenhuma dessas informações pra se apaixonar, senpai – Yamato disse sem olhar para ele, ainda com sua mão na cabeça enorme do bulldog que babava na calça do homem — Você não se apaixona pela profissão dela ou pelo nome dela... É, eu concordo que são coisas fundamentais para se saber, é o básico, mas basta um olhar para a magia acontecer.

É, Yamato era um romântico. Era o cara mais sensível que conhecia, um apaixonado. Kakashi gostava de como ele transparecia uma tranquilidade absurda até nas situações mais críticas, era alguém que definitivamente não julgava, sendo um ótimo ouvinte e conselheiro, e só por isso Kakashi conseguia ver o fundamento no que o homem dizia.

Não que Kakashi fosse do tipo que acreditava em amor à primeira vista, na verdade ele achava isso tão fútil e vazio. No seu caso, especificamente falando, seu interesse primário em Healer era puramente sexual. Ele a tinha encontrado com a finalidade de ter material para sua punheta, e só. É claro que as coisas tinham ganhado uma outra dimensão e ele nunca havia pensado muito nisso, se foi porque ele queria um pillow talk ou porque ela tinha se negado a aceitar seu dinheiro por aquela noite.

Ele não sabia, tinha medo de pensar demais nisso e descobrir algo que não pudesse ser ignorado, mas definitivamente sabia que não era paixão.

Pelo menos não naquele momento.

— Não é paixão – Ele disse mais uma vez, mais para ele do que para os outros — É mais um interesse... – E suspirou passando a mão entre os cabelos um tanto pensativo. — Eu só acho ela legal.

Os outros dois ficaram em silêncio, cada um olhando para o céu a sua frente enquanto Kakashi franzia o cenho pensativo, olhando para o verde dos arbustos, e a grama se mexer um pouco quando o vento passava mais forte. O que era paixão afinal?

Seu celular vibrou rapidamente anunciando uma nova mensagem. Uma foto, na verdade. Era a mão de Sakura segurando uma casquinha de sorvete de abacaxi com coco. Sorriu ao ler a legenda.

"Agora estamos todos tomando sorvete"

O homem abaixou seu celular após um momento, levando a outra mão até seu rosto enquanto a risada lhe vinha sarcástica. Yamato lhe olhou pelo canto com a sobrancelha arqueada, tinha aquele sorriso no rosto de quem está adorando ver a cena enquanto que Kakashi balançava a cabeça negativamente.

Sério? Paixão? Quantos anos ele tinha? 15?

— Talvez seja mais do que um interesse – Disse se sentindo derrotado e ao mesmo tempo estranhamente animado. — Eu não sei. – Completou sentindo uma estranha inquietude dentro de si se manifestando de maneiras estranhas, ele não sabia como se sentir, não queria admitir algo tão... óbvio.

— Você está apaixonado por ela – Gai repetiu dessa vez com um sorriso de canto, todo espertalhão.

— Talvez seja minha crise de meia idade – Ele sugeriu sem de fato acreditar nas próprias palavras.

— Você é muito novo para isso, senpai – Yamato tratou de opinar, levantando do banco e esticando os músculos.

— Mas sempre me sinto com 60 anos quando você me chama assim, Tenzō. – Falou encarando o amigo, que maneou a cabeça com humor. Velhos hábitos não mudavam.

Todos tinham estudado na mesma escola e Yamato era dois anos mais jovem do que o resto da turma, mesmo assim, de alguma forma ele tinha acabado na mesa dos veteranos e continuou nela até a vida adulta, mas estranhamente Kakashi era o único a quem o homem ainda se referia como senpai, apesar de terem se aproximado o suficiente para deixarem as formalidades de lado.

— De toda forma, talvez você devesse pensar mais nisso sem ficar negando a todo instante que está apaixonado. – Yamato disse por fim — Negação não combina com alguém como você, Kakashi.

— E se você acha tão impossível assim se apaixonar por alguém novo, então talvez devesse tirar a prova... – Gai se pronunciava, também se levantando — Convida ela para sair.

Kakashi ficou um momento parado, olhando para o rosto de Gai confuso. Sakura jamais aceitaria um convite em que ambos pudessem estar no mesmo local fisicamente e tendo ciência disso. É claro que parte de si já havia pensado nisso, em como seria um primeiro encontro, onde a levaria, o que fariam... Era um pensamento recorrente, mas totalmente abstrato, como um sonho que jamais se realizaria.

Um encontro? – Perguntou por fim, ainda com sua mente processando a sugestão de Gai porque também haviam outros empecilhos — Isso é absurdo. Mesmo que ela aceitasse, o que não faria porque é muito reservada, eu tenho a Rin. Eu jamais a trairia.

Ele viu seus amigos se entreolharem daquele jeito que parecem estar conferindo se pensavam a mesma coisa antes de continuar. Kakashi revirou os olhos, levantando em seguida, conferindo se todos os oito cachorros estavam prontos para mais uma sessão de caminhada enquanto seus amigos decidiam o que queriam dizer.

— Eu não sei como dizer isso de outra forma – Gai disse pensativo, estalando a língua logo em seguida — Mas, assim... Meio que você já está traindo a Rin, não é?

A risada lhe escapou antes que ele pudesse responder. Então era isso que estavam pensando? Qual era a definição de traição que eles tinham para estarem sugerindo àquilo? Ele nunca tinha colocado as mãos em outra mulher enquanto estava com Rin. Não era nenhum santo, e sim, já olhou e até mesmo paquerou alguém incentivado por Genma num bar qualquer, mas nuncahavia traído sua namorada.

Podia ter todos os defeitos do mundo, mas ele jamais faria algo desse gênero.

— Vocês ouviram alguma coisa do que eu disse? Eu nunca nem a vi. Como vou trair Rin com ela? – Perguntou porque era simples em sua cabeça.

— Qual é, Kakashi! Você transa com ela sempre que pode...

— Não é sexo de verdade! – Justificou imediatamente. — É como assistir um pornô, e assistir pornô não é traição.

— Quando você vê um pornô você não fica de papo com a atriz – Gai respondeu rapidamente — Nem troca contato com ela e fica conversando todos os dias, mandando foto dos cachorros e dizendo como ela tem um sorriso fantástico.

— Eu nunca elogiei o sorriso dela para ela.

Foi a vez de Gai revirar os olhos num claro sinal de que estava passando a bola para o outro, que ria de tempos em tempos, percebendo o quão prático de uma maneira muito errada Kakashi tinha se tornado. Yamato tinha a teoria de que o relacionamento de mais de dez anos de Kakashi o tinha estragado. Ele tinha vivido muita coisa ao lado da mulher que tinha sido sua melhor amiga durante a época de escola. Era até bonito vê-los juntos, o casal ideal, mas o tempo agiu de maneira cruel e depois do primeiro termino, Kakashi parecia meio relaxado em relação a intimidade dele com Rin.

Tinha que admitir que sempre achou que aquele namoro tinha acontecido mais pela vontade dela do que do outro, e se tinha durado tanto tempo foi pela vontade dela e só dela. Kakashi não se mostrava nenhum pouco preocupado em manter seu relacionamento funcionando. Eles terminavam de tempos em tempos, sempre ela quem tomava essa iniciativa e sempre ela quem acabava pedindo pra voltar. Era estranho, confuso e pouco produtivo.

— Senpai, sexo não é só penetração. Você sabe, não é?

— Yamato, apenas diga o que você quer dizer. – Kakashi pediu porque era óbvio que o outro estava tentando fazer.

— Ok, você pediu. – O outro começou com um suspiro — No momento em que duas pessoas estão envolvidas sexualmente então há sexo. Preliminares já é sexo. Seu websexo é sexo de verdade. – E olhou sério pro homem mais velho, percebendo que ele estava pronto para retrucar — Aliás, o que ela acha disso?

Kakashi hesitou. Aquela pergunta o pegou completamente desprevenido. Ele parou por um segundo olhando para além dos outros dois, lembrando das palavras dela. Sempre que se referia ao websexo, Sakura usava a palavra sexo, desse jeito, sem nenhum outro termo na frente. Às vezes falava transar, dependia do humor, mas nunca ela classificou o ato como algo que não-sexo, ou sexo-pela-metade.

A verdade é que ele já tinha notado isso a muito tempo, mas como tudo sobre aquele relacionamento, ele preferiu deixar para depois, sem querer complicar as coisas, sem querer descobrir coisas que mudariam tudo, porque não lembrava a ultima vez que tinha se sentido tão bem com alguém de uma maneira leve e sem cobranças, ele não lembrava como era estar empolgado para falar com outra pessoa sobre qualquer coisa.

Pensando bem, ele nunca havia se sentindo daquele jeito.

Pela sua experiencia, relacionamentos eram complicados. Quanto mais expectativas você tivesse, mais aquilo ia se tornando danoso e ele queria manter Sakura como um segredo dele, como um lado de sua vida livre dessas obrigações. Talvez essa necessidade repentina de compartilhar aquela experiência com os outros tinha acontecido porque ele sabia que sozinho jamais se permitiria coloca-la num plano que não fosse aquele do não-sonho.

Por mais que tudo aquilo estivesse acontecendo por trás de telas, Sakura era uma pessoa real e todas as interações que tinham, todas as conversas e conteúdo, tudo era tão mais íntimo e real do que quaisquer coisas que vivera nos últimos anos. Não que fosse alguém superficial em suas outras relações, não que estivesse procurando algo novo, mas ele esbarrou naquela mulher e de alguma forma sentiu que não devia deixa-la ir.

E sim, talvez ele estivesse em negação. Talvez ele já soubesse de tudo isso, mas assumir as consequências de algo que sequer tinha forma era tão... confuso. E não havia só ele envolvido naquele jogo, Sakura também era alguém ali, assim como Rin.

— ... Você tem razão.

O ar lhe escapou pelos pulmões quando percebeu que sim, era traição. Era fácil determinar isso quando pensava que sim, estava transando com Sakura a meses, evitando encontros com sua namorada, dando desculpas esfarrapadas para voltar pra casa e ficar até tarde conversando com aquela garota que ele sequer tinha certeza se era de fato japonesa.

Tudo sobre Healer era uma incógnita e ainda assim ele a estava colocando acima daquela que era certeza para ele. Bem... Pelo menos deveria ser. Rin era sua namorada desde sempre e ele nunca se pegou pensando em namorar outra pessoa. Ela tinha essa paixão por ele, suspirando pelos corredores da escola sempre que o via passar. Kakashi lembrava dos treinos do clube de arquearia onde ela o assistia da arquibancada, completamente tímida.

Quando ela se confessou não foi nenhuma surpresa. Todo mundo dizia que eles formariam um casal legal desde que ela era a senpai mais acessível da escola e ele o cara que todas estavam afim. Se o perguntassem na época porque ele aceitou sair com ela, provavelmente ele diria que a achava bonita, mas a verdade é que não fazia ideia do porquê de ter aceitado.

Com o tempo ele foi se acostumando a tê-la por perto, tiveram seu primeiro beijo juntos, sua primeira transa também. Todas as suas primeiras vezes tinham sido protagonizadas por Nohara Rin e seus olhos amendoados. Depois de um tempo ele já não conseguia imaginar uma vida sem ela, e não era porque morria de amores, mas porque algo nele já tinha aceitado que seria ela para sempre.

Não, não é como se ele fosse frio com ela. Na verdade, Kakashi era o tipo de cara que gostava de leva-la para sair, de conhecer lugares novos, dar presentes e tantas outras coisas... Ele podia não ser apaixonado por ela, mas de alguma forma aprendeu a amá-la e cultivou esse sentimento do jeito que pôde, até que no segundo ano de faculdade ela o deixou.

— E não se trata só de sexo – Gai disse logo em seguida — Você tá claramente envolvido com ela. Digo, seus sentimentos. – E deu os ombros antes de puxar a coleira dos cães, impedindo-os que ficassem cheirando o lixo por muito tempo — Eu não sei o que tá rolando entre você e a Rin, você parou de falar dela já faz um tempo.

— Estamos na mesma – Ele disse em resumo — Ela continua sendo quem é e eu continuo sendo quem sou.

Yamato olhou para o homem de canto de olho, avaliando a expressão distante que ele assumia naquele momento. Não estava refletindo, não estava buscando uma resposta, estava apenas com aquela cara que fazia sempre que não queria continuar conversando sobre alguma coisa. Ele sabia que Rin era um assunto delicado, principalmente porque todo mundo já sabia que era um relacionamento que o homem estava empurrando com a barriga, mas se Yamato havia aprendido algo sobre Kakashi era que se ele não pediu sua opinião, então era melhor não dar.

Mas não era como se essa regra servisse para todo mundo.

— Nunca entendi porque você voltou pra ela na época – Gai falou de repente — Ela te deixou para ficar com o teu melhor amigo. É difícil perdoar esse tipo de coisa.

Kakashi permaneceu calado diante daquela declaração e mesmo depois de anos não sabia como reagir quando as pessoas levantavam aquele assunto. Tinha sido uma época complicada e tantas coisas aconteceram, mas o homem não achava que tinha que perdoar qualquer coisa porque Rin tinha sido apenas honesta. É claro que naquele dia, quando ele foi na casa dela, a mulher não tinha como saber que ele tinha um anel no bolso e estava pronto para o próximo passo.

Mas Obito sabia.

No final das contas, sim, isso mudou um pouco a maneira com que ele enxergava a namorada, pois ele sempre achou que não precisava se esforçar apesar de ser animado com ela e aquilo naquele dia e daquela forma o fez perceber que talvez ele estivesse com as ideias erradas sobre seu relacionamento. Rin tinha lhe deixado no momento que ele achou que eram mais fortes, e isso mudou tudo.

E ela nunca soube.

— Senpai, posso dizer uma coisa?

Kakashi o olhou por um momento sabendo que o que quer que Yamato fosse dizer, seria algo que ele precisava ouvir, porque agora se sentia numa espécie de intervenção e Sakura com certeza representava alguma mudança, agora ele podia admitir isso.

— Sim.

— Mesmo antes do Obito, você e Rin nunca fizeram sentido. – Disse com uma expressão séria, vendo o carro do homem logo a frente — Olha, eu sei que você gosta dela, talvez antes gostasse muito mais, mas você sempre a tratou como uma amiga. Não tinha nada diferente do jeito que você tratava a Shizune, ou a Kurenai.

— Isso é ruim? Eu ser amigo da minha namorada?

— Não – Yamato disse rapidamente — Na verdade é ótimo, desde que você não seja só amigo dela.

O que isso significava? Kakashi arqueou uma sobrancelha sem entender muito bem onde o outro queria chegar. Só amigo? O que fazia um casal de amigos serem algo mais? No final das contas, ele achava que Yamato estava levando aquela conversa prum lugar que não fazia muito sentido.

— Kakashi, me escute – Gai disse do outro lado depois de ter colocado os cachorros dentro do carro devidamente — O que o Yamato está dizendo é que você nunca falou da Rin do jeito que você fala dessa outra mulher, e que há uma óbvia diferença no jeito que você fala das duas.

— Porque Rin não é mais novidade pra mim – Ele disse — Ela é minha rotina. Não significa que eu não a queira.

— Mas tá traindo ela.

— Eu nem fazia ideia do que estava fazendo.

— E agora que faz vai parar?

...

Na sua mente ele sabia a resposta correta para àquela pergunta. É claro que ele deveria parar com o que quer que estivesse rolando entre ele e Sakura, deveria dar um basta nisso porque, acima de tudo, ele respeitava Rin de tal forma que não poderia magoá-la dessa maneira, mas havia esse lado dele que se recusava a assumir esse compromisso, que não se importava se era errado, mas que queria continuar com Sakura a todo custo.

O ponto de tudo era até onde ele estava disposto a ir com essa situação. Sakura era uma pessoa completamente ausente no sentindo de que não tinham absolutamente nada concreto e possivelmente jamais teriam, mas e se houvesse essa possibilidade? E se ele a tivesse conhecido num bar a noite e tudo tivesse rolado dessa forma, então ele pensaria em deixar Rin?

— Senpai – Yamato chamou depois de acomodar o último cachorro no carro — Acho que tá na hora de você ir pra casa e pensar um pouco no seu futuro – Disse colocando a mão no ombro do homem — Digo, onde você está com a Rin e onde quer chegar. Esqueça essa outra mulher por enquanto, pense na sua relação.

— Quando você chegar uma definição – Gai completou — Então saberá o que fazer com a outra.

Kakashi confirmou com a cabeça ainda se sentindo zonzo com a conversa. Eles se despediram brevemente antes que Pakkun pudesse latir ansioso para o carro entrar em movimento e sentir o vento batendo no seu rosto e levando suas orelhas. Era sempre meio complicado andar com a matilha toda no carro, eles eram meio barulhentos, mas Kakashi sabia que também eram bastante sensitivos, porque naquele dia todos eles fizeram apenas silêncio.

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Banho tomado, cheiroso e limpo, Kakashi se jogou na cama e deixou a TV ligada no canal de notícias. Sua cabeça ainda girava com a conversa de mais cedo e ele ainda não conseguia pensar com clareza, percebendo que se concentrar em Rin tinha ficado difícil com o tempo, como se sua mente estivesse acostumada a simplesmente abstrair da moça ao invés de prestar atenção nela.

A quanto tempo que fazia isso? Ele não sabia quando tinha começado, mas de repente ele começou a perceber que todas as discussões que tinha com ela eram porque ela queria, e em todas essas situações sua mente simplesmente processava que não valia a pena discutir. Era como se ele se ausentasse das brigas pela ideia de que nada mudaria.

Em algum momento sua mente vagou para a época da escola onde Rin era apenas aquela garota da banda e ele o cara do clube de arquearia, era estranho mas ele não conseguia lembrar nitidamente dela antes de sua confissão, porque no final das contas Rin só começou a existir para ele depois que disse tudo o que sentia por ele depois do treino ao final da tarde.

Ele lembrava do seu primeiro encontro, a levou na sorveteria que Asuma havia indicado, também lembrava do seu primeiro beijo, que só tinha acontecido porque ela pedira, e mais ainda, lembrava de dividir melancias na praia, porque os olhos dela ficavam mais bonitos na luz alaranjada e sempre tinham alguma conversa profunda, fazendo planos para a faculdade, imaginando como seria depois que fossem adultos.

Sim, era verdade que ele nunca falou muito dela para os seus amigos, nunca foi o tipo de cara que ficava ansioso perto dela, e se havia um sentimento que sempre estava presente quando estavam juntos, esse era o conforto. Era fácil estar com Rin. Ela gostava de tudo o que ele fazia e nunca o cobrou demais, eles eram o casal exemplo para todos porque nunca brigavam.

Escutou uma vez de Asuma que as brigas que ele tinha com Kurenai eram para alavancar o romance, mas Kakashi nunca viu muito sentido nisso, e depois de velho o próprio Asuma fazia questão de lembrar a todos que brigar era o pior caminho, e que ele e Kurenai conversavam bastante antes de tomar decisões, que se algo acontecia e o outro não gostava, eles conversavam para resolver as coisas, tentando não deixar nada pendente.

Tinham amadurecido, é claro.

Mas ele e Rin só tinham parado de conversar, e agora tudo parecia levar a uma discussão potencial que terminava em briga. Não valia a pena, nunca valia. Ele não sabia quando seu pensamento tinha ficado tão condicionado a isso, mas significava que ela havia mudado, não é? De alguma forma aquela Rin apaixonada e doce havia se tornado essa pessoa para ele, essa que não valia a pena.

Ele já sabia que nunca tinha sido apaixonado por ela, mas começava a questionar a profundidade de seus sentimentos e até que ponto fora culpa dele. Até que ponto ele havia contribuído para a situação ter chegado a um ponto que ele simplesmente a estava traindo sem perceber.

Pegou o celular na mesa de cabeceira com intuito de pedir algo para o almoço quando se deparou com uma mensagem de Healer totalmente despretensiosa perguntando o que ele iria comer.

"Eu não sei. O que você vai comer?"

"Acho que é um bom dia para ramen. Minha amiga me deixou em casa, foi almoçar com o namorado, e pra mim restou macarrão instantâneo"

Sorriu para a tela tendo quase cem por cento de certeza que ela morava na extrema Ásia, com grandes chances de morar no Japão, assim como ele. Não que ele estivesse tentando encontrá-la sem a permissão dela, mas era divertido juntar as pouquíssimas pistas que ela soltava sem perceber, quase todas vindo de comidas que ela mandava fotos.

"Talvez eu faça o mesmo que você" Respondeu tentando lembrar se restou algum ramen na despensa. "Quer ver um filme depois?" Digitou em seguida lembrando daquele blockbuster que não se deram ao trabalho de ir ao cinema ver, mas que ainda queriam assistir.

"Não posso. Tenho algo que preciso fazer, masss eu queria que você assistisse aquele francês que te falei outro dia, lembra? Mal posso esperar para ver sua cara depois que assistir." E completou com uma daquelas figurinhas dramáticas.

Sim, ele lembrava do filme, era um que ele não tinha se interessado de verdade, mas que a empolgação dela o tinha feito pensar que poderia valer apena. Pra ser totalmente honesto, seu desejo era poder assistir alguma coisa ao lado dela, qualquer coisa. Podia ser um blockbuster, ou um desses cults que ela parecia gostar, ou até mesmo as notícias que ele deixava soando ao fundo quando estava fazendo alguma coisa.

Não só isso, ele conseguia claramente se enxergar ao lado dela, reclamando dos filmes chatos que ela escolhia, implicando com ela só para vê-la meio emburrada e, quem sabe, com aquela expressão tão bonita que ela fazia quando ficava levemente irritada.

Ele sorriu sem muito humor porque já tinha baixado o filme e colocado num pendrive atrás da TV. Era isto, ia ver a droga do filme só porque ela parecia ter gostado muito e ficar imaginando como seria se ela estivesse ali, tentando elaborar comentários engraçados só para vê-la rir. Desde quando ele fazia isso? Na verdade, a pergunta era quando foi a última vez que ele fez isso?

"Queria vê-lo com você ao meu lado"

Foi a mensagem que ele enviou sem pensar muito. Seus dedos quase agiram sozinhos e ele sabia que ainda podia apagar a mensagem, mas parte dele não queria. Esperou se sentindo cada vez mais idiota, interiorizando que estava esperando algo que jamais ia acontecer, desperdiçando seu tempo como se fosse um adolescente qualquer que tivesse se apaixonado pela garota popular do colégio.

Kakashi não conseguiu esperar por uma resposta, porque sua mensagem estava marcada como lida a tanto tempo que ele percebeu estar fazendo papel de idiota. Ela tinha dito com todas as letras para ele não pedir mais do que ela pudesse dar, ainda assim ele estava ali dizendo aquele tipo de coisa.

"Você sabe que eu tenho uma namorada, não é?" Enviou depois de um momento olhando para a tela do celular, porque no final das contas, mesmo com todos esses sentimentos confusos que se desenhavam cada vez mais como uma paixão, Kakashi ainda tinha aquela pessoa que era sua namorada.

Ainda tinha Rin.

Houve uma longa demora. Ele viu o aplicativo sinalizar que ela estava digitando e depois apagando, e novamente digitando... Se sentiu um completo imbecil porque aquilo podia soar de tantas formas, de tantos jeitos estranhos, e ele só queria genuinamente saber se ela estava ciente daquele fato.

"Sim"

...

"Sim, Kakashi, eu sei."

...

Era um babaca. Um completo babaca.

Passou a mão nos cabelos sem saber o que aquilo significava. Sakura estava magoada? Ele não precisava ter jogado aquilo daquela forma, não precisava soar tão seco, se é que soou de alguma forma. Ele não tinha como saber, apenas precisava ter aquela certeza. Não estava com raiva, não estava zangado, mas sim confuso, e naquele momento ela era a única pessoa que podia ajuda-lo a solucionar aquele enigma.

"Você acha que estou traindo ela com você?"

Mesmo que já soubesse a resposta para aquela pergunta, Kakashi ainda não sabia como responder o que ela achava disso, e de alguma forma ele sentia que quando descobrisse, então as coisas se abririam um pouco mais. Talvez estivesse começando de uma forma pouco comum, mas a verdade é que ele não fazia ideia de como começar, do que iria encontrar.

"Eu não sei, Kakashi. Não sei como é o relacionamento de vocês. Você não me fala muito dela, mas toda vez que fala me parece meio distante... Eu não tenho como dizer que você está traindo, mas se eu me colocar no lugar dela por um segundo... É, eu acho que você está traindo ela sim."

Se colocar no lugar dela, é?

Encarou a tela de pouco mais de seis polegadas vendo os caracteres estáticos da mensagem tomarem significado em sua mente. Tudo ficava mais claro quando ele assumia o processo dela, de se colocar no lugar da outra, tudo ficava mais violento na verdade, como se ele estivesse enganando-a da pior forma possível. Era estranho, mas se sentia um completo crentino quando Sakura lhe dizia essas coisas com essas palavras, porque ele a estava colocando nessa posição, ainda que ela não parecesse sentir nenhum remorso.

Além disso, ela tinha razão. Ele nunca falava de Rin para ela, citando-a por algo nas conversas que tinham sem deixar claro o tipo de papel que a mulher ocupava em sua vida. Não podia dizer àquela altura se tinha sido de propósito ou se tinha feito algo sem perceber. Talvez lá no fundo ele quisesse que Sakura jamais soubesse de Rin, mas ao mesmo não podia negá-la desde que ela estava na sua vida a mais tempo do que qualquer outro.

O celular vibrou mais uma vez anunciando uma nova mensagem. Ele o pegou num movimento rápido e seu cenho estava franzido com os vários pensamentos que o pegavam inevitavelmente, mas antes que conseguisse abrir a central de notificações, ele escutou a porta do quarto abrindo e de repente lá estava ela com aquelas calças leggings pretas e camiseta longa.

Rin entrava rapidamente com sacolas brancas em suas mãos. As meias pretas sinalizavam que tinha calçado um tênis para vir ali, assim como a faixa de cabelo deixava claro que tinha no mínimo saído da academia antes de passar na casa dele.

— Espero que você não tenha almoçado ainda – Disse quando colocou as sacolas na mesa de apoio — Passei por aquele restaurante tailandês e pedi pad thai porque você precisa provar de novo! Eu juro que você vai amar dessa vez.

— Rin...? – Perguntou atônito pelo furacão que de repente entrava ali. A digital dela estava cadastrada na sua fechadura é claro, então não era realmente uma surpresa, mas ainda assim ela chegar daquele jeito...

— Eu sei, eu sei... – Disse maneando a cabeça divertida — Você odeia comida tailandesa, mas... – E pegou uma sacola especifica no meio de todas as outras — Eu passei no Ichiraku lá perto de casa e comprei um ramen pra você! Polvo com macarrão extra firme, porque a essa altura já deve estar só firme. – E riu — Mas você tem que provar o pad thai pra ganhar o ramen!

Ele a encarou por um longo momento e o sorriso dela encolheu junto com os ombros, porque ela não fazia ideia do que estava acontecendo na mente dele, sobre como os sentimentos dele estavam a mil e vê-la entrar daquele jeito o faziam pensar se não estava recebendo algum tipo de sinal divino.

Era Rin ali. Sua Rin. Sua namorada desde sempre. A garota que ficava vermelha perto dele quando mais novos, a que tomou seu primeiro porre com ele, a pessoa que apesar dos pesares sempre esteve ali o apoiando. Era Rin.

Era Rin!

— Ai Kakashi, não me olha assim... Eu sei que você odeia quando eu venho aqui sem avisar, mas essa semana foi um caos e a gente mal se viu... Só me diz que você não almoçou ainda e a gente come, conversa um pouco e eu vou pra casa.

— Não é isso. – Ele disse se levantando, dando passos largos na direção dela, como se quisesse alcança-la logo — Você chegou na hora certa.

E então ele a beijou.

Foi rápido e ela mal conseguiu entender o que estava acontecendo. Hesitou por um momento quando os lábios masculinos encontraram os dela com uma vontade atípica. Kakashi era naturalmente forte e seus braços a seguraram ali, mantendo-a até que ela entendesse, até que ela finalmente entendesse o que ele queria. Então ela cedeu, e ao invés de seus lábios entrarem naquela sincronia já muito conhecida, Rin percebia que estava tudo diferente.

Kakashi estava mais ávido, mais determinado. Era como se ele buscasse algo naquele beijo, exigindo dela algo que a mulher não sabia identificar. Ela se jogou nele, naquele gesto, deixando que ele a empurrasse contra a parede do quarto pressionando seu corpo todo contra o dela. Kakashi era perfeito. As mãos femininas subiam por dentro da camisa folgada dele, reconhecendo todos aqueles músculos, a pele dele e seus sinais.

Mas aquele não era o mesmo Kakashi de sempre. Havia algo diferente ainda que parecesse seu namorado de sempre. Ele a beijava com uma intensidade que ela nunca presenciou e ela não sabia o que aquilo significava. Deixou que ele tirasse sua blusa e logo em seguida seu top, dando acesso total ao seu busto, que ele não poupou de seus estímulos com a língua, com as mãos.

Ela enfiou a mão nos cabelos dele, segurando ali enquanto sentia seu corpo se entregar se levantar nenhuma dúvida. Era estranho que ele estivesse sendo tão repentino, tão desesperado, mas ao mesmo tempo ela gostava daquilo, se sentindo desejada pela língua que se arrastava pela sua pele como nunca fora antes.

Sua leggin já não era mais um empecilho quando ele voltou a beijá-la a boca, sugando e mordiscando, dançando suas mãos pelo corpo dela, encontrando seu caminho por entre as suas pernas, arrancando gemidos e suspiros sem muito esforço, afinal ele sabia exatamente como aquele corpo feminino funcionava, onde tocá-la para fazê-la cada vez mais molhada.

Rin arquejava em prazer, as mãos dele fazendo milagres em si. Há quanto tempo não transava? Há quanto tempo não transavam daquele jeito? Ela não fazia ideia, sequer queria pensar nisso. Suspirou o nome dele sentindo seu corpo ceder cada vez mais, com suas coxas exercendo pressão uma na outra, mas sem impedir o homem de continuar sua mágica enquanto a olhava daquela maneira, tão curiosa, tão direta.

O que ele via? O que se passava na mente dele quando a via tão vulnerável daquele jeito? Quando percebia que ela estava prestes a chegar lá?

Talvez não fosse a melhor ideia saber, porque naquele momento ele não a enxergava. Sua respiração estava ofegante, seu corpo vibrava, sua mente subia cada vez mais alto, porque enquanto ele dava tudo de si, enquanto ele tentava cada vez mais querê-la, cada vez mais Kakashi via Sakura.

Não era o corpo dela, não eram os olhos dela ou o cabelo dela. Não era a voz dela ou o jeito que se mexia, não era sequer as reações dela. Rin não era Sakura, mas quando ele fechava os olhos por um momento, sua mente o traía da pior maneira.

Rin estava prestes a atingir seu ápice quando ele fechou os olhos e afundou sua mente na curva do pescoço dela, tentando se agarrar a voz da sua namorada, ao corpo tremulo dela, ao seu cheiro... A qualquer coisa que o deixasse naquela cena, mas nada vinha. Tudo era Sakura. E quanto mais ele a enxergava, quando mais sua mente o enganava, mais ele a queria.

A mulher o abraçou sentindo o corpo amolecer um pouco, mas ele não parou. A ergueu em seus braços girando-a para a colocar na cama, colocando um dos pés femininos no seu ombro, negando a todo momento os pensamentos que lhe vinham com Sakura e seus sorrisos, ele se curvou por cima de Rin e preparou-se para penetrá-la.

Precisava se concentrar nela e apenas nela.

Era Rin ali.

— Kakashi...

A mulher gemia seu nome enquanto o suor se precipitava pelo seu corpo, ele a segurava com força enquanto se movimentava cada vez mais rápido, mais forte, porque assim Rin gemia cada vez mais, e sua voz o impedia que sua mente lhe pregasse aquela peça, porque ele tinha decidido que estar com Rin de verdade era a coisa certa.

Porque ele queria estar com ela.

Conhecê-la.

Amá-la.

— .....sa..ku-

Quando percebeu o que estava prestes a sair de sua boca, ele a puxou, travando-a firme contra seu pau enquanto gemia rouco, se deixando gozar enquanto apertada os olhos, com seus músculos todos contraídos, com seus pensamentos todos finalmente dissipados em nome do prazer da carne.

Sua respiração foi ficando mais branda quando ele deixou o corpo de Rin relaxar. Se jogou ao lado dela na cama naquela posição estranha onde estão lado a lado, mas não se tocam. Seus olhos miraram o teto de seu quarto enquanto curtia a sensação de não ter pensamentos, mas de repente ele viu a mão da mulher tocar seu peito enquanto ela se aninhava ao seu lado, precisando dele naquele momento.

— Toda vez que eu trouxer ramen pra você vai ser assim? – Ela perguntou divertida, tamborilando os dedos no peito dele.

O problema é que ele não estava no clima. Pillow talk não era seu forte, pelo menos não com ela, porque sempre que tinha seus momentos com Sakura, sentia que o melhor vinha com aquele bônus dela conversando sobre qualquer coisa com ele, e quem diria que ela entendia tanto de astronomia?

Deixou uma risada escapar quando lembrou da moça através da tela, completamente nua, lhe falando sobre como podia encontra qualquer constelação usando Órion como referência, orgulhosa de suas habilidades.

— Quer tomar um banho agora?

Ele olhou para o lado vendo os olhos amendoados lhe mirarem com expectativa. Rin era linda de tantos jeitos. Fantástica e incrivelmente talentosa. Então porque quando ele olhava para o seu rosto sentia como se quisesse que ela não estivesse ali.

— Rin, nós precisamos conversar.

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Ela franziu o cenho para a tela quase como tivesse percebido algo de errado acontecendo. Recuou o corpo milimetricamente em surpresa e em poucos segundos estava de volta ao seu papel de camgirl sorrindo daquele jeito esperto mexendo os ombros enquanto dizia ter um show privado para fazer, mas na hora que a tela mudou e ela reapareceu em seu monitor, Sakura estava séria, encarando sua própria tela onde Kakashi aparecia.

Ficaram em silêncio por um longo momento até ela simplesmente se levantar e sair do quadro, voltando pouco depois vestindo um blusão surrado com a logomarca da banda blackpink. Sentou-se em seu sofá e deu um longo suspiro, como se estivesse cansada.

— Pensei que tivesse resolvido se afastar – Ela disse de uma vez — Eu te entendo se quiser fazer isso, mas esperava pelo menos um aviso – E riu sem humor na voz.

— É que aconteceu uma emergência e não pude parar para responder – Justificou-se rapidamente — E ai vi sua mensagem e resolvi que queria responder assim, na nossa versão de cara-a-cara.

A última frase a quebrou, porque aquela expressão dura tinha se dissolvido numa risadinha de quem esqueceu completamente do porquê está irritada.

— Você não precisa dizer nada, Kakashi – E tinha um ar tranquilo, quase como se estivesse bem com a inconclusão da conversa de mais cedo — Você não me deve nada.

Ele sorriu e esperava que ela pudesse ler seu rosto mesmo com aquela máscara idiota que estava vestindo. A mulher manteve seu ar tranquilo, quase como se tivesse resolvido várias coisas dentro dela, esperando algo se concretizar. Kakashi pegou seu celular e deu mais uma olhada na mensagem que fora enviada para ele mais cedo por ela, maneou a cabeça brevemente.

— Minha emergência de mais cedo foi mais um imprevisto. – Disse ignorando as palavras dela — Eu e minha namorada terminamos nosso relacionamento. – E a viu simplesmente abrir a boca em choque. Claramente não esperava por aquilo. — E eu devo começar a me acostumar a chama-la de ex-namorada.

— Kakashi! – Ela disse se inclinando para frente — P-porquê?

— Antes que você possa pensar que tem alguma culpa nisso, não, você não tem. – E estava calmo. Era estranho não poder contar mais com Rin, estranho não pensar nela como sua namorada, e claro que haviam ainda tantas coisas que deveriam ser ditas, mas já não tinham esse vínculo amoroso e pela primeira vez ele sentia que realmente estava tudo bem. — Eu estou atrasado em alguns anos para perceber coisas que já deveria ter percebido a muito tempo – Disse — Mas agora que consigo enxergar essas coisas, já não tem mais volta.

— Você tá bem? – Sakura perguntou com seu rosto preocupado e ele a achou linda daquele jeito.

— Na verdade, não. – Confessou com um sorriso, dando uma olhada para o seu celular mais uma vez antes de voltar para a tela do computador — Sinto que pela primeira vez na vida eu vou fazer algo que está me deixando inseguro de verdade.

A mulher franziu o cenho em confusão tentando entender o significado daquelas palavras, mas não havia como ela saber. Ele continuou sorrindo vendo-a esperar que ele explicasse com aquela expressão preocupada.

— Por favor, Sakura, não vá sumir quando eu disser isso.

— Kakashi?

— Eu preciso ver você. Não por webcam, não por sites... Eu preciso tomar um café com você. Sem máscaras. – Disse enquanto ela ia assumindo uma postura confusa — Sakura, o que eu quero dizer é... Quer sair comigo?

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"Eu não vou ficar surpresa se você quiser parar de conversar comigo. Acho que esse dia chegaria mais cedo ou mais tarde e venho me preparando para ele. Eu não posso te dar nada além disso, Kakashi, e sei que é insuficiente... A verdade é que eu tô dizendo essas coisas, mas ao mesmo tempo me sinto bem estúpida porque somos só duas pessoas conversando e transando eventualmente. Não é como se fosse algo sólido. A qualquer momento pode acabar, então se esse for o momento de chegarmos ao fim, eu queria que você soubesse que eu também gostaria de ter visto aquele filme ao seu lado." – (Sakura, 12:46 p.m. /Lida)

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OLÁ AMERICA LATINA 3

Porque eu sou internacional, ok?

No capítulo 3 já pode pedir reviews? HAHA

Espero que tenham gostado! Nem revisei porque DEUS É MTA TORTURA, vou mudando tudo e quando vejo to reescrevendo o capítulo! AHAHAH

Essa mensagem do final foi a mensagem que Kakashi escolheu responder cara-a-cara ok? Só pra deixar claro ahahaha

Continuem comigo! Ainda quero ver o final disso tudo ao lado de vocês s2