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A batida lenta se arrastava soando em seus autofalantes num sentimento delgado que escorre devagar pelas paredes, como um liquido viçoso. Era assim que a playlist dela soava para ele, sexy, penosa, torturante... Se havia algo que Kakashi gostava nas músicas, é que apesar disso tudo, sua melodia soava forte e impactante enquanto a mulher dançava na sua sala à meia luz.
Porque ela sabia mexer seu corpo como ninguém. Tinha domínio de suas curvas, conhecia a melodia da música e sabia conduzir seus movimentos de acordo com o ritmo. Healer era incrível nem suas danças e olhares, fazendo qualquer um manter sua atenção ali até o final. Era tão hipnotizante que se tornava o único momento em que o chat não fervia, porque estavam todos prestando atenção em cada centímetro dela, desejando poder compartilhar daquela dança.
Era sábado, e como de costume Kakashi estava ali sentado em sua escrivaninha, recostado na cadeira acolchoada assistindo aquela mulher roubar um pouco mais de sua sanidade, e mais uma vez vê-la daquele jeito lhe provocava crises de nervosismo. Não sabia porque ainda estava com aquela máscara, mas achou que seria divertido continuar com aquele jogo até o granfinale.
Nem sabia porque estava ali também. Talvez fosse puro costume, ou talvez quisesse fingir que estava tudo bem, mas a verdade é que não estava. Sua cabeça estava completamente confusa e ele sentia que iria parecer um idiota para ela assim que aceitasse o convite para o show privado em cinco minutos, entretanto queria vê-la. Queria falar com ela, olhar seus olhos mais uma vez por trás daquela tela antes de finalmente vê-los diretamente.
Ela vestia preto, com um quimono azul por cima que deslizava em sua pele de seda. Cores escuras combinavam com ela, marcavam seus tons na pele branca e no intenso de seus cabelos rosas, que dançavam com a mulher. As pequenas mãos a cima da cabeça, descendo num movimento ondulado pelo seu corpo, marcando sinuosas suas roupas.
E não era louco tirar os olhos dela.
Até que finalmente cessou, com seu sorriso matador para todos os expectadores ela olhou diretamente para a lente de sua câmera, e Kakashi a aplaudiu, porque ela merecia todos os aplausos do mundo, porque tudo que ela fazia era incrível e perfeito.
Com uma risada, ela curvou-se para sua plateia virtual e saltitou na direção de seu computador dando uma olhada breve no chat, respondendo às mensagens mais relevantes. Ele ainda tinha aquele jeito de falar supersexy, mantendo aquele timbre de mulher fatal que todos os outros tanto gostavam, mas não Kakashi... Ele preferia quando a voz dela ficava relaxada enquanto ela comentava sobre qualquer aleatoriedade. Gostava de quando ela ria de alguma besteira, ou tampava a própria boca depois de um ops.
E ele se sentia tão ansioso.
Seria seu último encontro virtual antes do grande dia. A festa no jardim botânico de Kyoto.
Talvez ela não esperasse que ele fosse aparecer naquele site, mas ele era um sacana, e mesmo morrendo de medo, ainda assim ele estava lá, garantindo que tudo seria perfeito. A viu arquear uma sobrancelha divertida, como se realmente tivesse duvidado que aquilo aconteceria. Se despediu dos outros piscando para a câmera e assim sua imagem sumia para se tornar apenas dele, do jeito que ele mais gostava.
Quando ela voltou ao seu monitor, tinha os braços cruzados com uma expressão esperta. Olhando para ele com aquela sobrancelha arqueada que pulava para fora de sua máscara preta, esperando que ele dissesse qualquer coisa, mas o homem permaneceu ali, olhando-a pacientemente sem saber exatamente o que dizer. Tentava se lembrar como começava uma conversa com ela, dizia Oi? Falava alguma coisa sobre seu dia?
Enquanto ele pensava essas coisas, Sakura estava ali sustentando seu olhar, se concentrando ao máximo para manter sua pose ao passo que sua mente a traía. Ele estava usando aquela máscara para quê? O que tinha ali debaixo já não lhe era mais surpresa, e sua mente sempre a levava para esse momento, dele em pé a centímetros de si falando com sua melhor amiga. Inevitavelmente o sorriso foi vencendo sua atitude naquela guerra de olhares.
— Não me olha assim – Disse depois de abaixar a cabeça para esconder o sorriso que lhe invadia, temendo que ele visse seu rosto com vergonha. Era a vitória dele, mas não significava que ele tinha todos os prêmios.
— Assim como? – Ele perguntou com um sorriso enorme por baixo do tecido preto, e mesmo que ela não pudesse ver, Kakashi era essa pessoa que conseguia sorrir plenamente com os olhos.
— Assim... – E sua cabeça ainda baixa maneava enquanto o olhava daquela posição. Se pudesse apostar, diria que ele estava um pouco nervoso também, e isso facilitava as coisas — Achei que você não fosse vir aqui hoje. – Completou com o olhar longe da tela onde Kakashi estava, sabendo que se olhasse para ele reviveria aquele momento onde ele esteve tão perto de si.
O homem sorriu embasbacado com a moça. Não sabia se era o fato do encontro eminente estar a menos de 24 horas de acontecer, mas ele sentia como se ela estivesse muito mais tímida do que costumava se mostrar, e ele não sabia que podia gostar tanto daquelas reações.
— Você sabe que não perco a oportunidade de te ver – Disse sendo completamente honesto — Além disso quero ter certeza que nosso encontro está de pé amanhã.
Sim, porque ela finalmente havia concordado em ter esse encontro com ele no dia anterior e ele mal conseguiu dormir pensando em como seria isso. Particularmente ele gostaria de leva-la a algum lugar mais discreto, mais íntimo, onde pudessem conversar sem ruídos ou luzes piscando, mas sabia que os termos desse encontro deveriam ser decididos apenas por ela, para que tivesse certeza que estaria bem.
— Já falei, vai ser sua única oportunidade de me ver pessoalmente, Kakashi – Ela disse finalmente levantando os olhos, encarando a face dele divertida — Eu vou estar lá de qualquer maneira.
Ino tinha liberado a entrada do homem na sua festinha, dizendo que seria o local perfeito para finalmente encontrar o homem com quem, nas palavras da loira, Sakura vinha namorando a meses. Como era uma festa privada o número de pessoas seria limitado, contando também com seguranças particulares, e além disso todos os seus amigos estariam lá, se qualquer coisa acontecesse com ela haveria uma legião para socorrê-la.
Tinha o fator social também, é claro. Porque a química obviamente rolava ali, online, mas é caso aquela faísca não estivesse presente quando se vissem? E se as palavras lhe faltassem? E se ela se arrependesse e quisesse fugir? Uma festa seria perfeita! Poderia sumir na multidão e ele nem saberia onde ela tinha ido parar. Se faltasse assunto ela sempre poderia dizer que a música estava alta demais e o chamar para uma dança.
E sobre a faísca? Bem... Sakura sabia que não seria um problema. Já a tinha sentido e quase enfartou no processo.
— Então amanhã eu vou sair para comprar o resto da minha fantasia – Kakashi disse recostando na cadeira com um suspiro — Eu queria te perguntar uma coisa, na verdade – Começou cruzando os braços sobre o peito enquanto ela indicava que poderia continuar — O que os organizadores da festa têm contra havaianos?
Ela gargalhou sem esperar aquela pergunta em nenhum milhão de anos e o viu esperar a resposta com bom-humor, dizendo que não fazia nenhum sentido aquela proibição no cartaz desde que era uma fantasia muito popular.
— É uma fantasia preguiçosa – Sakura disse com sua voz cheia de certeza — Imagine você organizar uma super-festa para encontrar cinco ou seis caras vestindo camisa floral com colar de flores se dizendo fantasiados. – E suspirou — É quase um insulto.
— Achei uma limitação exagerada.
— Você ia de havaiano, não é? – E lhe lançou seu melhor olhar de quem conhece aquele discurso.
— Só faltava o colar de flores. – Confessou.
E novamente a risada se fez presente no seu quarto através dos autofalantes que ecoavam a voz feminina por todo seu quarto, e ele adorava a sensação de ouví-la por todos os lados, quase como se ela estivesse com ele. A olhou por um longo momento, percebendo que já estava sonhando com o momento em que a veria.
— Já falei pra não me olhar assim... – Ela disse abaixando a cabeça novamente — Eu vou começar a ficar nervosa aqui.
Era uma confissão genuína, quase como uma suplica. Normalmente ele aproveitaria para implicar com ela, cutucar gentilmente para darem alguma risada, mas ele não o fez. Sabia que não era o momento, sabia que ela deveria estar tão ou mais nervosa que ele, tão ou mais ansiosa, e ele só queria mantê-la confortável enquanto tinham essa última conversa antes de se verem de fato.
— Eu vou tentar – Disse com uma voz gentil — Mas é difícil pra mim – Completou maneando a cabeça, o silêncio tranquilo se fazendo presente por alguns segundos.
— O que falta para sua fantasia? – Ela perguntou de repente, querendo que ele continuasse falando, querendo sentir a normalidade entre os dois.
— Ah... – Ele disse sem muita certeza — Meio que falta tudo.
Sakura balançou sua cabeça negativamente. Tinha que admitir que tinha lhe feito o convite um tanto em cima da hora, mas saber que ele iria comprar uma fantasia no dia da festa, em pleno domingo... Ela apenas riu imaginando se deveria esperar algo elaborado ou talvez ele fosse utilizar a alternativa universal para havaiano: o surfista.
— Eu adoro que você não parece nenhum pouco preocupado – Comentou.
— Não tem porquê se preocupar, eu tenho um plano – Disse se empertigando na cadeira — Vai dar tudo certo – Completou, mas a verdade era que não tinha decidido nada, tinha deixado tudo nas mãos de Genma. — E você vai de quê?
Normalmente ele sequer pensaria muito, qualquer coisa que encontrasse na primeira loja serviria. A última festa a fantasia que fora, Kakashi havia se fantasiado de médico, utilizando seu jaleco de sempre e um estetoscópio. Simples e fácil. Mas ele não queria o simples e fácil, ele queria impressionar. Queria chegar na festa e ser digno de estar com ela, e era aí onde morava o problema.
Não fazia ideia do que poderia vestir.
Tinha dado uma volta no centro aquela tarde, visto algumas lojas aqui e ali. Seu primeiro pensamento foi que poderia fazer um cosplay de Jaspion, porque adorava a série, mas haveriam alguns problemas com isso: Parecer velho demais, infantil demais, ter uma fantasia pouco funcional, e achar uma fantasia que não fosse totalmente horrível em 48 horas.
Além disso, Jaspion não impressionava ninguém.
— Você só vai saber do que vou quando me encontrar lá – Disse — Isto é, se me reconhecer – E riu brevemente.
— Eu reconheceria esses olhos verdes em qualquer lugar.
Diante das palavras dele, Sakura fez de tudo para suprimir a risada que lhe escapava. Ele não fazia ideia que tinha ficado cara-a-cara com ela ainda ontem, e mais ainda, sequer a reconheceu. Apenas a olhou por um momento, sendo só simpático e se foi.
— Claro que reconheceria – Disse irônica e abaixou a cabeça rindo com suas bochechas vermelhas lembrando da cena enquanto aquela frase ficava ecoando na mente dela.
Ele arqueou a sobrancelha confuso com a reação dela. Parecia estar rindo de uma piada interna, quase como se tivesse um segredinho por trás daqueles lábios rosados que ela não queria compartilhar. Ele a encarou por um longo momento, vendo-a evitar contato visual.
— Sakura?
A mulher mordeu o lábio enquanto abraçava o próprio corpo. Ele não sabia o quão irônica era aquela frase dele, tendo em vista que ela estava bem na frente dele e sequer foi notada devidamente. Tudo bem, estava com um boné preto imenso sobre seu rosto, e provavelmente estava tão vermelha que o tom de sua pele deveria estar todo estranho, mas o ponto era que seus olhos continuaram tão verdes quanto sempre foram e ele não a reconheceu.
Mas ela precisava se controlar, não queria revelar que tinha ido espiar o homem. Sentia que, de alguma forma, tinha violado uma regra daquele relacionamento, como se tivesse olhado as cartas dele num jogo de pôquer enquanto ele tivesse ido ao banheiro.
— Desculpa – Ela disse com um sorrisinho sem graça — Eu só lembrei de uma coisa...
— Hm – E tinha aquele olhar de quem está desconfiado — Entendo...
— É sério!
Novamente se encararam e é claro que ela apenas não conseguia se segurar, deixando muito claro que esse alguma coisa tinha uma conexão com ele de uma maneira indefinida. Ele insistiu, ela se esquivou, mas ele não desistiu, chegando ao ponto que ela o atacou com o golpe mais baixo que podia receber naquele momento, dizendo que seria melhor dizer pessoalmente.
Foi quando ele só sorriu e assumiu a sua derrota.
— Mas não se preocupa, você vai amar minha fantasia – Ela disse com um sorriso orgulhoso — Foi planejada há meses.
— Você podia vestir trapos, meu amor, eu ainda te acharia linda.
Ela revirou os olhos com o jeito piegas que ele a chamava de amor. As vezes ele soltava essas e a fazia sentir borboletas no estomago, como se fosse um botão instantâneo de como fazê-la flutuar. Talvez ele não soubesse disso, mas era como se sentia com esse chamativo besta que todo casal usa.
— Eu posso ir de lixo e você de lixeiro – Ela disse com humor, porque se era qualquer coisa, então... — Vamos combinar fantasias: você recolhe o lixo, eu. – E riu ao final sabendo que era uma ideia idiota.
— Se eu aparecer de lixeiro nessa festa sinto que um dos meus amigos vai me matar – Confessou — Mas adoraria combinar minha roupa com a sua. – E sorriu de lado, tentando ser encantador e esquecendo da máscara em sua face.
— Algum amigo seu tá na lista? – Ela perguntou arqueando a sobrancelha.
— Não mesmo. – Kakashi respondeu negando com a cabeça.
Então Kakashi contou sobre esse amigo dele que era produtor de audiovisual, Shiranui Genma, e que quando pediu ajuda a ele para arrumar uma fantasia que impressionasse – essa última parte sendo ocultada do relato – Genma quase surtou ao perceber que o outro iria na Festa de Início de Primavera do jardim botânico.
Aparentemente a festa era realmente um evento famoso na cidade, e sendo Genma um profissional da área de mídia era natural que estivesse por dentro, mesmo que nunca tivesse sido convidado e fosse extremamente frustrado por isso. Perguntou a Kakashi quem diabos ele conhecia que tinha conseguido a façanha de colocá-lo na lista vip da festa, e o homem respondeu apenas com um conheço alguém lá.
Sakura deu uma risadinha encolhendo os ombros. Sim, havia muita gente desesperada para entrar ali porque não eram só os amigos íntimos de Ino, mas também profissionais da área publicitária, marqueteiros, celebridades... Ela entendia o sentimento de Genma ao ver o amigo que sequer sabia da festa ser convidado e ele não.
— ... O que nos leva a pergunta, quem é você? – Kakashi disse ao final assumindo a postura de mão do homem-pensador e olhando para a tela.
— Ora, sou só uma camgirl. – Ela respondeu inocente e eles riram juntos porque aquilo não dizia nada sobre como ela era não apenas convidada para uma festa daquele porte, mas também conseguir colocar o nome de outra pessoa aos 45 do segundo tempo.
— Sakura... – Ele disse naquela voz deliciosa — Quem é você?
— Tudo bem! – E passou a mãos nos cabelos derrotada pelo timbre suave que ele tinha usado ao falar seu nome, rindo de nervosa — Eu conheço alguém da organização que me põe na lista sempre, não sou ninguém importante de verdade. Aí pedi para te colocarem também, foi só isso.
Bem, não era mentira o que estava falando, desde que a dona da festa, Yamanaka Ino, também estava envolvida na organização. Era matemática, ela conhecia alguém da organização da festa.
— Você é uma caixinha de surpresas.
— Não crie muita expectativa – Ela alertou, fazendo uma expressão mais séria — Talvez eu não seja quem você pensa que sou.
— Não importa – O outro disse assumindo o peso das palavras dele — Sei que nada do que eu imagino se compara a você.
Sim, era um primeiro encontro cheio de dúvidas, incertezas e expectativas que podiam ser frustradas a qualquer momento. Enquanto que ela sabia quem ele era, Kakashi estava praticamente em branco, apostando suas fichas naquela paixão de internet que o fez perceber tantas coisas sobre si. Ela o mudou de tantas maneiras e sequer sabia disso. Era inevitável sentir-se empolgado quando pensava nela, imaginando todas as possibilidades, e ele não queria saber se tudo podia se arruinar em algum momento, ele estava totalmente decidido a não se martirizar e deixar aquele encontro acontecer do jeito que tinha que acontecer.
Eles conversaram por mais algumas horas àquela noite, sempre voltando ao assunto das fantasias ou da lista vip. Parecia que as horas voavam enquanto eles simplesmente se deixavam ser eles mesmos, às vezes caindo naquele silêncio tranquilo, trocando olhares ansiosos pelas telas de seus computadores, permitindo que se conectassem uma última vez antes do grande encontro que os aguardavam, porque de uma coisa eles tinham conhecimento...
Aquele encontro mudaria tudo.
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Kakashi cruzou os braços acima do peito olhando para a mala em cima do seu sofá. Era velha, com aparência desgastada, de couro com tiras num tom mais escuro e fivelas douradas com semblante envelhecido. Não sabia bem o que esperar, mas Genma estava do seu lado se sentindo orgulhoso de seu trabalho, esperando que o homem abrisse a aprovasse seja lá o que tivesse dentro.
Sem precisar olhar para o relógio para saber que estava atrasado, Kakashi sabia que o que quer que tivesse dentro daquela mala seria o seu destino naquela noite. Já tinha tomado banho e estava apenas esperando pelo amigo, mas quando viu ele chegar com aquela mala velha, começou a considerar ir de havaiano e ser expulso. Ele engoliu seco antes de desafivelar as tiras e finalmente revelar seu conteúdo, e oh... Ele não esperava algo tão sofisticado.
Segundo Genma, aquele tinha sido o figurino que usaram para um clipe musical de uma banda indie que estava com tudo nas paradas de sucesso. Ele disse que tinha conseguido guardar aquela vestimenta em particular porque a figurinista lhe devia uma grana.
— Você tem bom gosto, eu admito – Ele disse tirando os acessórios de cima, se conscientizando que jamais teria tido aquela ideia sozinho.
— Cara, só me promete que no próximo ano você vai por meu nome na lista – Genma pediu vendo Kakashi tirar a calça moletom ali mesmo para se vestir.
— Não prometo nada – O outro respondeu sendo completamente sincero — Mas fico te devendo uma.
Genma sorriu, porque era quase tão bom quanto seu nome na lista daquela festa, e então começou a ajudar o amigo a se trocar, porque ele nunca seria capaz de colocar tudo aquilo sozinho em tempo hábil, foi quando o telefone de Kakashi tocou sob a mesa de centro. Ambos olharam por reflexo e Kakashi soltou um longo suspiro, pegando o telefone enquanto via o nome de sua ex estampado na tela.
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As luzes piscavam ao ritmo da batida. Era uma música agitada que fazia todos os convidados dançarem mesmo que estivessem apenas conversando em algum canto, porque inevitavelmente batiam o pé no chão ou balançavam a cabeça aproveitando da melodia envolvente que se fazia presente no ambiente. Não demorou muito para o salão ficar lotado enquanto a bebida era servida aos montes.
Havia uma equipe de filmagem também que utilizava os melhores smartphones para filmar tudo o que estava acontecendo e publicar em tempo real os melhores takes, tudo para a rede social da Ino bombar cada vez mais. Sakura reparou naquela subcelebridade que foi envolvida num escândalo sexual jogar charme para Neji, que se achava bom demais para qualquer pessoa que não fosse Tenten naquela festa.
Balançou a cabeça negativamente sorvendo seu refrigerante de soda enquanto ficava ali, perto da escada, observando todo mundo. Já era quase meia noite e sua amiga anfitriã já até tinha feito sua entrada triunfal em seu vestido vermelho com uma fenda ousada que subia pela sua coxa. Ela tinha se fantasiado de Jessica Rabbit, versão loira. O vestido, é claro, tinha sido feito sob medida, com ajustes pontuais para fazer seus peitos saltarem e acentuar seu quadril tal como os da personagem.
Era simplesmente impossível não reparar na mulher.
Mesmo que não fosse a dona da festa, Ino seria com certeza a pessoa mais cobiçada ali. Naturalmente a loira brilhava por onde passava, com seu jeito despojado e a auto confiança de quem sabe exatamente quem é e onde quer chegar. Sakura a olhava de longe enquanto a amiga conversava com um daqueles caras insistentes, dava para ver que ela estava apenas brincando com ele, zombando das investidas enquanto ele achava que estava arrasando.
Ino podia ser cruel as vezes.
Mas nem a aquela cena era capaz de fazer Sakura sentir-se mais parte da festa. A verdade é que sua cabeça estava em outro lugar, pouco se importando com qualquer coisa que acontecia ao seu redor e sempre procurando por um alguém particular que não deu nenhum sinal de vida.
Kakashi não havia enviado nenhuma mensagem desde as 16 horas, e ela sabia que o homem ainda não havia chegado na festa porque checava a todo momento a lista de convidados que haviam dado entrada no local. Sua mente ficava em loop naquele pensamento, sobre ele poder ter desistido de ir naquele lugar porque... Bem... Talvez tivesse percebido que não era o que queria e tudo bem.
Suspirou sentindo que queria ir pra casa curtir sua fossa na paz do silêncio de seu apartamento. Se era pra ficar se martirizando pelo bolo tomado, então ela preferia fazer isso em um local privado, principalmente quando não podia contar com sua melhor amiga para ouvi-la e seu outro melhor amigo também não tinha dado sinal de vida naquela festa.
Tentava manter a expectativa baixa, se conscientizar que nada rolaria naquela noite, mas a todo momento, inevitavelmente seus olhos miravam a porta de entrada, esperando pela chegada de alguém que ela já não sabia se iria comparecer. Talvez estivesse sendo dramática, afinal Kiba disse que atraso é o segundo nome dele, mas como não se tratava de dar aula e sim de vê-la, achou que podia esperar que ele fosse no mínimo pontual. Ou quem sabe algo aconteceu, como um pneu furado. Em todo caso, não havia nenhum sinal dele e ela se recusava a contactá-lo.
Ao menos preservaria seu orgulho.
Tomou mais um gole de seu refrigerante, tão doce quanto qualquer outra soda. Olhou para o lado e percebeu uma figura emburrada, desanimada tanto quanto ela. Encostou a cabeça no braço dele solidariamente, porque naquela noite, se havia outra pessoa que tinha levado um bolo, esse alguém era Uchiha Sasuke em sua fantasia de policial feita sob medida.
— Se você topar – Ela disse — Eu vou embora com você. – Sugeriu deixando seu destino nas mãos do amigo.
Sasuke tomou um tempo para si, levando seu copo a boca para um breve gole. Sóbrio e indiferente, só os mais próximos conseguiam enxergar através daquele semblante duro. Era engraçado que ele tivesse escolhido ir de policial, já que estava realmente fazendo pose como tal.
— Não vou deixar Naruto estragar essa noite – Foi a resposta dele, naquela voz irritadiça. — E você não devia deixar, o que quer que tenha te deixado pra baixo, estragar essa noite. – Completou olhando para ela discretamente enquanto Sakura sorria de canto sem humor.
— Sabe, a gente devia dançar – Disse depois de um momento, ainda olhando para os convidados — Você tá incrível nessa roupa. Tem uns 20 caras babando em você, e eu to aqui facinha – Ela sorriu se empertigando, melhorando seu humor com a ideia — O que você acha?
— Você nunca tá facinha, Sakura – Ele disse com aquele sorriso de canto que podia acabar com todas as guerras no mundo.
— Eu sempre to facinha pra você – Respondeu sorrido para ele como nos velhos tempos.
Sasuke era o seu primeiro amor. Quando ela chegou na cidade com apenas 6 anos e foi matriculada naquela escola, a primeira pessoa que ela viu foi Uchiha Sasuke, logo na entrada. Foi amor à primeira vista. Ele a ignorou por anos até que foram obrigados a trabalhar juntos no festival escolar quando tinham 11 anos, e aí ficaram mais próximos. Com 15 Sakura confessou seus sentimentos óbvios mesmo que Ino lhe dissesse que seria inútil, Sasuke é gay! A loira vivia repetindo, mas ela não se importava com os boatos.
Namoraram por 3 meses. Dai ele não aguentou e saiu do armário depois que Sakura insistiu naquele beijo de língua debaixo da arquibancada da escola. Foi traumático, engraçado, e estranhamente fortaleceu a amizade dos dois. E hoje estavam ali, flertando de leve, sabendo que nada iria rolar no final da noite.
O homem tomou um longo gole de sua bebida, soltando um ruído quando abaixou o copo, como se o líquido tivesse descido queimando toda sua garganta. Lambeu os lábios e deu uma boa olhada nela, de cima a baixo, com aqueles olhos negros intensos e qualquer um que visse a cena poderia dizer a cura gay tinha sido encontrada, mas era tudo fachada, Sasuke só era um ator excelente.
— Não faço ideia de quem é o idiota que te deu um bolo, Sakura – Começou com aquele sorriso — Mas se eu gostasse de mulher, eu com certeza usaria essas algemas pra te prender pelo crime de ser tão gostosa.
Sakura gargalhou. Ela deu um soquinho de leve no ombro dele enquanto revirava os olhos. Receber um elogio daqueles do nada lhe deixou desconsertada, principalmente quando vinha do homem que sequer olhava pra outra pessoa que não fosse Uzumaki Naruto.
Sua fantasia não tinha nada demais. Tinha resolvido ir de Jasmine, do filme de animação Aladdin. Então estava vestida naquele traje azul turquesa em tecido leve, as mangas do cropped caindo de seus ombros e todos aqueles detalhes em dourado que Ino tinha insistido em colocar, combinando com seu brinco enorme.
Particularmente, Sakura achava a fantasia sem atrativos nela, principalmente porque o detalhe maior ficava na pedra azul central no cropped, chamando a atenção para seus seios de tamanho não muito interessante ao seu ver, mas tinha que admitir que a calça aberta dos lados deixava seus quadris até mais avantajados do que eram. Seu cabelo estava preso numa trança solta, cortesia de Ino, com a tiara característica da personagem, e tinha ficado tão diferente por conta da cor rosa de seus cabelos.
— Ser chamada de gostosa por Uchiha Sasuke? – Ela disse — A noite já valeu a pena.
Ele riu satisfeito, ambos recuperados com o bom humor. Tomaram mais um gole de suas bebidas enquanto começavam a conversar sobre quaisquer coisas, esquecendo um pouco da entrada principal e das pessoas que não passavam por ela.
Foi só por isso que Sakura não viu o homem entrando e olhando para os lados. Um funcionário o abordou logo após entrar para pegar seu casaco, e quando o tirou as pessoas ao redor o notaram com toda certeza. Estava com aquela cartola alta, colete azul escuro abotoado e camisa de botões bege claro. Podia ser um traje qualquer em cores estranhas não fossem os vários acessórios que o adornavam, incluindo o óculos redondo que repousava na aba de sua cartola, os vários relógios presos ao braço naquele dourado envelhecido, com tiras de couro segurando outras peças de metal para completar o visual de seu braço.
Steampunk vitoriano.
Essa foi a fantasia que Genma havia trazido para o homem, salvando seu dia. Ele nunca tinha imaginado que ia demorar tanto para vestir todas aquelas peças de maneira devida, mas a verdade é que ele tinha cumprido sua missão: Estava impressionando. Todo mundo olhou para ele na entrada, mas ele não estava muito ligado em todo mundo. A verdade é que seus olhos passearam por cima da multidão, tentando encontrar a pessoa o tinha feito se empenhar.
A pessoa que ele queria impressionar.
Sim, estava absurdamente atrasado! Mas foi totalmente culpa de Genma que não havia trazido sua fantasia mais cedo, e de Rin que ficou insistindo em ligar até que ele finalmente atendesse e dissesse que estava ocupado. De toda forma, finalmente estava ali, torcendo para que ela ainda se encontrasse presente na festa e não estivesse tão puta por seu atraso.
Não era assim que imaginou o seu primeiro encontro com Sakura, mas a vida tinha dessas e ele não ia deixar se abalar. Não podia. Naquele momento ele precisava apenas encontrar ela no meio daquela multidão de personagens de desenhos e profissões aleatórias. Será que ela estava com peruca? Chapéu? Devia ter insistido em saber do quê ela ia.
E como se não bastasse, ainda havia tão pouca luz... Os holofotes coloridos giravam loucos pelo salão, as vezes piscava uma luz branca intensa e então luz negra, e... Caos! Ele simplesmente tinha esquecido o quão ruim era encontrar pessoas em festas. Deixou o ar escapar pelo nariz com um ruído que não foi ouvido por ninguém por conta da música alta.
Ele foi passando pelas pessoas sentindo, de repente, uma urgência. Devia ter mandado uma mensagem para ela, combinado algum lugar, pegado uma referência... Qualquer coisa que pudesse facilitar aquele encontro. Continuou andando, cruzou o salão para lá e para cá, foi para perto do banheiro, ignorou uma moça que tentou abordá-lo, continuou seu caminho até o bar e foi quando finalmente...
Finalmente.
...
Ele parou quando a viu, de costas para ele, apoiada numa perna enquanto ouvia alguma coisa daquele cara vestido de policial. O cabelo rosa balançava quando ela ria de alguma coisa, sua roupa azul esvoaçava com o movimento de seus ombros, e ele se sentiu incapaz de dar mais um passo, observando-a como um tolo diante da mais bela obra de arte.
Podia parecer exagerado, mas precisava daquele momento de contemplação. A viu por tanto tempo por trás daquela tela, que estar ali presente no mesmo espaço que a moça a passos de distância era simplesmente surreal. Soltou o ar que nem sabia que estava segurando, inflou o peito tomando a coragem. Um passo de cada vez.
Droga, e estava nervoso de repente... O que ele deveria dizer? Como ele deveria abordá-la?
Mais um passo, e seus olhos não saiam dela, sequer ousava piscar com medo de perde-la. Todo mundo ia sumindo de repente, ao passo que só restava ela em sua visão. E quando tinha ficado tão quente? Sentia o corpo esquentar, mas ele precisava ficar calmo.
Fique calmo! Mentalizou sem nenhuma esperança.
— ... atende, Sasuke.
E já podia até ouvir a voz dela àquela altura.
— Ele que se foda. – Sasuke respondeu a ela dando os ombros. Não ia atender Naruto quando ele queria, porque não era assim que as coisas funcionavam. Foi quando ele levantou o olhar por cima da cabeça de Sakura, vendo um homem se aproximar e tudo ficou muito claro. — Ei – Disse a mulher que deitou a cabeça sobre o ombro olhando para ele com seu copo na boca — Me dá esse copo.
— É só soda. – Ela disse dando o que ele queria — Não tô afim de beber hoje.
Mas Sasuke não respondeu. Apenas sorriu pra ela daquele jeito esperto e ela deitou a cabeça para o outro lado, entendendo muito pouco daquela reação dele, até que o homem acenou com a cabeça olhando além dela. Franziu o cenho imaginando o que seria e finalmente se virou. Ainda bem que Sasuke tinha pego aquele copo.
— Desculpe o atraso.
Mesmo com a música alta, mesmo com a conversa paralela, mesmo com o barulho dos passos das pessoas e todo o resto, mesmo assim Sakura ouviu a voz dele claramente. Kakashi estava ali, diante dela naquele traje steampunk que nem deveria ser chamado de fantasia, e estava tão bonito... Ela achou por um instante que, como já tinha o visto tão perto de si em outro momento, quando o encontrasse ali naquela festa o impacto seria diferente.
Mas não foi.
Era ele. A luz vermelha cortou seu rosto, passando todas as cores lateralmente por sua tez, mas ainda assim ela conseguia vê-lo tão perto, e todas as suas linhas estavam ali, aquele sorriso ansioso, o jeito que seus olhos não desgrudavam do dela, o corpo erguido e, pelos deuses, parecia que ele estava até mais alto. O que ele estava vendo? O que ele enxergava ali?
Se um dia perguntasse a ele o que se passou em sua mente, Kakashi não poderia responder com precisão. Não haviam palavras que pudessem descrever aquela mistura de sentimentos porque ele jamais se sentiu daquela forma antes. Teve que resistir a vontade de tocá-la com medo que ao fazê-lo ela virasse fumaça e ele descobrisse que era apenas um sonho.
Sakura sorriu sem jeito, abaixou a cabeça brevemente e seu rosto estava totalmente exposto, sem máscaras nenhuma. Aqueles olhos verdes faceiros lhe miravam com uma espécie de expectativa que ele não conseguia entender do quê se tratava. Talvez estivesse esperando que ele falasse qualquer outra coisa, mas o que dizer diante...
Diante dela.
— Oi – A mulher disse por fim, se inclinando brevemente para se fazer melhor ouvida. Segurava o tecido de sua calça sem nem perceber, porque estava nervosa, porque precisava agarrar em algo para se manter ali.
— Oi – E ele sorriu de volta temendo estar transparecendo toda sua insegurança. Ela era linda. Uma versão bem melhor da verdadeira Jasmine. Abaixou a cabeça com uma risada sem jeito ao perceber que estava encarando demais, voltou a olhar para ela e estava completamente sem palavras, porque ela era tão diferente ali, pessoalmente.
Ele já imaginava que ela fosse baixinha, mas não tão baixinha, e amou isso nela. Amou também o fato de seus olhos verdes serem tão expressivos, amou quando ela mordeu o lábio, talvez pensando no que dizer, talvez só incomodada com o fascínio besta dele, mas não podia evitar. Era Sakura ali. Sua Sakura.
Foi quando a música mudou de uma hora pra outra, como naqueles filmes clichês onde tudo acontece na hora certa. Sakura levantou a cabeça por reflexo, sentindo a batida se tornar mais lenta, sentido as ondas sonoras dominarem aquele espaço. Ela virou para Kakashi e ele estava ali lhe estendendo a mão.
— Dança comigo?
E como ela poderia lhe dizer não?
Tocou a mão dele com a sua sentindo o calor dele irradiar. As mãos de Kakashi eram grandes e firmes, e o jeito que ele a conduzia para o meio do salão fazia seu coração palpitar. Suas costas largas abriam o caminho enquanto tentava entender o que estava acontecendo. Quando pararam, ele virou num movimento suave, tocou sua cintura nua trazendo-a para perto, e levou a mão que segurava para seus ombros.
Sakura se deixou ser conduzida porque por um momento sentiu que tinha esquecido como se dançava. Eles se olharam por um longo momento, como se fossem incapazes de desviar o olhar um do outro, e ela registrava aquela expressão dele, sentindo seu calor correr pelo seu corpo, aquecendo seu ser.
Enquanto a música dizia em sua batida sofrida que ela jamais o deixaria descobrir o gosto do seu batom, Kakashi se deixava levar pelo jeito que a expressão dela mudava lentamente, descobrindo-o pedaço por pedaço. Aqueles olhos verdes lhe fitavam como se quisessem achar apenas um espaço para descobrir tudo sobre ele, e de repente a viu relaxar quando as mãos dela deslizaram pelos seus ombros, apoiando a cabeça em seu peito e se deixando levar por ele completamente.
Havia uma energia sendo transmitida, algo que era passada pela proximidade em que se encontravam. Ele a aconchegou em seus braços descobrindo que a queria sempre assim, com o cheiro doce de seu xampu dominando seus sentidos. E quando a música foi ficando cada vez mais distantes e os movimentos de embalo foram cessando, Kakashi continuou segurando-a ali, tendo a certeza que não iria acordar em segundo, e que ela estava ali para ele, que era tudo real.
A moça virou o rosto brevemente para cima e ele a olhou tão perto. Tão perto... Vendo seus olhos buscarem os dele, sua pele alva ser dominada pelas luzes, sua boca... Sua boca...
Então ele a tocou. Tão leve, tão delicado, seus dedos tocaram sua tez e os olhos dela se fecharam sentindo aquele toque com todo seu corpo, fazendo os pelos arrepiarem com intensidade em sua nuca e uma energia se espalhar como uma onda, tomando conta de seu corpo a partir dos dedos masculinos que se deslizavam pela sua bochecha tão lentamente, chegando ao queixo e a deixando.
Quando abriu os olhos ele ainda estava ali, sorrindo para ela com aquele sinal no canto da boca e sua única resposta foi sorrir também, porque finalmente estavam num lugar que pertenciam.
— Vem comigo. – Ela disse quando percebeu que já não podiam ficar ali por mais tempo, e ele apenas concordou com a cabeça, seguindo-a pelos cantos daquela casa.
Pegaram seus casacos na entrada e logo escaparam pela porta dos fundos para o enorme jardim que levava a um caminho iluminado até a estufa central, e mais além ao labirinto que dava acesso a mansão Yamanaka. Sakura sorriu para ele quando o viu olhar para todos os lados, provavelmente encantado com a beleza noturna do lugar, que se tornava completamente diferente quando anoitecia.
Ele sorriu de volta tirando sua cartola e colocando-a debaixo do braço. Começaram a andar pelo caminho de pedras iluminado suavemente pelos postes baixos. A música alta ia ficando cada vez mais distante ao passo que uma cigarra tentava se fazer ouvir ao longe. Ali, naquele silêncio tranquilo, Sakura e Kakashi caminhavam um ao lado do outro como se estivessem tentando se acostumar um pouco mais com a presença do outro, deixando as emoções se estabilizarem um pouco.
— Achei que você não vinha – Ela disse depois de um momento, olhando para os seus pés numa sapatilha também azul.
— Desculpe te fazer esperar – Kakashi respondeu olhando-a andar, medindo sua expressão. — A culpa foi do meu amigo que demorou com minha fantasia.
— Hatake Kakashi, você tem que se planejar melhor – E havia um tom de brincadeira ali, fazendo-o rir. — Pra quem só teve dois dias para se planejar e deixou tudo para horas antes da festa, você fez algo impressionante. – Disse em seguida, olhando para ele por um breve momento, desviando logo em seguida para os seus pés novamente.
Ele sorriu brevemente, gostando de como seu nome completo soava na voz dela, aproveitando a presença da mulher ao seu lado andando como uma menina, jogando as pernas com as mãos para trás. Ele podia ficar horas em silêncio apenas observando-a. Era assim que se sentia naquele momento enquanto ela tentava estabelecer o papo besta que eles sempre tinham.
— Você gostou? – Perguntou depois de um momento.
— Você tá ótimo – Ela disse sorrindo — Tá bem bonito.
Kakashi a viu tímida morder o lábio, ainda sem conseguir sustentar seu olhar nele por mais de um instante. Sabia que qualquer coisa que dissesse, qualquer elogio que fizesse a deixaria mais vermelha, e queria fazê-lo, queria dizer que ela estava estonteante, que era a mulher mais bonita da festa, que ninguém naquele lugar chegava ao seus pés, mas optou por não fazer papel de tolo.
— Isso é porque você não me viu de havaiano. — Compartilharam uma risada depois que ouviram tal ousada declaração.
E o silêncio novamente se fez. Eles deram mais alguns passos enquanto o vento frio tocava seus rostos suavemente. Kakashi a olhava pelo canto do olho, vendo como ela desviava o olhar várias e várias vezes, deixando tão óbvio como estava nervosa, ficando tão linda daquele jeito.
— Não me olha assim – Ela disse de repente, continuando a andar sem olhar para ele.
— Assim como? – Perguntou o homem sem segurar o sorriso bobo no rosto.
— Você sabe...
— É que você é linda – Ele disse de uma vez sem sequer pensar no que havia acabado de dizer, mas com zero arrependimentos, porque era apenas uma verdade. — E eu ainda tô processando tudo isso. – Confessou nervoso.
— Bem... – A voz dela soava faceira — É difícil mesmo acreditar quando você finalmente consegue entrar numa festa vip como essa, então...
A bobeira dela o fez rir um pouco alto, e foi quando ela finalmente virou para ele, olhando para sua expressão com humor, tomando coragem para vê-lo tão perto de si, transmitindo uma tranquilidade para ela. Continuaram sua caminhava, jogando conversa fora, falando das coisas comuns que sempre falavam, mas era como se tudo fosse novo, porque as expressões dela estavam todas ali tão perto e a voz dela era tão clara em seus ouvidos.
Cheia de estrelas, a noite os acolhia. O vento soprava em sua brisa fria, mas eles não se importaram. Continuaram pela trilha de tijolos falando sobre tudo, ficando em silêncio em alguns momentos, trocando olhares e desviando olhares. Era a noite deles.
— ... me dê um pouco de crédito. – Ele disse falhando em trazer sua voz afetada à tona.
— É meio difícil acreditar que você pode colocar todos os seus oito cachorros em fila, sentados, quando você não tem uma foto para provar – Ela disse com sua voz de sabichona — Mas vou fingir que acredito.
Kakashi maneou a cabeça, porque teria que admitir ser mentira. Ele jamais conseguiu tal façanha, por isso não tinha prova nenhuma, mas achava que estava progredindo nesse aspecto.
— Tudo bem, é mentira, mas um dia eu vou conseguir essa foto e Sakura... – Falou com humor, vendo-a rir no processo, mas logo um estalo se fez presente em sua mente, o lembrando de algo tão essencial. Como poderia esquecer?
— O que foi? – Ela perguntou quando o viu passar a mão entre os cabelos, como se tivesse algo difícil para falar.
— Eu acabei de perceber... – E suspirou — Você não me disse seu nome.
A mulher parou por um momento, olhando o rosto do homem que lhe encarava na expectativa de que viria a seguir. Soltou uma risadinha porque ele estava encantador com aquela expressão ansiosa.
— Bem, Hatake Kakashi – Ela parou na frente dele, estendendo sua mão, imaginando a reação dele diante da grande revelação — Meu nome é Haruno Sak-
— Sakura-chan!
Kakashi não virou na direção da voz, continuou olhando para a moça embasbacado enquanto ela olhava para trás. Não podia ser! Com tantas possibilidades, em tantos cenários, quais seriam as chances de ele simplesmente ter acertado o nome dela desde sempre?
— Naruto? – Ela disse quando viu o furacão loiro aparecer do nada pelo labirinto de paredes folhosas, vestido de bandido com direito a uma bola de isopor balançando em seu tornozelo — Mas que diabos, onde você se meteu? – Perguntou colocando a mão na cintura.
Ele não sabia quem era aquele ou o que estava acontecendo, mas obviamente era mais um atrasado para a festa. Por mais que ele não quisesse ser interrompido naquele momento, ver Sakura com aquela expressão era uma das melhores coisas da noite. Ver Sakura! Ele riu para si mesmo pensando sobre essa coincidência tão absurda. Ele sabia o nome dela desde sempre.
— Sakura-chan! – Disse novamente quando chegou perto da mulher, apoiando as mãos nos joelhos enquanto sua respiração normalizava — O Sasuke... Você o sabe se ele ainda está na festa?
— Você é tão idiota – Ela resmungou e depois estalou a língua. O amigo tinha sumido as primeiras horas da festa e agora aparecia daquele jeito, esbaforido e sequer sabia se o namorado ainda estava por ali. Ela pensou que poderia segurar aquela informação, mas no final das contas não queria que Sasuke passasse mais tempo irritado, e mais ainda, queria ver as fotos dos dois juntos combinando fantasias! — Ele ainda tá na festa. Tá puto, mas tá na festa.
— Arigatou, Sakura-chan! – O loiro disse mais animado, e Sakura torceu para que Sasuke não fosse tão duro com ele no final das contas. Naruto olhou por um momento para Kakashi, finalmente percebendo o homem, o cumprimentou e olhou para Sakura novamente, piscando um olho — Hehehehe.
— Tchau! – Ela disse mais energética, sentindo as bochechas pegarem fogo antes que o menino simplesmente saísse correndo.
Sakura ficou encarando o caminho pelo qual Naruto ia sumindo enquanto tentava controlar a vermelhidão no seu rosto. Naruto era uma idiota. Aquela risadinha! Ela estava conseguindo ficar calma e manter as coisas naturais, mas o amigo tinha que aparecer e fazer justamente aquela risadinha! Ugh!
— Sakura-chan – Kakashi chamou e quando a mulher se virou, lá estava ele com aquele sorriso presunçoso. — É um nome bonito.
— Meu pai que me deu – Ainda tinha as bochechas vermelhas, mas respondeu à altura, fazendo Kakashi se inclinar para ela mantendo sua expressão. — Sim, Kakashi, você sempre soube meu nome – Ela disse desistindo, e ele riu.
— Sakura! – Falou olhando para cima, voltando a colocar sua cartola — Sabe, é uma coincidência enorme que... – Ele suspirou, embasbacado com tal fato — Pode parecer bobo, mas é como se fosse destino. Eu não sei.
— Destino é? – Sakura falou gostando de como ele parecia empolgado de repente, como seus olhos estavam animados — Acho que você nem faz ideia, Hatake Kakashi.
Mantiveram o olhar um no outro compartilhando aquela sensação entusiasmada de algo novo acontecendo. Estavam a quanto tempo andando daquele jeito? Eles não faziam ideia, mas logo a música foi ficando alta novamente junto com o fluxo de pessoas aumentando enquanto iam caminhando. Tinham dado a volta no complexo sem nem perceberem.
Talvez pudessem dar outra volta, Sakura pensou, só que... Ela não queria ser a pessoa que iria sugerir isso. A verdade é que eles já podiam ir embora daquele lugar, mas àquela hora tudo estava fechado, não é? E ela também não queria ir à casa dele, e jamais o levaria à sua casa naquele seu primeiro encontro. No final das contas, parecia que seu destino era simplesmente entrar na festa novamente, quem sabe dançar um pouco mais ainda que duvidasse que tocariam qualquer música lenta novamente.
E pelos deuses, ela queria dançar com ele novamente.
— Ei – Ele chamou parando na entrada do local — Eu conheço uma lanchonete que fica aberta de madrugada – Disse quase despretensioso — Tá com fome?
Sakura sorriu. Parecia que ele havia lido seus pensamentos.
— Faminta - E colocou as mãos nos bolsos de seu casaco.
— Ótimo! Você vai amar o hambúrguer de lá – Disse içando seu celular do bolso e vendo um bilhão de notificações de Rin. — Eu vou pedir um táxi – Falou dando o comando para a central de notificação ser limpa imediatamente.
— Vai deixar seu carro aqui? – Questionou com uma sobrancelha arqueada. Ele não parecia ser o tipo de cara que não tem um carro.
— Ah, eu vim de táxi porque achei que poderia beber em algum momento – E deu os ombros — E talvez demorasse para achar uma vaga.
— Faz sentido – Disse — Mas eu não gosto de pegar táxis a essa hora, então vamos no meu carro – Falou tirando as chaves do bolso do casaco. Na verdade, sua intensão sempre foi que fossem no carro dela.
Quando chegaram no carro azul bebê ultracompacto da moça, Kakashi quase riu. Era um daqueles fiat 500, pequeno, mas não ao ponto de ser considerado um carro smart. O homem nunca havia estado dentro de um daqueles, mas tinha que confessar que pelo menos no lado do carona o espaço era satisfatório para suas pernas. A verdade é que ele se sentiu uma sardinha espremida numa lata, uma lata confortável, mas ainda assim uma sardinha.
Enquanto isso Sakura parecia ter sido feita para dirigir carros como aquele. Ela riu do homem olhando para o banco de trás e dizendo que nenhum de seus amigos caberia ali. Eles conversaram sobre suas preferencias automotivas e ela confessou ter optado pelo pequeno carro pela facilidade em estacionar, descobrindo no processo que Kakashi tinha um carro bem maior que o dela.
Como seu copiloto, Kakashi descobriu que ela era uma motorista calma. Apesar de não ter nada nas ruas, ela ainda parava nos cruzamentos mesmo estando na principal. A moça seguia os comandos dele até chegarem naquela lanchonete que ficavam naquelas ruas que nunca dormem. Pediram batata-frita com refrigerante, conversaram um pouco mais, dessa vez mais a vontades.
Os funcionários pediram para tirar fotos com eles por conta das fantasias e Sakura riu, permitindo o feito. Kakashi também descobriu que o contato de Sakura na organização da festa era, na verdade, a dona da festa, Yamanaka Ino, que também era sua cliente no consultório, e que do nada havia aparecido em sua sala de aula naquela semana pedido conselhos para uma Kore que ele pensava estar bem.
Nunca Yamanaka Inoichi iria mandar a filha perguntar algo de sua gata daquela maneira, porque a gata era tão mimada e tão querida que ele simplesmente largaria tudo para leva-la a uma consulta de emergência. Já aconteceu antes, aconteceria novamente. Mas ainda assim, lá estava Ino perguntando sobre queda de pelo, junto com uma amiga esquisita que parecia não saber como amarrar um tênis...
— Era você não era? – Ele disse se sentindo um idiota quando ela deixou a risada escapar — Eu sabia que conhecia aquela menina de algum lugar – Falou jogando a cabeça para trás, incrédulo — Não quis ficar encarando para não parecer um idiota, mas se eu tivesse perguntado... Ah, Sakura...
— Eu não iria responder nada – Disse rindo dele — E pra quem disse que reconheceria estes olhos verdes em qualquer lugar, parece que você falhou na missão.
Oh, sim. Ele tinha dito aquilo, mas justificou logo em seguida. Sim, ele sabia que a conhecia de algum lugar, mas foi muito rápido, ela estava disfarçada! Não era como se ele tivesse deixado passar, ele só achou que tamanha coincidência jamais aconteceria. Na verdade, ele nunca imaginaria em algum momento que Sakura morasse em Kyoto, ou que sua melhor amiga fosse filha do homem que era seu cliente, ou que estudasse na mesma universidade que ele lecionava.
Ele não imaginaria nunca tais coisas. Era como se ela tivesse sempre estado ali, por todos os lugares, ao redor dele, ao lado dele. Quantas vezes eles já não se encontraram na rua ou num restaurante sem sequer notar um ao outro? Era como se eles tivessem que ter se conhecido daquela maneira tão estranha, parecia que Healer era o único jeito de fazê-lo chegar até Sakura.
E claro que ela se sentia da mesma forma. Quando chegou em casa aquele dia, Sakura só pensava em como eles estavam tão perto o tempo todo. Ficou tentando lembrar dele nas vezes que fazia companhia a Hinata na entrada do prédio de medicina veterinária, esperando por Kiba. Quantas vezes ele não passou por ela com destino ao seu carro? Quantas vezes se cruzaram no estacionamento sem sequer cumprimentar um ao outro?
Pouco antes do sol dar seu primeiro sinal de vida, os funcionários do turno noturno começavam a ir embora ao passo que seus substitutos começavam a chegar. Foi apenas nesse momento que Sakura e Kakashi resolveram que era hora de partir e encerrar aquele encontro.
Ela o levou para casa em seu carro azul bebê. Continuaram conversando e perceberam que sempre havia algo com o que pudessem se entreter, não era difícil arrumar assunto mesmo sendo aquele seu primeiro encontro, e as vezes que ficavam em silêncio não eram constrangedoras, na verdade eram tão tranquilas que sentiam que poderiam ficar daquela maneira por horas e horas.
A casa de Kakashi ficava no subúrbio, bem longe de onde Sakura morava. Era um bairro com casas grandes de altos muros onde apenas herdeiros dos terrenos ou gente muito rica morava. Parando o carro na porta da casa indicada, Sakura percebeu que já tinha estado daquele lado da cidade uma vez, quando foi levar Hinata na casa do primo uma vez a muito tempo.
— Está entregue – Ela disse como se fosse um motorista — Peço que avalie meu serviço no aplicativo, senhor.
— Darei 5 estrelas – Declarou olhando para ela como se fosse algum crítico de serviços automotivos.
— Obrigada!
A risada fraca por aquela bobeira logo cessou e eles ficaram em silêncio. Kakashi olhou para ela e depois para fora do carro, para sua casa logo ali, pacifica no momento, mas assim que entrasse a sinfonia canina seria ouvida com certeza.
— Eu que agradeço – Ele disse mais sério — Pela carona e pela noite.
A verdade é que ele não sabia o que dizer naquele momento. Tinham conversado tanto sobre várias coisas, mas agora ele só conseguia pensar que queria mais algumas horas com ela, só mais algumas.
— Foi uma ótima noite – A voz dela soava gentil assim como o sorriso breve em seus lábios — Obrigada por isso também.
— Acho que depois de hoje posso pedir o número do seu telefone, não é?
— É claro – Ela riu brevemente, pegando o celular já desbloqueado que ele estava oferecendo e salvando seu número ali como Haruno Sakura-chan. – Me chama no Line pra eu salvar o seu contato.
— Pode deixar – Disse e novamente ficaram ali se olhando por um momento, até que ela desviou seu olhar envergonhado, e antes que pudesse dizer qualquer coisa Kakashi disse com humor — Eu sei, não devia te olhar desse jeito, não é?
— É... – A moça concordava rindo nervosa — Tchau, Kakashi.
— Até depois, Sakura – Ele disse dando a ela uma última olhada antes de abrir a porta do carro e sair.
Antes de dar partida, a mulher o observou percorrer o espaço da calçada até o a porta, demorou apenas alguns segundos, mas foi o suficiente para ela imediatamente lembrasse de suas costas abrindo espaço pela multidão naquela festa. Ele era lindo. Não havia dúvidas. E tinha sido uma noite incrível, cheia de uma tranquilidade natural que a fez relaxar cada vez mais. E quando pensava no rosto dele a centímetros do seu durante aquela dança suas bochechas imediatamente coravam.
Ela pisou no acelerador fazendo seu carro se mover enquanto ele abria a porta. Kakashi ouviu o barulho do carro se movendo, olhou brevemente na direção dela e depois simplesmente entrou em casa, sendo atacado por seus cães que prestavam atenção em tudo que acontecia naquele espaço deles. Falou com cada um, se agachando para coçar a barriga de Bisuke, sorrindo feito um idiota enquanto lembrava de como ela tinha aquele sorriso lindo.
Haruno Sakura. Estudante de medicina na universidade de Kyoto. Riu com as coincidências, relembrando dela com aquele boné estúpido. Ele sabia que era ela, no fundo ele sabia. Se pudesse voltar no tempo a teria encarado até ela revelar seu esquema de espionagem, que ela chamou de reconhecimento do terreno. E ela era tão linda...
Ele passava a mão no cabelo quando ouviu a voz dela chama-lo por trás do muro. Por que ela não apertava a campainha? Kakashi não sabia, mas abriu a porta o mais rápido que pôde, com seus oito cães latindo e correndo pelo local. Ele suspirou, fechando a porta antes que algum deles simplesmente se jogasse em cima de Sakura desavisadamente.
— Oito cães, não é? – Ela disse rindo quando ele finalmente virou para ela, com a porta fechada os latidos diminuíam até pararem.
— Oito cães. – Confirmou sentindo uma estranha vergonha, como se ela o tivesse pego fazendo alguma coisa.
— Você esqueceu isso no carro – Ela disse entregando-lhe sua cartola.
— Ah... – E pegou o item olhando para ele por um momento, sorriu de canto pensando que podia convidá-la para tomar café da manhã, talvez, em algum lugar, pensando se deveria fazer isso o transformaria num desesperado, mas o fato de vê-la ali novamente o fazia querer passar mais tempo com ela — Obrigado – Disse por fim com seus olhos nos dela.
Ficaram um momento em silêncio, o sol começava a dar seus sinais. Sakura tinha deixado seu carro ligado, e estava sem seu casaco. Ainda era muito frio àquela hora da manhã e ela estava abraçando o próprio corpo quando desviou o olhar para o chão.
— Que tal um beijo de boa noite?
Disse depois de voltar seu olhar para ele, com seus olhos verdes brilhando com os primeiros raios de sol. Disse porque queria beijá-lo desde o primeiro momento em que o viu, disse porque sabia que iria se arrepender assim que chegasse em casa se não o fizesse, disse porque a todo instante queria beijá-lo, a todo momento essa vontade crescia. Disse porque não queria pensar mais, porque não queria evitar esse sentimento, e se havia passado a noite com ele, nada mais justo que simplesmente assumir o que estava acontecendo.
Dane-se o bom senso.
Estava apaixonada.
Aquele olhar se sustentou por um momento ate que Kakashi colocou a cartola na cabeça antes de simplesmente encurtar suas distâncias. Ele se aproximou com apenas dois passos, passou a mão pela cintura dela sentindo a pele um tanto gelada, aproximou seu rosto lentamente ao passo que sua outra mão se encaixava no rosto dela, projetando seu rosto na direção do dele.
Não havia pressa nenhuma. Sakura sentia como se o calor das mãos grandes dele se irradiassem por todo seu corpo, sentia lentamente a respiração dele se aproximar, seus olhos cálidos a mirarem com intensidade. Estranhamente estava relaxada. Se antes tivera que reunir coragem para sugerir aquele momento, agora ela simplesmente se deixava levar.
E ele estava tão perto.
Sakura repousava a mão no peito dele ao passo que a outra segurava em sua camisa. Kakashi queria memorizar casa segundo daquilo, trazendo-a para mais perto, deixando seus corpos se aquecerem. Seus olhos iam cerrando lentamente ao passo que seus lábios se aproximavam dos dela, e quando finalmente se tocaram naquele movimento suave, sentiram um ao outro, a maciez do toque, o calor, o desejo serpentear, fazendo com que se movessem reconhecendo um a boca do outro.
Os dedos dele escorrendo para o seu cabelo, lhe provocando aqueles arrepios em ondas enquanto suas línguas se moviam em deleite. Aquele beijo se intensificava daquela forma tortuosa, sôfrega. Por quanto tempo ele não imaginou como seria beijá-la? Como seria tocá-la daquela maneira e poder se entregar daquela forma? Ele a quis tanto, sempre imaginando se a sentiria daquela forma um dia.
E ela se deixava levar pelos seus instintos, cedendo à vontade de tê-lo daquela forma, tão perto de si, à distancia de apenas um beijo. O sentia tão profundamente, deixando escapar o acumulo de seus sentimentos sobre aquele homem que nunca pensou que veria um dia. Deixou que seus sentimentos se tornassem tão claros quanto cristais só para poder dar tudo de si ali.
Quando o beijo foi cessando, Kakashi encostou sua testa na dela. Sentiam a respiração um do outro ali, de repente ofegantes. Ele não ousou soltá-la, não o queria fazer. Apenas ficaram por um instante compartilhando o turbilhão de sensações que ainda tomava conta deles, esperando seus corações estabilizarem por um segundo antes que se encontrassem novamente, dessa vez mais urgente, mais imperativo.
Ele agarrou a cintura dela com as duas mãos, mantendo-a perto de si cada vez mais, sentindo que estava prestes a perder a cabeça se ela continuasse o beijando daquela maneira. Sakura jogou seus braços por cima dos ombros dele, puxando-o para si, se empertigando enquanto o beijava avidamente, esquentando seu corpo, sentindo as mãos dele tão firmes em si, querendo-o cada vez mais e aproveitando tudo que ele oferecia.
Então o folego os traiu e tiveram que separar seus lábios mais uma vez. Sakura encostou a cabeça em seu peito enquanto ele a abraçava ali, daquele jeito tão íntimo. Ficaram um momento em silêncio e ela conseguia sentir o peito dele subindo e descendo por conta de sua respiração ofegante. Kakashi olhou para baixo sem afastá-la, enquanto que ela retribuiu o olhar incerta, tímida. Riram brevemente, quase sem acreditar no que havia acabado de acontecer, como se já tivessem desistido daquilo quando finalmente o momento chegou.
É claro que Kakashi também queria beijá-la desde o primeiro segundo que a viu, mas com Sakura ele sabia que não poderia ser apressado, sabia que não deveria ser afoito pelos motivos mais óbvios. Estava disposto a ir com calma, esperar, deixar que ela tomasse as iniciativas e se sentisse segura em todas as situações. Mas ele queria tanto beijá-la.
Tocou o rosto dela numa caricia cálida. Ficaram mais um momento ali, conectados enquanto sol morno da manhã já brilhava no subúrbio de Kyoto.
Era segunda-feira, um novo dia nascia.
.
.
.
OLÁ MUNDO!
XD
Cheio de mel, o capítulo sai do forno com um encontro daqueles! Espero que tenham gostado, continuem comigo que tá só começando!
Obrigada a todos pelos comentários! Foram respondidos devidamente pela plataforma do ffnet! ;p
