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... Alexa, apague as luzes.
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Abriu os olhos com o movimento do colchão ao seu lado. Com uma breve olhada sonolenta por cima do ombro, Sakura viu a loira deitar-se deixando o ar escapar dos pulmões com um ruído moderado. A festa finalmente tinha terminado, Ino já estava cheirosa do banho recém tomado, sem sua maquiagem e pompas. Tinha uma expressão cansada no rosto, e pudera, eram oito horas da manhã e a mulher sequer tinha dado uma pausa.
Depois de deixar Kakashi em casa, a moça tinha voltado para a mansão Yamanaka, onde dormiria na companhia da amiga. Sakura não havia voltado para a festa, ainda anestesiada com os eventos da madrugada, ela apenas tomou um longo banho e se deitou, deixando o sono vencer eventualmente enquanto lembrava do beijo de boa noite. Pelos seus cálculos, não tinha dormido por mais de uma hora e ainda se sentia grogue, mas foi inevitável acordar quando a outra se deitou tão cansada.
Era o preço da fama e Ino nunca reclamava, mas eventos muito longos a deixavam sempre muito exausta. Sakura geralmente estava com ela nesses momentos porque sabia que a amiga gostava de dormir de conchinha nesses dias. Uma das manias que tinha pego com o tempo. O cansaço fazia Ino se sentir solitária, principalmente depois do término com Gaara, então Sakura não se importava em ser a conchinha menor de Ino, que rapidamente a abraçou, jogando uma de suas pernas sobre a outra, completamente confortável.
— Você me deixou sozinha – Resmungou sonolenta, fazendo Sakura rir brevemente em seu estado de semi-sono.
— Como se você tivesse notado – Respondeu com os olhos fechados. — Como foi a festa?
— Perfeita, claro – Ino disse com um bocejo — Exceto por Neji dando um chilique porque aquela doida tava dando em cima dele – Suspirou — Também teve o showzinho de Naruto, que pegou o microfone do DJ para declarar seu amor por Sasuke... – E não precisava ver o rosto da outra para saber que estava revirando os olhos — Tá tudo gravado, aliás. – Completou.
— Ainda bem! Preciso ver a cara do Sasuke durante essa declaração – E riu preguiçosa — Desculpe ter perdido a festa. – Disse em seguida porque, de fato, era a primeira vez que Sakura simplesmente fugia no meio da maior festa de Kyoto.
— Tudo bem – A outra disse dando os ombros, puxando a amiga para si — Me conta, como foi seu encontro?
Ficou um momento em silêncio antes de responder. Seus olhos finalmente abriram levemente vendo a luz escapar pelas frestas da cortina. O quarto de Ino era enorme, todo em tons pasteis numa mistura de clássico-princesa com mulher fatal. Algo que só funcionava com Yamanaka Ino. Ficou encarando uma foto das duas quando ainda estudavam no ensino fundamental enquanto pensava em como responder aquela pergunta.
— Bom – Disse por fim, fechando os olhos novamente enquanto um sorriso idiota lhe invadia.
— Bom? – Ino perguntou no seu tom de quem não aceitaria aquilo como uma resposta — "Bom" como? – Disse e já parecia ter espantado todo o cansaço.
— Bom... – Sakura falou fazendo charme — Do tipo bom...
— Sakura, não me faz ligar pro Doutor Hatake para ter detalhes... – Ameaçou e Sakura rapidamente se virou no abraço da amiga, porque sabia que ela era doida o suficiente para fazer isso.
— Você tem que aprender a brincar, porca! – Reclamou ainda com aquele sorriso que não lhe escapava, recebendo aquele olhar inquisitivo de Ino em resposta — Ok! Bem... Ele chegou bem atrasado, nos olhamos, dançamos, e aí demos a volta aqui na estufa, andando e conversando, aí resolvemos ir comer numa lanchonete que ele conhecia, aí eu o deixei em casa e vim pra cá!
Sakura terminou seu relato vendo a expressão de Ino não mudar. Continuava com aquela cara de quem está a esperar pela história de verdade, sem se contentar com esse resumo preguiçoso que a amiga estava lhe dizendo com a maior cara de pau. Aquele sorrisinho dizia que muito mais coisa tinha acontecido, que havia impressões e todo o resto. Ino queria saber de tudo! Ela merecia saber de tudo!
— Sakura, eu vou te dar mais uma chance antes de ligar pra ele – Disse com aquela calma agressiva — Só mais uma.
Era uma ameaça real, a mulher não tinha dúvidas. Por isso se empertigou, começando a corar enquanto lembrava de tudo mais intimamente, do jeito que Ino queria que seu relato seguisse. Tinha sido vaga, sim, mas era só porque tudo ainda era tão recente que ficar vermelha diante dos fatos era inevitável. Ela mordeu o lábio inferior antes de desviar o olhar da amiga e simplesmente começar dizendo que achava que ele já não apareceria naquela festa.
Depois do primeiro momento já era mais fácil falar. Na verdade, era como se precisasse compartilhar aquilo desesperadamente e sequer tinha percebido. Ino era uma ótima ouvinte quando queria ser, e apenas ficou ali sorrindo ou revirando os olhos, fazendo comentários pontuais sobre qualquer coisa. Sakura ficou um longo momento em silêncio logo após contar sobre aquela dança. Seus olhos escaparam dos azuis a sua frente indo para algum lugar distante, sorrindo brevemente com a lembrança ainda tão viva.
A loira sorriu porque Sakura apaixonada era uma das coisas mais fofas que existiam. A amiga era do tipo que escrevia seu nome com o sobrenome do crush no caderno, pensando sobre o futuro, imaginando situações e ficando vermelha tão facilmente. Ino amava a Sakura apaixonada.
— Ah... – A loira chamou suavemente, vendo que precisava resgatar Sakura para o mundo real onde a mulher tinha que terminar aquele relato — Eu tenho que confessar que ele tava um gato naquela roupa mesmo – Disse vendo Sakura manear a cabeça — Quando ele entrou eu pensei "se a Sakura não pegar, eu pego"
— Ei! Eu vi primeiro! – A outra disse rindo.
— Tecnicamente eu vi primeiro – E a olhou em desafio e acabaram rindo daquele jeito cumplice no final das contas. — Além disso você tinha que me agradecer. Senão fosse por mim, você sequer teria tido coragem pra vê-lo, e mais ainda, nem teria dançado com ele daquele jeito.
— Olha, você pode até ter o mérito por me encorajar, mas acho que não é seu o da dança. Você nem tava perto – Disse a outra com aquele ar de sabichona.
— Mas eu vi tudo – Ino disse — Vi quando ele chegou, quando Sasuke saiu de perto... Vi vocês dois parados olhando um pro outro sem saber o que fazer... – Ela suspirou como se estivesse cansada — Aí eu mandei o DJ colocar uma música lenta e taran! Ele te chamou pra dançar.
— Eu não acredito! – Sakura falou rindo — A música foi você?
— Mas é claro! Ou você acha que isso aqui é um filme e a música muda quando você mais precisa? – Ino disse recebendo um revirar de olhos divertido da outra — Sou praticamente tua fada madrinha. Ou talvez o gênio da lâmpada... – Disse maneando a cabeça. – Que seja.
— Eu te amo, Yamanaka Ino! – Sakura disse agarrando a amiga e a enchendo de beijos, eufórica com a revelação.
— Isso, me venere! – A outra falava se deixando ser beijada várias vezes na bochecha.
Oh, sim... Ino não tinha tirado os olhos do casal nem por um momento sequer. Foi avisada por um de seus assistentes que o homem havia chegado na festa, então se escondeu no spot perto do DJ e ficou ali na espreita, vendo aquele encontro mega fofo acontecer. A verdade é que a loira tinha sugerido sua festa como local de encontro não apenas pela segurança que o ambiente iria oferecer, mas pelo controle que tinha naquele espaço. Ela poderia ajudar como se fosse a mão invisível do destino.
Talvez fosse um pouco controladora, mas dane-se! Sakura merecia um ótimo primeiro encontro com o Doutor Hatake, e ela queria garantir que tudo saísse perfeito. Sim, ela também imaginou que eles sairiam em algum momento, e por isso a loira colocou um segurança para os seguirem, porque sim, sua intuição não falhava, mas depois de tudo que Sakura tinha passado, Ino preferia garantir. Sim, ela devia contar pra Sakura o que tinha feito, mas achou que já era informação demais. Era invasiva, intrometida, mas aquela era sua mais preciosa amiga e se pudesse evitar, então faria com que Sakura nunca mais caísse em armadilhas.
Sakura continuou seu relato, falando da conversa e de como ela estava totalmente nervosa. Ficava vermelha de tempos em tempos, gesticulava toda animada enquanto que a loira lutava contra o sono para ouvir tudo. Quando chegou a parte do beijo, Ino segurou seus habituais comentários sobre como ela devia ter só dado pra ele, e focou em como ela parecia só uma garotinha empolgada. Sakura tinha essa aura quase pueril quando falava de seus sentimentos.
Quem a visse daquela maneira jamais imaginaria que estava falando com uma das maiores camgirls do país. Talvez o tanto de fofa que tinha fosse proporcional ao tanto de safada que era. Ino riu quando ela lhe contou sobre como queria beijá-lo para sempre, e como foi tudo mágico porque o nascer do sol estava bem atrás de si.
Fofa.
Foi quando o telefone dela vibrou e Sakura habilmente olhou para a tela, mostrando logo em seguida a foto que seu ex-webnamorado – porque agora eles eram só namorados, né? – usava no Line, o aplicativo de mensagens mais popular no Japão. Era uma foto bonita dele e de um buldogue gigante lado-a-lado.
"Bom dia?" – Havia uma foto dele com olheiras imensas e um copo de isopor ao seu lado, cheio de café provavelmente.
— Ah, é... – Ino resmungou — Hoje é segunda. As pessoas trabalham. – Disse como se estivesse percebendo aquilo naquele momento, sem realmente se importar.
— Droga.. – Sakura disse digitando furiosamente — Se eu soubesse jamais o teria segurado tanto.
"Você não deve ter dormido nada :/ desculpa."
— Porquê você tá pedindo desculpas? – Ino perguntou franzindo as sobrancelhas — Se você tivesse pedido ele provavelmente teria faltado no trabalho.
— Não é porque a gente não tem que trabalhar que a gente pode ficar atrapalhando os outros, Ino – Disse maneando a cabeça — Eu totalmente esqueci. – Suspirou.
"Haruno Sakura, não se desculpe por algo que não se arrepende"
"Pelo menos eu espero que não esteja arrependida"
"Porque eu não estou, só pra constar"
Sakura riu. Era estranho vê-lo utilizar seu nome completo, e ainda mais estranho estar utilizando o Line para falar com ele depois de tanto tempo. Era o início do chat deles, e ela percebeu que mesmo já tendo conversado sobre tantas coisas com ele, mesmo já o conhecendo a meses, tudo parecia novo novamente.
"Não estou arrependida. Retiro minhas desculpas, senhor Hatake. Mas devo confessar que estou preocupada que vá passar o dia com sono."
— Ino – Sakura olhou para o lado, vendo a mulher com os olhos fechados apenas resmungar um quié — Acho que ele não vai me chamar pra sair hoje – Disse enfiando o rosto no travesseiro.
Oh, sim. Depois de ter contado tudo para Ino, detalhe por detalhe, Sakura se sentia eufórica novamente. Seu sono tinha se esvaído e ela pensava se iriam sair novamente. As amigas tinham decidido matar aula porque não iriam render de qualquer maneira, mas tinha sido uma tremenda falha esquecer que Kakashi era um adulto responsável e integrante da sociedade, o que significava que ele tinha compromissos.
No final das contas, Sakura meio que se sentiu como a garota cheia de privilégios que esquece como as coisas funcionam fora da sua bolha social, mas não podia evitar: queria ver Kakashi assim que possível. Era estranho, mas agora era como se ficar de papo por aplicativo não fosse suficiente. Talvez tivesse se segurado por tanto tempo que agora que o conhecia queria recuperar o tempo perdido.
E só porque estava na companhia de sua melhor amiga se permitiu reclamar por algo tão idiota. Tinham se conhecido não faziam 24 horas e ela já estava querendo vê-lo novamente? Quando ela tinha se tornado tão grudenta?
— Se ele não o fizer é um idiota – Ino continuou resmungando na sua voz sonolenta. A verdade é que estava morrendo de sono e nesse estado tudo ficava mais simples na cabeça da mulher, principalmente quando sua amiga estava reclamando de algo que poderia ser tão facilmente resolvido.
— Ele tá cansado, precisa dormir.
— Me dá teu telefone. – E estendeu a mão preguiçosamente esperando que Sakura só lhe desse, sem perguntas, mas é claro que nunca iria acontecer, ela nunca aprendia.
— Pra que?
— Não vou pedir novamente, Sakura – Ino disse com um suspiro, virando para ela — Se você fizer eu ter que pegar de você vai ser bem pior.
Elas se olharam por um longo momento até que a loira suspirou pesadamente.
— Eu tô com muito sono pra isso, deixa pra lá – Disse se aninhando para dormir. Sakura riu brevemente, se virando na cama para ficar de papo com Kakashi enquanto sentiu a mão de Ino lhe envolver, junto com a perna que foi colocada novamente em cima dela.
Travesseiro-Sakura ao seu dispor.
Não chegou a terminar de digitar a última palavra quando a mão de Ino lhe roubou rapidamente o celular das mãos.
— Bom dia, Doutor Hatake! – Disse apertando o botão para gravar uma mensagem de voz, evitando as mãos de Sakura enquanto se levantava correndo pelo quarto gigantesco. — Meu nome é Yamanaka Ino, mas você já me conhece...
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"— Eu e Sakura somos melhores amigas desde sempre. - INO, ME DEVOLVE ISSO! - Então eu vou ser bem sincera quando digo que espero que você a chame para sair essa tarde porque senão eu que vou ter que aguentar ela reclamar o dia todo que queria estar com você, e eu preciso dormir um pouco porque acabei de chegar. - EU VOU TE MATAR, PORCA - Aliás, na próxima festa, espero que fique um pouco mais. Posso dizer ao músico que coloque outra música lenta caso seja sua preferência. - POR FAVOR INO, CANCELA ESSE ÁUDIO - Você pareceu aproveitar Listen* quando eu pedi para tocar. - NÃO FAZ ISSO COMIGO, INO! - De todo modo, chame Sakura para um passeio com você. Espero que não se importe se eu parar de chama-lo de Doutor Hatake, é que eu não acho que fica bem chamar o namorado da minha melhor amiga tão formalmente. - ELE NÃO É MEU NAMOR-"
Kakashi encarou a tela do celular após escutar novamente aquele áudio. Abaixou a cabeça rindo em parte porquê, Deus, aquilo tinha sido caótico. Sakura apenas implorava ao fundo para que a outra parasse de fazer o que estava fazendo enquanto a outra a ignorava completamente. Ele até conseguia imaginar aquela cena. Parecia uma amizade saudável, mesmo que Ino fosse claramente o tipo de pessoa que gostasse de implicar um pouco.
Segurando o riso, o seu primeiro pensamento foi sobre Sakura querer lhe ver novamente. Obviamente ele também queria vê-la e imaginava se deveria seguir a regra dos três dias, aquela regra idiota que Genma vivia dizendo ser eficaz. Quando se quer ter um segundo encontro com alguém, espere três dias para fazer o convite. Aparentemente era o tempo ideal para cultivar a ansiedade de uma forma saudável, o problema era que ele tinha certeza que não conseguiria aguentar.
Felizmente Sakura tinha sido exposta. Que se dane a regra dos três dias.
Além disso, o final daquele áudio tinha sido a cereja do bolo. A amizade delas era realmente muito forte, porque só uma pessoa tão intima teria coragem de mandar um áudio daquele, com a melhor amiga implorando ao fundo para que não o fizesse. Repetiu aquele final mais uma vez para ouvir Sakura gritando ao fundo "Ele não é meu namorado". Riu porque podia vê-la completamente vermelha gritando aquelas palavras para a outra.
— Bom dia senhorita Yamanaka. Sinto não ter ficado tanto na sua festa, mas acho que você vai me perdoar tendo em vista o motivo da minha ausência. – Kakashi dizia segurando o botão que o permitia gravar uma mensagem de voz, sendo formal sem sequer perceber enquanto tentava segurar sua risada — Mas não se preocupe. Da próxima vez eu ficarei por mais tempo. Além disso, acho que devo te agradecer pela noite. Sinto que você foi uma das maiores incentivadoras para que ela acontecesse, então meu muito obrigado. No mais, eu pretendo sim ver Sakura ainda essa tarde, caso ela esteja disponível, vou acertar os detalhes com ela no horário do almoço. Ah, e pode me chamar apenas de Kakashi se preferir, e dessa forma eu espero que possa te chamar apenas de Ino, porque seria realmente esquisito te tratar tão formalmente, mesmo que eu ainda não seja namorado de Sakura. – E deu uma pequena pausa, lembrando de algo importante no final — Aliás, espero que a Kore esteja bem.
Tirando o dedo de cima do botão de enviar, o áudio era devidamente anexado à conversa. Ele riu brevemente ainda na porta da sala de aula onde deveria estar, esperando pacientemente pela resposta, talvez em áudio, de Sakura ou Ino quem sabe.
"Kakashi, mil desculpas, a Ino é louca! Não se sinta pressionado, ok? Você precisa dormir."
Ele riu brevemente imaginando toda a cena. A amizade delas parecia ser algo muito singular de uma maneira quase simbiótica e foi inevitável se sentir aliviado por ser tão facilmente aceito pela melhor amiga de Sakura. Era quase como deus abençoando seu relacionamento. Riu novamente do pensamento enquanto dizia a ela para não se preocupar, pois gostava de Ino de graça. Se despediu rapidamente, pois tinha uma aula para ministrar.
No final das contas, Sakura tinha razão, ele precisava dormir, mas não é como se tivesse tão cansado a ponto de não aguentar até a noite, imaginou, e se ela queria vê-lo naquele dia, então ele faria um esforço para vê-la. Entrou na sala com um bocejo cumprimentando seus alunos que não pareciam tão empolgados, ainda bem.
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— Desculpa a demora, o trânsito nesse horário é um caos – Kurenai disse ocupando um lugar na mesinha da praça de alimentação do shopping.
Cabelos negros e olhos vermelhos, Kurenai era uma arquiteta que trabalhava num estúdio de designs de interiores. Usando uma blusa rosa chá de seda um terninho cor creme, ela colocou sua bolsa numa cadeira vazia logo ao lado e olhou brevemente para o cardápio jogado em cima da mesa. O menu mostrava as mais diversas sobremesas, cada uma mais calórica que a outra.
O suspiro veio fácil quando olhou para a amiga que estava com o rosto afundado na tela de seu celular, muito compenetrada. Rin havia lhe chamado para almoçar, mas quando lhe disse que seria no shopping, Kurenai imediatamente soube que não iam comer nada saudável, apenas doces e mais doces. O luto de Rin pelo relacionamento com Kakashi estava durando mais do que o esperado, e Kurenai não aguentava mais comer bolos com a mulher.
— Ok. – Disse dispensando o cardápio — O que houve dessa vez, Rin? – Perguntou de uma vez, cruzando os braços enquanto recostava na cadeira.
— Você segue a Yamanaka né? – Perguntou abaixando o celular brevemente, deixando seus olhos castanhos mirarem o da amiga diretamente.
— Sim, o que tem?
— Ontem foi a festa de primavera dela – Disse se inclinando para a frente, sinalizando que o assunto estava chegando a um clímax — E adivinha quem foi convidado?
— Genma? – Sugeriu porque era o único do grupo que realmente queria ir naquela festa de um jeito quase desesperado.
— Não... – A mulher balançou a cabeça negativamente, recostou na cadeira e olhou para o lado e Kurenai pôde ver sua indignação naquele gesto. — Kakashi tava lá! – Disse por fim apontando para o celular.
Não evitou o ar de surpresa quando a outra fez sua grande revelação e imediatamente pegou o celular na mesa, revisitando os storys da blogueira em ascensão de Kyoto, Yamanaka Ino. Havia uma superprodução, começava com ela descendo as escadas de um jeito pomposo, depois falava com a câmera dizendo que iria compartilhar tudo por seu Instagram e assim se iniciava uma série de pequenos vídeos.
A arquiteta ativou seus olhos mais analíticos, tentando ver se encontrava Hatake Kakashi ao fundo de qualquer cena. Pessoas bebendo, conversando, se pegando, dançando e muito mais. A festa tinha a fama de ser simplesmente única e de fato, vendo aqueles storys Kurenai não tinha dúvida que valia a pena o esforço para entrar, e até entendia Genma e seu desespero. Foi perto do meio daquela fila de vídeos que Kurenai achou seu alvo.
Não precisava reparar tanto na cena porque ele era o foco. Sua entrada na festa, tirando o casaco pesado e se mostrando o gostoso que era. Tinha que admitir que Kakashi tinha seu charme, e quando se vestia daquele jeito ficava ainda mais interessante. Steampunk, é? Era coisa de Genma, com certeza. Kakashi jamais teria essa ideia.
— Como? – Kurenai perguntou ainda sem entender o que diabos Kakashi tinha ido fazer, aparentemente sozinho, na festa de uma das maiores blogueiras da cidade.
— Continua vendo – A outra instruiu tomando um milk-shake de morango de maneira quase furiosa.
Com seus olhos novamente na tela, Yuhi Kurenai continuou olhando os vídeos, e não demorou para Kakashi ser o protagonista novamente, dançando uma música bem lenta com uma menina que não dava muito bem para saber quem era pela posição da câmera, mas que provavelmente estava fantasiada de Jasmine. Eles pareciam estar muito alheios ao ambiente, de forma que a música tinha acabado e eles continuavam abraçados ali, no maior clima de romance.
Passou a mão nos cabelos negros, colocando-os para trás com um movimento simples. Então era isso. O que sabiam era que Kakashi havia conseguido, de algum modo, entrar na maior festa de Kyoto e estava dançando com essa desconhecida no maior clima de romance. Kurenai podia supor, logo de cara, que Kakashi já a conhecia pelo jeito que estava envolvido pela dança, e talvez tivesse entrado porque ela tinha um convite extra, talvez.
Mas então deveriam ter chegado juntos, não é?
— Ok, o que você acha? – Kurenai perguntou depois de rever os dois vídeos protagonizados por seu amigo prateado enquanto Rin mastigava o canudo de um milk-shake pela metade.
— Ele tava me traindo. – Disse de uma vez. — Tá na cara, não é?
Bem... Até poderia ser, mas Kurenai não quis declarar nada nesse sentido. Ainda haviam muitas perguntas em torno dessa situação e deveria confessar, estava curiosa. Kakashi não era de festas, muito menos de se dedicar a fantasias, e com certeza evitava dançar com qualquer desconhecida, principalmente daquele jeito.
Na verdade, Kurenai não lembrava da última vez que tinha visto Kakashi dançar. Ele sempre dizia que era muito descoordenado para isso, fazendo com que Rin tivesse que apelar para os outros amigos para conseguir curtir a pista de dança como se deve.
— Acho que não – Disse a outra dando os ombros, porque no final das contas isso já nem importava mais — Tá tudo muito confuso. Não parece com algo que o Kakashi faria.
— Né? – A outra disse gesticulando com intensidade — Dançar? Festas? Fantasia chique? – E suspirou exasperada — Quem é essa menina afinal? Como ele conseguiu entrar nessa festa?
— Só ele pode te responder isso – Kurenai disse dando mais uma olhada nos storys de Ino. — Mas honestamente, Rin, vale a pena saber? Vocês terminaram. Tanto faz o que ele faz da vida dele, não é?
Particularmente, a mulher não gostava de ficar jogando aquilo na cara da amiga, mas era inevitável. Desde o termino, Rin ficava dando voltas e voltas sobre os fracassos que cometeu nesses longos 14 anos de relacionamento, tentando encontrar o momento que tudo se perdeu. Kurenai, como toda boa amiga, ouvia e ouvia as mesmas coisas o tempo todo, mas era como se a amiga se recusasse a enxergar que Kakashi já não era mais o mesmo desde que ela foi para Tóquio com Obito.
Sim, eles eram um casal tão perfeito. Nunca brigavam, estavam sempre juntos conversando, rindo, comendo alguma coisa. Kurenai lembrava dos tempos bons, quando Rin se confessou finalmente para o garoto na época e ele a chamou para sair. E não demorou para que a escola toda ficasse em cima deles, ficando cada vez mais populares ao passo que se tornavam um casal do tipo que você podia contar para tudo, que de tanto estarem juntos começavam a parecessem um com o outro.
Era fofo de se ver, e conseguiu perdurar mesmo depois da graduação escolar, mas a faculdade foi cruel com ambos e Rin se viu questionar todas as suas decisões num daqueles momentos que você se sente tão pressionada com seu futuro que precisa fazer algo para mudar a rota. Kurenai lembrava das palavras de Rin, dizendo a ela que seu único destino parecia ser uma jornalista fracassada esposa de Hatake Kakashi, um veterinário idealista.
Não julgou as palavras de Rin porque já tinha passado por isso desde que namorava Asuma a mais tempo que ela namorava Kakashi. Era normal se perguntar em alguns momentos se era isso que queria para a vida e tomar uma decisão ali que poderia mudar tudo, e foi isso que Rin fez quando terminou com Kakashi.
Ficou por um ano com Obito em Tóquio, cursou o terceiro ano de faculdade por lá enquanto o outro ingressava no curso de policiais. Eram um casal ativo como nunca ela e Kakashi foram antes. Viviam em grandes eventos, jogos esportivos, festivais culturais, shows... Qualquer coisa que fosse interessante na noite de Tóquio era algo que eles poderiam ir.
Nesse tempo, Kurenai continuou conversando com Rin, ouvindo suas aventuras e desventuras. Obito e Rin pareciam o tipo de casal cheio de chamas e conflitos, mas que de algum modo faziam funcionar. Nunca esteve realmente perto deles e só sabia o que Rin lhe contava, de modo que o termino dos dois aconteceu de um jeito muito aleatório, com a mulher voltando à Kyoto completamente decidida a ter Kakashi de volta.
Kurenai nunca entendeu muito bem a natureza daquele relacionamento de Obito e Rin, mas lembrava de Kakashi fingindo estar bem para todos os outros, tentando manter sua amizade com Obito como se nada tivesse acontecido e se dedicando integralmente à sua profissão.
Foi um período estranho para os dois.
— Sim. Ele faz o que quiser da vida dele – Rin disse num suspiro pesado — Mas não faz nem dois meses, sabe? Ele não podia esperar um pouco mais?
— Não faz diferença – Kurenai respondeu rapidamente — Você tem que... Abstrair.
— Como? – Perguntou parecendo indignada — Eu só quero saber quanto tempo isso vai durar até ele se cansar e voltar pra mim. – Suspirou — Ele não percebe que tá me magoando?
Foi a vez de Kurenai dar seu longo suspiro. Rin estava falando aquelas coisas de uma maneira tão egoísta que sequer soava como algo que ela diria. Era muito claro que ainda estava com raiva, mas nutrir essa ideia de iriam reatar era como estar se prendendo a algo que nunca mais iria acontecer. Ela tinha esquecido que dessa vez foi Kakashi quem terminou, não ela, e isso simbolizava muito mais coisas do que Rin gostaria de admitir.
— Eu liguei pra ele a noite toda e ele não me atendeu uma só vez – Disse de repente, com um olhar distante — E ai eu vejo isso e fico pensando que eu tenho tanta coisa para dizer ainda, sabe? Coisas que eu nunca consegui falar, coisas que ele nunca soube.
Kurenai se manteve em silêncio. O jeito que Kakashi havia arrumando para terminar com ela tinha sido no mínimo traumático. Transou com ela no que Rin havia descrito como o melhor sexo do ano para simplesmente mandar a clássica e temida frase "precisamos conversar". Kakashi era babaca como todo homem era na vida, mas ele não era esse nível de babaca. Tinham concordado, ela e Rin, que o homem provavelmente percebeu alguma coisa durante aquele ato, o que não tornava menos grave a situação como um todo, mas explicava os motivos dele fazer algo tão abruptamente.
E como qualquer mulher pega desprevenida, Rin se desesperou. Falou as coisas erradas, chorou, até se humilhou um pouco diante da situação porque foi como um terremoto não avisado. Não tinha como prever aquilo vindo de nenhuma forma, e quando ela percebeu que estava fazendo papel de idiota, ela apenas saiu da casa dele o mais rápido que pôde.
Agora estava aí tentando fazê-lo ouvir o que tinha pra dizer, se apegando a ideia de que iria mudar alguma coisa. Kurenai suspirou tentando não ser insensível, mas o fato é que gostaria de poupar a amiga de outra humilhação. Se Kakashi já tinha seguido em frente, então ela devia simplesmente esquecer.
— Rin, coloca a cabeça no lugar, você ainda tá muito sensível. – Disse esticando a mão sobre a mesa para tocar o braço da amiga, mostrando seu apoio naquele gesto — Não fica procurando ele dessa forma. A gente conhece o Kakashi, ele não vai atender seus telefonemas se achar que você vai ser irracional de alguma forma.
— Mas eu sinto que preciso disso, Kurenai – A outra falou com um semblante sério — Se é pra ser um ponto final eu não posso ficar com todas essas coisas entaladas na garganta. – Ela deu uma pequena pausa sem desviar os olhos da amiga — Eu odeio quando ele não me deixa falar. – Disse num resmungo mais para si mesma do que para a outra.
— Rin... – Kurenai suspirou — O relacionamento de vocês já foi muito magoado, muito ferido. Vocês vêm colecionando mágoas por tanto tempo... Você acha mesmo que ainda precisa de um ponto final?
Ela viu os olhos da amiga vacilarem. Rin hesitou diante da fala da mulher, com um sorriso incerto surgindo em seus lábios quase trêmulos. Era como se entrasse em conflito com vários pensamentos que surgiam e Kurenai não sabia dizer o que estava se passando no caos que era seus sentimentos para no fim dizer aquilo que se tornava cada vez mais um fardo.
— É que... eu... Eu o amo.
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Entrou no local sem saber direito se era o lugar correto. Checou no mapa do celular, confirmando que estava na rua certa, mas ainda estava inseguro de entrar num espaço tão grande e mal iluminado quanto aquele. O centro de convenções era um local onde vários eventos aconteciam, mas Kakashi nunca fora pela parte de trás, entrando naquela área com estrutura de ferro e andaimes por todos os lados, com uma enorme cama elástica esticada a quase 5 metros do chão.
Parecia estar vazio, mas ainda assim as luzes fracas de led no chão denunciavam que alguém no mínimo passou por ali para liga-las. Não havia nenhuma alma viva que seus olhos pudessem alcançar e ele já pensava em sair dali e ligar para Sakura, provavelmente tinha errado o endereço. Bocejou sentindo o sono mandar suas lembranças e esfregou o rosto brevemente.
Tinha combinado de buscar Sakura em algum lugar por volta das 16 horas, mesmo que ela tivesse insistido para que ele ficasse em casa e dormisse. Ela o tinha mandado o endereço e falado para ir entrando porque não haveria ninguém na porta e possivelmente ela não estaria com o celular perto. Tudo bem, ele pensou percebendo que teria tempo de ir em casa, tomar um banho, alimentar sua prole e tirar um breve cochilo.
Quando acordou, tomou quase um litro de café e partiu rumando ao local combinado, mas era só aquela lona elástica esticada acima dele. Tirou o celular do bolso enquanto passava por uma escada vertical de ferro levando a um nível mais alto que a lona. Pensou em subir, mas ao mesmo tempo não sabia se devia. Foi quando uma sombra passou por cima dele, chamando sua atenção.
Havia algo que não conseguia enxergar além da lona. Ele se agarrou nos ferros da escada e subiu alguns níveis até encontra seu alvo. Completamente embasbacado, Kakashi a viu segurando num tecido laranja girando pelo ar fazendo acrobacias. Sakura parecia tão concentrada, tão precisa. Ele subiu no andaime sem conseguir tirar os olhos dela, que jogava sua cabeça para trás prendendo seu corpo no tecido através de suas pernas.
Acrobacia em tecido?
Ele sorriu vendo-a fazer seus movimentos com naturalidade. Claramente já praticava a um tempo, porque não hesitava em seus movimentos. Estava ali com seu cabelo preso num longo rabo de cavalo, enroscando ora seu braço ora sua perna no tecido que ondulava até a base. Kakashi se aproximou da base imaginando a sensação que a dominava enquanto ela estava ali voando, fazendo seus cabelos ondularem com o vento com sua expressão concentrada e tão focada. Embasbacado, ele pensava em como ela era uma caixa de surpresas.
Em algum momento ela parecia que iria cair, mas segurou firme no tecido mostrando que era apenas mais um de seus truques. Escalou novamente até o topo e parecia satisfeita com o que tinha acabado de fazer, enquanto que do nada outra sombra passava por ele, dessa vez girando com um tecido azulado em torno da área, como se caminhasse no ar apenas segurando naquele tecido com uma mão.
O homem foi perdendo a força do movimento e se impulsionou na direção de Sakura. Gritou o nome dela como se estivesse dizendo que se preparasse, foi quando trombaram e Sakura simplesmente caiu. Kakashi agarrou o ferro de proteção do andaime, inclinando seu corpo para baixo com seu coração acelerado, mas relaxou quando a viu quicar na lona confortavelmente.
Sempre errava o timming de agarrar em Sai. Estava impossível acertar aquele movimento sem trombar nele, e se ela não caia, então era ele que soltava. Ouviu o amigo chamar, se arrastou para longe enquanto ele se jogava suavemente, deslizando pelo tecido e fazendo a proteção elástica balançar, arrastando-os inevitavelmente para o centro.
— Queda feia, hein – Disse daquele jeito nada simpático — Não machucou, não é?
— To bem – Ela disse com um suspiro, se sentindo um tanto frustrada com seu desempenho — Acho que nunca vamos acertar esse movimento.
— É, você tá demorando muito pra pegar o jeito – Ele declarou sem nenhum filtro — Talvez devêssemos mudar a coreografia. – Sugeriu pensando que de fato, talvez fosse um desperdício insistir.
— Me dá mais uma chance, eu vou acertar – Argumentou porque não era de seu feitio desistir, e viu Sai levantar-se, estendendo-lhe uma mão que foi prontamente aceita.
— Tudo bem, feiosa, mas vamos parar por hoje – Disse com seu sorriso polido — Sua carona acabou de chegar – E apontou para o andaime, fazendo Sakura virar imediatamente.
Sorriu ao vê-lo apoiado no beiral do andaime completamente relaxado. Ele acenou brevemente para ela e a moça devolveu o cumprimento, esquecendo totalmente de Sai no processo. Indicou que já ia descer o que fez com que ele se adiantasse para voltar ao chão firme. Quando se encontraram finalmente, Sakura o apresentou a Sai brevemente e simplesmente deu as costas, declarando que ia buscar suas coisas para que pudessem ir.
Kakashi reparou no jeito que ela rebolava enquanto ia na direção de um suporte ao fundo, com sua leggin colada de cor preta e seu top azul escuro. Seus músculos eram delicados ainda que fossem muito bem definidos, o jeito confiante que andava o fez sorrir de canto. Ele já não tinha dúvidas, mas sabia que vez ou outra ia se sentir um homem de sorte.
O homem a sua frente pigarreou com um sorriso polido, e talvez qualquer outro homem ficasse um pouco constrangido por ter sido pego cobiçando uma mulher daquele jeito descarado, mas não Kakashi. Sorriu de volta para ele como se nada tivesse acontecido. Conversaram por um breve momento e logo descobriu que Sai era o instrutor de Sakura nas coreografias acrobáticas. Ficou curioso, se perguntando se haveria alguma apresentação, mas não precisou externar.
— Ela nunca se apresenta – Sai disse como se lesse seus pensamentos, dando os ombros sem muita importância — Eu a ensino todas as coreografias porque às vezes ela substitui alguém que se machuca, mas no final ela prefere se manter só como praticante, apesar de que ela é boa no que faz.
— Me elogiando? – Sakura se aproxima com um sorriso divertido, como se tivesse pego o amigo no flagra. Ele sorri de volta daquele jeito educado. — Vamos embora, Kakashi, antes que esse prédio caia em nossas cabeças! – E o agarrou pelo braço com uma falsa urgência.
— No geral você é boa, mas se continuar caído daquele jeito vou acabar tendo que te declarar como meramente regular – Ele disse colocando uma mão na cintura — Então se esforce para ser boa em alguma coisa, porque se depender dessa sua cara feia... – E não terminou a frase.
— Vai te catar. – A mulher resmungou com humor — Nos vemos depois, branca de neve.
— Tchau, feiosa.
Já de costas, Sakura acenou divertida para o homem enquanto caminhava ao lado de Kakashi, já tendo soltado seu braço no processo. Ele a olhou de soslaio por um segundo a vendo passar uma toalha recém tirada de sua mala de ginástica. Enxugava o rosto delicadamente enquanto pedia desculpas pela demora, dizendo que havia perdido a hora. Refez o rabo de cavalo quando o ouviu dizer que estava tudo bem, se permitindo completar a fala com um elogio singelo comparado ao que realmente tinha achado de sua performance.
— Você estava incrível lá em cima.
Se olharam breve momento, o suficiente para que ele reparasse nas bochechas femininas ganhando um tom rubro suave antes de virar seu rosto brevemente, sentindo que podia ficar vermelho a qualquer momento também.
Não se falaram até chegarem no local onde estava o carro. O clima entre eles ficando um tanto ansioso. Sakura não sabia lidar com elogios, principalmente quando vinham de um alguém que a fazia sentir tantas coisas de maneiras diferentes. Era a terceira vez que o via pessoalmente, a segunda que trocava palavras com ele, a primeira que estavam ali com roupas do dia-a-dia em um local corriqueiro.
Sim, ela queria tanto sair com ele novamente naquela tarde que Ino lhe fez o favor de garantir o encontro. Ela sequer iria ao treino, mas sentiu que se passasse o dia em casa ficaria louca pensando no homem e preferiu se distrair com algo que lhe tomasse completa atenção. Mas uma vez que estava ali do lado dele, era inevitável lembrar das baboseiras que Ino lhe tinha dito por áudio, dos gritos dela e todo o resto.
— Pensei em te levar pra comer alguma coisa, mas acho que ainda tá cedo pra jantar – Ele disse de repente, cobrindo a boca com a mão antes de continuar — Quer fazer hora em algum lugar?
O olhou por um longo momento vendo a olheiras pesadas em seu rosto. Abaixou a cabeça por um breve momento dando uma risada breve passando a mão no rosto quando a ideia lhe surgiu vagarosa, tomando forma rapidamente. Ela o olhou novamente e a sobrancelha arqueada lhe dizia que estava esperando uma resposta sem entender muito bem a reação dela.
Mordeu o lábio. Precisava tomar uma decisão rápida, e o vendo ali daquela maneira, morto de sono e forçando a sair com ela nesse encontro forçado por uma Yamanaka Ino que não conhece limites, Sakura percebeu que só havia uma opção.
— Kakashi, você tá com sono – Disse óbvia — Não precisa me levar pra canto nenhum. Vai pra casa descansar. Podemos nos falar mais tarde.
— Eu tô tão horrível assim? – Ele perguntou olhando para o vidro escuro do próprio carro — Ou é porque à luz do dia percebeu que eu sou feio?
— Por favor – Ela disse balançando a cabeça negativamente, rindo com a provocação dele — Você tá aí todo bonito e cheiroso, eu quem to fedendo de tanto treinar. – Ela o olhou com uma falsa seriedade — Tá achando que vai sempre me ver vestida como princesa? Essa é a realidade, amor.
— Hm... – O homem soltou maneando a cabeça, fingindo um olhar discreto pelo corpo dela, mas sabendo que ela com certeza estava reparando — Realidade, é?
— Ei, meus olhos estão no rosto – Ela lembra depois de uma gargalhada, porque ele era exatamente do jeito que ela se lembrava, com aquelas provocações bobas e cheio de insinuações. Gostava que ele a tratasse exatamente como eram pela internet, gostava que ele não tivesse receio de olhá-la daquele jeito descarado, gostava que como as coisas podiam ser tão naturais.
— Olhos. Certo. – Ele disse sorrindo, girando as chaves do carro nos dedos bem humorado — Vem, vamos matar o tempo em algum lugar. – Resolveu olhando para ela com expectativa, e ela soube que ele não iria desistir.
Mas ela já tinha um plano mesmo.
— Ok. – Disse por fim colocando a mão sobre a dele para pegar as chaves — Mas eu dirijo. Não quero morrer por você ter dormido no volante.
Sem protestar, Kakashi sorriu pra ela trocando de lugar. Seu carro era alto, nada a ver com a baratinha azul bebê de Sakura. Quadrado, do ano, meio alto. Um Jeep. Gostava do carro porque era espaçoso dentro sem ter uma carroceria enorme. No Japão, espaço para estacionar era uma coisa complicada, então carros pequenos eram artigos de necessidade, Kakashi no entanto preferia sempre algo que fosse um intermediário porque jamais se sentiria confortável num carro smart.
A viu puxando o banco para frente e ajustando os espelhos. Ele se permitiu relaxar enquanto ela se certificava de que alcançava todos os pedais. Sakura não devia ter mais de um e sessenta e cinco. Estava sorrindo que nem idiota enquanto ela manobrava para sair do estacionamento, tão pequena naquele assento.
Uma vez na rodovia, Sakura começou a tagarelar sobre o carro, o dia, o clima... Falou sobre Ino e pediu desculpas pelo áudio de mais cedo no processo. Ele comprovou que ela dirigia bem de fato, sendo tão calma e suave nas conversões que ele até sentia como se o carro estivesse parado. Em algum momento ele reparou que não sabia para onde estavam indo apesar de ela parecer ter certeza do que estava fazendo.
Entraram numa rua que levava à parte de trás de um supermercado grande, daqueles de redes famosas, e logo estavam numa rua dominada por prédios residenciais. Foi quando ele não conseguiu se conter e perguntou para onde estavam indo, e ficou surpreso quando ela lhe disse que iam ao seu apartamento.
Se dissesse que absorveu a informação como outra qualquer estaria mentindo. Se esforçou para continuar uma conversa qualquer, mas a verdade é que se viu nervoso. Ela havia justificado que precisava tomar um banho porque não queria andar por ai suada e em roupa de ginástica, ele concordou brevemente, mas foi ela quem tinha lhe pedido para busca-la no treino, não foi? Logo era de se imaginar que ela não se importaria de ir em qualquer lugar vestida daquele jeito.
Não é?
O pior de tudo é que ele não tinha camisinha.
Ele estava a tanto tempo num relacionamento estável que a muito tempo tinha esquecido o que era comprar camisinha até o momento surgir. Rin usava um diu, não tinha outros parceiros além dele, e era isto. Mas uma vez solteiro, Kakashi devia ter se preocupado em comprar algumas, deixar no carro e na gaveta de casa.
Mas não... Ele esqueceu.
E agora estava indo para casa dela, e ele imaginava se ela tinha alguma ideia especifica de como passar o tempo... Tudo bem, ele não tinha se depilado também... Mas e daí? Ele passou as mãos nos cabelos quando ela desceu com o carro para o estacionamento subterrâneo, a luz do sol sendo completamente deixada para trás.
Com seu carro devidamente colocado numa vaga de visitante, Sakura catou sua mala no banco traseiro e pulou para fora, devolvendo a chave do carro a ele quando já estavam perto do elevador. Ela comentou sobre como o carro dele era gostoso de dirigir e Kakashi não conseguiu evitar um bocejo. Maldito sono!
A viu dar uma breve risada quando apertou o botão para subirem ao 5º andar e continuou comentando sobre qualquer coisa, foi quando Kakashi se deu conta que ela era obviamente mais jovem que ele, e cursando medicina, ela deveria ter por volta dos... vinte anos? Seria natural que ela ainda morasse com os pais, não é?
Puta merda.
Ele enfiou a mão nos bolsos andando vagarosamente pelos corredores deixando-a guiar o caminho. Todas as portas eram iguais e uma janela no final deixava a luz natural entrar no ambiente coletivo. Pararam na porta de número 502 com um tapete com várias pegadas de gato de cor rosa na porta. Com a chave nas mãos, ela abriu e acedeu as luzes.
— Vou só deixar isso confortável pra você – Ela disse dando dois passos largos na direção do sofá enquanto ele dava uma olhada em volta.
Era uma quitinete.
E não só isso, Kakashi reconheceu aquele cômodo assim que o viu. Era o local dos shows de Healer, onde ele a viu rebolar tantas vezes para a câmera. Uma parede branca com um sofá cor creme e uma mesinha de centro, coisa simples. Era o que ela mostrava nos vídeos, nada além disso, porém, naquele momento ele viu várias almofadas no sofá que ela puxa o assento, transformando num sofá cama.
Havia também um quadro grande em preto e branco logo acima com uma foto de algum lugar cheio de sombras que o fazia se sentir de alguma maneira que não compreendia, prendeu o olhar ali por alguns minutos antes de continuar seu reconhecimento. O jarro de flores na mesa também lhe era novidade, assim como a TV pendurada na parede e algumas prateleiras com livros, um notebook, teclado, mouse... Todos os aparelhos tecnológicos que ela precisava, além de um tripé com uma câmera no canto da sala.
— Você pode sentar aqui e relaxar – Ela disse colocando o controle na mão dele — E sinta-se à vontade para assistir o que quiser – Falou sorrindo.
— Seu apartamento é uma graça – Ele disse tirando os sapatos ainda perto da porta, olhando o cabideiro com casacos dependurados e as botas dela encostadas logo abaixo. Havia uma planta ali também, verde e bonita com uma luz amarelada logo acima. Uma pequena sala com poucos móveis.
— Faço o que eu posso com 32 metros quadrados – Disse dando uma risadinha.
Mais ao fundo era a cozinha, que se dividia do ambiente por uma bancada estreita com dois bancos. Tinha uma janela panorâmica que permitia a luz entrar, quem lavasse os pratos teria a vista do que estivesse além. Era decorada em branco e amarelo, bem simples e parecia equipada com o necessário e nada além. Entre os dois ambientes havia uma porta, onde Kakashi imaginou que ficava o quarto dela e o banheiro, talvez uma varanda.
— Do que você está rindo – Ele perguntou quando a viu rir como se estivesse notando alguma coisa.
— Você aqui... – E deu uma pausa mordendo o lábio, com seus olhos desviando para o lado enquanto sua mente processava alguma coisa — Às vezes eu imaginava você aqui, mas nunca esperei que fosse se tornar algo real – Confessou por fim se sentindo meio boba de dizer tudo aquilo, o vendo sorrir gentilmente. — Acho que não vou demorar. – Se apressou em dizer quando percebeu que talvez fosse corar — Se quiser uma água é só pegar, ok?
— Ok. – Ele disse se sentando no sofá, esticando as pernas confortavelmente enquanto a TV ganhava imagem e som de algum programa da NHK.
Sakura sumiu pela porta lateral e deixou o ar escapar. Sim, ela jamais pensou que um dia aquele homem estaria em sua sala assistindo TV de uma maneira tão despretensiosa. Se perguntou se ele havia notado que ambiente era aquele, mas resolveu deixar isso no fundo de sua mente enquanto pegava o celular para conferir as mensagens.
Ino. Ino. Ino. Sasuke. Ino. Hinata. Ino. Naruto. Naruto. Ino.
Deu uma risadinha jogando o celular na cama junto com sua mala, correu para o banheiro pela outra porta e começou a tirar a roupa se recusando a pensar que estava ficando nua a menos de 10 metros de Kakashi. Quando estava já na sua rua, quase se arrependeu de tê-lo trazido ali, mas o fato é que ele estava tão cansado que ela só queria que ele dormisse um pouco, e é claro que o teimoso jamais aceitaria voltar pra casa.
Por isso ela planejou deixa-lo no sofá-cama enquanto tomava um longo banho, dando tempo para que ele caísse pesado no sono. É claro que trazê-lo ali implicava em outras insinuações, mas ela imaginava que conseguiria deixar bem claro que não o estava convidando para um sexo louco em sua casa. Ela só queria que ele dormisse, e é isto.
Já conseguia, inclusive, ouvir Ino dizendo que ela era uma louca de levar um homem daqueles a sua casa e simplesmente não sentar em cima dele com vontade, mas a verdade é que Sakura ainda tinha tantos receios. Entrou na água sentindo seu corpo acolher a temperatura fria com felicidade, se deixou um longo momento ali, apenas sentindo a água escorrer.
Sim, ela sabia que parte do seu medo vinha de traumas passados, mas a verdade é que quando se tratava de sexo com Kakashi seu pensamento imediatamente rondava sobre as expectativas dele quanto a performance dela. Porque ele a conheceu daquele jeito, tão sexual. Talvez ele esperasse Healer na cama, toda confiante e matadora, quando na verdade ela sentia que queria algo mais íntimo com ele.
Ok, ela estava começando a soar como uma menininha virgem, mas não podia evitar pensar essas coisas quando se sentia tão confusa quanto a ele. Era apenas o segundo dia, mas eles já conversavam a meses. Sakura já sabia tanta coisa sobre ele e Kakashi também conhecia muito de si, afinal, de alguma maneira Kakashi havia conseguido tornar tudo o que houve entre eles ser pessoal desde o primeiro momento.
Quando entrou dentro de casa com ele quase teve um ataque, teve que começar a fazer qualquer coisa antes que hiper ventilasse, e quando finalmente parou para olhá-lo dentro de casa percebeu como tudo ali parecia pequeno diante dele. Era como se ele ocupasse todos os espaços, e não era do jeito como Naruto fazia com sua tagarelice, mas sim com uma calma e naturalidade, como se de alguma forma ele já pertencesse àquele lugar ao mesmo tempo que fosse algo completamente novo.
Soltou o ar se sentindo estranha ao lembrar o rosto dele olhando para a foto na parede. Ele estava ali contemplativo, quase como se quisesse entrar na fotografia. Sakura resistira a vontade de beijá-lo, mas agora na privacidade de seu banheiro enquanto o condicionador escorria pelo seu corpo, ela se sentia ofegante. Fechou os olhos e sabia que estava excitada.
— Droga.
Praguejou para si mesma porque não havia nada demais naquela cena, nada de diferente. Não era Kakashi lhe lançando olhares lascivo pela tela, não era sua boca a centímetros da sua ou suas mãos grandes em sua cintura. Era apenas ele olhando para uma foto na parede. Não era novidade que ela o queria, mas era uma novidade que o quisesse de uma forma tão apaixonada. Por mais que soubesse que sim, gostava dele de forma romântica, Sakura ainda classificava aquilo como algo que ainda está numa zona de interesse.
Porém, depois de uma intensa noite cheia de conversa, do beijo quente ao nascer do sol e todas as borboletas que ela sequer sabia que moravam na sua barriga, Sakura tinha que admitir que estava apaixonada de um jeito apaixonado. Suas mãos escorregavam pelo seu corpo junto com o sabonete, ela se esfregava por todos os lados tentando não imaginar Kakashi ali consigo, tentando esvaziar sua mente e fazer o que tinha que fazer.
Ela podia se masturbar ali sem nenhum problema, sabia fazer aquilo de um jeito quase silencioso, mas não queria. Por mais que seu corpo pedisse, ela sabia que apenas Kakashi a satisfaria naquele momento, e nem toda masturbação do mundo seria suficiente.
Tirou o sabão do corpo, espremeu os cabelos e escovou os dentes depois de se envolver numa toalha felpuda. Saiu para o quarto colocando uma calcinha confortável, um short de moletom e por fim uma camiseta larga por cima do top preto. Bem confortável. Secou os cabelos o máximo que pôde com a toalha, sem querer ligar o secador para não acordar a pessoa que deveria estar dormindo na sua sala naquele momento.
Se olhou no espelho pensando que tinha levado quarenta minutos para terminar tudo, imaginando se ele já estaria dormindo àquela altura. Pegou o celular e abriu a porta do quarto lentamente, colocando a cabeça para fora e sorrindo no processo. Lá estava ele, ocupando todo seu sofá cama, com um braço estirado e o outro sobre o peito, a boca entreaberta e o peito subindo e descendo.
Não resistiu e tirou uma foto de longe, outra de perto. Ele estava tão cansado que nem o barulho alto da TV o acordava, e mesmo assim Sakura resolveu abaixar o volume, desligando apenas as luzes. Se sentou delicadamente do lado dele decidindo se deitava também ou sentava em baixo na companhia de uma almofada. Continuou olhando para ele tentando se decidir e ele estava tão convidativo, e ela estava se sentindo de repente com sono, e...
Suspirou desistindo de sua batalha, deitou com cuidado puxando os cabelos para o lado e apoiando a cabeça no seu braço. Ficou parada por um instante avaliando se ele se mexeria, mas ele não deu sinal de vida e ela simplesmente se fez confortável, quando de repente ele se vira a puxando para si, num abraço. Conchinha.
Travesseiro-Sakura ao seu dispor.
Ela ficou parada temendo que ele fosse soltar alguma piada ou qualquer coisa, mas não. Sentia a respiração quente dele na sua nuca, os braços relaxados em torno de si com uma perna entre as dela. Sorriu quase sem acreditar que do nada estava ali nos braços dele enquanto ele dormia relaxado e absolutamente nada tinha rolado. De alguma forma ter a ciência que ele estava bem ali no seu sofá, dormindo profundamente enquanto lhe adornava a fazia sentir-se como se tudo estivesse seguindo num rumo rápido e estranho, parecia que estavam fazendo coisas que não podiam por conta da distância e ao mesmo tempo pulando algumas etapas. Ainda que não soubesse bem o que tudo isso significava, Sakura decidiu apenas relaxar enquanto se concentrava um pouco na sensação que ele lhe transmitia naquela sala iluminada pelo brilho da televisão e dos fracos raios de sol que iam sumindo conforme o tempo passava.
Ela catou o celular com cuidado depois de um tempo contemplando o jeito que se sentia com ele ali, lhe abraçando, e olhou suas mensagens enquanto se permitia sentir sono.
Y. Ino: Sakurinha linda do meu coração.
Y. Ino: Você ainda tem o esquema que a professora de fármaco passou?
Y. Ino: Preciso urgenteee!
Y. Ino: Vamos fazer compras depois, preciso estar deslumbrante na sexta.
...
Y. Ino: Já tá transando?
Sakura segurou sua risada diante do combo simples de Yamanka Ino. A velocidade com que ela mudava de assunto era assustadora. Digitou rapidamente uma resposta, dizendo que não poderia passar o esquema no momento porque estava ocupada, mas que passaria assim que Kakashi fosse para casa. Viu Ino responder dois minutos depois explodindo com um zilhão de mensagens perguntando sobre tudo o que tinha acontecido.
Elas conversaram por não sei quanto tempo e Sakura sequer percebeu que a luz do sol tinha ido embora quando sentiu o homem se mexer atrás dela. A puxou para mais perto, inspirando com força enquanto afundava o nariz nos cabelos úmidos. Apalpou levemente Sakura, como se reconhecesse o corpo e emitiu um ruído de quem estava acordando.
— Sakura? – Perguntou depois de um momento enquanto via os olhos verdes lhe espiarem por cima do ombro.
A voz rouca de sono a atingiu com força. Se viu arrepiar diante da fala dita tão perto de si daquele jeito preguiçoso. Deus... Ela o olhou por cima do ombro com cautela, vendo os olhos masculinos ainda meio sonolentos lhe encararem com uma curiosidade preguiçosa.
— Bom dia! – Disse quase num sussurro, sorrindo enquanto se virava suavemente dentro do abraço dele, vendo-o demorar com os olhos fechados enquanto piscava.
— Eu dormi – Ele respondeu óbvio como se estivesse se justificando — Droga, desculpa. – Falou em seguida esticando os braços e as pernas num espreguiçar longo, com um ruído característico. Sakura riu.
— Tudo bem. Era meu plano desde o início. – Confessou enquanto ele se empertigava sem soltá-la daquele abraço.
— Então foi por isso que armou o sofá-cama? E eu pensando que você estava preparando nosso ninho de amor. – Falou provocativo e ela gargalhou.
— Ninho de amor? Assim eu vou achar que você tem sessenta anos.
— Ah, vamos lá... Aparento ter cinquenta no máximo – Ele disse com um sorriso de canto vendo-a revirar os olhos com humor.
— Dormiu bem? – A mulher perguntou deslizando sua mão pelo torso dele, escorregando brevemente para o seu peito e a deixando ali confortavelmente.
Ele a olhou por um longo momento vendo seu rosto conforme a luz azulada da TV. Seus olhos verdes brilhantes, seu nariz arrebitado, as pequenas marcas no rosto de quem costumava cutucar uma espinha ou outra, seus lábios rosados num sorriso gentil...
— Muito bem – Respondeu depois de um momento, se sentindo um tanto aéreo pelo fato de estar ali, tão próximo, tão íntimo. — Eu adoro seu cheiro — Disse aproximando seu nariz dela, fechando os olhos enquanto buscava o aroma perto do seu pescoço, sentindo-a rir e se mexer.
— Faz cócegas! – Ela disse de repente porque ele estava claramente imitando algum cachorro, sendo nada delicado enquanto deixava escapar algumas risadas no processo. — Kakashi! – Implorou segurando forte no braço dele, empurrando-o brevemente para que afastasse.
O homem começou a rir contra o pescoço dela enquanto Sakura ainda segurava seu braço temerosa. Perguntou se ele tinha parado de verdade e ele concordou com a boca contra seu pescoço, pediu que ele jurasse antes de folgar o aperto no braço masculino e foi quando sentiu o arrepio que a resposta dele provocou sendo dita daquele jeito tão próximo a ela, tão grave, tão...
É claro que ele notou. A viu mexer o ombro e seus pelos arrepiarem. Ficou ali um momento, respirando seu cheiro, passeando as mãos pelas costas femininas, indo do meio para um pouco mais baixo enquanto cedia à vontade de beijá-la ali, sendo delicado, suave. O arrepio se fez presente novamente quando ele a beijou mais uma vez um pouco mais a baixo. Tocou a pele dela com sua língua, lambendo com a ponta um pequeno pedaço, como se testasse seu gosto, suas reações.
A mão dela ainda repousava no seu torso, mas a sentia diferente de antes, com as pontas dos dedos mais presentes, repuxando o tecido de sua camisa. Também sua respiração um pouco mais pesada, como se estivesse se esforçando para manter o ritmo, e ela estava ali tão parada, quase como se estivesse completamente concentrada apenas nas ações dele, como se quisesse sentir ao máximo os menores estímulos.
Ele não sabia se devia continuar, mas a verdade é que ele queria mais. Será que ela gostava de beijos no pescoço? Gostava que lambessem daquele jeito tão suave? Se ele fosse mais intenso, isso a satisfaria? Havia tantos pensamentos girando em sua mente e ao mesmo tempo ele queria explorar todas as possibilidades. A beijou ali do jeito certo, mordiscou sua pele sentindo-a apertar um pouco mais seu braço, se mexendo um pouco enquanto soltava o ar.
Fez o seu caminho com beijos e mordidas até sua orelha, lambeu o lóbulo com a ponta da língua noutro movimento tímido, e quando ia provoca-la um pouco mais, a sentiu aproximar seus corpos, abaixando seu rosto em busca do dele, procurando seus lábios com certa ânsia, e uma vez os encontrando se desfez em desejo.
A beijou com vontade, com paixão. A puxou para si fazendo-a colar seu corpo completamente no dele, levantou sua perna que jazia entre as dela, colando sua cocha no limite possível do corpo feminino enquanto ela se movia lentamente ali, soltando um ruído do fundo de sua garganta tão suavemente que Kakashi se perguntou se realmente tinha ouvido aquilo ou foi apenas sua excitação lhe fazendo imaginar coisas.
Mesmo assim ele não parou. Deixou sua mão passear pelo quadril da moça, sentindo sua bunda empinada através do tecido grosso de seu short, subiu novamente encontrando a pele por baixo da blusa dela, traçando seu caminho a cima, buscando sentir cada vez mais dela, querendo-a cada vez mais como se isso fosse possível.
Ela não lhe negava, mordiscando seus lábios daquele jeito, arranhando suas costas levemente com a ponta dos dedos, pressionando seu quadril na coxa dele cada vez mais forte, se esfregando ali como se estivesse tentando ter algum autocontrole.
E de fato estava.
Quando ele escapou de seus lábios, Sakura arqueou seu peito dando a ele a posição ideal para beijá-los por cima do tecido de suas vestes. Ele era quente e suas mãos tão grandes que a faziam pensar que estava lhe tocando por todos os lados. Suas pernas não paravam de se mexer manhosas, querendo que ele a estimulasse em outros locais. Locais mais específicos. E arquejava em vontade, gemia timidamente tão perto do ouvido dele que via o homem puxar o ar com força para si.
Ela o que queria... O queria tanto... Tanto...
Para ele era como estar redescobrindo aquela mulher. Transaram tantas vezes daquela forma quase que incompleta. Algumas vezes eram tão intensas que quase a podia sentir ali com ele, mas estar com Sakura daquela forma lhe fazia querer cada vez mais descobrir cada parte de seu corpo, arrancar cada suspiro dela, ouvir sua voz miúda com esses gemidos tão baixos e transformá-los em algo maior. Queria fazê-la gozar nos seus dedos, na sua boca, no seu pau. Queria ver aqueles olhos verdes explodindo em prazer e mais ainda, queria tê-la em seus braços depois de tudo.
Ela o puxou novamente para mais um beijo. Dessa vez mais longo e tortuoso. Tirou sua mão de dentro da camisa dele e a deixou repousar no peito masculino novamente, beijando-o mais, retomando seu juízo. Kakashi abaixava sua perna lentamente, folgando seu abraço levemente, entendendo o recado. Não era a hora para ela, e ele já havia decidido que ela tomaria todas as iniciativas, que seria ela a pessoa que tomaria a frente e conduziria tudo aquilo.
Quando o beijo finalmente cessou, ficaram um momento em silêncio. Sakura mantinha os olhos fechados deixando sua respiração normalizar e não precisava ser Ino para saber que Kakashi estava mantendo os olhos nela, bem atento, talvez confuso. Deus... Ela tinha dado todos os sinais, absolutamente todos. O tinha trazido para seu apartamento, tinha deitado com ele, tinha até mesmo correspondido aqueles beijos e deixado que ele fosse cada vez mais longe. Tinha medo dele enxergar apenas Healer e nem se tocou que estava sendo ela.
Droga...!
Kakashi a viu se encolher colocando sua cabeça no peito dele e não podia acha-la mais fofa reagindo tímida daquele jeito. Ele não fazia nenhuma ideia do que se passava na cabeça dela naquele instante. Ele deixou suas mãos acariciarem os longos cabelos rosas enquanto lhe dava tempo para se recompor. Acabou dando uma risada abafada percebendo que o dia já havia passado. Não havia mais sol entrando pelo vidro da janela ampla da cozinha.
— Por quanto tempo eu dormi? – Ele perguntou ainda acariciando os cabelos dela.
— ... Acho que... Umas duas horas... Talvez três... – A resposta veio abafada, mas ele ouviu bem e concordou com a cabeça brevemente, fechando os olhos e a abraçando. — Você tá com fome? – Ela perguntou depois de um momento, levantando a cabeça para olhá-lo ainda um pouco corada.
O sorriso veio fácil quando viu os olhos verdes. Sakura era miúda e daquele ângulo seus olhos ficavam até maiores, e ela tinha aquele jeito tão fofo. Tímida. Quem imaginaria que ela fosse tão tímida?
— Eu não vou dizer pra você parar de me olhar assim – Falou com um sorriso, recuperando seu bom humor.
— Ótimo, porque eu não quero parar – Ele retrucou e a viu revirando os olhos — Desculpa se passei dos limites. – Falou porque queria deixar aquilo em pratos limpos, sem que fosse algo não dito.
— Tudo bem – Disse dando os ombros — Não é como se eu não tivesse gostado. – E deu aquele sorriso esperto.
— Considere como uma amostra grátis.
— Ah, então eu vou ter que pagar para ter o resto? – Arqueou uma sobrancelha divertida.
— Claro. Vai ter que fazer o jantar.
— Tão barato... – Ela disse com humor.
Ele sorriu para ela, retrucando seu comentário enquanto se levantava. Perguntou onde era o banheiro se dando conta que ainda estava de pau duro. Sakura o olhou e riu com aquelas bochechas vermelhas dizendo que se ele demorasse muito saberia o que ele estava fazendo. Quando ela lhe indicou o local, ele deu uma breve olhada no quarto dela se perguntando como alguém conseguia morar num lugar tão pequeno! Onde ela estendia as roupas?
A pergunta foi respondida quando ele adentrou o minúsculo banheiro e viu a máquina de lavar roupas com função secadora. Riu percebendo o quão estreito era o local e como combinava tanto com ela em cada coisa. Tudo era encaixado cuidadosamente como se fossem peças de Tetris, e havia muito aproveitamento dos espaços mais altos das paredes.
Usou o enxaguante bucal dela depois de urinar, e lavou as mãos e o rosto rapidamente para enfim voltar a sala-cozinha, vendo a mulher olhando para dentro do armário numa clara indecisão sobre o que fazer para comer. Kakashi se aproximou calmamente enfiando as mãos nos bolsos, olhando para ela com a mão no queixo fazendo bico.
— Espero que você tenha levantado a tampa. – Ela disse sem desviar os olhos do que estava vendo.
— Tudo limpo, senhora – Disse ele abraçando-a por trás e apoiando seu queixo no topo da cabeça dela, vendo aquela cena deplorável — Sério que você tem um armário cheio de ramen instantâneo? – Perguntou incrédulo.
— Foi você quem quis que eu fizesse o jantar, não é? – Retrucou com humor pegando um sabor frango teriyaki — Esse aqui é o seu. – E riu ao se virar para ver a expressão dele de decepção — Quer um de carne?
— Sakura – Ele disse quase chocado — Eu não sou tão barato assim.
Ela gargalha com a declaração segurando o rosto dele e o beijando rapidamente. Acabou tendo que explicar que ramem era uma refeição prática para uma mocinha que não gostava de cozinhar, mas que Ino sempre lhe levava bentōs para o almoço quando iam à faculdade.
Kakashi apenas riu, dizendo a ela que pessoas que moram sozinhas precisavam saber cozinhar por uma questão de sobrevivência. A ouviu dizer que sabia preparar ovos, usar a panela de arroz e fritar coisas, e que era o suficiente para ter uma refeição digna quando não tinha nada melhor na geladeira, sugerindo que poderiam pedir uma pizza.
Foi nesse momento que o homem entrou numa batalha interna. Ele podia cozinhar pra ela, simples e prático. Sabia que ela não tinha muita coisa, mas viu os ingredientes certos para preparar um gyudon bem básico que não faria feio num jantar improvisado, entretanto... Sua confiança na cozinha se limitava a preparar coisas para si mesmo, e nada além.
Aprendeu a cozinhar ainda muito novo como um passatempo e mais tarde isso veio a se tornar uma habilidade essencial para um universitário mão-de-vaca que não queria morrer desnutrido. Em algum momento da vida até fez um curso de culinária gastronômica para amadores, sentia que suas habilidades estavam indo bem até aquele jantar surpresa que fez pra Rin e ela detonou sua comida, achando que tinha sido um delivery de algum restaurante na cidade.
Uma morte horrível.
Bem, ele não parou de cozinhar por isso. Genma adorava sua comida, assim como Gai, mas os dois eram pessoas que sempre comeram o que ele preparava desde a época da faculdade, então não contava muito, não é? Genma em especial comia qualquer gororoba, já Gai era um pouco mais fresco.
Olhou para os olhos verdes de Sakura que aguardavam intrigados. Talvez estivesse fazendo alguma careta enquanto pensava. Bem, que se dane!
— Eu vou cozinhar – Declarou vendo-a reagir com surpresa — Mas não espere muito. – Disse em seguida perguntando onde achava os utensílios.
Sakura o provocou, dando tudo que ele precisava e finalmente sentando atrás da bancada estreita, assistindo-o se mover pela sua cozinha como se ela tivesse apenas 1m². Ele era alto e grande. Não grande do tipo massa muscular em exagero, mas do tipo que tinha uma presença que dominava o espaço ao seu redor. Seus olhos acompanhavam os movimentos masculinos e as vezes ele a pegava no flagra, sorrindo para ela com aqueles olhos plissados, e era uma das coisas que ela mais gostava nele: Kakashi sorria com os olhos.
Conversaram durante todo processo e em certos momentos ele parecia um pouco nervoso, fazendo com que Sakura acabasse imaginando se ele realmente sabia cozinhar ou só estava tentando fazer algo mais saboroso que cup noodles. Parecia que era gyudon, cheirava como gyudon. Na verdade, cheirava muito bem como gyudon. Ela sentiu sua barriga reagir ao aroma e percebeu que realmente estava com muita fome.
Quase se sentiu mal em fazê-lo cozinhar, mas não era como se ela não o tivesse lhe dado opções. Acabou com um prato de gyudon bem na sua frente e um Kakashi com um pano de prato em seu ombro a olhando com expectativa. Pensou em provoca-lo mais uma vez, dizer que era muito exigente com comida, mas não o fez. Apena piscou para ele e provou aquilo que já tinha um cheio maravilhoso.
— Kakashi – Ela chamou de boca cheia, colocando uma mão na frente dos lábios para continuar falando sem mostrar a comida mastigada — Que magia foi essa que você usou pra transformar os nadas do meu armário em comida tão boa? – E soltou um ruído de satisfação. — Eu nem sabia que eu tinha tempero em casa – Comentou mais para si que para ele.
— Sério que você gostou? – Perguntou provando um pouco brevemente — Se você tivesse saquê teria ficado muito melhor – Comentou ainda tentando avaliar aquela expressão dela enquanto enchia a boca.
— Tinha como ficar melhor? – Ela disse ainda mastigando e ele apenas riu — Ok, eu vou comprar saquê, Hatake, e você faz isso novamente. – Declarou voltando à refeição.
Ele riu do jeito que ela simplesmente devorava tudo que estava no prato. Sim, poderia ter ficado bem melhor se ela tivesse os temperos certos e saquê, mas fez o que conseguiu com a carne congelada a sei lá quantos anos no pequeno freezer em cima da geladeira. Se escorando na bancada da pia atrás de si, Kakashi comeu ali para ficar de frente para ela, conversando enquanto via as caras e bocas de Haruno Sakura enquanto ela lhe contava a história de quando passou dois dias comendo pizza velha porque se recusou a cozinhar.
Quando terminaram, Sakura jogou os pratos na lava-louça e voltaram para sala, onde Kakashi recebeu um telefonema de Genma, percebendo que já estava bem tarde. Se olharam por um longo momento e ele passou a mão entre os cabelos antes de declarar que estava de saída. A despedida veio com pesar, era óbvio que queriam estar um com o outro mais um pouco. O beijo foi inevitável. O desejo ainda estava todo ali daquilo que queriam fazer, mas não o fizeram.
Ainda ofegante ela o viu pegar o elevador, e fechou sua porta apenas um momento depois. Sua casa voltava a ser apenas sua. A presença tão dominante dele se esvaia sobrando apenas o conforto comum de sua casa de um jeito quase estranho. Se deitou no sofá cama sentindo o corpo vibrar um pouco, relembrando as mãos dele em sua pele, a boca por cima do tecido em seu seio, o jeito com que beijava seu pescoço.
E sua voz...
Ficou ali esparramada, olhando fixo para o teto enquanto sua mente vagava pelas memórias de uma tarde preguiçosa. Os detalhes dos momentos vinham progressivamente, os sorrisos, o toque, os olhares... Kakashi esteve ali durante toda uma tarde e parecia tão normal tê-lo por perto, como se sempre tivesse sido daquela forma. Quando ele a abraçou na cozinha foi como se ele sempre a abraçasse daquele jeito. Tinha uma familiaridade em tudo que faziam juntos e quando percebia tal sentimento a mente de Sakura girava.
Era só o segundo dia e eles já estavam literalmente dormindo juntos. De conchinha! Sakura mordeu o lábio inferior se permitindo sonhar acordada, mas só um pouco. Era tão difícil se concentrar em outra coisa quando o cheiro dele ainda estava ali por todos os lados em seu sofá, quando a presença dele ainda era tão viva mesmo em sua ausência. Sentia seu clítoris latejar, pedindo um pouco de atenção, mas Sakura só queria curtir a sensação da excitação sem fazer absolutamente nada sobre isso, porque no final das contas sabia que só havia uma pessoa naquele momento que poderia lhe satisfazer.
Foi quando abriu os olhos num solavanco ouvindo o barulho insistente do seu celular em algum lugar da casa. Olhou para os lados e é claro que estava na cozinha. Se levantou apressada e viu o nome de Ino iluminar as 6 polegadas da tela. Revirou os olhos antes de atender, sabendo que a amiga tinha algum pacto com o diabo para ter aquele sexto sentido.
— Sakura, para de transar por dois minutos e me manda o esquema de fármaco agora! – Dizia sem sequer dar um simples oi, exigindo o material daquele jeito inquisitivo tão característico. Sakura apenas riu.
— Ele já foi embora, porca. – Revelou fazendo seu caminho de volta à sala — E vou te mandar agora o material.
— Ui, então esquece fármaco.. Como foi seu encontro com o Doutor Hatake?
— Sabia que você é bem contraditória? – Perguntou divertida pegando seu notebook numa prateleira perto da televisão. — Pensei que ia chama-lo só de Kakashi de agora em diante. – Comentou brevemente.
— Prioridades, né more? – A outra soltou numa voz irônica — E tanto faz como eu vou chamá-lo. Vamos lá, desembucha! De 0 à 10, o quão 11 ele é na cama?
Sakura gargalhou com a pergunta conseguindo visualizar a expressão de sabe-tudo que Ino estava fazendo naquele momento.
— Sei lá, porca – E ligou seu notebook vendo a imagem de um anime sendo exibida na sua tela principal. Sailor Lua. — A gente não transou. Digo, só umas preliminares. – Disse antes que a outra simplesmente a interrompesse. — É só o nosso segundo encontro, eu não vou dar pra ele desse jeito.
— ... Por que não? – A voz de Ino soava quase alterada. Sakura suspirou. — Você tá transando com ele na internet a meses e quando tem a oportunidade de dar do jeito certo, você fica de frescura? Corta essa de donzela que não dá no segundo encontro. – Declarou autoritária.
— Não é isso de donzela, Ino – Sakura disse se sentindo de repente uma pontada de irritação — É justamente porque a gente transou meses na internet que eu to querendo ir devagar. – Explicou e houve um breve silêncio na linha. Sakura encarou seu wallpaper por um segundo sem realmente enxerga-lo.
— Ir devagar por quê? – A outra questionou claramente insatisfeita. Sakura balançou a cabeça negativamente se sentindo cansada. Ino nunca desistia quando achava que tinha algo mais.
— Ino, ele me conheceu num site adulto. A primeira vez que ele me viu eu tava de calcinha e sutiã chupando um pirulito para um bando de desconhecidos na internet – Ela disse como se a resposta estivesse toda ali — A gente conversou meses, transamos por meses. Sim, eu quero dar pra ele! Mas eu quero que ele saiba que eu não sou Healer. Que ele não vai dormir com uma camgirl, e sim comigo! Eu! Sakura!
A mulher ouviu a amiga estalar a língua do outro lado do telefone, até podia sentir o revirar de olhos da loira de um jeito exagerado e por isso suspirou. Era válido querer ter certeza do terreno onde estava pisando antes de, de fato, entrar. Talvez estivesse fazendo uma tempestade em copo d'água, mas havia esses sentimentos confusos dentro dela, e Kakashi era alguém que claramente mexia não só com sua libido, mas também com seu coração.
Seria uma mentirosa se dissesse que conseguiria transar com ele apenas para satisfazer-se, porque no final das contas ela não queria apenas sexo, e talvez estivesse com a ideia errada sobre ele, talvez Kakashi quisesse apenas curtir depois de terminar um relacionamento tão longo, mas ela não queria ser a garota de curtição. Passaram meses conversando e havia algo ali que não era apenas sexual, e mesmo que ele desse os sinais de que também se sentia assim, quem garantia que de fato era assim?
— Sakura, você tem que parar com essa coisa de Healer e Sakura. Vocês são a mesma pessoa. – Ino disse com sua voz impassível — Lembra do porquê de Healer existir? Não foi pra que você pudesse se sentir dona do seu corpo? – Perguntou trazendo à tona memorias antigas — Healer não é um alter ego, não é um outro você. Healer é só um apelido que você adotou para fazer o que quisesse do seu corpo. Se você separar Healer de Sakura então isso não faz mais sentido!
— Mas... Ino, ele me conheceu naquele site fazendo aquelas coisas. Eu não quero descobrir que ele acha que eu sou só aquilo! Droga, eu gosto dele e quero que ele saiba quem eu sou!
— Deixa de ser idiota, Sakura. Eu te disse, relacionamento é se arriscar e se você não tá disposta a fazer isso então deixe claro para ele e pare de fazê-lo perder tempo! – Declarou tão dura quanto sempre era — Vocês se falam todos os dias a meses, ficam se provocando, trocando fotos, piadinhas internas... Sakura, ele sabe quem é você. Por mais que você tenha tido o maior cuidado de não falar certas coisas, você mostrou sua personalidade inevitavelmente. Ele tá caidinho por você, e mesmo que no final das contas ele só queira sexo, foda-se! Você também quer sexo!
— Você me ouviu? Eu não quero só sexo! – E já estava exasperada. — Eu quero que seja algo a mais!
— Então faça ser algo a mais pra você! – A outra disse rapidamente — Seja egoísta uma vez na sua vida e faça algo por si mesma. Vá atrás dele homem, faz o sexo da sua vida! Seja a stripper que você na internet, ou transa fofinho, sei lá! Mas para de se segurar por conta de um medo que você nem devia mais ter!
O silêncio na linha se fez tão denso que Sakura sentia que podia chorar a qualquer momento. Ino não entendia, jamais iria entender, porque ela não era uma pessoa quebrada. A mulher se permitiu deitar ainda equilibrando seu notebook nas pernas. Fechou os olhos apertando o telefone no ouvido com sua mente a mil. Todos os pensamentos vinham ao mesmo tempo num bolo de confusão enquanto ela tentava esvaziar tudo e pensar um pouco.
— ... Ino... – Ela disse com a voz embargando — Eu não confio mais em mim pra essas coisas.
E soltou o ar com dor, sentindo o peito contrair num choro que começava a eclodir. Se sentia tão patética. Tinha se apaixonado por um cara na internet, tinha aceitado que não podia oferecer nada além daquilo e mesmo assim se permitiu avançar, sabendo que era muito mais do que podia lidar. Porque agora ele não era mais um cara desconhecido por quem ela tinha um crush qualquer, ele era Kakashi, com um rosto, uma voz, um cheiro, um toque... Ele era Kakashi com aquele olhar e aquela voz.
Mais do que a figura abstrata que ela havia construído dele, agora ele tomava forma, e quanto mais o descobria mais gostava. Entretanto, dentro de si existia essa parte de si que tinha medo, que não podia suportar a ideia de tomar um risco que pudesse fazê-la voltar àquele lugar tão estranho por onde ela esteve. Sakura não queria estar apaixonada. Tudo seria tão mais fácil se ela o tivesse negado. Tudo seria tão mais fácil se ele não...
.. se ele...
— Sakura – A voz de Ino soou do outro lado da linha tão suave quanto um sussurro gentil — Não deixe que Sasori estrague mais uma coisa na sua vida. – Disse tão cautelosa que Sakura riu brevemente. Ino sempre fazia isso quando ia falar o nome dele, como se dizer Sasori fosse despertar alguma coisa nela.
Mas a verdade era que já não sentia nada quando escutava o nome do homem que a quebrou, porque ela havia juntado os cacos, tinha feito um Kintsukuroi perfeito em si mesma. Porém tudo isso tinha levado um tempo, encaixar suas peças fora uma tarefa difícil, e agora ela havia encontrado algo com a capacidade latente de quebra-la novamente.
Valia a pena esse risco?
— Sasori não pode tirar mais nada de mim, Ino – Ela disse com certeza — Deus... – Suspirou o nome passando a mão na testa, se sentindo um pouco mais patética — É apenas o segundo dia e eu já estou me torturando – Riu sem nenhum humor na voz — Talvez isso seja um sinal.
— Sinal de que você pensa demais – A outra retrucou imediatamente, como se precisasse cortar aquele pensamento de uma vez por todas — Pensa direitinho, testuda, mas pensa nas coisas certas. Tem um cérebro por trás dessa testa enorme, use-o! – E ambas riram um pouco quando Sakura mandou ela se catar — Kakashi vem te adulando a uns dois meses pra te encontrar. Vem dizendo coisas que só um cara realmente afim de tentar diria. Eu não to aqui te pressionando pra transar com ele, eu to te pressionando para que você se permita viver uma coisa legal na sua vida que, é, tem potencial para te magoar, mas que você não deve se privar, porque se apaixonar é algo bom, e se permitir é melhor ainda.
— Ele passou a tarde aqui e foi tão estranho – Ela disse brevemente, entrando num estado de reflexão — Porque parecia que a gente fazia isso o tempo todo, sabe? Comer, dormir, conversar, dar uns amassos... Parecia só... Tão natural. — Seu cenho franziu porque não sabia o que isso significava, não sabia como reagir, como interpretar. — E ao mesmo tempo foi tão diferente. Era algo novo, mas tão familiar.
— Mas vocês fazem isso o tempo todo – Ino disse — A única coisa diferente foi que vocês estavam no mesmo espaço físico. – Completou e Sakura deu uma risada. — E antes que você fale aquela besteira sobre Healer, Sakura, ele fazia isso com você. Todo tempo ele falava com a pessoa atrás da máscara, e não apenas com a camgirl sexy que você é diante das câmeras. Ele falava com a minha melhor amiga, que me atazanou meses sobre como esse cara gostoso era também inteligente, interessante, incrível e todos os outros in's positivos que existem.
Sakura gargalhou com a declaração, revirando os olhos para a amiga do outro lado da linha. Oh, sim. Ino a conhecia como ninguém, e era a melhor pessoa do mundo todo. Ela não conseguia esconder nada daquela loira espevitada que era tagarela ao extremo e sempre estava certa. Sakura riu porque ela estava tão certa.
— Eu te odeio – Sakura disse com humor, porque nenhum medo que pudesse ter faria sentido agora, e ainda que eles existissem, a mulher se sentia mais capaz de administrá-los.
— De manhã foi um "eu te amo", agora um "eu te odeio".. Parece que a contraditória aqui é você, testuda. – Comentou com humor — Me mandou o esquema de fármaco?
Sakura deu uma breve olhada na tela do notebook em suas pernas, erguendo o corpo para apertar o botão de enviar finalmente.
— Sim – Respondeu. — Já deve ter chegado.
— Obrigada! – A outra disse num tom mais animado — E Sakura – Chamou depois de um momento — Se você não confia em você, tudo bem, então não faça nada, mas eu quero que você saiba que pode confiar em mim, aconteça o que acontecer, eu tô aqui pra ti, seja pra te ouvir falar de como Kakashi é maravilhoso, ou pra te abraçar enquanto xingo ele por você. E mesmo que você resolva que não vai dar a ele uma chance, então eu vou tá aqui pra ouvir quando você se arrepender. – E riu — Mas honestamente eu prefiro que você tenha coragem, porque eu amo quando você tá apaixonada. Fica tão fofa! Né, Kore?!
— Vai te catar – Falou rindo da mulher fazendo vários sons de quem está apertando uma gata fofa gigante. Olhou a hora rapidamente, suspirou — Vamos ver o que vai rolar — Disse maneando a cabeça — A gente se fala amanhã.
— Tá bom! Te amo, Sakura-chan! – Disse na sua melhor imitação de Naruto.
— É claro que ama, beijos! – Se despediu antes de desligar e voltar a olhar pro teto.
Eram 21:14.
Suspirou.
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.
.
Tinha chegado em casa a uma hora, estava sentado no deque se sua cara enquanto seus cães lhe cheiravam com curiosidade mais uma vez. Ele ria enquanto sentia Buru colocar o focinho perto de sua orelha e dar uma fungada longa. Tentou afastá-lo, mas o buldogue era enorme e pesado, ficou insistindo até se dar por vencido.
Ele entendia que estava impregnando com um cheiro novo, algo que eles nunca tinham sentindo antes, e isso lhe despertava certa inquietude. Pakkun lhe cheirou um milhão de vezes, indo e vindo pelo deque como se quisesse encontrar a origem do aroma que definitivamente não era o de Kakashi. Alguns já tinham desistido, como Shiba, mas outros estavam inquietos e querendo brincar desesperadamente, como Bisuke que trazia a bola pela 20ª vez.
Passou a mão nos cabelos depois de jogar a bola mais uma vez, sentindo a brisa fria lhe tocar enquanto ainda se sentia anestesiado. Chegou colocando seu carro para dentro de casa e ficou parado, olhando para os cachorros, para a grama desgastada pelos pneus do carro, para o cocô perto do arbusto no canto do muro, pro céu e para as estrelas. Ficou ali, curtindo a solidão dos seus pensamentos misturado com a sensação de coisa boa que carregava.
Talvez estivesse com sono, porque havia dormido quase nada, mas a verdade é que seu estado idiota tinha nome e sobrenome. Era como se estivesse sentindo coisas que nunca imaginou serem possíveis longe dos livros e filmes, porque para ele esse sentimento era algo inventado, algo que pessoas criativas tinham construído para causar suspiros nas pessoas em suas obras.
Lembrou de Gai com sua frase pronta: Você está apaixonado.
Riu quando pegou a bola novamente, jogando-a para o mais longe possível. Bisuke era incansável, mas acabou sendo colocado para trás por Urushi, que pegou a bola antes dele num repentino interesse pelo que estava acontecendo.
— Oe, oe – Kakashi disse preguiçosamente quando Bisuke começou a latir para o irmão — Sem briga! – Decretou autoritário, recebendo aquele olhar de tédio de Pakkun no processo, lhe dizendo silenciosamente: como você quer que eles obedeçam quando você é mole desse jeito!
Sempre tão autoritário...
Foi quando seu telefone tocou. Enfiou a mão no bolso e fraziu o cenho vendo o nome luminoso na tela do celular, sorrido sem perceber quando colocou no ouvido após atender.
— Oi.
— Kakashi? – Ela disse do outro lado da linha — Você tá em casa?
— Sim. – Respondeu rápido, esticando as pernas para frente imaginando o porquê dela ter ligado tão de repente — Tô com os cachorros aqui, porque?
— Sua garagem cabe mais de um carro? – Continuou ignorando totalmente a pergunta dele.
— Hã... Sim – E piscou um pouco olhando para o seu carro no canto, na área coberta. Havia espaço para uns dois carros a mais, talvez três se fossem pequenos — Posso saber porque esse repentino interesse? – Perguntou mais enfático, ouvindo-a rir.
— Porque eu to na sua porta e não quero deixar meu carro na rua. Abre o portão?
— Você tá aqui? – Perguntou curvando o corpo para frente, incrédulo.
— Sim – Ela riu confirmando — Vamos, abre o portão!
— Tá, claro! – E se levantou enquanto ela desligava o celular. Levou um momento para ele enfiar a mão no bolso e tirar o controle do portão, clicar no botão ainda totalmente confuso quanto a repentina aparição dela.
Ele sabia que estava fazendo uma cara de idiota quando o carro azul bebê foi entrando pelo portão grande. O terreno de sua casa era enorme, delimitado por muros altos na área nobre e suburbana de Kyoto. A construção de sua casa ocupava um terço do terreno, ficando central à direita, enquanto que todo resto era grama verde, ou quase isso. Havia espaço na frente de sua casa, atrás e principalmente na lateral, sendo uma parte coberta para guardar seu carro e o resto totalmente descampado.
Sakura estacionou bem atrás do seu carro enquanto os cachorros corriam para lá e para cá, alguns latindo, outros só fazendo bagunça sem saber exatamente o que estava acontecendo. Ela tinha sido cuidadosa, prestando atenção nos espelhos enquanto sustentava um sorriso no rosto, claramente direcionado a caos de se ter oito cachorros soltos no quintal. Quando parou, ela olhou pala janela e deu de cara com Buru em pé nas patas traseiras colocando sua cabeça para dentro do carro.
— Oe, Buru! – Kakashi disse segurando-o por trás, puxando para fora — Não se preocupe, são todos idiotas – Garantiu — Pode descer.
— Deus! Que caos! – Ela disse rindo enquanto pegava uma bolsa no banco de trás — Oito cachorros! Falou descendo do carro e dando de cara com mais 6 cachorros que pulavam em suas pernas, cheirando-a por todos os lados.
— Ei, ei! Todo mundo! – Kakashi ia dizendo mais alto, tentando colocar alguma ordem no ambiente — Deixem a Sakura andar! – Pediu quase desistindo — Pakkun, alguma ajuda aqui? – Implorou, recebendo apenas um olhar de tédio de quem não iria fazer absolutamente nada. — Pff..
Sem saber quanto tempo levou fazer com que seus filhos deixassem Sakura andar, Kakashi a viu rir encantada com cada um, passando a mão com cuidado nas cabeças dos mais calmos até tomar mais segurança de que podia coçar o corpo todo de cada um. Ele sentiu que ela gostou mais de Bisuke, porque ficava o tempo agarrando-o e fazendo carinho em sua barriga, enquanto que Pakkun foi o chato que só a cheirou por 2 minutos e saiu entediado, bem a cara dele.
Ela resmungou algo sobre conquista-lo, mas Kakashi não perguntou, porque Buru chegou colocando as patas nela e ficando quase de sua altura, tentando cheira o ouvido feminino no processo. Foi um completo caos. Um caos! Mas eventualmente eles se acostumaram com a presença dela e a maioria simplesmente dispersou, restando apenas Buru deitado atrás dela e Bisuke com a cabeça no colo dele, recebendo carinho das mãos femininas enquanto estavam ali no deque, sentindo a brisa.
— Kakashi, agora eu tenho a mais absoluta certeza que você nunca vai conseguir aquela foto – Disse com humor, balançando suas pernas no deque.
— Olha, não duvide de minhas habilidades como líder do bando! – Retrucou vendo a sobrancelha dela arquear em desafio. — Mas você não veio aqui só pra me dizer isso, não é?
Oh, sim. Porque ela ainda estava com aquela mesma roupa, usando apenas um tênis de diferente. Tinha uma bolsa largada no deque que ela tinha tirado do carro assim que saiu, e ele reconheceu como sendo aquela mala que ela levou para o treino mais cedo. Sakura maneou a cabeça com seus cabelos se movendo suavemente com o balançar.
— Fiquei entediada quando você saiu – Disse dando os ombros — Daí a Ino me ligou e disse que era melhor eu vir atrás de você antes que eu começasse a perturbá-la sobre como eu queria estar do seu lado. – Ela riu — Foram palavras dela, aliás. Eu só falei que estava entediada.
— Ah, claro – Disse ele rindo — Palavras dela. Certo. – E concordou com humor, levando um empurrão leve no ombro — Tenho que agradecer mais uma vez a senhorita Yamanaka. O que seria de mim sem ela?
— De você eu não sei, mas de mim... – Ela suspirou com humor, sem terminar a frase — Eu não to atrapalhando, não é? – perguntou logo em seguida. — Posso ir embora se você quiser.
— Sakura, eu cheguei em casa e fiz exatamente o que estamos fazendo agora: Nada. – E a olhou por um momento — Só coloquei comida pra todos esses esfomeados e fiquei aqui olhando pro tempo. Pode ficar o quanto quiser.
A mulher concordou com um sorriso calmo, comentando em seguida que a casa dele era linda. Eles conversaram mais um pouco e Sakura se permitiu deitar a cabeça no torso de Buru, que a cheirou brevemente antes de simplesmente não se importar. Era fácil conversar com Sakura, principalmente quando ela entrava nesse estado contemplativo, dizendo coisas sobre o tudo e o nada ao mesmo tempo.
Em dado momento, Kakashi a convidou para entrar, vendo que ela começava a se abraçar pelo frio que ia ficando cada vez mais severo. Ela olhou para cada canto da casa, com janelas grandes que iam até o chão e uma arquitetura um tanto moderna. Tinha uma sala com um sofá em L num tom acinzentado, a iluminação amarelada mesclava com um tom mais claro das paredes, e o ambiente era todo sofisticado.
Tudo tinha um aspecto de caro, ao mesmo tempo que era acolhedor. Ele a conduziu pela escada de degraus flutuantes em madeira escura, subindo ao andar de cima diretamente para uma varanda com janela panorâmica. O céu entrava todo no ambiente, contrastando com a luz quente das andarelas nas paredes, que distorciam as cores dos quadros num estilo surrealista. Havia um aparador também com um jarro vazio e revistas de culinária.
Queijos&Vinhos.
Um nome bem esnobe para uma revista, pensou Sakura sem se importar muito.
De todas as portas, Kakashi a conduziu para a última da esquerda. A janela enorme de quina dava vista para os carros parados lá embaixo, na parede frontal havia uma enorme televisão de sabe-se lá quantas polegadas pendurada num móvel sóbrio com algumas prateleiras estreitas. Tudo tinha cara de feito-sob-medida, desde a cama enorme até a mesa de cabeceira. A escrivaninha era organizada o suficiente, com um gabinete na cor prata e um monitor grande demais para ser um monitor.
E o toque de cor, é claro, ficava por conta dos quadros de pop-art pendurados na parede.
Ele lhe deu o controle da TV, tal como ela fez mais cedo com ele e lhe disse para ficar confortável. Era o quarto dele, não o sofá-cama da sala. Kakashi sumiu por uma porta dentro do quarto alegando ir tomar um banho e a deixou ali, sozinha.
Mordeu o lábio inferior dando uma volta completa no próprio eixo. Era o quarto dele. A cama dele com seus travesseiros e cobertor. O notebook dele era grande demais para ser um notebook e ela riu imaginando se ele tinha algum problema de vista. Haviam livros espalhados aqui e ali, e um e-reader solto na escrivaninha. Ficou em dúvida se sentava na cadeira ou na cama, mas acabou optando pela cama, deixando sua bolsa na cadeira.
Ligou a televisão e o canal de notícias se fez presente, mudou para algum outro que estivesse passando algo melhor, mas mesmo assim não conseguiu se concentrar, haviam muitos estímulos naquele quarto, como os três livros coloridos na mesa de cabeceira que tinham o nome engraçado demais para ser algo sério. Icha-icha! Riu imaginando seu conteúdo, mas se conteve, resolvendo que perguntaria depois.
O que ela estava fazendo ali mesmo? Se perguntou enquanto o tempo passava, mas obteve a resposta muito rapidamente quando a porta se abriu e Kakashi saiu com o cabelo meio olhado, meio enxuto, vestido numa samba-canção e camiseta branca.
... Hehehehe.
Ela pôde ouvir a risadinha de Naruto em sua cabeça lhe acusando. Baka-Naruto!
— O que foi? – Perguntou subindo na cama, deitando ao lado dela enquanto a via corar com algo que parecia ter surgido em sua cabeça.
— Lembrei do idiota do meu amigo na festa – Ela disse disfarçando — O Naruto, você lembra? – Kakashi confirmou com a cabeça — Você acredita que ele pegou o microfone e fez uma declaração de amor na frente de todo mundo? – Riu. — Foi hilário. Deixa eu te mostrar – Disse pegando o próprio celular.
Sim! Ela estava tagarela porque, de repente, estava nervosa. Uma coisa era estarem na sua casa, no seu sofá-cama apertado, um ambiente totalmente controlado, outra era estar na cama dele, com as coisas dele e ele ao seu lado!
Catando o celular, Sakura colocou-se a mostrar todos os storys de Ino, fazendo com que Kakashi seguisse a loira no processo. Viram as mais diversas fantasias, as pessoas bebiam e se divertiam, Ino falava com alguém e depois acenou para a câmera, tudo era perfeito e badalado. Bebidas, luzes... Um completo luxo.
E então ela acabou corando novamente quando o story de Kakashi entrando na festa lhe pegou desprevenida. Foi quando ele a olhou discretamente, sacando suas bochechas rosadas, mas não comentou nada e ela deu graças a Deus, mas ela precisava quebrar aquele clima de garotinha tímida.
— Aqui é você – Disse ela pigarreando, emendando num elogio rápido e baixo — Gostoso.
— O quê? – Ele perguntou com humor.
— Eu disse majestoso. – Corrigiu-se sabendo que ele tinha ouvido de qualquer maneira.
— Lembro de você falando bem bonito na festa – Ele começou — Agora estou majestoso? Quantos anos você tem mesmo? — E a olhou esperto, um pouco mais de perto — Ou você disse outra coisa?
Sakura riu dizendo que ele estava com a audição ruim, provavelmente por não ter dormido direito. Ela continuou seu tour pelos storys de Ino, chegando rapidamente na cena em que dançavam. Dessa vez, Sakura não conseguiu pensar em nenhuma gracinha. Ficou assistindo aquela cena enquanto se sentia corar violentamente enquanto sentia os olhos de Kakashi em si, com aquele sorriso de quem está satisfeito.
— Céus... – Ele disse pegando o celular das mãos femininas e colocando na cabeceira da cama do lado dela, tendo que passar por cima da moça brevemente, para então parar com o rosto bem na frente dela e continuar — Você é linda mesmo.
Desviou o olhar revirando os olhos no processo, sentiu o beijo rápido nos lábios de um Kakashi claramente divertido, dizendo que iria pegar as cenas com a senhorita Yamanaka para guardar de recordação. Sakura sentia as bochechas queimarem enquanto o olhava de soslaio.
O homem estava deitado de peito pra cima, uma das mãos enfiadas por baixo da cabeça numa completa cena de relaxamento. Os olhos languidos miravam a TV enquanto Sakura sentia, de repente, a outra mão dele tocar a sua no espaço entre eles na cama.
Primeiro as costas das mãos, depois os dedos buscando os dela lentamente se entrelaçando. Kakashi continuava com sua expressão tranquila olhando para o que quer que estivesse passando na televisão, mas Sakura o olhava com uma espécie de felicidade quase pueril.
Era um gesto tão pequeno, tão bobo e até mesmo infantil, mas de alguma forma significou muito mais diante de tudo, porque ela ainda estava tão vermelha com as lembranças da festa, revivendo os olhos dele tão perto sob as luzes coloridas.
Sua mão livre agarrou a barra de seu short discretamente, precisando segurar em qualquer coisa enquanto sua mente girava com o pensamento que lhe surgia. As palavras engasgadas no limite de sua garganta, prontas para saírem. Ela não sabia se estava tomando uma decisão correta, ou se estava sendo racional, mas sentia que precisava dizer aquelas coisas, que precisava tirar aquele pensamento de si, porque só assim poderia se permitir.
— Kakashi...
— Hm?
— ... Eu gosto de você.
O barulho da TV continuava soando no ambiente como vozes indistintas flutuando sem sentido. A mulher manteve seus olhos verdes atentos ao rosto tranquilo do homem sem saber direito o que estava esperando depois daquela declaração. Ainda segurava forte o tecido grosso e macio de seu short, e a ansiedade estava fazendo sua garganta ficar seca, mas logo tudo foi embora quando viu o sorriso calmo se espalhando pelo rosto masculino ao passo que os dedos entrelaçados se apertavam.
Kakashi virou lentamente para ela sob a luz branca do abajur. Já não estava prestando atenção no que estava acontecendo na televisão, preferido simplesmente apreciar a sensação de ter Sakura bem ali ao seu lado, mesmo sabendo que havia algo na mente dela que a impedia de apreciar aquele momento com ele. Na verdade, no momento em que ela chegou na sua casa ele soube que havia alguma coisa que ela queria, mas ele não sabia dizer o que era até aquele momento.
Virou-se para ela num movimento calmo, se olharam por um momento e ele não pôde deixar de se sentir feliz com as palavras pequenas dela. Eu gosto de você. Nunca se imaginou feliz por algo que fosse tão abstrato, mas ali estava ele segurando a vontade de beijá-la porque queria vê-la, queria tê-la, queria...
— Eu gosto de você – Ela disse novamente olhando para ele diretamente, as palavras saindo mais claramente, mais firmes — E eu sei que você terminou um relacionamento recentemente, e que provavelmente quer relaxar com alguém sem pensar muito sobre... – E seu olhar se perdia em algum lugar, enquanto encolhia os ombros levemente — Sobre relacionamentos... – E deu outra pausa parecendo estar organizando os pensamentos antes de continuar — Talvez você esteja afim de uma aventura com uma camgirl que você conheceu por ai, e tudo bem, mas se for só isso então, por favor, arruma outra pessoa. – Disse de uma vez, voltando a olhar para ele quando sua fala já tinha sido encerrada.
Era o segundo dia. Apenas o segundo dia. Na verdade, não faziam nem 48 horas direito e Sakura já estava falando sobre responsabilidade afetiva, como se já estivesse na mão dele. Ino tinha razão, tudo bem, já se falavam a meses e isso acrescentava um peso absurdo naqueles encontros que não tinham nada de casuais. Tinha que admitir, não eram duas pessoas se conhecendo e sim duas pessoas finalmente saindo juntos.
Talvez por isso ficou tão relutante em sair com ele, em vê-lo. Talvez fosse por isso que não quisesse sair de sua zona de conforto online, onde sabia que podia lidar com o que quer que acontecesse. Mas ali, de frente para o homem que havia acendido alguma coisa nela, Sakura sentia que deveria por as cartas na mesa e deixar claro o que estava acontecendo.
Kakashi a olhava sério, entretanto havia aquela aura gentil na sua expressão. Não fazia ideia do que ele estava pensando, provavelmente a achava uma louca, e ela estava pronta para se levantar e ir embora assim que ele dissesse, assim que ele admitisse.
— Sakura, eu não quero uma aventura. Eu também gosto de você. – Disse sem desviar seu olhar nem por um segundo — Na verdade, desde que eu me descobri apaixonado por você eu não sei pensar em outra coisa.
Ele a viu arregalar os olhos em surpresa, viu suas bochechas assumirem aquela cor avermelhada enquanto segurava o ar nos pulmões. Ele sorriu porque ela era linda, e Kakashi sabia que estava prestes a se esconder como fizera mais cedo em sua própria casa. Tocou o rosto dela com as pontas dos dedos, deslizando suavemente por suas maçãs do rosto até o queixo, só o suficiente para que ela se encolhesse bem ao seu lado.
Não resistiu e a abraçou ali, virando de lado para trazê-la para perto. Era importante definir algumas coisas naquele começo, sim, porque tudo estava se tornando tão mais real do que poderia imaginar um dia. Apoiou o queixo no topo da cabeça dela enquanto Sakura tomava seu tempo diante das palavras dele. Não havia mentido, não precisava fazer.
— E já que estamos sendo sinceros aqui – Ele continuou olhando para o abajur enquanto segurava a garota com suas mãos — Sim, eu sai de um longo relacionamento. Bem longo. – Deu uma risada — Sei que minha ex ainda quer falar comigo sobre algumas coisas, e eu devo essa conversa a ela, mas eu te garanto que não vai passar disso. – Disse resoluto, dando uma pequena pausa — Eu não quero esconder essa situação de você, e talvez pedir que confie em mim seja muito a essa altura, mas vou pedir que me dê o benefício da dúvida então.
Sentiu Sakura concordar com a cabeça brevemente, mostrando que estava ouvindo atentamente. Talvez fosse cedo demais para contar essas coisas, mas ele via a insegurança dela e como isso provavelmente a deixava inquieta, sabia que esconder e omitir só pioraria tudo. Tudo bem, não era algo que ela precisava saber realmente, mas também não era algo que ela não deveria não saber.
A moça saiu de seu casulo mirando seus olhos verdes brilhantes para ele timidamente. Oh, sim. Ela era uma covarde, mas não podia evitar querer fugir sempre que as coisas se tornavam grandes, e aquela declaração era enorme. Ela sorriu pra ele, recebendo o olhar gentil em retorno e sabia que estava tudo bem.
Na verdade, estava tudo ótimo.
Ela colocou as mãos no rosto dele, puxando-o para um beijo tranquilo. Seus lábios se uniram brevemente em uma singela caricia, se separaram por um curtíssimo momento e voltaram a se encontrar novamente, repetindo o processo mais algumas vezes até os sorrisos brotarem, e os beijos eram sorrisos se encontrando de repente.
Kakashi a puxou de novo entre as risadas, beijando o topo da cabeça da moça enquanto ela se aninhava ali em seus braços. Ficaram um momento ali até as provocações baratas voltarem e a conversa fácil simplesmente fluir, e Sakura se sentia mais leve, mais segura e disposta a se dar uma chance. Não tinham combinado nada exatamente, mas havia uma promessa não dita ali e isso era o suficiente.
— Alexa, mude as luzes para o perfil quente e deixe em 20 por cento – Ele disse enquanto Sakura o olhava com a sobrancelha arqueada.
Nada aconteceu por três segundos até que as luzes brancas mudaram de cor e de repente ficavam mais suave, havia muitas sombras e Sakura conseguia ver as coisas e objetos parcialmente, com sua cor comprometida pelo amarelado que as lâmpadas assumiam pelo perfil quente.
— Tudo bem. – Respondeu a assistente de voz depois de um momento.
— Nossa! – Ela disse empolgada — Que chique! – Continuou olhando para todos os lados — Naruto tinha um google assistant, mas não fazia nada disso – Resmungou por fim lembrando que geralmente só contava piada.
— É porque tem que ter tudo em sincronia. É meio chato pra fazer, mas um amigo veio aqui um dia e colocou tudo na Alexa. – Contou lembrando de Genma todo sabichão fazendo o serviço sozinho enquanto ele lia um bom livro, fingindo ajudar com alguma coisa eventualmente — Sou completamente dependente dela.
— As luzes sempre ficavam assim quando eu te via na webcam – Sakura lembrava — Você colocou uma luz de recorte, e uma direta difusa.
— É a do abajur dalí – Apontou para a escrivaninha — Tava em 40 por cento eu acho, e a de recorte eu usei um led.
— Toda essa produção pra mim? – Perguntou presunçosa e ele riu.
— Pois é, tudo pra você ver só meu melhor ângulo. – E piscou para ela com apenas um olho antes de continuar — Ela também é conectada com o sistema de som da cama.
— Fancy! – Disse mostrando a língua — Deixa eu tentar. – E se empertigou — Alexa, desliga a TV e dê play na última música tocada.
O rosto de Kakashi pegou fogo e ele agradeceu a baixa iluminação.
— Tudo bem. Tocando Listen, de Madi Sipes & The Painted Blue.
...
A música começou a soar por todos os autofalantes do quarto e Sakura abriu um sorriso olhando para ele. Não sabia se amaldiçoava Alexa e sua baixa iluminação, ou agradecia por isso. Seu rosto estava vermelho, sim, mas não era nenhuma novidade, porém um Kakashi vermelho...
— Alexa, ligue as luzes. – Sakura disse.
— Alexa não ligue.
— Alexa, ligue.
— Não entendi!
Sakura deu uma risada um pouco alta e Kakashi girou pra cima dela rapidamente. A confusão com os comandos tinha feito a assistente de voz não alterar o perfil de iluminação.
— Você tá vermelho? – Ela perguntou provocativa enquanto ele lhe prendia naquela posição.
— É isso que você quer ver, não é? – E ele conseguia ver os olhos divertidos dela em deleite da situação.
— É a música da nossa dança – Sakura falou mordendo o lábio por um segundo antes de simplesmente tentar dizer — Ale-
Ele a beijou. Rápido, afoito... a beijou. Kakashi se afastou novamente olhando para uma Sakura risonha que ameaçou novamente chamar por Alexa, e assim ele a beijou uma outra vez. Ficaram nessa brincadeira por mais algum tempo, até que Kakashi deu o comando.
— Alexa, pare a música.
— Eiii! Porquê? É a nossa música!
— Tudo bem!
— Você já viu a letra dessa música? Não vai ser a nossa música! – Ele disse porque Listen não era exatamente a melhor música para um casal.
— E o que você sugere? – Ela perguntou cruzando os braços sobre o peito, olhando-o dalí de baixo.
— Que a gente ache outra.
— Kakashi...
— O que?
— Não dá pra achar outra. Já era. É essa a nossa música.
— Não. É a nossa música antes da festa, depois da festa a gente tem que encontrar outra música.
Sakura riu brevemente com a birra do homem. De fato, tinha que concordar que uma música que falava que ela não queria saber seu nome ou telefone e que ele jamais descobriria o gosto dos seus lábios não fazia muito sentido naquele momento, apesar de que antes até combinava.
— Ok. A gente pode achar outra música depois. – Disse concordando. — Mas eu ainda vou ouvir essa música várias vezes e pensar em você inevitavelmente.
— Tudo bem, porque eu também vou fazer isso. – disse deixando o corpo mais confortável sobre Sakura — Eu só não quero que essa seja a música que vai tocar, sei lá, no nosso casamento.
Houve silêncio.
Kakashi pigarreou olhando para a moça, porque tinha dito aquilo completamente no automático. Não tinha pensado, não tinha sequer processado o que ia dizer, só queria uma situação em que a música do casal fizesse a diferença, poderia ser qualquer outra situação, qualquer uma! Mas não, ele tinha que largar logo a do casamento.
— ... Eu falei isso em voz alta? – Perguntou sentindo que precisava falar alguma coisa diante de Sakura se segurando para não fazer alguma coisa!
Confirmando com a cabeça, Sakura queria simplesmente rir e emitir sons fofos, porque meu deus! Que fofo! Todo envergonhado por deixar escapar qualquer coisa constrangedora, como se já não fosse o suficiente ela descobrir que a última música que ele estava ouvindo fosse a de sua dança, agora ele soltava sobre um casamento hipotético.
É claro que ela não levou a sério. Era obviamente uma dessas coisas que as pessoas soltam quando não estão pensando, mas teve impacto? Teve!
— Eu vou pegar leve com você e não vou te zoar – Ela disse com um sorriso, fazendo uma nota para ocultar isso de Ino também.
— Obrigado. – Foi a única coisa que ele conseguiu dizer, abaixando a cabeça em um misto de alivio e vergonha para voltar a levantá-la e ver uma Sakura bocejando. — Vai dormir aqui, não é? – E recebeu um aceno de cabeça como resposta, dizendo que tinha trazido roupa e ele sorriu — Ótimo. Vamos tomar café da manhã juntos.
— Tenho aula logo cedo – Ela informou — Então se você quiser que eu vá pra casa para poder dormir mais, não tem problema.
— Não mesmo. Eu coloco o despertador, tomamos café, você vai pra aula e eu volto a dormir. – E a viu rir com seu cronograma — Que horas você tem que acordar?
— Cinco, infelizmente. – E suspirou já pensando com preguiça.
— Alexa, me acorde às cinco e meia.
— Tudo bem. Despertador ajustado para cinco e meia.
— Se eu chegar atrasada vou dizer a minha professora que se resolva com o Kakashi-sensei da medicina veterinária. – Informou com humor.
— Vou assumir seu atraso com orgulho.
Eles se olharam por um momento e Sakura apenas revirou os olhos contagiada pelo dia, pelo momento e por ele ali, sorrindo para ela. O puxou para um beijo, porque se sentia dessa forma, querendo beijá-lo o tempo todo. Seus lábios se moveram num beijo preguiçoso, lentamente tomando forma, lentamente se transformando.
Não sabia dizer se era a luz ou qualquer outra coisa, mas o clima ia mudando, ficando mais denso à medida que seus corpos tomavam ciência do que estava acontecendo. Afastaram seus lábios por um pequeno momento, suas respirações ofegantes se cruzando entre o curto espaço que havia entre eles. Kakashi mantinha aquele olhar sério sobre ela, como se tentasse descobrir alguma coisa, e ela... Sakura se descobria faiscar.
Talvez ele tenha notado isso em seus olhos verdes à meia luz e por fim descoberto o que tanto procurava enquanto a mantinha sob sua vista, porque não demorou muito mais tempo para beijá-la de novo, fazendo seu corpo esquentar e render-se inevitavelmente ao desejo que lhe assolava a tanto tempo. Deixou que ele conduzisse sua língua naquele beijo quente, entorpecendo gradativamente sua mente.
Escapou de seus lábios correndo as mãos pelo corpo feminino, reconhecendo suas curvas de outrora. Se ergueu abruptamente, se livrando da própria camisa antes de beijá-la novamente, pegando a mão dela para guiar por seu abdômen, fazendo com que ela fizesse seu próprio caminho para encontrar ali o homem com quem tanto sonhou em estar junto.
Não demorou para livrar-se das roupas dela, trilhando um caminho de beijos molhados pelo seu ventre, massageando seu seio com suavidade, arrancando aqueles gemidos tão sôfregos e arrastados que se propagavam pelo seu quarto e que chegavam aos seus ouvidos de maneira limpa. Não eram mais reproduções de suas caixas de som. Era ela ali em toda sua plenitude.
Os mamilos intumescidos recebiam a atenção da língua áspera e quente, que os chupava, mordiscava e lambia, fazendo Sakura arquejar em prazer enfiando sua mão manhosa pelos cabelos prateados, incentivando-o a continuar um pouco mais. Ceder era libertador. Deixar que ele a tocasse daquele jeito era o que sempre quis fazer desde o primeiro dia em que se falaram.
Com seu toque tão penoso no silêncio do quarto, Sakura sentia se perder cada vez mais enquanto ele a beijava a pele exposta de seu pescoço, murmurando coisas sobre como sempre a imaginou daquele jeito, tão vulnerável a suas vontades. E sua voz reverberava por cada pedaço de si naquele timbre grave e envolvente.
A olhou com lasciva quando a moça gemeu com os estímulos que recebia no clitóris, esfregando seu quadril no dele que se movia quase que sozinho. A respiração pesada, a luz baixa, o ruído quase mudo dos lençóis atritando na cama e Kakashi com aquele olhar intenso sobre si. Ela fechou os olhos jogando a cabeça para trás quando o sentiu introduzir seus dedos, gemeu um pouco mais, o puxou para si enquanto ele continuava.
E ele se via incapaz de tirar os olhos dela, porque havia aquele fascínio de tê-la entregue a ele, de sentir seu interior tão quente e úmido enquanto ela se contraia na agonia mais prazerosa. Ele sonhou em tê-la daquela maneira tantas vezes, sentindo sua mão segurando firme no seu braço enquanto a outra o puxava para ela, buscando mais daquele beijo quente e afoito.
Absorveu os gemidos dela, intensificou seus movimentos fazendo-a perder o ritmo. A mulher se esfregava nele pedindo mais, e estava tão quente... Ela gemia seu nome com seus olhos verdes nublados pelo prazer, seu corpo começava a tremer levemente e pelos movimentos das pernas, ele arriscava dizer que ela estava chegando lá.
— Goza pra mim, Sakura – Ele pediu mantendo o olhar atento. Ela estava tão perto, tão nítida. Era tudo tão mais real, tão mais intenso. Ele a sentia de um jeito que jamais pensou sentir, que jamais achou que um dia poderia acontecer. Nem mesmo nos seus sonhos mais reais imaginou que um dia ela explodiria de prazer nas suas mãos com um gemido tão longo, tão gostoso.
A angustia e o prazer se misturando, o corpo dela vibrando em ondas, a sensação de Kakashi em cima de si com aqueles olhos... Sua respiração ofegante sentindo os efeitos das palavras dele como se fossem uma simples senha, desbloqueando os mais intensos desejos. Não era novidade que a voz dele tinha efeitos sobre ela, mas ouvindo-o daquele jeito e com aquela expressão, seu corpo não aguentou.
Mas Kakashi não parou.
Ainda sentia os efeitos do orgasmo quando ele lhe beijou várias vezes, arrastando sua mão grande por seu corpo, chupando seus mamilos inchados, descendo para entre suas pernas, mordendo o interior de suas coxas, fazendo-a sentir sua língua áspera fazer seu caminho até seus lábios. E ela sugou o ar com força quando sentiu seu beijo ali.
Ainda se sentia vibrar, ainda se sentia tão imersa nos momentos anteriores que tudo simplesmente se misturou, e os estímulos que ele lhe provocava com sua língua lhe fazia perder a cabeça.
— Isso, Kakashi... – Ofegou quando o sentiu encontrar o ponto certo, aquele que esquentava todo corpo, que fazia todos os seus músculos contraírem em expectativa. — Continue assim, desse jeito-
Os gemidos lhe escapavam mais altos, mais presentes. Kakashi continuou seus movimentos segurando bem suas pernas, a olhando daquela posição enquanto a moça tocava o próprio corpo, passando suas mãos no torço delgado, estimulando seus mamilos, empurrando seu quadril mais e mais contra o homem que, com avidez, seguia fazendo aquilo que lhe trazia mais prazer.
O sentiu introduzir dois dedos enquanto continuava lhe chupando, seus olhos giraram em prazer e ela teve certeza que apertou um pouco a cabeça dele com as pernas, mas não se importou. Aquilo só crescia cada vez mais em si, se tornando mais presente, mais intenso, mais... Foi quando gozou na boca masculina, se desfazendo em liquido, sentindo-o sorver tudo que ela tinha.
Ela fechou os olhos sentindo-o deitar em cima de si, a beijou com aquele gosto erótico de si mesma envolvido, deixou que ela apreciasse seu próprio orgasmo enquanto lhe beijava carinhosamente o pescoço, enquanto sentia o peso dele sobre si. E ela o envolveu com seus braços, o olhando finalmente daquele jeito satisfeito.
— É nessa hora que você pega a camisinha, Kakashi – Ela disse humorada e ele sorriu, beijando-lhe a testa.
Ele a olhou esperto sem saber direito como dizer o que tinha para dizer, sentindo a mão dela escorrer por seu peito, deslizando pelo abdômen enquanto seu olhar deixava muito claro onde ela queria chegar. Kakashi fechou os olhos quando a pequena mão encontrou seu pau, sorriu quando ela esfregou a glande brevemente, como se estivesse testando alguma coisa.
Seu pau pulsava sobre a mão dela, que o colocava perigosamente em sua vulva, pressionando seu clitóris com a cabeça de seu pau em movimentos circulares. Ele apertou os olhos com força a sentindo ainda tão quente, tão...
— Me diz que você tem camisinha, Kakashi – Ela disse deslizando um pouco mais seu pau pela região de sua vulva, fazendo-o sentir seu liquido viçoso por todo lado. — Porque eu quero muito você aqui dentro.
Kakashi deixou o ar escapar com as palavras dela ditas tão diretas. Estava ali parado, a sentindo brincar com seu pau daquela maneira enquanto reunia toda sua força de vontade para simplesmente não penetrá-la sem proteção adequada. Se amaldiçoava por dentro quando sentiu ela iniciando um movimento bem característico de vai e vem quase de maneira despretensiosa. Deixou escapar um gemido enquanto se tornava cada vez mais difícil dizer a ela o que tinha para dizer.
— Kakashi, qual gaveta? – Ela perguntou um pouco mais urgente e ele a olhou enquanto se xingava internamente. Idiota!
— Eu não tenho camisinha. – Disse de uma vez, olhando-a nos olhos.
Sakura o olhou por um momento antes de rir. Soltou seu pau e ele não sabia dizer se tinha sido pela risada ou porque havia desistido. O olhou novamente como se estivesse tentando se controlar, mas acabou rindo novamente daquele jeito gostoso.
— Porque você não tem camisinha em casa? – Ela perguntou como se fosse tão óbvio, mas ele apenas deu os ombros, pensando que não queria se justificar — Bem, por sorte eu acabei colocando algumas na bolsa.
— Porque você não disse antes, mulher? – Kakashi questionou rapidamente, a fazendo rir um pouco mais. Ele levantou, pegou a bolsa dela e logo Sakura tinha a embalagem entre os dedos, rasgando o papel de uma vez.
— Me promete que vai comprar camisinha. – Ela disse quando ele voltou para cima dela, beijando-a por todos os lados.
— Vou comprar 20 caixas, deixar tudo nessa gaveta aí do seu lado – Ele respondeu com exagero e a mulher riu um pouco mais, puxando-o novamente para mais um longo beijo.
Ele a sentia desenrolar a camisinha no seu pau enquanto mordiscava seu pescoço, arrancando um suspiro ou dois até que ela o posicionava adequadamente, abraçando-o com suas pernas, deixando para ele apenas o trabalho de descer seu quadril de encontro ao dela, ele o fez.
Lentamente.
O ruído grave que escapou de sua boca a fez movimentar o quadril contra o dele, pressionando seu corpo, esfregando-se contra o homem num pedido mudo para que a possuísse como nunca antes, e que homem seria esse se não o fizesse? A estocou profundamente, com força. O barulho de seus corpos se chocando pairando sob as sombras do quarto noturno.
Sakura mordia o lábio tentando segurar os gemidos agudos que insistiam em escapar enquanto que o homem se sentia cada vez mais urgente, com seu pau entrando e saindo de sua pele quente e inchada, escapando seu liquido enquanto sua mente ia ficando cada vez mais nublada, só restando a mulher a baixo de si, tomando tudo para si, dominando seus sentidos com seu cheiro erótico de sexo, com o suor que cobria sua pele macia e quente, com seus suspiros e gemidos, com as mãos que lhe arranhavam as costas segurando firme.
Havia tanta coisa ali se misturando, crescendo e tomando conta de si. Enquanto estava dentro dela não tinha forças para pensar em qualquer outra coisa que não fossem seu sentimento tomando conta de si, a urgência do seu pau latejando, satisfazendo os desejos que tomaram conta de seu mundo nos últimos meses.
Ele a quis tanto, de tantas formas, de tantos jeitos. Em cima de si, sentando avidamente, de quatro com aquela bunda empinada, contra a parede com seus seios esmagados em seu peito, no chuveiro, sobre a mesa da cozinha... A queria em sua cama, do seu lado, desejando seu pau.
Soltou um ruído alto sentindo o corpo retesar. Sakura já havia perdido sua sanidade e estava tão pronta... Ele desceu seu rosto contra a curva do pescoço dela, lhe dando um beijo apressado antes de simplesmente se afundar nela, segurando sua coxa contra seu corpo, parando seus movimentos enquanto seu pau pulsante derramava o gozo inevitável.
Ficaram um momento daquele jeito e ele sentia os espasmos de Sakura fazerem seu corpo ficar um pouco mais mole. Deu uma olhada na moça que ofegava com intensidade, com os olhos fechados e um sorriso pairando em si. Ele sorriu ao vê-la e se permitiu apreciar a mulher que contemplava o seu próprio prazer.
— Tudo bem? – Ele perguntou quando a viu abrir os olhos, encontrando-o no caminho.
— Tudo bem. – Respondeu o puxando para si num beijo pequeno. — Agora eu to meio que só morrendo de sono – Falou revirando os próprios olhos com preguiça.
— E eu morrendo de sede – Confessou percebendo que não deveriam ter dormido mais de 5 horas naquele dia, lembrando que ela ainda tinha aula logo cedo.
— Posso usar o seu banheiro? – Ela perguntou com a mão no rosto dele lhe fazendo uma caricia.
— Pode vender essa casa se quiser, sinta-se em casa. – Brincou vendo-a rir de seu exagero — Vou pegar água, ok?
— Ok.
Se levantaram com preguiça. Kakashi viu Sakura desfilar nua por seu quarto, fazendo seu caminho para o banheiro e sorriu sentindo dificuldade em acreditar em tudo que tinha acontecido nos últimos dias. Usou o banheiro social, pegou água na cozinha trazendo um copo para ela, lembrando dos olhos dela tão assustados naquele dia em que ela foi fazer aquele reconhecimento de terreno, lembrando de como ela o olhou durante a festa, de como ela voava nos céus segurando um tecido... Entrou no quarto e ela estava colocando sua camisa branca, tomou a água oferecida e se deitou tranquila em cima de seu peito.
Kakashi a viu dormir rapidamente ali do seu lado, pensando que finalmente, depois de todos esses meses, finalmente ela acordaria no outro dia do seu lado.
— Alexa, apague as luzes.
.
.
.
E AI PESSOAL, TUDO BEM? AQUI QUEM FALA É LOREYU!
AHAHAHAH
Mais um capítulo, dessa vez enorme! Espero que gostem e continuem comigo, ainda tem muita coisa pra rolar!
Comentários são bem vindos!
