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Nova atualização encontrada

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Colocou a mão na porta com suavidade enquanto encostava sua cabeça ali. Fechou os olhos sentindo sua respiração estabilizar, porque não queria aparecer esbaforida, não queria evidenciar sua hesitação. Mordeu o lábio com força antes de abrir os olhos e encarar a sólida porta a sua frente. Era a casa de Kakashi.

Ela sabia que logo atrás daquela porta, o homem que amava se encontrava em sofrimento. Sabia que assim que cruzasse a porta, encontraria a perda de um alguém importante. Todos sabiam que haveriam riscos no momento em que Sasori voltara, avisando que deveriam se separar, mas Kakashi não recuou e Sakura resolveu que passariam juntos por isso.

É claro que ela imaginava as coisas que poderiam acontecer, mas nunca passou pela cabeça dela que seria algo tão baixo. Ela nunca pensou que ele atacaria daquela forma tão desonesta. Mas o que ela esperava de um criminoso? O que ela esperava do homem inescrupuloso que conviveu durante quase um ano todo?

Podia dizer que aquilo não se parecia nada com algo que Sasori faria, porque ele sempre fora tão teatral, mas ela conhecia mesmo Sasori? Ela podia afirmar coisas como aquilo? Aliás, já havia passado tanto tempo, e o homem era realmente metódico a ponto de atingir um ponto crítico sem precisar fazer grandes alardes. Na verdade, Sasori também gostava de resolver as coisas rapidamente.

Soltou o ar com os olhos semicerrados, sem se importar com Gai a poucos metros de si. Ela tinha que ser forte agora. Precisava estar com Kakashi.

Interfonou.

...

E esperou.

Incerta, hesitante.

Sakura esperou mastigando seu lábio inferior enquanto tentava se controlar. Ela sequer sabia o que tinha acontecido direito, sequer sabia qual deles tinha sido. Passou a mão no rosto num gesto nervoso de pura impaciência. Alguém como ela sofria em antecipação, principalmente quando tinham tantos sentimentos dentro de si girando em um looping infinito, e ela precisava manter o foco. Sakura precisava ter em mente o motivo pelo qual estava ali.

Precisava ser forte.

Foi quando o portão abriu.

Kakashi tinha olhos estreitos por natureza, e apesar de muitas pessoas só enxergarem certo nível de tédio e desinteresse, Sakura sabia que ele podia ser muito expressivo através de apenas um olhar. Diante dela, no entanto, ela o viu envelhecer anos. Seus olhos fundos e expressão quase apática. Ombros caios e estava tão sujo.

Ela não sabia se ele tinha visto a hesitação no olhar dela, não sabia se ele havia visto seus olhos marearem. Entreabriu sua boca sem sequer perceber, e quando se deu conta seu lábio tremeu.

Vê-lo daquela forma partia seu coração.

Jogou seus braços envolta dele, puxando-o para si num gesto quase desesperado. Queria preenchê-lo de alguma forma, queria dizer que ficaria tudo bem, mas não podia. Não conseguia mais. Ela deu tudo o que tinha naquele gesto tentando se forte por ele, tentando não ceder aos seus pensamentos mais danosos, porque tudo aquilo era absolutamente culpa dela.

A moça se forçava a não chorar, se forçava a manter certa compostura, porque aquele não era seu momento, porque não queria transformar aquilo em mais um capítulo de as fraquezas de Sakura. Ela queria ser capaz de fazer por ele o que ele sempre fazia por ela, e libertá-lo da dor. Sakura queria ser, pelo menos por um momento, a força dele.

Mas como poderia fazer isso se já estava no limiar de tudo?

O pior de tudo era senti-lo tão distante. Porque ele sequer fez questão de se mover, apenas estava ali parado no meio de tudo, como se esperasse que ela estivesse satisfeita. Kakashi não teve forças para abraçá-la de volta, e também não queria. Levou suas mãos até o meio do caminho, mas elas penderam novamente para onde permaneciam em estado de inércia.

Ele não sabia como estava se sentido.

A noite tinha sido completamente perdida e Kakashi não fazia ideia de quantas horas tinha perdido entre o choro, a tristeza, a raiva...

Se sentiu uma criança que não sabia lidar com a morte, e pudera, ela sempre lhe pegava nos momentos mais inusitados. Estava fazendo uma cena, um ato solitário e sentindo vergonha de si mesmo por ficar tão transtornado. Precisara se recompor, porque não podia deixar o corpo do cachorro ali, largado no meio do seu jardim, entretanto toda vez que se aproximava de Bisuke e via aquele saco rasgado, aquele bilhete... Kakashi sentia nada menos que fúria.

Salvou incontáveis vidas, e perdeu mais um bocado.

Ser veterinário era lidar com a morte de animais que às vezes não viram um pingo de decência humana. Era assim naquela clínica comunitária no qual passou anos fazendo cirurgias de baixo custo e cuidando de animais com doenças cada vez mais fatais. Bisuke foi seu último atendimento ali. Um filhote sobrevivente de uma chacina, tudo porque a mãe de raça tinha fugido e voltado prenha. O dono estava matando um por um, e o pessoal da ONG achou a tempo de salvar Bisuke.

Foi quando decidiu parar, levando para casa o filhote desgarrado que precisava ser alimentado e cuidado. Deu trabalho, tanto trabalho. Mas tinha conseguido fazer com que ele se sentisse fazendo parte de uma grande família, e ele simplesmente se mostrou um cão bastante energético, do tipo que corria atrás de qualquer coisa e se dava bem com todo mundo.

Kakashi, eu sinto muito.

Piscou quase letárgico ao ouvir a voz chorosa de Sakura lhe dizer tal coisa. Foi aquela voz que lhe tirou do vão de memórias no qual se enfiou enquanto sua garota apenas se mantinha firme naquele abraço unilateral. Se afastou dela apenas para ver os olhos verdes, grandes e preocupados. Tocou a bochecha dela com um dedo, enxugando uma lágrima que caía num gesto quase automático.

— Não chore – Ele disse de repente e sua voz não parecia sua voz.

Kakashi não se sentia como ele mesmo.

O bolo surgiu de maneira abrupta enquanto sentia o dedo úmido pela lágrima da mulher a sua frente. Estava vacilando em tudo que existia dentro de si, deixando que todos os sentimentos se transformassem naquele soluço tresmalhado. O ar partiu de seu peito e diante de Sakura com aquela expressão tão dolorida, Kakashi se permitiu finalmente sentir falta de Bisuke.

Se afundou nos braços dela novamente, tão pequenos e poderosos, tão firmes e dados. O conforto que o invadiu era algo com o qual ele lutava para afastar, não queria conforto, ele queria sentir o peso do que estava acontecendo, mas era inevitável diante da mulher a sua frente.

Os cachorros se agitaram indo para lá e para cá, podiam claramente sentir que havia algo acontecendo enquanto Kakashi assimilava que Bisuke não estaria ali novamente. Que nunca mais sentiria suas patinhas arranharem suas pernas, ou teria um canteiro arruinado pela sua incapacidade de não cavar nas flores que nunca tinham oportunidade de brotar. Ele era o único que realmente se divertia pegando a bola. O pior na hora do banho, e o que caia mais facilmente nas provocações de Ūhei.

Nunca mais veria seu rabo balançando, ou ouviria seu latido fino insistente.

E diante de Sakura, Kakashi se sentia confortável para deixar um único sentimento eclodir, e de alguma forma, a mulher conseguia, com seu abraço firme, fazê-lo encontrar alguma paz perdida no meio de tudo. Não havia duvidas do quão forte ela podia ser, mas Kakashi não imaginava que ela tivesse esse estranho poder de assumir tudo para si, como se derrubasse aquela sua apatia após uma noite de pesadelos e conseguisse sustentar a tristeza que ele possuía.

Ela tinha essa energia poderosa, e só por isso ele conseguia desabar, porque ela estaria ali mantendo-o firme em seus braços, tomando um pouco de sua dor para que ele pudesse se sentir uma virgula melhor.

De repente sentiu duas enormes patas lhe atingirem nas costas. Kakashi recuou com os olhos úmidos em lágrimas, girando o rosto para perceber Buru bem ali, com sua língua babada, claramente preocupado com o que quer que estivesse acontecendo.

Sakura riu brevemente olhando ao redor, percebendo todos aqueles serhumaninhos rodeando-os com seus rabos balançando e expressões confusas. Pakkun girou o rosto daquele jeito típico de cachorro enquanto Buru se atirou na direção dela e Sakura apenas cede, tirando seus braços de Kakashi para abraçar o animal que exigia sua atenção.

Kakashi assistia tudo sentindo-se um pouco fraco. Ela falava, naquela voz chorosa, sobre como também estava com saudade deles, e um por um, todos os seus sete cães apareciam para cumprimentá-la devidamente. Céus... Eles haviam mesmo aprendido a gostar dela, e até Pakkun se aproximou para ser acariciado no topo da cabeça.

Foi Guruko quem apareceu do nada, jogando suas patas nas costas dela e a fazendo desequilibrar. Sakura soltou um ruido característico e Kakashi apenas riu daquilo. A mulher virou naquele momento, rindo com ele por um breve momento antes daquela expressão sumir brevemente e se tornar um choro silencioso.

Aquilo era tão coisa de Bisuke.

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Tinha conseguido fazer Kakashi tomar um banho antes de simplesmente colocá-lo na cama. Ele contara o que houve de maneira muito categórica, e Sakura não tivera nenhuma surpresa. Sasori sempre tinha sido bastante meticuloso, e ainda que não fosse algo que esperasse dele, atacar onde mais dói era algo que o homem sabia bem como fazer.

Com seu namorado dormindo depois de uma longa noite, Sakura saiu do quarto inquieta. Talvez tivesse subestimado Sasori e ele fosse fazer esse jogo de atacar pelas adjacências, o que ampliaria as possibilidades em tantas outras... E perceber isso era determinante, porque agora ela tinha mais noção do que ele estava disposto a fazer.

O jogo que ele queria jogar era tão evidente... Primeiro ele traçou um perfil, seguindo-os por todos os lados, depois simplesmente anunciou seu retorno daquela maneira assustadora, fazendo Sakura questionar sua segurança e a de todos, e agora ele agia daquele modo sorrateiro, quase como se quisesse fazer com que todos a odiassem por consequência.

Sim, porque nada daquilo aconteceria se Kakashi simplesmente tivesse se afastado como Sasori ordenou. E tudo bem que de maneira consciente Sakura soubesse que nada daquilo era culpa sua, mas ainda assim, ver Kakashi desabar daquela maneira era devastador. Sentia como se tivesse falhado de diversas formas, como se não tivesse deixado claro o suficiente sobre o que Sasori era capaz de fazer.

Ela andava descalça pela casa num estado de mania. Não conseguia ficar simplesmente sentada no sofá enquanto lutava com seus próprios pensamentos, indo de lá para cá, olhando os cantos da casa, observando além das janelas sem realmente prestar atenção no que estava acontecendo.

Tinha considerado um exagero todas aquelas medidas de segurança que foram tomadas para si, tinha dado um piti quando lhe informaram sobre as decisões tomadas, e diante de tudo a única coisa que pediu a Kakashi fora que não se arriscasse. Riu de sua ingenuidade enquanto pisava pela grama depois de pular da varanda baixa, sentindo o sol cálido aquecer sua pele e a terra seca arranharem seus pés.

Haviam sete cachorros ali.

Lembrou-se do primeiro dia que entrou naquela casa, quando Buru colocou o focinho dentro de seu carro pela janela num ato genuinamente curioso. Todos estavam meio agitados com sua presença ali, mas de longe o primeiro que se dispôs a fazer amizade consigo fora Bisuke, que estava desesperado por alguém com pique o suficiente para lhe lançar a bola por mais sei lá quantas vezes.

Quantas vezes não viu o olhar pidão do animal através do vidro panorâmico da janela da sala enquanto ela e Kakashi comiam pipoca vendo algum filme. Pensava nos momentos e em como cada um deles tinha sua história, em como Kakashi, de alguma forma, salvou a vida de todos os oito. Imersa em seu lamento, Sakura não percebeu que chegava ao fundo do quintal onde a terra parecia remexida e a grama verde fazia um buraco.

Vendo a pá ali, Sakura soube exatamente o que Kakashi tinha feito durante toda a madrugada. Olhou para o local por um longo momento sentindo o bolo se formar na sua garganta. Pediu desculpas, na sua voz miúda antes de se curvar. Quando seu corpo retornou a posição ereta, Sakura tinha todas aquelas lágrimas nos olhos que rolavam por suas bochechas na direção do chão.

Tentava se controlar, mas quando vinha tudo de uma só vez era tão difícil...

Mordeu o lábio com força tentando acreditar naquilo que era pura verdade. Não era culpa dela. Não tinha nada a ver com aquilo que foi feito à Bisuke, mas mesmo assim, mesmo sabendo disso, o sentimento de culpa lhe invadia inevitavelmente. Tinha sido tão estúpida. Onde estava com a cabeça em permitir que tudo isso acontecesse?

E ainda que Kakashi tivesse tomado suas próprias precauções, ainda assim tudo tinha se mostrado insuficiente porque haviam esquecido que há muito mais ao entorno deles. Ela estava disposta a fazer de Kakashi a sua força, mas quando coisas como aquelas aconteciam, quando ele se tornava uma vitima de algo que obviamente não era para ele, Sakura sentia como se fosse apenas um estorvo.

Passou as mãos no rosto de um jeito desesperado, tentando afastar suas lágrimas em conjunto com todos aqueles pensamentos, porque lentamente sua mente escorregava para um lugar que não lhe ajudaria em nada, e ela sabia que precisava ser forte naquele momento, porque Kakashi estava sofrendo e ela tinha que, de algum modo, ser a força dele.

Ela só não sabia como.

Tinha deixado o carro para fora de casa e Gai havia ficado por lá dando uma desculpa qualquer para não entrar sobre ficar de vigia. No fundo, Sakura sabia que tinha sido uma decisão tomada para dar privacidade a ele, e também porque ele não queria ser antiprofissional, ainda que Sakura não fosse se importar nenhum pouco.

De todo modo, ele conhecia Kakashi mais do que qualquer outro e sua decisão tinha sido baseada nisso, ela sabia. Suspirou tentando focar em qualquer outra coisa, indo à cozinha e pegando alguns biscoitos antes de simplesmente fazer seu caminho até a entrada da casa, escapulindo para fora apenas para ver Gai com o carro preto ligado bem na frente da casa de Kakashi, como se estivesse pronto para uma fuga.

Ela sorriu sem jeito enquanto se aproximava. Puxou sua saia jeans para baixo percebendo que sua camisa branca de botões estava amarrotada, mesmo assim, não se importou nenhum pouco.

— Esqueci de você – Sakura disse encolhendo os ombros num óbvio sinal de desculpas — Mas trouxe biscoitos. – E os ofereceu pensando que já estava quase na hora do almoço.

Tinha perdido o resto das aulas da manhã. Soube do acontecido por meio de Ino, que sequer tentou impedi-la quando Sakura apenas virou-se abruptamente para ir ao encontro do homem, mantendo-se num plano onde não cedesse a todos aqueles pensamentos que a levavam para um único caminho. Ela não podia se deixar cair dessa forma, principalmente quando Kakashi precisava de apoio.

— Você não precisa se preocupar comigo – Gai disse com uma expressão afável, mas não recusou os biscoitos.

Quando estavam ao redor das pessoas, Gai tinha uma expressão dura de quem poderia matar qualquer um com apenas uma caneta. Kakashi havia lhe contado que era o modo-segurança, mas a verdade é que Sakura tinha boas interações com Gai e, de alguma forma, era como se ele cuidasse dela sem interferir. Ele olhou para o biscoito que tinha entre os dedos como se tentasse desvendar seu sabor e então finalmente o colocou na boca, mastigando com indiferença. Modo segurança.

— Como ele está? – Perguntou em seguida e Sakura maneou sua cabeça para um lado e para o outro, demorando sua resposta.

— Mal – Disse por fim — Foi Bisuke que... – E deixou as palavras se perderem enquanto prendia o ar em si mesma, maneando novamente a cabeça enquanto focava nas palavras, na parte prática como Ino dizia — Ele não dormiu durante toda a noite, então eu só o fiz dormir.

— Kakashi é durão, vai ficar bem. – Gai disse numa voz gentil.

Seus grandes olhos verdes miraram o homem a sua frente que dizia aquelas palavras com uma certeza solene. Sakura sabia que ele ficaria bem, que Kakashi era o tipo durão, mas... Céus, ele não deveria sequer estar passando por aquilo. Tudo seria tão mais fácil se ele apenas tivesse ido embora. Bisuke estaria vivo e tudo seguiria tranquilo para ele.

Ela mordeu o lábio inferior percebendo que estava prestes a pular num poço profundo, e ela precisava se agarrar a superfície. Não podia pensar nessas coisas porque quanto mais pensasse, mais tudo faria sentido e mais aquele sentimento tomaria conta de si. Ela não podia ceder, não naquele momento.

Sorriu de maneira nervosa para Gai quando percebeu que estava encarando por tempo demais. Passou as mãos nos cabelos tentando arrumar os fios, içando uma liga de cabelo do bolso para prender as longas madeixas num rabo de cavalo. Levantou o rosto para o sol durante o processo focando no calor suave que tocava a pele de seu rosto e em como aquilo lhe trazia aquela energia poderosa.

Fechou os olhos deixando seus braços caírem ao lado de seu corpo. Sustentou aquela posição esvaziando sua mente, sentindo os cheiros, as sensações, ouvindo os ruídos...

Foi quando abriu os olhos vendo um carro estacionar bem atrás do preto usado por Gai, que parecia pronto para qualquer situação. Era um táxi verde que parava ainda com o motor ligado e, em poucos minutos, uma mulher saia de dentro numa saia-mid plissada em tecido leve, combinando com seus saltos médios em tom caramelo, e sua blusa branca com corte fino.

A mulher carregava uma bolsa a tiracolo e parecia um tanto afobada enquanto dava passos largos, prestando atenção no interior da própria bolsa ao guardar sua carteira novamente.

Sakura a olhou em conjunto com Gai, que pareceu relaxar instantaneamente para depois ficar levemente tenso. A recém chegada passava a mão nos cabelos em um momento seguinte, jogando seus cabelos curtos e castanhos para o lado enquanto dava a Sakura uma visão completa de seu rosto.

Nohara Rin.

Nem precisava que ela se apresentasse, o nome dela estava estampado no jeito que andava e se mexia. Sakura já havia visto fotos dela pelas redes sociais do namorado, já havia descoberto, inclusive, que ela era uma jornalista especializada em crítica gastronômica e que era bastante respeitada no meio dela.

Naquele momento, Sakura apenas não sabia bem o que esperar, mas era esperado que os amigos dele fossem aparecer, não é? Incluindo a ex-namorada e primeiro amor. Alguém que Sakura finalmente tinha o prazer de conhecer, e sua primeira impressão?

Linda.

Rin era absolutamente linda.

Tinha algo nela que fazia com que Sakura se sentisse intimidada, mas ao mesmo tempo ela parecia ter saído da capa de qualquer revista sobre lifestyle, usando uma roupa tão charmosa enquanto andava com aqueles saltos. O corte de cabelo perfeito emoldurava seu rosto alvo, e os olhos castanhos a miravam com certa surpresa.

Ela tinha a idade de Kakashi, não é? Mas ali, Sakura daria vinte e oito.

E sim, Sakura sabia que um dia teria que conhecê-la apropriadamente, afinal Kakashi nunca escondeu a vontade de retomar o relacionamento deles em forma de uma boa amizade, entretanto, naquele momento onde tentava se manter suas forças, Nohara Rin era alguém que definitivamente Sakura não queria ter que lidar naquele momento.

Era tudo que não precisava.

O silêncio era constrangedor, e Rin quase deu meia volta para ir embora.

Onde estava com a cabeça?

Quando soube do que havia acontecido com Kakashi, Rin apenas largou o que estava fazendo na redação da revista Queijos&Vinhos e foi o mais rápido possível para a casa do homem. Estava tão desnorteada com a notícia de que algum dos cães Hatake havia morrido que sequer pensou em outra coisa a não ser que Kakashi estaria devastado e precisaria de apoio.

Ela só tinha esquecido que a namorada dele estaria lá dando o apoio que ele tanto precisava.

Céus...

Hesitou por um momento ao ver os olhos grandes da moça de cabelos rosas, que pareciam inchados num tom avermelhado. Sakura esteve chorando, Rin soube imediatamente, e ela não pode dizer exatamente se a moça já era tão apegada aos cães para sentir o peso daquela forma, ou se Kakashi tinha sido babaca em algum nível.

Desviou o olhar para Gai que se mantinha completamente neutro e Rin percebeu naquele mesmo momento que ele era o segurança particular da moça rica parada bem na sua frente. A situação não podia ficar mais constrangedora. Voltou seus olhos para Sakura e teve certeza que ela era incapaz de iniciar qualquer contato, afinal o receio em seu olhar era evidente.

Pigarreou.

— Você deve ser a Sakura, não é? – Perguntou resolvendo que era um bom jeito de começar tentando usar sua voz tranquila, mas sem saber ao certo como estava soando. — Eu sou Nohara Rin, uma velha amiga de Kakashi – Disse porque não sabia exatamente o que ele tinha dito, apesar de achar que Sakura sabia de muita coisa.

Sakura concordou com a cabeça mostrando estar ouvindo atentamente. A voz de Rin assumia um tom quase didático diante da tentativa de demonstrar alguma gentileza, mas a verdade é que a situação era apenas constrangedora. Olhou para Gai por um momento e o homem estava tão neutro quanto uma parede existindo em qualquer lugar, voltando à Rin, mordeu o lábio de maneira involuntária vendo-a passar a mão pelos cabelos castanhos bem cortados.

— Ok – Ela disse de repente — É, eu só vim aqui para ver como o Kakashi está. – Disse de maneira mais prática, empertigando o corpo — Posso entrar?

Oh, deus...

Viu a sobrancelha de Sakura arquear e percebeu que estava pedindo permissão para entrar na casa do seu ex. Apesar de parecer algo lógico de se fazer, a verdade é que Rin tinha a chave daquela casa a tanto tempo que chegava a ser cômico ter que pedir para entrar, mas como Sakura provavelmente não sabia disso e ela eram que tinha um relacionamento mais íntimo com Kakashi, então só pareceu certo fazê-lo.

Não estava tentando esfregar nada na cara dela, mas quando ela levantava aquela sobrancelha daquele jeito... Rin queria só poder voltar 15 segundos no tempo e apenas mudar aquela frase para um simples estou entrando.

Mas a verdade é que Sakura não teve uma reação por conta do pedido dela, mas sim porque ela estava segurando um chaveiro que balançava em sua mão, e o reconheceu imediatamente porque Kakashi tinha um bastante parecido, e ela reconheceu aquilo na hora porque Kakashi era um viciado em Jaspion.

Era um chaveiro da Anri, a crush do Jaspion.

Bem, não oficialmente, mas Sakura shippava os dois.

— Claro – Sakura disse depois de um momento percebendo que estava agindo como uma retardada. Rin havia se apresentado devidamente enquanto ela apenas ficou observando de maneira quase bizarra. Forçou a si mesma a se recompor enquanto empurrava o portão da casa, dando passagem a mulher mais velha. — Aliás, sim, eu sou Sakura. – Completou enquanto se enfiava para dentro logo após ela — Mas Kaka-

— Ei! Comportem-se! Eu também estou com saudades, mas vocês vão me sujar se pularem em mim – A mulher disse para o bando de cachorros que abanavam seus rabos em torno dela.

Sakura hesitou, ficando parada ao observar Rin interagindo com eles. O jeito que todos a respeitavam era absurdo. Pakkun estava à frente balançando seu pequeno rabo e balançando seus quadris completamente ansioso pelo momento em que Rin se agachou com delicadeza na frente dele, passando a mão na barriga do animal sem muita pressa enquanto dizia coisas como "Você foi um bom menino, né Pakkun? Você nunca dá trabalho!"

Era como se ela fizesse parte de tudo aquilo de uma maneira que Sakura jamais fosse fazer. Os cães esperavam sua vez de falar com ela, todos ansiosos e felizes, abanando seus rabos apenas pela presença de Nohara Rin e até mesmo Ūhei, que não era tão paciente, esperou pela sua vez.

— Eu só consigo imaginar a bagunça que eles estão fazendo aqui. – Rin comentou ainda passando a mão na cabeça de Akino — Kakashi sempre foi muito mole com todos eles. Fazem o que querem porque Kakashi é incapaz de repreendê-los – E deu uma breve risada — Dia de banho? Céus... Se não for eu para pegar Bisuke, então Kakashi ficaria correndo em círculos pela casa – E riu um pouco mais.

Ela realmente conhecia tudo ali. Ela realmente fazia parte de tudo. Foi o que Sakura pensou quando a viu tão imersa com todos os sete ao seu redor, e de alguma forma sorriu, não porque a cena era bonita ou porque havia uma satisfação ali, mas sim porque estava começando a perceber a diferença que anos de namoro faziam à uma relação.

E Rin sequer havia percebido em seus meses de auto piedade que estava morrendo de saudade de todos aqueles arrombadinhos. Cada um com sua personalidade forte e temperamento, e uma vez ali diante deles, Rin percebia que eles fizeram tão parte daquele relacionamento que tinha construído com Kakashi, que a quantidade de botas que foram roídas por eles, os vestidos arruinados pelas unhas e os latidos noturnos que davam enquanto perseguiam um esquilo eram parte de uma rotina que tinha, e que às vezes reclamava, mas amava mais que tudo.

Era um sentimento tão nostálgico, principalmente quando notou a falta de Bisuke. O bebê da matilha, a espoleta que não parava de correr. Bisuke era o cão mais novo e em teoria deveria ser o último a dar adeus. Sorriu de maneira triste, se levantando para ver Sakura sorrindo também daquele jeito melancólico.

— Você está bem? – Perguntou percebendo que ela era apenas uma garota.

— Eu diria que sim – Foi a resposta dela.

Se olharam por um longo momento e pareciam, de alguma forma, estarem fazendo um acordo mudo de empatia.

Rin até se sentia um pouco mais madura quando a via daquela forma, porque ambas eram lados diferentes da mesma moeda. Ambas eram duas mulheres apaixonadas pelo mesmo homem, e enquanto Sakura construía uma relação, Rin ressignificava uma vida.

Vendo Sakura daquele jeito, ela até se sentia mais liberta, como se conhecer Sakura permitisse que ela apenas continuasse sua caminhada de superação com mais leveza, porque estava claro que o amor de sua vida estava em boas mãos.

Encolheu os ombros num gesto amigável enquanto dava as costas, seguindo pelo quintal enorme enquanto os cachorros a acompanhavam. Sakura ficou para trás, ainda na entrada do grande casarão à sombra da varanda junto a Buru, o único que permaneceu ao seu lado, enquanto observava a saia esvoaçante de Rin dançar com o vento enquanto ela fazia seu caminho de maneira tão natural, como se carregasse o sol onde quer que fosse.

Olhou para Buru com um sorriso solidário, agradecendo-o por não deixá-la só. Deu um longo abraço nele porque sentia que precisava recarregar as energias com alguém, e quem melhor que o preguiçoso Buru para isso? Olhou na direção da mulher que se curvava diante da terra remexida antes de simplesmente voltar pelo mesmo caminho, pegando a bola vermelha caída no chão, a favorita de Bisuke.

Entraram na casa finalmente, e Rin parecia fazer parte da decoração, como se tudo ali tivesse sido montado para recebê-la. Era como se aquela casa pertencesse a ela de uma forma que Sakura jamais imaginou sentir. Kakashi não era o dono do lugar, e sim Nohara Rin.

— O Kakashi está dormindo – Disse quando a viu pegar o corrimão das escadas — Ele estava exausto quando cheguei, então só...

Rin sorriu.

— Às vezes ele finge que tá dormindo pra ficar sozinho, principalmente quando tá muito triste, ou muito tenso – E sua voz era tão calma — Só vou dar uma conferida.

A viu dar as costas e começar a subir pelos degraus, e por algum motivo teve que se forçar a acompanhá-la. A verdade é que não a incomodava que Rin fosse tão presente em todo aquele lugar, afinal eram anos de relacionamento e Sakura não esperava que ele fosse mudar tudo só porque haviam terminado, mas estar na presença dela daquela forma a deixava inquieta, como se Rin fosse uma opção muito melhor.

Subiu as escadas logo atrás dela percebendo também que conhecia Kakashi muito pouco. Rin sabia das manias dele, dos costumes, e Sakura só estava começando. Algo dentro dela rezou para que de fato ele estivesse dormindo, porque assim Rin não estaria certa e ela poderia dizer, com toda a certeza, que pelo menos sabia quando ele estava dormindo.

Mas quando a mulher abriu a porta do quarto sem sequer hesitar e cruzou o espaço com passos cuidadosos até a cama, Sakura soube exatamente o que ia acontecer.

— Rin?

Sim.

É claro que ela tinha razão.

Ela se sentou na beirada da cama ordenando Alexa à ligar as luzes em vinte por centro de intensidade. Sakura ficou na soleira da porta, escorada na madeira polida enquanto via a mulher colocar a mão no ombro dele enquanto o homem se sentava parecendo um pouco confuso.

— Não fique tão surpreso de me ver aqui – Ela disse com humor — A Sakura me deixou entrar – E olhou para a garota com um sorriso.

Kakashi parecia confuso demais para fazer qualquer outra pergunta, e Sakura apenas devolveu o sorriso do jeito que conseguia. Sob a meia luz, Sakura pode ver a lateral do rosto da mulher com uma expressão leve enquanto olhava para Kakashi, que parecia um tanto hesitante, incerto de como proceder a partir dali, e naquele momento Sakura soube.

— Eu vou preparar um chá – Disse antes que Rin pudesse continuar, olhando para Kakashi por um brevíssimo instante antes de simplesmente virar-se e para sumir da porta.

E Kakashi não soube o que aquele olhar significava.

Mas ele só conseguia lidar com uma situação por vez.

Rin o olhou por um momento abaixou sua cabeça num ato tímido. Era estranho estar na presença de Kakashi depois de tanto tempo. Eles não se viam pessoalmente desde o termino e, coincidentemente, as saídas em grupo haviam diminuído, fazendo com que eles sequer tivessem que se ver realmente. Ela levantou o rosto novamente, colocando uma mecha de seu cabelo atrás da orelha antes de finalmente olhar para ele.

— É estranho estar aqui depois de tanto tempo – Disse de repente — Esse lugar não mudou nada e você ainda é o mesmo, apesar de estar especialmente péssimo hoje – E sorriu com um humor compartilhado com Kakashi.

— Como você está? – Ele perguntou depois de um momento, sem querer falar sobre si mesmo.

— Eu quem deveria estar perguntando isso – Rin retrucou — Como você está, Kakashi? – Perguntou colocando a mão novamente em seu ombro.

Olhando para o rosto feminino sob a luz amarelada suave, Kakashi enxergava as sombras oclusivas mancharem o tom alvo da pele dela, assim como os locais tingidos pela baixa intensidade a fazia parecer saída de um sonho. Era a primeira vez que ele a via depois de tudo, e definitivamente não era daquela maneira que ele imaginava aquele encontro.

— Estou especialmente péssimo hoje – Ele respondeu por fim, colocando um sorriso de uma diversão quase mórbida no rosto. — Ao contrário de você, que parece radiante.

Radiante, é? – Ela repetiu achando engraçado o jeito como a palavra soava na voz dele — Você sabe, eu estou apenas seguindo em frente – Disse dando os ombros — Quando soube do que aconteceu eu... – E suspirou — Eu só vim pra cá sem pensar muito, e meio que esqueci que seria a primeira vez que nos veríamos depois de tudo.

— É verdade. – Concordou observando o rosto dela com atenção. Ficaram um longo momento em silêncio e Kakashi olhava para ela com um misto de curiosidade e hesitação, tentando desvendar o que era tudo aquilo. — Eu não esperava que você viesse, mas teve um momento, enquanto eu o enterrava, que eu apenas pensei que Bisuke não roeria mais seus sapatos.

— Foi uma das primeiras coisas que eu pensei, e honestamente me senti um pouco triste por isso. Ele era o único que ainda não tinha entendido que eu era quem mandava em tudo aqui.

— Alguém tinha que te desafiar nessa casa.

— Às vezes ele tinha razão, admito. Aquela gravata verde que ele roubou de você e arruinou na lama era horrível. – Ela falou rindo — Ele tinha mais senso de moda que você.

— Céus, estou perdido.

E de repente riram da bobeira que estavam dizendo e Kakashi percebeu que sentia falta da risada de Rin, assim como Rin percebeu que sempre gostou da voz de Kakashi. Quando as vozes se acalmaram e o silêncio se fez presente mais uma vez, Rin mostrou a bola vermelha para o homem carregando no rosto um sorriso meio esperto, meio gentil. Ela se levantou brevemente num movimento que fez sua saia balançar com graça, e então foi ate a mesa dele, colocando-a junto da trilogia Icha Icha.

Ele sorriu de canto quando ela voltou a se sentar.

— Obrigado por vir. – Disse depois de um momento.

Rin sorriu para ele e era diferente de todos os sorrisos antigos. De fato, ela mal pensou antes de simplesmente pegar aquele táxi, e uma vez ali, achou que talvez devesse apenas voltar, mas diante de Kakashi lhe agradecendo por algo tão singelo, ela sentia que as coisas estavam seguindo seu rumo de uma boa forma.

— Não faça essa cara quando me fala algo desse tipo – Ela disse divertida — Onde mais eu poderia estar senão aqui?

— Olha, pelo que eu soube, talvez você estivesse com alguém especial. – Kakashi disse se empertigando, ao passo que um sorriso divertido brotava nos lábios quando a viu arquear uma sobrancelha. — Vai fingir que não sabe, Nohara Rin?

— Quando você fala meu nome desse jeito eu tenho até medo.

— Qual é! Tem um boato correndo aí que você e o Aoba estão com uma amizade especial. – Ele disse de maneira sacana e ela riu jogando a cabeça para trás.

— Quem te disse isso? – Ela perguntou apenas para vê-lo jurar jamais revelar suas fontes — Céus, nós estamos nos vendo mais porque fomos instituídos como os organizadores do casamento, ou seja, ele virou meu motorista, porque ele não entende nada de organização de casamento. – Ela riu ao final — Qua dessa cara, Hatake?

— Nada... – Ele disse dando os ombros com aquela expressão de quem está sacando tudo — É que você parece tão bem, e achei que pudesse ter acontecido algo entre você e o Aoba a essa altura.

— Ai, Kakashi... – E suspirou — Quando você fala assim, parece que uma mulher só pode ser feliz quando tem um homem em sua vida – Disse revirando os olhos.

— Eu não quis sugerir isso. – Ele recuou imediatamente — Mas se tiver algo rolando...

— Cale a boca. – Ela exigiu antes que ele o fizesse revelar tudo o que estava acontecendo entre eles, que não era nada na sua opinião. Nada além daquele beijo, dos flertes, das risadinhas.. – Eu estou bem porque... Sabe, finalmente eu consegui entender tudo o que aconteceu entre a gente, onde fracassamos e... Sei lá, tudo. – Deu os ombros — E agora estou fazendo as pazes com tudo isso em definitivo, e dessa vez quero recomeçar livre de qualquer pendencia. Se for sozinha ou com o Aoba, isso o futuro dirá.

— O que você entendeu?

Eles se olharam de maneira significativa. Kakashi sustentou seu olhar no de Rin enquanto ela parecia hesitante, mas que de alguma maneira corajosa, seguiu em frente com aquela pergunta.

— Kakashi, o Obito sabia que você ia me pedir em casamento?

— ... Hm?

— Não se faça se desentendido. – Ela alertou sem estar irritada com a resposta dele. — Ele era seu melhor amigo, seria natural você ter dito.

— Rin, isso já passou.

— Eu preciso que você responda diretamente, Kakashi – Ela pediu e não parecia chateada ou sequer sombria. Rin parecia estranhamente resolvida — Apesar de que sua expressão já me diz tudo o que preciso saber.

— ... Ele quem me ajudou a comprar sua aliança.

— Oh. – Ela soltou desviando o olhar por um segundo, subindo para os quadros destoantes na parede do quarto enquanto absorvia aquilo de uma forma quase neutra. Quase. Soltou um ruído de desdém antes de passar as mãos pelos cabelos — Bem, agora tudo fica bem mais claro, não acha? Obito se aproveitou da minha fraqueza – Ela fez uma careta — Por isso você voltou comigo, porque você sabia que Obito tinha interferido, mas ao mesmo tempo você já estava magoado demais para retomar os planos para nós dois. – Ela disse com calma, como se fizesse o relato de uma história antiga que havia lido — Você quis me dar outra chance, mas ao mesmo tempo não conseguia fazer isso de verdade.

Kakashi apenas a olhou com uma expressão solene enquanto Rin lhe sorriu com tristeza num gesto de pura aceitação. Então ela tinha descoberto. Ele pensou tentando entender como ela estava se sentindo naquele momento, como seus sentimentos estavam pairando sobre ela até que a mão da mulher o alcançou, tocando sua tez de maneira suave enquanto lhe fazia um carinho.

Podia dizer, mesmo com a baixa iluminação, que os olhos da mulher estavam úmidos, mas Rin não chorava. Ela sustentou aquele sorrido por um longo momento antes de sua mão simplesmente deixá-lo, mas Kakashi foi incapaz de fazê-lo, e por isso segurou a mão dela com a sua, trazendo-a para seu peito enquanto ela assumia uma expressão que, no começo, parecia confusa, mas que logo se revelou tão gentil quanto sua personalidade sempre fora.

— É mais fácil fazer as pazes comigo mesma sabendo que, não importa o que eu fizesse, você jamais me deixaria entrar novamente, porque eu te feri de uma forma que você não podia simplesmente superar e esquecer. E tudo bem, sabe? – Ela deu os ombros — Tudo bem.

— Mesmo assim, eu ainda acho que todos esses anos valeram a pena. – Ele disse depois de um momento — Mesmo depois de tudo, você ainda é uma ótima companhia para a vida.

— Ah, mas é claro – Ela riu — Foram anos incríveis Kakashi, e hoje, vendo você aqui e tendo esse tipo de conversa, eu só consigo ser grata. Obrigada pelos anos incríveis.

— Eu que agradeço, por todos os anos maravilhosos que tivemos.

Ele beijou a mão dela antes de soltá-la. As bochechas de Rin tinham um tom avermelhado e ela mal conseguia sustentar seu olhar no dele, tão tímida, como se tivesse voltado a ter apenas 15 anos. Sim... Ela estava exatamente igual àquele dia, quando se confessou para ele. Atrás do prédio principal da escola, enquanto ele tentava lembrar se havia ajustado o gravador da TV para o horário de Jaspion, Rin apareceu em sua saia preta plissada do uniforme de verão, tão vermelha quanto uma pimenta.

Kakashi riu brevemente, e dessa vez foi ele quem não conseguiu manter seus olhos nela, desviando enquanto as memórias lhe atingiam. Por favor, saia comigo! Ela disse daquele jeito atrapalhado, com seu cabelo flutuando no vento que passou e ele não gostava tanto assim dela, nunca notou ela de verdade, mas naquele dia ela estava especialmente bonita, e o jeito que o lábio dela tremeu lhe fez perceber que ela havia reunido muita coragem para dizer aquilo em voz alta.

Vocês combinam! Foram as palavras de Asuma horas antes, quase como se estivesse profetizando o que iria acontecer. Combinamos, é?

...

Sábado, posso te levar ao cinema então?

...

— Eu senti muito a sua falta. – Ela disse de repente — Sempre me perguntei se poderíamos conversar assim, tranquilamente, e confesso que estou fazendo um esforço para simplesmente não me deitar do seu lado como antigamente. – Riu divertida.

— Também senti a sua falta, querida. – Respondeu com um sorriso suave nos lábios — Aliás, obrigado por vir. Me sinto um pouco melhor, como uma compensação.

Foi quando Rin perguntou, definitivamente, o que havia acontecido com Bisuke, porque ele era o mais novo e super saudável cachorro da matilha, não fazia sentido ele ir embora tão cedo.

Kakashi considerou sua resposta. Não podia revelar muita coisa, mas era Rin ali, sua melhor amiga. Se não podia falar com ela, então não podia falar com mais ninguém. Então ele contou, sem muitos detalhes, que Sakura tinha um ex stalker que não estava muito satisfeito com o novo relacionamento dela.

— Céus... – Rin soltou com surpresa, relacionando imediatamente com a fala de Shizune no outro dia, sobre o ex abusivo, mas não chegou a perguntar porque sabia como Kakashi era discreto com esse tipo de assunto — Nem imagino pelo que vocês estão passando – Ela disse com sinceridade — Mas me admira que você não tenha tomado precauções, porque eu vi que você instalou a cerca elétrica, mas tinha um passarinho pousada nela quando cheguei – Ralhou com um olhar severo.

— O gato do vizinho...

— Kakashi, diga ao vizinho que tome conta do próprio animal. Você não pode simplesmente se preocupar com os seus e os dele. Diga a ele que vai ligar a cerca esta noite. – Ela disse imperativa — E contrate um segurança, como ela.

— Que exagero, Rin.

— Não me venha com isso. – Ela apontou um dedo para ele — A primeira vítima foi o Bisuke, a próxima pode ser você. – Ela reclamou com um semblante irritado.

— Tinha esquecido como você é mandona – Ele resmungou deixando o corpo tombar na cama novamente.

— Ah, não! Levanta! – Rin puxou o cobertor dele, dizendo à Alexa que ligasse todas as luzes — Chega dessa letargia! Sakura deve estar lá embaixo se perguntando o que diabos estamos fazendo aqui a tanto tempo. Vamos descer.

— Oh! É verdade – Ele falou num estalo repentino — Ela já devia ter voltado.

— Acho que ela resolveu nos dar privacidade. – Sugeriu enquanto Kakashi assumia uma expressão um tanto mais distante, dando os ombros ao final como se aquilo fosse irrelevante de alguma forma.

Será que ficou com ciúmes? Ele pensou confuso tentando entender os motivos de Sakura enquanto olhava para Rin de repente. Sakura não fazia o tipo ciumenta, sequer o tipo dramática apesar das circunstancias dos traumas vividos por ela. Ele cruzou os braços olhando para Rin, percebendo que elas tinham finalmente se conhecido, e que isso tinha acontecido sem que ele pudesse mediar.

Talvez um desentendimento?

Não parecia ser o caso uma vez que Rin tinha aquela expressão tranquila quando entrou no quarto, e Rin era uma péssima atriz, jamais fingiria.

Mas aquele olhar que Sakura lançou antes de sair do quarto o fazia pensar. Não parecia um semblante tranquilo, não parecia exatamente em paz. Havia algo ali, ele soube na hora, mesmo assim não conseguiu desvendar. Tristeza?

— Pare de fazer caretas enquanto olha pra mim – Rin resmungou de repente, fazendo-o acordar de seu estado — Porque ao invés de tentar imaginar o que houve, você simplesmente não desce e pergunta? – Questionou dando os ombros.

É, ele realmente deveria simplesmente ir até ela e perguntar, mas ele não se sentia confortável de fazer algo assim quando não sabia do que se tratava.

— Talvez ela queria ficar sozinha – Ele disse depois de um momento — Você sabe se ela estava com o Gai? – Perguntou preocupado, porque ela não podia andar sozinha por aí com o Sasori mirando-os.

— Sim. Ele estava no modo-segurança quando eu cheguei – Rin informou de maneira despreocupada — Eles estavam conversando e, pensando bem agora, ela não parecia muito bem. – Rin disse lembrando do olhar de choro da garota e da expressão melancólica que tomava conta dela durante seu breve contato — O quão íntima dos meninos ela ficou?

Kakashi coçou a cabeça num gesto inquieto.

— Ela ficou bem próxima deles muito rápido. Buru a adora, e com certeza ela era a favorita de Bisuke. – Falou tentando se manter num plano em que falar de Bisuke não o afetasse tanto. — O que vocês conversaram? – Ele perguntou de um jeito protetor.

Rin revirou os olhos com certo exagero.

— Kakashi, me poupe. – Disse mostrando sua irritação. — Você acha mesmo que eu viria aqui pra ofender sua namorada? Tch.

— Rin, eu não estou sugerindo que-

— Está sim. – Ela cortou rapidamente assumindo uma expressão irritada — E se você quer mesmo saber, você é um idiota. Ela estava toda triste e solitária numa casa que nem dela é, e imagine que um dos favoritos dela acabou de morrer por conta de um ex stalker que não consegue superar o término, e que você está sofrendo por culpa de uma situação que ela trouxe pra sua vida – Rin disse de maneira severa — Enquanto isso você estava vivendo a própria miséria trancado em seu quarto, fingindo estar dormindo para não ser perturbado.

Rin viu Kakashi hesitar diante da sua declaração raivosa. A verdade é que a mulher não pretendia ter dado um sermão daquela maneira, e sequer planejou externar aqueles pensamentos, mas quando Kakashi sugeria algo como aquilo, Rin queria apenas fazê-lo entender o quão babaca ele podia ser às vezes, mesmo que fosse algo involuntário.

Não precisava ser nenhum gênio para saber que ela estava sofrendo com tudo, afinal os olhos inchados revelavam o choro mudo que a invadiu em qualquer momento do dia. Ela estava ali para confortar Kakashi, mas não significava que não precisava ser confortada.

— Sendo honesta, Kakashi – Rin continuou de um jeito mais brando ao ver a expressão dele — Eu quase voltei quando a vi aqui, achei que seria um estorvo, mas ela estava com uma cara péssima e eu sei como você fica quando está passando por esse tipo de situação. – Revelou com um suspiro — Eu sei que você está triste, e sei que é difícil lidar com esse sentimento, mas afastar Sakura não vai resolver.

— Rin, eu... Eu só...

Ele não estava tentando afastar Sakura, nunca foi isso. A verdade é que ele sequer sabia direito o porquê de ter se isolado. Parte de si queria justificar isso apenas dizendo que queria evitar que ela se sentisse culpada, mas ao mesmo tempo ele sabia que não era só isso. Ele sabia que haviam outras coisas girando entorno dessa decisão não pensada.

O misto de sentimentos que o invadiram durante a madrugada foi o necessário para que no final das contas um vazio tomasse conta de si, mas em momento algum a culpou. Sasori era o causador de todo aquele episódio sem sentido, fazendo algo inescrupuloso como se, de alguma forma, Kakashi fosse terminar com Sakura por conta disso, mas a verdade é que ele só queria se agarrar com ela numa cama confortável até que ela conseguisse melhorar seu humor, porque se Sakura tinha um poder com certeza era esse.

Então porquê não o fez?

Passou a mão no cabelo olhando para os lados como se procurasse algo que não estava encontrando. Seu cachorro morreu. Sasori era um filho da puta. Tinha magoado sua namorada sem querer. Céus... Sentou-se por fim, colocando as mãos no rosto com um ruido de frustração alto e amplo. Se havia um dia que ele gostaria de apagar da história da sua vida, esse era o dia.

Quer dizer...

Pelo menos Rin estava ali.

E eles tinham feito as pazes finalmente. Tinham encontrado um ponto de equilíbrio e ela parecia realmente bem, seja lá o que tinha feito durante todo esse tempo, e era a única coisa boa que tinha feito naquele dia. Saber que estavam bem a ponto de conversarem sobre qualquer coisa o fez realmente feliz, e só por isso, só por causa disso que Kakashi pode tirar as mãos do rosto e olhar para a mulher de cabelos castanhos, com seus olhos amendoados e sinceros.

— Rin, eu sou um idiota, eu não sei mais o que fazer... Bisuke morreu, e eu...

Céus!

O abraçou rapidamente tentando segurar o sorriso nos lábios, que aos olhos de qualquer pessoa poderia soar errado, mas que... Ver Kakashi com aquele olhar perdido de garoto, como se tudo estivesse acontecendo de um jeito que ele não pudesse lidar era como voltar no tempo. Ela o abraçou forte tentando lhe dar um pouco de energia boa enquanto ele ameaçava chorar.

— Tá tudo bem, Kakashi – Ela disse com sua voz gentil, passando a mão nos cabelos prateados tão macios — É só um dia ruim e vai passar. – Garantiu enquanto o acolhia em seus braços com todos os bons sentimentos que tinha — Dias ruins sempre passam – Disse porque era tão verdade.

A alguns meses, Rin estava completamente devastada pelo término. Tudo ia de mal a pior em sua vida, quase como se uma maré de azar estivesse assolando-a de maneira perversa, mas lentamente tudo passou, a um ponto que ela podia entender a si mesma e transformar o amor tão grande que tinha por Kakashi num sentimento gentil outra vez, sem posse, sem cobranças.

Mesmo sabendo que tudo poderia ter sido diferente em vários aspectos, sua vida seguiu aquele rumo e tudo bem. O tempo não podia ser refeito, mas tudo o que seria a partir daquele momento dependeria exclusivamente dela, e ela não queria ser uma mulher amargurada, não queria que sua vida fosse definida por um relacionamento que não deu certo.

Ela era Nohara Rin, a jornalista mais brilhante de Kyoto. Uma amiga fiel, uma resmungona de primeira. Ela era chata para comida e bebia como um caminhoneiro. Adorava filmes de romance, chorava em comerciais de natal e era apaixonada pelo melhor amigo de infância.

Obito, Kakashi... Eles nunca a definiram, nem as ações deles poderiam fazê-lo. E daí se Obito a manipulou? E daí se Kakashi não a amava do mesmo jeito? O que ela podia fazer naquele ponto era apenas aceitar e seguir em frente.

Mas era difícil deixar Kakashi sabendo quem ele era, todos os pantinhos, todas as manias, os defeitos... O jeito metódico com que ele arrumava o próprio guarda roupas, e a frescura com televisores maiores do que as paredes que tinha... Kakashi era um homem sensível também, cheio desses sentimentos que ele guardava demais, que não conseguia colocar para fora, principalmente quando se tratava de tristeza e decepção.

Tudo isso ele tendia a esconder, e foi assim tantas vezes. Rin tinha sempre que forçá-lo a pôr tudo para fora, porque sabia que não podia permitir que esses sentimentos se acumulassem nele, porque Kakashi só conseguia ser Kakashi quando estava calmo e tranquilo, porque era queria cuidar dele para sempre e garantir aquele sorriso incrível que o homem tinha.

Talvez o seu maior erro fosse achar que não havia ninguém melhor que ela para estar ao lado dele, afinal eles se conheciam desde sempre, e Kakashi era o seu grande amor. Ela nunca acreditou que alguém fosse boa o suficiente para ele, principalmente uma criança que mal conhecia o mundo. Sakura não parecia ser a pessoa ideal para o seu Kakashi.

Depois do sermão de Shizune e da revelação daquele dia, Rin passou por um dos piores momentos daquela jornada de superação. Teve que lavar sua alma e ser ainda mais forte para simplesmente superar isso sem fazer desse episódio algo grande. Não ligou para Obito, não havia mais o que dizer, também não tentou procurar Kakashi, ele não tinha culpa. Era uma história antiga que já havia passado e por isso Rin resolveu que daria tempo ao tempo, rejeitando os telefonemas de Obito e seguindo em frente.

Estranhamente, quando resolveu simplesmente que era a hora da virada, todo um cenário se abriu para ela, mas ainda assim Sakura não parecia ser ideal para Kakashi, não parecia ser uma alternativa boa, pelo menos não até conhecê-la.

Ficar frente-a-frente com a mulher tinha sido uma experiência que não esperava ter tão cedo, e acabou que um evento trágico a trouxe naquele lugar quase como se o destino soubesse exatamente do que precisava. Porque, sim, Rin precisava ver Sakura e seus olhos inchados, precisava ver Sakura e seu sorriso contido numa gentileza triste, precisava ver o quão sensível era a aponto de deixá-los só para ter uma conversa que definitivamente precisavam ter.

Sakura era como Shizune descrevera.

Muito honesta.

Era só olhar para ela e descobrir tudo que estava acontecendo por trás daqueles olhos verdes, e não tinha feito nada além de se apaixonar por Kakashi.

E ela não poderia ter escolhido melhor.

Tinha sido o momento ideal para conhecê-la, porque Rin estava finalmente encontrando alguma paz em si mesma, e percebendo que ninguém era tão boa quanto ela, mas que ao mesmo tempo existiam milhares de pessoas melhores que ela.

Fazia algum sentido? Em sua mente, fazia total sentido.

Porque Rin era única na vida de Kakashi, mas isso não significava que era a pessoa certa. Porque eles tiveram anos incríveis, mas que não tinham que ser os melhores. Porque...

— Kakashi, vá atrás dela – Rin disse de repente, escorregando suas mãos pelo rosto dele para segurá-lo de maneira gentil, olhando-o de maneira séria enquanto o via com seu rosto de menino tão desolado. Rin apenas sorria — Vá atrás dela, meu bem.

Porque o amor da sua vida estava em boas mãos, ainda que não fossem as suas.

... Rin... Eu...

— Porque você está tão hesitante? Apenas vá, Kakashi. – Ela disse acariciando-o — Ela precisa de você e você precisa dela. Não se preocupe comigo, eu tenho a chave e sei o caminho casa.

— Obrigado. – Ele falou depois de um momento — Rin, obrigado por tudo.

— Apenas me prometa que vai me apresentá-la decentemente. – Exigiu com um sorriso enquanto ele apenas avançou contra ela, depositando um beijo em sua bochecha sem nenhum aviso prévio.

— Você vai amá-la. – Falou com aquele sorriso que Rin adorava.

O sorrio veio sem que ela percebesse. De alguma forma, ainda que o dia fosse cinza, Rin sentia seu coração aliviado como a muito tempo. Estar com Kakashi daquela forma tão pessoal e ainda assim conseguir manter uma conversa saudável com ele era tudo que ela desejou nos últimos dias. Descendo as escadas e fazendo seu caminho em direção à saída, Rin sentia orgulho de si mesma.

Sua última crise envolvera álcool e Obito. Não chegou a procurá-lo, mas o choque foi tão grande ao descobrir que ele sempre soube... E parte dela queria simplesmente ir tomar satisfação, mas o que isso resolveria? No final das contas, a melhor coisa que ela fez foi simplesmente deixar para lá e seguir sua vida superando toda essa história.

E que história.

No dia seguinte à revelação de Obito, Rin estabelecera algumas metas para sua vida, o que incluía recuperar seu relacionamento com Kakashi num nível de amizade, deixar Obito em seu passado, ter mais confiança no volante e, finalmente, descobrir quem era sem esses dois.

Na saída, antes mesmo de enfiar a chave na fechadura, Rin percebeu que alguém estava esperando. Deu um sorriso ainda mais largo enquanto pegava Pakkun no colo sem se importar com os pelos em sua roupa, tocou o nariz dele com o próprio e recebeu uma lambida em retorno. Pakkun tinha sido um presente dela à Kakashi, dado no dia do aniversário de morte de Hatake Sakumo. Ela o líder da matilha, o único cão que havia sido comprado, um miudinho no meio de gigantes.

O mimadinho da mamãe.

— Eu também estava com saudade de você, meu amor! Você parece até mais gordinho! Kakashi tá te alimentando bem? E a Sakura? Você gosta dela? Hm? – Perguntava aleatoriamente com sua voz de explosão de fofura — Pegue leve com ela, sei que você pode ser rabugento com as pessoas – Riu enquanto ele a lambia — Oh céus! Minha maquiagem! Eu sei, eu sei! Prometo que não vou sumir, meu bem! Vou voltar mais vezes para ver você, tá?

Woof!

Rin se virou para ver Shiba e Urushi parados atrás de si, com seus rabos balançando como se esperassem sua vez ansiosos. Ela sorriu, dando um último beijo em Pakkun antes de colocá-lo no chão para finalmente dar atenção aos outros.

— Hai, hai! Eu estou aqui! Não precisam ter pressa! Eu já disse, vou voltar mais vezes.

Disse confiante, como uma promessa que definitivamente pretendia seguir, antes de simplesmente ir embora.

.

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Chá era uma coisa relativamente fácil de ser feita. Sakura particularmente não gostava muito, mas tomava às vezes, e por isso sabia o tempo certo de infusão de algumas ervas. Coisa simples. Preparar um chá era basicamente o tempo da água esquentar o suficiente e o tempo de infusão. Nada de deixar água ferver ou de colocar a erva dentro de esquecer.

Fazer chá era uma arte um pouco chata, mas nunca era demorada.

Ela sabia que havia um lindo conjunto de chá no armário de louças de Kakashi, o pegou porque achou que a ocasião pedia, organizou tudo numa bandeja e subiu as escadas sem pressa, porque no fundo sequer queria voltar para lá. Se tivesse sugerido um café, talvez tivesse demorado um pouco mais, afinal café tinha outro tipo de preparo.

Mas não, ela sugeriu o chá.

E quando retornou ao andar de cima, mesmo antes de chegar na soleira da porta do quarto, Sakura ouviu um pouco da conversa. Também senti sua falta. Naquele instante, ela apenas decidiu que não interromperia. Voltou para o andar de baixo e deixou a bandeja sob o balcão, e no curto período de tempo em que levou para descer das escadas, Sakura percebeu que não queria ficar ali.

Kakashi ficava muito melhor com Rin, que o conhecia mais do que qualquer outra pessoa.

Não estava com ciúmes, não era isso, era apenas que Rin parecia ter sido feita para Kakashi. Com os olhos, a risada, o jeito que falava, as coisas que dizia... A mulher parecia ser dona do lugar, e de alguma forma, Sakura sentia que era exatamente aquilo. Rin era dona de tudo ali. E demorou tanto tempo para perceber que ainda havia muito de Rin em Kakashi.

É claro que ela também não tinha sido ingênua a ponto de achar que ele, de alguma forma, resetaria sua vida para apagá-la por completo, mas perceber o quanto dela ainda havia ali era estranho aos olhos de Sakura, principalmente quando ela poderia dar a ele muito mais do que Sakura tinha para oferecer.

Rin podia dar-lhe segurança, conforto, calma e paz. Tudo que ele queria, Rin era capaz de dar e era muito óbvio que ela o amava, pelo jeito que ela o olhou assim que o viu, pela maneira com que mexia no cabelo, e até mesmo seu olhar breve de preocupação.

Por sua causa, Bisuke havia morrido. Por sua causa, Kakashi estava sofrendo com algo que era totalmente evitável se não estivessem juntos. Se ele tivesse ido embora naquele momento, então nada disso teria acontecido. Aliás, se ela não tivesse aceitado aquele show privado, talvez Kakashi e Rin ainda estivessem juntos e Sakura estaria lidando com tudo sem se preocupar com os efeitos colaterais, porque todos os seus amigos eram intocáveis.

Mas se as coisas tivessem acontecido assim, Sakura teria perdido aquelas conversas, teria perdido aquela voz. Sakura jamais teria tido aquela dança, ou o veria lecionando escondida sob um chapéu. Ela não sentiria seu coração bater tão forte a ponto de parecer que iria sair de seu peito ao beijá-lo sob o céu de uma manhã nascente, nem se deixaria levar por um simples entrelaçar de dedos.

E Sakura queria exatamente tudo isso. Na verdade, ela queria muito mais. Sakura queria tudo o que Kakashi podia lhe dar, queria ser capaz de dar tudo o que ele precisava e também queria conhecê-lo cada vez mais. Ela queria...

Saiu até a varanda pela porta da cozinha, procurando Buru porque sentiu que não seria bom ficar sozinha, então se deitou com ele naquele chão de madeira buscando o conforto que o cão enorme podia lhe dar. Chorou o quanto pôde sem dizer uma palavra, afinal Buru não fazia perguntas, e ela não precisava alguém lhe dizendo as coisas que ela já sabia, naquele momento ela só queria que alguém a abraçasse e a deixasse chorar sem querer resolver seus problemas.

Em algum momento, a dor que estava causando em Kakashi apenas por querer estar com ele a fez sentir-se egoísta, afinal, o tudo que Sakura estava disposta a dar naquele relacionamento incluía uma bagagem tão pensada e desnecessária, e tudo bem que Kakashi quisesse ficar consigo, tudo bem que ele quisesse enfrentar aquilo ao seu lado, mas agia daquela forma tão baixa, Sakura se questionava se seu tudo não passava de puro egoísmo.

Ela estava tão cansada de Sasori, estava tão cansada de ter responsabilidade pelas coisas que ele fazia. Ficou naquela posição, abraçando o cachorro enorme que lhe dava o conforto necessário para mergulhar naqueles sentimentos autodepreciativos, questionando suas decisões com relação ao homem enquanto ele estava lá, no quarto com Rin, que obviamente podia lhe oferecer tudo que Sakura não podia naquele momento.

Odiava se sentir assim e em qualquer outro momento teria ido embora para qualquer outro lugar, mas estranhamente, sentiu-se incapaz de deixar aquela casa, porque no final das contas ali era exatamente onde queria estar.

Porque era com Kakashi que ela queria estar.

Deixou o ar escapar com um ruído enquanto passava a mão nos olhos com Buru lhe cheirando os cabelos. Ela riu com a sensação do focinho dele tão próximo e virou a cabeça para vê-lo.

— Eu sei, eu sei! – Ela disse com um bico — Eu sou uma bagunça!

Resmungou sentindo que a única coisa que queria de fato fazer era ficar com Kakashi, mesmo com o caos da sua vida, mesmo trazendo essa enorme bagagem, mesmo tendo sua parcela de culpa na morte de Bisuke, mesmo que ele ficasse melhor sem ela.

Afinal era só o começo, não é? E ela tinha muito mais a oferecer.

— É a minha bagunça.

Sakura olhou para o outro lado vendo o homem se aproximar com seus passos calmos na direção dela. Seus olhos se encontraram e ele sorriu para a mulher enquanto se abaixava, ficando de cócoras na frente dela. Ficaram assim por um breve momento até que Buru se espreguiçou com um ruido fofo de cachorro grande. Sakura sorriu.

— Oi.

— Oi. – Ele respondeu sem se mexer, olhando-a daquele jeito que sempre a deixava perplexa com a capacidade imensa que ele tinha de amá-la, de fazê-la sentir toda sua intensidade. — Posso deitar com você? ´

Ela hesitou por um momento antes de rolar para o lado, dando espaço no torso de Buru para o outro fazer de travesseiro. Kakashi riu ao se apoiar, olhando para ela com a mesma expressão, mantendo aquela energia.

— Onde está Rin? – Sakura perguntou vendo os olhos avermelhados do homem.

— Ela já foi – Kakashi informou com sua voz suave e tranquila — E me fez prometer que iria te apresentar a ela devidamente.

— Ah! – Deixou escapar com uma risada contida — É verdade. – E sua voz saiu sem nenhum entusiasmo. — Ela parece te conhecer muito bem.

— Nos conhecemos desde sempre então... – Ele deu os ombros — Você está com ciúmes? – Perguntou diretamente, sem nenhuma presunção ou brincadeira, sem nenhum problema em fazer tal pergunta e viu Sakura olhá-lo com certo nível de divertimento.

— Você bem que gostaria – Ela respondeu divertida — Mas não, não é ciúmes. – Ela riu com a constatação de maneira contida, ficando um tempo em silêncio enquanto mordia seu lábio inferior, considerando o que dizer a seguir antes de só perguntá-lo também — Em algum momento você me culpa pelo que aconteceu com Bisuke?

Então era isso... Ele pensou lembrando do olhar dela antes de sair do quarto, percebendo que deveria ter ido atrás dela naquele exato momento.

— É claro que não – Respondeu mirando os lagos verdes de seus olhos — Eu senti raiva, muita raiva de Sasori, de mim, do mundo... E então eu só fiquei mal depois, mas em momento algum eu te culpei, porque, meu bem, você não tem culpa de nada. – Ele disse com toda sua calma, olhando para ela, tentando fazê-la entender.

— Então porque você fingiu estar dormindo?

— Ah... – Jogou a cabeça para o lado, soltando o ar ao perceber que seus motivos eram tão estúpidos — Eu gostaria de ter um bom motivo para isso, mas agora eu meio que percebo que foi porque eu não queria que você me visse daquele jeito. – Ele riu nervoso — Me debulhando em lágrimas pelo meu cachorro. – Ele deu uma breve pausa antes de continuar — Eu quero ser forte pra você.

Se olharam por um longo momento, e havia um certo nível de vergonha nas palavras que ele deixava escapar, porque era um motivo tão idiota, mas Sakura era tão poderosa e enfrentava tudo à sua própria maneira, se levantando quantas vezes fosse necessário, enquanto ele estava ali se deixando levar pelo vão do luto.

Ele queria que ela pudesse confiar nele como alguém que aguentaria o tranco, e não como um homem frágil que a qualquer momento poderia ceder. Riu abaixando a cabeça brevemente, percebendo o quão ridículas eram aquelas palavras.

Sentiu a mão dela tocar seu rosto e Sakura tinha uma expressão gentil.

— Vamos ser forte juntos.

Foram palavras simples e diretas, mas olhando para o universo infinito de seus olhos verdes, Kakashi sentiu o mundo expandir. Ele sorriu para ela como um garoto enquanto ela retribuía com toda sua gentileza.

— É uma promessa. – Ele disse antes de se aproximar dela para tocar-lhe os lábios com os seus, beijando-a suavemente.

— Ver você e Rin hoje, aqui, me fez pensar se talvez eu não esteja sendo egoísta com você – Sakura disse depois de um momento — Nada disso teria acontecido se nós... – Deixou o ar escapar sem terminar aquela frase, ficando em silêncio por um momento — Mas eu quero ficar com você. Eu quero ser egoísta a ponto de ficar com você, mesmo sabendo que talvez fosse melhor me afastar. Eu quero te conhecer cada vez mais. Quero descobrir você, de novo e de novo. Quero me apaixonar milhões de vezes por você. – Ela riu quando percebeu as próprias palavras, desviando seus olhos por um instante apenas para voltar a ver aquele sorriso que ele carregava nos lábios e que eram refletidos em seus olhos — Eu te amo de um jeito meio egoísta, tudo bem pra você?

— É a primeira vez que você diz que me ama. – Respondeu com aqueles olhos perfeitos, com as pequenas rugas adornando suas feições, com aquele sorriso que a destruía da melhor maneira possível. Sakura queria morar naquele sorrio.

— Então me deixe fazer melhor – Falou pousando uma mão no rosto dele — Eu te amo.

— Eu também te amo. – Ele respondeu puxando-a para si, precisando dela em seus braços, precisando sentir seu cheiro e seu calor — E tudo bem que seja meio egoísta, porque eu também sou.

Ficaram naquele abraço pelo tempo que precisaram e Buru sequer mexeu-se, completamente satisfeito em passar um tempo com aqueles dois. Lentamente os outros começaram a se aproximar, buscando cada qual seu espaço perto deles. Shiba se deitou aos pés, enquanto Urushi buscou se encostar nas costas do homem. Akino estava com o rabo na perna de Sakura enquanto Pakkun apenas cheirava de maneira insistente o rosto de Kakashi, fazendo-o abrir espaço naquele abraço para que o pequeno cão pudesse se acomodar bem no meio.

— Oh, céus! Que atrapalha foda. – Kakashi resmungou com humor enquanto o cão apenas bocejava.

— Se fosse Bisuke, ele teria sentado com a bunda na sua cara – Sakura riu com a lembrança.

— Disso eu não vou sentir falta – Ele disse com uma expressão nostálgica, ficando um tempo em silêncio de repente. — Posso dormir com você hoje? – Perguntou a ela um pouco mais sério — Não quero ficar sozinho.

— Pode dormir comigo para sempre. – Sakura respondeu cheia de certeza antes de simplesmente depositar um longo beijo em seus lábios, e dessa vez estava muito mais confiante, muito mais certa.

... muito mais dele.

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Esbarrou com Gai na saída, o cumprimentando brevemente. Num ato atípico, Gai se ofereceu para acompanhá-la até a avenida principal, onde planejava pegar um táxi. O viu mandar uma mensagem a Sakura por meio de seu celular antes de simplesmente começar a caminhar com ela se livrando da fachada de segurança para oferecer apenas sua amizade.

Provavelmente ele imaginava que não tinha sido algo aprazível, mas Rin foi enfática a mostrar-lhe todo seu bom humor. Era como se finalmente tudo tivesse se resolvido em sua vida, como se Kakashi fosse um ponto final e houvesse um novo capítulo para ser escrito. Rin estava pronta para o resto de sua vida, mas não antes de contar absolutamente tudo a Kurenai.

Da casa de Kakashi para a avenida não era tão longe quando se estavam com companhia, e no bairro pacato de casas imponentes com seus muros cada vez mais altos e ruas desertas, a brisa suave prenunciava que o verão logo chegaria. Era primavera ainda. Pensou brevemente, percebendo que não tinha ido ao Hanami naquele ano, mas que as flores de cerejeira ainda deveriam estar nas árvores no auge de suas cores.

Sorriu para si mesma estabelecendo que iria passar no parque antes de voltar ao trabalho e olhar as pétalas caindo enquanto o vento quente soprava.

Foi com esse pensamento que um carro foi parando ao seu lado, com o vidro escuro descendo apenas para revelar Uchiha Obito. O sorriso sumiu do seu rosto e Gai a olhou rapidamente, avaliando a situação para saber o que deveria fazer. Rin conteve um suspiro, olhando para o homem dentro do carro com aquele rosto de quando tinham apenas 20 anos, cheios de esperanças.

— Ei, princesa – A chamou por aquele apelido idiota de anos atrás — Gai – Cumprimentou logo em seguida com um aceno sem esperar por uma retribuição do homem, voltando sua atenção para Rin — O que tá fazendo por aqui? – Perguntou tão naturalmente, tão... — A casa de Kakashi é para lá, não é?

— Não te interessa, Obito – Ela respondeu de maneira direta, tentando não demonstrar nenhum sentimento adverso.

— Oh! – Ele recuou com uma exclamação, mas não parecia ofendido pela resposta — Então vocês voltaram? – Perguntou com um sorriso enquanto Rin franzia as sobrancelhas — Vou entender se você não quiser mais falar comigo caso você e Kakashi tenham voltado.

— O que? – Rin resmungou perplexa. O que diabos ele estava dizendo? Soltou o ar com uma risada incrédula. Que tipo de constatação era aquela? — Obito, eu e Kakashi terminamos nosso relacionamento faz meses. Nós não vamos voltar. – Ela disse de maneira segura, cheia de uma certeza que não a abalava mais. — Supera. – Resmungou ao final.

Não havia porque hesitar diante daquelas palavras, afinal era tudo verdade. Ela e Kakashi não iriam mais voltar e por muito tempo isso foi algo que a feriu, mas agora não mais, para ser completamente honesta, depois de saber da história toda, Rin até concordava com o homem: Eles não deviam ter voltado nem da primeira vez.

E estranho pensar essas coisas, estranho racionalizar tudo o que aconteceu, porque quando ela pensava dessa forma, seu coração se acalmava como nunca. Tudo se tonava mais brando, mais quieto. Ela sorriu para suas próprias palavras, novamente sentindo orgulho de si mesma, sentindo que poderia seguir em frente.

Mas seu sorriso logo desmanchou quando Obito franziu o cenho para ela, saindo do carro logo em seguida e passando as mãos pelos cabelos negros desordenados.

— Você não estava na casa dele? – Perguntou parecendo confuso.

Rin respirou fundo tentando reunir forças para continuar aquela conversa de maneira civilizada. Depois do que Shizune sugeriu e Kakashi confirmou, Rin não queria mais contato com o homem, na verdade ela queria apenas seguir sua vida e esquecer que Obito fez parte de sua vida, esquecer o quão tola foi em acreditar nas palavras dele.

Aceitou as palavras de Kurenai quando esta disse para não procurá-lo mais, afinal tomar satisfação àquela altura não resolveria nada. Nada ia mudar. Então Rin apenas fechou essa porta, tentando levar seus erros como aprendizagem, tentando segui em frente.

Mas era como se o destino quisesse que ela lavasse roupa suja. Como se quisesse testar sua força de vontade em aceitar tudo o que aconteceu e seguir em frente de forma pacífica. Obito estava ali diante de si com aquele olhar confuso como se quisesse entender alguma coisa, e Rin apenas queria que ele fosse embora, mas como ele claramente não tinha essa intensão...

— Não é da sua conta o que eu estava fazendo na casa dele – Ela disse de maneira dura, olhando para ele de maneira direta, controlando seu impulso de apenas dizer tudo q estava em sua garganta.

— Rin, porque você está agindo desse jeito? Você e Kakashi brigaram novamente? – Ele perguntou ainda sem compreender.

— O meu cachorro morreu, Obito – Ela disse num tom breve, poque todos os cachorros Hatake eram seus também. Porque ela passou tanto tempo com eles quanto Kakashi. — Eu fui à casa do meu ex namorado para confortarmos um ao outro pela morte do nosso cachorro.

Ele a olhou com surpresa, sua expressão mudava instantaneamente, aquela confusão sumia dando lugar a uma preocupação tão grande e repentina que soava como mentira aos olhos de Rin, fazendo-a ficar tão mais furiosa, tão mais explosiva.

— E-eu... Eu não sabia – Ele disse finalmente depois de um momento de hesitação — Rin, me desculpe. Como você está se sentindo?

Como ela estava se sentindo?

Era tamanha a coragem dele para perguntar algo assim para ela. Não conseguia descreve seus sentimentos àquela altura, apenas conseguia sentir, e no momento queria colocar tudo para fora, porque estava prestes a explodir se continuasse olhando para a cara cínica de Obito. Se ele lhe fizesse só mais uma pergunta capciosa como aquela, ela certamente não aguentaria.

— Se eu puder fazer qualquer coisa para ajudar, você tem meu número e...

— Obito, se toca! – Explodiu em fúria — Ajudar? Você é a última pessoa no mundo que pode me ajudar! Na verdade, você vem me atrapalhado por todo esse tempo. Tudo o que aconteceu entre nós, tudo o que eu te disse anos atrás, tudo você usou para me separar de Kakashi! – E o volume de sua voz ia aumentando a cada frase, a cada palavra, cada fonema...

Rin sequer percebeu o quão alterada estava, porque Obito lhe fazia aquela expressão de confusão e culpa.

Riu em escárnio.

— Rin, do que você está falando? Eu nunca...

— Não ouse! – Alertou levantando um dedo para ele, seus olhos sérios o miravam para fazê-lo perceber o teor daquela conversa — Não ouse mentir para mim! Não ouse dizer que tudo não foi um plano seu! – E a expressão dele continuava tão inocente. Rin pressionou seus dentes um contra o outro enquanto se sentia tão puta. — Porque você sabia o tempo todo! Sabia que Kakashi ia me pedir em casamento!

— Rin..!

— Não fale meu nome! Você não tem o direto de dizê-lo! – Ralhou de imediato sentindo que apenas a presença dele a irritava. Estava ofegante sem sequer notar enquanto falava — Você se aproveitou da minha vulnerabilidade e me afastou de Kakashi quando sabia que ele tinha intenções de se casar comigo! Droga! Você o ajudou a comprar uma aliança, apenas para roubar a namorada dele no dia que em que ele iria fazer o pedido! Como você pôde?!

Se houvesse alguém naquelas casas, certamente estariam apreciando uma cena digna de um dorama de baixa qualidade. Rin gritava enquanto as lágrimas saiam em uma fúria nunca vista, porque se sentia injustiçada, porque confiou em alguém durante anos a ponto de contar seus segredos, suas dúvidas, seus receios... A ponto de abri seu relacionamento e se permitir ser confortava, pensando que tal pessoa ficaria do seu lado pelos motivos certos, e não pelo seu próprio egoísmo.

Estaria mentindo se dissesse que não sabia dos sentimentos de Obito, mas achou ingenuamente que ele estava ali apenas para ser o bom amigo que ela precisava, alguém que conhecia seu namorado tão bem a ponto de fornecer algumas dicas de como lidar com a situação em seu coração, alguém que pudesse, de alguma forma, mediar sua confusão.

Achou que Obito era confiável.

Mas tudo foi progressivo. À medida que se tornava mais intima dele, Kakashi se tonava cada vez mais uma dúvida. Obito a acolhia, a entendia, enquanto Kakashi apenas parecia viver a própria vida. Foi natural, nesse caso, nutrir alguns sentimentos confusos por Obito, afinal era ele quem estava do seu lado o tempo todo, mas ao mesmo tempo nunca esqueceu Kakashi nem por um mísero segundo.

— Você arruinou tudo para mim. – Falou depois de um momento, com seu rosto baixo olhando para os pés do homem — Eu fui tola de acreditar em você, mas sabe... Antes que eu voltasse para Kyoto, me humilhando para conseguir uma nova chance com Kakashi, bem que você poderia ter me dito, não é? – Riu sem humor — Você podia ter me tido que eu já tinha jogado fora todas as minhas chances, pelo menos teria me poupado alguns anos.

— Você acha que eu não sei? – Ele disse de repente, com sua voz grave dominando o ambiente — Acha que eu não sei, Rin, que eu arruinei seus sonhos? Eu convivo com o arrependimento todos os dias! Eu achei que poderia te fazer feliz! Parecia que finalmente era minha chance! Mas mesmo em Tóquio, a única coisa sobre a qual você falava era Kakashi!

— Você sabia dos meus sentimentos! O que você esperava?

— Que você me amasse! – Ele gritou sem hesitar — Que me desse uma chance para eu te mostrar o que é ser amada! Mas tudo, todas as coisas, todas as conversas, tudo girava em torno do seu romance ideal com Hatake Kakashi! – Gritou mais alto, mais agressivo.

— Não seja hipócrita! – Ela revidou tão impetuosa quanto ele — Não fale como se você tivesse feito grandes sacrifícios por mim!

— Eu perdi todos os meus amigos! O meu melhor amigo não fala mais comigo!

— Porque você é um covarde! – Ela rebateu mais contida, mais cruel — Porque você o enganou! E não fale como se fosse um coitado, porque fez amigos muito rapidamente em Tóquio!

— Eu já disse para você não se meter onde não lhe cabe – Ele disse mais sombrio, se aproximando dela de maneira perigosa.

Gai se preparou.

Mas Rin não recuou.

— É desse jeito que você esperava me fazer senti amada? – Ela perguntou com um sorriso de canto, escaneando a resposta tão vulnerável dele. — Você nunca soube amar alguém além de si mesmo.

Obito recuou diante das palavras dela com uma expressão tão desolada, tão magoada. Ele deu um passo para trás com sua cabeça pendendo para frente num gesto de tristeza. As palavras dela, ditas daquela maneira o afetaram mais do que ela pôde imaginar, mas ainda assim, Rin não se arrependia.

A boca masculina abriu e fechou brevemente, como se ele estivesse querendo dizer alguma coisa sem saber por onde começar. Rin continuava olhando para o homem e sentia como se sua raiva tivesse alcançado o pico e finalmente estivesse baixando.

Mas o dano já estava ali.

— Eu realmente tentei – Ele disse numa voz mais branda, mais perdida — Eu tentei te dar tudo o que você merecia, tudo o que você queria, mas todos os dias você me olhava e eu sabia que estava arrependida – Pausou sua fala com uma expressão murcha, lembrando dos momentos, dos olhares — Eu fiz tudo o que fiz porque achei que podia te dar mais, mas você não queria mais, você queria Kakashi. Então quando você quis voltar com aquela desculpa ridícula, eu apenas deixei.

— Não se faça de vítima. – Rin declarou — Não há nenhuma vítima nessa história.

— Eu só estou... – Hesitou por um momento — Desde que voltei a Kyoto e vi você tão perdida naquele bar, eu percebi que ferrei totalmente o seu sonho, e eu tenho tentado te compensar por isso. Eu sei que não sou suficiente, mas eu realmente estou tentando e torcendo para que-

— Obito. – Rin o cortou com nojo daquelas palavras — Nada do que você fizer ou disser vai mudar o rumo dessa história. E hoje, olhando para você aqui me dizendo essas palavras, eu só consigo sentir raiva de mim mesma, do quão burra eu fui para cair nessa sua conversa. – Disse mais firme, mais dura — Vá embora, Obito.

— Rin...!

Ele deu um passo exagerado na direção dela, segurando o braço da mulher com certo desespero. Ela o olhou puxando o membro para si, mas ele a segurava mais forte, e mesmo exigindo que a soltasse, Obito ainda estava ali falando coisas desconexas, dizendo a ela que arrumaria tudo, que a compensaria pelo passado.

Foi quando Gai o afastou à sua maneia, porque Rin claramente não tinha mais nada a dizer e não queria escutar nada mais. O homem o empurrou na direção do carro, ordenando que ele se afastasse e respeitasse a vontade de Rin. A mulher o olhou por um breve instante sem saber o que se passava por detrás dos orbes negros de Obito, e também não se esforçou para saber.

Virou-se com a mão de Gai em sua cintura, conduzindo-a como se fosse algum tipo de celebridade pela rua, preocupado com a possibilidade de Obito os seguir, mas este não o fez. Se distanciaram cada vez mais e quando alcançaram a avenida, Rin soltou o ar como se o estivesse segurando desde o momento que encontrou o homem ali.

Gai a abraçou de maneira terna, mas Rin não sentia que precisava de algo assim apesar de ter apreciado o gesto, na verdade se sentia um tanto hesitante, sem saber se tinha tomado uma atitude correta ao descarregar daquele jeito, sem saber se veria Obito novamente, ou como seria seu futuro.

Pediu ao amigo para que não revelasse nada a Kakashi enquanto esperavam um táxi, e Gai apenas disse que estava em horário de trabalho, deixando claro que não havia o que contar. Ela sorriu pela gentileza, e esperaram por mais alguns minutos até que finalmente ela estava a caminho de casa.

De alguma forma, depois de tudo, ela sentia que havia encerrado um ciclo. Havia uma tristeza em si, mas não era por sua vida e suas decisões duvidosas, mas sim por tudo o que viveu de uma forma contemplativa. Mesmo que tenha sido um caos, houveram coisas boas em seu relacionamento com Obito, e era engraçado como em um só dia ela tinha conseguido fechar essas duas pontas soltas de maneiras tão distintas.

Kakashi e Obito.

Fechar pontas soltas não era sempre satisfatório como no caso de Obito, mas com certeza era necessário, uma vez que precisava se libertar dessas pendencias para continuar. Era um sentimento agridoce e um pouco mesquinho, porque no fundo sentia algo por Obito, mas não podia continuar nesse caos de ir e vir. Ela não era boa para ele e ele não era bom para ela.

Ponto final.

No carro, olhando a rua passar pela janela, Rin lembrou-se de suas metas para a vida e percebeu que poderia, finalmente, dizer que havia atingido duas naquele dia, sendo a primeira a recuperação do seu relacionamento com Kakashi num nível de amizade, e a segunda...

Tinha sido deixar Obito no passado.

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Dois dias já haviam se passado desde que tudo aconteceu. Obito não tentou entrar em contato em nenhum momento e Rin se sentia grata por isso. Tudo bem que as coisas não se encerraram do jeito que ela gostaria, afinal aquele conflito histérico no meio da rua não era exatamente sua definição de um bom encerramento, mas sentia que as coisas estavam seguindo um bom curso.

Pelo menos para ela.

Contou tudo para Kurenai ainda naquela noite, compartilhando do vinho branco delicioso que ela tinha em casa enquanto assavam um pedaço de carne na churrasqueira master de Asuma. Quem disse que as meninas não manjavam de churrasco?

Se sentia orgulhosa de si mesma, e é claro que depois do momento, Rin achava que poderia ter feito tudo diferente, mas ainda assim estava orgulhosa, porque esse sentimento era a prova viva de que tudo iria melhorar. Obito era alguém que ela queria bem, mas um bem que fosse bem longe dela. Enquanto a Kakashi, agora ela sentia que estava definitivamente pronta para ressignificar aquele amor, e transformá-lo em carinho além de tudo.

Naquele dia, entretanto, Rin estavam mais preocupada com a iluminação da festa e os fotógrafos. Faltava apenas um mês para o casamento de Kurenai, e a mulher estava na metade da reforma do hotel, o que significava que Rin ainda era sua planner oficial. Com um notebook nas pernas, um café quente no porta copos ao lado de um porta retrato com sua foto e a de Kakashi, Rin olhava sua pasta no Pinterest sobre referencias para o casamento.

O Plaza era basicamente um salão gigantesco com pouca iluminação natural, o que significava que precisariam de uma tonelada de leds e outras luzes para criar um ambiente o mais agradável e intimo possível. A luzes tinham que ajudar nas fotos, e também realçar o tom das flores e do vestido. Tinha que ser absolutamente perfeito, e foi por isso que Genma lhe passou uma lista de todos os especialistas em iluminação que conhecia.

Todos custando uma fortuna.

Custear aquilo faria a festa sair completamente do orçamento e Rin já não aguentava mais sacrificar as flores em prol de outras coisas. Talvez tivesse que se contentar com as luzes ridículas do local. Suspirou pensando que tudo se resolveria se pelo menos eles tivessem um amigo rico que pudesse pagar como um presente, e inevitavelmente seus olhos pousaram no rosto juvenil de Kakashi que seu porta retrato exibia.

Riu.

O mão-de-vaca jamais daria algo assim.

Foi com esse pensamento que, de repente, o interfone tocou. O porteiro do seu prédio perguntava de maneira muito profissional se ela, Nohara Rin, gostaria de receber o senhor Yamashiro Aoba em seu apartamento.

O quê?

Pigarreou respondendo que sim... Sim! Aoba podia subir, mas...

Oh, céus! O que diabos ele estava fazendo?

Pegou seu celular para verificar se havia deixado passar alguma mensagem, e ali estava, perdida nas milhões de notificações o aviso de que ele estava indo a sua casa para discutir o orçamento restante para o fotografo, e com isso ela não teve alternativa a não ser se levantar correndo e ir ao seu quarto, tirar aquele pijama de bolinhas surrado e colocar uma camiseta mais casual, aquela lilás de mangas mais soltas.

Se olhou no espelho. Pelos deuses! Pegou uma faixa de cabelo e prendeu de maneira que a sua franja ficasse longe dos olhos, e tirou a calça daquele pijama horrível, substituindo rapidamente por um short larguinho de moletom. Quando virou-se para ver o resultado daquelas escolhas pouco pensadas, a campainhas soou e Rin percebeu que tinha trocado toda sua roupa apenas por uma simples visita de Aoba, que já havia lhe visto em estados bem piores.

Colocou aquele pensamento no fundo de sua mente e abriu a porta para o homem, que vestia uma camisa preta de banda de rock e uma bermuda cargo. Estava tão casual que Rin se sentiu completamente ridícula por ter trocado seus pijamas. Era um dia de folga em comum com o homem, e ela estava em casa relaxando, não precisava disso tudo.

Não é?

Quando ele entrou declarando que talvez tivesse a solução para os problemas do casamento, Rin percebeu que Aoba olhou brevemente para a foto de Kakashi em sua mesa de centro e sentiu que tinha dado uma bola fora daquelas. Ao invés da roupa, ela devia ter se preocupado em trocar aquela foto. Não porque esperava algo de Aoba, afinal ele era seu amigo, mas sim porque gostava de flertar com ele.

Ok! De uma vez por todas, Rin admitiu para si mesma que sim, estava flertando com Aoba desde aquele beijo aleatório, e a empolgação de ter alguém com quem trocar mensagens tão ambíguas era simplesmente emocionante. Ela se sentia bem falando com ele, como uma massagem no próprio ego, mas sem deixar aquilo ultrapassar barreiras, porque ainda que estivessem se divertido, Rin ainda estava resolvendo sua própria bagunça.

Ele se sentou de maneira despretensiosa e começou a contar sua ideia, que se resumia a mudar o local do casamento.

— Ok, eu vou fingir que você não sugeriu isso – Ela disse rindo — Já planejamos tudo para o Plaza, Aoba. A gente teria que... Céus...

— Rin, vamos mudar para um local aberto. A gente economiza o dinheiro do Plaza e ainda consegue luz natural.

A mulher riu nervosa, passando a mão entre os cabelos enquanto imaginava como poderiam transpor a festa de um local para o outro sem perder todo o planejamento, mas Aoba era perspicaz o suficiente para sugerir tendas, adendos de decoração, mais flores... Ele tinha pensado em absolutamente tudo e, lentamente, convencia Rin de que aquela era uma opção viável.

— Além disso, o Plaza é horrível.

— Não diz isso, o Plaza é maravilhoso – Ela disse recostando no braço do sofá, colocando os pés em cima do colo do amigo sem muita preocupação, ficando deitada no espaço que tinha ainda indecisa sobre mudar o local — Eu já fiz uma entrevista com um chef de lá num dos quartos, e você precisava ver, Aoba... Era como entrar num filme.

— Um filme tipo James Bond ou Um Lugar Chamado Notting Hill? – Ele perguntou daquele jeito que Rin não decidir se era uma pergunta genuína ou se ele estava apenas rindo dela.

— Um pouco dos dois – Disse por fim com um olhar esperto — Apesar que as camas nos filmes do James Bond parecem mais convidativas do que as do hotel em Notting Hill – Considerou — A do Plaza parecia boa também.

Ela não sabia porque tinha dito aquilo, mas o pensamento aleatório apenas lhe escapou.

— Tá afim de descobrir?

...

Foi impossível conter o sorriso que brotava em seu rosto num misto de nervosismo e expectativa. Aoba tinha sua mão pousada em sua perna de maneira suave, e ao dizer deslizou seus dedos milimetricamente por sua pele, fazendo-a sentir aquele movimento como se estivesse em câmera lenta. Ela olhou para a mão dele enquanto sua mente desvendava aquela pergunta, feita tão diretamente e daquela maneira despojada.

Aoba não era o mesmo de cinco minutos atrás.

Naquele momento ele a olhava de maneira direta com seus olhos brilhando em uma espécie de divertimento e perigo. Rin nunca tinha percebido, mas os olhos de Aoba soavam um tanto enigmáticos. Não dava para saber exatamente onde ele queria chegar, e aquele flerte que tinham acontecia sempre na segurança de um chat virtual privado, de forma que aquele tipo de toque sutil entre sua pele e os dedos dele não eram possíveis.

— ... O quê? – Ela perguntou tentando manter sua voz num timbre inocente, quase como se não tivesse entendido.

— Estou perguntando se você não quer alugar um quarto no Plazar – Ele disse de maneira mais explicita, com aquele sorriso de apostador. Come quieto, é? — Testar a cama. – Completou de forma completamente descarada ao dar os ombros daquele jeito, arrastando a ponta dos dedos pela pele lisa, alcançando seu pé de maneira perigosa.

A muito tempo Rin não se sentia arrepiar daquele jeito.

Eu e você? – Ela perguntou ainda tão pega de surpresa e ao mesmo tempo não pega de surpresa. Era como se sua mente estivesse apagando todas as outras informações que haviam ali antes e substituindo pela presença de Aoba, que começava uma massagem muito tortuosa em seu pé esquerdo.

— É um convite? – Rebateu daquele jeito tão sacana.

Ela riu brevemente num ato um pouco nervoso, um pouco incrédulo. Estava excitada pelo flerte descarado, e achava engraçado como ele conseguia mudar todo o contexto da situação, pegando-a desprevenida ao fazer parecer que ela estava sugerindo algo quando na verdade Rin estava apenas...

Desviou o olhar enquanto ria sem acreditar naquelas palavras, o olhou novamente para vê-lo com uma expressão divertida e ainda assim tão... Enigmática. Ele estava esperando uma resposta enquanto deslizava seu calcanhar na palma da mão num movimento circular, e aquilo causava uma sensação muito familiar.

Tesão.

— Se envolver uma massagem como essa, então talvez seja. – Ela disse empolgada e ao mesmo tempo em pânico, porque parecia que estava prestes a fazer algo que não devia. Sim, afinal Aoba era primeiramente seu grande amigo, e depois disso, ela ainda estava ajustando as coisas na sua vida.

Não que ela pensasse que levariam as coisas prum campo do romance, mas misturar amizade com sexo nem sempre era algo que as pessoas conseguiam administrar.

— Podemos começar dessa forma então – Aoba disse num tom mais baixo apesar da entonação despreocupada.

Ele mantinha seus olhos nos dela de maneira intensa enquanto levantava a perna dela sem nenhuma resistência antes de depositar um beijo em seu tornozelo, arrastando levemente seus lábios enquanto girava seu corpo, avançando entre as pernas femininas enquanto Rin sentia aquele arrepio irrompendo pelo seu corpo, totalmente incapaz de tirar os olhos os dele.

O cheiro dele dominou seu olfato quando ele já estava por cima de si, e ela se sentia tão excitada, como se estivesse prestes a fazer algo que nunca imaginou antes, mas que parecia ser muito bom. Foi quando ele a beijou logo após de olhá-la a distancia de poucos centímetros, fazendo-a ver aquele sorriso de alguém que estava prestes a devorá-la.

Aoba fazia pressão no quadril feminino com o próprio, fazendo-a sentir por cima das vestes o tamanho da sua excitação enquanto a tomava através de seus lábios, e Rin já se sentia ofegar enquanto seus braços jaziam entorno do pescoço dele.

Se deixou levar pelas sensações do sexo, do beijo, e ainda que fosse apenas um bom amasso, Rin já sentia como se quisesse apenas continuar e descobrir tudo o que havia para ser descoberto. Pela primeira vez em meses, Rin não estava cedendo a um homem porque queria esquecer ou substituir a falta de outro. Pela primeira vez, Rin sentia que estava tomando um passo por si mesma, e talvez por Aoba.

E não que estivesse pensando muito, porque na verdade sua mente escapou facilmente para o campo das sensações, esquecendo totalmente qualquer outro assunto, quaisquer outras pessoas. Rin estava presente de mente e corpo naquele ato, olhando com lasciva para Aoba enquanto ele se ergia momentaneamente apenas para tirar a camisa e voltar para cima dela, tateando seu corpo de uma maneira incrivelmente nova.

Foi quando o ruido irritante de seu toque de celular se fez presente. Aoba hesitou por um segundo, olhando para ela com uma visível interrogação e a resposta foi bem clara quando ela avançou contra ele, mordiscando seu lábio, brincando com sua boca. E estava disposta a ignorar o telefonema, que caia e voltava novamente numa clara insistência.

Seria do trabalho?

Rin praguejou internamente olhando para a mesa de centro em busca da localização do aparelho e encontrando Hatake Kakashi sorrido enquanto mirava um "V" com seus dedos para a câmera. Céus... Fez Aoba parar naquele momento, pedindo desculpas por ter que atender a droga do celular ao mesmo tempo que fazia uma nota mental para tirar aquela foto dali. Pegou o celular ao passo que o homem se sentava no sofá, olhando para ela numa expressão que Rin não pôde decifrar naquele exato momento, afinal estava mais preocupada em saber quem diabos estava atrapalhando o seu momento.

Olhou no visor do celular, franzindo o cenho.

Hospital Regional de Kyoto.

Atendeu confusa, tentando puxar da memória se havia alguma matéria escalada para ela sobre qualquer coisa que envolvesse o hospital.

Senhorita Nohara Rin? Eu sou a enfermeira Tsukihime e estou entrando em contato porque suas informações estão agendadas como o contato de emergência do senhor Hatake Kakashi.

E naquele momento o coração de Rin parou de funcionar por um instante.

.

.

.

Olhava para seu livro onde os vários kanjis tentavam explicar como fazer uma cirurgia cardiovascular e suas possíveis complicações, mas sequer conseguia concentrar-se em seu conteúdo ou no que seu professor falava diante de todos. Já tinham se passado algumas horas desde que Kakashi se fora e Sakura ainda se sentia tão envergonhada, incapaz de se prestar atenção em qualquer outra coisa.

Ainda no primeiro horário, Kakashi aparecera de supetão abrindo a porta da sala sem se anunciar. Não pediu licença, não cumprimentou ninguém, apenas chamou o nome dela em bom tom, fazendo-a corar violentamente, tudo isso para pedir-lhe seu carro emprestado, porque ele não estava conseguindo dar partida no próprio veículo e não tinha tempo de esperar o seguro, afinal, recebera uma ligação da clínica veterinária onde trabalhava com um cão precisando passar por um possível procedimento cirúrgico.

Céus...

Todos na sala ficaram lhe encarando quando o homem pegou as chaves da sua mão ainda na porta e lhe deu um beijo no rosto de maneira apressada, declarando num tom alto demais que ela estava salvando vidas naquele momento. Seu professor a encarou numa expressão severa enquanto ela se desculpava de maneira profunda, curvando seu corpo num sinal de respeito.

Mesmo assim, quando lembrava do homem naquela camisa azul claro com mangas arregaçadas chamando-a daquela maneira, Sakura apenas se deixava rir um pouco. Ele era bonito de qualquer jeito, tina que admitir, e seu corte de cabelo único o deixava três vezes mais gostoso. Além disso, ela gostava que Kakashi não tinha nenhum receio de beijá-la em público, mesmo que fosse apenas um simples beijo na bochecha.

Olhou para o livro mais uma vez sem perceber que havia rabiscado o nome dele dentro de um coração. Suas bochechas arderam enquanto ela buscava a borracha apressadamente, imaginando imediatamente a reação de uma Yamanaka Ino caso visse aquilo.

Você fica tão fofa quando está apaixonada!

Não demorou para o professor anunciar o final da aula e Sakura enfiou tudo dentro da bolsa rapidamente, correndo para encontrar Gai parado ao lado da porta da sua sala. O cumprimentou enquanto seguiam para o estacionamento sentindo falta de Ino, que havia faltado naquela manhã por conta de um problema na bolsa de valores.

Aparentemente, ela estava perdendo dinheiro.

Mas provavelmente estaria ganhando orgasmos.

Pensou em seguida com uma risada, porque Ino tinha virado uma viciada em Shiranui Genma, estando com ele quando podia, mas nunca deixando que ele aparecesse em seus preciosos storys, e apesar de estarem bem mais próximos, Ino ainda sentia dificuldades em simplesmente deixar as coisas acontecerem sem perceber que elas já estavam acontecendo.

Mas Sakura não queria ser a pessoa que jogaria isso na cara dela, afinal, Ino pode ser teimosa às vezes, e assustá-la desse modo poderia simplesmente causar o efeito inverso e fazê-la recuar para retomar o controle da situação. No final das contas, Sakura torcia por Genma apesar de ter suas ressalvas, porque ele era mesmo um mulherengo cafajeste, ainda que Kakashi insistisse que Genma estava completamente devoto à Yamanaka Ino.

De todo modo, Sakura não perturbaria a amiga naquela manhã porque Ino tinha passado os dois últimos dias imbuída em conseguir as filmagens das câmeras da rua da casa de Kakashi, porque as câmeras privadas que Kakashi tinha instalaram não tinha conseguido uma imagem nítida da placa do carro que Sasori usou quando executou seu crime ao matar Bisuke.

Na verdade, Sasori tinha conseguido evitar que as câmeras pegassem um ângulo frontal dele. O homem estava vestido como um moleque com capuz e tênis surrado, precisou correr para pegar impulso e jogar mais alto aquela armadilha com veneno. Sakura tinha visto a cena ao lado de Ino, completamente enjoada, mas de alguma forma conseguiu reparar que Sasori parecia ter crescido alguns centímetros.

Talvez fosse a câmera, talvez fosse a escuridão, mas honestamente aquele homem era grande demais, largo demais e simples demais para ser o Sasori que conhecera, ou talvez sua mente estivesse lhe pregando uma peça. Ela não sabia, já fazia tanto tempo e suas lembranças eram às vezes nítidas, às vezes nubladas.

Ainda assim, Ino tinha conseguido todo o material para análise do caso, que segundo ela, estava progredindo. A loira não lhe fornecia muitas informações, talvez para preservar sua sanidade, e Sakura se mantinha firme em não procurar saber muito. A única informação que queria era a localização dele e o que Ino faria sobre isso, todo o resto ela sentia que poderia ser poupada de saber.

Junto à Gai, Sakura foi até o estacionamento olhar o carro de Kakashi. Não que ela fosse algum tipo de especialista, mas abriu o capô apenas para verificar brevemente. Fora Gai quem disse que parecia ser problema no módulo, e Sakura não fazia nenhuma ideia do que isso significava, mas Gai disse que podia consertar em poucos minutos se Sakura não se importasse.

Foi assim que Sakura apenas deu sua benção enquanto se dirigia à cafeteria para comprar um suco e café, coisa rápida. Apesar de Gai ter feito uma careta, a universidade era um lugar bizarramente seguro e movimentado àquela hora, além disso, o estacionamento ficava praticamente a frente, então ela se deu ao luxo de aproveitar o pequeno momento de liberdade e esperar sozinha na fila dos pedidos, esbarrando na boa companhia de Hinata e Kiba.

Mas antes de chegar a sua vez, Sakura puxou o celular do bolso que vibrava insistentemente. Olhando o visor, o número de Kakashi estava estampado na tela. Sorriu colocando no ouvido e dizendo um sonoro Olá, para então ouvir uma voz que não conhecia tanto assim, mas que era impossível não reconhecer.

Nohara Rin estava do outro lado da linha com uma voz séria demais enquanto o seu maior receio em toda essa história se tornava verdade: Kakashi havia sofrido um acidente.

Tudo o que a mulher disse depois disso era mero plano de fundo. Sakura tateou os bolsos da calça com urgência enquanto segurava o telefone inclinando sua cabeça até o ombro. Hospital Regional de Kyoto. Certo. Conhecia aquele hospital com a palma de sua mão. Olhou para Hinata na fila depois de desligar, porque precisava de um carro e precisava para agora.

Céus... Kakashi havia batido contra um poste no seu carro minúsculo e antigo. Rin havia dito que ele estava desacordado e Sakura sentia seu coração querer saltar do peito em preocupação. Franziu o cenho, soltou o ar apenas para recuperá-lo com velocidade de novo e de novo. Estava hiperventilando porque aquilo sim soava como Sasori.

— Hina, eu preciso do seu carro – Sakura disse com urgência, seus olhos desesperados — Eu não tenho tempo para explicar, eu só preciso...

Sim, ela só precisava de um veiculo que a levasse até o hospital o mais rápido possível. Não podia ceder a vontade de chorar e sentir pena de si mesma, não podia deixar suas emoções tomarem conta de si naquele momento. Novamente Kakashi era o alvo, e essa vez Sasori havia pegado pesado, porque ninguém precisava lhe dizer que tinha sido um plano dele. Tudo era muito evidente para Sakura, tudo era claro.

— Eu vim com o motorista – Ela informou encolhendo os ombros — Sakura-chan, tá tudo bem? – Perguntou percebendo que a amiga tremia brevemente.

— Não! Droga! – Praguejou girando no próprio eixo, procurando alguém que pudesse...

Porque falar com Gai não era uma opção. Ele dirigia como uma lesma e provavelmente teria algum protocolo desnecessário que atrasaria Sakura, e no momento, Sakura sentia que se esperasse um pouco mais, se hesitasse, tudo desmoronaria, e ela não podia deixar isso acontecer.

Não podia ser uma garota chorona e dependente.

Ela tinha que estar lá e ver o que tinha acontecido de verdade. Ela precisava vê-lo e ter certeza que nada irreversível tinha acontecido. Precisava vê-lo e saber que ele ficaria bem, e depois disso...

Depois disso...

— Você pode usar minha moto – Kiba disse enfiando a mão no bolso para tirar as chaves — Mas não é melhor eu ir com você? Você parece nervosa, é perigoso dirigir assim.

— Não, Kiba, você não... Uh... – Soltou porque não tinha tempo para explicar, não queria explicar. Queria fazer alguma coisa, queria ir até Kakashi e vê-lo — Por favor, apenas me dá as chaves e me diz onde tá.

— O-ok! – Ele disse hesitante sem saber se tinha feito a coisa certa, mas Sakura apenas pegou a chaves e voou até o local onde a moto dele estava.

Era uma 500 cilindradas, grande demais para si, mas iria servir. Sem sequer lembrar do capacete, Sakura subiu na moto e deu partida. Fazia anos desde que aprendera a andar de moto, mas naquele momento ela não se importou, apenas saiu fazendo o motor roncar alto enquanto passava por Gai sem sequer dar tchau.

Droga! Droga! Droga!

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Bufou revirando seus olhos azuis com irritação enquanto finalizava aquele áudio desbocado que estava mandando para Shikamaru. Genma lhe olhou com certo nível de curiosidade, mas não perguntava nada, talvez temendo por uma resposta não muito gentil. Ele vestia um avental branco com babados e tinha prendido seus cabelos num rabo de cavalo improvisado no topo da cabeça.

O homem se aproximou da mesa colocando suco e outros mantimentos para o café da manhã tardio que estavam tomando. Ele não era nenhum cozinheiro, mas sabia fazer panquecas e tinha calda pronta da geladeira. A mulher o olhou quando ele se sentou e tinha um bico no seu lindo rosto alvo, enquanto seu cabelo solto fazia uma cortina um tanto bagunçada em suas costas.

Voltou a olhar para o telefone quando ele vibrou, dando play no áudio sem se importar de Genma ouviria, quase como se não houvesse conversas que ele não pudesse saber. Não que ele entendesse do que estavam falando, mas era engraçado como até certos áudios de Sakura ela reproduzia sem sequer saber do que se tratava na frente dele.

Oe, Ino, confie em mim quando eu digo que as projeções são boas. Tenho informações seguras que indicam uma temporada muito boa para os Uchiha, você não vai querer tirar o seu dinheiro de lá agora. Você vai perder uma grana por conta desse tabloide sensacionalista, mas essa queda não vai durar mais que dois dias.

Dois dias, ele disse, como se fosse pouco para o tamanho do investimento que tinha feito.

Ela revirou os olhos para a fala preguiçosa de Shikamaru. Como ele podia ser tão relaxado quando estava mexendo com milhões que nem dele eram? Não que ela duvidasse da capacidade dele, mas era sempre assustador como ele tinha esse feeling para os negócios da bolsa, ainda que a deixassem extremamente assustada de vez em quando com suas movimentações absurdas de dinheiro.

Olhou para Genma que estava resignado com suas panquecas enquanto olhava qualquer coisa no celular. Tão alheio, tão na dele... Ela suspirou deitando a cabeça no próprio ombro num gesto manhoso. Estava se sentindo tão carente naquela manhã e agora tinha que solucionar o mistério Uchiha, porque alguém obviamente os estavam sabotando.

— Ele tá falando dessa notícia? – Genma perguntou de repente, mostrando a tela do celular de um jeito despretensioso.

Ino fez uma careta.

"Uchiha Itachi está com os dias contados? Herdeiro de um dos maiores conglomerados corporativos tem saúde questionada pelos acionistas."

— É ridículo! – Ralhou com um ruído de irritação — Ele fez uma cirurgia no olho! Ele não vai morrer, como fazem parecer em todos os jornais do Japão.

— O que a cirurgia no olho tem a ver com a bolsa de valores? – Era uma questão idiota, ele sabia, porque provavelmente era algo básico para se saber, mas ele não entendia absolutamente nada sobre investimentos e parecia que Ino só sabia falar sobre isso naquela manhã.

A mulher maneou a cabeça antes de simplesmente deitá-la sob a mão com o cotovelo apoiado na mesa. Explicou de um jeito muito simples que nos negócios estabilidade era a chave para o sucesso e a família Uchiha, sendo uma família tradicional e muito antiga, era um símbolo de estabilidade dentro desse universo, mas o tempo foi passando e vários aspectos estruturais da corporação foram ficando defasados, fazendo o conglomerado perder força diante de outras empresas com lideranças mais flexíveis, como os Yamanaka.

— Eu tenho que admitir que Uchiha Fugaku, pai de Sasuke, foi muito ousado e visionário ao deixar o filho mais velho substituí-lo. Itachi é um gênio, mas deve ter sido muito difícil para ele deixar o posto máximo para alguém visto como inexperiente. – Ino disse dando os ombros ao final.

Sim, Itachi assumiu ainda muito jovem, mas sua entrada no mercado foi crucial para fazer as projeções melhorarem absurdamente. Ele era um símbolo de renovação e sua primeira ação foi uma completa reestruturação da empresa, começando o topo para a base. Vários nomes importantes foram movidos, divisões novas foram abertas e algumas antigas foram encerradas. Itachi fez o que precisava fazer apesar dos esforços da diretoria de fazê-lo pegar mais leve.

Porém, em apenas um ano, Itachi tinha conseguido o impossível. Dobrou o lucro da empresa e isso era só o começo.

— Nessa época ele foi ao médico com uma queixa de dor de cabeça, ai descobriram que ele tinha um probleminha nos olhos e precisava de uma cirurgia, ou ficaria cego a longo prazo – Ino disse recordando da explicação de Sasuke — Era um procedimento simples e em apenas duas semanas ele poderia voltar ao trabalho, mas alguém deixou vazar para a imprensa que Itachi estava praticamente a beira da morte.

Isso fez com que várias pessoas achassem que Fugaku poderia voltar para o cargo à frente da empresa, ou que Sasuke poderia ser cotado para dar continuidade ao trabalho do irmão. O problema é que Fugaku simbolizava fracasso e Sasuke era gay, e infelizmente, no mundo machista e corporativo japonês, ser gay não inspirava o progresso que eles tanto almejavam.

Por conta disso as ações começaram a cair e para remediar tal situação, Itachi resolveu adiar a cirurgia por anos, até finalmente ficar quase cego. Foi quando ele resolveu fazer a operação, e nesse momento as ações apenas caíram.

— O engraçado é que disseram que seria uma operação de vida ou morte. – Relembrou da manchete do outro dia — Que foi feita no Hospital de Olhos de Kyoto – Riu brevemente. — Aí ele ficou aqui em Kyoto por algumas semanas para sua recuperação, e voltou a Tóquio tem pouco tempo, o problema é que o idiota saiu na janela com a maior cara de doente, dai alguém tirou uma foto e publicou dizendo que ele estava vivendo seus últimos dias.

— E porque ele não desmente isso?

— Você acha que ele já não emitiu milhares de notas? – Suspirou — As pessoas não vão acreditar em algo assim.

— O meio corporativo parece muito estressante – O outro refletiu com um olhar distante.

— Você ainda não viu nada. Essa história ainda vai dar muito o que falar, porque eu tenho certeza que a pessoa que está publicando essas matérias ridículas tem algum interesse na pressão que a mesa diretora tem feito na família Uchiha para que eles encontrem um substituto a altura de Itachi.

— Tipo uma conspiração?

— Com certeza – Ela afirmou com uma expressão tão normal que parecia não se importar — Alguém tá querendo o cargo do Itachi, o problema é que não está muito claro quem está fazendo toda essa jogada. – Completou maneando a cabeça — Odeio que os Uchihas sejam essa bagunça, por conta disso eu estou perdendo dinheiro.

Genma riu com o resmungo da garota. Nem parecia que todos os citados eram, em algum grau, conhecidos da mulher. Ela começou a comer as panquecas enquanto parecia estar menos chateada com as variações em seus negócios, rindo do avental de Genma no processo. Pulou na sua cama bem cedo, e ele até achou que era alguma emergência, mas a loira de olhos azuis declarou apenas que queria passar um tempo de qualidade com ele.

Ficaram em sua cama por algum tempo até ela pegar seu celular e ter um ataque furioso ao ver suas ações despencando. Parte da manhã passou e Ino apenas trocava áudios raivosos com o amigo preguiçoso que, inutilmente, tentava explicar a ela os vários motivos de sua decisão em manter o dinheiro dela naquela empresa.

O homem não entendia nada e até se sentia um pouco inferior por conta disso. Nesses momentos ele percebia que Yamanaka Ino estava em um nível financeiro completamente diferente, e com isso até mesmo seus contatos e conhecidos, seu modo de agir e falar, tudo nela se tornava superior. Não que isso o incomodasse de alguma forma, mas as vezes parecia que ele não se encaixava no mundo dela, apesar de gostar quando ela explicava as coisas para ele daquele jeito tão comum, como se contasse uma fofoca qualquer.

Em algum momento, Ino perguntou pelo clipe e Genma apenas disse que ela precisaria ser paciente. Ele quem estava editando pessoalmente, e todo o processo o fez lembrar da época que começou a produtora sozinho, fazendo tudo na maior dificuldade para conquistar seu espaço num meio tão concorrido. Podia não ser uma empresa de renome com tantas tecnicidades, mas ele se orgulhava do próprio empreendimento.

Já ela achava fofo o jeito que ele tomava conta dos próprios negócios, como se fosse um filho que ele mesmo pariu. Na cabeça dela, Ino formulava várias estratégias para alavancar e dobrar o rendimento anual dele, mas guardava tudo para si e apenas se fingia de idiota para ouvir o homem falar e falar daquilo com orgulho.

Ela não sabia quando tinha ficado tão mole, mas podia simplesmente deixar seu ímpeto de lado por um segundo para apreciar as histórias dele, afinal não estava fazendo nenhum sacrifício, e na verdade era bom estar com alguém que entendesse de administração de pequenas empresas, porque até mesmo com Sakura, que não era dada aos negócios, as conversas soavam muito técnicas quando iam para esse lado.

No geral, as coisas entre eles estavam indo melhor do que o esperado. Genma estava cumprindo sua promessa e estava dando tudo que Ino desejava, bastando que quisesse.

— Aliás, o casamento da Kurenai vai ser no próximo mês – Ele disse de maneira natural, gesticulando com os hashis na mão — Quando eu tiver a data certa eu te aviso, mas já coloca na sua agenda de eventos.

Soltou um ruído em dúvida.

— Eu vou ser convidada?

— É claro. Você é minha acompanhante. — Ele respondeu sem entender o porque da surpresa dela — Você não quer ir?

— Não, não é isso. – E maneou a mão com um gesto simples enquanto falava — É só que eu não tenho tanto contato com seus amigos. Eu sabia que Sakura seria convidada já que ela namora Kakashi, mas não sabia se iam me convidar só por estarmos saindo.

...

Só por estarmos saindo.

Genma se empertigou na cadeira olhando para a mulher enquanto aquela ultima frase ecoava em sua cabeça. Não soube dizer se sentiu algo mais profundo que aquele óbvio incomodo que tomou conta de si, mas definitivamente aquela frase não tinha caído bem com o café da manhã.

— Acho que já passamos da fase de só sair, não é? – Ele perguntou tentando mascarar seu sentimento ferido, evitando olhar aqueles olhos azuis que desvendavam qualquer mistério.

— Alguém realmente sai dessa fase? – Ela questionou divertida — Quer dizer, não importa em que estágio do relacionamento elas estão, as pessoas continuam só saindo – E riu ao final, achando engraçado os termos para as etapas de um relacionamento antes de um namoro.

Se conhecer. Sair. Ficar. Ficar sério...

— Você não acha importante definir coisas? – O outro perguntou ainda tentando fingir não estar incomodado com o que Ino tinha dito, porque só sair era algo tão aleatório, tão irrelevante.

— No geral, sim – Respondeu depois de um momento, olhando para ele com curiosidade, finalmente percebendo que havia algo naquela conversa — Quando você define algo, então isso ganha contornos mais nítidos e você acaba sabendo melhor até onde pode ir dentro desses limites. – Terminou olhando para ele de maneira séria enquanto ele parecia afetado — Genma, estamos falando sobre nós dois? – Ela perguntou diretamente, logo em seguida, porque eles eram assim.

Não perdiam tempo.

Ir direto ao ponto era algo que ambos apreciavam um no outro, e facilitava as coisas de diversos modos, mas isso não significava que não hesitassem em responder algumas vezes, porque haviam questões que eram muito mais complexas do que apenas um simples sim ou não.

Naquele momento, Genma pensou sobre isso, nas semanas que passaram juntos, no tempo que dedicavam um ao outro. Ino tinha seus próprios horários e uma agenda de compromissos complicada, mas sempre aparecia aleatoriamente no seu apartamento nos horários mais sórdidos apenas para reclamar de alguma coisa, ou simplesmente deitar no seu sofá e ficar no celular.

Para ele, tal gesto significava muito mais do que apenas um estou entediada e vim para cá, mas talvez tivesse interpretado errado. Talvez estivesse vendo coisas porque queria acreditar que Yamanaka Ino estava sintonizada na mesma estação que ele. E mesmo depois de saber tanto sobre ela, mesmo depois de tê-la confortado sobre seus sentimentos, mesmo depois de ela ter se aberto para ele de uma maneira muito mais íntima, ainda assim àquela altura Ino qualificava aquele relacionamento como só saindo, e ainda por cima ficava surpresa de seus amigos a incluírem nas atividades do grupo.

"Só saindo" uma ova.

— Sim, estamos falando sobre nós – Ele confirmou vendo-a concordar brevemente com a cabeça, num gesto que demostrava muito pouco sobre seus pensamentos, mas ele não podia recuar naquele momento, por isso ele apenas resolveu colocar as cartas na mesa e apostar tudo o que tinha — Eu estou tentando, Ino. Todo dia eu tento mostrar para você que estou sério sobre o que eu sinto, que tenho planos pra nós dois, mas você só parece enxergar o cara com quem você está só saindo.

— Genma...

— Eu não sei mais o que fazer. – Disse com sinceridade, olhando para ela com seu rosto tão sério. Ficaram em silêncio por um longo momento e o homem apenas balançou sua cabeça negativamente, recostando na cadeira enquanto a mulher o olhava incerta. — Você me faz sentir todas essas coisas, mas ao mesmo tempo é como se quisesse que eu simplesmente não sentisse. – E não a olhava mais, deixando suas pálpebras baixas numa fala que parecia mais um lembrete para si mesmo — Eu pensei que se deixasse tudo por você, você entenderia que eu estou na sua mão, mas parece que isso também não quer dizer muita coisa para você.

— Te falei que se você deixasse tudo por mim não iria poder reclamar depois.

— E eu falei que iria reclamar mesmo assim.

Eles se olharam num clima tão denso que poderia ser sentido na pele. Ino não se mexia, deixando seus olhos presos nos castanhos que se encontravam perdidos naquele mar de incerteza. Não percebeu que estava segurando o folego até meu peito doer e ela precisar respirar. Tentou fazer isso com calma, mas o ruído característico surgiu entre eles, soando como um suspiro.

Genma riu sem humor e Ino soube que ele tinha entendido tudo errado.

Na verdade, ela quem tinha entendido tudo errado.

Ino, naquele dia do nosso encontro eu te fiz uma pergunta e você optou por não respondê-la. – Sua voz surgiu de repente enquanto ele se permitia recordar aquele diálogo, os sorrisos dela, os olhares, o toque... — Confesso que na hora eu não me importei, mas ultimamente venho pensando nela... – Deu uma breve pausa, lembrando das palavras, do som da voz dela no céu noturno, do gosto do vinho, da expressão suave... — Qual era o problema? – Porque naquele dia, se ele ainda tinha dúvidas sobre o que sentia, Ino fez questão de acabar com todas elas.

Naquele dia, Genma se viu apaixonado.

Oh sim, aquela pergunta tão direta e reveladora que ele havia feito no terraço do seu prédio enquanto tomavam o rosé caro que tinham pego no restaurante do centro. Genma estava especialmente lindo naquele dia, e falava de um jeito tão despreocupado, como se fosse aceitar tudo o que pudesse acontecer para bem ou para mal.

Ela lembrava da pergunta dele, sobre o porquê de ela o ter levado em seu lugar secreto, e logo após sua breve explicação, ele pensou ter sido indelicado. Mas o fato dele ter respondido suas perguntas com tanta sinceridade não a incomodavam, entretanto...

Tamborilou seus dedos esguios cheios de anéis na mesa de madeira da casa do homem, que acabou sendo um local que ela ia com frequência nos últimos dias, porque ela sentia-se bem com ele de uma forma onde apenas a presença dele lhe deixava mais calma. Depois de tudo que acontecera com Sakura, Genma tinha se tornado alguém com quem a loira contava nos seus momentos menos assertivos.

Negar que se sentia bem na presença dele era mentir para si mesma, negar que sentia falta dele também soava como pura birra.

O olhou com cautela antes de desviar seu olhar. Quando tinha se tornado tão hesitante? Abriu sua boca apenas para fechá-la novamente, porque na sua mente, Genma estava dizendo nas entrelinhas que a amava, mas talvez fosse apenas o que ela queria entender de tudo aquilo, afinal "todos esses sentimentos" poderia significar tantas outras coisas.

Mas quando ele confessou ter deixado tudo por ela apenas para fazê-la sentir segura, aquilo soava em parte como se ele apenas estivesse pronto para que Ino conduzisse aquela relação como quisesse, sem que ele precisasse se envolver realmente. Afinal, estar na mão dela era algo muito abstrato, e a qualquer momento ele podia fazer sua fuga por entre seus dedos.

No final das contas ela só não queria fazer papel de boba naquela situação.

Porque ele não conseguia ser claro uma vez na vida dele? Se incomodando com algo tão irrelevante como um termo qualquer que com certeza não servia para o momento em que estavam, mas que era o melhor que ela podia pensar para não parecer que estava simplesmente forçando uma relação mais séria.

— Eu te levei lá porque você disse todas aquelas coisas sobre eu não deixar as pessoas entrarem, então eu te deixei entrar em um dos meus lugares mais íntimos. Eu estava tentando provar algo. – E riu brevemente porque aquilo soava tão idiota. — O problema, Genma... – Ela hesitou sentindo que se disse, tudo mudaria.

— Você ainda não consegue dizer? – Ele perguntou num tom que beirava a decepção — Você tem tanto medo assim?

— Sim – Admitiu com uma risada baixa em escarnio do próprio sentimento — Sim, Genma, eu estou apavorada, porque em todos os meus relacionamentos ninguém tinha esse potencial para me magoar como você tem.

Ele franziu o cenho diante da fala dela absorvendo as palavras enquanto olhava aquela expressão tão rara que Ino lhe mostrava. Era única, e ele sabia que desapareceria logo em breve, e que a partir daquele momento ele deveria ser o mais honesto possível, porque Ino também estava colocando todas as cartas na mesa.

Estava tudo exposto.

— Você fica falando sobre sentimentos, mas nunca é claro o suficiente. Fica com raiva por eu não ter uma definição melhor para o nosso relacionamento, mas você tem? – Perguntou tão honesta — A única coisa que você me pediu, Genma, foi para não ser minha transa de uma noite, e bem, hoje eu te digo que você nunca foi isso.

E o olhou temerosa, completamente desprotegida.

Sim, Genma nunca foi sua transa de uma só noite, porque mesmo antes daquele fatídico encontro, mesmo antes daquelas conversas por mensagem, mesmo antes de aceitar o conselho de Sakura e continuar falando com ele, Ino sabia que estava correndo um enorme risco deixando Genma ficar em sua vida.

Sua intuição nunca falhava, e por isso ela ficou tão hesitante em dar a ele outra chance. Ela sabia que no fundo tudo ia acabar com sentimentos envolvidos, e que provavelmente a única que iria sofrer com isso era ela, porque Genma era um homem de várias, e ela uma mulher de si mesma.

E apesar de inúmeras vezes ter se sentido única ao lado dele, quantas vezes ele já não tinha feito a mesma coisa com outras mulheres? Quantas vezes elas não baixaram a guarda para que, no outro dia, Genma simplesmente se visse cansado delas e partisse em busca de uma nova aventura?

Naquele dia, no terraço de seu prédio, enquanto afirmava para si mesmo que só queria sexo, Ino sabia no fundo de seu ser que na verdade ela estava completamente apaixonada por um homem que era especialista em fazer uma mulher se apaixonar, e mesmo que tivesse sido só aquela noite, ainda assim, Genma jamais seria sua transa de uma só noite.

E olhando para aqueles olhos castanhos que pareciam hesitantes diante de sua fala, Ino se sentia vulnerável de um jeito que nunca antes sentiu-se. Genma já tinha uma estranha habilidade de ver através dela, mas naquele momento era como se Ino fosse completamente transparente.

— Diga alguma coisa, Genma. – Ela pediu em puro nervosismo.

Ele continuava a observá-la, vendo sua expressão temerosa diante de si. Estava levemente corada de um jeito tão atípico, e suas mãos jaziam inquietas em seu colo, com sua postura perfeita fazendo-o lembrar que mesmo nesse estado de vulnerabilidade, Yamanaka Ino ainda tinha todo o poder.

— Você disse que eu não sou claro o suficiente sobre o que sinto, não é? – Ele perguntou e ela apenas franziu o cenho, concordando com a cabeça brevemente. O tom de voz dele havia mudado, deixando toda aquela frustração de lado para ser substituído por algo sóbrio — Mas você também me perguntou sobre eles. – A viu abrir a boca, mas ergueu um dedo ao ar para calá-la — Eu preciso que você pergunte.

— Porque?

— Porque eu preciso ter certeza que você quer saber.

Se olharam por um longo momento e os olhos azuis jaziam hesitantes. Como assim ele precisava ter certeza? Ela era quem precisava ter certeza naquele momento, afinal ele quem estava propondo que avançassem naquilo. Ele precisava dar certeza ela.

— Vamos, Ino – Disse se inclinando na direção dela, seus olhos ainda sérios a mirando — Faça a pergunta.

Tão ansioso, tão desesperado... Mesmo com aquele timbre sério, Genma parecia estar cheio de expectativas com relação àquela pergunta, como se tivesse uma carta na manga que precisava ser tirada dali imediatamente.

Mas ela queria saber?

Céus...

Qual era o seu problema?

Ela fechou os olhos sentindo que estava a explodir com aquela pressão sobre si. Sim, ela entendia a necessidade dele, era a garantia que não estaria dizendo nada que a assustaria, mas a mulher realmente poderia dizer que estava preparada para o que vinha depois daquilo? Porque todos os jogos acabariam ali, todas as entrelinhas deixariam de existir, e não teria mais espaço para hesitar.

Era o momento de se jogar.

...

— O que você sente, Genma?

Disse por fim sentindo que seu coração poderia saltar de sua boca a qualquer momento, pois suas batidas ecoavam por todo seu corpo. Ela sentia na palma das mãos a força com que seu pobre coração trabalhava dentro de seu peito.

Demorou apenas um instante. Em menos de um segundo, Genma assumia aquela expressão esperta de quem estava prometendo tudo.

— Eu te amo, Ino.

Sentiu-se ficar vermelha de uma maneira muito rápida. Colocou uma mão no próprio peito sem perceber enquanto escutava aquelas palavras ecoarem dentro de si com velocidade. Abaixou sua cabeça enquanto esticava a mão até ele, precisando senti-lo de alguma maneira para saber que ainda estava no plano real.

Foi quando ele segurou sua mão e levou para o seu próprio peito, e ela sentiu as batidas aceleradas por cima do tecido branco. Ela sentiu o nervosismo dele em revelar sentimentos tão profundos de si. Era tudo verdade, tudo estava tão claro como o dia naquele momento.

— Eu te amo, Yamanaka – Ele repetiu mais como aquele Genma que se fazia de idiota — Eu te amo, Ino! – Disse mais uma vez, levantando-se da cadeira de maneira brusca enquanto tirava seu avental brega — Eu amo Yamanaka Ino! – Gritou com os braços abertos enquanto ela apenas começava a rir com o repentino show.

— Pare com isso! – Pediu bem humorada enquanto o homem a olhava ainda mantendo os braços abertos.

— Só paro quando você vier aqui. – Ele alertou com sua expressão cínica.

Céus... – A loira resmungou passando a mão pelos cabelos enquanto se levantada de maneira tímida, indo até os braços dele para enlaça-lo com seus braços e beijá-lo a boca de maneira suave, lenta e tortuosa, se deixando levar pelo sentimento de excitação e paz que lhe invadiam, porque finalmente não havia mais dúvidas.

— A partir de hoje, se você me apresentar como peguete para alguém, eu vou fazer birra como uma criança de 5 anos e você vai ter que me adular. – Ele alertou divertido, fazendo-a rir enquanto sentia a mão dela pousar em seu rosto num afago gentil.

— E como eu devo te apresentar? – Ela perguntou em seguida, ouvindo o celular tocar sob a mesa, resolvendo instantaneamente que iria ignorar.

— Como seu namorado, é claro. – O outro falou cheio de certeza.

— Não mesmo – Ela rebateu com seu olhar leve, vendo o cenho dele franzir tão rápido como se todo o momento tivesse ido pro saco. Ela riu — Para que eu te apresente assim, você precisa fazer um pedido de namoro decente. – Informou com humor — Não é assim que funciona comigo, Shiranui Genma.

Ele riu recuperando seu bom humor.

— Entendido – Ele assentiu beijando-a novamente nos lábios, dessa vez mais rápido — Me aguarde.

— Não demore. – Ela disse com um sorriso, ouvindo em seguida seu celular voltar a chamar — Kami, quem tá me ligando?

— Shikamaru – Genma respondeu olhando para o celular na mesa atrás de Ino — Você precisa atender?

Ino bufou.

— Sempre inconveniente. – Resmungou se soltando dos braços de Genma, dizendo que aquilo não iria demorar. — Espero que sejam boas notícias, Shikamaru. Não aguento perder mais dinheiro. – Ralhou ao atender, colocando o celular no viva voz enquanto voltava ao abraço de Genma, sentindo que não queria perder nenhum segundo daquilo.

Isso não tem nada a ver com a bolsa, Ino – Respondeu do outro lado da linha com sua voz preguiçosa um pouco menos preguiçosa. — Você pode falar? É sobre o caso da Sakura.

— Você finalmente descobriu alguma coisa? – Ela perguntou mais urgente, esquecendo completamente de Genma. — Diga logo.

A mulher se soltou dos braços de Genma e sentou-se à mesa novamente, olhando para o celular como se Shikamaru estivesse pessoalmente na sua frente. Genma sentiu a urgência da situação e sentou-se com ela, também ansioso com as informações.

Eu achei o Sasori – Ele revelou depois de um momento — E Ino, ele não está em Kyoto.

— O que? Como assim? – Questionou confusa — E onde ele está?

No inferno, provavelmente, já que ele está morto.

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GENTE DO CÉU. Obrigada por todos os comentários! Eu adorei saber que vocês estão gostando da fic e espero que curtam esse capítulo também!

Feliz Natal e Prospero ano novo a todos 3