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Brick
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Viva.
Era como sentia Kyoto e todas as suas ruas. Todos os lugares daquela cidade eram simplesmente efervescentes à sua maneira. O peso histórico das construções, o simbolismo de seu nome, o legado das famílias e todas as tradições. Tudo o que ela conhecia de Kyoto a fazia amar cada vez mais aquela cidade. Queria vivê-la em toda sua plenitude, porque Kyoto era simplesmente maravilhosa de uma maneira única.
Quando sua família se mudou para lá ainda muito nova, Sakura não foi resistente. Ela queria muito sair de Hokkaido e fazer parte de um lugar que parecia ter muito mais histórias para contar. Em Hokkaido, ela era a garota da testa enorme que não fazia nada direito. Não tinha amigos, não tinha apego. Desde seu cabelo rosa e seu corpo franzino até a ascensão econômica e suas boas notas, tudo era motivo para que as pessoas fossem maldosas com ela.
Era como se tivesse sido escolhida para ser uma outsider. Sempre excluída e sem perspectivas, Sakura se limitava a aceitar o que a vida a tinha dado, o que não era pouco. Tinha pais amorosos, não precisava se preocupar com seu futuro, brinquedos nunca lhe faltaram. Mas havia essa outra parte da sua vida que era apenas miserável e ela nunca entendeu porquê.
Talvez tivesse nascido para sofrer de alguma forma.
E tudo bem.
Todo mundo sofre em algum aspecto, todo mundo supera, todo mundo continua vivendo. Foi assim que ela passou sua breve fase em Hokkaido, ignorando seus colegas de classe e fazendo amizade com os adultos que prestavam serviço em sua casa. Daquele lugar, ela lembrava da sua mãe e o inseparável sorvete de coco com abacaxi, que ela odiava no começo, mas que com insistência, aprendeu a gostar. Nunca achou um sorvete de coco com abacaxi que tivesse o gosto de Hokkaido, mas todos tinham gosto de infância.
De Hokkaido, Sakura também guardava as histórias de seu pai. Guardava os passeios na chuva, porque sua mãe amava chuva. Guardava a amendoeira no quintal, o balanço quebrado, as bonecas de pano e a rua estreita na parte de trás do bairro onde morava que raramente tinha movimento e ela podia descer de patins apenas para sentir aquele frio na barriga tão gostoso. Naquela época, aquela rua ladeirada parecia enorme e perigosa, mas em alguns momentos de sua vida posterior, Sakura imaginava se ainda sentiria aquele breve medo em descê-la.
A felicidade vinha nas pequenas coisas, e honestamente, desde cedo Sakura desacreditava numa vida completamente feliz. Ninguém era feliz o tempo todo. Tristeza era necessária para fazer as pessoas entenderem o que de fato é felicidade, e esta poderia vir de tantas formas... Seja num pequeno elogio, num olhar curioso, num suspiro de rendimento...
Felicidade às vezes nem tinha cara de felicidade.
No dia que conheceu Ino pela primeira vez, Sakura não se sentiu feliz nenhum pouco. Tinha se mudado de Hokkaido para um casarão de três quartos na boa e velha Kyoto. Seus pais estavam recebendo um figurão numa casa cheia de caixas de papelão e poucos móveis. Conversavam animados, cordiais. Ela não lembrava muito bem da conversa, mas lembrava do cheiro de flores que aquele homem tinha, como se dormisse num quarto cheio delas, e em seu braço, agarrada em seu pescoço, uma menina loira de olhos afiados jazia com um rosto enigmático.
Se olharam por... Três? Quatro segundos?
Ela não sabia dizer. Foi só o tempo de registrar a menina na mente, que estava num vestido laranja como se fosse uma pequena princesa, enquanto Sakura estava com sua blusa branca suja de suco, shorts e meias de pares diferentes. Era uma memória nítida, porque Sakura se sentiu esquisita. Ela sequer se anunciou, apenas deu uma olhadela lá de longe no corredor e voltou correndo para onde seria seu quarto cor-de-rosa com o coração acelerado por nenhum motivo aparente. Parecia ter sido pega fazendo algo que não devia, apesar de nada sugerir tal coisa.
Foi só na escola que ela descobriu que aquela era Yamanaka Ino.
O uniforme dela parecia ser de um tecido melhor, ainda que no fundo soubesse que era o mesmo de todos os outros. Também parecia melhor passado, com os vincos bem profundos. Tudo que ela tocava parecia ter uma qualidade melhor, e ela tinha tantas amigas, até os meninos conversavam com ela como se ela fosse uma insider.
Sem dúvidas ela fazia parte de tudo aquilo.
Não demorou para que as pessoas notassem Sakura, seu cabelo-holofote e sua testa de marquise. Honestamente, ela torceu para se passar despercebida, mas no fundo sabia que era impossível. Escola diferente, cidade diferente, os mesmos problemas, os memos apelidos. Já estava acostumada e agiu de maneira padrão: Se isolou para sobreviver.
Na primeira semana, Sakura não falou com ninguém. Nem mesmo com Naruto e seus imensos olhos azuis que, de maneira genuína, a chamou de bonita. Era a primeira vez que uma pessoa não-adulta a chamava assim, e aquilo a assustou pouco, talvez por isso ela tenha apenas fugido. Na segunda semana, os bullys ficaram mais afiados, mas ela já esperava isso. Começou a ir ao banheiro com frequência.
Mas naquele dia fatídico, Yamanaka Ino estava lá lavando suas pequenas mãos com um sabão que parecia muito mais cheiroso quando vinha dela, e Sakura percebeu que ela também cheirava a flores, como se dormisse num colchão feito delas. Elas se olharam por um longo momento e novamente Ino soou enigmática.
O que ela estava pensando?
Sakura nunca perguntou e Ino nunca lhe disse.
Mas o inesperado aconteceu com um simples "seu cabelo é bonito", e logo após os olhos azuis se tornavam curiosos quando ela chegava mais perto de uma maneira quase invasiva. Sakura recuou, mas havia uma parede logo atrás de si, e Ino não a poupou de um logo suspiro. "Você o estraga com essa franja".
Um simples elogio, um olhar curioso e um suspiro.
Felicidade que não parece felicidade.
"Venha aqui amanhã a essa hora, eu tenho algo pra você."
Foi o que ela disse logo em seguida logo antes de dar um breve sorriso e sair do banheiro sem esperar uma confirmação, deixando uma atônita Sakura para trás, um tanto desconfiada, um tanto temerosa. Caso tivesse faltado àquele encontro, como seria sua vida? Ela teria outra oportunidade? O destino as uniria?
Sakura não sabia.
Honestamente, Sakura não se importava, porque ela foi ao encontro de Ino naquele outro dia e recebeu uma linda fita vermelha com o qual amarrou seus cabelos, e de repente, ela tinha um novo penteado e uma amiga.
Tinha sido muto mais do que ela um dia pôde pedir.
Kyoto lhe deu muito mais do que perspectiva e um recomeço, Kyoto lhe felicidade e uma amiga para a vida toda que tinha lhe dito coisas tão gentis quando sequer se conheciam direito.
"Você ainda é só um botão, Sakura, mas acredite: você vai desabrochar numa linda flor"
E mais que isso, tinha também Sasuke, seu primeiro amor. Tinha Naruto, seu amigo espalhafatoso que sempre estava do seu lado. Tinha Hinata, Kiba, Lee, Shikamaru, Sai, Temari, Gaara... Tinha todos eles que vieram com o pacote. Tinha as festas, as histórias, as saídas, as conversas... Tinha o clima, o jardim botânico, tinha o canal e a praia, tinha... Tantas coisas.
Tinha Kakashi.
Era muito mais do que ela podia pedir. Muito mais.
E naquele dia, enquanto estava sendo acompanhada ao banheiro do hospital que conhecia como a palma da sua mão, Sakura sentia como se tudo estivesse sendo tirado dela. As coisas que aquela cidade lhe tinha propiciado estavam lentamente escorrendo entre seus dedos como se jamais tivessem sidos suas. Ino ainda era Ino, mas e quando ela percebesse que a amizade que construíram tinha um preço alto demais e que só ela pagava? Quando Naruto e Sasuke iam perceber que ela era apenas o terceiro elemento dentro da dinâmica deles? Quando Kakashi ia admitir que a bagunça que ela havia levado a vida dele não valia a pena?
Estava de cabeça baixa ouvindo seus próprios passos, vendo seus tênis amarelos ficarem nublado, porque aquelas lágrimas inúteis ficavam indo e vindo o tempo todo. Era a única coisa que sabia fazer. Era a única coisa que podia fazer.
Algumas pessoas nasceram para sofrer.
Tudo bem.
Mas as pessoas ficavam lutando por ela, talvez porque sentissem que ela era incapaz de lutar por si mesma, o que não era bem uma verdade. Sakura lutava todos os dias por si mesma. Todos os dias, Sakura enfrentava uma batalha consigo mesma para continuar, e às vezes era tão fácil, mas haviam dias que ela só queria morrer.
Nos últimos dias sair da cama era algo inconstante. Sem pensar muito, ela se comprometeu a fazer o que tinha que fazer. Se manter forte e saudável era difícil quando você tinha em mente que todos estavam tendo trabalho porque sua teimosia era grande demais. Podia ter ido para a Coréia e encerrado Kyoto de uma vez por todas. Era a coisa certa a fazer.
Entretanto, sua vida toda estava ali. Quem ela era e o que queria ser. Seus sonhos, suas metas. Tudo começava e terminava em Kyoto.
Tudo terminava em Kyoto.
...
Essa frase ecoava em sua mente enquanto ela imaginava, no curto espaço de tempo em que andou do corredor ao banheiro, em todas as possibilidades. Uma médica de sucesso coordenando cirurgias cada vez mais difíceis e obtendo êxito em todos os casos. Uma empresária em ascensão que as pessoas respeitavam pela sua posição. Uma amiga fiel em todos os casos, tomando café numa mansão cheia de flores enquanto ouvia Ino falar sobre seu dia. Uma namorada leal, talvez esposa quem sabe? Céus...
Haviam tantas possibilidades... Tantas coisas que queria fazer e descobrir sobre si mesma, sobre o futuro que a esperava. Sakura viveu todas as possibilidades dentro de um segundo apenas de uma forma solene e respeitosa, porque ela tinha absolutamente tudo o que queria, tudo o que uma garota poderia querer, e tinha vivido uma vida incrível, então, naquele momento, ela não tinha arrependimentos.
Entrou no banheiro sem sequer olhar para seu acompanhante. Um Uchiha policial era raridade, mas não era como se ela estivesse realmente chocada. Ela sentia como se estivesse fora daquele lugar e Obito era meramente alguém que estava ali sem de fato existir. Não se importou em agradecer ou falar qualquer coisa. Sakura apenas foi ao banheiro, e naquele momento ela viu seu reflexo.
...
Seus pensamentos cessaram por um momento enquanto seu reflexo a encarava com tristeza e choque. Deu alguns passos débeis até a pia mais próxima, ligando a água como um gesto não pensado. O barulho era suave, mas alto o suficiente para que ela pudesse ouvir aquilo por um longo momento antes de mergulhar suas mãos ali embaixo. Jogou água no rosto se concentrando nos movimentos, no cheiro de limpeza do banheiro, na sensação meio quente que invadia o local pelo postigo.
Repetiu mais algumas vezes até sentir seus olhos arderem pela água que os atingia inevitavelmente. Inspirou com força enquanto as gotículas caíam pela sua roupa, trazendo uma sensação molhada para o seu colo de maneira breve. Ela parou segurando as laterais da pia. Manteve a cabeça baixa sentindo que estava prestes a chorar novamente.
Kakashi...
Toda vez que ele pairava em sua mente era como um soco forte no estomago. Ela só estava causando dor a ele nos últimos dias, e era tão injusto que ele estivesse sofrendo por conta do passado que era dela e apenas dela. Suas decisões de antes não deviam afetá-los daquela forma. Era para que, supostamente, Kakashi fosse seu recomeço livre de tudo o que passou com Sasori.
Kakashi só lhe dava amor e em retribuição, ela lhe dava uma história policial.
No seu braço jazia relaxada aquela pulseira que ele havia dado a tanto tempo. Ela ainda lembrava da discussão que tiveram no mesmo dia, e também lembrava da expressão dele num misto de vergonha e orgulho. No Jardim Botânico, local de seu primeiro encontro, ele lhe deu uma joia sem fazer aquilo soar como se estivesse indo rápido demais, mas ao mesmo tempo era significativo de diversas maneiras.
Ela nunca tirou do braço, nem quando Ino resmungou que não combinava com a roupa que ela usou em um dos eventos que foram. Não importava se combinava ou não, não importava se suas roupas serviam com as esmeraldas que brilhavam na luz. Sakura apenas sentia que não queria mais ficar sem aquilo e sentia, mais ainda, que mesmo que não ficassem juntos, ela jamais tiraria aquilo de si, porque...
... Porque Kakashi a libertou.
Mordeu o lábio com força enquanto tentava se controlar. Ela devia libertá-lo, devia libertar todos eles...
— Você está bem?
Ela girou o rosto sendo pega de surpresa pela voz masculina que soava rebatida nos azulejos encardidos do local. Sakura olhou para Obito que estava dentro do banheiro feminino sem nenhuma cerimônia. As mãos nos bolsos o deixavam com uma aparência relaxada apesar da gravata alinhada trazer algum tipo de seriedade ao seu semblante.
Camisa negra, gravata vermelha, paletó. Não parecia com algo que um policial em serviço usaria apesar de que na posição que estava, seu coldre ficava bem evidente com sua pistola bem guardada. Ninguém que não tivesse porte de arma exibiria algo daquele tipo de uma maneira tão descuidada. Nem mesmo um Uchiha.
Sakura hesitou quando ele se aproximou um pouco mais, colocando uma mão em seu braço como sinal de seu apoio. Seu rosto era calmo e ele parecia estar complacente com sua situação, mas Sakura não o queria por perto, porque estava prestes a fazer algo que iria resolver tudo para todos.
Estava disposta a encontrar Sasori.
Ela devia isso a eles, não é? Era o mínimo que podia fazer. Se as pessoas com quem ela se importava estivessem livres, então ela não se importaria de ser alguém capaz de tomar esse tipo de decisão. Não era uma vitória de Sasori, mas sim uma decisão de Sakura. A vitória dela era saber que todos eles estariam em paz finalmente.
Mas se isso estava estabelecido, então porque ainda estava hesitando? Porque ainda estava tão relutante?
Era tão confuso, tão horrível. Ela não queria ser um mártir, não queria sacrificar nada. Sakura só queria viver a sua vida sem se preocupar que seu ex maluco poderia voltar a qualquer momento. Queria que Ino pudesse se preocupar com coisas mais simples, que Kakashi pudesse ter sua foto com seus oito cães, queria parar de trazer problemas aos seus pais e Tsunade. Queria...
Queria só...
— É engraçado como você me lembra a Rin nesses momentos.
Sakura o olhou confusa com as palavras que saiam da boca dele. Obito lhe olhava com um sorriso indecifrável apesar de seus olhos terem mudado. Não era o mesmo de minutos atrás. Aquele era outro homem. Outro Obito.
A mão dele tocou sua tez com uma delicadeza estranha. Ele enxugou uma lágrima solitária que escorria de seu rosto com uma melancolia tão poderosa a ponto de fazer Sakura sentir aquilo misturar-se aos seus sentimentos já confusos. Ela não entendia porque ele estava fazendo aquilo, também não sabia porque a comparava com Rin.
— Eu nunca tive curiosidade em conhecer você, mas vendo você aqui desse jeito, acho que consigo entender porquê eles se apaixonaram por você.
...?
— Como?
Os cantos do lábio masculino repuxaram para cima, o sorriso distante brotou em seu rosto, mas seus olhos não sorriam juntos. Ao invés disso, Sakura sentia como se aqueles olhos negros estivessem prestes a destroçá-la.
O homem avançou de repente e Sakura o empurrou por reflexo. Ele estava tentando beijá-la? Era isso? Sua respiração acelerou enquanto ela tentava se desvencilhar dele em meio a surpresa e confusão, mas ele apenas a imobilizou para fazer sua língua quente e áspera arranhar seu rosto com uma lambida que Sakura definitivamente não pediu.
— Suas lágrimas são salgadas – Ele disse depois de um momento — Mas todas são, não é?
— O que você está fazendo? – Inquiriu indignada.
Riu da expressão que ela fazia.
O choro a deixava mais bonita, com aquele nariz avermelhado e os olhos um pouco inchados. Ela o lembrava de Rin quando mais nova, com seus olhos grandes e sorrisos gratuitos. Havia, é claro, obvias diferenças. O nariz era diferente, e Sakura não tinha bochechas tão salientes, mas os olhos... Sakura parecia Rin.
Era por isso que Kakashi tinha se apaixonado por ela? Porque ela era uma versão pura de Rin? Ele sabia que ela tinha sido a boneca de Sasori e que de pura não tinha nada? Se soubesse, então a trataria do mesmo jeito que tratava Rin ou sentiria repulsa por tudo que ela passou? Será que ele a amava tanto a ponto de superar o passado dela, porque honestamente, se ele não levasse a vida que tinha, jamais aceitaria alguém tão usada como Sakura.
Mas ele conseguia entender o apelo que ela tinha.
Ela era bonita de um jeito fofo. Sua voz era agradável, o cheiro também, e quando chorava era como se sua beleza surgisse de forma mais intensa. Era como se ela gritasse que precisava de alguém para cuidar dela, como um cãozinho abandonado, e ele sabia que Kakashi adorava cachorros sarnentos.
Já Sasori...
Aquele cara sempre foi meio doente, gostava de algumas esquisitices... Sim... Ainda lembrava daquela história bizarra sobre comercializarem bonecas humanas. Já não bastasse o que eles faziam, Sasori queria evoluir o negócio para algo ainda mais surreal, e o pior é que já tinha arrumado compradores.
Bizarro!
Sakura parecia uma boneca também. Rin era mais como uma mulher real, mas Sakura tinha uma pele tão macia, quase como se não fosse real. Tinha também aquele cabelo rosa e seus olhos tão verdes que pareciam pedras preciosas. Era como uma boneca. Talvez fosse isso que Sasori tanto gostou nela.
Porém, no caso dele mesmo...
Bem...
— Não chore, criança, ou você vai me fazer apaixonar-me de verdade por você. – Ele disse sorrindo daquele jeito meio errado.
Fukago uma vez lhe disse que ele sorria demais. Uchihas não sorriem daquela forma, principalmente em público. Uchihas são sóbrios, distantes e impiedosos. Foi só por isso que Obito desmanchou seu sorriso rapidamente, mas vendo a expressão de surpresa no rosto daquela menina tão confusa, Obito só queria rir um pouco mais. A coitada não devia estar entendendo nada.
Tudo bem!
Ela não precisava entender, pelo menos não naquele momento.
— Me deixe ir.
Oh...
Aquela expressão, aquela voz. O olhar...
Ferocidade.
Ele tinha observado ela por tanto tempo, indo aos locais que ela ia, vendo-a com Kakashi em todos os momentos. Tinha que admitir que era como estar vendo um filme de romance, tão meloso, tão bonito. Haviam situações que Obito até imaginava um diálogo e trilha sonora. E quem diria que Kakashi gostava das novinhas. Se soubesse, podia ajudá-lo com alguém um tanto mais nova.
Riu do próprio pensamento.
Sakura já era uma mulher. Kakashi gostava de mulheres, principalmente dessas com esse tipo de expressão tão feroz. Lembrava daquela confissão dele durante aquele jogo idiota de verdade ou consequência quando tinham 18? 19? Dizendo que a Rin ficava muito mais sexy quando estava zangada.
Pelo que sabia, Kakashi era meio sem sal na cama. Transava como uma menina virgem. Então a declaração não fazia muito sentido àquela altura.
Mas Obito entendia o apelo. Ele também gostava quando Rin ficava zangada, com aquela expressão puta, o chupando raivosa. Adorava aquilo e quase conseguia ver Sakura lhe fazendo aquele boquete quando ela lhe lançava aquele olhar. Ela era uma mulher bonita, com bons atributos. Aquelas pernas eram dinamite.
No entanto, Sakura estava ali diante de si esperando uma resposta. Talvez achasse que sua fala dotada de um empoderamento que ele não sabia de onde tinha surgido iria fazer algum efeito. Era coisa de gente rica. Achavam que com uma fala mais alta, uma expressão feroz e a postura correta fariam qualquer um que não tivesse tanto dinheiro recuasse.
Nisso ele admirava Kakashi, porque ele nunca foi assim. Quando ele falava com alguém desse jeito, nunca parecia que era a confiança do dinheiro por trás de sua fala, mas sim a confiança de alguém que sempre foi perfeito.
— Só se você me der um beijo – Ele respondeu por fim tentando uma voz brincalhona.
Ele não sabia se tinha folgado seu aperto em algum momento ou se ela tinha a força de um gorila, mas absolutamente do nada ele sentiu o punho dela atingir-lhe o queixo de maneira que sua vista ficou escura por um momento.
Porque as mulheres ficavam tão nervosas com uma brincadeirinha? Pff..
Cambaleou para trás sentindo o rosto vibrar enquanto percebia a movimentação dela na tentativa de fugir. Ele precisava agir rápido, afinal ela não podia escapar de maneira alguma. Chega de brincar com ela, chega de papo furado. Aquela menina tinha culpa em todas as desgraças de sua vida, então ele forçou seu corpo vacilante na direção dela, puxando seu braço no momento em que ela alcançou a porta.
— Se você sair por essa porta eu acabo com o frouxo do seu namorado e a vagabunda da sua amiga. – Ele disse sem tentar melhorar sua voz. Ainda se sentia atordoado pelo soco apesar da vista ter retornado ao normal. Sakura tinha um bom soco, tinha que admitir.
A ameaça pareceu surtir efeito, porque lá estava uma Sakura hesitante. Provavelmente a moça ainda não estava entendendo muita coisa, mas ele explicaria tudo devidamente quando a levasse para outro lugar. Sim... Porque ele sabia que havia uma investigação rolando, e sabia que o linguarudo do Kabuto havia falado demais. Com o acidente que provocou, ele sabia que logo a corja logo estaria através deles feito cães de caça atrás de sua presa.
Além disso, naquele momento ele teve uma ideia legal para Sakura. Matar ela seria um desperdício. No mínimo ele queria se divertir um pouco.
Ela parecia com Rin afinal.
— Quem é você? – Ela perguntou mais firme e talvez esperasse uma resposta mais ameaçadora, mas ele achou que por hora aquele apelido besta serviria, afinal ela era a mulher de Sasori. Ela sabia quem ele era.
— O nome Tobi é familiar para você? – E sorriu quando a expressão dela vacilou. Feroz, mais ainda era apenas uma criança que havia se metido em algo muito maior que ela.
— Cadê o Sasori? – Ela perguntou e ele quis rir.
Depois de tudo o que ela passou na mão daquele cara, Sakura ainda conseguia perguntar aquilo como se estivesse genuinamente preocupada com ele. Era bizarro. Na verdade, talvez ela pensasse que ele poderia salvá-la como costumava fazer, mas ela não tinha como saber que tudo o que ele fez foi para protegê-la, não é?
Sasori deveria estar se revirando no túmulo àquela altura. Tudo o que ele fez, tudo que ele passou jogado no ralo porque ela se apaixonou pelo cara errado de novo.
— Você vai vê-lo em breve – Obito respondeu dando os ombros enquanto passava a mão pela cintura dela, conduzindo-a para a porta — É para isso que eu estou aqui. Vou te levar até ele, Sakura. – Falou de maneira enigmática enquanto andava pelo corredor com a moça, enfiando a mão no bolso dela apenas para jogar o celular que encontrou no corredor — Agora seja boazinha e me acompanhe até o carro sem nenhuma surpresa.
No final das contas, mesmo com a força de um gorila, Sakura era apenas uma garota assustada. Nem aquela máscara feroz era capaz de esconder a hesitação do seu olhar.
Ela era dele agora.
E ele faria o que quisesse.
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As algemas pesavam em seus punhos com o metal pesado. Olhou vagamente para a mescla do ferro com o ouro fino e lustrado da pulseira sem saber exatamente o que estava sentindo. Medo era algo muito inexato, mas naquele momento era uma palavra que poderia ilustrar seus receios. Estava num carro velho preto deitada no banco de trás sentindo o sacolejo do trajeto enquanto Obito cantarolava uma canção de maneira tão calma.
Não chorava, mas havia essa vontade de vomitar que permeava seu estômago. Talvez fosse por conta da posição que estava no veículo, mas ela sentia como se pudesse por todo seu café da manhã para fora. Sua cabeça zunia no ritmo daquela canção idiota enquanto seu cérebro processava o que estava por vir.
Sasori a estava esperando, e tinha mandado Tobi pegá-la?
Não fazia sentido.
Pelo que lembrava, Tobi era o homem que mandava os outros fazerem coisas. Sasori respondia à Tobi, então porque era aquele homem, Uchiha Obito quem estava lhe conduzindo até aquele fatídico encontro? Algo não estava certo.
Mas Sakura também não se importou.
Ao contrário, ela não podia se importar menos. Era como se sua mente estivesse trazendo à tona aquele lugar que costumava ficar quando não queria sentir. Um lugar de indiferença que a acolhia de bom grado nos momentos que mais precisava. Sakura não fazia ideia do que iria acontecer consigo a partir daquele ponto, mas naquele momento a única coisa que importava era que finalmente aquela história estava em seu final.
Não soube por quanto tempo ficou naquele carro na mesma posição. Em algum momento sentiu-se chorar, mas não sabia exatamente porquê. Aquelas algemas não eram necessárias também. Eram pesadas e feias, e Sakura tomava cuidado para que elas não arranhassem sua pulseira preciosa. É, parecia que sua mente era confusa o suficiente para focar em coisas tão aleatórias num momento em que sabia que estava voltando para os braços do seu tão amado Sasori.
Tentar fugir não era uma opção em sua mente vacilante.
Não tinha forças para isso. A exaustão de semanas tentando se manter firme e sã cobravam seu preço quando ela mais precisava, mas pudera! Kakashi estava hospitalizado por um acidente que obviamente não era um acidente, e Sasori finalmente fazia um movimento mais ousado sabendo exatamente que seu momento mais vulnerável seria aquele onde a pessoa que lhe deu tudo se tornava o maior dos alvos.
Olhava para o estofado do banco da frente, tão sujo. Não eram bancos de couro como estava acostumada e o assoalho tinha mais poeira do que um prédio abandonado. O carro cheirava a aromatizador barato e o motor fazia o veículo tremer de maneira estranha de tempos em tempos. Vejo e sujo, seu destino estava na garantia de um carro tão maltratado quanto ela.
E Tobi continuava a assobiar aquela mesma música ainda que o rádio estivesse desligado. Soava tranquilo, quase satisfeito. Talvez eles tivessem recuperado o dinheiro que perderam naquela época e seus negócios estivessem melhorando. Aquele bom humor não combinava com as palavras de Sasori sobre o homem, que parecia sempre estar pronto para fazer alguém pagar por qualquer erro que cometesse.
Tobi, Tobi, Tobi...
O tão falado era alguém que provocava certo receio em Sasori de forma que o homem tentava andar numa linha aceitável para o chefe de toda aquela organização. Às vezes ela tentava imaginar o quão assustadora seria sua aparência. Talvez fosse como nos filmes de Yakuza, onde os homens são desconfiados e mal encarados, todos tatuados.
Nunca imaginou que seria um homem sorridente como aquele, com uma voz arranhada, mas ainda assim parecia gentil. Tinha olhos bons também quando queria ter, então era apenas um dissimulado. Tobi era um homem dissimulado. Talvez isso fosse o mais assustador sobre ele, ela não sabia dizer ainda se conheceria algo que causasse mais temor, mas até mesmo sua ameaça tinha soado suave, como se ele não precisasse fazer alguma expressão maléfica para se fazer entender que ele falava sério.
Pessoas assim são as mais perigosas.
Não dava pra duvidar de alguém assim.
Ela sentiu passar por uma lombada e pouco depois pararem. O homem falou com alguém, parecia ser um porteiro. Estavam entrando em uma propriedade privada. Pensou quando o homem da voz desconhecida apenas disse seja bem-vindo, senhor Uchiha.
Uchiha.
Fazia sentido que um homem legendário como Tobi fosse integrante de uma das famílias mais abastardas de todo Japão. Ele lembrava todos os Uchihas em algum aspecto, mas ao mesmo tempo era tão diferente. Obito parecia uma criança grande com seus sorrisos e expressões de preocupação, algo que nem Sasuke em sua infância conseguia externar muito bem.
Será que Itachi sabia?
Era difícil acreditar que alguém tão gentil quanto Uchiha Itachi deixaria uma organização que comercializada pornografia infantil surgir a partir de um membro de sua família. Fugaku era orgulhoso demais e nunca permitiria que algo assim acontecesse em sua vigília como líder do poderoso clã. Nada deveria manchar a honra daqueles que ajudaram a estabelecer o Japão como ele é hoje.
Mas Fugaku já não era mais o líder da família, uma vez que Itachi era quem assumia como o dono da porra toda. Ainda assim era difícil acreditar que o homem com um afago tão gentil pudesse compactuar com aquilo.
Itachi não sabia.
O carro se movimentou por mais alguns metros até finalmente parar. Sakura não sabia onde estava, mas assumiu que pudesse ser um condomínio ou talvez um complexo residencial. Pelo sacolejo moderado, ela assumiu que ainda estavam em ruas asfaltadas, por isso descartou qualquer parte rural de Kyoto. Ainda estavam em área urbana, isso ela conseguia garantir.
Havia o barulho de alguns pássaros vindo ocos lá de fora. Obito desceu do carro sem falar com ela, ainda cantarolando aquela música que se tornava extremamente imprópria em seus ouvidos. Mesmo que durante o translado Sakura se encontrasse num estado de torpor, naquele momento onde finalmente chegavam em algum lugar, a menina sentia seu coração voltar a funcionar com força. Era como se seu estômago tivesse vida própria e quisesse sair pela sua garganta. Sentia as mãos geladas, e naquele instante percebeu que estava prestes a ter um daqueles ataques de pânico na frente de ninguém menos que Tobi.
A porta traseira se abriu e a luz vinda de trás deixava a silhueta de Obito evidente. Ele apenas disse um breve vem cá antes de içá-la pelos braços, forçando-a a se levantar mesmo que suas pernas não tivessem tanta sustentação naquele momento. Sakura cambaleou quando ele a puxou para longe do carro, batendo a porta do carro com mais força do que o necessário para fechá-la.
Saiu arrastando-a pelo braço pelo curto período entre o meio-fio e a entrada da casa humilde que jazia pacifica a sua frente. Sakura se sentia atordoada olhando ao seu redor em pura confusão. Tentava enxergar alguma coisa ao mesmo tempo que nada parecia fazer sentido. Suas pernas vacilavam entre os passos e Tobi parecia não se importar enquanto a puxava junto de si, ainda murmurando aquela mesma melodia.
Não conseguiu reparar em nada além das sombras e luzes. A casa estava vazia e cheirava a coisa velha. A poeira flutuava nos feixes de luz que invadiam o local. Haviam moveis consumidos por cupins e o piso fazia um barulho irritante, rangendo a depender da forma que pisavam. Subiram uma escadaria e em algum momento, Tobi teve que lhe manter perto de si para que conseguisse subir de maneira decente, porque suas pernas estavam tão moles e inúteis.
Ele suspirou como se estivesse cansado, mas nenhuma palavra fora dita.
Onde estava?
Sua respiração ficava mais presente e ela podia ter gritado em qualquer momento, mas sua voz era como o chiado mudo de uma televisão antiga, ninguém ouviria se não estivessem prestando atenção. Para onde seus olhos miravam, Sakura não conseguia registrar as imagens com clareza, tudo parecia borrado e pouco preciso. Seu estomago ainda borbulhava enquanto suas mãos ficavam cada vez mais frias. Ela tinha certeza que estava suando, ainda que o frio fosse a única coisa que sentisse.
Entraram num quarto e Tobi a empurrou contra uma parede enquanto trabalhava em suas algemas. Só depois que ele terminou, Sakura pode entender que estava dentro do quarto de uma criança, presa pelas algemas a uma corrente transpassada numa vigota aparente que sustentava um telhado empoeirado. Havia um largo buraco ali em cima por onde a luz se projetava no recinto, além disso posters antigos decoravam as paredes com desenhos da época.
Havia também uma cama miúda pequena com o lastro quebrado. Teias de aranhas deixavam bastante evidente que era um local inabitado por humanos a muito tempo. Foi quando ela finalmente se virou e viu a cômoda infantil com a gaveta torta e um puxador quebrado. Ali em cima havia um porta retrato com o vidro quebrado, mas por trás disso, Sakura enxergava três crianças e o ar saiu por sua boca num movimento involuntário.
Obito, Rin e Kakashi.
Mesmo distante e com a baixa iluminação, Sakura percebeu a expressão emburrada de Obito, a indiferença no rosto de Kakashi e o sorriso da menina de cabelos castanhos. Era verdade, ela pensou depois de um momento de completa confusão. Obito tinha lhe dito que era um velho amigo de Kakashi, e Kakashi havia lhe dito uma vez que conhecia um Uchiha que não era da família principal.
Sakura olhou assustada para o homem que afrouxava a gravata em silêncio, arregaçando as mangas da camisa no processo enquanto se fazia confortável da maneira que podia. A mulher ainda podia escutar o barulho dos pássaros lá fora e sentia o roçar da corrente de ferro das algemas roçar na madeira velha que sustentava parte do telhado.
Estava numa posição horrível. Tinha que ficar na ponta dos pés para ter alguma sustentação enquanto seus braços estavam pendurados. Era como se fosse a carcaça de um porco no açougue. Seus punhos doíam pela pressão da algema, mas ela não conseguia se fazer mais confortável. O teto tinha um pé direito baixo e nenhum luxo, mostrando o quão simplória era aquela residência.
— Pare de se mexer – Ele resmungou com um repentino mau humor depois de apenas estalar a língua num ruido irritadiço.
Sakura prendeu a respiração se dando conta, finalmente, do risco que estava correndo. Não era apenas um cara qualquer que tinha sorrisos idiotas e uma voz quase acolhedora. O homem que lhe propôs ajuda no hospital não era o homem que estava agora de costas por tempo demais. Tobi era seu nome, alguém que deixava Sasori assustado a um nível que ele apenas queria que nada chegasse aos seus ouvidos.
Tobi.
O homem que deveria estar por trás de todas as ações inescrupulosas tomadas por Sasori e companhia, e que agora estava bem a sua frente lhe dando uma ordem bem direta. Pare de se mexer. Soou tão perigoso a ponto de ter a sensação de que ele estava pronto para matá-la de fosse necessário. Era isto. Sakura se sentia no limite com seu coração acelerado pelo medo e pela incerteza.
Porque ela estava ali mesmo?
As coisas sumiam de sua mente e voltavam em velocidade absurda, como se nenhum pensamento conseguisse se sustentar por mais de um milésimo em sua cabeça. Não conseguia pensar ou assimilar qualquer coisa. Suas conclusões eram como a fumaça de um cigarro diante de uma ventania. Tudo se perdia no vendaval do medo que a assolava, fazendo-a esquecer completamente a dor em seus punhos e a posição desconfortável.
Não importava mais...
Porque no fundo ela sabia: Era o dia de sua morte.
Sim, era o dia que tudo finalmente acabaria.
Depois daquele momento, Obito sabia que tudo ficaria um pouco mais evidente e ele se dava conta do quê estava abrindo mão enquanto revivia memórias do passado naquele quarto imundo que um dia fora dele.
Tudo bem... Ele já tinha aberto mão de várias coisas ao longo da sua vida em prol de ter mais liberdade. A verdade é que ser um Uchiha é complicado. Quanto tempo fazia que não pisava naquela casa? Céus! Seus pais haviam morrido quando ele tinha apenas 8 anos e desde então nunca mais sequer entrou no complexo Uchiha.
Era engraçado como tudo estava tão igual e ao mesmo tempo era tudo tão diferente. O condomínio como um todo tinha ganhado melhorias, mas as ruas ainda levavam às mesmas casas antiquadas onde viviam as mesmas pessoas. Aquele lugar não era nenhum condomínio de luxo e ficava numa parte duvidosa de Kyoto, mas a segurança naquele lugar era impecável, afinal ali viviam os Uchihas menores.
Os secundários.
Todo e qualquer Uchiha fracassado era acolhido por Fugaku naquele lugar miserável. O engraçado nessa história era que seus pais, juntos, detinham 1% de uma subsidiária da empresa maior anos antes, mas por conta de um golpe perderam tudo. Viraram a parte sem importância da família e vieram parar ali, sei eira nem beira.
Morreram como indigentes, submissos às vontades da família principal que não garantiu nenhum tipo de sustento a eles, jogando-os nessa casa velha para criar o filho que estaria por nascer. Trágico. Mas isso não fez Obito ter raiva da família principal, longe disso. Obito sempre admirou a capacidade deles de se protegerem, e mais ainda, ele invejava o poder que eles tinham.
E tudo isso soavam como ecos de sua memória confusa. Estar naquele lugar o fazia reviver momentos trágicos, felizes e incertos. Talvez houvesse um lugar melhor para dar cabo de uma garotinha, mas os deuses sabiam que qualquer buraco na cidade tinham os olhos dos Nara bem atentos, exceto o completo Uchiha. Ali era como território neutro. A corja dos Yamanaka não poderia entrar para fazer o que quisessem, e isso incluía os Nara, os Akimichi, e todos os outros.
Era o local perfeito. Afastado o suficiente, com uma casa abandonada que ninguém conhecia direito. Nem Kakashi sabia que ele havia morado ali, na cabeça deles ele sempre morou com sua avó do outro lado da cidade. Lembrava-se vagamente de ter comentado com Rin em algum momento de vulnerabilidade, mas duvidava que ela fosse lembrar de algo, afinal, ela nunca se importou com ninguém além de Kakashi.
Oh, sim...
Riu sem humor. O que estava fazendo parado naquele lugar por tanto tempo? Tinha se livrado daquela gravata apertada e arregaçado as mangas de sua camisa preta. Sempre ficou bem em cores escuras e talvez fosse pelo contraste com sua pele clara, ele não sabia. Rin, no entanto, sempre insistia para que usasse cores mais claras. Maneou a cabeça sem saber porque estava pensando naquelas coisas quando o momento era tão desfavorável.
Sakura havia diminuído seus movimentos e o barulho irritante da corrente rangendo a madeira havia sido substituído por um sapateado irritante de alguém que era baixa demais para ficar numa posição como aquela, além da respiração acelerada. Como alguém conseguia fazer tanto barulho só por respirar? Ele não sabia.
Jogou a cabeças para os lados com velocidade causando um estralo relaxante dos ossos do pescoço. Delicia. Pensou antes de aspirar o ar com força. Precisava livrar sua mente daqueles pensamentos e focar no que estava diante de si. Haruno Sakura. A menina que tinha ferrado com a vida dele de uma maneira que ela nem poderia imaginar. Girou brevemente para vê-la pelo canto do olho completamente amedrontada.
Ela já sabia o que ia acontecer, não é? Sabia que iria morrer. Ela precisava morrer naquele ponto da história, porque não havia mais nenhum espaço para aquela garota, e ele temia que se a deixasse viver por mais um dia, ela acharia mais uma forma criativa lhe foder.
Não que tivesse alguma raiva pessoal contra ela, não era isso. Sakura era um erro de cálculo de Sasori, então sua raiva foi toda direcionada ao homem e não à menina que claramente não fazia ideia do que estava acontecendo fora de seu relacionamento bizarro. A investigação, a queda na receita, as denúncias... Tudo tinha sido culpa de Sasori e sua incapacidade de conciliar vida pessoal e trabalho.
Também tinha que ser justo, não era como se ele mesmo soubesse como fazer isso. Obito também não soube manter Rin e o trabalho funcionando juntos, e isso foi um dos motivos – além de Kakashi – para que ela retornasse à Kyoto.
Rin era tão bonita.
Sentia falta de chegar em casa e encontrá-la com aquela faixa de cabelo enquanto lia algum livro pesado sobre a vida e tudo que ela representa. Sentia falta do cheiro de limpeza que ela tinha, da voz risonha. Sentia falta até das reclamações e das brigas. Sentia tanta falta dela... E naqueles últimos meses ele tinha conseguido matar um pouco a saudade, ficar com ela, transar daquele jeito louco... Suspirou.
Sakura parecia Rin.
Era por isso que ele não podia simplesmente matá-la!
Nem reparou que estava encarando-a por tempo demais, vendo seus olhos verdes maduros, seus lábios rosados... Se aproximou com alguns passos curtos, quase como se estivesse vendo uma estatua renascentista num museu sob a luz amarelada das exposições, encantado com algo que não sabia explicar. Havia algo que o atraia, e talvez nem fosse sua semelhança com Nohara Rin, mas sim o jeito que sua expressão de medo a deixava cada vez mais bonita.
Ergueu a mão quase em um transe, tocando o rosto dela que tentava desviar, mas era incapaz de evitar o contato físico que se estabelecia. Deslizou os dedos pela tez de sua bochecha sentindo o relevo da pele de maneira tão intensa. Escorregou pelo pescoço feminino sem prestar atenção nos sinais de repugnância que ela demonstrava. Obito apenas se permitiu sentir a garota por um momento enquanto seus pensamentos giravam.
O que Sasori tinha visto nela?
O que Kakashi tinha visto nela?
O que ele estava vendo nela?
Talvez fossem as mesmas coisas. Talvez não fossem. Ele não sabia, não poderia dizer com certeza.
— Sasori... Onde está Sasori?
Até a voz dela era bonitinha.
Era tão engraçado que ele se permitiu rir um pouco do jeito com que ela perguntou aquilo. Não precisava ser nenhum gênio para saber que ela estava tão amedrontada com o desconhecido que preferia lidar com alguém que já conhecia. Bem, ele também prometeu que a levaria para ver Sasori, e ainda que não estivesse mentindo quando disse isso, talvez ela estivesse esperando outro tipo de encontro.
— Está com saudade dele? – Obito perguntou de um jeito meio cínico. — Não tenha pressa para encontrá-lo – Ele riu vendo-a tão séria, tão tensa.
O desconforto dela era visível, não apenas pela proximidade que estavam, mas também pela posição desfavorável e todo o medo que envolvia aquele encontro. Obito não estava muito preocupado com o bem estar da menina, entretanto lhe incomodava que ela ficasse bamboleando entre as pontas dos pés, incapaz de se manter firme ao chão.
Ele deu um longo suspiro olhando ao redor. Não havia nenhum banco ou algo que ela pudesse subir, e apenas por isso ele abriu uma gaveta daquela cômoda, tirando-a por completo de seu estado longo de inercia. Jogou os poucos objetos que jaziam ali no chão com barulhos estrondosos e fez daquela gaveta um apoio para os pés da menina.
— Agora, pelos deuses, fique parada – Ele pediu quase como se a situação fosse típica, passando a mão entre os cabelos negros enquanto pensava em alguma coisa que Sakura não conseguia desvendar.
Céus... Porque estava tão hesitante? Deveria ser fácil, não é? Matar alguém que nunca lhe fez nenhum bem. O problema eram aqueles olhos, aquele rosto... Tinha também uma curiosidade repentina sobre ela que nunca se manifestou até aquele maldito momento. Sakura era seu karma, alguém que nem sabia de sua existência, mas que tudo nela girava em torno de uma eterna punição a qual estava destinado.
Ela era o seu carrasco.
Supostamente, ele deveria odiá-la desde o primeiro dia em que tudo começou a dar errado. O idiota do Sasori tinha que se apaixonar por uma garotinha mimada como ela e estragar tudo, mas era compreensível, afinal Sasori sempre foi meio carente... Mas Kakashi? Ele tinha tudo! Ele tinha a Rin! Por que ir atrás de alguém que era uma mera cópia fajuta?
A tocou novamente mais curioso, mais intenso. Seus olhos negros a penetravam como se buscassem uma resposta para todas as questões do universo. Era estranho, era invasivo. Sakura sentia-se exposta de uma maneira bruta, como se estivesse sendo possuída de alguma forma, violada. Os olhos de Obito eram perigosos de um jeito que ela nunca imaginou antes.
Cada vez mais ela sentia seu senso de perigo ficava mais e mais presente. Obito lhe fazia entrar em alerta de uma maneira completamente nova, como se a qualquer momento ele pudesse parti-la ao meio. Seus dedos marcavam sua pele com um rastro de seu fascínio doente, contaminando sua sanidade, produzindo medo em cada parte de si.
Mas aquele era o processo dele.
Kakashi tinha Rin...
Kakashi sempre teve tudo! O pai legal, a casa bacana. As melhores notas e todos os clubes na escola o queriam porque ele era bom em tudo. Tinha os amigos, a fama, a boa aparência. Kakashi tinha absolutamente tudo. Ele tinha a garota e a faculdade. A herança, e também aquela aura que só um homem bem resolvido tinha.
Enquanto a tocava, olhando para ela com certo fascínio, Obito lembrava que Kakashi ainda a tinha mesmo quando Rin o deixou. Ela sempre foi dele em todos os momentos. Quando lhe pedia para ser mais delicado era como se pedisse para que ele se tornasse Kakashi de alguma forma, e ele não se importava. Se um momento com Kakashi era o que ela precisava para continuar com ele, então Obito se tornaria Kakashi por aquele breve momento.
Mas não era suficiente.
Quando ela voltou para Kakashi, Obito sabia que tinha errado. Jamais deveria ter feito eles se separarem, porque Rin só seria feliz ao lado do homem que sempre a teve. Ela escolheu seu destino ao lado dele e restava a Obito torcer por sua felicidade, sabendo que Kakashi a daria tudo.
Só restou a ele viver sua vida se dedicando ao trabalho, achou parceiros interessantes, como Sasori, que confiaram nele como seu líder e deu-lhe o poder necessário para se estabelecer como alguém importante em Tóquio. Não era uma vida ruim, principalmente quando sabia que a mulher que tanto amava estava feliz.
— Ele tinha razão – Obito disse de repente — Você teria me dado muito dinheiro.
...
— O quê? – Ela perguntou confusa enquanto sentia o afago estranho e nojento que Obito lhe fazia com uma expressão tão tranquila.
— Sasori tinha razão – Ele repetiu de forma mais didática — Naquela época, anos atrás, ele tinha me falado de como encontrou uma menina que nos faria ricos da noite para o dia. – Explicou e sua fala era completamente aquém de sua expressão tranquila e nostálgica — Quantos homens não dariam uma fortuna por apenas uma noite com você?
O jeito que Sakura lhe olhava, confusa, amedrontada... Ela conseguia ficar cada vez mais bonita. Era a primeira vez que ficavam tão próximos, a primeira vez que a via de verdade. Quando a encontrou chorando naquele chão do hospital, Sakura já parecia como uma visão de uma escultura renascentista, daquelas que evocavam melancolia e tristeza. Todo aquele medo era lindo.
Ele mesmo teria sido capaz de dar uma pequena fortuna por uma noite com ela.
— Eu não dei muita importância, mas ele estava empolgado. Disse que seus cabelos eram cor-de-rosa naturais. – E riu com a lembrança tão distante — Disse que até seus pentelhos são assim. – E encolheu os ombros levemente como quem pede desculpas pela fala — E aí ele falou que iria te pegar em Kyoto, e eu apenas confiei nele porque Sasori nunca me deu motivos para não confiar. Nós organizamos um leilão para você – Ele riu mais aberto — Mas hoje eu acho que se tivesse te conhecido naquela época, teria pego você para mim.
Choque... Ela estava em choque com suas palavras, Obito conseguia ver. Não sabia exatamente que parte a chocou mais, mas ela já devia saber que Sasori não era um santo, e nem ele. Mas àquela altura Rin já o havia deixado, e Sakura era parecida o suficiente com ela para ser uma boa substituta. Na verdade, talvez em algum momento, ele se apaixonasse verdadeiramente por Sakura e deixasse de amar Rin.
Talvez...
Talvez ele devesse ter cumprido aquela ameaça que fez a Sasori anos atrás.
— Se você quer saber o que aconteceu, talvez fique decepcionada. Sasori voltou de Kyoto com a desculpa esfarrapada de que você era amiga da Yamanaka, e para o nosso negócio funcionar, a gente não mexia com pessoas de grande valor. – Explicou dando um passo para trás, gesticulando de maneira mais solta — Mas ai ele começou a viajar di-re-to para Kyoto, começou a ficar descuidado com o trabalho, arrumava cada vez menos meninas enquanto curtia com você nessa cidade de merda – Ele disse revirando os olhos — Até o dia em que ele veio me falar que queria parar, você acredita? Parar! – Riu em escárnio. — Eu só respondi que ele podia parar se quisesse, mas eu iria pegar você dele como compensação pelo prejuízo que ele vinha me dando.
Ele deu uma pausa vendo o rosto de Sakura tão confuso. É claro que ela pensava que Sasori era vilão. Todo mundo acha que histórias são feitas de vilões e mocinhos, mas a verdade é que pessoas tem motivos para fazer coisas, e que sim, há opções, mas há pessoas que não estão dispostas a ceder. Sasori era um desses casos que, por não estar disposto a ceder, acabou fazendo a vida de todo mundo um inferno. Ao invés de largar o osso, Sasori resolveu continuar com Sakura.
Oh, sim! Sasori optou por sair da organização para viver uma vida ao lado da namoradinha em Kyoto. Queria deixar seu passado para trás e encontrar algum emprego decente para poder ficar ao lado da garota da buceta rosa. Obito já estava no limite com toda negligencia de Sasori na captação das meninas, na coação dos pais e na manutenção do esquema que montaram, então quando ele declarou querer sair, Obito apenas riu.
Não adiantava ficar chateado com algo que já era previsto. O amor muda as pessoas. Ele sabia bem disso. Rin o mudou de formas que nem mesmo ele compreendia. Se sentia mais altruísta, mais disposto a perdoar, só por isso ele lidou com a situação de maneira mais madura e tranquila. Sasori podia ir viver a vidinha dele longe de todos, mas em algum momento, Obito iria cobrar o preço do prejuízo que ele trouxe ao seu esquema, e esse débito seria pago por Sakura.
Simples assim.
Ele não estava falando sério na época, porque ele jamais se sujeitaria ao tipo mafioso que não aceita situações e também jamais sairia de sua Tóquio para pegar uma garotinha sem sal. O papel dele naquela organização era apenas de administrar as coisas, manter tudo funcionando, mas devido a toda sua história com Sasori, ele quis jogar um pouco.
Era verdade que jamais teve contato com nenhuma das crianças ou jovens que eram pegas no esquema. Ele não tinha esse tipo de doença. Não gostava nem de ver, sentia-se mal. Obito sempre gostou de mulheres reais, de carne, osso e idade correta. Quem ficava para enganar os pais era o carismático Sasori, com sua aparência jovial e beleza. Se ficassem lado a lado, diriam que o próprio Obito era até mais velho que o ruivo, quando na verdade a diferença ficava em mais ou menos cinco anos a mais para Sasori.
O cara era um doente.
Não tinha remorsos, fazia o que rendesse mais ao seu bolso. E tinha o maluco do Deidara que era ainda pior, afinal era ele quem fazia as fotos das meninas para o catálogo. As fotos eram vendidas e quando alguém realmente se interessava pelo material, então era a vez do Zetsu vender a garota. Tudo era feito com eles, incluindo o Kabutinho que traficava ilícitos e facilitava o transporte.
Qual o papel de Obito nisso tudo? Manter a polícia longe, ameaçar as pessoas que não queriam pagar, garantir a integridade da organização, e manter todos na linha. Lentamente o negócio foi crescendo, novas pessoas foram entrando, mas no final das contas, eram aqueles quatro que mantinham tudo funcionando e Obito tinha se tornado uma lenda sob o pseudônimo de Tobi.
Tobi é um bom garoto.
— Você precisava ver a cara dele quando eu disse que ia fazer toda Tóquio foder você, e só aí te mataria. – Obito deu uma risadinha — Honestamente, eu não me sujaria desse jeito, mas o idiota tava tão apaixonado que acreditou em toda a minha conversa fiada – E parecia estar contando uma piada antiga — Nunca vi Sasori tão paranoico. – Lembrou-se com um sorriso nostálgico — Acho até que te devo desculpas. Deve ter sido por conta disso que ele se tornou tão ridiculamente controlador com você. – Ele pausou olhando para Sakura por um momento, vendo os olhos verdes tão abalados com as informações — Ele só estava tentando proteger você de mim, como se ele pudesse – Riu novamente — Se eu quisesse te fazer mal naquela época, então eu só teria feito, sabe? Eu sabia onde você morava.
Proteger?
Aquela palavra começou a ruir suas memórias de Sasori. Sakura se sentia enjoada, como se pudesse vomitar a qualquer momento. O que era aquela história toda? Porque ele estava lhe contando aquelas coisas com uma expressão tão indiferente, tão tranquila? Ele sabia, não é? Tinha sido ela quem havia dito tudo à polícia. Sasori era um doente e não a protegeu de maneira alguma.
Não podia ser.
Sentiu as pernas moles, o peito inflar e esvaziar. Os olhos de Obito eram num negro tão intenso que a mulher sentia-se sem folego só de encará-los por mais de um momento, e ele fazia questão de continuar olhando-a como se fosse algum tipo de enigma que precisasse desvendar. Não era possível que Sasori, dentre todas as pessoas, estivesse tentando protegê-la.
Isso era absurdo.
Não conhecia uma pessoa em sua vida que fizera tanto mal a si quanto Sasori. Ele a destruiu de formas tão profundas e permanentes. Todo dia Sakura enfrentava a si mesma para continuar vivendo e tudo isso tinha sido culpa de Sasori e seus maltratos. Proteção? Ridículo! Sua mente se negava a absorver essa informação enquanto as memórias de Sasori invadiam sua mente. O cárcere, as reclamações, a privação de vida social, o desespero por dinheiro... Obito criou uma dívida para que ele pagasse, e o homem ficou desesperado.
— Eu não acredito – Ela disse completamente atordoada — Você não conhece Sasori como eu.
— O quê? – Ele perguntou divertido — Sakura, só porque você dava para ele não significa que o conhecia. – E riu brevemente da ingenuidade dela — Sasori estava louco. Se ele pudesse te trancar num cofre, então ele o faria sem pensar. Eu não faço ideia de como ganhei essa fama, mas as pessoas só ficam apavoradas quando eu digo qualquer coisa – Deu os ombros — E dai que eu já matei um cara porque ele comeu meu dango? Eu tava num dia ruim.
Sakura soltou o ar.
Quem era esse homem?
— Onde está Sasori? – Ela perguntou mais urgente sentindo seus ombros reclamarem. Mesmo apoiada, todo seu corpo doía com a posição atípica na qual permanecia por tanto tempo. Sua cabeça girava com a possibilidade de Sasori ser alguém que de alguma forma estava lutando para mantê-la a salvo. Não podia ser! E ainda tinha o homem mais perigoso de todos bem na sua frente lhe encarando daquela maneira, dizendo aquelas coisas.
Ela não queria morrer.
Aquilo gritava dentro de si, tomando uma forma que nunca antes tomara. Se antes, enquanto com Sasori, Sakura estava preparava para viver uma vida cinza e sem alegria, agora Sakura sentia uma urgência absurda. Sasori nunca a faria mal, não como Obito parecia estar disposto a fazer. Onde estava Sasori? Porque se tudo o que Obito falava era verdade, então a única pessoa capaz de fazer algo por ela naquele momento era o seu pior pesadelo.
Mas Obito apenas gargalhou.
Alto, espalhafatoso e honesto. Obito riu como se ela tivesse feito a maior das piadas. Era engraçado como ela parecia cada vez mais desesperada para ver aquele homem. Não tinha sido ele a ruina de Haruno Sakura? Então por que ela estava tão ansiosa para ver alguém como ele? Ele mal podia esperar para ver a cara dela quando descobrisse. Talvez achasse que ele poderia salvá-la, coitada.
Olhou para ela com lágrimas nos olhos de tanto rir. Pobrezinha! Ele sentia pena dela, de verdade. Obito nunca quis fazer mal a ela, nem mesmo quando viu Rin chorando naquele bar, sozinha e amargurada. Ela sabia que ela e Kakashi tinham terminado, eles sempre terminavam e não era grande coisa, mas sua surpresa foi saber que Kakashi estava com outra num caso bastante sério.
Nunca viu Rin tão perdida.
E ele odiou Kakashi por isso, não Sakura. Ele nem fazia ideia de que a Sakura de Sasori era a mesma Sakura que Kakashi estava se envolvendo. Como podia sentir raiva ou ódio por alguém que sequer conhecia? Além disso, Fugaku tinha dado um jeito naquela investigação de merda que o depoimento de Sakura tinha dado início. Todos os outros iam ser presos uma hora ou outra, menos ele, porque seu sobrenome o protegia de uma forma que ninguém poderia compreender.
Ainda assim, ele até fez aquela afronta a toda família quando seu afastamento chegou. Até parece que ele iria para Morioka, viver isolado da população, só por conta de uma investigaçãozinha besta. Fugaku que se virasse para esconder toda merda antes que a bomba explodisse no sobrenome honrado dos Uchiha. Foi por isso que ele foi para Kyoto em primeiro lugar.
Por mais que ele fosse um secundário, ele ainda era um Uchiha que um dia poderia ter herdado uma pequena parte das ações de uma subsidiaria, o suficiente para que alguns membros da diretoria da empresa o contactassem. Precisavam de um nome para bater de frente com o de Itachi numa possível disputa pelo controle geral da empresa.
O mundo dos negócios era podre.
Eles que divulgaram aquelas notícias ridículas sobre a saúde de Itachi. Obito até ajudou com isso, deixando vazar informações falsas para jornalistas marrons. A verdade é que ele não tinha muito interesse nas empresas e achava um desperdício de tempo que os diretores estivessem tentando afastar Itachi só porque não gostavam dos métodos dele. Era inegável que o cara sabia o que estava fazendo, mas no processo muitos egos estavam sendo feridos.
No final das contas Obito só concordou em fazer parte daquilo para provocar Fugaku. Não esperava que fossem criar tanto alarde sobre uma possível cegueira, mas tinha que admitir que a diretoria tinha conseguido fazer uma pequena bagunça no alto calão da família mais importante do Japão. Esse também foi um dos motivos para Fugaku querê-lo bem longe de Tóquio ou Kyoto.
Mas ele queria provocar, quem sabe conseguiria um pouco de dinheiro? Nunca era demais segundo o próprio Fugaku, então ele foi para Kyoto sem emprego ou perspectiva apenas para ver o circo pegar fogo. Deixou Itachi saber que ele estava na cidade durante a recuperação da cirurgia, e ficou vendo Fugaku louco de preocupação.
Achou que seria só isso, não tinha intensão de rever seus antigos amigos. Deixaria todos em paz porque não valia a pena tentar recuperar a amizade de nenhum deles, além disso, o único que valia a pena era Kakashi ali, e honestamente, ele não queria se esforçar para isso. Foi por pura coincidência que esbarrou em Rin naquele bar, e ele sentiu como se fosse o destino dizendo a ele que precisava fazer alguma coisa por ela.
Precisava cuidar dela!
Kakashi era um frouxo deixando-a naquela situação. Não podia perdoá-lo, mas Rin deixou claro... Tão claro! Ela só poderia ser feliz com ele.
Só Kakashi a faria feliz...
Humpf.
Mas Kakashi estava feliz com outra pessoa... Uma que ele provavelmente não fazia ideia quem era.
Haruno Sakura! A Sakura do Sasori. A filha da puta que tinha ferrado seu esquema e agora estava ferrando com a mulher da sua vida. O destino tinha um jeito estranho de mostrar o que precisava ser feito.
Foi do mesmo jeito com Sasori. Relutou o quanto pode porque eles tinham uma história juntos. Sasori tinha sido um parceiro leal durante todos esses anos, e ele até entendia a escolha do ruivo em seguir uma vida mais calma em nome do amor, o próprio Obito pensou em fazer isso por Rin, mas na sua vasta experiência com romance, isso não valia a pena, porque homens como eles não ficavam com a garota no final das contas.
Por isso ele fez aquela ameaça fajuta, por isso ele não ligou quando Sasori ficou paranoico e começou a cometer erros, ficar desleixado. É isso que o amor causa nas pessoas, não podia culpar o ruivo por isso, mas podia culpá-lo por ser um idiota a ponto de contar o que fazia para a mulher que ele estava mantendo em cárcere, como se ela fosse uma criminosa. Fora as outras coisas.
Quando ele voltou para Tóquio com o rabo entre as pernas, transtornado e confuso, falando tantas coisas por ai... Obito só pôde soltar um longo suspiro. Uma decisão tinha sido tomada naquela hora.
— Onde está Sasori, você pergunta – Obito repetiu ainda se controlando da risada longa que tinha dado — Veja bem... Eu apostaria no inferno, mas honestamente eu não sei. – Deu os ombros — Será que existe vida após a morte? Caso não exista, então ele deve tá enterrado em algum lugar – E maneou a mão ao vento, como se estivesse falando de algo sem importância.
— Sasori... Ele... Você...?
— Pelos deuses! Sakura, sim! Ele está morto! Eu o matei! – Obito disse um pouco mais exasperado — Você quer que eu desenhe também? Eu o matei! Num beco qualquer em Akihabara e não faz nem um ano – Riu um pouco mais.
Sakura parecia nauseada como uma garota que estava sendo sacolejada a horas. Ela simplesmente não aguentou e vomitou no meio do quarto. Obito fez uma careta enquanto o cheiro ácido subia no ambiente, praguejando pela garota ser tão frágil a ponto de simplesmente pôr tudo para fora daquele jeito. Ter matado alguém como Sasori era tão ruim? Ele era um criminoso! Colocou crianças em risco! Sakura se importava mesmo com alguém assim a ponto de sentir-se tão mal com sua morte? Ela devia lhe agradecer.
Suspirou indo até a janela velha do quarto, abrindo-a com um longo rangido. Ele precisou fazer alguma força extra para puxar a trava, e logo uma lufada de ar invadiu o quarto, trazendo um agradável e refrescante ar fresco para dentro. Estava um pouco quente, é verdade, mas era melhor que o cheio repugnante do vômito dela. O homem aspirou o aroma neutro do vento que vinha de fora. O dia não podia estar mais perfeito.
Mas então, porque Sakura se sentia tão fraca?
Era como se estivessem lhe socando repetidamente sem que ela pudesse tomar uma atitude. Sasori estava morto! E aquele pensamento lhe rondava com tantas emoções, tanta confusão. Começou a chorar em algum momento enquanto lembrava de seu primeiro encontro, dos olhares. Como um filme, toda sua história com Sasori foi revivida numa velocidade absurdamente acelerada. Sua cabeça doía e dentro de si tudo remexia. As agressões, os insultos. Tudo vinha com uma força tão absurda que ela não conseguia segurar.
Estava triste? Feliz? Preocupada?
O que sentia?
Ela não sabia distinguir o que era tudo aquilo. Não conseguia separar, triar seus sentimentos dentro daquele bolo tão denso e pesado. Então ela sentiu-se sufocar, como se houvesse ar em excesso naquele lugar. O cheiro do vômito lhe causava mais e mais enjoo, afinal estava logo abaixo de si, condensado na sua incapacidade de sentir algo de maneira devida.
Talvez fosse a situação que se encontrava, ou a maneira como recebeu aquela notícia, mas Sakura sentia como se suas emoções estivessem-na dilacerando. Começou a engasgar com seu próprio choro, desaprendendo a respirar, e sua visão foi ficando escura enquanto o pânico lhe capturava de maneira tão distinta.
A quanto tempo não sentia sua garganta fechando daquela maneira?
Sempre Sasori.
Até em sua morte, ele era o único que conseguia fazer com que toda sua estabilidade fosse embora. Era confuso, era amedrontador, era aliviante, era intenso de tantas formas... Ela não sabia o que sentir. Não sabia o que fazer. Obito estava ali falando aquelas coisas, e ela sentia como se de alguma forma ela fosse a próxima da lista.
E Sasori tentou salvá-la.
Seu peito doía evidenciando que todos os gatilhos tinham sido despertados. Iria desmaiar, mas não podia! Se o fizesse, então Obito... Então... Por favor... Alguém, por favor...
Sempre assim! Sempre dependente!
— Ei, ei!
Ela ouvia uma voz arranhada ao fundo de toda sua confusão, mas não conseguia focar naquilo. Tudo estava um completo caos enquanto ela tentava desesperadamente alcançar alguma superfície no meio daquele mar de sentimentos confusos e estressantes. Ela não podia vacilar, não podia, não podia, não podia...!
Sentiu braços lhe adornarem com um cheiro amadeirado estranho. Ela não conhecia aqueles braços, não conhecia aquele conforto estranho, repulsivo. Mas era o que tinha disponível, era a superfície incerta que lhe surgia em seu desespero.
Aquele era Obito.
Então tudo nela o rejeitou. O toque, a caricia, o cheiro, a voz, as palavras. Tudo que vinha daquele homem era rejeitado pelo seu corpo. Ele matou Sasori. Sua mente foi clareando com aquelas palavras, com a urgência. Sakura estava diante de alguém que não iria hesitar em fazer o que era preciso e nada em sua mente estava claro o suficiente além, é claro, de que ela seria a próxima.
Então por quê confortá-la?
Por que ele estava fazendo tudo aquilo consigo? Dizendo todas aquelas coisas, explicando seus motivos? O que havia para ser dito se ele iria simplesmente matá-la? Aliás, por quê ele queria matá-la mesmo? Obito tinha dito, não tinha? Tinha dito que não sentia rancor dela, que nunca quis vingar-se. Ele nunca a culpou, então por quê estava ali?
Por quê?
As questões foram sobrepujando seu medo como uma avalanche pesada e fria. Era disso que precisava. Naquele momento, Sakura precisava se livrar do calor de suas emoções e se apegar a qualquer personalidade fria que existia dentro de si, e ainda que estivesse pendurada numa corda bamba, ela continuaria a se segurar, seguindo em frente.
Foi só por isso que ela conseguiu aguentar.
"Você é a pessoa mais forte que eu já conheci."
Abriu os olhos repentinamente com o eco das palavras ditas naquele dia. Era como se ele tivesse lhe puxado para algum lugar em suas memórias e num instante tão efêmero, Kakashi aparecia para si apenas para lhe lembrar de sua própria força. Sim... Soltou ar percebendo que havia acordado a força, empurrando todo aquele caos para algum lugar dentro dela, porque naquele momento Sakura precisava estar acordada.
Precisava de sua mente funcionando, precisava ser a pessoa mais forte que já conhecera. Deixou o ar escapar como se a capacidade de respirar lhe tivesse sido devolvida e então sentiu Obito se afastar. Ele a olhou tão intensamente e Sakura só pôde sentir nojo daquele homem. Ele tinha uma espécie de fascínio quando a olhava e aquilo lhe causava calafrios por todo o corpo.
Todas as perguntas ainda flutuavam densas naquele lugar de uma maneira muito mais presente. Por quê não a matar de uma vez por todas?!
Obito passou as costas das mãos pelo rosto dela, completamente hipnotizado pela cena que presenciou. Quem era aquela menina? A cada surto, Sakura conseguia se fazer mais e mais bonita. Era possível que alguém assim existisse? E naquele momento ele se sentia entregue, porque ela lhe lembrava tanto a sua Rin. A garota que chorava no carro por Kakashi, que era tão errante em todas as suas decisões, tão apaixonada e sincera.
Era quase como se Sakura tivesse o dobro da tristeza de Rin dentro de si, e aquilo a fazia tão bonita quanto a sua Rin.
Ele se afastou por um momento, olhando-a confuso. Talvez se ele... Olhou para os lados, o chão tinha todos aqueles objetos que caíram da gaveta e, num vislumbre, ele sabia que encontraria aquela tesoura de papel enferrujada. A pegou com a ideia ainda se formando em sua mente, circundou a menina com um ar incerto. Deveria..? Oh, sim. Não tinha porque não o fazer.
Uma vez nas costas dela, ele tocou seus cabelos rosa tão sedosos e longos. Pareciam bem cuidados e emitia um aroma adocicado, diferente do perfume de flores de sua Rin, mas isso poderia ser resolvido depois, porque primeiro Sakura precisava de um corte de cabelo.
A mulher sentia mechas de seu cabelo desprenderem de si, flutuando de encontro ao chão enquanto o barulho repetitivo da tesoura de papel enferrujada se repetia copiosamente. Ela não entendia o motivo daquele gesto, mas apenas se manteve em silêncio, porque Obito parecia ter entrado num estranho transe. Ela sentia a tesoura engasgar nos fios, resultado de anos sem manutenção em suas lâminas, mas Obito era paciente e continuou seu processo até livrá-la do que ele julgava ser um excesso.
Estava na altura do ombro com mexas cortadas sem nenhum padrão. Deveria estar horrível, mas Obito a olhava como se fosse a mulher mais bonita do mundo. Como se ele tivesse descoberto nela a beleza de alguma forma. Era surreal o olhar mágico que ele sustentava, como se um momento de epifania o tivesse atingido com força.
Quem era aquele homem?
Ela jamais poderia imaginar o que se passava dentro da mente masculina, mas Obito apenas sentia como se tudo estivesse fazendo sentido. Sim... Sakura era alguém que se repetia na sua vida de tempos em tempos e ele imaginou, em algum momento, que Sakura fosse seu karma encarnado, mas a verdade é que agora ele conseguia entender.
Ela era sua predestinada.
Obito amava Rin mais que tudo. Sempre a amou desde que conhecera a menina doce que lhe sorriu na entrada da escola. Obito sempre gostou dela e ela sempre foi seu tipo. Rin era o amor de sua vida, ele não tinha dúvidas, mas ela não o amava da mesma forma. Rin era irrevogavelmente de Kakashi, então o destinou empurrou Sakura para sua vida como uma substituta.
Seus destinos estavam amarrados um ao outro como o fio vermelho do destino. Era Sakura o tempo todo, o seu prêmio alternativo, porque Kakashi e Rin eram almas gêmeas, e ele e Sakura também eram.
Ele soltou o ar com uma risada fraca percebendo que fora tão tolo em toda sua vida. Devia ter ido atrás dela mais cedo, devia ter cedido, afinal ela estava ali quase implorando para ser sua com aquela expressão séria e temerosa. Era tudo que ele mais gostava nela, aquele medo latente, como se a qualquer momento uma desgraça fosse acontecer. Ela pedia o tempo todo para ser confortada, como se precisasse sempre de alguém que cuidasse dela, e quem melhor que ele para essa tarefa?
— Eu nunca te odiei, Sakura – Obito começou com sua voz contemplativa — Nunca me importei contigo, na verdade. Tudo o que aconteceu com você e Sasori, a investigação, a falência dos meus negócios... Eu nunca te culpei. – Ele revelou firme enquanto Sakura o olhava ainda sem entender — Eu vim a Kyoto por pirraça, e encontrei a minha Rin sofrendo por Kakashi, que a tinha trocado pela garota que destruiu Sasori. – Contou ainda com seu tom tão distante — Mesmo com ela sofrendo tanto, eu ainda não consegui te odiar. Eu só queria que ela parasse de sofrer. Eu sabia que ela só seria feliz com Kakashi, então eu fiz tudo isso. – E deu os ombros — Eu fingi ser Sasori e fiz todas aquelas coisas, mas nunca pensei em você de verdade. Eu só queria separar vocês dois, achei que Kakashi ficaria assustado e terminaria. Ou até mesmo você. Tanto faz. Eu só queria separar vocês.
Sim, ele nunca quis fazer mal a ela. Nunca foi sua intensão trazer sofrimento à Haruno Sakura, e normalmente ele não faria algo tão grande para atingir um objetivo tão simples. A verdade é que Rin não tinha amigos tão fieis como os de Sakura, que quebrariam o mudo ao meio por ela. Todos os amigos de Rin ficaram assistindo o sofrimento dela enquanto Kakashi se divertia com um novo amor. Eles eram pura escória.
Ela estava sozinha, ele sentiu isso quando a viu naquele bar se debulhando em lágrimas amargas. E é claro que ele tinha sua parcela de culpa, não estava se isentando. Mas era absurdo pensar que ninguém foi até Kakashi e mandou ele parar de fazê-la sofrer, de brincar com os sentimentos dela, de puní-la por algo que não tinha sido culpa dela. Nenhum desses amigos lutou pela felicidade dela.
E Obito teria tido o prazer de dizer tudo isso a Kakashi se ele ainda lhe desse ouvidos.
Mas como o mundo não é perfeito e Kakashi era magoado demais para deixar o passado para trás e retomar aquela amizade, Obito precisou ser um pouco mais drástico. Se era Kakashi que Rin precisava para ser feliz, então era isso que ele daria a ela como uma compensação por tudo que ele causou.
Quando descobriu que nova namorada do homem era a Sakura do Sasori, todo aquele plano idiota lhe surgiu como um passe de mágica. Ele começou seguindo os dois por todos os lugares, ligava insistentemente para Kakashi e nunca pensou que gastaria tanto com chips pré-pagos. Foi cuidadoso e nunca usou um chip duas vezes, quebrando-o logo em seguida ao seu uso. Coisa rápida.
Quase desistiu porque Rin parecia bem em algum momento, até lhe ligar aos prantos pelo um mês de Kakashi. Como ele tinha a audácia de comemorar um misero mês de namoro quando a mulher que tinha dedicado uma vida a ele estava sofrendo daquela maneira? Kakashi era um ingrato. Ficou com tanta raiva que naquele mesmo dia, um pouco mais a noite, invadiu o apartamento da menina munido de fotos de todos os encontros dela com Kakashi, e uma daquele sextape horroroso que ela tinha feito com Sasori.
Colocou tudo espalhado do mesmo jeito que viu num filme quanto era mais novo. Seria o suficiente para assustá-la, e então ela contaria tudo para Kakashi. Na sua cabeça, Kakashi a deixaria assim que soubesse que Sakura tinha sido a mulher de um criminoso do nível de Sasori. Que homem em sã consciência levaria alguém usada como ela a sério? Ela até tinha vazado na net! Mas não... Kakashi era um homem acima de qualquer repulsa.
Ele ficou com a garota.
Então Obito percebeu que seu próximo passo tinha que ser mais elaborado. Pensou por dias no que Sasori faria, afinal tinha que ser algo que parecesse com ele, mas nada lhe vinha à cabeça e maldito Sasori tão artístico. No final, optou por algo que fosse ferir Kakashi de modo profundo ainda que não se parecesse em nada com algo que o ruivinho criminoso faria.
Kakashi sempre foi um frouxo com animais, tinha feito todo um movimento na faculdade em prol dos cães de rua, etecetera. Ele soube que o homem tinha adotado um punhado de cachorros sardentos que viviam no seu grande quintal. O que era mais trágico para um homem do que a morte de um dos seus animais estimados? Jogou um bife moído cheio de veneno e voilà!
Novamente, Sakura nunca foi sua intensão. Ele sempre estava mais disposto a atacar Kakashi que perturbar Sakura com qualquer coisa, afinal, Sasori tinha razão em uma das coisas: Ela conhecia muita gente importante e ele não queria nenhuma zorra com os Yamanaka, Hyuuga, Nara, Uzumaki... Ele não queria se envolver com os riquinhos da cidade, tudo o que ele queria era fazer Kakashi terminar com Sakura, e isso aconteceria se ele entendesse que o cachorro só havia morrido por culpa de seu relacionamento com a menina.
Era só terminar com ela!
Naquele dia, Obito realmente achou que iria conseguir algum progresso. Até viu Rin saindo da casa dele com um semblante tranquilo. Parecia ter resolvido toda a sua vida e mesmo que estivesse acompanhada do chato Gai, ele não conseguiu se conter e foi logo colher informações, mas pasme! Rin ainda se dizia solteira, e mais que isso, deixou claro que não tinha mais pretensão de voltar com o Hatake.
É claro que ele ficou confuso. Rin jamais desistiria de Kakashi! Eles eram a metade da laranja um do outro.
Mas Rin não parecia se importar, na verdade, ela o acusou de tantas coisas e Obito sentiu-se tão irritado quando percebeu seu erro trágico em matar um cão que também era dela, porém, mais que isso, Obito se sentiu traído quando Rin jogou em sua cara que ele sabia daquele noivado ridículo que Kakashi pretendia quando mais novo.
Só ele enxergava que tudo aquilo iria ser um erro? Tudo bem, ele tinha se arrependido, mas ainda assim... Ela estava uma bagunça naquela época e Kakashi estava mais preocupado com os vira-latas de Kyoto do que com a namorada. Estava tudo errado e Rin não devia culpá-lo por não contar algo que, obviamente, fora lhe confiado em sigilo.
Ok, tudo bem, ele não contou porque não quis, mas aquilo realmente faria diferença? Puts.
De todo modo, Obito percebeu que a cabeça de Rin tinha sido feita, e todas as palavras dela soavam como Kurenai e suas opiniões extremistas. Tudo bem! Rin podia não querer mais nada com ele, mas de uma vez por todas, ele faria Kakashi voltar para ela! Ele corrigiria todos os seus erros e eles ficariam juntos novamente, porque a única pessoa que poderia ficar com Rin era Kakashi.
Então ele decidiu tirar Sakura de circulação.
De novo, ele nunca quis fazer mal a ela, mas não tinha mais opções viáveis. Ele precisava que Kakashi fosse ao fundo do poço para que Rin o confortasse, então eles recuperariam seus sentimentos um pelo outro e finalmente fariam as pazes. Era perfeito! Tudo que precisava era que Sakura morresse tragicamente, então ele foi até aquele condomínio chique, usou seu sobrenome para entrar e sabotou os freios dela.
Parecia que se apresentar como "senhor Uchiha" era a chave para entrar em qualquer lugar de Kyoto. Sasuke tinha acesso liberado naquele condomínio por conta de sua amizade com a garota Hyuuga. Fácil como tirar doce de criança.
Mas o destino era certeiro, e quem acabou sofrendo aquele acidente fora Kakashi. Céus... Ele não queria matar Kakashi! Por sorte ele havia sobrevivido, e o contato de emergência era Rin! Iriam ficar juntinhos naquele quarto enquanto ele se recuperava da batida, era perfeito para uma reconciliação. Obito esperava que a experiência de quase morte fosse suficiente para que Kakashi pudesse perceber o que realmente era importante na sua vida e voltasse para Rin de uma vez por todas.
Entretanto, Obito não ia vacilar novamente. Aquele acidente chamaria atenção e ele só tinha mais uma chance para tirar Sakura de circulação antes que os Nara batessem em sua porta. Foi a primeira vez que ele falou com Sakura, a primeira vez que ele a viu tão próxima. Tudo foi como uma primeira vez. O toque, o olhar, o choro dela, o conforto que ele propiciou.
Ela estava tão fofa naquele banheiro.
— Hoje eu planejava te matar, sim – Ele disse depois de um momento, seu semblante era como de uma criança deslumbrada com a descoberta de algo novo — Mas, princesa, hoje eu percebo que você é a minha segunda chance.
Sakura franziu o cenho tentando controlar sua respiração. Respire, Sakura! Dizia a si mesma enquanto tentava entender aquelas palavras. Segunda chance de quê? Engoliu seco com a declaração ao passo que sua mente trabalhava fervorosa para desvendar tudo aquilo. O que ele estava tentando dizer?
— Sakura, eu prometo que vou fazer você me amar – Ele disse com um sorriso, se aproximando dela com entusiasmo e Sakura não podia sentir-se mais enojada — Vamos viver em Tóquio! Ou quem sabe em Hokkaido! Você é de lá, não é? – Ele sorriu e Sakura estava cada vez mais confusa. Obito colocou o rosto dela entre as mãos segurando-a enquanto um novo leque de opções se abria diante deles — Kakashi e Rin vão ficar juntos, e eu sei que não sou um substituto para Kakashi, mas vou me esforçar por você.
O que ela deveria dizer?
As palavras dele sequer faziam sentido em sua cabeça. Era tudo tão aleatório, tão sem nexo! Substituto para Kakashi? Viver em Hokkaido? Fazê-la amá-lo?
Foi quando ela percebeu o avanço dele. Os olhos fechados, a boca entreaberta. Droga. Ele iria beijá-la e ela sabia que deveria corresponder, pela sua segurança, Sakura devia se mostrar interessada nas palavras dele, porque tudo o que ele estava dizendo ali significava apenas que ele tinha desistido do que quer que tivesse planejado fazer com ela.
Então ela se lembrou do que ele havia dito no banheiro. Ela o lembrava de Rin. É claro... A segunda chance. Céus!
Ele já estava tão perto, com os lábios a milímetros de distancia e Sakura se sentia tremer de nervosismo e angustia. Não queria fazer aquilo, não queria ter que se dar à alguém por pura obrigação. Com Sasori ou qualquer outro homem, Sakura não queria mais ter que fingir gostar de alguém, não queria ter que fingir querer o toque de qualquer homem. Ela nem notou quanto a lágrima escapou e dentro de si, sua própria imagem apareceu refletida.
Você precisa ser forte.
Ela soltou o ar sentindo o breve toque dos lábios de Obito roçarem sua boca tremula, mas antes que aquilo pudesse de fato se concretizar, o telefone dele soava num toque ritmado e alto demais. Ele recuou com uma expressão irritada e Sakura nunca se sentiu tão aliviada. Ela agradeceu a todos os deuses que conhecia enquanto respirava sem o sentimento de aflição iminente que lhe acometera.
Subiu seu olhar na direção do homem que segurava o aparelho nas mãos com uma expressão dura. Sakura percebeu que ele não desligou imediatamente, mas também não atendeu. Parecia relutante, confuso, mas de algum modo a decisão lhe acometeu e ele simplesmente tocou a tela do celular antes de levá-lo ao ouvido.
— Rin?
Sakura olhou mais atentamente para o homem e suas costas, que olhava para algum lugar sem realmente estar prestando atenção. Ele mantinha a cabeça baixa e não expressava muita coisa, mas Sakura sentia como se tivesse sido salva por aquele telefonema.
Rin sabia que ela estava ali? Tinha ligado de propósito? Sakura não fazia ideia, mas mesmo assim, sentiu-se grata, enquanto que Obito escutava tudo aquilo sentindo seu sangue borbulhar.
— Obito! – Ela disse com uma voz aflita, parecia estar chorando — Obito, por favor!
— Rin, o que houve?
Perguntou rapidamente porque não tinha tempo para os longos monólogos desconexos que ela geralmente fazia.
— Você sabe o que houve! Eu preciso mesmo dizer? – Ela disparou em sua voz afetada — Kakashi aconteceu! Sempre ele! – Disse com a voz mais alta, mais desesperada. — Eu não aguento mais, Obito! Eu preciso sair daqui! Eu preciso ir embora! Por favor, me tira desse hospital, me tira daqui! Tudo sobre o que ele fala é sobre Sakura, tudo é...
Pff... Odiava quando Rin se colocava naquele papel, mas não tinha muito o que fazer. Kakashi sempre mexia com ela nesse nível profundo e desesperado. Ele suprimiu um suspiro olhando de soslaio para Sakura. Com aquele cabelo mais curto, ela parecia cada vez mais com sua Rin, mas naquele momento não poderia dar atenção a ela como gostaria. O telefonema de Rin era mais urgente, e ao contrário do que a mulher pensava, tudo era sobre ela. Tudo era sobre Rin. Sakura era mera consequência, um prêmio de consolação que ele aceitaria de bom grado, porque Kakashi já havia ganho o prêmio principal. Rin era dele, custe o que custar.
— Ei, eu to indo te pegar. Você está no estacionamento?
— Sim. Obito... Obrigada.
...
A voz dela era como um suspiro de alivio aos seus ouvidos. Ele ficou um momento em silêncio antes de desligar. Ele ainda tinha todos esses sentimentos por Rin, esse ímpeto de querer garantir que ela fosse sempre brilhante e bela. Nunca iria esquecer a garota mais bonita da escola e o jeito que ela sorria, era essa menina que ele queria proteger, e Kakashi era o único que poderia fazê-la realmente feliz desde que ele era o homem que ela queria.
Não era como se Sakura fosse apagar todos os sentimentos que ele tinha, não era isso. Sakura era apenas uma boa substituta. Alguém que ele aprenderia a amar, porque afinal, eles teriam que seguir em frente, não é? Ainda assim, ele não podia simplesmente partir numa nova vida com Sakura sem antes garantir a felicidade de sua princesa.
Ele olhou para a mulher de cabelos cor-de-rosa e a encarou por um momento. Estava amarrada de pé numa gaveta. Não parecia confortável, mas ele ainda não poderia tirá-la dali. Estalou a língua no ruído de breve irritação. Não havia muito o que fazer, Sakura teria que ficar amarrada ali até ele voltar.
Mas tudo bem! Era o último encontro que ele teria com Rin, jurou isso a si mesmo enquanto tocava o bolso da calça para sentir as chaves do carro. Sakura aguentaria algumas horas ali, afinal Obito pretendia uma boa despedida regada ao melhor dos sexos, porque Rin sempre fazia aquele boquete quando estava com raiva de Kakashi.
— Eu volto logo – Ele disse depois de um momento — Vou arrumar o resto da bagunça e volto para você. – E sorriu como se não enxergasse a repulsa de Sakura — Vamos ter uma ótima vida juntos, eu mal posso esperar.
E então ele saiu abrindo e fechando a porta do quarto com um ruído característico a uma velha porta sendo batida. Sakura ouviu a fechadura girando e percebeu que além de presa à vigota no teto baixo, ela também estava trancafiada naquele quarto imundo. Ele não a tinha amordaçado e a janela ainda estava aberta, então poderia gritar e eventualmente alguém que passasse poderia socorrê-la, mas Obito não tinha cara de idiota, provavelmente o local era afastado de tudo e de todos.
Deveria ter prestado mais atenção aos arredores, mas não, estava mergulhada demais no próprio medo. Era só uma garotinha afinal de contas, sempre dependente de alguém. Ainda naquele momento, Sakura tinha sido dependente de Rin para tirá-la daquela situação que poderia ter evoluído para algo bem pior que apenas um beijo. Ela não sabia se Obito era como Sasori e não a forçaria a sexo, apesar de ela ter se sentido obrigada a dar isso a ele de tempos em tempos.
De todo modo, sua situação tinha melhorado momentaneamente, porque só de estar longe daquele homem seu coração já se acalmava um pouco e ela conseguia enxergar a situação de maneira mais prática. Não era hora de pensar em Sasori ou na história que havia sido revelada. Sakura não deveria evocar novamente esses sentimentos.
Olhou ao redor novamente, vendo os objetos espalhados no chão. Nada útil, nada que ela pudesse pegar. O barulho do motor se fez presente e ela soube que Obito tinha partido com o carro. Naquele momento seu corpo finalmente reclamou, como se tivesse lembrado que estava naquela posição desconfortável por tempo demais. Estava presa numa algema transpassada numa corrente agarrada numa viga do teto de madeira, esticada como um porco morto no açougue.
Toda aquela casa tinha cara de velha, e não era pelo excesso de poeira e falta de manutenção, mas sim pelo estilo do teto e piso, o modelo das portas e janelas, os móveis frágeis infestado por cupins que comiam tudo. Absolutamente tudo naquela casa rangia, desde as portas até os degraus. O piso de madeira tinha buracos e tábuas soltas.
Era uma casa abandonada, com certeza. Pela foto do trio de crianças na cômoda, Sakura soube que Obito morou ali por algum tempo em sua infância, mas não podia determinar quando. Mordeu o lábio pensativa enquanto afastava seus sentimentos, percebendo que a partir daquele momento estaria num estado de espera, e provavelmente sua ansiedade atacaria a qualquer momento.
Tinha que ser cética, como Ino. O que ela poderia fazer naquela situação além de gritar? O que poderia ser feito? Esticou uma perna para ver até onde poderia alcançar, mas nada conseguiria romper aquelas correntes de ferro que a sustentavam. Ouviu o ranger da madeira com seu movimento abrupto, como se a sua resposta fosse clara.
Não havia o que fazer.
No final das contas ela sempre precisava ser salva. A única coisa que podia fazer era torcer para Ino já saber de toda situação, porque ela sempre sabia, e assim esperar um resgate. Como sempre.
Era engraçado como naquela manhã Sakura estava pronta para tomar uma grande decisão como se entregar a Sasori. Ela não queria que Kakashi sofresse, não queria estragar a vida de ninguém nesse processo que era a loucura da sua vida, estava disposta até mesmo a morrer se fosse preciso, mas naquele momento ela percebeu que nunca se tratou de seu passado.
É mesmo...
Não era Sasori retornando. Sasori estava morto. Era Obito o tempo todo fazendo algo para que Rin fosse feliz de alguma forma. Era o passado de Kakashi, Rin e Obito misturado ao seu que criou toda aquela situação ridícula. Riu em escárnio quando percebeu que de alguma forma ela sempre estava envolvida em alguma merda. Riu porque uma vez na vida, nada era sua culpa. Riu porque Sasori não era mais uma preocupação em sua vida. Riu enquanto percebia que até mesmo alguém como ele, de alguma forma, se fodeu para tentar salvá-la.
Então seu riso se tornou lágrimas. Chorou porque era patética. Chorou porque novamente estava numa situação crítica. Chorou porque era incapaz de fazer qualquer coisa. Chorou porque Kakashi estava em perigo e sequer tinha noção disso. Chorou porque Sasori a confundia como nunca mesmo estando a sete palmos de terra.
Céus... Novamente estava sozinha e chorando como uma completa inútil, incapaz de tomar conta de si mesma como uma adulta. Tudo bem que a situação seria complicada para qualquer pessoa, mas em sua mente Ino conseguiria sair dali num passe de mágica, na verdade, Ino sequer se meteria numa situação como aquela. Sasuke provavelmente teria quebrado a cara de todo mundo e fugido ainda durante o translado. Ele era esse tipo de cara que não vacila.
E Naruto... Esse seria o pior. Obito não aguentaria 5 minutos com Naruto tagarelando. Dattebayo!
Começou a rir em seu choro com os pensamentos, lembrando de seus amigos. Eles estavam num nível completamente diferente, e perto deles, Sakura era como uma criança. Tinham crescido juntos, vivido juntos, então porque ela era tão diferente deles? Porque ela não podia simplesmente ser alguém que pudesse sair das situações? Ela não tinha uma família poderosa como os Uchiha, ou uma rede de contatos como os Nara, ou mesmo imunidade diplomática como Naruto.
Ela era Haruno Sakura, nascida em Hokkaido no começo da primavera. Seu nome foi escolhido por seu pai, porque da janela do hospital ele viu as pétalas das flores rosas tão brilhantes e vivas, tão selvagens e gentis. Sakura era seu nome. Sua vida tinha sido tranquila apesar de achar que algumas pessoas tinham sido destinadas ao sofrimento, mesmo assim, ela encontrou alguma felicidade nos amigos e na família. Encontrou força nas pessoas, e mesmo quando achava que não podia mais amar alguém, ela também encontrou amor.
Naquela manhã ela estava pronta para desistir de tudo, mas naquele momento Sakura percebeu que queria viver a mais plena das vidas. Queria escutar todos os dattebayos que Naruto tinha para dizer. Queria ouvir todo o daddy issues de Sasuke. Queria aparecer nos storys de Ino quando ela atingisse a meta de seguidores! Ela queria ver todos eles se formarem, e queria se formar também! Ela queria ser uma boa médica e aprender mais sobre a própria empresa.
Queria ver seus pais! Sim! Kizashi e Mebuki ainda não tinham conhecido Kakashi, apesar de ela ter falado sobre ele. Ela queria que sua mãe o conhecesse e desse sua opinião, queria que seu pai a fizesse passar qualquer vergonha falando sobre sua infância e mostrando fotos horríveis de quando era apenas um bebê. Queria viajar com Kakashi para a Nova Zelândia porque ele sempre quis ir para lá. Queria deitar em Buru numa tarde chuvosa enquanto comia alguma coisa, porque só tinha deitado nele nas tardes de primavera.
Ela queria um novo apartamento e um novo carro. Queria ir na festa de inicio de primavera dos Yamanaka. Queria dançar com Kakashi novamente e dizer a ele que estava irrevogavelmente apaixonada. Queria ver Ino dizer para Genma que ela estava caidinha por ele. Queria ver Sasuke e Naruto se casando!
E ainda precisava devolver a moto do Kiba.
Oh, sim... Ela tinha muitas coisas para fazer. Não tinha tempo para ficar ali à mercê do tempo e de Uchiha Obito. Não... Ela era Haruno Sakura e era tão boa quanto qualquer um deles.
Foi quando lhe ocorreu, finalmente, que aquela casa estava caindo aos pedaços.
Olhou para a viga onde estava pendurada e soube imediatamente que havia uma chance de fazer aquilo tudo cair. Tudo ali era comida de cupim e provavelmente toda a estrutura estava comprometida. Ela se pendurou na corrente e ouviu o teto ranger, fez força para baixo puxando com toda sua determinação, sentindo seus punhos doerem, mas nada aconteceu além de um simples ranger mais alto.
Puxou novamente e novamente. Não ia desistir. Sentiu a madeira vacilar, mas não por muito tempo, pois na hora a gaveta onde estava apoiada ruiu e seu apoio fora perdido. Estava pendurada novamente nas pontas dos pés, muito mais desconfortável do que antes, mas não o fim do mundo. Aquilo lhe deu uma nova perspectiva.
Ela era uma acrobata afinal.
Agarrou-se na corrente com força, jogando seu corpo para cima com certa dificuldade. Suas roupas não eram adequadas e tudo bem que seu espaço de movimentação era limitado, mas ela era pequena e relativamente leve, girou o corpo de ponta-cabeça apoiando seus pés na viga. A madeira já estava reclamando quando ela simplesmente fez força.
Mais, mais!
O barulho da fibra quebrando era audível, mas ainda era muito pouco. Precisava de mais força, mais determinação! Ela era Haruno Sakura e ia sair daquela situação por bem ou por mal! Suas mãos estavam ardendo pela pressão, os punhos mal se aguentavam com o desconforto causado pelo metal arranhando sua pele, mas Sakura não desistiria.
— Shaaaa... – Ela disse numa espécie de grito de guerra, fechando os olhos e jogando todo seu corpo para trás na direção do piso. Seus pés estavam firmes, suas mãos puxavam com um fervor renovado, e estava colocando toda sua força naquilo, toda a sua vida dependia daquele momento, tudo seria definido ali. Ela era a pessoa mais forte que ele conhecia. — Shannarōo!
.
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.
— Genma, fique com o carro ligado em caso precisarmos sair correndo – Ela disse de maneira prática quando saiu do veículo. Ele sabia que ela queria que, na verdade, ele não se expusesse ao perigo. Conseguia lê-la como se fosse um livro de receitas. Ino estava em seu limite, tão preocupada e nervosa, tão urgente e determinada.
Ela não desabaria numa hora como aquelas, mas dependendo do que encontrasse naquela casa, então a mulher nunca mais seria a mesma. Sakura e Ino eram amigas do tipo que jamais se separariam. Ino cuidava de Sakura como se sua vida dependesse disso. Se Sakura já estivesse... se ela...
Ele soltou o ar sabendo que era justamente por essa possibilidade que ele estava ali.
...
Gai e Sasuke estavam a postos quando Ino olhou para a casa com determinação.
O Uchiha os tinha encontrado no caminho numa moto enorme e cara. Estava sem capacete e muito pouco preocupado com qualquer multa que pudesse tomar. Ele acompanhou o carro na mesma velocidade e conseguiu falar com Ino enquanto pilotava, era surreal como aqueles dois conseguiam dirigir com maestria enquanto negociavam uma invasão.
Ambos combinaram que Sakura a prioridade, mas Sasuke deixou claro que Obito era um problema de sua família e que Ino não se metesse com isso. É claro que Ino ficou louca dizendo que a cidade era dela e que Obito tinha mexido com algo inestimável, porém Sasuke foi resoluto em dizer que ele tomaria as providencias devidas, e que Obito tinha que ser resolvido por ele, porque Itachi determinou que seria assim.
Agrh...
Ino confiava em Sasuke assim como confiava em qualquer um de seus amigos. Eles se conheciam desde sempre e apesar das rixas bestas, ambos eram próximos o suficiente para que houvesse uma confiança inabalável, mesmo assim, quando se tratava da segurança de Sakura, Ino podia ser um pouco extrema. É claro que ela queria cuidar pessoalmente de Obito e garantir que ele nunca mais fosse incomodar Sakura, entretanto, ele era um Uchiha e Shikamaru tinha razão quando dizia que não deveriam se meter com essa família desse modo.
Sasuke tinha lhe garantido que Obito não incomodaria mais depois daquele dia e ela acreditava naquelas palavras totalmente, mas não sabia o que aquilo significava. Os Uchihas eram conhecidos por banir pessoas para regiões remotas, e honestamente, na cabeça de Ino isso era completamente ineficiente. Ela queria, no mínimo, que ele fosse trancafiado numa cela de segurança máxima para sempre.
Mas o ideal seria que ele só deixasse de existir.
De toda forma eles não tinham tempo para discutir aquele tipo de coisa. Isso seria resolvido em outra oportunidade, porque naquele momento Ino olhou para Sasuke e Gai parados a sua frente. Ela respirou fundo e olhou para a casa velha com tinta manchada.
— Gai, veja se há alguma saída alternativa, eu e Sasuke vamos entrar.
Ela o viu querer questionar, mas seu olhar não dava aberturas para perguntas ou hesitação. Gai concordou com a cabeça e partiu dando a volta no recinto e Ino sabia que seria mais producente tê-lo ao seu lado, mas precisava garantir que Obito não fugisse, e entre entrar com Gai ou Sasuke, ela optava por quem já conhecia.
Sasuke se aproximou da entrada principal e chutou a porta com força, que se abriu com um baque. Aquilo lhe trazia uma memória agridoce no meio de toda aquela tensão. Naquela época fora Naruto que entrou ao seu lado, caindo em cima de Sasori para fazê-lo receber a surra que a muito tempo deveria ter recebido.
Eles subiram as escadas de maneira urgente, sem espaço para olhar ao redor ou perceber detalhes de uma família que tinha sido destruída. Quando estavam na metade da escadaria, Ino sentiu seu coração parar quando ouviu o grito de Sakura numa palavra que a muito tempo não escutava. Shannarō. Sasuke acelerou o passo, correndo sem se importar com nada enquanto Ino ia ao seu encalço, e quando chegaram a porta do quarto ouviram o baque de algo desmoronando.
— Sakura!
Gritou por reflexo enquanto Sasuke abria caminho com mais um chute em uma outra porta. A madeira podre espatifou-se em duas partes e Ino saltou sobre ela vendo os escombros de um teto que havia cedido. A poeira subiu e Ino se jogou em cima do entulho abrindo caminho entre telhas e madeira para encontra a sua amiga que jazia ali embaixo soterrada pelos destroços.
O que tinha acontecido ali afinal? Ela conseguia sentir Sakura se mexendo embaixo de tudo aquilo, tossindo e reclamando pela dor do impacto. Céus! Ino nunca se sentiu tão desesperada enquanto usava suas mãos para escavar no meio de tudo aquilo, sem importar-se com as farpas, os arranhões e os cortes que aquilo pudessem lhe causar. A única coisa que Ino queria era ver sua amiga.
Sua melhor amiga.
E quando finalmente Sakura se ergueu, Ino a abraçou com força sem se importar com qualquer outra coisa, trazendo-a para a superfície com seu coração acelerado. Repetiu o nome da amiga algumas vezes, se afastou brevemente para limpar o rosto dela e novamente a abraçou, porque não sabia o que fazer. Estava tão feliz, tão aliviada... Ao mesmo tempo que queria abraçar Sakura para sempre, ela também queria garantir que estava bem e não podia fazer tudo ao mesmo tempo.
— Ino? – A voz da menina soou entre a tosse enquanto ela exigia que a loira se afastasse por um momento. Elas se olharam e Ino viu o cabelo cortado de forma irregular, os olhos inchados cobertos por poeira, os arranhões causados pela avalanche que provavelmente fora provocada por ela mesma. — Ino! – Ela disse de maneira mais aflita enquanto a loira sorria de maneira aliviada, passando as mãos no rosto dela para limpá-la, sentindo que era sim Sakura ali, que ela estava bem apesar de tudo, que tinha conseguido chegar a tempo, que...
Que...
— Sakura! – Ela disse abraçando-a novamente. — Eu to aqui! Tá tudo bem, eu to aqui!
A verdade é que aquelas palavras não eram para Sakura, mas sim para si mesma. Ino precisava ser confortada pela realidade a sua frente: Sakura estava bem. Tinha chegado a tempo, e céus...
Alivio era uma palavra muito simples, muito singela para descrever seus sentimentos.
Diferente de antes, Sakura corria riscos ainda maiores na presença do psicopata-Uchiha que a queria bem longe do Kakashi. Tê-la nos braços com apenas alguns arranhões e uma provável concussão era o mínimo. Ela não precisava fazer uma análise minuciosa para saber que Sakura havia derrubado aquela parte do telhado na base da força bruta, também não era surpresa que tivesse conseguido já que o prédio estava praticamente em ruínas e Sakura tinha uma força elevada para alguém tão magrinha.
Ino apenas se deixou levar por sua emoção se confortando nos braços de Sakura, que de repente começava a chorar num momento tão íntimo. Soluçava sentindo todo aquele bolo de sentimentos escapar daquele local escuro onde guardou, seu corpo doía, sua cabeça e costas latejavam, seus punhos estavam em frangalhos, mas ainda assim ela não conseguia soltar Ino nem por um segundo.
Sua amiga tinha um cheiro tão bom de flores, nunca tinha perdido aquele mesmo cheiro de quando era criança, como se dormisse em cima de um colchão de flores frescas. A voz dela era como melodia em seus ouvidos, e seus braços eram, de repente, os mais confortáveis do mundo.
Tinha conseguido se soltar ainda que o ferro das correntes e algemas estivessem firmes. Abraçava Ino de um jeito desesperado enquanto percebia o que tinha acabado de acontecer. Tinha conseguido. Mesmo que Ino não tivesse chegado, Sakura teria conseguido escapar. Não era mais uma criança precisando ser salva, mais que isso, Sakura era alguém que apesar de tudo, estava munida com uma confiança que a muito tempo fora perdida.
A confiança de que conseguia fazer as coisas por si mesma.
E mais que isso, uma vez que Ino estava ali, ela podia simplesmente deixar que tudo viesse, porque Ino certamente sabia o que fazer. Ainda havia toda a confusão das palavras de Obito girando em sua mente, ainda havia as coisas sobre Sasori, mas naquele momento deixou tudo escapar na forma de seu choro, que não era mais de uma menina disposta a se sacrificar, mas sim de alguém que começava a enxergar a força que tinha.
De uma maneira literal também.
Sakura se agarrava a Ino em meio aos escombros enquanto sentia a luz quente entrar pelo rombo do telhado a atingir. A loira passava a mão em suas costas, ninando-a com um balançar suave de seu corpo enquanto Sakura apenas se deixava sentir todas aquelas coisas nos braços confortáveis da amiga, sentindo-se segura finalmente para deixar as coisas saírem. Com Ino ali, ela se sentia segura.
— Tá tudo bem, eu to aqui agora. Eu não vou deixar nada acontecer com você.
Era uma promessa sincera e definitiva. Ino não estava sendo leviana quando dizia tais coisas, ela realmente se sentia daquela forma, porque já havia falhado uma vez em deixar que Sakura vivesse tanto tempo com aquele homem asqueroso, e Yamanaka Ino não cometia o mesmo erro duas vezes.
Jamais.
Sakura era para si. Insubstituível qualquer pessoa é, mas Sakura... Perder Sakura seria como se perder. Vê-la daquela maneira fazia Ino pensar naquele laço de fita que a muito tempo deu a ela. A cor foi escolhida por conveniência, vermelho e rosa sempre se complementam de alguma forma, mas agora, depois de tudo, Ino sentia como se fosse seu Akai Ito.
E em meio a todo caos, havia harmonia.
— Ino – Sakura chamou depois de um momento, afastando seu corpo — O Sasori tá morto – Ela disse com seu cenho franzido em uma expressão estranha de pesar de tranquilidade. — Tobi disse que ele tentou me proteger. – Contou em seguida tirando um pedregulho mínimo que havia caído de seus cabelos nas pernas de Ino.
— Você não precisa pensar nessas coisas agora, Sakura – A outra disse percebendo o que estava acontecendo dentro dela. A confusão em torno dos motivos de Sasori. Ela mesma estava um pouco chocada com aquelas palavras, mas se manteve neutra em prol do objetivo maior — Entendeu? O que ele fez ou deixou de fazer, isso já não importa – Ino disse com sua voz gentil, olhando os olhos verdes um tanto parados em sua confusão — Mais importante que isso, me deixa te tirar desse lugar. – Disse porque só estaria em paz quando Sakura estivesse num local realmente seguro.
Sakura confirmou com a cabeça emitindo ruídos de quem está tentando se recompor em meio a dores no corpo. Ino sorriu gentil enquanto a olhava de maneira cúmplice. Elas tiveram uma longa conversa num instante com apenas um encontrar de olhos e Sakura apenas sugou o ar com força. Era Ino ali, era sua amiga e todo seu conforto. Ela tinha razão, tinham que sair dali, porque ainda não tinha acabado, afinal, Obito ainda estava por aí.
A loira olhou para Sasuke que estava com uma expressão tranquila na soleira da porta. Atrás dele, Gai sustentava seu olhar aliviado, como se também tivesse algo profundo em seus pensamentos. Ela se voltou para Sakura que passava as mãos no rosto se livrando da sujeira e lágrimas que se misturavam. Ino riu puxando sua blusa de seda sem nenhuma cerimônia para limpar a amiga, que lentamente se recompunha no meio dos destroços.
Sasuke entrou no quarto em seguida, ajudando-as a levantar antes de abraçar Sakura por um longo momento. Ele sussurrou algo para ela que a fez rir, mas Ino não sabia o que ele poderia ter dito para fazê-la corar daquela maneira, como se tivesse doze novamente e fosse apaixonada por ele. Gai entrou logo em seguida fazendo as honras para livrar os punhos da menina do metal rígido que a atava. Livre de uma vez por toda.
Mesmo que ainda quisesse Obito o mais rápido possível, naquele momento Ino achou que Sakura precisava de um instante antes de terem que correr novamente, só por isso ficou em silêncio enquanto desciam as escadas, sabendo que Sakura remoía alguma coisa. Eles deixaram a casa e Sakura respirou ar puro. Era só uma pausa antes do vendaval continuar.
Sakura olhou para os lados em meio a rua e percebeu que era o complexo Uchiha o tempo todo.
De fato, ninguém escutaria se ela gritasse porque a maior parte das casas eram desocupadas. Aquele conjunto residencial era um abrigo passageiro para os membros da família Uchiha que fossem menos afortunados. Ninguém queria ficar ali por muito tempo, mas simbolizava que nenhum Uchiha ficaria desamparado.
Viu Genma lhe sorrir aliviado, saindo do carro com aquele rosto mais bobo. Ele colocou as mãos nos seus braços perguntando como estava, e soou como uma pergunta tão sem sentido. Sakura riu quando Ino revirou os olhos nas costas dele de um jeito bem humorado, tentando fazer as coisas parecerem o mais normal possível. Sakura foi sincera com sua resposta: Não sabia.
Não sabia porque Obito ainda estava por ai e seu coração continuava acelerado. Ela estar segura era só uma parte em toda essa trama. Ino e Sakura se entreolharam e naquele momento sabiam que deveriam dar o próximo passo. Sakura disse o que sabia de maneira resumida, revelando que ele tinha ido atrás de Rin em algum estacionamento.
Merda...
Pensando naquilo de maneira mais prática, Rin estava no hospital com Kakashi, não era? Fora ela quem a informou das condições do homem naquela manhã horas mais cedo. Ino confirmou suas suspeitas, evitando falar que Kakashi estava acordado e que Rin sabia de tudo, afinal, se Sakura tomasse conhecimento então iria querer fazer alguma coisa e Ino não podia arriscar novamente a segurança da amiga.
Mas não é como se isso resolvesse, porque certamente aquela ligação de Rin tinha sido um plano arriscado formulado de última hora que, apesar de imprudente, pode ter salvado a vida de Sakura. Mordeu o canto interno da boca irritada por não poder ficar irritada por isso. No final das contas, eles tinham passado por cima do seu comando, e agora eram eles quem corriam perigo.
Ela olhou discretamente para Gai e Sasuke.
O problema é que Sakura a conhecia bem demais.
Teve que contar tudo quando a mulher de cabelos cor-de-rosa exigiu saber o que estava acontecendo de verdade, mas ao contrário do que esperava, os olhos de Sakura se mantiveram firmes. Ela não vacilou por nenhum segundo sequer, e apesar de ser uma ótima reação tendo em vista tudo o que já tinha acontecido, Ino queria que ela não a tivesse olhado daquela forma, como se estivesse pronta para uma guerra.
A verdade é que Ino jamais deixaria que Sakura fosse junto com eles, porque na cabeça dela, permitir que Sakura ficasse no mesmo ambiente que Obito era impensável. Depois de mover tantos recursos, mobilizar pessoas, viver a tensão e o medo, Ino não queria entregar Sakura a ele dessa maneira. Na verdade, na cabeça da mulher, Sakura deveria ir para o local mais seguro da cidade e ficar lá enquanto ela salvava o trio suicida.
Entretanto, é claro que Sakura bateria o pé para ir junto, como uma criança amuada que não aceita que o melhor a se fazer é apenas sentar e esperar. Ela precisava avisar a Shikamaru, precisava correr até a merda do hospital, precisava garantir que o namorado da sua amiga, a ex dele e o cara da banda estivessem seguros, e definitivamente Ino não conseguiria fazer isso se estivesse preocupada com Sakura.
Sakura não precisava explicar nenhum motivo para querer ir, tudo era muito claro para Ino: Kakashi era importante. Ela sabia disso como sabia que a terra era redonda, e por isso iria se esforçar pela amiga, fazer o que fosse necessário, mas era como se Sakura não pudesse simplesmente lhe deixar agir.
Foi quando disse aquilo.
Na verdade, ela gritou aquilo de um jeito raivoso e desesperado. Em plenos pulmões, Ino apenas esbravejou o que estava no seu coração porque não aguentava mais. Se Sakura tinha sofrido, então ela também tinha. Não foi fácil ouvir todas aquelas coisas e não se desesperar. Não foi fácil ter que se manter firme e fazer todas aquelas coisas quando sua única vontade era de parar o mundo e chorar.
Era engraçado porque aquela frase solta soava tão exagerada, tão melodramática. Definitivamente não combinava com alguém como ela, que era firme e assertiva. Fraqueza não era algo que ela demonstrava com frequência, na verdade, ela nunca demonstrou tanta fraqueza de uma só vez como naquele dia. Primeiro Genma, agora Sakura... Para quem mais ela precisaria fazer uma declaração?
Se lhe contassem uma história que envolvesse aquela frase, Ino provavelmente faria uma careta. Desespero não combinava com ela, odiava que as pessoas fizessem chantagem nesse nível, mas depois de ter dito ela entendia que não tinha a ver com chantagem emocional, era mais como uma súplica.
— E O QUE EU FAÇO SE VOCÊ MORRER?
Sim... Uma súplica de alguém que tinha vivido o pânico do desconhecido por horas. Ela podia parecer uma pessoa tão preparada, que sabia o que estava fazendo o tempo todo, mas a verdade é que ela nem sabia o que esperar, apenas torcia pelo melhor e de alguma forma era abençoada com isso.
Yamanaka Ino era só uma garota comum. Mesmo com todo dinheiro, contatos, fama e todo o resto, ainda assim, ela era apenas uma garota que gostava de moda, sair com os amigos, zoar qualquer um, beber, transar... Tudo bem que ela herdaria um império e seu pai já havia lhe deixado a par de muitas coisas sobre administração, incluindo a parte suja da coisa, mas mesmo assim ela ainda era apenas uma garota normal querendo viver sua vida.
Nunca imaginou, no entanto, que um dia descobriria que sua melhor e mais preciosa amiga estava envolvida com um homem tão nojento como Sasori. É claro que ela ficou transtornada e foi a primeira vez que teve que movimentar recursos reais para descobrir informações. O salvamento dela foi totalmente improvisado, ninguém – exceto Shiakamaru – sabia que ela e Naruto sozinhos estavam prestes a encarar um homem envolvido com pornografia infantil.
Aquela foi a primeira vez que ela entendeu de verdade o poder que o dinheiro trás. Se fosse pobre, Ino jamais teria descoberto a parte realmente podre de Sasori. Acharia que ele era apenas um cara idiota que vazou um nude da namorada, e o máximo que poderia ter feito era afastar sua amiga dele e contar a polícia. No entanto, o que aconteceu foi bem maior. Ino expulsou ele da cidade e conseguiu movimentar as autoridades numa investigação sigilosa, ainda que não tivesse dado os resultados esperados.
Mas naquele dia, Ino sentiu um frio na barriga o tempo todo. Sabia que Sakura estava passando por dificuldades e sabia que precisaria tirá-la daquilo custe o que custasse. Fez o que precisava fazer, mas em nenhum momento pensou que a encontraria morta. Naquele dia, ela imaginou todas as possibilidades, mas a morte de sua amiga não era tão provável assim, afinal o cara era um psicopata, mas gostava dela.
Só que essa coisa com Obito era bem diferente do que tirar Sakura de um relacionamento abusivo.
Ino se forçou de verdade a ficar firme o tempo todo. Fez o que precisava fazer, e talvez tivesse errado em algumas coisas, talvez pudesse ter mudado alguns detalhes de tudo, mas no final das contas a única coisa a qual ela queria evitar era a morte de Sakura.
Todo mundo a enxergava como alguém sempre firme, mas Ino nunca se sentiu tão perdida. Teve que arrastar Genma por todos os lugares porque não sabia se conseguiria fazer tudo aquilo sozinha. A mão dele em sua perna enquanto dirigia todo o percurso era seu contato com a realidade, era seu lembrete que não podia vacilar, porque o tempo todo ela se sentia simplesmente apavorada com a possibilidade de chegar naquela casa ridícula e encontrar a sua amiga sem vida.
Sakura não entendia!
Não entendia o que era passar meses observando sua melhor amiga se transformar em alguém sem brilho porque um idiota a estava diminuindo. Não entendia o que era sentir anos de culpa por uma coisa que poderia ter evitado tão facilmente. Não entendia nada do que era estar, num segundo, comendo um taiyaki e logo em seguida receber uma ligação anunciando que sua melhor amiga estava em apuros de novo.
Ela não entendia o que era sofrer por não saber o que fazer durante um daqueles ataques de pânico. Não sabia como era se sentir uma vilã de contos de fadas só porque era contra ela deixar a terapia. Sakura não tinha noção de como era terrível escutar aquele choro desesperado ao celular da sua importante amiga dizendo que queria parar de existir.
E logo agora que Sakura finalmente estava bem, que finalmente ela estava vivendo uma vida plena, logo agora...
... droga.
Todos estavam olhando para ela daquele jeito, não é? Dramática... Era isso que estava se passando na cabeça deles, com certeza. Se sentiu envergonhada depois que as palavras saíram tão estrondosas, mas era exatamente o que estava no seu coração, porque se Sakura se fosse, então ela não saberia o que fazer.
O vento soprou tranquilo e suave com a brisa quente. O sol brilhava forte e provavelmente já passava do meio dia. Ino olhou para os seus pés e viu a sujeira dos escombros onde estava minutos antes, escavando para encontrar Sakura e abraçá-la mais uma vez.
— Ino.
A ouviu chamar naquela voz miúda e gentil. Ela sempre soava como uma garotinha quando falava daquele jeito, toda meiga. A loira continuou olhando para os seus pés imersa na vergonha de ter exposto algo tão ridículo, mas então os pés de Sakura chegaram até ela naquele tênis surrado que ela usava para cima e para baixo.
— Eu tô sempre te dando trabalho, não é? – Sakura disse ainda num tom de voz gentil, passando suas mãos por cima dos braços rentes ao corpo de Ino, que não se mexia, escutando atentamente — Obrigada por cuidar de mim, Ino.
... Droga...
Não bastava ter dito algo tão constrangedor, agora ela começava a chorar enquanto apoiava sua cabeça no ombro daquela testuda desgraçada. Sakura a abraçou de maneira confortável e aconchegante. Era verdade, ela não tinha sido a única a sofrer ali.
— Você tá arruinando minha maquiagem – A loira resmungou sem saber o que dizer.
Sakura riu brevemente, porque ela não precisava dizer nada. Geralmente as pessoas costumam enxergar a dor da pessoa que é o alvo de tudo, mas aquelas ao redor também sofrem tanto ou até mais que elas, suportando não apenas a dor da outra pessoa, mas também a própria.
Se conheciam a tanto tempo e Sakura sabia que Ino tinha lá seus traumas, afinal não é todo dia que você salva sua amiga de um relacionamento abuso com um cara envolvido nos piores crimes. E quem imaginaria que a história basicamente se repetiria, dessa vez, muito pior e muito mais arriscada.
É, Ino sempre tomou riscos por ela, indo pessoalmente tirá-la desse tipo de situação e sim, Sakura queria parar de dar tantos problemas às pessoas, ainda que não tivesse culpa de arrumá-los. Naquela manhã, Sakura pensou em dar um fim a tudo e se entregar à Sasori, mas algo nela sempre hesitava, sempre relutava em fazê-lo sem entender porquê.
Mas agora sua resposta estava bem ali, nos seus braços, chorando como raramente fazia.
— Você sabe que eu confio em você, não é, Ino? – Sakura perguntou depois de um momento — Mas eu preciso que você confie em mim também.
— Nada do que eu disser vai fazer você ficar, não é? – A loira perguntou finalmente olhando para Sakura.
— Você me disse um dia que eu era um botão esperando para desabrochar, e bem, eu acho que está na hora. – Ela disse com um sorriso — Na verdade, já estou uns anos atrasada.
É mesmo...
Ino conseguia lembrar de uma conversa como aquela quando ainda eram duas crianças bochechudas.
Os olhos verdes brilhavam em seu tom mais intenso e Sakura tinha suas cores tão vivas quanto a de uma bela flor no auge da primavera. Era, de fato, uma linha flor de cerejeira.
— Eu realmente nunca erro – Disse e Sakura sorriu com cumplicidade. — Eu não vou te levar para lá, você não vai comigo – Completou mais séria depois de um momento — Ainda que você me diga que pode ir, eu vou fazer o que eu puder pra impedir.
— Tudo bem. – Sakura respondeu entendendo o simbolismo por trás daquelas palavras — Eu tenho carona.
Ino colocou a cabeça para o lado e viu Sasuke já montado em sua moto. Lançou um olhar mortal para ele, mas o homem ignorou como se não tivesse visto nada. De repente, Ino sentiu que teria uma chance maior de evitar que Sakura fosse se tivesse vindo com Naruto.
Ou talvez não. Naruto sempre foi imprevisível.
— Sakura... – Disse com sua voz preocupada, a expressão suplicante — Por favor, não se arrisca... Se você ver que-
— Confia em mim – Ela interrompeu olhando de maneira determinada e naquele instante Ino soube que Sakura finalmente estava vendo tudo o que Ino já enxergava nela a tanto tempo.
Foi então que o ronco do motor da moto de Sasuke soou alto e inconveniente. Ino desejou que a moto quebrasse no caminho antes de Sakura respirar fundo. Se olharam por mais um momento e assentiram uma para outra antes de Sakura dar as costas e montar na gigantesca moto. A loira os viu partir numa velocidade que não era adequada para os limites daquele condomínio e sabia que ela ia chegar em um segundo naquele hospital.
Estava com seu coração na mão e um pouco perdida. De repente sentiu como se não houvesse mais o que fazer além de esperar. Olhou para Genma que parecia estar estranhamente satisfeito apesar das circunstancias. Ele lhe deu um abraço que ela obviamente não pediu, mas que também não recusou. Era para isso que ele estava ali, pra enxugar as suas lágrimas.
Sorriu quando ele arrastou a ponta do polegar no seu rosto depois de recuar brevemente.
— Ainda não acabou, Ino – Ele disse calmo e suave, mas ainda havia aquela seriedade nas palavras — Nós precisamos ir.
Ela concordou com a cabeça, ainda preocupada com Sakura, com Kakashi, com Rin e o outro cara. Estava preocupada com todos eles, porque ainda que não se conhecessem direito, Genma conhecia todos direito, e céus... Ela queria proteger aquele cafajeste também.
— Vamos lá.
— Eu dirijo dessa vez.
Ino se virou arqueando uma sobrancelha.
— Quê?
— Eu dirijo – Gai repetiu — Nós ainda não vamos chegar antes de uma moto, mas... Vamos chegar bem mais rápido do que se fosse você pilotando.
Na sua mente, Ino estava completamente indignada. É sério que ele estava dizendo que ela dirigindo mal? Quem ele pensava que era? Aquele carro era o seu bebê vermelho-gloss lindo, edição limitada, importadíssimo e ele queria dirigir? Ah! Tenha santa paciência.
— Oh! É mesmo! Você tem aqueles cursos estranhos de direção ofensiva – Genma disse de repente.
Pera, não era direção defensiva? Ino pensou ouvindo Genma se animar.
— Sim! Vamos chegar lá rapidinho.
Ino olhou para Genma com cautela, mas o não-namorado apenas confirmou com um aceno firme de cabeça. Vencida, Ino entregou as chaves e entrou no carro. De qualquer jeito ela iria passar a direção para alguém, porque precisava ligar para Shikamaru, mas... Direção ofensiva?
Ok. Ela queria ver isso.
Sentou no banco do carona puxando seu celular, foi quando o motor do seu carro rugiu de um jeito que ela nunca tinha ouvido. De repente os pneus cantaram e a primeira curva que fizeram dentro daquele condomínio fechado foi um drift.
Colocou o cinto.
.
.
.
Estavam relativamente perto do hospital naquele ponto e o silêncio no carro era absoluto. As palavras estavam engasgadas dentro de cada um, e dando uma pequena olhada pelo retrovisor, Rin conseguia um vislumbre do homem sentado no banco de trás. Mal piscava encarando algum ponto do assoalho do carro, tinha os braços cruzados sob o peito e uma expressão que beirava a inquietação.
Olhou para Aoba em seguida que estava tão sério como em um velório. Focado no trajeto a sua frente, o homem tinha sido pego no olho do furacão sem sequer saber o que estava acontecendo direito. Não fazia a mínima ideia do que se passava na mente dele depois de tantas revelações. Na verdade, nem mesmo ela sabia muito bem o que estava se passando em sua mente naquele momento.
Era como se estivesse sua consciência estivesse fora de seu corpo, e de algum modo, Rin conseguia ter mais perspectiva para agir. Ainda era difícil assimilar que Obito era alguém tão perigoso, afinal, suas memórias remetiam a um garoto doce e divertido, que lentamente havia se tornado alguém um tanto babaca, mas parafraseando sua grande amiga: Que homem não é?
Não era cega, principalmente quando se tratava do amigo e ex namorado. Na época em que morou com ele na capital, Rin percebeu a movimentação estranha, os amigos esquisitos, as conversas secretas, os códigos. Teve a opção de ficar e descobrir o que tudo aquilo significava, mas optou por voltar e tentar recuperar aquilo que não poderia ser recuperado.
Olhou além da janela do carro, pensando um pouco mais no que estava acontecendo naquele exato momento. Seu plano era bem simples e até mesmo impensado, mas era melhor que simplesmente ir até o complexo Uchiha e invadir a antiga casa de Obito, que aparentemente era capaz de fazer qualquer coisa. Se ele estava mesmo com Sakura, então poderia fazê-la de refém e machucá-la no processo, o plano de Rin, no entanto, envolvia separá-los.
Se tudo o que foi dito era verdade e ela era o real motivo de todo o caos que Obito estava causando, então bastava um telefonema para afastá-lo de Sakura. Ainda era tão estranho pensar que Obito justificava suas ações como reparação por tê-la feito deixar Kakashi anos antes. Foi o que ele disse naquela discussão que tiveram no dia da morte de Bisuke.
Estava tentando compensar as coisas.
Tudo bem, seu sofrimento foi real durante aqueles meses e em alguns momentos quis que coisas ruins acontecessem, mas não era um desejo genuíno. Era apenas a dor falando, e parte dessa dor ela despejou em Obito porque ele era o único que a entenderia completamente sem levantar um dedo para julgá-la. Seu amigo de infância, seu ex namorado, seu confidente... Obito era muitas coisas, mas nunca se passou pela cabeça de Rin que ele pudesse ser uma pessoa tão perigosa.
Para que seu plano funcionasse, ela precisava estar em posse do seu celular, por isso foram até a casa dela rapidamente. O número dele ainda estava agendado por puro desleixo. Sempre fazia uma nota mental para removê-lo, mas nunca colocou aquilo em prática. Voltou para o carro e disse para Aoba que precisavam voltar ao hospital, porque aquilo tinha que ser convincente e ela precisava soar o mais desesperada possível.
Não era nenhuma novidade que ela gostava dos mais diversos filmes de romance. Como uma jornalista cultural, Rin ganhava ingressos para pré-estreias e afins. Tinha que se manter antenada com qualquer manifestação de arte e entretenimento para que seu prestigio e fama continuassem perdurando entre seus colegas de profissão. Às vezes, na solidão de seu apartamento, Rin encenava discussões na frente do espelho. Dialogava fervorosamente consigo mesma imaginando uma daquelas cenas clímax nos filmes de drama.
Nunca sentiu afinidade com atuação apesar de tudo, mas naquele dia ela sentia que precisava dar tudo de si no único papel que importava: O de si mesma.
Foi constrangedor falar com Obito ao telefone na frente de Kakashi e principalmente na frente de Aoba. Se pudesse colocar tampões de ouvido nos dois, ela teria feito. Ficou olhando para suas pernas o tempo todo enquanto choramingava sobre precisar dele porque Kakashi só falava sobre Sakura. Era o tipo de declaração que fazia toda vez que se jogava de cabeça no poço profundo que ela mesma havia cavado para viver aquele término.
Quando falava aquelas coisas antigamente, Rin não percebia o quão patética soava até ter que fazer sem estar sentindo tudo aquilo. Quando desligou, percebeu que Kakashi continuava com sua expressão num misto de resignação e inquietação, enquanto Aoba apenas se manteve dirigindo. Parecia que havia um acordo entre eles de simplesmente não tocar no assunto, o que deixava tudo mais constrangedor ainda, principalmente quando naquela manhã horas antes ela estava prestes a mandar ver com Aoba.
Entretanto, naquele momento, Rin não se permitiu viver o constrangimento. Não podia pensar daquela forma porque, afinal de contas, estava encenando algo tendo em vista o objetivo principal: Dar uma chance a Ino de salvar Sakura sem grandes problemas. Seu plano consistia em segurar Obito pelo tempo máximo que conseguisse, assim a Yamanaka teria tempo de ir a qualquer outro lugar antes do Uchiha retornar.
Isso se ele já não tivesse feito algo irreversível.
Por isso ela não deixou a pena de si mesmo voltar. Aquela vergonha não cabia naquele momento. Tudo bem que Aoba tivesse ouvido tudo aquilo, tudo bem que Kakashi tivesse presenciado uma simulação do que foi seus altos e baixos durante aqueles meses. Tudo bem. Não podia ter vergonha do seu próprio processo, porque fora ele que lhe trouxe até aquele momento de forma que pudesse simplesmente fazer alguma coisa por uma garota que tinha sido envolvida em algo bizarro apenas por amar alguém.
Lembrou-se das palavras de Ino sobre não os deixar vencer.
Para alguém com tão pouca idade, aquela garota dizia coisas com muita firmeza, e estava certa afinal. Rin não deixaria Obito vencer de forma alguma. Ele não ia fazê-la sentir-se culpada, e não ia estragar mais uma relação de Kakashi.
Olhou novamente para ele pelo retrovisor e era como se ele estivesse sendo abraçado pela tensão. Seus ombros estavam rígidos e a expressão perdida lhe cortava o coração. Kakashi era um homem tranquilo por natureza, então vê-lo num estado tão inquieto como aquele fazia com que Rin quisesse apenas confortá-lo, apesar de saber que no fundo só o faria sofrer um pouco mais. Nada do que pudesse dizer naquele momento traria paz, a não ser o que o levasse até Sakura.
Estavam entrando no estacionamento do hospital novamente quando ela orientou Aoba a colocar seu carro na vaga mais obscura possível. Longe da entrada, ele escolheu uma bem apertada entre dois carros altos demais. O hospital era um prédio quadrado e largo com muitos andares, havia um estacionamento subterrâneo, onde geralmente estacionavam as pessoas que sabiam que iria passar muito tempo no hospital e havia o estacionamento descoberto na superfície onde geralmente estacionavam as pessoas que vinham à emergência.
Por conveniência, escolheram o estacionamento aberto.
Sim, porque não fazia nenhum sentido ir ao subterrâneo apenas para esperar uma carona. Ela tinha que ficar à vista, além disso, era mais seguro estar onde as pessoas poderiam simplesmente vê-la caso algo acontecesse, porque não podia afirmar que Obito não faria nada contra si, ainda que o motivo dele para todo esse caos fosse a sua felicidade.
— Vocês fiquem no carro – Ela disse quebrando o silêncio sem olhar para nenhum dos dois em específico — Eu vou lidar com Obito do meu jeito e vocês não devem sair.
Kakashi não respondeu apesar de ter olhado para ela por um momento mais longo. Parecia tão atordoado, quase como se não tivesse escutado uma palavra do que ela havia dito. Rin suprimiu um suspiro quando olhou finalmente para Aoba, e ele parecia... Diferente.
— Eu concordei com tudo isso, mas não quero deixar você sozinha com ele – Aoba disse de repente, muito direto, muito sério.
Não parecia com o seu amigo Aoba, nem com o cara com quem ela vinha flertando nos últimos tempos. Era alguém sério demais, focado demais, apreensivo demais. Sim, aquela era a palavra que definia Aoba em todos os momentos desde que entraram naquele carro: Apreensivo.
Era de se esperar, não é? Ele era como Genma nessa história, alguém que não estava naquela situação de supetão porque nada daquilo dizia respeito a eles. A história toda, na verdade, era sobre a relação de Kakashi, Rin e Obito. Até Sakura e Ino tinham sido envolvidas por estarem próximas deles. Na verdade, mesmo que ela fosse o motivo de tudo aquilo, Rin também se sentia um tanto atordoada.
Aquela bagunça era resultado de todas as decisões que os três haviam tomado. Mais ainda, Rin e Kakashi jamais perceberam o quão perturbada era a mente de Obito enquanto viviam suas vidas envolvendo-o em seus dramas.
— Não se preocupe – Ela disse com um sorriso fraco, tentando parecer firme com sua voz — Eu consigo lidar com Obito – Garantiu sem nenhuma certeza.
Não esperou por uma resposta dele, apenas tentou seu melhor sorriso confiante antes de sair do carro. Ali, de costas para os dois e enquanto dava alguns passos para uma área mais discreta e afastada, o sorriso se desmanchava em uma expressão de apreensão. Ela não sabia o que esperar daquele encontro e também não fazia ideia de como agir quando o visse.
O que costumavam fazer quando ela ligava para ele daquele jeito?
Transavam.
Revirou os olhos para si mesma enquanto se escorava num carro azulado. A pior parte de toda história era a espera, porque nesses momentos a mente viajava por todos os lugares possíveis, e os receios se tornavam cada vez mais nítidos. Obito era mesmo o monstro que Ino disse que ele era? Ele tinha mesmo pego Sakura?
Era difícil acreditar e ao mesmo tempo Rin não duvidava que fosse possível. Soltou o ar dos pulmões com um ruído sentindo que não estava vestida de maneira apropriada. O sol queimava sua pele e, céus, que horas eram mesmo? O horário do almoço já havia passado ou ainda havia comida nos restaurantes? Se o mundo fosse perfeito, naquele momento, Rin estaria comendo alguma coisa na companhia de Aoba depois de ter chegado lá pelo menos três vezes.
Na verdade, se o mundo fosse perfeito, Kakashi e ela teriam casado anos atrás. Provavelmente àquela altura já teriam tido um filho, e talvez fossem divorciados. Riu com o pensamento trágico ao final, porque achava que em algum momento, fatalmente ele conheceria Sakura e a paixão avassaladora o faria terminar consigo, mesmo que houvesse uma criança envolvida.
Cutucou a própria unha sem perceber que estava estragando a esmaltação levemente rosada com que as tinha colorido. Obito já deveria estar perto, não é? O complexo Uchiha fica um tanto longe do hospital ao contrário de seu apartamento muito bem localizado. Olhou para cima e depois para o lado, não haviam muitos carros naquele horário e o estacionamento soava vazio apesar do barulho miúdo que os pássaros faziam, escondidos nas sombras pontuais do gigantesco prédio logo mais para o lado.
A pior parte era a espera, de fato.
Será que seu comportamento nos últimos dias tinha despertado o pior lado de Obito? Tinha sido ela a culpada por ele ter se corrompido daquela forma? Não percebeu que havia descascado todo o esmalte da unha de seu polegar enquanto revivia memórias com o antigo Obito, a criança que tinha um sorriso largo e vivia com doces na boca.
Tinha sido sua culpa, com certeza. Se não tivesse usado Obito daquela forma, então ele não se sentiria tão responsável pela sua felicidade. Usá-lo como muleta para seu término nunca foi correto, ela sabia, mas não podia evitar quando ele sempre se fazia disponível independente da necessidade que tinha. Rin queria esquecer, e o Obito queria lembrar.
Geralmente quando chamava Obito nesses momentos de fraqueza, a primeira coisa que fazia quando o via era pular em seu pescoço procurando, desesperadamente, as sensações que a faziam esquecer completamente de Kakashi. Obito sempre foi especialista no tipo de sexo que parecia mais uma punição do que prazer propriamente dito, afinal ainda que todos gozassem no final, o ato como um todo parecia ser um tanto desagradável.
Seria esquisito se ela não fizesse isso, não é? Seria esquisito se ela apenas não se jogasse no pescoço dele em busca da profanação de seus corpos. A verdade é que pensar em transar com Obito depois de tudo era bizarramente repugnante não apenas pelos eventos recentes, mas por tudo que ela tinha descoberto sobre o passado e as coisas que ele fez.
Além disso, Kakashi e Aoba estavam a poucos metros de distância, sentados num carro observando tudo e ainda que ela estivesse disposta a fazer o que fosse preciso para ganhar tempo, seu corpo e mente relutavam em admitir que não queriam ter que encarar Obito. Ela não queria mais vê-lo, não queria ter que falar com ele sequer.
Ela já tinha entendido que a presença dele não era benéfica para seu processo e que não podia usá-lo daquela maneira tão estupida. Obito também era um ser humano e tinha sentimentos, sendo assim o melhor para os dois era simplesmente uma separação definitiva. Nada de amigos que fodem, ou velhos colegas. Podia parecer uma decisão radical tendo em vista que ele não tinha culpa sozinho de tudo o que aconteceu, mas ela tinha que fazer o que era melhor para ela mesmo que aquilo fosse magoá-lo de alguma forma.
E agora, depois de saber de todo o esquema que ele tinha em Tóquio e das coisas que ele estava fazendo em Kyoto, Rin só queria distância. Ainda era complicado pensar que ele realmente fazia todas aquelas coisas, mas mesmo assim não conseguia simplesmente dar-lhe o beneficio da dúvida porque ela sabia que no fundo ele era capaz daquilo. Algo em Obito era perigoso.
Soltou o ar dos pulmões sentindo o ambiente esquentar. Será que Ino teria conseguido achar Sakura? Será que elas estavam bem? Será que Obito viria de fato?
Não podia negar que tinha tomado uma decisão impulsiva. Yamanaka Ino foi bem clara quando os disse para ficarem esperarem, e normalmente seria exatamente isso que ela faria, afinal Rin tinha consciência de suas limitações. Não era nenhuma super-heroína, não sabia dar um soco de maneira efetiva e fugia de baratas. Mesmo tendo auxiliado uma colega numa super reportagem sobre o tráfico de drogas na periferia, Rin não se julgava realmente conhecedora de operações policiais.
Tudo o que ela sabia era o que via na TV, nos filmes e nos livros.
E Ino simplesmente reforçou aquilo que sua mente já estava preparada para fazer: esperar. O problema era que a espera é algo que vai consumindo, pouco a pouco, a sanidade das pessoas. A espera trás consigo uma série de sentimentos que se revezam de período em período. Lentamente seriam consumidos por ansiedade, raiva, impotência, preocupação, tristeza... A falta de notícias seria fatal principalmente para Kakashi, que já parecia tão vulnerável a tudo isso.
Ela não sabia como ele estava se sentindo, mas sabia que deveria estar borbulhando por dentro tentando encontrar um modo de ajudar de alguma forma. Foi só por isso que Rin tomou aquela decisão apressada e impensada de fingir uma crise e chamar Obito. Não seria leviana em dizer que depois de alguns minutos, ela simplesmente queria desistir e esperar por Ino, mas Kakashi já estava com aqueles olhos sérios e ela não conseguiu não seguir com o plano.
Obito sempre aparecia quando ela chamava, e geralmente fazia isso em menos de vinte minutos. Se ele estivesse mesmo no complexo Uchiha, então teriam pelo menos 40 minutos dependendo do tráfego. Ela não estava com um relógio e tinha deixado seu celular no carro, mas sentia que esses quarenta minutos já haviam se passado. Talvez até mais.
No fundo ela torcia para que ele simplesmente não aparecesse, mas ao mesmo tempo queria acabar logo com aquela tortura da espera, porque ela já estava pronta para acabar com aquilo. Bem, mais ou menos. Não havia como saber o que esperar, então acabar com aquilo soava abstrato demais. Podia significar qualquer coisa, desde Obito dizendo que não tinha sido ele a fazer tudo aquilo até... sei lá.
Ela não sabia.
E o pior é que Aoba tinha se envolvido nisso de supetão, e ela só queria que ele fosse embora de alguma maneira porque em todas as possibilidades que vinham a sua mente, a única certeza era que lavariam a roupa suja. Ela, Kakashi e Obito. Toda a sujeira de anos que estava impregnada nas cortinas, eles simplesmente esfregariam, jogariam sabão, torceriam, enxaguariam...
Pessoalmente, Rin não tinha muito mais a dizer sobre o passado. Já passou, tudo bem. Tinha feito as pazes com tudo aquilo, mas Kakashi e Obito se veriam pela primeira vez, não é? Torceu o lábio numa fina linha enquanto imaginava o que poderia sair de toda aquela conversa. E se de fato Obito fosse realmente tão perigoso – porque sua mente ainda estava processando essa informação – tudo poderia ir por um caminho que... bem, sei lá.
Agora ela estava ali, naquele estacionamento, com uma roupa completamente inadequada enquanto rezava para que Sakura estivesse bem. Rezava para que seu plano tivesse surtido efeito e, mais ainda, rezava para que Obito não fizesse nenhuma bobagem.
Porque Rin ainda gostava dele, como um bom amigo. Porque apesar de tudo, Obito tinha sido extremamente importante na sua vida, gentil a sua maneira, sempre disposto a colocar um sorriso em seu rosto com qualquer piada. Ele sempre teve bons abraços, e gostava como ele cantava no chuveiro.
Todas essas coisas entravam em conflito quando ela pensava naqueles amigos esquisitos dele, dos mau humores de Tóquio, do banheiro mal lavado com tinta vermelha entre os azulejos. Das roupas rasgadas, os ferimentos no corpo dele.
Ela sabia que ele estava envolvido com algo estranho, e naquele momento, Rin se perguntou algo que provavelmente não deveria: Se tivesse ficado teria conseguido salvá-lo?
Ele a salvou tantas vezes, não foi?
... tsc.
Foi quando de repente o carro velho surgiu dando a curva no estacionamento. Ela prendeu a respiração involuntariamente enquanto se empertigava, esperando enquanto o veículo tão conhecido desacelerava brevemente ao reconhecê-la. O vidro abaixou e o motor ainda estava ligado quando viu Obito sorrindo para ela daquele jeito bobo de sempre.
— Sua carruagem chegou, princesa.
Obito...
Como ele conseguia fazer aquela voz animada de sempre? Como alguém com aquele semblante feliz poderia, de alguma maneira, ter cometido tantos crimes? Rin soltou o ar de uma vez, de repente, com vontade de abraçá-lo. É... Havia esse desacordo sentimental dentro dela, porque ao mesmo tempo que essa vontade surgia, Rin também queria apenas ir embora.
E mesmo depois de todas as coisas que ela havia lhe dito dias antes, mesmo depois de mandá-lo embora da sua vida, Obito ainda aparecia para salvá-la como se nada tivesse acontecido. Nenhuma mágoa, nenhum rancor. Chamando-a de princesa.
Mas o rosto dele estava avermelhado na lateral, como se tivesse levado uma pancada forte. Também estava desalinhado com sua camisa amarrotada. Por fim, ela notou, os fios de cabelo com um brilho rosa grudados na roupa dele de maneira discreta.
Olhou para ele por um longo momento.
Nem notou que estava fazendo uma careta estranha num misto de tristeza e decepção.
— Ei! Não chora! – Ele disse fazendo uma voz preocupada, desligando o motor logo em seguida para saltar para fora do carro com pressa.
Por reflexo, ela recuou quando ele se aproximou. Tudo nela estava tão confuso. Havia aquela parte de si que ainda tinha esperança de que ele não era o homem que estava fazendo todas aquelas barbáries, mas ao mesmo tempo, todas as provas que precisava estavam bem na sua cara.
A muito tempo ela já sabia.
— O que ele fez dessa vez? – Ele perguntou receoso, provavelmente sem entender o que estava acontecendo para que ela agisse daquela forma.
— O de sempre – Ela se forçou a dizer depois de engolir a seco, sabendo que não podia voltar atrás.
— Não se preocupa, Rin. – Ele falou com aquela voz cheia de energia e esperança — Quando duas pessoas estão destinadas uma a outra, então elas vão ficar juntas – Disse de maneira tão boba — Você e Kakashi são almas gêmeas, então mais cedo ou mais tarde vão se entender.
Ela o olhou enquanto processava aquelas palavras de uma forma que nunca antes havia entendido. Era como se a única alternativa que ele aceitasse fosse perder para Kakashi. O que aconteceria se ele soubesse que horas antes ela estava prestes a transar com Aoba? Será que ele iria atrás dele e faria todas essas maldades?
— Eu e Kakashi terminamos – Rin disse de maneira quase cautelosa, era de fato uma péssima atriz — Esse negócio de alma gêmea não existe, Obito.
— Besteira! – O outro respondeu maneando a mão ao vendo de uma maneira sem importância — Essa menina aí com quem ele tá agora nem deve ser tão boa assim. Logo ele vai enjoar dela e perceber que você é muito melhor que qualquer outra mulher.
Ela sorriu um pouco nervosa, um pouco estranha. Todas as palavras que saiam da boca dele tinham um novo significado em sua mente. Qualquer elogio, qualquer comentário. Era como se ela estivesse conhecendo alguém novo.
— Não importa – Respondeu vendo-o franzir o cenho — Eu já não o quero mais dessa forma.
— Não? – Obito perguntou de maneira mais séria, como se todo seu bom humor tivesse esvaído de repente. – Então o que você quer, Rin?
Aqueles olhos negros cheio de perigo.
Rin sentiu-se muito mais tensa diante daquela pergunta, principalmente quando ele deu um passo na sua direção, e depois mais outro, se aproximando lentamente enquanto ela recuava sem querer estar muito mais perto do que já estava.
— E-eu.. – Ela gaguejou. Só tinha uma missão em toda aquela história: Ganhar tempo. Mas era incapaz de conversar com ele sem o choque da situação, sem as novas interpretações, sem entender as palavras dele da maneira que deveriam ser entendidas. Agora, Rin conseguia ver tudo mais claramente, os problemas de Obito, o jeito com que ele era fácil, o sexo... Ele deu todos os sinais, mas ela não percebeu nada.
Mas como poderia ter percebido? Como ela poderia ter adivinhado que Obito estava doente? Sim, porque aquilo era uma doença. Esse foco obsessivo. Ele sempre foi meio maníaco apesar de mascarar isso muito bem, e a única coisa que Rin não contava era que ele fosse maníaco por ela.
Obito jamais lhe faria algum mal, não é?
Pensou nisso quando sentiu seu quadril esbarrar na lataria de um carro logo atrás de si. Não havia mais como dar passos para trás e Obito estava bem próximo a si, encarando-a. Esperando sua resposta como se precisasse ouvir claramente o que suas palavra significavam.
Era uma completa idiota...
Então ele sorriu.
— É só me dizer, Rin. – Disse curvando seu corpo na direção dela, cobrindo-a — Me diga o que você quer. – Completou a olhando daquele jeito tão estranho, tão dissidente.
— O que você está fazendo, Obito? – Ela perguntou num sussurro enquanto ele lentamente tentava alcançar seu rosto com a ponta dos dedos.
Era isso, não é? Rin finalmente tinha percebido que Kakashi era apenas um cara que ela tinha se apaixonado. Tudo bem que ela levou tanto tempo, porque desde que ela dissesse com todas as letras que estava ali pronta para retomar sua relação, então tudo seria diferente. Tudo.
Mal podia se aguentar ao vê-la ali com seus enormes olhos castanhos, faixa nos cabelos... Lilás e tons de roxo sempre combinaram com ela. Adorava como ela tinha se vestido, como se estivesse pronta para ficar em casa o dia todo. Rin era linda daquele jeito, quase implorando com seus lábios entreabertos que ele a beijasse.
Sim.. Porque aquela respiração acelerada, seu peito subindo e descendo, o olhar temeroso... Tudo eram sinais de que ela estava prestes a dar um grande passo em sua vida. Se ele soubesse que mais uma briguinha com Kakashi era o suficiente para que ela percebesse o quão insuficiente ele era, então Obito já teria providenciado isso mais cedo.
Na verdade, ele ainda tinha Sakura naquela casa, mas tudo bem. Voltaria depois e... daria um jeito em tudo. Ele era um Uchiha afinal, ninguém tocaria nele com medo do que Fugaku era capaz de fazer.
A única coisa que importava era Rin. E céus, ela era linda.
Sentiu a mão dela pousar em seu peito de maneira meio abrupta, ela pareceu se assustar com o jeito que sua própria mão tocou o peito dele. Obito olhou brevemente para os dedos dela e percebeu os fios em sua camisa. Ah... Devia ter pego seu paletó ou trocado de camisa, mas ele não tinha como saber, não é?
Bem, ela também não ia ligar os pontos.
Imagine, tão sensível, Rin choraria a noite toda se soubesse que ele também estava prestes a trocá-la por Sakura.
Como se de alguma forma, Sakura fosse melhor que Rin.
Ele lentamente levava seus lábios aos dela sem esperar por uma resposta, sentindo a pressão da mão dela lhe impedir o movimento fácil. Seu cenho franziu quando ela virou o rosto com o lábio tremulo, sua outra mão encostou nele e finalmente Obito caia na real.
Ela estava com medo.
...
Não.
Não podia ser.
Não, nãonãonãonãonão.
Seus olhos abriram para ela, incrédulo. Puto.
— Quem? – Ele perguntou com sua voz nenhum pouco comedida. Não precisava explicar o que queria saber, mas Rin não o olhava. — Rin, quem! – Exigiu com mais raiva, irritado com a ousadia de qualquer pessoa ter contado a ela sobre... sobre ele!
Rin era a única que não o olhava como se ele fosse lixo. Ela era a única que conseguia enxergar o melhor dele, e honestamente, ele sentia que poderia ser uma pessoa melhor por ela. Faria tudo por ela. A ideia de alguém ter, de alguma forma, destruído sua imagem para a mulher o deixou transtornado.
Tudo que ele tinha, tudo o que restou.
Tudo era Rin.
E agora...
... agora...
— ME FALA! QUEM! – Ele gritou em cima dela precisando de um nome, precisando saber como ela soube daquilo, como ela ficou ciente...
Até simplesmente cair no chão com o impacto recebido. Se arrastou no asfalto olhando para o alto, na contra luz, ali estava Rin sendo afastada por um braço masculino, sendo colocada atrás do corpo do homem de maneira protetiva.
Kakashi.
É claro... Sempre Kakashi.
— Não levante – Ele alertou sério — Obito, não ouse levantar.
Ela nunca o ouviu falar daquele jeito, tão tenso. Era como se fosse uma panela de pressão apitando para todos os lados, anunciando sua explosão eminente. Kakashi tinha aparecido do nada, jogado Obito no chão e a puxado para trás.
— Você tá bem? — Ela virou-se por reflexo para ver Aoba puxando-a mais para trás, como se quisesse tirá-la de lá. Parecia tão preocupado, mas antes que ela pudesse responder, Obito começava a rir.
Não era uma risada normal, uma risada qualquer. Era alta e estridente. Uma longa gargalhada enquanto não fazia nenhum esforço para se levantar.
Kakashi e Obito se encaravam, e Rin parecia ter sido pega por algum furacão.
— Sério, Kakashi? – Obito disse entre as risadas, claramente provocativo — Um empurrão? – Riu em escárnio mais uma vez enquanto Kakashi sustentava aquele olhar raivoso — Até sua namorada bate melhor do que você.
Se ele dissesse que não gostou de ver a expressão do homem, estaria mentindo. Os olhos arregalados, a mandíbula tencionada, todo o cenho enrugado em pura raiva. Era hilário. Nunca tinha visto Kakashi fora daquele estado de controle absoluto. O homem nunca saia do sério, sempre tranquilo, e mesmo nos momentos mais fodidos de sua vida, Kakashi ainda era tão racional, mas era só falar da namoradinha que ele ficava assim.
Puto.
Viu o homem dar passos firmes na sua direção, os olhos fervendo em uma promessa nada gentil. Ele sabia que Kakashi estava doido por uma boa briga, mas honestamente, Obito era mais civilizado que isso. Puxou a arma do coldre e apontou para ele, que na hora hesitou.
— Kakashi! – Ouviu Rin gritar e ser agarrada pelo outro lá. Pff... Pelo menos ele a manteria longe de tudo aquilo. Voltou-se para Kakashi.
— Fica aí que eu não sou saco de pancadas – Comentou enquanto tomava seu tempo para se levantar sem abaixar a pistola. Eles não tinham visto sua arma pendurada? Céus... Nas suas memórias, Kakashi era mais inteligente. — Já basta o soco que eu levei mais cedo. Vê? – Inclinou seu rosto na direção dos três. — E não se preocupe, não revidei. Bater em mulher não faz meu estilo. Quer dizer... Só quando elas pedem. – E terminou olhando para Rin com um sorriso que a fez sentir-se enjoada.
— Onde ela está? – Kakashi perguntou ignorando qualquer coisa. — O que você fez com Sakura?
Kakashi não esboçava nenhuma reação a não ser raiva. Até mesmo com uma arma apontada para o seu peito, o homem ainda estava ali de pé sem parecer temeroso. Aquela valentia, o olhar... Kakashi tinha esse ar superior desde o primeiro momento. Foi assim que ele o olhou quando se conheceram, como se fosse tão superior a tudo.
Era estranho como em sua infância Obito o admirou. Com tão pouca idade, Kakashi já tinha um olhar que inspirava respeito. Até mesmo quando estava indiferente ou relaxado, ainda assim Kakashi exibia esse ar de quem estava acima de tudo e Obito queria um pouco disso, queria ser tão bom quanto qualquer outro.
Tão bom quanto Kakashi.
Mas o tempo passou e nada mudou. Kakashi ainda era Kakashi e Obito ainda era Obito. O primeiro tinha tudo o que queria, conseguia tudo, era admirado sem esforço enquanto que o segundo... O segundo era apenas o idiota da turma.
E ainda que muita coisa tivesse mudado e o tempo tivesse agido sobre os dois de diversas formas, Kakashi ainda conseguia olhá-lo daquele jeito e fazê-lo sentir daquela forma.
Inveja, admiração.
Riu.
— Eu prometi a ela que a levaria até Sasori – Ele respondeu dando os ombros enquanto media a expressão de Kakashi. Ele sabia ou não sabia? — Ela parecia querer encontrá-lo – Falou no mesmo tom, como se refletisse sobre algo — Eles tiveram um lance, enfim... Coisa de ex, você entende né? Talvez eles até reatem quando se encontrarem novamente. Sasori sempre foi louco por ela...
Tinha um ar brincalhão quando terminou sua fala, mas Kakashi sequer tremeu. Parecia estar completamente blindado a qualquer coisa que falasse, o olhando diretamente com seu semblante tão superior, tão ameaçador.
Era ridículo que ele conseguisse manter aquela pose quando estava com uma arma apontada para si de maneira tão direta, e mesmo a luz do dia, mesmo que ele contasse com a aparição inesperada de alguém, aquela parte do estacionamento era tão remota que provavelmente levaria algumas horas para isso acontecer.
Péssima escolha de local, pessoal.
— Obito, eu vou perguntar só mais uma vez – Kakashi disse com aquela voz tão presente, máscula. Como se fosse o herói salvador da pátria — Onde está Sakura?
Crentino.
Os olhos de Obito se estreitaram quando aquelas palavras saíram da boca de Kakashi. Como assim perguntar só mais uma vez? Mesmo com uma arma apontada para si, aquele homem ainda tinha a empáfia de fazer tal declaração como se estivesse no controle de tudo.
Seus lábios formaram uma fina linha rígida. Kakashi havia esgotado seu bom humor de uma maneira que não deveria ter feito. Deu passos largos em velocidade, colocou o cano da pistola na testa do homem e se pôs a encarar, mas Kakashi continuava ali, tão alto, tão superior.
Ouviu Rin gritar desesperada e sabia que Aoba a estava impedindo de simplesmente invadir a cena. Ótimo, continue mantendo-a ali. Ele não precisava de Rin se atirando histérica na frente de Kakashi.
Na verdade, a única coisa que ele precisava era tirar aquela expressão do rosto do homem.
— Pergunta de novo – Obito falou com sua voz mais sóbria, ainda encarando Kakashi que não recuava. Era como se ele não tivesse medo, como se em algum lugar de sua mente Kakashi já tivesse decidido que não iria voltar atrás não importasse o que fosse acontecer.
E Obito odiava isso.
Odiava que ele fosse tão seguro, tão presente.
No fundo ele sabia, não é? Sabia que iria sair ileso de toda aquela confusão. Era a única explicação para toda aquela valentia, porque nada fazia sentindo caso Kakashi não tivesse conhecimento de que Obito jamais o feriria, afinal, se o fizesse então estaria trazendo dor à sua estimada Rin.
Mas a verdade é que ele não fazia ideia.
Obito riu brevemente em escárnio.
— Não consegue, não é? – Disse com aquele sorriso voltando aos lábios — Onde está sua valentia agora?
O sentiu pressionar a arma contra sua pele na vã tentativa de vangloriar-se de ter algo que pudesse acabar com tudo em instantes, mas Kakashi apenas continuou olhando para ele com a mesma expressão, com o mesmo olhar de superioridade.
Será que o idiota queria morrer?
Ele não fazia ideia do que tinha mudado ou do que estava acontecendo com Kakashi, mas repentinamente o cenho franzido suavizou. Aquela expressão de tranquilidade voltou a aparecer e Obito não entendeu nada.
— Não lembrava que você era tão covarde, Obito.
...
O que?
Tinha ouvido direito?
Kakashi tinha acabado de lhe chamar de covarde? Quem ele achava que era para fazer uma declaração como aquela? Em posição ele achava que estava para simplesmente chamá-lo de covarde?
Seu rosto ficou sombrio de imediato e mão que segurava a arma tremeu em resposta a raiva que lhe acometia. A fúria corria pelo seu corpo estourando cada terminação nervosa, bloqueando qualquer outro pensamento que podia ter, a não ser aquele de Kakashi estava simplesmente lhe menosprezando de novo.
Sempre assim. Sempre superior, sempre o melhor. Kakashi estava por cima de todos. Até jeito que ele andava evidenciava isso e todos sabiam, baixavam as cabeças, e seguiam ele como formigas implorando atenção se um alguém que estava muito além do nível comum.
Obito nunca quis tanto enfiar uma bala em alguém como quis naquele momento, encarando os olhos relaxados de Kakashi que não mostravam muita coisa além que estava preparado para absolutamente tudo. Como se estivesse sempre no controle das situações, e o pior de tudo era que o desgraçado realmente estava.
Tirou a arma do peito dele com um movimento rápido só para girar sua mão com força num forte golpe contra o rosto do outro. Kakashi cambaleou para trás pelo impacto repentino enquanto Obito gritou de maneira esganiçada, frustrado com toda aquela situação, com a cena que havia criado e que não podia simplesmente continuar.
Afinal, Rin estava bem ali, gritando o nome daquele que ela tanto amava, temendo pela vida dele enquanto seus olhos não conseguiam segurar as lágrimas do pânico. E ainda por cima estava nos braços de outro.
Se sentia tão frustrado, e isso aguçava sua raiva de maneira ardente. Não podia matar Kakashi simplesmente. Não podia sequer encostar num fio de cabelo daquele cara, porque Rin o odiaria para sempre se o fizesse. A felicidade dela estava em Kakashi, e a única coisa que ele quis por todo esse tempo foi vê-la feliz.
Já tinha até passado dos limites com aquele acidente de carro que obviamente não era para ele e agora estava simplesmente o espancando. Rin já o odiava àquela altura, não é? Afinal, Kakashi tinha contado tudo para ela sobre o noivado que nunca aconteceu, e mais ainda, Rin sabia sobre todo o resto, porque aquele olhar temeroso de minutos atrás revelou tudo que ele precisava saber.
E Kakashi tinha prometido, não foi? Em sua pose superior naquele dia em que o bateu com força na cara, poucas horas antes de pegar o voo para Tóquio ao lado de Rin. Ele tinha dito que não ia magoar Rin revelando as coisas que apenas eles dois sabiam, dizendo que não queria que ela remoesse um noivado que ela obviamente não queria. Ele disse que não ia atrapalhar.
Disse que jamais o perdoaria senão cuidasse dela.
Então porque ele a tinha feito sofrer daquele modo? Rejeitando-a por uma simples garota sem sal, que sim, ela até podia parecer com Rin, mas o cheiro, o gosto, os sons e todo o resto ainda eram completamente diferentes. Rin ainda era melhor em tudo, e ainda o queria tanto que chegava a adoecer seu coração pedindo que ele, Uchiha Obito, se passasse por Kakashi em seus lençóis para satisfazê-la.
Era ridículo!
Tudo o que Kakashi fazia parecia ser perdoável! Não importava o quão intensamente ele a magoava, ainda assim Rin sempre estava disposta a perdoar, então porque ela não podia fazer o mesmo por ele? Porque ela não podia apenas dar o seu perdão a Obito e esquecer aquela história de noivado, crimes, Uchihas e Sakuras?
E como se não bastasse o pouco que já tinha, Kakashi fazia questão de tirar tudo de si. Rin o odiava agora, sentia nojo de tudo o que tiveram, sequer queria falar com ele depois de ter descoberto de sua parcela de culpa no término com Kakashi da primeira vez.
Era como se Kakashi não pudesse deixar absolutamente nada para Obito quando este já não queria muito.
Ele só queria que Rin fosse feliz.
Era só isso...
Só a felicidade dela importava. Os sorrisos e os olhares.
... "Obito..."
— Seu filho de uma put-
E em seu surto de raiva, Obito havia se descuidado.
Sentiu o corpo tombar para trás enquanto seu braço era erguido de maneira abrupta. A arma voou para algum lugar mais distante enquanto Kakashi caia sentado em seu torso. As costas e cabeça reclamaram com o impacto e quando o primeiro soco veio, Obito ainda se sentia atordoado.
Viu de relance o rosto de Kakashi. Tão sério, tão determinado. Outro soco lhe atingiu e sua vista ficou branca por um instante, clareando brevemente quando o terceiro o atingiu novamente.
Oh, céus... Que fracasso.
Era isso, então? Kakashi iria ganhar mais uma vez? Sua superiodade era tão absoluta que nem armado ele era capaz de ter uma simples vitória? Tudo bem que Sakura ainda estava presa no complexo Uchiha e que provavelmente levariam alguns dias para encontrá-la, mas no fim ainda a encontrariam antes que morresse de inanição, e nesse momento seria uma vitória completa para Kakashi.
E puts, ele nem chegou a conferir se os pentelhos dela eram rosa mesmo.
... Humpf.
Se Kakashi o socasse até perder a consciência, será que Rin ficaria satisfeita? Será que em algum momento ela sentiria sua falta caso ele morresse? Será que Kakashi e ela terminariam juntos nessa história?
...
É verdade que ele tinha corrido até ali e tirado Rin de perto dele, mas sequer olhou para ela no processo. Tudo o que ele falou foi sobre Sakura, ignorando totalmente qualquer coisa que não fosse onde ela estava. Kakashi era um grande filho da puta. Talvez fosse por isso que ele nunca falava da mãe. Certamente ela tinha sido a melhor das putas.
Antes do quarto soco lhe acertar, no entanto, Obito reuniu todas as forças que lhe restavam porque sabia que se fosse tirado da jogada, então Rin ficaria desamparada, e ele não podia deixar isso acontecer. Rin precisava dele. Ainda que não o quisesse por perto, ainda assim Rin precisava ser protegida contra a indiferença de Kakashi.
Kakashi precisava morrer.
Era por um bem maior.
Ruidos de fundo se faziam presente, carros passando? Pessoas chegando? Seria a polícia, os seguranças? Foda-se.
O acertou por baixo do queixo antes do quarto golpe.
Kakashi estava lento por conta do acidente e era visível que todo o corpo reclamava de dor. Deveria estar na cama, e não atrapalhando. Vacilante, Kakashi oscilou por um momento e foi aí que Obito inverteu a posição.
Jogou o peso do seu corpo contra o homem e ficou por cima dele, mas Kakashi ainda tinha a vantagem desde que suas pernas o prenderam pela cintura por puro reflexo durante a inversão ao buscar alguma estabilidade na queda. Obito se preparou para o primeiro golpe, mas Kakashi foi sagaz ao escorregar uma perna sobre o ombro dele, fechando um triangulo firme com os membros inferiores de modo que a fazer pressão no braço esquerdo e cabeça do outro.
Era um golpe improvisado.
A calça do homem impedia que o movimento tivesse sido mais fluido, mas era a única posição que Kakashi lembrava bem daquelas aulas que fez com Gai, anos atrás, de jiu-jitsu.
Era só puxar o braço e ele apagaria, o problema era que seu corpo estava reclamando a todo momento e sua vista já estava embaçada pelos dois golpes que havia levado. Ele estava um caco. Mas mesmo assim estava na vantagem, e como se fosse uma alavanca, Kakashi puxou o braço do outro com toda sua força.
E novamente Obito se sentia derrotado.
Parecia que não havia jeito, Kakashi tinha sempre uma carta na manga, sempre tinha um truque novo. Sempre superior.
Mas ele já havia decidido.
Kakashi precisava morrer.
Com sua mão livre, ele simplesmente tateou pelo bolso frontal de sua calça escura, içando facilmente o que estava procurando. Apertou um botão simples que funcionava como um gatilho e nessa hora sentiu a lâmina branca bem lustrada pular para fora.
Um golpe bem dado e resolveria essa questão.
Foi quando Rin gritou o nome de Kakashi em alto, claro e bom tom. A voz aguda completamente assustada sinalizou para o homem que algo estava prestes a mudar, mas não foi só isso. Ele também ouviu passos rápidos como os de alguém correndo, ouviu uma voz masculina gritar e não era Aoba.
Ele viu o braço de Obito vir de encontro ao seu corpo na direção do pescoço e torceu seu tronco por reflexo ao passo que encostava o ouvido no ombro na tentativa de bloquear o acesso à parte mais vuneravel. No processo, precisou folgar o golpe para conseguir estabilidade. A lâmina brilhou perigosamente num movimento estranho quando a mão do outro se sacudia abruptamente.
Gostaria de dizer que saiu ileso, mas sentiu seu olho esquerdo arder quando o sangue escorreu rapidamente pelo seu rosto. Um rasgo firme o impedia de manter um olho aberto, mas o outro ainda funcionava o suficiente para ver que alguém segurava Obito por trás.
Tudo estava tão confuso e ele não conseguia ver direto. O sol contornava uma silhueta estranha de alguém pequena montada nas costas de Obito. O Uchiha girou enquanto a pessoa em suas costas tentava enganchar seus braços ao redor do seu pescoço sem sucesso, já que uma das mãos não podia soltar o braço que segurava o canivete. Seria fatal se o fizesse.
— Filha da puta!
Obito praguejou com raiva quando percebeu os cabelos rosas balançando em suas costas. A desgraçada tinha a força de cem gorilas e o impedia de fazer alguma coisa de maneira efetiva enquanto estivesse pendurada em suas costas.
Desgraçada! Filha de uma puta!
Como ela tinha conseguido se soltar? Como ela tinha chegado ali tão rápido?
Ele não fazia ideia, e naquele momento não importava.
— Sakura!? – Kakashi soou ao fundo completamente atordoado pelo aparecimento repentino enquanto se levantava apressado.
Tentou jogar o cotovelo do braço livre contra ela, mas a mulher era tão franzina que o golpe passou direto. Céus... Estava enfrentando uma formiga. Foi quando ele teve aquela ideia, porque formigas sempre morriam esmagadas. Então ele se jogou com as costas no chão com a certeza que sua queda seria amortizada por um colchão cor-de-rosa.
A viu gemer em dor.
Era o segundo baque que suas costas levavam naquele dia, e em menos de duas horas. Estava completamente dolorida, seus punhos tinham marcas firmes dos aros das algemas, seus cortes ainda ardiam, tinha farpas em seus dedos e pele e a poeira que caia de seu cabelo ainda irritava seus olhos, mas mesmo assim ela ainda tinha forças para continuar.
Ela iria vencer Obito.
O homem girou rápido sobre ela, mas Sakura de algum modo ainda estava fazendo pressão. Kakashi voou em cima dele naquele momento e o puxou de cima de Sakura com toda a força que restava em si. Sentiu, com seus braços, algo úmido grudar em sua pele. Obito rolou para o lado antes de se levantar cambaleante, mas Kakashi não se importou.
Ninguém se importou.
A única visão que restou foi a de Sakura em sua roupa completamente lavada num carmesim intenso. Ela se apoiou nos cotovelos como quem fosse levantar-se e notou finalmente todo aquele sangue impregnado em suas vestes. Arregalou os olhos por puro instinto e olhou ao redor de si, que de repente era puro silêncio.
Rin tinha ambas as mãos cobrindo sua boca como quem entra num estado de choque enquanto Aoba tentava virá-la para que não precisasse ver. Sasuke estava lívido numa expressão tão não-uchiha. Sakura quis levantar a mão para ele, apontar para Obito, mandá-lo fazer alguma coisa, mas no momento em que seu musculo do braço moveu-se minimante, ela viu Kakashi desabar em cima de si.
Desde o primeiro momento, quando Sakura não atendia o telefone naquela manhã, Kakashi se sentiu urgente. Ele sabia em seu intimo que algo estava acontecendo e por isso ficou tão agitado, tão... Estressado. Estava pronto para discutir com Gai porque ele era o segurança dela, e foda-se se ela fugiu! Ele deveria estar com ela não importa o momento.
Mas Ino chegou daquele jeito tão imperativo falando todas aquelas coisas para Rin e qualquer outro que quisesse ouvir. Sakura estava desaparecida e Ino estava acusando Rin? Era como se aquela pessoa tivesse perdido a noção do que era mais importante. Ele não se importava sobre quem estava fazendo o quê e porquê. A questão nunca foi essa!
A questão era: Onde estava Sakura?
Mesmo depois de saber que a situação toda havia mudado, que Obito era quem estava por trás de todo o caos dos últimos dias, Kakashi conseguia pensar apenas que precisava ir atrás de Sakura. Ele precisava encontrar ela o mais rápido possível.
Era assim que ele se sentia o tempo todo, que precisava fazer alguma coisa para encontrá-la. Se possível ele invadiria todos os lugares de Kyoto pessoalmente, revistaria cada casa, cada prédio em busca dela. Ele queria apenas mantê-la segura de qualquer coisa que pudesse acontecer, queria ter certeza que aquela linda mulher de longos cabelos cor-de-rosa estava bem.
Kakashi conhecia a história dela, sobre como ela sobreviveu àquele relacionamento com Sasori e as cicatrizes que ela carregava dessa experiencia, e naquele dia enquanto ela contava sobre tudo que tinha vivido daquele jeito amargo e melancólico, Kakashi viu que com tanta facilidade aquele brilho perfeito de seu olhar se perdia no vão das suas tristes memórias.
O jeito que ela falava, a vergonha que evidenciava quando abaixava a voz, o nojo de si mesma quando lembrava do que tinha vivido com ele, o estranhamento de si mesma ao não se reconhecer como alguém que era tinha enfrentado uma das mais árduas batalhas, e sim, ainda haviam cicatrizes, mas no final das contas ela deu a volta por cima e conseguiu vencer.
Sim, ela venceu.
Ela era a pessoa mais forte que ele já havia conhecido, e disse isso com a maior sinceridade que tinha. Era resiliente, gentil e ainda conseguia sorrir daquele jeito para ele, como se todo o universo se abrisse. O que ela via nele? Perto dela, ele era tão pequeno. Ele sequer sabia direito o que tinha feito para que ela se apaixonasse, mas céus Kakashi só conseguia se sentir sortudo por tê-la consigo.
Ah, sim! Ele era um desgraçado sortudo! Tinha conhecido aquela garota do jeito mais inusitado possível, e naquele mesmo momento ele soube que tinha algo ali, ainda que não soubesse muito bem o que era. Era engraçado pensar que sequer notou seus sentimentos, porque com Sakura sempre foi tudo tão natural apesar das circunstancias. As conversas longas nos chats, os áudios de longos minutos, os sorrisos por trás da câmera, as provocações discretas e seus olhares.
Sakura tinha sido sua primeira paixão.
Nunca antes havia se sentido daquela maneira, preocupado com a roupa que iria usar para vê-la através de um site adulto, ansioso por suas mensagens, nervoso com seu tão sonhado encontro. E ela era a mulher mais linda naquele salão. Quando finalmente se tocaram, todo seu corpo respondeu e Kakashi se sentiu sonhar acordado.
E quando se beijaram naquela manhã morna, ela jamais saberia, mas havia ficado tão nervoso que por um segundo se perguntou se realmente beijava bem. Ela o fazia duvidar de cada coisa, e ao mesmo tempo Sakura o fazia ter certeza de absolutamente tudo.
Sabia também que tudo acontecia por uma razão, que as coisas só acontecem. A vida é assim afinal, mas quando algo como Sakura aconteceu, Kakashi soube que não podia ser mero acaso. Coincidência. Não... Era como se ele estivesse esperando por ela por todo aquele tempo, como se a vida só começasse de verdade depois que ele finalmente a conheceu.
Ele se sentia tão vivo.
Mas de repente tudo estava sendo tirado de si.
Porque ela estava ali coberta de sangue e ele se sentia tão desesperado, tão perdido. A abraçou num movimento nada delicado, segurando seu corpo em seus braços trêmulos sem sentir nada além daquela dor dilacerante em seu peito. Ele chorou e seus olhos arderam em desespero. Sua Sakura... E os soluços surgiam enquanto ele balançava seu corpo para frente e para trás, num gesto débil que refletia sua agonia.
Por quê?
Ele nunca tinha se sentido tão perdido como naquele momento. Seu peito rasgando em pedaços e seu choro aflito fazia sua garganta doer. Se tudo acontecia por um motivo, então porque dar tudo a ele e tirar logo em seguida? Kakashi ainda tinha tantos planos... Queria levá-la na fazenda, e viajar para algum lugar com ela. Queria dar um jantar pros seus sogros, e bem, queria que ela morasse consigo.
Como ela ficava em roupas de inverno? Ele não sabia. Céus, ele ainda não sabia tantas coisas sobre ela. Ela sabia andar de bicicleta? Qual era o seu conto de fadas favorito? Ela sabia tocar algum instrumento?
Céus...
— Sakura! – Ele dizia em sua voz embargada vivendo todos aqueles pensamentos em um brevíssimo instante, sentindo todo o impacto da perda e a dor de ter que se despedir quando ele não estava nenhum pouco preparado. Nunca estaria. — Sakura, meu bem..- Sakur—
Então ele sentiu aqueles braços tão conhecidos lhe envolverem ainda tão quentes, e tinha uma pressão suave ali, delicada na medida certa. Ela se empertigou como pôde dentro daquele abraço tão apertado que a atava e com sua voz mais doce, Sakura falou.
— Shh, eu to aqui. – E uma breve pausa fora feita enquanto suas mãos deslizavam nas costas masculinas num carinho que trazia conforto— Eu to bem, Kakashi. Eu to aqui.
Abriu os olhos com velocidade, recuando só o suficiente para ver aqueles olhos verdes tão intensos se abrirem para ele. Ela tinha um sorriso breve nos lábios e não parecia... não parecia... Ela...
O homem recuou mais um pouco olhando seu torso. A blusa ensanguentava havia manchado a sua, mas nenhum lugar parecia sangrar. Havia confusão no seu olhar enquanto ele procurava qualquer coisa, qualquer coisa, porque não estava disposto a se enganar. Não...
Foi quando ela ergueu aquela faca na mão e a soltou com um baque no chão.
O sangue não era dela.
— Eu consegui puxar ele e- oh!
Não pôde terminar. Não importava o que tinha acontecido depois. Kakashi se apegou ao que era fundamentalmente importante e sua mente apenas se permitiu ceder. A abraçou mais forte ainda enquanto chorava até mais do que antes. Era puro alívio. E todos aqueles sentimentos confusos e sóbrios saiam de si através das lágrimas que copiosamente caiam de seus olhos.
— Eu tive tanto medo, tanto medo... – E sua voz ia se perdendo embargada em todas aquelas sensações — Tanto medo.. Sakura, eu-
Repetia débil enquanto se livrava de tudo aquilo, porque desde o começo a única coisa que ele sentia era exatamente isso. Estava apavorado. Ele era só um veterinário sortudo com uma namorada incrível que ele queria ser capaz de proteger, mas que ao mesmo tempo ele não podia. E tê-la em seus braços naquele momento enquanto ela o envolvia num abraço era tudo o que ele podia querer enquanto a tensão sumia completamente para que ele finalmente pudesse sentir todo o impacto daquele medo tomar conta de si e, lentamente, ser evaporado pelas palavras dela que parecia tão tranquila.
— Tá tudo bem agora, eu to aqui – Ela disse com a boca em seu ouvido enquanto suas mãos o ninavam num gesto de consolo e conforto — Acabou, meu bem. – Disse com sua voz mais tranquila e gentil, e parecia estar com um estranho bom humor antes de simplesmente declarar — Eu tô aqui e não vou a lugar nenhum. Viu?
As mãos dela escorregaram por ele até capturarem o rosto masculino. Se olharam por um momento e céus... Estavam horríveis. A mulher de cabelos cor-de-rosa abriu um sorriso cúmplice quando Kakashi abaixou a cabeça brevemente antes de lhe sorrir de volta com seu rosto choroso. Eles riram brevemente pela situação e era tão bom ouvir a voz dela.
Era tão bom ouvir a voz dele.
Kakashi tombou para trás sentando no chão mais confortável, ergueu a mão para tocar o rosto dela ainda se sentindo tão aliviado, tão amedrontado. Sakura colocou sua mão por cima da dele enquanto lhe sussurrou baixinho um breve conseguimos.
E finalmente o cansaço os atingiu, mas antes que ele pudesse falar qualquer coisa, sentiu mãos braços lhe envolverem. Olhou por cima do ombro e viu Rin com seu rosto choroso e mais atrás Aoba parecia destruído. Claramente ninguém os preparou para uma situação como aquela.
Sakura viu Kakashi acalmar Rin com algumas palavras. Quando chegou ao local, Rin estava completamente tensa que sequer conseguia piscar. Nem notou quando Sasuke parou a moto bem atrás deles de tão focada que estava na situação. Aoba os viu, mas não podia fazer nada, se a soltasse, certamente Rin se envolveria no que quer que estivesse acontecendo e honestamente ela já tinha feito demais.
Afinal, fora ela quem a salvou.
— Rin – Sakura chamou quando ela pareceu mais calma — Obrigada por ter ligado.
E a viu sorrir como se estivesse envergonhada de repente, obviamente não esperava por tal fala.
— Obrigada por... Por tudo. – A outra disse de repente sentindo que céus, Sakura tinha mudado sua vida de ponta a cabeça desde o momento que aparecera. Tudo estava diferente, ela estava diferente, e naquele momento Rin gostava muito de quem ela era, da maturidade tardia que havia lhe acometido.
Elas se olharam com cumplicidade antes de Aoba simplesmente reaparecer com médicos e macas.
Estavam num hospital afinal.
Rin soltou alguma piada sobre as atribuições de um chofer que ninguém entendeu além de Aoba e eles começaram a ter uma conversa de pé de ouvido. Kakashi continuou com seus olhos em Sakura, segurando sua mão com a necessidade enorme de tê-la sempre perto de si.
— Ah, Sakura, o seu amigo da moto... Cadê ele?
Sakura deu os ombros sabendo exatamente o que ele estava fazendo.
— O Obito... Ele também...-
— Não se preocupa, Rin. Os Uchiha cuidam da própria bragunça. - Sakura falou por fim parafraseando sua melhor amiga, mas no final das contas, nem ela sabia direito o que significava.
Na verdade, ela sequer queria saber.
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.
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Obito conseguiu escapar da confusão completamente transtornado. Se arrastou pelo estacionamento formando uma trilha com seu próprio sangue. A vagabunda tinha conseguido enfiar o canivete em seu abdômen quando ele ainda estava em sua própria mão e era absurda a força que ela tinha a ponto de... Como ela escapou mesmo?
Ele estava puto.
Aplicava força na perfuração de seu abdômen enquanto cambaleava na direção da saída. Aquele estacionamento era bizarramente grande e àquela altura ele só queria que alguém aparecesse descendo de um carro para que ele pudesse pegar emprestado, mas nem para isso figurante servia.
Seu corpo doía por completo e o sangue quente jorrava para fora de seu corpo escapando por entre seus dedos. Ele se arrastava sentindo-se mais fraco a cada segundo que passava, porém ele era um Uchiha e precisava apenas pegar um táxi para a casa do filhote mais novo e logo tudo se resolveria. Fugaku não o deixaria morrer.
Sim, primeiro cuidaria de si mesmo, e então voltaria para acabar de vez com seu karma. Estava completamente decidido. Sakura iria ter a pior das mortes, e mais ainda, ele a mataria na frente de Kakashi. Seria perfeito. Talvez até fizesse como Sasori, gravando um sextape de recordação... Era algo a se pensar.
Mas não naquele momento.
Não.
Eles iam pagar por terem feito Rin lhe odiar, e iriam pagar bem caro.
Ela era sua princesa, a única que valia a pena.
E pensar que ele até pensou em trocá-la por Sakura. Pff... Elas não tinham nada a ver.
Sakura era uma gorila de testa enorme. Rin era delicada e gentil, não levantaria a mão para matar uma mosca.
Finalmente ele viu a saída. O homem da guarita não estava por lá, ao invés disso, Sasuke estava escorado numa moto enorme como se estivesse esperando. Ah, tenha santa paciência. O filhote mais novo achava mesmo que aquela pose era ameaçadora? Pff.. Obito teve que se segurar para não cair na gargalhada.
Continuou seu caminho sabendo que ele daria um jeito em tudo. Não tinha medo de nenhum deles porque para os Uchiha, a linhagem vinha em primeiro lugar, e Obito era descendente direto de Uchiha Madara, apesar de não ter herdado a fortuna, ele tinha pedigree.
Estava quase chegando. A cancela abaixada, a moto parada, Sasuke indiferente. Ele podia apenas adiantar tudo, mas não, queria fazê-lo sofrer enquanto perdia sangue. Sua vista estava até meio escura, e talvez fosse resultado da surra que levou.
Maldito Kakashi.
Maldita Sakura.
Foi quando ele viu o rosto de Sasuke mudar ao olhar brevemente para o lado. O menino recuou imediatamente como se algo estivesse vindo em sua direção, entrando na guarita sem hesitar. Os Uchiha não tinham muitas expressões, por isso quando viu Sasuke abrir um pouco mais seus olhos antes de se abrigar de qualquer coisa, Obito sabia que algo grande estava vindo.
Seria Itachi?
Hm...
Ele não teria medo do irmão, não é?
Mas Obito não teve que pensar muito nisso, porque logo ele ouviu o ronco do motor. Houve um ruído alto de pneus cantando no asfalto e ele virou-se na direção do barulho tão alto apenas para ver o carro vermelho chegando numa velocidade assustadora.
É...
...
Bando de filho da puta.
...
Foi seu último pensamento antes de simplesmente apagar.
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.
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GALERA, PENULTIMO CAPÍTULO SAINDO DO FORNO!
Eu to exausta HAAHAHAHA o capítulo teve mais de 30mil palavras! Prometo que amanhã respondo os comentários pelo sistema do FFNET, mas de antemão já digo que me sinto lisonjeada de ter vocês comentando essa história. São vocês que me motivam, por isso meu muito obrigada!
E CONTINUEM COMIGO, O FINAL NOS ESPERA.
