Eu sempre odiei hospitais.
Não sei se tinha algo haver com a quantidade de drogas que eles me davam ou com o fato que eles sempre tentavam imobilizar um dos meus membros quando eu caia, o que talvez acontecia com mais frequência do que eu gostaria.
Agora eu sentia falta das drogas.
Elas podiam me deixar aérea por algumas horas ou me fazerem ter um sorriso idiota no rosto, mas não me faziam sofrer de dor e agora eu estava sofrendo pra porra com essa maldição no meu tornozelo enquanto mancava em direção à cozinha atrás das pílulas da felicidade.
Ontem essa merda não doía tanto, talvez tenha sido eu e minhas constantes reviravoltas na cama a noite que me fizeram sofrer essas dores terríveis.
Jake me seguia preocupado, ele parecia não gostar de me ver com dor.
– O que está fazendo? – Rose apareceu na cozinha franzindo o cenho enquanto eu levava o comprimido à boca e o tomei com um pouco de água.
– Meu tornozelo sofre – disse apenas e ela da de ombros sentando-se em um dos bancos em frente ao balcão e alcançava com a mão uma das maças em cima do mesmo.
– Sr. Cullen liberou você até estar recuperada – disse mordendo a fruta e assenti.
Jake ainda estava olhando para mim, por isso me abaixei e o deixei vir em minha direção para mostrar que estava bem. Ela lambeu meu rosto animado enquanto sacudia a cauda no ar e sorri bagunçando seu pelo.
Quando levantei percebi que Rose me olhava, devolvi o olhar e ficamos nos encarando por longos segundos até eu não aguentar mais.
– O que?
– Você não achou estranho? – ela perguntou de repente me deixando mais confusa. – O modo como eles te olhavam? Não pareciam preocupados demais para um simples funcionaria?
Revirei os olhos e sentei no banco a sua frente. Jake, feliz por me ver bem, correu para alcançar seu brinquedo.
– Rose, eles estavam preocupados porque a culpa da minha queda foi praticamente de Emmett. Eu poderia processá-lo se eu quisesse... – parei por um instante pensativa. Eu poderia? – Mas isso não importa, tenho alguns dias de folga e vou aproveitar.
Ela balançou a cabeça distraidamente e continuo mastigando a fruta. Eu sabia que ela queria falar algo mais então suspirei.
– O que é Rose?
– Você realmente não percebeu? – perguntou levantando os olhos para mim. – O modo como ele te olhava, parecia... Parecia como um namorado preocupado, sabe?
Meus olhos aumentaram em surpresa e soltei um riso balançando a cabeça.
– Impossível, Edward não me olharia com esses olhos – estranho. Eu sabia e era claro como agua que Edward nunca se interessaria por mim, mas admitir isso em voz alto era... Difícil.
Rose me encarou por um segundo antes de baixar os olhos.
– Eu não estou falando do nosso chefe Bella – murmurou e franzi o cenho.
– De quem está falando então? Não havia... – parei de falar ao perceber de quem ela falava. – Emmett? Você acha que Emmett Cullen me olharia assim? – perguntei incrédula. O homem parecia nutrir um enorme ódio por mim. – Isso é... Impossível Rose. Ele me odeia.
Ela ficou em silêncio e se levantou.
– Eu preciso ir, vou voltar um pouco tarde hoje – disse alcançando sua bolsa em cima do sofá e fez um carinho em Jake.
– Rose – chamei-a antes que fosse e ela se voltou para mim. – Nomance não é uma opção para você. Sabe disso, não é?
Ela balança a cabeça e um pequeno sorriso surge em seu rosto.
– Obrigada Bella
Solto o ar pesadamente e deixo minha cabeça pousar em cima do balcão frio.
Nomance é uma merda.
Algumas horas haviam se passado desde que Rose saiu.
Eu já tinha feito varias coisas em casa, céus eu até me arrisquei a cozinhar alguma coisa. E durante esse tempo pude perceber uma coisa.
Ficar em casa é uma droga.
É um tédio mortal que faz você querer fazer qualquer coisa.
Qualquer coisa mesmo.
Era por isso que agora eu estava arrumando a bagunça do meu quarto.
Normalmente eu fazia isso uma vez a cada mês – porque Rose me obrigava – mas hoje eu tinha que fazer algo. Como é que alguém consegue passar tanto tempo em casa? Isso era um mistério para mim.
Meu quarto estava tão limpo, acho que mais limpo do que quando viemos morar aqui.
Eu estava vasculhando meu guarda-roupas, achando coisas que não via há séculos, como aquele suéter que mamãe me deu de presente de natal. Eu só a usei uma vez, no dia que ela me deu, pois a coisa coçava pra porra, e nunca mais tinha o visto.
E mais ao fundo do móvel, embaixo de uma pilha de roupas – eu tinha o costume de me vestir e jogar de volta no guarda-roupa – há uma caixa. Franzo o cenho e me estico para pegá-la, reconheço-a quando vejo o nome "Coisas da Bella" escrito em cima. Minha mãe havia me entregado quando fui a sua casa e eu havia deixando-a aqui, pois estava apresada para sair. Aparentemente ela havia a encontrado quando vasculhou o sótão em busca da minha foto.
Mas era estranho. Antes não tinha olhando-a direito, mas agora pensando bem não lembrava dessa caixa em particular, apesar da escrita ser obviamente minha.
Dou de ombros e abro-a, vários objetos desconhecidos surgindo diante a minha visão.
Haviam alguns livros velhos, uma fina camada de pó cobria eles, reconheci alguns, mas outros eu não fazia a menor ideia que tinha. Também havia um pequeno caderno, folheei-o e percebi diversos rabiscos que ao que parece eram... Musica? Estranho, mas a letra também era minha.
Coloquei-o de lado e peguei um cd em baixo, meus olhos aumentando ao ver a foto da capa. Aquela era Alice? Céus... A situação ficava mais louca. Soltei um riso ao ver seu estilo roqueiro, eu não sabia que ela tinha um pircem na sobrancelha.
Deixei o... Objeto interessante de lado e voltei a olhar para caixa. Um envelope branco estava no fundo, abri-o e percebi a presença de uma corrente. Ela era dourada e – eu posso não ser a pessoa mais rica do mundo – mas eu acho que aquilo era ouro. O pingente era em formato de um baú, como um de tesouros, e estava trancado, havia algo dentro dele quando o balancei, procurei por algo que abrisse-o dentro do envelope, mas não encontrei.
Suspirei e deixei-o ao meu lado, não havia mais nada na caixa a não ser por uma folha dobrada ao fundo. Reconheci minha letra ao abri-la, estava cheia de rabisco e alguns desenhos bobos, ao que parecia também era uma música, mas me surpreendi ao ver o nome.
Rapidamente peguei o cd e varri meus olhos pela lista de nomes das musicas. Meus olhos arregalaram quando encontrei o que procurava.
Bem ali, no número 7 da sequência, estava escrito o mesmo nome.
300 Primaveras.
Que merda estava acontecendo?
Alice tinha muitas explicações a me dar.
...
Era quase 19h00min horas quando Rose chegou em casa.
Eu estava aproveitando meu tempo de recuperação para fazer coisas se mulher. Por isso eu estava uma bagunça em frente ao TV com esmalte nas mãos e uma mascara verde cobrindo o rosto parecendo Huck.
Não demorou muito para Rose se juntar a mim e agora erámos duas duendes verdes esperando a pizza que pedimos chegar.
A campainha tocou e Rose correu para atender, o entregador já estava acostumado a nos ver em tal estado, por isso ela não se importou.
Porém ela congelou na porta assim que a abriu e de onde eu me encontrava não dava para ver direito quem estava na porta.
– Sr. Cullen – Rose parecia ter adquirido 50 tons mais brancos que o normal e eu senti meu coração disparar.
O que?
– Srta. Halle – ouvi sua voz estava divertida. – Eu posso entrar? Ou vim em uma hora ruim?
– Não – ela riu nervosamente e abriu espaço para ele entrar.
Céus, eu agradecia por estar com o rosto coberto de gosma verde agora. Pois quando seu olhar parou em mim meu rosto pegou fogo e eu quis me enfiar em um buraco.
– Bom... Bella, você faria companhia ao Sr. Cullen? Eu preciso ir um minutinho ali – Rose me lançou um olhar de desculpa antes que eu pudesse pensar em alguma coisa e sumiu da sala.
Cadela
– Então... – me virei para Edward com meu rosto queimando. – Por que não senta?
Ele estava tentando conter o sorriso e falando miseravelmente. Por isso aproveitei enquanto ele se sentava e peguei a toalha seca que estava ao meu lado e a esfreguei no meu rosto. Não ia ficar a melhor coisa do mundo, mas pelo menos eu não estaria como o Mascara.
– Você sabe que seria melhor se apenas deixasse, certo? – ele apontou para o meu rosto, o sorriso irritante maior do que antes.
– Vamos apenas fingir que isso nunca aconteceu – propus com meu melhor sorriso convencedor e ele tossiu para disfarçar seu riso.
– Tem uma... – ele apontou para meu rosto tentando se controlar e franzi o cenho confusa. – No seu dente.
Eu fechei os olhos e pedi para um buraco se abrir no chão, pois eu queria ir à China e nunca mais voltar.
Abri os olhos e ele explodiu em gargalhadas.
Merda, não sei falar chinês.
– Não se preocupe, não estou nem um pouco ofendida – disse cruzando os braços o observando tentar se controlar.
– Ah vá lá Bella – disse entre as risadas e meu coração falhou uma batida. – Vai me dizer que não achou engraçado?
Bella.
Ele me chamou de Bella e não estava bêbado.
Uma pessoa pode morrer de felicidade? Pois meu coração está prestes a enfartar.
Oh dane-se. Ele pode rir de mim quando quiser.
Porém, diferente do meu coração louco e feliz, quando ele percebeu o que falou parou de rir e seus olhos aumentaram.
– Er... Eu... – começou parecendo não saber ao certo o que falar e eu sou egoísta. Não iria deixar ele tirar essa pequena onda de felicidade que me dominou, por isso o interrompi.
– Eu prefiro assim – disse abrindo um sorriso e ele pareceu aliviado.
Ele pareceu querer falar algo, mas fechou os olhos com força mordendo o lábio como se impedisse de falar.
– Como está seu pé? – ele perguntou e fiquei confusa com a súbita mudança de assunto.
– Está melhor... Na verdade acho que eu deveria ter ido trabalhar hoje.
– Nem pensar – disse franzindo o cenho preocupado e sorri involuntariamente.
– É um tédio ficar em casa, eu até limpei meu quarto – ele soltou um riso me fazendo acompanhá-lo. – Descobrir algumas coisas estranhas no meu guarda-roupas foi a maior aventura do meu dia.
– Coisas estranhas?
– Foram apenas alguns objetos que eu não fazia a menor ideia que tinha – fiz uma careta e ele me olhou confuso. – Bom, há essa caixa que minha mãe achou há alguns dias e hoje resolvi abrir. Havia um colar, um diário estranhamente musical, um álbum muito interessante, mas um pouco... Não, muitooo sinistro – eu não estava fazendo isso para ouvir seu riso. Mas ver seu sorriso era tão viciante como uma droga. Certo, talvez eu estivesse. – E uma música estranha chamada 300 primaveras – balancei a cabeça rindo, mas parei franzindo o cenho quando percebi que seu rosto havia congelado e seus olhos arregalados.
– 300 primaveras? – sussurrou e assenti. Ele engoliu em seco e me olhou. – E de quem é?
– Isso é o mais estranho – comentei enrugando a testa. – Está com a minha letra, mas eu não me lembro de ter escrito nada disso... Talvez tenha sido antes do acidente? – parei franzindo o cenho. Se fosse o caso porque ninguém me contou?
– Acidente? – ele perguntou engolindo em seco e assenti.
– Quando eu estava no ultimo ano da escola sofri um acidente e perdi a memória – ele arfou e o olhei pensativa. – Acho que só foi dos últimos cinco meses da escola. Meus pais me disseram que não havia acontecido nada demais nesse tempo por isso não me interessei na época. Foram apenas cinco meses, não valia o traba...
Ele se levanta bruscamente e eu me assusto. Franzo o cenho confusa ao perceber seu olhar atordoado, olhando-me como se eu fosse um fantasma ou algo do tipo.
– Edward? – perguntei e ele balança a cabeça com os olhos ainda grandes e assustados.
– Não pode ser... – sussurrou se afastando e me deixando cada vez mais confusa.
– O que houve?
Tento levantar e ir em sua direção, mas ele se afastou ainda mais e eu paro.
– Eu... – ele começou e engoliu em seco fechando os olhos com força e abrindo-os rapidamente. – Eu preciso ir.
Tudo que pude fazer foi ficar olhando-o ir embora sem nenhuma explicação.
Assim que a porta fecha eu solto o ar pesadamente e tento entender a situação.
Eu apenas havia...
Então uma ideia maluca passa por minha cabeça, mas eu a dispenso rapidamente.
Não tinha a mínima chance que eu fosse essa garota que eles falavam. Quer dizer, Alice e meus pais prometeram pra mim que nada demais havia acontecido durante aqueles cinco meses na escola.
A suposta "garota" obviamente havia sido muito importante para Edward e seu irmão. Eu não sabia o que aconteceu, mas aparentemente havia sido algo muito grave.
Não.
É impossível.
Meus pais nunca mentiriam para mim, muito menos Alice.
Não quando era algo tão importante assim.
Eles não seriam capazes de fazer isso.
