N/A: Olá, ignorem os erros. Obrigada! ^^

Continuação...


I'll Let You In

Por Portia M. s2


Capítulo 2

[Ponto de vista: Neil Melendez]

Eu andava de um lado para o outro naquela sala. Calculava mentalmente o tempo de cirurgia, teria que apressar muitas coisas, e eu realmente não gostava de operar dessa maneira.

-Você está certo. – Ouvi a voz de Shaun que me observava. Parei e olhei para ele. Porque o olhar dele era a única coisa que parecia me acalmar naquele momento? Será que era porque eu sabia que ele estava praticamente na mesma situação que a minha e mesmo assim estava o meu oposto, calmo e confiante?

-Não é que eu não queira colocar o fêmur de titânio no homem. Eu só quero- tentei dizer.

-Eu sei. Você quer fazer o seu trabalho. E dessa forma, seguindo as regras do hospital, você o está fazendo.

Eu não entendia como ele era tão seguro para dizer algumas coisas e tão inseguro na hora de dizer outras. Eu sentia a insegurança em sua voz agora. Mas ele estava falando algo tão certo sobre mim. Algo que nem a Jessica conseguiu compreender.

Eu sorri minimamente, reconhecendo o fato.

-Mesmo estando no time da "perna falsa"- fiz a aspas com meus dedos, ele sorriu- você é capaz de me compreender.

Não tinha percebido que caminhava em sua direção enquanto falava.

A maneira como ele não conseguia olhar-me nos olhos, conseguindo apenas olhar minhas bochechas e boca, era algo... Sensual para mim. Percebi com pesar.

Estávamos a sós na sala, seria o momento ideal para conversar sobre o que tinha acontecido mais cedo? Duas batidinhas na porta e um "com licença", me fizeram perceber que eu também o olhava da mesma forma.

A enfermeira veio nos chamar até a sala de reunião no térreo, onde estávamos sendo convocados pela juíza do caso.

Shaun se apresou a sair da sala primeiro que eu.

Pensando bem, seria melhor conversarmos depois que tudo isso acabasse. Onde eu estava com a cabeça?! Logo menos estaríamos entrando na sala de cirurgia e eu não queria deixa-lo desestabilizado ou algo assim.

Inteirei o restante da equipe sobre o assunto e fui pegar o elevador. Assim que desci, vi Shaun empurrar com rapidez a maca do paciente em questão para fora da sala de reunião.

-Murphy, o que está acontecendo?

-O paciente, ele está coagulando. A cirurgia tem que ser feita agora.

Segurei a maca do outro lado e empurrei-a com mais pressa pelo corredor. A família vinha logo atrás, bem como a juíza e Jessica em seu encalço.

-Certo. Eu preciso de uma decisão, agora! Vamos amputar ou substituir o osso?

A juíza me respondeu com palavras aleatórias, um texto o qual eu não pedi.

-Ele está coagulando.. -Shawn repetiu, urgente.

Senti um súbito estresse. Eu precisava de uma resposta e ninguém estava me dando.

Chegamos ao elevador, prontos para subir com a maca para a sala de operação. Eu passaria dali apenas com o Shaun. Me virei para a juíza, enquanto Shaun apertava freneticamente o botão, chamando o elevador.

-Escute, eu preciso de uma decisão, agora! Tudo o que tem que me dizer é entre "amputar" ou "substituir o osso", AGORA.

Ela ainda falou mais algumas coisas formais até eu ouvir o que eu precisava.

–Substitua o fêmur.

-Vamos! –Shaun me apressava.

A porta do elevador se abriu, empurramos a maca para dentro e Shaun já solicitava o nosso andar.

Só quando as portas do elevador se fecharam e eu encostei-me à parede do elevador, foi que me permiti sentir-me um pouco menos estressado, finalmente tinham me deixado fazer o meu trabalho.

Fechei os olhos com força e apertei a ponte do meu nariz. Quando abri os olhos, percebi que Shaun me olhava.

-Vai dar tudo certo. –Ele disse. Sua voz num tom tão baixo e simples, a expressão dele era tão calma e confiante... E isso foi capaz de confortar qualquer estresse que por ventura ainda existisse no meu corpo devido a recente situação.

O som o elevador anunciava a chegada ao nosso andar.

Reestabelecido meu emocional, eu precisava focar agora nas poucas e dificultosas horas de cirurgia que haviam pela frente. Ia dar tudo certo. Shaun estaria comigo.

﹝•••﹞

O paciente havia acordado.

Estávamos no quarto para reavaliá-lo. Eu conversava com o paciente, enquanto Shaun checava algum movimento nos pés da perna operada.

-Ele mexeu. – Todos se viraram em direção ao pé do rapaz. Seria mesmo possível obter tal resultado em tão pouco tempo?

-Vou fazer de novo. – Shaun passou a ponta da caneta, superficialmente sobre a pele do pé do paciente, e juntos assistimos aos dedos mexerem sutilmente com a "carícia" que Shaun lhe fazia. Era quase imperceptível, mas estava ali.

Não sei o porquê de ter me surpreendido com algo assim. Mas é claro que ele sabe onde existem os pontos sensíveis dessa forma, e o que fazer para ativá-los. Ele é um médico, e como eu, conhece bem o corpo humano. Mas ainda assim, observar a fixação dos olhos de Shaun a cada movimento que os dedos do paciente faziam sob cada carícia sua... Fez com que eu me sentisse, na melhor das descrições, estranho.

-Já chega, Shaun. Nós já percebemos que funcionou. –disse o fazendo parar com aquilo.

Expliquei para a família sobre a recuperação, e indiquei a fisioterapeuta adequada.

-Obrigado. –O pai do paciente estendeu a mão esperando que ele a apertasse. Fui rápido e segurei a mão do homem, poupando Shaun. Eu sabia que ele não gostava desses tipos de contato. –Apenas fiz o meu trabalho. –disse.

-Mesmo assim, eu os agradeço.

Nós nos retiramos para dar privacidade a família. Não havia mais nada para ser feito ali. Nosso trabalho havia sido finalizado, e com sucesso.

﹝•••﹞

[Ponto de vista: Shaun Murphy]

Dr. Melendez disfarçava muito bem, mas não tão bem aos meus olhos.

Eu vi como ele se colocou com uma postura quase que protetora a minha frente, quando eu não soube o que fazer com a mão daquele homem estendida em minha direção. O homem ainda tinha as roupas rasgadas pelo acidente e manchas de sangue por todo o corpo, ele esperava mesmo que eu fosse apertar a sua mão?

Depois de finalmente ter acabado o plantão noturno, por volta das 6h30 da manhã, fui liberado. Saí do vestiário e percebi que Dr. Melendez ainda estava fardado e a conversar com uma das enfermeiras. Ele não largaria agora? Mesmo um homem como ele precisava de algum descanso.

A enfermeira chefe me pegou o observando de longe.

-Bom descanso, Shaun. – disse, como que me expulsando gentilmente dali.

Eu deveria parar de observar Dr. Melendez a qualquer custo, ou outras pessoas viriam a perceber, ou até mesmo ele. E isso não seria nada bom para seu cargo, nem para o meu. Por pouco hoje mais cedo não tinha sido descoberto pela enfermeira Farrar. Tive que me retirar com pressa pois sou péssimo em mentir, e Melendez estava logo ali, bem em minha frente. Afinal, porque aquela mulher havia me perguntado algo daquele tipo? Ela não percebia o quão jovem eu era? E além disso, porque alguém iria querer algo desse tipo comigo, levando em consideração as minhas inegáveis condições. Pensar nisso me deixava irritado. Eu não gostava de me sentir irritado. Era como perder o controle e se tinha uma coisa que eu gostava, essa coisa era poder ter controle sobre mim.

Já no ponto de ônibus, encontrei com o Dr. Galssman.

-Foi uma noite e tanto! –Ele comentou.

-Porque a enfermeira Farrar perguntou se eu queria amor? –ainda sem entender o intuito da pergunta da mulher.

-Porque ela é uma enxerida, oras. Mas... Eu estou curioso, você não quer mesmo amor?

Eu não acredito. Até ele?!

-Eu amei Steve e meu coelho.

-Okay... Mas, e agora? Você não está amando alguém agora? – O quê? O que ele queria dizer com isso? Não tenho certeza, mas as definições de amor do Dr. Glassman e as minhas, devem ter alguma diferença. O que eu não estou entendendo?

-Defina amor.

Glassman suspirou, visivelmente não acreditando que estávamos para ter aquela conversa.

-Amor é quando você se afeiçoa a outra coisa ou pessoa. Geralmente, a uma pessoa. Você a ama, se importa com ela, quer cuidar dessa pessoa... –Eu via o esforço que ele fazia para tentar me explicar algo que talvez nem ele mesmo entendia. Mas eu conseguia associar o que ele falava. No entanto, eu não queria. Não era algo para mim, eu nunca teria chance de ser amado de volta se fosse dessa forma. Não quando se tratava dessa pessoa.

-Eu não quero amor. –disse em definitivo.

-Certo. Contudo, você deve saber... Em outros graus, a atração física pode ser algo adicional a essa questão do amor.

Não podia negar que pensava sobre isso. Qualquer homem com a minha idade deveria, supostamente, pensar. Mas eu sabia o quão errado isso poderia soar se dito em voz alta. Mesmo admitindo em minha cabeça, "sinto atração pelo Dr. Melendez", a frase soava um tanto diferente. Sim, e ainda me deixava muito ciente da minha situação. Poderia arriscar chamar isso que sentia por Neil de... "amor"? Porque a ideia não me enojava ou me parecia estranha? No entanto, sei perfeitamente que pessoas como o Dr. Glassman nunca olhariam pra essa situação como algo a ser acatado. Iria sim soar errado, e por isso, eu não poderia deixar que o velho suspeitasse do que eu sentia por Melendez, visto que eu mesmo tinha acabado de dar nome a esses sentimentos tão recentes.

Ele interrompeu meus pensamentos.

-Escuta, você quer tomar café-da-manhã, podemos conversar mais sobre isso, ou sobre qualquer coisa que você quiser.

Percebi meu estômago roncar só ao lembrar das aparências das belas panquecas banhadas com mel que vendia na cafeteria do hospital.

-Posso pedir quatro panquecas ao invés de três?

-Pode pedir até cinco, se assim quiser.

-Só quero quatro.

-Okay então, vamos?

﹝•••﹞

[Ponto de Vista: Dr. Glassman]

-Porque a enfermeira Farrar perguntou se eu queria amor?

Então Shaun estava mesmo preocupado com algo relacionada àquela conversa de hoje mais cedo. Eu deveria tranquilizá-lo, seja lá sobre o que isso se trata.

-Porque ela é uma enxerida, oras. Mas... –Se eu estiver certo, esse é o momento para descobrir mais sobre essa situação. Grato por Shaun ter começado a conversa, perguntei:

-Eu estou curioso, você não quer mesmo amor? –Queria que ele soubesse que poderia conversar casualmente comigo sobre assuntos desse tipo.

-Eu amei Steve e meu coelho.

Amor. Amor? Do que Shaun se lembrava, atração física não tinha nada haver com amor. Não sentia isso por Steve, seu irmão, ou pelo seu coelho. Teríamos um longo caminho a percorrer, eu deveria dizer a Shaun que existiam outros tipos de amores, ou deveria deixá-lo para que descobrisse sozinho?

-Okay... Mas, e agora? Você não está amando alguém agora?

-Defina amor. –Certo, talvez ele estivesse aberto para esse tipo de conversa.

-Amor é quando você se afeiçoa a outra coisa ou pessoa. Geralmente, a uma pessoa. Você a ama, se importa com essa, quer cuidar dessa pessoa...-

-Eu não quero amor.

-Certo. Contudo, você deve saber... Em outros graus, a atração física pode ser algo adicional a essa questão do amor.

Deixei que ele absorvesse o que eu tinha acabado de lhe dizer. Shaun agora não mais olhava para a pista, mas me encarava com certo interesse. Eu havia dito algo importante, pude perceber. Por hora, parte do meu trabalho estava feito. Com Shaun era sempre assim, um passo de cada vez.

-Escuta, você quer tomar café-da-manhã, podemos conversar mais sobre isso, ou sobre qualquer coisa que você quiser.

-Posso pedir quatro panquecas ao invés de três?

-Pode pedir até cinco, se assim quiser.

-Só quero quatro.

-Okay então, vamos?

Deixamos o ponto de ônibus em direção a entrada do hospital.

Novamente ali, dessa vez me dirigindo para a cafeteria, me surpreendi como Shaun acelerou os passos, passando por mim quase correndo e sumindo em direção ao corredor que levava a cafeteria. Ele gostava das panquecas, mas nem tanto assim. Virei-me em direção ao saguão de entrada e ali estava. Vi Melendez e Jessica beijarem-se no topo da escada e descerem de mãos dadas.

Suspirei, levando inconscientemente uma mão a minha cabeça. Ah, Shaun... Onde você foi se meter...


Vejo vocês no próximo capítulo! s2.