We fight every night for something
When the sun sets we're both the same
Half in the shadows
Half burned in flames
We can't look back for nothin'
Take what you need say your goodbyes
I gave you everything
And it's a beautiful crime

Beautiful Crime, Tamer

II Gravidade

Blaise delimitava cada passo, marcava como uma constante o barulho ritmado da sola de seus sapatos sobre o chão de granito. Havia caminhado por aquele mesmo corredor centenas de vezes, mas lhe parecia diferente esta noite, em particular. Askaban nunca foi seu local de trabalho favorito, nunca gostou do trabalho sujo. A glória e o prazer estavam longe dali - nos bares do centro, em específico, onde negociava poções e planejava a agenda do Ministro da Magia.

No entanto, ali estava ele. Havia ensaiado diversas falas e sorrisos lascivos, esperava que sua única e indubitavelmente íntima espectadora o assistisse em um terror paralisante.

Cela 635.

Cela 636.

Sempre foi um grande teatro pra ele. Um espectro visceral de diferentes personagens, desde os caricatos aos gentis cavalheiros, Zabini era todos.

639.

Seus passos tornaram-se mais rápidos.

641.

Lá estava ela.

As cortinas caíram, mas ele esqueceu quem estava interpretando, se viu diante do palco e não no centro dele como de costume. Estava diante do Ato Final. Lembrou-se por conseguinte, o real motivo de confrontá-la - ali estava a mulher que ficara face a face com todos os seus eus, tão arduamente construídos para nunca colidirem entre si.

Teresa Jones, preferia seu nome falso. Não era um Malfoy para destilar extrema repulsa aos Weasleys, porém, o fato dela ser uma era um verdadeiro desatino, e até mesmo um pouco vergonhoso.

O loiro prateado dos cabelos dela foi domado e incendiado pela cor natural. Gina tinha as costas voltadas para as grades da cela, quase todo o corpo imerso em uma banheira de porcelana antiga e desproporcional para aquele ambiente carcerário. Ela parecia tão concentrada na espuma percorrendo seu corpo que Blaise não ousou chamar sua atenção. Permaneceu imóvel, o rancor dispersou-se em razão do alívio ao vê-la bem, ainda que a palavra soasse contraditória e até um pouco cruél. Algo revirava as entranhas de Blaise diante daquela cela - a tranquilidade de Teresa.

Ele podia engolir que Ginevra e Terry eram a mesma pessoa. Entretanto, não conseguia lidar com a dicotomia entre a mulher que ele vira pular de uma torre para não ser capturada e a que agora desfrutava de um maravilhoso banho em uma cela que mais parecia um quarto de um dos muitos chalés de qualidade duvidosa do Beco Diagonal.

-Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc...você é um homem morto, Zabini. - ela cantarolou sem o fitar.

-Aposto que isso lhe agradaria muito. -provocou sorrindo em desdém, uma súbita irritação crescia em seu peito. Gina deu de ombros afundando todo o corpo na banheira desta vez. A água ainda parecia morna, Blaise podia sentir o calor o envolvendo. Passou-se uma vida quando ela emergiu novamente. -Vejo que está absolutamente confortável em seus novos aposentos. - desta vez suas palavras surtiram efeito, observou com prazer o corpo de Teresa paralisar.

-O que você quer afinal?

Blaise poderia adivinhar que os olhos castanhos de Terry tornaram-se duas pequenas tempestades semicerradas a julgar apenas pela forma como soou cada palavra entredentes despejada por ela. Talvez ela estivesse nesse exato momento coçando uma cicatriz muito parecida com um 3 que possuía na lateral do indicador da mão esquerda - Teresa sempre fechava o punho e esfregava o polegar na cicatriz quando algo a afligia.

A pergunta dela fora tão curta, mas requeria muito dele.

O que ele queria?

Blaise impulsionou-se para frente de forma que as barras de ferro afundaram-se no seu corpo e sua sombra, projetada pelo fogo, invadiu a cela.

O que ele queria?

Perguntou pra si mesmo, mas sua mente foi silenciada e tudo que ele podia ver e sentir era o vermelho violento dos cabelos de Teresa, um súbito mal-estar se apoderou dele.

O barulho repentino de água transbordando fez Blaise erguer a cabeça. Gotículas de água percorriam o corpo arrepiado da mulher que se aproximava dele. Forçou-se a afastar os olhos da nudez dela, nauseado pela lembrança dos próprios dedos mapeando cada centímetro de pele e sardas pertencentes a ela.

Pensando nos detalhes do último encontro que tiveram, Blaise poderia afirmar que Teresa sabia que aquele seria o último. Analisando aquele dia, poderia até mesmo citar pequenos fatos que lhe pareceram estranhos e inusitados na época e que talvez agora fizessem sentido: o modo como ela beijou o seu rosto, traçando as formas e linhas com os dedos, como se quisesse memorizá-lo, ou a surpresa terna de acordar no meio da noite com os braços e pernas dela entremeados ao seu corpo.

Blaise foi forçado a voltar a realidade pelo estalido da barra de ferro em que Gina segurava apoiando todo o peso do corpo, intimidadora e febril, seu olhar parecia esperar uma reação de Blaise. Ela estava tão perto.

-Você é um tolo. -a voz dela havia perdido toda a subjetividade de antes, tornando-a muito mais exposta ao ressentimento de Zabini.

-Oh, sim, eu sou. -ergueu os olhos para encará-la e seu meio sorriso zombeteiro alargou-se. -Mas você se esquece do mais importante: eu não sou leal a nada. Porém, você, Ginevra...-agarrou os dedos dela que envolviam a grade. -Você se vendeu a Ele também para tais privilégios?

Blaise supôs que foi longe demais e teve absoluta certeza quando encontrou os olhos dela atrofiados em vergonha, além de um brilho que lhe parecia dizer que ela se sentia traída.

Gina rapidamente se recompôs e afastou-se dele o quanto pode, Zabini fingiu resignação, mas já havia perdido a compostura desde que ela se aproximara e ele foi capaz de sentir seu perfume incomum.

-Não fará a pergunta?

-Qual pergunta?

-Ora, a única que o interessa, realmente. O motivo de ter vindo. -disse casualmente. -Você quer a resposta, faça a pergunta.

Blaise riu um pouco desorientado, balançou a cabeça em descrença e virou as costas para ir embora, mas a mulher o interceptou.

-Teresa Jones foi um lindo quadro, com sombra e simetria. Mas uma pintura em tela rasa, nada mais.

-Eu não acredito em você. -Blaise a cortou, estava alterado o suficiente para ser desarmado, ambos sabiam disso.

-Uma grande mentira. -a voz dela era firme, mas seu corpo tremia.

-Eu não acredito em você. -ele repetiu veemente.

-Não importa. Você estará morto quando Ele souber que veio até aqui e eu também estarei, provavelmente. -Gina sussurrou mais para si do que para Blaise. Desta vez, foi ela que lhe deu as costas, sentou-se em uma cadeira de ferro maciço longe da luz proveniente das chamas flutuantes na parede de pedra, tornando visível apenas o contorno da sua coluna. Ela parecia tão perdida quanto ele.

-Como você sabia? -desejou soar acusatório, mas Blaise não conseguiu.

-O quê? -a voz dela possuía um leve cansaço enrustido.

-Você sabia que era eu antes mesmo de se virar ou ouvir minha voz. -completou, curioso.

-Ah, isso. -Gina encolheu-se discretamente, o que para Zabini, lembrou um animal ferido. -Quando você me olha...bem, eu o reconheceria até mesmo vendada. -respondeu como se estivesse explicando um conceito simples a uma criança trouxa que nada sabe sobre o mundo ou a reação de uma poção descrita em um livro qualquer. No entanto, aquelas palavras encontraram meios de se entranhar em Blaise perpetuamente.

Ele não foi capaz de se despedir, partiu em passos lentos e não ritmados.