Pessoal, consegui vir rapidinho, e se depender de mim posto mais hoje, porque eu já tinha material pronto, faltava só fazer alguns ajustes...
Gostaria de agradecer minhas amigas lindas que já vieram me dar seu apoio e me incentivar com seus comentários, Amanda Catarina e Okaa-san! Fico feliz por terem curtido o primeiro capítulo, espero que continuem gostando do meu pequeno drama feudal!
Boa leitura, pessoal!


Capítulo 2 – Prisioneira

— Lá vai ela, cerquem-na! — o líder dos soldados serventes ao senhor feudal corria atrás de Annabelle acompanhado de mais cinco homens, todavia, ela era mais leve e veloz e saltava os degraus de pedra que a levariam para longe do castelo.

— Como é rápida! — um dos homens reclamou ao tropeçar na escada e quase rolá-la abaixo.

— Saia da frente! — outro guerreiro o empurrou para o lado e seguiu adiante. Conseguiu alcançá-la quando estavam entrando na floresta, porém tropeçou na grande raiz de uma árvore que ele poderia jurar ter visto se mexer para cima depois de a mulher pulá-la, e, mesmo assim, estava próximo o suficiente para agarrar-lhe o tornozelo.

Annabelle caiu com o rosto afundado na terra negra e os dedos cravados nela. Ligeira, girou o corpo e sentiu algo pesar sobre ele. Era seu captor. A mortalha foi arrancada da cabeça laranja para que o predador olhasse as preciosas turquesas da presa de perto. A lua os iluminava.

— Merece um belo castigo pela sua gracinha. — o riso dele a fez gelar. Annabelle não mostrou resistência, alinhou os braços no chão, as mãos esticaram-se à altura do quadril e o sujeito encaixou-se entre suas pernas para começar a subir-lhe a longa saia.

No instante em que o pano enrolava-se acima de seu joelho e subia pelas coxas, Annabelle dobrou uma das pernas e envolveu o soldado nela, sorrateiramente esticou os dedos até a bota, alcançou um cabo prateado e puxou-o.

Ah! — o algoz gemeu por conta de um objeto cravado por baixo de sua ombreira, na altura da axila. De certo não era um ferimento fatal, entretanto doía como o inferno — Ora, sua vadia! — ela o empurrou para o lado, e livre de seu peso, tentaria prosseguir com a fuga.

Espadas a cercaram.

— Onde pensa que vai? — o samurai mais leal ao proprietário das terras se aproximou.

"Merda!" — Annabelle esbravejou apenas em pensamento.


— Meu senhor, precisa puni-la de alguma forma, já foram três vezes e somente em uma semana! — o samurai de sua confiança comentava irritadiço — E veja isso, — atirou ao chão a adaga refinada, com pedras preciosas adornando-lhe o cabo prateado — ela estava armada! Poderia ter matado um de meus homens!

— Permita que eu lhe dê uma surra, mestre! — ao lado do samurai, o homem atingido pela arma pediu.

— Não, pai, por favor. Está mais do que claro para todos que essa abordagem não está funcionando, peço que me deixe conversar com a moça. — Hitomi sugeriu, abismado com a ideia do outro.

— E acha que alguma conversa resolverá isso? — o pai riu-se.

— Acho que se ela for bem tratada, poderá ficar por vontade própria. — o filho afirmou convicto — Deixe isso em minhas mãos, é tudo o que peço — reverenciou-o, curvando-se sobre os joelhos. Estavam sentados de frente um para o outro.

— Que seja. — não demonstrou dar importância aos métodos.

— Obrigado. — ele, animado, agradeceu e se retirou.

— O jovem mestre está atraído por aquela mulher. — o guerreiro que os servia fielmente há anos rangeu os dentes.

— Então que a tome para si, faça-a sua cortesã, não me importa, desde que ela me renda algum lucro. A colheita dos camponeses não tem sido o suficiente. — suspirou aborrecido — Há algo de errado nessas terras, e já tem algum tempo. Precisamos de outros modos de ganhar alguma coisa, e eu tenho certeza de que muitos mais pagarão para ver os dotes dessa mulher e se animarão a fazer acordos comigo. Ela foi um sucesso desde a primeira noite... — escancarou um sorriso ambicioso.

— Não seria essa mulher a causa do solo estar infértil? Não sabemos há quanto tempo ela nos rondava. — disse o samurai desconfiado.

— Se for, descobriremos.


Anabelle ouviu a tranca se abrir, em seguida, ouviu os passos leves e cogitou ser quem era. Olhou-o de soslaio, não saiu do lugar, manteve-se de costas para ele, a admirar os jardins através das barras da janela.

— Eu sinto muito por tudo isso, de verdade. — Hitomi puxou boa dose de ar antes de falar, sempre cauteloso — Não queria isso para você.

— Então por que não me liberta? — perguntou ríspida.

— Isso está além do que posso fazer, ao menos agora tenho permissão de me aproximar e tentar ajudá-la, se me permitir. Pode me acompanhar? — abriu a porta.

Ouviu os passos dele e percebeu-os solitários, não havia outra pessoa além do jovem mestre. Era real, o belo filho do senhor feudal a estava tirando de seu cárcere, e estava sem guardas à sua volta. Seria a chance perfeita? – pensou. Acompanhou-o de longe pelos corredores. Analisou os caminhos que percorreram, procurou entender como o gigantesco castelo era dividido para não cometer erros numa próxima vez, então se deparou com portas abertas, dando entrada para um quarto extenso e luxuoso. Parou e observou, ele estava ao seu lado.

— Entre. — a orientou.

Anabelle questionava-o com os olhos, e a resposta recebida foi um sorriso amistoso que a fez sentir-se quente por dentro.

— O que está esperando? Entre. — indicou, e ela, um pouco desconfiada, seguiu a orientação. Circulou pelo quarto, tocou os móveis escolhidos por alguém que tinha bom gosto, e, de repente, deparou-se com uma arca. — Abra-a — o jovem mestre sugeriu, ela imediatamente subiu a tampa e viu seus vestidos cuidadosamente dobrados. Fitou-o confusa — Este será o seu quarto a partir de agora.

— Por que está fazendo isso por mim? — levantou-se e, finalmente, ficaram frente a frente como na vez em que se conheceram.

— Se não posso conceder-lhe a liberdade, que ao menos possa oferecer algum conforto. Não quero que se sinta uma prisioneira, e sim uma convidada. — reverenciou-a cordialmente — Seu instrumento musical será trazido para cá também, eu providenciarei...

— Deve querer alguma coisa em troca. — ainda suspeitava das boas intenções dele.

Com um sorriso sutil à face, Hitomi Kagewaki se aproximou, olhou-a atento, conservando na memória suas nuances misteriosas, diferentes das de qualquer pessoa que conhecera até então. Apesar de respeitoso sempre, havia algo em seus olhos que deixava Annabelle desconcertada e, ao mesmo tempo, presa por vontade própria.

— O que quer de mim? — ela, inspirada pelo momento, deu um passo a mais para a aproximação de ambos, mantendo sempre o contato dos olhos, tentando atravessar os dele e desvendá-lo por completo.

— Quero saber de você. — sentiu como se a resposta fosse arrancada de sua garganta, como seu coração quase o era — Quem é, de onde vem, como as pessoas vivem em sua terra... — e, antes que percebesse, estava ficando rubro e ela, risonha.

— Eu conto a você, se me levar para passear nos jardins. Estou cansada de ficar presa entre quatro paredes e sei que sozinha não me permitirão andar ao ar livre. — tornou a caminhar pelo quarto, jogava a saia do vestido e rodopiava pelo enorme cômodo — Você me leva?

— E se você tentar fugir? — respirava pausadamente, tentando manter a compostura.

Ainda dançante, chegou perto dele e falou-lhe ao ouvido:

— Você me captura. — e se afastou subitamente, aos risos.

O rapaz ficou desnorteado, até que entendeu tudo como uma brincadeira e riu discreto. Antes de sair do quarto e deixá-la ter um pouco de privacidade, a voz da moçoila chamou-lhe a atenção outra vez:

— A minha gratidão é sua, my lord.

— Essa palavra estranha que você diz, o que significa?

— É a forma como tratamos um homem de respeito lá, de onde eu vim.

— De onde?

— Já disse, conto quando estivermos nos jardins.

E despediram-se amistosamente, Hitomi acreditou que a faria sentir-se confortável no fim das contas e ela desistiria de fugir.


Ao início da manhã, logo após a primeira refeição, quando os raios de sol ainda eram brandos, eles caminharam lado a lado no belo jardim aos fundos da propriedade, o vestido azulado arrastava-se pela grama enquanto ela, animada, contava sobre suas origens:

— Eu nasci nas Terras Altas¹, vivi parte da minha infância lá com meus pais e minha irmã. Infelizmente, minha mãe morreu de febre, depois disso meu pai decidiu deixar de ser um agricultor simples e começou a trabalhar como comerciante. Desde então, eu, ele e minha irmã passamos a viajar muito, conhecemos diversos países, aprendi a ler, escrever e falar pelo menos quatro línguas diferentes, inclusive a sua. — Enquanto narrava, tocava algumas flores que enfeitavam os jardins, depois, quando deparava-se com alguma erva pelo caminho, colhia. Hitomi a observava curioso.

— Sinto por sua mãe... — comentou.

— Ah, faz tanto tempo que nem me lembro muito bem do rosto dela.

— Também perdi a minha muito cedo — comentou.

— Temos mais em comum do que imaginamos... Continuando, meu pai não ficou sozinho por muito tempo, um ano depois ele conheceu uma mulher e se juntou a ela. Minha madrasta era conhecedora de muitas coisas, ensinou muito a mim e minha irmã durante nossas peregrinações.

— E sua irmã? — a pergunta a fez parar de andar repentinamente.

— Seguimos caminhos diferentes. — a voz tremulou discretamente — Quer saber o nome disso em minha língua? — espalmou as mãos em uma grande árvore e afagou o tronco.

Kagewaki era um homem muito observador e sensível, apesar de saber que Annabelle tinha segredos referentes à irmã, preferiu não insistir no assunto por ora, voltou sua curiosidade a aprender um pouco do vocabulário que ela se propunha a ensinar.

Tree. — ela disse, e quando o jovem mestre tentou reproduzir foi total desastre. Annabelle se escorou no tronco de tanto rir, ao passo de que o pobrezinho quis se esconder de vergonha. — Não se preocupe, com o tempo você aprende. Também não foi fácil aprender seu idioma.

— E você fala esquisito. — aproveitou-se da deixa para tirar graça da mesma maneira. Riram por alguns instantes, fitaram-se com as bochechas cansadas, pareciam procurar assunto quando o jovem mestre coletou uma pequena flor amarelada e ofereceu à bela prisioneira — E flor, como se chama em sua língua?

Flower. — seus dedos roçaram os dele e os cobriram. Tomou a flor e a mão que a entregava. Ele estremeceu, não estava acostumado com o toque, com a proximidade.

As mulheres, em sua cultura, eram tão recatadas e distantes... Ela? Ela não. Os olhos não temiam contato, os movimentos eram soltos e espontâneos. Era intimidadora, selvagem como um animal da floresta e, ao mesmo tempo, delicada e sutil como a flor que tinha em mãos.

Os dedos dele, tímidos, escorregaram e soltaram-se. Annabelle, ainda com a flor, posicionou-a acima da orelha, enfeitando os cabelos.

— Você é um homem bondoso... — observou — "e muito bonito" — complementou para si, o peito esquentou com mais um dos sorrisos gentis do rapaz vestido de branco.

— Jovem mestre, — um soldado surgiu — seu pai o chama. — E você, vem comigo. — puxaria a espada para escoltar Annabelle, no entanto Hitomi pôs a mão no cabo e o impediu.

— Não há necessidade disso, acompanhe-a pacificamente, por favor. — sussurrou.

My lord... — Annabelle, visivelmente frustrada pela interrupção, segurou a saia aveludada com cuidado e reverenciou-o cordialmente, como uma dama de sua cultura faria. Ele, em contraponto, prestou reverência à moda japonesa e agradeceu-lhe pela manhã.

Ao chegar ao quarto, a donzela sentia-se alegre e confusa. Atirou-se sobre o leito preparado para ela e fitou o teto. Sua mente dividia-se entre pensamentos de fuga e de estabelecimento.

"Não posso perder o foco, preciso sair daqui", "Será que essa não é a oportunidade que eu esperava de me fixar em algum lugar?".

Seus pensamentos foram dissipados com a entrada de duas aias no cômodo. Disseram estar lá para ajudá-la a vestir-se para um evento. Mais uma vez, ela seria exibida como uma aberração. Suspirou, rendendo-se então às ideias de fuga, como sempre. Prenderam seu cabelo numa larga trança e jogaram a manta sobre seu corpo. Um homem surgiu para carregar a sua harpa, e embora ela fosse pesada, Annabelle insistiu para que ela mesma levasse.

— Contemplem esse pequeno espetáculo exótico, a aberração que canta como uma tennyo² — assim ela era anunciada, diziam que ela era deformada e por isso precisava usar um manto para esconder seu rosto horrendo.

Sentia-se humilhada por todos os sorrisos e olhares impressionados, mas debochados, recaídos sobre ela. O único que não a encarava em ares de arrogância e ambição era o homem que a levava para dar passeios matinais. E os dias passavam assim, com manhãs agradáveis e noites de trabalho escravo. Por mais que Annabelle gostasse de estar com Hitomi, corroía seu interior ser explorada, ver nobres pagando para ouvir sua música sem poder revelar sua identidade ou ganhar algum crédito.


— Você está abatida. — Hitomi comentou, sentado ao lado dela debaixo de uma cerejeira florida.

— A primavera em seu país é muito bonita. — desconversou, o olhar perdido focava o horizonte.

— Imagino como deve ser difícil para você, e não estou nada feliz com isso... — desajeitado, tirou uma pétala rosada trançada nos cabelos ruivos — Eu me importo com você, Anaberu Rosu. — afastou os fios ondulados da maçã pálida — Olhe para mim... — estava aprendendo o modo de tratamento afetuoso com ela, acostumando-se ao encontro de mãos e à proximidade de calor.

— Eu gostaria de ver meu cavalo, sei que ele está em seu estábulo. — fitou-o enfim, ainda esquisita.

— Venha comigo. — ergueu-lhe a mão, ajudou-a a se levantar. Ela a segurou com firmeza e não a soltou, mesmo quando a dupla já estava de pé.

— O que está esperando para me levar até lá? — entrelaçou os dedos aos dele, e até que enfim presenteou-o com um sorriso.

Caminharam até o grande estábulo de madeira, e em meio a diversos cavalos de raça pura estava o dela, bem tratado, servido de água e feno. Assim que o viu, abandonou a mão do Jovem Mestre para afagar o pelo brilhante e macio de seu companheiro de estrada. Encostou a testa à mancha branca acima do focinho do equino e sorriu. Aproveitou para apanhar um bocado de feno e dar-lhe à boca enquanto acariciava a fronte comprida.

— Um passeio a cavalo, o que me diz? — virou-se para Hitomi, sua empolgação repentina o contagiou e ele não pôde dizer não.

— Podemos ir até o córrego aqui perto, tudo bem? — essa foi a única condição: ficar pelas redondezas, Annabelle não objetou.

Trotaram lado a lado pelo pequeno vale, até que chegaram ao rio descrito por Hitomi. A jovem estrangeira desceu cuidadosamente do cavalo e deu-lhe espaço para beber um pouco d'água enquanto ela mesma aproveitou para abaixar-se à beira e lavar o rosto, depois o pescoço, e, por fim, o colo palpitante. Kagewaki, também com os pés sobre a terra, a segurar as rédeas de seu animal, admirou-a secretamente, atentou-se à graciosidade dos movimentos da mão molhando o corpo suado, e ela sequer notava-o ali, pois os longos cílios avermelhados estavam selados. A jovem parecia à vontade e vulnerável. As mãos contornaram o pouco de seus seios que saltavam sobre o decote, empinados por conta do espartilho apertado que ela vestia, molhando-os. As gotículas escorriam pelas formas arredondadas, desenhando-as e umedecendo os bordados dourados. Hitomi amarrou a sela de seu cavalo em uma árvore próxima ao córrego e se juntou a ela, tratou de lavar o rosto e beber um pouco daquela água cristalina.

Distraiu-se mais do que deveria. Quando abriu os olhos não viu o reflexo da companheira de cavalgada ao seu lado, tampouco do cavalo doirado. O coração bateu descompassado.

Annabelle fugira.

Continua...


E então, gente, o que acharam?
Queria saber se estou conseguindo agitar a estória, confesso que tento, mas esse início é mais "tranquilo" mesmo. Daqui a pouco a coisa pega.

Bom, temos aqui dois termos que enumerei durante o texto e que quero explicar para vocês:

¹: Terras Altas - Highlands - ficam no norte da Escócia, é uma região montanhosa. Durante o período feudal, era dominada por clãs, melhor dizendo, famílias abastadas. Uma peculiaridade desse lugar é o folclore pagão, não à toa o escolhi como o berço da nossa protagonista. ;)

²: Tennyo - pela tradução que encontrei, significa "Dama Celestial". É uma entidade do folclore oriental, tida como um ser de exuberante beleza. Acredito que muitos de vocês já tenham ouvido falar, e devem saber mais sobre essa figura do folclore japonês do que eu. XD

E é isso, pessoal, espero do fundo do coração que esse capítulo agrade! Acho que o próximo está mais empolgante, por isso quero postar logo!
Kissuuuus!