Capítulo 3 – Pingente de Lua
— Anaberu, pare! — ele gritava enquanto a seguia sem cansar.
Ela não respondia, persistia a galopar em seu cavalo por entre as árvores, até onde as trilhas eram estreitas e escorregadias. Pensou que o jovem mestre desistiria, não seria o tipo do homem com a coragem de atravessar as profundezas da floresta e lá estava ele, logo atrás, ainda que seu cavalo desacostumado escorregasse.
"Mas que inferno!" — ela praguejou: — Me deixe em paz!
Num repente, ela ouviu o relinchar de um cavalo seguido do grito de Kagewaki. Parou bruscamente e olhou para trás. O cavalo caíra juntamente ao homem, parte de seu peso prensou a perna do filho de um senhor feudal. Ele estava preso. Era a chance dela, poderia partir para longe e sem ninguém para segui-la...
Desceu do cavalo.
Correu até o rapaz, tentou puxá-lo, a dor foi excruciante para ele. Gritou melado em suor e tomado por espasmos. Então, ela, desesperada, analisou as patas do cavalo e percebeu uma delas quebrada. Cobriu os olhos com as mãos, desesperada, depois passou as mãos pela testa gelada, as mãos tremiam. Fitou Hitomi, viu-o desmaiado de dor. Olhou ao redor, eram só os dois e a mata alta, e – quem sabe – youkais à espreita.
Annabelle respirou fundo, puxou o pingente pendurado à fina fita branca amarrada ao seu pescoço, vislumbrou a lua que cintilava em diversas cores e espelhava seu rosto várias vezes, como um caleidoscópio. Fechou os olhos, ajoelhou-se diante do cavalo, tocou-lhe a pata e a massageou enquanto sussurrava palavras de um idioma arcaico. Uma luz esbranquiçada rodeou o ponto onde o osso se partira e, aos poucos, ele se regenerou. Quando curado, o animal assustado levantou e correu para longe, perdeu-se de vista. Annabelle se jogou para o lado evitando ser pisoteada, depois, enfim, engatinhou até Hitomi, sujando toda a saia de lama.
À frente do homem desmaiado, rasgou-lhe a calça e deparou-se com uma perna esmagada cujos ossos fraturados rasgaram a pele. A estrangeira tapou a boca abafando um grito e as náuseas. Precisou inspirar todo o ar possível para cuidar daquilo. Tocou a perna ferida, fechou os olhos, inclinou a face aos céus e disse as mesmas palavras de antes. Os ossos, pouco a pouco, voltaram ao lugar, as feridas fecharam-se em riscos, pequeno cortes, e ela parou por ali. Quando seus olhos abriram, estavam completamente brancos e suas articulações enrijecidas. Uma forte ventania rodeou-a, fez as copas das árvores estremecerem. Folhas caíram sobre ela e o jovem desacordado. Repentinamente, os orbes arregalados voltaram ao normal, apenas com as pupilas dilatadas, ela respirou com força, como se acabasse de voltar à superfície depois de estar ao fundo de um lago e quase se afogar. O corpo caiu para o lado.
Um ser a observava no fundo da mata, ela sentiu algo soturno espreitá-la, podia farejar as más intenções por trás da densa flora do pântano. Rápida como uma raposa, tornou a sentar e virou-se para o horizonte desconhecido, o pingente tremeluzia enquanto ela própria brilhava trazendo luz à floresta escura:
— Quem está aí?! — a presença desapareceu como poeira no vento, o céu que escurecera por breves instantes tornou ao azul de sempre. Os grunhidos de Hitomi retomaram a atenção dela.
O rapaz abriu os olhos devagar para depois curvar-se de dor pela perna quebrada. Annabelle levantou-se depressa, arrancou um galho de uma árvore, raspou-o com a espada de Kagewaki até deixá-lo liso e buscou largas folhas, resistentes o suficiente para envolver a perna dele junto com aquele pedaço de madeira e imobilizá-la.
— Foi só uma fratura simples! — ofegante e hiperativa, imobilizou a perna do jovem mestre e depois lhe tocou os ombros, insistindo — Você vai ficar bem, vou deixá-lo no castelo e depois parto, por favor, você tem que entender... — falava rápido, sem pausas, sem fôlego, exausta.
— Por que você insiste tanto em fugir?! — prendeu-lhe as mãos, unidas sobre o peito palpitante dele. — Não estará mais segura lá fora do que está no castelo!
— Você não entende... Eu não suporto mais ser a aberração que seu pai põe em exposição para extorquir o dinheiro dos nobres! Eu não suporto mais ter que me esconder por causa da minha aparência diferente! — desabafou.
— Eu não me incomodo com sua aparência — interrompeu-a — eu... gosto de cada detalhe em você. Você me fascina. — continha as mãos dela apenas com uma nessa hora, a outra procurou por seus cabelos e depois arrastou-se até alcançar a face alva — Você não precisa mais fugir ou se esconder, eu darei um jeito de você ser feliz no castelo e de se sentir segura, acredite em mim. — Sorriu, ainda que dominado pela dor.
— My lord... — estremecida pelos gestos dele, e por Ele, ficou sem palavras. Puxou-o pelos braços e o abraçou. Hitomi afagou-lhe as ondas e aspirou o perfume de rosas, o hálito quente dele roçou-lhe o pescoço, suave e recatado.
Ela o ajudou a se apoiar em seus ombros, assim foram até o seu próprio cavalo, mais uma vez auxiliou-o ao dar-lhe base para sentar-se no lombo alourado. A jovem puxou o animal pelas rédeas até chegarem à magnânima construção. Os soldados que faziam a ronda logo ampararam o jovem mestre e culparam Annabelle pelo acontecido, mas Hitomi a defendeu e inventou uma estória de que ela o salvara, confundindo a todos, inclusive a própria.
Quando o senhor do castelo foi visitar o filho no quarto, ouviu o conto já espalhado por todos os súditos. Annabelle tornara-se uma heroína da noite para o dia, e Kagewaki aproveitou-se da situação para convencê-lo:
— Pai, ela poderia ter fugido se quisesse, mas Anaberu viu o cavalo caído sobre minha perna e resolveu me ajudar... Ela salvou minha vida.
— O cavalo estava caído sobre sua perna? Como ela o tirou de lá? — questionou confuso.
— Eu não sei o que ela fez e como fez, desmaiei pouco depois do acidente, mas estou aqui, vivo e agradecido. Por isso, quero fazer um pedido. Não, na verdade... uma exigência. — esforçou-se para sustentar um tom firme.
— Vamos lá, o que quer? — o pai perguntou impaciente.
— Anaberu. Eu quero Anaberu exclusivamente para mim.
— Sua cortesã? — riu-se.
— Não, minha esposa. — fechou os olhos, relaxado sobre o leito, com a perna imobilizada e suspensa, apoiada em uma superfície macia.
— Você bateu a perna ou a cabeça, meu filho?! — o sujeito gargalhou — Ela é uma estrangeira, uma desconhecida, possivelmente uma bruxa!
— Eu não a quero mais exposta em suas reuniões como se fosse um animal exótico!
— Mas é isso o que ela é, um animal exótico! — o homem perdeu as estribeiras — E você não casará com isso!
— Se a obrigar a se expor mais uma vez, juro que vou embora e a levo comigo! — Sentou-se, mirando o pai no fundo dos olhos negros — Nunca peço nada para mim, sempre acato suas vontades ainda que eu discorde delas, mas dessa vez manterei minha posição no que quero!
— Ótimo, a garota é sua, como posse, apenas. Casamento nunca!
O homem saiu transtornado do quarto e, em passos pesados, foi ao cômodo de sua antiga prisioneira, escancarou as portas, não se importou de ela vestir apenas o traje de baixo quando apertou-lhe o pescoço e prensou-a contra a parede:
— Você pode ter enfeitiçado meu filho, mas a mim não engana! Você, sozinha, conseguiu tirar um cavalo de cima dele?! Agora, mais do que nunca, tenho certeza de que você é uma youkai e arrumarei um jeito de provar isso! — depois de ameaçá-la, largou-a como se fosse lixo e saiu do quarto da mesma forma como entrou: violentamente.
Annabelle afagou o próprio pescoço enquanto tossia, o coração apertou dentro do peito. Não pensou nas consequências antes de salvar o homem que a protegia. Ainda assim, mesmo amedrontada, não se arrependia.
"Eu faria de novo, se precisasse..."
Suspirou, relaxou os ombros, levantou devagar e virou-se para a janela. Repentinamente, outro calafrio. Por segundos, jurou ver através das grades os mesmos olhos vermelhos da floresta caírem sobre ela como os olhos da morte. Escorou-se à parede e agarrou o pingente. Não havia nada além do brilho das estrelas. Fechou os olhos e aliviou-se, fora uma impressão apenas, estava muito impressionada por tudo o que vivenciara recentemente. Resolveu deitar e dormir, era merecido.
No entanto, em seus sonhos, o inconsciente alertava-a com pesadelos. Ela, despida, presa em uma infindável teia, sem possibilidades de soltura, enquanto uma enorme aranha negra de olhos rubros se aproximava derramando veneno de suas quelíceras abertas.
Continua...
Notas só no final hoje, para a coisa andar rápido! Hehehehe
Um pouco de magia para deixar as coisas mais interessantes, o que acharam? Espero que estejam curiosos para saber qual é o poder de Annabelle e do que ela é capaz... só digo uma coisa: essa pequena vai dar um belo trabalho para o Naraku!
Essa língua antiga que ela fala, penso em um dialeto celta, bem antigo mesmo, mas confesso a vocês que não sou nenhum pouco fluente nisso e de qualquer forma, os outros personagens são todos orientais e não entendem nada, é intraduzível. Só gostaria que vocês soubessem da origem mesmo.
Respondendo à minha querida amiga Amanda Catarina - obrigada pela ideia de colocar a pronúncia de Kagewaki a respeito do nome da nossa protagonista, acho que super funcionou e você tem razão, ficou super fofo! S2 S2
Por enquanto é só, pessoal!
Kissuuuuus!
