Capítulo 4 - O Babuíno Branco
— Senhor, eu não sinto nenhum youki nela, sinto muito. — a sacerdotisa decretou depois de muito analisar Annabelle. Era a terceira a frequentar o castelo no intuito de "desmascarar" a jovem dos cabelos de fogo.
Annabelle, sentada ao chão, virou-se ao mestre do castelo e fitou-o em ares de tédio ao mesmo tempo em que esboçava um leve sorriso sapeca, deixando-o irado, como sempre.
— Posso ir, my lord? — perguntou em falsa cordialidade.
Furioso, liberou-a apenas com um gesticular de mãos. Animada, ela correu para fora do salão até chegar aos jardins. Enfim conseguira alguma liberdade, já não era escoltada por aias ou samurais, o fato de não ter abandonado Kagewaki em apuros inspirou alguma confiança nas pessoas do castelo. Era ela também quem fazia os chás medicinais para o jovem mestre. Mesmo a contragosto do mestre, ganhara a confiança de alguns... e, ao chegar aos jardins, lá estava o homem de seus olhos apoiado em uma muleta de madeira. Aproximou-se do nobre ferido e resplandecendo alegria deu-lhe apoio segurando o outro braço.
— Lamento por ter causado isso a você. — comentou ao vê-lo mancar enquanto andava.
— Não diga isso, você me salvou. — sorriu terno.
— Se eu não tivesse fugido, isso não teria acontecido... — constatou, deixar-se-ia levar e ficaria cabisbaixa, porém, como sempre, Hitomi a iluminava com sua serenidade.
— Deixe isso para trás, Anaberu. O importante é que agora estamos aqui, e você nunca mais será obrigada a fazer qualquer coisa que não queira. — Parou os passos, deixou a muleta cair e tocou-lhe os ombros.
— Cuidado, my lord, pode cair! — segurou-o pelos braços, arrancou-lhe risos.
— Confio em você, não vai deixar nada me acontecer. — Puxou-a para si e a abraçou ameno. Os olhos dela se fecharam devagar e seus braços envolveram-no pelas costas. Os corações, unos, palpitaram juntos. — E eu não deixarei nada acontecer a você, Anaberu Rosu.
— Vou compensá-lo por tudo. Quando sua perna estiver completamente curada, o ensinarei como se dança nas terras além-mar. — sorriu, o queixo acomodou-se sobre o ombro dele.
— Às vezes penso que minha recuperação é rápida graças a você — confessou.
— Que bobagem! — ela gargalhou, desatando o abraço para em seguida coletar a muleta jogada na grama — O mérito é todo seu, você é um homem forte. — Entregou-lhe o apoio e voltaram a caminhar.
Mal sabia ele que, sim, Annabelle era a causa de sua regeneração quase instantânea. Toda noite, na hora em que o sono era profundo, ela se esgueirava pelo quarto dele, ajoelhava-se ao seu lado, conjurava as palavras antigas, e, então, tocava-lhe a perna.
Durante o dia, ajudava-o de outras formas. Trazia a comida, o chá, tocava a harpa e cantava canções sobre reis e rainhas distantes, sobre heróis e fadas, sobre vida e morte, ensinava-o a ler e escrever o idioma da Grã-Bretanha, tentava fazê-lo pronunciar frases e acabavam por rir da incapacidade de Hitomi de produzir certos fonemas. Annabelle até mesmo tentou desenhar, de acordo com suas lembranças, um mapa dos lugares onde ela esteve e demonstrar a tamanha distância entre os continentes. Com ela, o jovem mestre aprendia a cada dia o quanto o mundo era grande e sua curiosidade de conhecer novas terras era estimulada. Quando mal percebiam, já estavam planejando viajar juntos. Hitomi almejava conhecer cada país, cada construção que Annabelle descrevia – dos antigos castelos escoceses, até as góticas gárgulas de Notre Dame e a bela arquitetura de Alhambra¹. Ele queria ver cada obra de arte, conhecer os bosques, os lagos, o mar... E ela prometia isso a ele todos os dias.
De fato, a companhia também em muito o ajudou, em pouco menos de um mês, com a chegada do verão, Hitomi já caminhava normalmente. Era tempo de Annabelle cumprir uma de suas promessas: ensiná-lo a dançar como um ocidental.
Encontraram-se no quarto dela, não se importavam com convenções da sociedade ou o que iriam pensar se os dois estivessem ali, a sós. Hitomi aprendera com Annabelle a ser mais solto e a se importar menos com o que os outros pensavam, ele queria ser como aquele espírito livre. Pois bem, no cômodo e com privacidade, ela - adornada por um vestido verde com rosas cor-de-rosa bordadas nas extremidades - suspendeu um pouco a primeira camada da roupa, revelando parte da saia branca rendada, deu alguns passos e uma rodopiada.
— Você deve me imitar. — orientou-o, e ele, desajeitado, a imitou. Após passos graciosos para frente e para trás – um giro, e assim por diante.
Levou algum tempo para que ambos estivessem em sincronia e o jovem mestre circulasse com ela pelo grande dormitório. Sua palma uniu-se à dela, e eles se olhavam sem reservas, felizes sem precisarem sorrir, sintonizados em seu íntimo, cada vez mais atraídos um pelo outro, entendidos sobre o inevitável. Annabelle, destemida e desavergonhada, fechou a distância entre ambos – o que, no paço, em uma dança oficial, seria uma obscenidade – e o induziu a segurá-la pela cintura.
— Me suspenda. — disse em baixo tom enquanto seu nariz tocava o dele. Hitomi, inebriado por tudo o que ela era, ergueu-a.
As mãos dela entrelaçaram-se à nuca dele. Ela foi ao alto, em seguida ele a desceu e os narizes voltaram a roçar, bem como as respirações a se cruzarem. Abriram os lábios juntos. Quando estavam a um milímetro de se experimentarem, uma voz grave e desconhecida soou perto, alguém mais estava ali dentro:
— Jovem mestre, perdoe a intromissão...
O casal se assustou e se apartou de imediato. Annabelle sentiu um mal estar repentino e ficou tonta. Aquele ar soturno regressara – a aura que sentira na floresta. Era como se uma nuvem negra pairasse sobre a pele branca de babuíno que cobria o sujeito.
— Quem é você? — Hitomi, por sua vez, perguntou tranquilo, apenas curioso.
— Me chamo Naraku, seu pai me nomeou conselheiro. Ao seu dispor... — reverenciou-o, no entanto, o estranho vidrava-se em Annabelle e ela percebia. Um riso malicioso formava-se por baixo da máscara. — Estou aqui porque seu pai deseja falar-lhe a sós e me incumbiu de chamá-lo.
Annabelle tomou a mão de Hitomi com firmeza e olhou-o nos olhos como se quisesse dizer alguma coisa. Ele, confuso, afagou-lhe o rosto e disse para não se preocupar, pois em breve estaria lá ao seu lado. Assim, ele saiu do quarto, Naraku foi atrás, mas não sem antes parar à porta e fitá-la novamente com o mesmo sorriso maquiavélico.
O sonho, a aranha, algo de muito ruim estaria por acontecer, ela sabia.
Aquele homem não era humano. Não podia ser.
— Pai, o que acontece? — Hitomi perguntou assim que adentrou o salão.
— Há um youkai pelas redondezas, fui informado, enfim. — o senhor do castelo disse em ares de triunfo.
— Não me diga que acha ser Annabelle! Várias sacerdotisas vieram analisá-la! O senhor não se cansa?! — Hitomi sentiu-se ultrajado.
— A mulher é humana, sem dúvidas — Naraku tomou o turno de fala —, mas isso não significa que ela seja comum. Ela pode ser uma sacerdotisa das trevas, ou mesmo uma bruxa, e ter o poder der comandar um youkai fraco.
— É claro que ela não é comum, não pertence a essas terras, possui costumes muito diferentes, mas isso não faz dela uma ameaça. — o jovem mestre insistiu.
— Mais de nossas terras parecem inférteis, não me lembro de a situação estar assim antes de essa mulher pisar aqui. — o pai relembrou.
— Pai, muito antes de Annabelle ser aprisionada por seu pequeno exército vivemos com esse problema.
— Não sabemos desde quando ela vagava pelas redondezas, Hitomi. — o patriarca do castelo insistia.
— Ela salvou a vida de seu filho, será que isso não conta? — questionou o seu progenitor a favor da bem quista estrangeira.
— De qualquer forma, estou aqui para isso — o babuíno branco comentou —, cuidarei do youkai, e se a mulher for uma espécie de bruxa, eu, Naraku, desvendarei. Até então, é uma pobre inocente.
— Pois tenho certeza de que você não descobrirá nada de ruim sobre Anaberu, Naraku. — Kagewaki reverenciou os dois homens na sala e se retirou um pouco perturbado.
— Ele está apaixonado, senhor, mas se a mulher for realmente uma bruxa e estiver por trás do youkai que se aproxima de suas terras, eu descobrirei.
Annabelle sentia-se sufocada, não aguentava mais andar em círculos dentro do próprio quarto, por isso resolveu ir lá fora e então o que viu a fez gritar de susto – uma nuvem arroxeada, quase negra, aproximando-se. Caminhou pelos jardins e percebeu que algumas plantas estavam morrendo. Aquilo estava errado, o verão começara há poucos dias, por que árvores ao redor estavam secando?
Não teve dúvidas. Era o tal de Naraku. Correu para dentro, perguntou aos criados que encontrou pelos corredores se tinham visto Hitomi, um contou que o viu no quarto. A caminho de lá, Annabelle foi interceptada pelas costas, uma mão cobriu seus lábios para que não gritasse e seu corpo foi puxado para dentro de um pequeno depósito. Ali, o sujeito colou a boca à sua orelha, penetrando-a com sua respiração forte e melando-a levemente com saliva quente:
— Eu vi o que você fez na floresta. Se eu contar, acha que seu Hitomi ainda acreditará que é uma mulher inofensiva? Não ouse se voltar contra mim, bruxa. Você sabe o que acontece quando as pessoas descobrem sobre mulheres como você, e homens como Hitomi sempre irão temer o desconhecido. — enquanto o homem proferia a sua chantagem, a pele dela eriçava-se de arrepios e ela sufocava com a proximidade, com o aperto em sua cintura, com o contato — Devo admitir, até que você é interessante...
Compelida por medo e repulsa, ela teve forças para se soltar e empurrá-lo contra objetos que estavam em uma estante de madeira. O homem segurou a máscara, escondendo o rosto, mas não os olhos vermelhos e fulminantes.
— Hu, hu, hu, hu...
— Não me toque, imundo! — ela esfregou a mão pela orelha, limpando-a, e depois jogou os cabelos por cima.
— Lembre-se, você fica quieta, eu fico também.
Ela saiu batendo a porta. O cheiro do desespero da mulher adentrou as narinas do babuíno como aroma afrodisíaco, assim como o aroma do líquido quente que respingou nas roupas íntimas dela quando ele a puxou bruscamente e sussurrou ao seu ouvido. Foi repentino, instintivo, e ela queria surrá-lo por chantageá-la, por acuá-la e deixá-la sem defesas, como se presa estivesse – em uma teia.
"O que eu vou fazer?!" — se perguntou enquanto procurava abrigo no quarto cedido pelo jovem mestre do castelo. Fechou as portas, as costas escorregaram por elas, até que Annabelle caiu sentada, com as mãos sobre a cabeça. Memórias dolorosas se desenharam em uma tela de pensamentos ruins e foram revividas em um ciclo vicioso, fazendo-a balançar o corpo para frente e para trás, agoniada.
...
— Belle, Belle? Onde você está? — a menina de cabelos d'oiro corria por entre as árvores procurando-a — Belle, vem ver a guirlanda que eu fiz! — carregava as rosas vermelhas trançadas nas mãos enquanto saltitava sobre pedras. — Belle? — parou de forma brusca ao ver a irmã ajoelhada diante de um rouxinol caído na grama.
— Coitadinho, isso não é justo... — a criança ruiva comentou entristecida e soluçante — ele parece tão novinho para morrer desse jeito...
— Vamos fazer o funeral dele. — a outra, ajoelhada ao seu lado, tentou animá-la — põe ele aqui na guirlanda — sugeriu.
Annabelle pegou-o em mãos com cuidado, ia entregá-lo à irmã, porém, decidiu uni-lo ao seu peito e fechou os olhos fortemente, como se desejasse aos céus, à Deusa, a qualquer coisa que o fizesse viver novamente.
— Belle, isso não adianta, vamos logo! — a garotinha loura a sacudiu pelo braço insistentemente — não seja boba...
... e um piado baixo soou das mãos da outra menina.
— Belle, você conseguiu! Ele está vivo! O que você fez?! — os olhos redondos esbugalharam-se e um largo sorriso esboçou-se à face arredondada. — Belle?! — o sorriso se desfez quando ela percebeu que a irmã estava paralisada, em transe, e seus olhos antes azulados mostravam-se em uma apatia completamente branca, sem pupilas, sem íris, com nada no lugar. — Papai! — ela correu à cabana de pedras ali perto e trouxe consigo o homem de certa idade, às pressas. Pai e filha apalparam e sacudiram a outra menina, tentaram erguê-la, no entanto seu corpo parecia lapidado em pedra.
Num momento aleatório, sem que ninguém notasse, os olhos voltaram ao normal, o corpo retomou o peso de uma simples garotinha, as mãos abriram-se e o pequeno rouxinol voou, desaparecendo no firmamento. Depois, tudo enegreceu à vista da pequena Annabelle, ela acordou dentro da cabana para ouvir as seguintes palavras de seu pai:
— Minha pequena Belle, ouça com atenção, ninguém pode saber do que aconteceu hoje. Você tem um dom, um lindo dom herdado de sua mãe, mas as pessoas não compreendem a beleza do que você é capaz de fazer e a julgarão, por isso, mantenha-o em segredo, e use-o apenas em caso de extrema necessidade. Você tem que prometer para mim, prometa minha pequena.
— Eu prometo, papai...
Não viajara o mundo por prazer, e sim para esconder o que ela realmente era.
"Bruxa" – rememorou o luto após a palavra que sentenciou sua mãe.
Continua...
FINALMENTE ELE SE CHEGOU! Agora a coisa fica boa, com o nosso ilustríssimo Naraku, bofe escândalo!
Como o outro capítulo foi muito pequeno e esse estava pronto também, aqui vai uma maratoninha.
Os próximos, quando eu tiver tempo, lanço aos poucos, tem muita coisa anotada, o problema é revisar, ajeitar, reescrever partes se precisar... aquele drama que vocês conhecem.
Sim, vamos ao glossário:
¹: Alhambra fica na Espanha, é um complexo de castelos com arquitetura muçulmana, muito lindo! Eu quis saber em que ano a série Inuyasha se passa, porque parte desse complexo espanhol foi construído em meados dos anos 1500, e eu não sei bem se é antes ou depois da saga, mas de qualquer jeito, aqui nessa estória Alhambra, para todos os efeitos, existe! HUEHUE XD
Muito obrigada a quem chegou até aqui! Espero que estejam gostando!
Kissuuuus!
