Ai meu Deus, como eu AMO esse capítulo - apesar de achar que ele ainda não está perfeitamente da forma como eu queria - e estou ansiosa para saber o que vocês acharam dele!
Nem vou me prolongar na nota inicial, vamos direto à leitura, sim? SIM!
Qualquer dúvida sobre a cronologia dos eventos, explicações nas notas finais. SIMBORA!
Capítulo 17 – Sentimentos?
O pequeno losango escurecido cintilava aterrador na testa de Ailyn, os olhos foscos alinhavam-se diretos à outra figura logo adiante, estática e à espera.
Ataque. — a voz ecoou nas profundezas da mente perdida e a dona dos cabelos de ouro correu desvairada na direção de Annabelle, em uma velocidade inesperada a se tratar de pernas humanas.
— Ailyn! — gritou o nome para nada. Rodopiou-se para o outro lado e a irmã freou os passos, abrupta, fazendo poeira de terra escura subir.
Por onde a Rosa Vermelha passara, névoa esverdeada se espalhou e a temperatura local esfriou. As finas e altas árvores balançaram-se lamentosas, folhas caíram de seus galhos raquíticos, formaram um tapete no solo para em seguida flutuarem poucos centímetros acima. O ar estava diferente, pesado. Annabelle sentiu o corpo eriçar e seus ouvidos atentaram-se a gemidos chorosos que vinham do nada, dispersados em meio ao bosque, ecoando por todos os cantos.
Ailyn ajoelhou e afundou as mãos na terra fofa, as brumas tomaram formatos humanoides e gritaram. Ao redor de sua coloração musgo, uma camada discretamente vermelha se destacava. Estavam diferentes, não era só de melancolia que as formas se alimentavam, mas de raiva.
O véu alabastrino cobriu Annabelle assim que as sombras tentaram atacá-la. Incontáveis mãos bateram contra a luz ebúrnea e desfizeram-se em granulado. Então, a fumaça escura a envolveu e tentou esmagá-la, tentou reduzir sua aura a nada, criando um embate de energias puras e soturnas, provocando pequenas descargas elétricas em torno do corpo da jovem de cabelos flamejantes. Os braços da Rosa Branca ergueram-se dificultosos, fizeram as folhas flutuantes voarem ágeis e atingirem a névoa carcereira como navalhas afiadas. Criaram desenhos luminosos por onde cortaram até dissipar o enredo.
A terra moveu dançante debaixo dos pés das duas humanas, Ailyn perdeu o equilíbrio e caiu sentada. Annabelle, por sua vez, manteve-se estranhamente ereta.
— A natureza está contra você! — anunciou à gêmea mais nova — Desista, se desfaça disso! — apontou o fragmento da joia adornando a testa da outra.
— Dessa vez será diferente, Annabelle! — lume carmim desenhou-se nos contornos da mulher e a levitou até ficar de pé — Isso está acima de você — tirou uma de suas luvas de veludo e direcionou a mão à criatura esbranquiçada no meio da escuridão — ou de qualquer ser. — a palma concentrou uma esfera negra de energia sinistra e a liberou na direção da oponente. Os olhos de Ailyn também enegreceram.
Ligeira, Annabelle se abaixou e cobriu a cabeça com as mãos. Enormes raízes de árvore a circundaram como um escudo e graças a elas a força maligna não a alcançou, resumiu-se em mortificar o que estava ao redor e secar a proteção da ruiva.
— Não pode se esconder para sempre por trás de suas artimanhas! — raios escuros endereçaram-se à jovem que mal teve tempo de se recompor.
O corpo entrou em colapso e tombou arrastado, levando consigo terra e musgo. Os olhos rolaram, assistindo o mundo ao redor girar infernalmente. Sentiu as trevas de Ailyn entorpecerem seus sentidos e suas articulações pareceram pesar mais do que uma bolsa cheia de pedras. Era como se afogar, os pulmões fechavam-se e respirar tornava-se ofício árduo.
Não, aquela escuridão, aquela malignidade não pertencia à sua irmã, ia além...
As turquesas estreitaram-se e miraram o céu arroxeado, nele vislumbraram uma bolha a carregar um sujeito dentro.
— Naraku... — sussurrou, os dedos furiosos apertaram a areia marrom. A brancura oscilou, retomando o brilho em volta de Annabelle.
— Traga-a para mim. — ele se manifestou, enfim, descendo calmamente dentro de seu campo de força.
O ouro dos cachos contrastou com os ventos gélidos e o cenário escurecido. Em passos calmos, a marionete do hanyou-aranha se aproximou da vítima e abaixou ao seu lado. As mãos delicadas, porém nada gentis, sem tocar a pele da Rosa Branca impuseram-na a sentar. Annabelle notou a luz vermelha cobrir-lhe e obrigar seu corpo a se mover a bel prazer da irmã. Enrijeceu por inteiro, as veias ressaltaram sobre sua palidez e Ailyn precisou de mais esforço para tentar colocá-la de pé e, ao invés disso, teve uma mão grudada à face, a impedir-lhe de ver o próximo acontecimento. Annabelle, num impulso, atirou-se sobre o seu espelho alourado e fez com que a luminescência branca cobrisse a vermelha e sufocasse a energia sinistra. O fragmento na testa de Ailyn retomou o tom rosado de sua origem.
"Ela purificou o fragmento!" — os rubis perversos arregalaram estremecidos. Rápidos, tentáculos surgiram das costas de Naraku e enlaçaram Ailyn, trazendo-a para perto de si, protegida por sua barreira púrpura.
Annabelle ergueu-se a limpar o vestido dos traços de terra e folhas para em seguida encará-lo destemida e iluminada pelo brilho natural que a fazia o que era.
— Agora o seu plano é usar minha irmã para me capturar?! Não tem mãos e nem pernas para fazê-lo você mesmo? — vociferou e deu passos a frente, ousando chegar perto do meio-youkai vidrado em sua interpelação — Eu não voltarei ao seu castelo, não voltarei a estar sob seu poder, sob sua custódia!
— Você não pode me ferir, Annabelle. — ainda que tenso, abriu discreto e desafiador sorriso.
— Por causa de sua barreira ridícula? A despedaço como papel! — estava cada vez mais próxima.
— Não, porque você não quer. — ele mesmo desfez o campo de força e deixou Ailyn para trás — Você não quer me causar mal.
Ela parou de súbito. Os olhos estremeceram, bem como a boca entreabriu.
— Por que gastar suas energias fingindo um ódio que não sente? — foi a vez do usurpador de Kagewaki dar passos em direção à criatura vulnerável.
— Mas eu odeio o que você é, o que representa e o que fez a mim. — afirmou convicta — Espero que Inuyasha o faça em pedaços e não deixe rastro algum!
— Você poderia me fazer em pedaços, mas decidiu por me deixar viver. Você não quer isso... — por fim, estavam um diante do outro — Não sabe fingir, Annabelle. Sei que sente algo por mim.
— Senti por Hitomi, eu o amei... e você se aproveitou disso para usar meu corpo a seu bel prazer! — a garganta, tensa, tentava fechar a passagem, no entanto as palavras violentavam-na ao escaparem a todo custo.
— Huh, como vocês humanos falam de amor! — desdenhou — Até parece que entendem tão bem sobre o assunto. — riu-se — Quanto tempo você e Kagewaki estiveram juntos? Meses, menos de um ano? Acha que isso é tempo suficiente para saber que ama alguém e ter certeza de que é com essa pessoa que quer passar o resto de sua vida? Quantos anos você tem, Annabelle? Duvido que tenha chegado aos vinte, é só uma garota inexperiente. Hitomi foi o primeiro a tratá-la com gentileza, e por ele ser bonito você se encantou. É simples, banal. Poderia ter sido qualquer outro, desde que cumprisse com o que você espera da aparência de alguém e a tratasse diferente do restante das pessoas que conheceu em sua vida. Isso não significa nada! — vomitou o discurso, impaciente e cansado de todo aquele drama.
Por instantes, a surpresa emudeceu Annabelle. Não esperava de Naraku aquele tipo de reação, quem não conhece o amor não tenta estipular qualquer juízo de valor sobre o sentimento, no entanto lá estava o meio-youkai a passar um sermão, mesmo sem perceber.
De qualquer maneira, ela não se calaria por muito tempo. Afinal, quem era aquele sujeito para tentar passar qualquer ensinamento sobre a vida – ele, que não dava um passo sequer sem prejudicar a outrem?
— Você fala como se fosse o maior entendedor sobre amor — arfou conforme defendia o seu ponto —, mas também se apaixonou pela primeira pessoa que demonstrou alguma gentileza. Só porque aquela sacerdotisa era bonita e cuidou de você, o seu coração a venerou com todas as forças. Sim, seu coração! Não me venha com a estória de que você não é o tal de Onigumo porque ele faz parte de você, e por causa dele você está aqui! — Naraku, ultrajado, preparava-se para ralhar, no entanto Annabelle aumentou o tom, atropelando-o: — Quem é você para me julgar por minha idade quando tem muitos mais anos de vida do que eu e é tão imaturo a ponto de tentar esconder o óbvio? Você tem sentimentos. Se não os alimentasse, não estaria aqui tentando me dar uma lição sobre verdadeiro amor. — ao pronunciar as últimas palavras, dentro da densa fúria um riso de escárnio se fez. Estaria aprendendo com ele?
De olhos arregalados, o sujeito começou a gargalhar. Riu com tanta vontade que se curvou para frente e tocou a barriga com uma das mãos. Divertiu-se? Não. Aquele triste espetáculo não representava nada mais do que desespero e falta de senso do absurdo. Batia boca com uma humana sobre assuntos que considerava irrelevantes enquanto Inuyasha e seus amigos, não muito distantes, enfrentavam pela primeira vez uma de suas crias – Kagura, a mestra dos ventos. Em breve, o odioso grupo estaria ali e não fazia parte do plano confrontá-los tão cedo. Vaidoso, todavia, não quis perder a palavra final e, após enxugar os olhos umedecidos, tomou a fala:
— Esse é o problema de vocês humanos, permitem que os sentimentos dominem suas ações, seus pensamentos, e acabam se tornando escravos disso. Não pensam mais, não agem mais por si próprios, tornam-se dependentes dessa coisa que chamam de amor. Eu, Naraku, não faço parte desse nicho de fraqueza.
— Ah, mas você faz sim! — ela expandiu os olhos e o sorriso. Como se já não estivesse perto o suficiente, tratou de dar mais um passo a frente e de repente não havia um palmo de distância entre ambos — Você pode detestar a ideia, pode arrancar os cabelos por isso, mas você é mais um no meio de tantos nesse nicho. Só que você tem medo. Você tem medo de sentir. Você não se atreve! Existem tantas pessoas como você, assim, covardes... — persistiu risonha, adquirindo cada vez mais firmeza ao perceber a expressão marcante de indignação e confusão na face do hanyou.
— Ora, garota, não me faça rir! — persistia no deboche, entretanto suas feições entregavam o nervosismo.
— Você pode se esconder por trás de atitudes cruéis, mas eu sei que, no fundo, você se importa. — e então, a voz dela suavizou e soou como ondas serenas quebrando na margem.
Ailyn estreitou os orbes azulados na expectativa de saber aonde aquele recente conflito iria terminar. Vislumbrou a irmã subir, vagarosa, a mão tremente e pousá-la no rosto leitoso do inimigo.
— O que pensa que está fazendo, Annabelle Rose? — Naraku arrebatou o pulso e afastou-se do toque.
— Está tão acostumado com pessoas devotando ódio a você que quando recebe um carinho não sabe como lidar. Estou errada? — teimosa, tocou-o novamente e deslizou os dedos pela maçã desbotada. A textura era, dolorosamente, a mesma de seu Hitomi. Poderia ter se debulhado em lágrimas com a lembrança, ao invés disso respirou fundo e persistiu a afagá-lo mesmo que em seu íntimo desejasse acertar-lhe uma bofetada. O coração, em contrapartida, palpitava esbaforido causando-lhe tremedeira nas pernas.
— Por que dedicaria seu afeto a mim? Me toma por imbecil? Não me teste. — dessa vez não tentou contê-la, largou-lhe o pulso e manteve os braços rentes ao corpo, descansados.
— Você me salvou... — lembrou-o enquanto o fitava dentro dos olhos de maneira tão intensa que Naraku sentiu necessidade de se desviar.
— Apenas por querer o seu poder. O seu poder, Annabelle, talvez o seu corpo, porque essa consciência humana ainda habita em mim, mas é só, nada mais. Se pensa que sinto algo por você além de atração, serei eu a ter pena de você. — a voz grave mostrou firmeza. Os olhos, por sua vez, fugiram dos dela insistentemente.
— Diga o que quiser, o iludido aqui é você quando mente para si mesmo. Eu vi como me olhava naquele dia em que quase me afoguei. Ao contrário de você, vivi não só ruins, mas também boas experiências com humanos e sei ler a expressão de alguém realmente preocupado, de alguém que teme a perda. Nunca me esquecerei de como você me olhou, da angústia em seus traços e do alívio ao ver que eu respirava. Você não me ama, duvido até mesmo que ame Kikyou, mas de alguma maneira torta, esquisita, você se importa. E se você é capaz de se importar, existe algo de bom em você. — o brilho nas límpidas lagoas demonstrava elucidação soberba, o sorriso, por sua vez, exibia docilidade como se ao constatar a vívida humanidade dentro do monstro a mágoa por ele se amenizasse, e agora ao invés de desejar atingi-lo, queria simplesmente desarmá-lo. Contudo, aonde queria chegar com tais investidas nem ela mesma tomava conhecimento.
Naraku poderia inventar outra mentira como as várias pronunciadas por sua boca ferina. Poderia rir como antes, poderia agredi-la, ou melhor: assassinar sua irmã ali, à sua frente, para provar sua natureza má. Entretanto, no fim das contas, ele tomou conhecimento de que estaria tentando provar algo mais para si do que para ela. Annabelle jogou as cartas e o expôs, mas e ela? A audição avantajada do meio-youkai captava as batidas afoitas do órgão vital da escocesa e a respiração entrecortada, a vista diferenciada mirava o sangue fluir corrido por baixo da pele rosada e quente. Antes, tinha plena certeza de que ela o tentava seduzir para humilhá-lo. Nesse momento não sabia de mais nada.
O instinto não pedia por violência, não existia ímpeto de repelir, de praguejar, seu ser pedia por serenidade. Por fim, encorajou-se a olhá-la diretamente nos olhos e enfrentar aquelas preciosidades certeiras à espera de seu próximo trunfo para rebatê-la sem sorrisos ou fúria, sem externar emoção alguma. A carapaça endurecida tratou de fazer seu trabalho. Por dentro, ele incendiava.
"Algo de bom em mim?" — ofendeu-se? Nem ele saberia dizer. Annabelle fora a primeira pessoa em cinquenta anos a interpretá-lo de maneira diferente.
Maldito frio percorrendo o ventre de dentro para fora, como se fosse parti-lo ao meio!
— O que pretende fazer? — discretamente inseguro, perguntou por ser a única coisa que era capaz de dizer.
— Eu não sei... — confessou. A mão escorreu do rosto dele e tornou ao busto acelerado.
E então, uma ventania violenta perpassou por cima de suas cabeças, forçando-os a curvarem os corpos. Annabelle direcionou os olhos ao céu e viu uma larga pena branca a sobrevoar, carregando em si uma mulher cujas costas despidas possuíam uma cicatriz conhecida – a queimadura de aranha. Antes de haver tempo para perguntar sobre o evento, ao tornar a dar atenção para Naraku, ele já se distanciara e tinha nos braços Ailyn, seu sangue.
— Naraku! — clamou por ele, aprontou-se para alcançá-lo.
A moldura arroxeada envolveu o hanyou e a mulher de cabelos claros. Veloz, a bolha subiu aos céus e sumiu em meio às nuvens escuras. Ele partiu deixando um buraco dentro do peito de Annabelle e uma coleção de dúvidas em sua cabeça.
Não houve tempo para muita reflexão, todavia. Um homem cruzou o caminho dela, veloz como um raio e a fez cambalear.
Um homem? Não, era um youkai, e estava furioso.
O sujeito pareceu que seguiria caminho até frear de súbito e virar-se colérico, mirando-a a ranger os dentes:
— Sinto o cheiro daquela mulher aqui, você está com ela não é, garota?! — os músculos dos braços, rijos, ressaltavam e os dedos das mãos contorciam-se, prontos para um ataque.
— Do que está falando, quem é você?! — atordoada, fincou-se onde estava e concentrou a brancura ao redor de si.
— Ele a fez matar meus companheiros! Se você é cúmplice do que a maldita fez, vai pagar por isso! — urrou ensandecido, impulsionou os pés e saltou na direção dela. Seus olhos, tão azuis quanto os da desconhecida, sequer piscaram. A imagem de Annabelle refletiu neles nítida dos cabelos aos ossos.
Apesar de não fazer ideia do ocorrido, precisava se proteger de algum jeito. Os cílios avermelhados se fecharam e quando os olhos abriram outra vez, estavam completamente brancos. A aura cálida o repeliu sem que o youkai conseguisse lhe triscar. Insatisfeito, ergueu-se em um pulo e persistiu no embate.
— Pare, eu não tenho a intenção de lutar com você! — a jovem apelou, a lua em seu pescoço cintilava em cores diversas e o lume ebúrneo tomava maior proporção, formando um círculo de proteção ao seu redor. O céu ao topo de sua cabeça clareava aos poucos.
Repentino, o sujeito estancou e passou a encará-la com ares de curiosidade. Parecia mais calmo, talvez fosse o efeito da energia da estrangeira.
— O que é você? — questionou levemente ameno — Isso não é energia sinistra, é pura... Por acaso é uma sacerdotisa?
— Não sou uma sacerdotisa. — suspirou e abrandou os ânimos — Eu sou Annabelle Rose, — notou-o fazer careta ao ouvir o nome — e você é?
— Kouga, príncipe da tribo dos youkais lobos. — apresentou-se austero — Se você não tem nada com aquela mulher ou Naraku, não tenho mais o que fazer aqui. — e deu as costas para ela. Tornou a correr sem se importar com o que havia pela trilha. Via-se em seu semblante tristeza misturada a raiva e sede por vingança. O lobo alfa de sua alcateia era mais um entre muitos que possuíam uma dívida com Naraku e estava sedento por fazer a cobrança.
"Por quê?" — era a pergunta da qual Annabelle não conseguia se livrar. Qual era o propósito disso tudo? Naraku, por não ser feliz, não admitia que o resto do mundo fosse? Sentia necessidade de impor a sua miséria a todos para que entendessem o calvário pelo qual ele estava passando? — Passou tantos minutos dedicando seus pensamentos ao objeto de ódio de muitos que nem percebeu quando o grupo que a acolhera retornou àquele ponto da floresta. Kagome, como em outro dia, a chamou diversas vezes até sua voz ser ouvida.
— Você está bem? O que aconteceu?! — a jovem sacerdotisa a bombardeou de questionamentos.
— Eu estou a salvo, mas e vocês? Inuyasha está ferido! — sobressaltada, se encaminhou ao meio-youkai cachorro deitado sobre a grande Kirara — Deixe que eu resolvo...
— Keh, isso não é nada! — resmungou e se levantou com certa dificuldade.
— Não seja tão teimoso, eu posso ajudá-lo! — criticava-o pela teimosia, mas ela própria não estava livre da conduta.
— Já disse que não é nada! — resmungou.
— Esse Inuyasha adora dificultar as coisas... — Shippou comentou.
— Estou bem o suficiente para te esfolar vivo! — lançou um olhar aterrador ao pequeno, e como de costume a raposinha recorreu à viajante de outra Era.
— Precisamos procurar um lugar para passar a noite, é perigoso ficarmos a céu aberto com Inuyasha nesse estado. — Miroku, sem muito humor para brincadeiras, afirmou preocupado.
Todos concordaram. Peregrinaram juntos até o vilarejo mais próximo e conseguiram um cômodo para passar a noite. Lá, conversaram sobre Kagura e debateram sobre o quão perigosa ela poderia ser. Annabelle ouviu atentamente Kagome narrar o ocorrido no castelo de Naraku e se compadeceu pela dor de Kouga. Sim, Naraku fizera outra vítima. Por que motivo? Por ele gostar de causar sofrimento e caos? Não poderia ser apenas isso, era razão muito rasa para um indivíduo tão complexo. Alguém que teceu um discurso sobre amor verdadeiro da forma como ele fez provia-se de sentimentos e sensações.
E o que era amor verdadeiro então? Como alguém poderia estar certo de existir uma forma correta ou errada de se amar alguém? Era possível desenvolver um sentimento tão forte em tão pouco tempo? Era necessário conhecer o profundo de um ser para alegar amá-lo por completo? O que poderia ser esse sentimento desmedido, poderia ele ter um nome, ter limites, ou uma razão de ser?
Poderia a rosa se apaixonar pelo espinho? Poderia a aranha, apaixonar-se pela mosca?
"Poderia Naraku sentir amor por mim?".
Quando deu por si, Annabelle tornou a gastar tempo dedicando-se a decifrar as profundezas do causador de seus tormentos, dessa vez, horas. O céu clareou singelo e rosado enquanto ela devaneava. Pensou tanto em Naraku que se esqueceu de rememorar seus dias com Hitomi, como fazia todas as noites antes de dormir.
O que estava acontecendo?!
Naraku vagava aturdido pelos corredores do soturno castelo. Por mais que tentasse, não conseguia parar de pensar no confronto de horas atrás. Cada palavra expelida pelos lábios ocidentais transpassava-no, pulsava em sua cabeça, quase o deixava tonto.
"Eu, me importar com alguém?" — não queria acreditar naquela hipótese. Não se atreveria a cogitar a ideia de que qualquer ser lhe fosse essencial — "Essa mulher enlouqueceu?" — fingiu esquecer-se do dia em que a tirou de dentro do rio e persistiu a caminhar.
Cessou os passos ao ouvir estranha movimentação no quarto de Annabelle. Arrastou a porta de uma vez e temeu que seus olhos pregassem-lhe uma peça. Era ela ali, rodopiando a segurar a saia de um vestido verde?
Não, os fios dourados estragavam a bela cena.
— O que pensa que está fazendo? — irritado, segurou-a pelo braço e a fez parar.
— Ela sempre foi boa costureira... — descontraída, Ailyn movimentou a saia com uma das mãos, jogando-a graciosamente para os lados — Já eu tinha que pagar fortunas para fazerem meus vestidos — deu de ombros — Ela que faz as roupas que usa, sabia? No que Annabelle não é boa, me pergunto? — rolou os olhos — Chega a ser irritante.
— Não é boa mentirosa. — largou-a — Tire esse vestido, isso é ridículo. — se preparou para deixá-la.
— Por quê? Te faz lembrar dela? — num andar coreografado, girou em torno dele, cercando-o — Nós seríamos idênticas se meu cabelo não tivesse essa cor. — escorreu os dedos pelos cachos, bagunçando-os.
— Desbotado. — Naraku escarneceu — Tire esse vestido. — insistiu irritadiço.
Ailyn abriu meio sorriso e partiu a desatar o laço do fitilho, depois, ilhós por ilhós, livrou-se da fita amarelada e desceu as mangas tufadas. Moveu-se sedutora, induzindo os panos a caírem e deixarem-na apenas com a camada debaixo, similar a que Annabelle usava, mas escura. Foi o momento de começar a se desfazer do espartilho.
— O que pretende, mulher? — Naraku riu sem dar muita importância e olhou para outro lado.
Não respondeu, simplesmente se chegou a ele como veio ao mundo e segurou seu rosto forçando-o a mirar seu corpo esbelto, abençoado por diversas curvas. Em primeiro instante, o hanyou vacilou ao analisar as formas delineadas, no entanto, ao encontrar os olhos maliciosos e a boca avermelhada, empurrou-a ao chão. Divertiu-se ao evidenciar a irritação na face rosada, abaixou-se calmo e falou com naturalidade:
— Você jamais será a sua irmã. — cutucou a ferida do jeito que lhe apetecia.
— Você está apaixonado por ela. — a graça findou, o sorriso dele se desfez. A mão, sem pena, agarrou o pescoço da aliada e o apertou. —... E ela... está apaixonada por você! — o enlace afrouxou, os ombros desceram assim como os braços e uma sobrancelha dele arqueou.
— Annabelle apaixonada por mim? — riu-se do absurdo.
— Ela ainda não se deu conta disso, mas como sua irmã e conhecedora de sua essência, eu sei. Annabelle está caidinha por você. — e riu como se fizesse a revelação mais banal – Aproveite, ela não demorará a ceder.
Naraku abrasou por dentro, tão intenso que pensou ter febre. Um ser como ele, febril? Impossível. Seu corpo estava mais saudável do que nunca, composto pela seleção dos fortes youkais que ele absorvera. Era sua alma – se é que possuía uma – que borbulhava descontrolada, preenchida por algo cujo significado era desconhecido para ele, mas que pessoas comuns costumavam chamar de esperança.
Seu outro lado – o ego ambicioso – enxergava uma oportunidade vil, e se ele não se aproveitasse, não seria Naraku.
"Eu vou enlouquecê-la." — sorriu perverso — "A farei implorar para servir a mim, como se eu fosse a sua única escolha. Essa energia pueril que a cerca, irei tingi-la com a minha escuridão." — o semblante sombreou e o escarlate dos olhos cintilou preenchido de desejos sádicos.
Olhos da mesma cor sanguínea dos dele observavam pela fresta da porta.
— Kagura, — ele tinha ciência da presença — chame sua irmã mais velha, vocês tem trabalho a fazer. E você, — dirigiu-se a Ailyn — já que sabe tanto sobre sua irmã, conte-me mais sobre esse poder de berço que ela tem e você persegue.
A aliada retribuiu o riso degenerado com outro e se ajeitou, cobrindo o corpo com o lençol à cama de Annabelle.
Continua...
E então gente? O que acharam da cutucada?
Nesse capítulo, tentei expôr o Naraku bem como o vejo. Por trás daquela muralha de pura maldade, temos um sujeito com sentimentos vívidos, mas ele tem medo do que essa gama de sentimentos pode lhe causar, então ele se esconde por baixo do véu da "malvadeza" para não ter que lidar com a própria essência.
Na história original, sinto que a Kagome demorou muito a perceber a humanidade dentro de Naraku, eu já vislumbrava esse outro lado da natureza dele faz tempo e sempre sonhei para que alguém o resgatasse de si mesmo antes que fosse tarde. O coitado nunca recebeu um carinho na vida (tá, nem merecia), então sempre me peguei imaginando: como seria se uma pessoa demonstrasse afeto por Naraku? Como ele reagiria a um abraço sincero, por exemplo? Sinceramente, eu não tenho certeza, tentarei colocar na fanfic como penso que seria... e vocês já estão tendo um gostinho disso.
Espero que gostem, particularmente, eu sonhava que o diálogo desse capítulo fosse mais denso, o refiz diversas vezes e nunca me dei por satisfeita. O que vocês leram aqui foi o mais próximo que consegui chegar do que imaginei, e espero ser satisfatório. Se eu consegui instigar alguns de vocês, se eu consegui fazê-los refletir um pouquinho sobre amor e as nuances do sentimento, já fico feliz.
Agora, vamos à cronologia: No capítulo anterior, antes de o grupo se separar, lembram-se que eles encontraram um youkai urso descontrolado? Esse youkai aparece no episódio 39 - Um plano ardiloso, uma luta de vida ou morte. Enquanto Inuyasha e amigos se empenham em lutar contra o monstro, Kagura dá conta dos youkais lobos, no intuito de dar cabo deles e fazer parecer que foi Inuyasha.
Então, nesse capítulo aqui, enquanto Annabelle e Ailyn se engalfinhavam para depois Naraku surgir e rolar a tal da conversa e o carinho na bochecha, Kouga surgiu no castelo da nossa aranha favorita, caiu no conto vigário, ele e Inuyasha lutaram, e a primeira cria de Naraku deu as caras, como vocês podem conferir no episódio 40 - A armadilha de Kagura, a mestre do vento.
No mais, não tenho mais muitas coisas a dizer, apenas posso desejar-lhes um bom sábado e esperar a repercussão desse capítulo até curtinho. Sem problemas, a posteriori virão alguns maiores, outros menores, ainda assim igualmente interessantes (espero).
Kissuuuuus!
