Demorei, mas voltei, e estou postando! :)
Capítulo 22 – Laço Fraterno
— Ah! — Kagome e Shippou gritaram em coro. A colegial agarrou a raposinha enquanto dobrava os joelhos, fincando os pés na terra que tremia.
Ailyn e Annabelle sobrevoavam os domínios do castelo, luzes esbranquiçadas e escurecidas pipocavam ao redor como fogos de artifício. A gêmea dos cabelos alaranjados, todavia, ofegava empalidecida e demonstrava claramente que não suportaria manter o embate de energias por muito tempo.
Na mão arreganhada da outra mulher, o generoso pedaço da pérola cintilava pomposo enquanto as lamúrias do além contornavam o esbelto corpo adornado pelo vestido cor de vinho. Os orbes azulados perderam o brilho e enegreceram completamente, como se alguém os tivesse pintado com tinta nanquim.
Rajadas, vindas sabe-se lá de onde, atingiram os contornos de Annabelle como navalhas rasgando seu traje, provocando largos cortes nos braços e nas pernas. As articulações se esticaram enquanto os olhos arregalavam-se. Um raio desceu dos céus e caiu diante de Ailyn, quase a tocá-la, forçando-a a se lançar para trás e afastar-se. Ainda assim, suas sombras podiam se materializar onde ela bem entendesse e assim o fizeram: agarraram-se aos braços e às pernas da Rosa Branca, imobilizando-a. Nem mesmo a aura grandiosa teria efeito contra aquelas criaturas agora.
— Naraku, maldito, onde pensa que vai?! — Inuyasha o interceptou, apontando-lhe o imenso fio da espada.
O araneídeo, calado, mirou-o por instantes. Então, retomou o foco nas duas figuras que quase atingiam os céus e levitou na direção do embate. Uma flecha, porém, atravessou sua barreira arroxeada e passou a centímetros de seu pescoço, alarmando-o.
— Sua barreira não é tão forte sem o poder da Joia de Quatro Almas, não é, desgraçado? — Kagome, mesmo curvada por conta do solo inconstante, tinha boa mira e estava furiosa — Isso tudo é culpa sua!
— Humpf! — aborrecido, o vilão endereçou dose considerável de miasma à menina, o veneno foi facilmente cortado por outra flecha purificadora — Kagura! — optou por chamar à serva — Cuide deles. — e persistiu a voar nos ares até perder-se dentro da bruma cor de musgo que se espalhava pelo firmamento.
— E lá vamos nós... — a Mestra dos Ventos desfilou inabalável sobre terra movimentada, o vento a circundava graciosamente — Oh, você vai participar? — parou de súbito e se referiu a alguém escondido atrás de uma das portas da grande construção atrás.
— Kohaku... — Sango sussurrou aterrada, a mão a segurar a enorme arma endureceu. O menino, desbotado e inexpressivo, foi até Kagura e parou de pé, ao lado, como um boneco.
— Inuyasha, se usar a Ferida do Vento agora, matará o garoto. O que vai fazer? — a oponente abriu o leque diante à face risonha e em seus grandes olhos de rubi a imagem de um hanyou preocupado se refletiu.
— Keh, eu não preciso da Tessaiga para acabar com a sua raça! — a espada tomou a aparência envelhecida e o meio-youkai a embainhou. Em seguida, saltou rumo à cria de Naraku apontando-lhe as longas e afiadas unhas — Garras Retalhadoras de Alma!
— Dança das Laminas de Vento!
Enquanto isso, o véu que cobria os céus descia e criava densa névoa sobre a terra, confundindo a vista do monge e da exterminadora de youkais.
— O que é isso?! — Sango protegeu o rosto com a máscara, temendo que a fumaça contivesse veneno. Antes fosse...
— Olhe aquilo! — Miroku, aterrado, apontou um grupo de espectros que se aproximava — fantasmas de diferentes épocas, perdidos, entristecidos, raivosos, prontos para fazerem a cobrança de uma dívida.
— Onde estão Kagome e Shippou?! — encostou as costas às dele, ambos em posição de combate e cercados pelas assombrações.
— Kagome! — a pequena raposa, agarrada ao ombro da amiga, encolheu-se toda — O que é isso?! — aparições fantasmagóricas também rodeavam a dupla perdida dentro da assustadora bruma.
— Isso é coisa da irmã de Annabelle, eu tenho certeza! Temos que achar aquelas duas antes que algo horrível aconteça! — atirou algumas flechas e acertou fantasmas pelo caminho, purificando-os — Droga, não tenho flechas o suficiente para cuidar de todos eles! — um clarão repentino a surpreendeu, róseo como a luz que abençoava suas setas sacerdotais. Adiante, a silhueta de uma mulher adornada pela tradicional vestimenta sagrada se fez visível — Kikyou...
— Kikyou?! — Shippou quase caiu para trás.
A sacerdotisa do passado mirou a do presente, olhos castanhos e negros misturaram-se em matizes e sem que elas precisassem trocar uma palavra sequer, entenderam-se. Flechas continuaram a voar pelos ares, purificando o que havia pelo caminho. Carregadores de Almas encarregavam-se de agarrar-se a alguns daqueles espíritos errantes e levavam-nos aos confins de um mundo desconhecido.
— Ah! — Ailyn gritou ao ser acertada por uma rajada esbranquiçada. Uma ferida extensa abriu em seu ombro e a pedra preciosa quase escorregou por entre os dedos — Desista, Annabelle, não pode me impedir!
Mais daquelas almas atormentadas ataram-se ao corpo agoniado da gêmea mais velha.
— Mate-a. — Naraku surgiu atrás de sua marionete mais recente — Vamos, você não tem escolha! — pressionou-a. Percebia que o fragmento depositado no peito da humana ainda oscilava, indeciso. A aura natural da escocesa tentava purificá-lo, porém as incertezas e as tristezas dentro do pobre coração mantinham no caco algum resquício da negritude depositada pelo hanyou aranha — "Imagine só o brilho obscuro que esse fragmento pode tomar se Annabelle tiver a coragem de matar a própria irmã" — e um sorriso alargou-se, diabólico – Mate-a, Annabelle Rose!
Mate-a. — ouvia não só a voz de Naraku, mas o infindável coro de outrora. Uma raiva que não lhe pertencia queimava-a. As mãos se fechavam tensas, as unhas lascavam a carne das palmas fazendo tênues fios de sangue escorrerem e respingarem pelos ares.
— Ah! — como um animal selvagem, ela esbravejou e lançou o corpo sobre o de Ailyn, provocando outro choque entre suas auras. Os dedos agarraram-se ao pescoço da dama dos cabelos d'ouro e apertaram-no.
Ailyn, por sua vez, grudou a mão à face de Annabelle enquanto sentia o ar lhe escapar, e com a força presenteada pela Joia, fez o maxilar da irmã amolecer e a boca escancarar. Seus lábios cor de sangue abriram-se, enfim, arreganhados desproporcionalmente, como se uma simples boca pudesse se tornar um buraco negro com profundidade tão densa e desconhecida como a dos oceanos. A pedra, de um verde gritante, cravada no anel a enfeitar o dedo mínimo, cintilou avermelhada enquanto algo disforme e transparecido escapava da garganta da irmã mais velha e passava a adentrar as profundezas desconhecidas da bocarra da caçula. Os cabelos acobreados começaram a desbotar, mechas agrisalharam, e os dedos impiedosos ao pescoço de Ailyn desfizeram o lace.
Mate-a ou ela a matará! — o coral, uma vez mais, entoou seu maléfico refrão, incentivando Annabelle a não se permitir perder as forças. O branco cobriu seus olhos, os ventos se comportaram a seu bel prazer, empurrando as duas ao chão com ferocidade. As mulheres rolaram pela terra, uma por cima da outra até apartarem-se e caírem em direções distintas. A interrupção repentina do ritual fez com que as ondas da Rosa Branca retomassem sua cor peculiar.
Annabelle se pôs de pé enquanto Ailyn, ainda curvada sobre a terra, tossia a recuperar o fôlego. Raízes amarraram-se aos tornozelos da jovem caída, surpreendendo-a, e depois, mais estirpes enrolaram-se às articulações – dessa vez, aos pulsos, apertando-os infernalmente, obrigando as mãos a abrirem-se dormentes. A joia pendeu da mão formigante e rolou pela grama, entrando em atrito com o ápice da bota de Annabelle. Enquanto a mais nova esbugalhava os olhos, aterrorizada, a primogênita abaixava-se serena e cativava a pedra mística entre os dedos.
— Nem mesmo com a Joia de Quatro Almas em mãos, consegue vencê-la. — em passos calmos, Naraku sentiu-se seguro para se aproximar. Pelas costas de Annabelle, tocou seus ombros desestimulados como ela toda estava – insípida — Vamos, dê para mim. — ergueu a mão ansiosa e obteve o que tanto queria: a pedra quase esférica — Isso mesmo, boa garota... — sussurrou ao ouvido, finalmente cativando alguma reação, um suspiro, por mais discreto que fosse — Agora, livre-se dela. — ajeitou as ondulações bagunçadas, afastando-as do pescoço grácil e arrumando-as às costas. — "Finalmente... finalmente a mente dela se abriu para mim" — era como se compartilhasse dos pensamentos da ocidental naquele instante e pudesse vislumbrar sua melancolia, sua insegurança e também o desejo incontrolável que a abrasava quando as mãos dele a tocavam e sua voz ressoava, não importava a atrocidade que dissesse. O losango ao peito restituiu a cor escura e Annabelle deu um passo à frente, depois outro e outro...
E outro...
— Não se preocupe, eu vou cuidar disso! — a garotinha dos cabelos amarelados prometeu ao ver pequena quantidade de sangue escorrer do joelho ralado da irmã mais velha — Belle, você chora por tudo, só estou limpando e o machucado nem está tão feio assim! — disse jocosa enquanto passava um pano úmido sobre a pele ferida e a garotinha sentada sobre a raiz de uma árvore choramingava — Pronto, passou! — depositou um beijo na pele lascada para depois sorrir-lhe, fraterna.
No azul opaco espelhava-se o pavor da mulher presa por raízes. Os pés continuavam a caminhar até lá.
De mãos dadas elas giravam em ciranda, entranhadas no elevado capim desbotado de outono. À noite, mesmo que cada uma tivesse o próprio quarto sempre optavam por dividir a mesma cama. Inventavam histórias de terror para contarem antes do sono e acabavam por ter medo de dormir, assustavam-se com as sombras nas paredes de pedra provocadas pela luz das velas.
Annabelle ajoelhou-se diante de Ailyn, as mãos tocaram a terra, os orbes fincavam-se na criatura inconformada, acuada.
— Belle, como você fez aquilo? Você ressuscitou o passarinho! — a garotinha tomava-lhe as mãos, tão ansiosa que mal poderia esperar a irmã melhorar do mal estar para pedir que fizesse de novo.
— Eu não sei, Lynnie... — rolou os olhos para baixo, insegura e um pouco tímida.
— Você precisa me mostrar!
— Belle, olha só! Papai está conversando com aquela mulher de novo... parece até que já se conhecem há tempos! — a garotinha dos cachos dourados cochichou ao seu ouvido, sapeca.
Caminhavam por uma feira no centro de uma cidade maior do que a que estavam habituadas. Havia tendas de diferentes cores espalhadas pela praça. Adiante, a magnânima construção de uma catedral gótica contrastava com o furdunço.
— Eu só queria que voltássemos para casa... — desabafou um tanto desanimada — Sinto falta de nossa terra natal... — parou a frente da tal construção e atentou-se às imensas gárgulas esculpidas nas sacadas.
— Mas você sabe que o papai tem mais futuro aqui, Belle! Comerciantes ganham muito dinheiro vendendo seus artefatos em cidades grandes... pense pelo lado positivo, talvez paremos de viajar um pouco se ele arranjar uma mulher e se casar. — riu-se enquanto observava o progenitor ter a mão lida pela desconhecida dos cabelos castanhos e olhos de esmeralda.
— Engraçado, ela não me é estranha, mas não gosto dela... — confessou, encarando a criatura estonteante que enfeitiçava seu cuidador.
— Ah, você está com ciúmes! Não podemos querer o papai só para nós para sempre. Ela parece divertida, diferente de todas essas pessoas chatas e tão... católicas. — bufou.
— Lynnie! — tapou sua boca — Shhh! Não fale isso alto! — Olhou em volta, apavorada de que um certo grupo de homens pudessem ter escutado. Respirou aliviada ao vê-los conversando completamente distraídos. Havia muito barulho de burburinho e de música na feira, era improvável que alguém prestasse atenção nas fofocas banais de duas meninas de onze anos, a não ser a mulher misteriosa que falava qualquer coisa ao mercador escocês enquanto observava as garotinhas.
— Meninas, essa é Amelie, — certo dia, finalmente o pai apresentou a criatura às filhas — ela lê a sorte das pessoas na praça, vocês já devem tê-la visto perto da fonte...
— Sim, papai, vocês estão sempre conversando. — Ailyn comentou — O que a trás a nosso humilde lar, my lady? — prestou reverência.
Annabelle os observou conversar sem abrir o bico. Sua gêmea, por outro lado, não parava de falar e fazer galhofa.
— Suas filhas são encantadoras, monsieur Allistaire. É triste ver meninas tão lindas sendo criadas sem a presença da mãe... — abeirou-se da mais velha e enlaçou os dedos na franja alaranjada. — Você... — os olhos glaucos retraíram-se vigilantes — há algo de diferente em você. — inclinou-se até os rostos tomarem a mesma altura.
A menina deu um passo para trás, possuída por temor desigual. Lembrou-se do dia em que sua mãe fora executada. Uma procissão a acompanhou até um rio enérgico, Annabelle tinha pouca altura para enxergar bem o que acontecia, só sabia ser algo grave por seu pai estar aos prantos e pelos gritos da multidão ao redor. A mulher que lhe dera vida trajava apenas uma túnica branca e tinha os braços amarrados, os cachos de fogo cobriam-lhe o rosto inundado de lágrimas quentes. Ao chegarem à beira do riacho, um homem encapuzado amarrou uma corda na cintura da "bruxa" e a sentenciou à morte. Ailyn urrou e partiu a correr desenfreada na direção em que sua mãe estava enquanto a garotinha ruiva a observava sem muito bem entender. O pai a agarrou no ato e ela se chacoalhou indignada, arranhando-lhe os braços, vomitando protestos que nada resolveriam. Belle, atônita, abraçou-se aos parentes e chorosa não parava de perguntar o que diabos estava acontecendo. Um zunido em seu ouvido não a permitia entender bem as palavras do Carrasco. Houve um som, somente, que ela compreendeu – o da água a agitar-se. Sua mãe – com um pedregulho amarrado à corda na cintura e mais pedras dentro do bolso da túnica – fora jogada dentro do rio e afundou de uma vez. O ar escapou dos pulmões da pequena criança ruiva, ela girou o corpo para todos os lados, os olhos capturaram as nuances de diversas pessoas a rirem, a gritarem, algumas a se apavorarem, e então, os grandes globos índigo cravaram-se em uma figura peculiar – o vermelho de seu vestido contrastava aos trapos dos camponeses nos redores. A estranha não esboçava emoção alguma, em verdade parecia entediada, seu semblante vazio causou arrepios na garotinha e o medo pareceu atrair a atenção de quem não devia. Esmeraldas cintilantes cravaram-se na criança que ainda não sabia ser um prodígio, um sorriso avermelhado se expandiu no alvo rosto, e um dedo indicador se sobrepôs ao carmim num elegante pedido de silêncio.
"Eu a conheço! Ela estava lá!" — endureceu ainda mais, ciente de que aquela mulher não era flor que se cheirasse.
— Annabelle é um pouco tímida — o homem de meia-idade explicou ligeiramente desconcertado — Venha conhecer o jardim, lady Amelie. — ergueu-lhe o braço.
— Lady? Bondade sua, monsieur... — sorridente, acompanhou-o a desfilar pelo corredor, arrastando a saia rubra do longo vestido aveludado.
— Credo, Belle, como você é arredia! — Ailyn a abraçou de lado e brincou com seu cabelo, arrepiando-o.
— Nossas vidas vão mudar Lynnie, posso sentir... — gélida e estancada na mesma posição, professou com os olhos vidrados através da vidraça, observando a mulher a tocar a roseira e afagar as pétalas macias, a pedra esverdeada do anel reluzia em contraste à luz vespertina.
"E nossas vidas mudaram..." — constatou enquanto analisava a sua presa tentando libertar braços e pernas das raízes neles enroscadas — "Você não é mais aquela garotinha que se preocupava comigo, que me ajudava a limpar as feridas e que penteava os meus cabelos" — uma lágrima ressentida derramou-se de um dos olhos e lhe devolveu singelo lume. — "Você se deixou levar pelas promessas daquela criatura sorrateira, até mesmo nosso pai foi enfeitiçado pelas belas palavras, pelos planos que jamais se concretizariam...".
— Merda! — a outra, exasperada, invocou a névoa fantasmagórica e a fez subir das profundezas do solo.
— Ande logo, Annabelle! — Naraku formou um tentáculo afiado como um punhal na ponta do dedo indicador e cortou-o fora, lançando-o ao alcance de sua súdita — Acabe com isso! — esbravejou precipitado.
A arma excêntrica tombou cravada ao chão, quase esbarrou na mão ali pousada. Tremente, Annabelle cativou o gládio amarronzado e apertou-o. Azul misturava-se com azul, sem pestanejarem.
— Então essa é nossa despedida? — para quem tanto praguejava, a Rosa Vermelha demonstrou estranha e súbita calmaria. Depois de um longo respirar, fechou os olhos e ergueu a face, determinada a não morrer em posição covarde. Esperou que a lâmina rasgasse o seu pescoço e a morte fosse rápida.
De supetão, as raízes ao redor dos pulsos e tornozelos se desfizeram, cortadas em pedaços pelo gládio esculpido da carne de Naraku. Os braços de Annabelle a puxaram bruscos e a envolveram num enlace. O queixo de uma acomodou-se no ombro da outra e os dedos gentis da mais velha acarinharam os áureos anéis.
— Eu te amo, Lynnie... — sussurrou antes de empurrá-la para longe com a força que tinha — Fuja! — bradou.
Tentáculos de diferentes tamanhos e cores perpassaram pelos lados de Annabelle, fazendo suas madeixas esvoaçarem. Fulgor ebúrneo a contornou, precioso e intenso, destroçando a maioria dos apêndices que tentaram ultrapassar aquele limite e alcançar a jovem alourada que saltava para trás. O fragmento ao peito finalmente retomou a tonalidade rósea e ela se levantou perseverante.
Antes que um objeto viscoso e pontiagudo alcançasse a tez adornada por um caco da Joia, Ailyn conjurou qualquer feitiço no idioma de seus ancestrais e um portal abriu-se às suas costas. Atirou-se lá dentro e o círculo estranho se fechou levando-a embora, como se nunca houvera brindado aqueles seres com sua presença.
À medida que o céu clareava e os trovões cessavam, Annabelle girou o corpo elegantemente, pronta para encarar o odioso meio-youkai nos olhos. No entanto, quando ficaram de frente um para o outro, a ponta afiada de uma seta purificadora atravessou o abdome de Naraku, fazendo-o arregalar os olhos carmesins e balbuciar:
— Não é possível... — os orbes rolaram até serem cativos pela expressão atônita e desesperada da ocidental. Annabelle cobrira a boca com as duas mãos para abafar um grito de horror.
Acima de um galho estava Kagome a segurar seu arco, preparada para atirar outra flecha pelas costas do aracnídeo. Entre as folhas, Shippou escondia-se. Apenas seus olhos grandes e arredondados podiam ser vistos, o brilho da vitória os consumia.
— Toma isso Naraku, seu nojento! — o pequeno gargalhou triunfante — Kagome, é isso aí! — saltitou em segundos de insana autoconfiança, até ser encarado pelo hanyou furioso e se camuflar entre as folhas novamente – Ai!
— Canalha, deixe Annabelle em paz! — a colegial o ameaçou, apontando a próxima flecha para sua cabeça — "Essa é minha chance! Agora!" — atirou o projétil iluminado, mas a cortina de miasma espalhou-se intensa e rápida.
A escocesa sabia que ele tentaria fugir e levá-la junto. Por isso, lançou-se como um foguete para longe. Com a ajuda de seu poder de nascença, voou como uma estrela cadente pelos ares, até cair deitada sobre um campo aberto, repleto de flores. Kanna roubara-lhe um estilhaço de alma, se o corpo aguentara tanto tempo certamente o caco da gema amaldiçoada era a razão.
Era como se a mente estivesse coberta por denso nevoeiro, havia memórias soltas que não se ligavam, soavam como um sonho distante. Sabia que existia em si um fragmento maldito, tinha certeza de que Naraku a "presenteara" com aquela peça, apenas não se lembrava bem de como fora o evento. Quando deu por si, batalhava com a irmã.
"Ele não virá atrás de mim, não agora". — sorriu, dividida entre sensações de alívio e cansaço — "Está muito ferido..." — as pálpebras semicerraram pesadas, fixadas no cerúleo firmamento. Estava preocupada, afinal. Ver aquela flecha atravessá-lo a angustiou imensamente e ela se amaldiçoava por isso em segredo.
Sentiu ligeira queimação no peito, não sabia se era o coração acelerado ou a marca deixada pelo abominável araneídeo. Um inseto conhecido, porém, deu a ela a certeza de que graças ao pedaço de vidro cravado em sua carne, nunca estaria livre Dele, teria seus olhos sanguinários sempre à espreita.
Ouviu passos, sentiu a sombra de alguém sobre si e apoquentou-se ao ver a garotinha dos cabelos esbranquiçados e olhos negros a fitá-la sem emoções nos traços.
— Você... — antes que pudesse ralhar, viu-a jogar algo guardado na mão pequenina sobre o gramado – era o cordão com pingente de lua — Naraku a enviou, não foi? Terá que absorver minha alma completamente se o seu intuito for me fazer voltar ao castelo.
Kanna apontou-lhe o espelho e Annabelle esteve certa do que viria. Cerrou os olhos, apertou a grama entre os dedos e sentiu o corpo aquecer, afagado por luz albugínea. Os cílios acobreados desenlaçaram os fios alongados e ela tornou a fitar a garotinha, agora de costas, afastando-se sem irritações.
"Ela devolveu minha alma?" — puxou o cordão de fita caído ali perto e o trouxe ao peito. Conforme a menina se afastava, o sono aplacava a humana ali deitada.
— Kagome, o que aconteceu? — Inuyasha a encontrou depois de saltitar pelas redondezas do bosque devastado pelo miasma.
— Eu acertei o Naraku! — disse desacreditada — Eu o acertei, ele deve estar muito ferido! — alargou um sorriso esperançoso.
— Você fez o quê?!
— Foi sim, eu vi com meus próprios olhos! — Shippou ria e pulava como uma perereca eufórica.
— Mas ele fugiu, e eu não sinto mais os fragmentos da Joia... — suspirou.
— Kagome, Inuyasha! — Miroku os chamou dos céus, ele e Sango montavam Kirara. Assim que pousaram, foram até os amigos para saber das boas novas.
— Eu não os teria alcançado se não fosse... — a mocinha de épocas distantes rememorou — Kikyou. — mirou o par de esferas flavescentes — Ela abriu o caminho para que eu fosse até Annabelle e sua irmã.
— Kikyou? — Inuyasha sussurrou absorto em rara docilidade.
— Annabelle tem um fragmento agora... — Higurashi encolheu os ombros.
— Aposto que Naraku tentou controlá-la como fez com Kohaku. — Sango meneou a cabeça, indignada, mas depois esboçou um sorriso sutil — Só que ele não conseguiu. — mirou os amigos.
— É verdade, Sango. Tenho certeza de que ele queria fazer Annabelle matar a própria irmã para corromper o fragmento depositado nela, mas eu vi tudo o que aconteceu. Anna ajudou a irmã a fugir e estava preparada para enfrentá-lo. — a outra garota do grupo ajuntou entusiasmada.
— Tudo isso é tão estranho... — Miroku apoiou-se no cajado, os olhos perdiam-se na faixa de terra desértica que se estendia até um pequeno monte — O que Inuyasha contou a senhorita Kagome sobre Naraku e Anna-hime não é algo para ser ignorado.
— O que tem Naraku e Anna-hime? — Shippou perguntou enquanto coçava a nuca.
— Shippou, esse assunto é um pouco delicado, quando você for mais velho eu te conto. Ta certo? — Miroku explicou com um sorriso torto no rosto.
— Tem algo a ver com aquilo que você pergunta toda vez para qualquer mulher que você conhece? — o pequenino arqueou uma sobrancelha.
— Tá bom, chega desse assunto! — Sango protestou, o rosto queimava enrubescido.
— Não podemos controlar nossos sentimentos... — Kagome mirou os céus amenos — portanto, não podemos condená-la. Não escolhemos a quem amamos... — voltou-se ao meio-youkai cujas orelhas de cachorro moviam-se agitadas.
— Você me traiu. — a voz dolorosamente familiar ecoou num distante vazio, e só, não havia uma figura, um espectro, nada, apenas o som magoado.
— Hitomi?! — também não se enxergava no espaço, não havia nada além das vozes.
— Pensei que me amasse... — ele prosseguiu funesto — Eu morri por sua causa, e agora estou aqui. — o jovem mestre não estava sozinho, grunhidos soavam por trás tão ou mais raivosos. Nem parecia ele.
— Me perdoe, Hitomi... — como refutaria aquela acusação? Rememorava com ardor a noite dividida com Naraku na caverna. Doía-lhe admitir que correspondera e até iniciara algumas interações.
E então, o silêncio se instaurou cruel, não houve mais resposta.
— Hitomi? Por favor, não vá embora... — Não sentia o próprio corpo, mas o amargor na boca era concreto. — Hitomi! — o grito rasgou-lhe a garganta.
— Moça? Moça! — de repente, Annabelle sentiu uma mão pequenina sacudir seu ombro enquanto ouvia a voz infantil chamá-la e desfazer a mórbida quietude.
— Hum? — abriu os olhos devagar e esticou os braços. Tinha dormido? Parecia que sim. Aliviou-se por alguém despertá-la.
Seus pesadelos ficavam cada vez mais vívidos e algo dessa vez era ainda mais aterrador. Costumava confrontar um Hitomi triste e perdido, vagando sem rumo, nunca o encontrara em estado tão enraivecido, amargo. O coração apertou enquanto ela imaginava que expressão ele teria ao dizer-lhe aquelas coisas. Pensou nos olhos castanhos, antes dóceis, agora incendiados, quase assemelhados aos rubis perversos... e mais uma vez, sem conseguir controlar seus pensamentos, testemunhava Naraku ofuscar Kagewaki. Sacudiu a cabeça levemente e virou o rosto na direção de onde o timbre dócil vinha. Deu-se com uma garotinha a sorrir-lhe simpática. Respirou fundo e procurou não pensar mais sobre o sonho estranho. Atentar-se-ia à criança receptiva dali em diante.
— Ai, que bom, você está viva! — a menina bateu breves palmas, ajoelhada ao lado da escocesa. Seus lisos cabelos negros caíam pouco abaixo dos ombros, os tons amarelados e alaranjados de seu quimono combinavam com o sol a alumiá-la pelas costas.
— Olá, pequena... — retribuiu o sorriso com outro não tão animado, a seguir sentou-se a abraçar os joelhos — Há quanto tempo está aqui?
— Não muito! — respondeu empolgada — Vim colher algumas flores e aí a encontrei. Te achei uma youkai tão linda! — suspirou.
— E não ficou com medo de mim? — estranhou.
— Não, ué! — persistia a sorrir inocentemente.
— Eu vou te contar um segredo... — chegou ao ouvido da garotinha e sussurrou: — Não sou uma youkai, sou humana como você.
— Como? Não é possível, você é muito diferente de todas as mulheres que conheci! — estava boquiaberta — Não que eu tenha conhecido muitas... — e então riu.
— Eu me chamo Annabelle Rose, e você?
Antes que a garotinha pudesse responder, uma voz esganiçada a ecoar ao longe revelou seu nome:
— Rin, até que enfim eu te achei sssua pesstinha! — os sons chiados prolongavam-se como o sibilo de um réptil.
Annabelle observou curiosa a criaturinha a se aproximar, esverdeada e pequena, saltitando enquanto balançava um cajado de madeira em uma das mãos.
— Que bichinho esquisito... — reparou ao tê-lo perto.
— Bichinho?! — o pequenino sacudiu os braços, enraivecido. Os sibilos incontroláveis arrancaram risos da estrangeira — Me ressspeite, mulher! Eu ssssou um youkai!
— Senhor Jaken, essa é senhorita Anaberu Rosu. — a criança contou alegremente — Senhorita Anaberu Rosu, esse é o senhor Jaken! — apontou-o com os dois braços.
"Anaberu" — ouvir aquela forma de pronunciar seu nome foi como levar uma apunhalada. Hitomi invadiu seus pensamentos novamente, mesclando boas e péssimas memórias. Baixou o olhar para o vestido encardido e apertou a longa saia. Não prestou muita atenção no sermão que o youkai de baixa estatura dava na garotinha. Contudo, uma voz familiar ativou seus sentidos e a alertou, obrigando-a a erguer o rosto para ter o vislumbre do sujeito:
— Jaken. — ele surgiu através das flores coloridas, enquanto caminhava desapressado muitas pétalas dispersavam-se com o vento, seus vastos cabelos prateados ondulavam nos ares. O sol punha-se às suas costas e o brilho era ofuscado pelo tremeluzir dos olhos áureos – tão luminosos, e mesmo assim tão frios.
— Senhor Sesshoumaru! — Rin alargou um sorriso de orelha a orelha.
— Sssenhor Sessssshoumaru, eu avisei a Rin que não se dissssstanciassse tanto! — o pequenino tremelicou dos pés à cabeça, amedrontado.
O daiyoukai, todavia, ignorou completamente os apelos do servo e só parou de desfilar pelo campo quando se pôs diante da mulher sentada ao chão. Então, cravou olhar tão indescritível na figura ferida e acuada que ela sequer conseguiu se mover.
"Ele vai me matar!" — era só o que conseguia pensar.
Continua...
Pessoal, desde já peço perdão caso o Sesshoumaru venha a se portar meio OOC no próximo capítulo, eu juro que tento fazê-lo o mais fiel ao original possível, só que ele me deixa um pouco entediada, sei lá.
Espero que os feixes do passado de Annabelle e Ailyn tenham ficado inteligíveis, minha intenção foi fazer flashes rápidos e importantes, porque o restante da história das duas - de Amelie - e de como elas foram parar onde estão pretendo expor sob o ponto de vista de Ailyn.
É isso, gente. Espero que tenham gostado!
Kissuuuuuuuus!
