Oi pessoal! Tudo bem? Quanto tempo né?
Me desculpem, minha vida está uma bagunça, acabei não tendo oportunidade de vir aqui nem para postar novidade, e nem para ler minhas fanfics queridas...
Agora que estou me estabilizando, tudo vai melhorar, acredito.
Estava com saudades de vocês, espero que não tenham desistido da fanfic. Chegamos em um ponto em que o enredo fica denso, então inevitavelmente os capítulos saem maiores, mas prometo que a emoção faz com que as linhas pareçam mais curtas. Bem, ao menos sinto assim ^^'.
E... claro, temos uma participação consideravel dele mesmo, o LORD DAS TERRAS DO OESTE!
Tá, tá bom, agora chega de falar. Simbora à leitura!
Espero que gostem, seus lindos! ;)
Capítulo 23 - Sesshoumaru
— Senhor Sesshoumaru, essa é Anaberu Rosu. — a garotinha explicou em tom de animação — A encontrei perdida por aqui, ferida... como encontrei o senhor há algum tempo atrás.
"Essa menina está com ele?" — endurecida até os fios de cabelo, sentiu-se confusa. Enquanto acompanhava Inuyasha e seus amigos, ouviu estórias sobre o sujeito prostrado de pé à sua frente e se havia algo muito comentado a seu respeito era o desprezo por reles humanos.
A face de Sesshoumaru não moveu um músculo, os lábios mantiveram-se fechados em uma reta, as alvas sobrancelhas repousavam misteriosas sobre os olhos estreitos que não se desviavam nem por um segundo, capturando cada detalhe do que viam diante de si.
— Eu juro, Ssssenhor Sssseshoumaru, não tenho nada com isssso! O sssenhor ssabe como Rin é levada e adora dar umass esssscapadinhas. Quando cheguei aqui, ela já essstava com essssa mulher essstranha.
— Estranho é você com essa sua cara de sapo e a língua presa! — Ralhou de imediato, espontânea. Apesar de estar apavorada, ser chamada de esquisita, estranha, aberração – ou coisas do tipo – por conta de sua aparência peculiar a tirava do sério. Afinal, desde que pisara naquelas terras, ouvir qualquer comentário sobre seu aspecto era mais comum do que receber um simples "bom-dia". Rin não se aguentou e deixou o riso escapar, tentou contê-lo com as mãos.
— Ora, nunca vi mulher humana com fogo no cabelo e água noss olhoss! — o youkaizinho persistiu, cruzando os braços e empinando o nariz.
— Prefiro ter fogo na cabeça e água no olho do que ter cara de lagartixa! — arqueou uma das sobrancelhas, desafiadora. Era como se esquecesse da "ilustre" presença entre ela e o provável anfíbio, ou réptil, tanto fazia.
— Jaken, Rin, vamos. — sem um fio de alteração na voz Sesshoumaru chamou os companheiros, virou as costas e começou a caminhar.
— Mas, senhor Sesshoumaru, não podemos deixá-la sozinha aqui! — Rin intercedeu — Veja só, ela está machucada... — mostrou os braços da desconhecida, o sangue nos cortes já secara. A cintura também estava levemente lascada.
— Oh, não, não! — Annabelle compreendeu a intenção da garotinha e se negou de imediato, gesticulando com as mãos — Não, eu agradeço a preocupação, pequenina, mas não posso... Sei me virar. — e ficar perto daquele youkai frígido que quase a matou? De jeito nenhum!
— Por favor, senhorita, passe pelo menos essa noite conosco... — segurou-lhe uma das mãos com as duas e a afagou delicadamente — Senhor Sesshoumaru, será que ela poderia ficar com a gente até amanhã? — os olhinhos castanhos tremeluziram pedintes e ela se curvou respeitosa.
— Pequenina, você não está me ouvindo... — Annabelle tentou resistir.
— Ah não, sssenhor Sssesshoumaru! — Jaken protestou.
O líder do pequeno grupo fitou-os por cima do ombro coberto pela manta de pele, e sem dizer qualquer palavra tornou a mirar adiante e a caminhar.
— Oba! — a garotinha comemorou.
— Como você sabe que ele concordou?! — a escocesa arreganhou os olhos.
— Vem com a gente, senhorita Anaberu Rosu! — puxou-a pela mão, induzindo-a a andar.
— Escuta, mesmo assim, eu... — se negaria outra vez, contudo um zumbido fisgou sua audição e Annabelle inclinou o olhar para o alto. Lá estava o ser responsável pelo barulho – um inseto venenoso, Naraku a observava. — "Se eu ficar sozinha aqui, do jeito que estou vulnerável, ele virá atrás de mim assim que tiver condições..." — frio percorreu o baixo ventre ao lembrar de que Kagome o ferira gravemente. — "Ele mereceu!" — A Rosa Branca respirou fundo, em busca de não se deixar levar pelos sussurros tentadores do pequeno caco abaixo de sua pele, no peito. — Está bem. — concordou enfim, parou de fincar os pés no chão e deu passos sincronizados aos da garotinha.
"Quer dizer que agora, em vez de tentar matá-la, Sesshoumaru a acolherá?" — embora risse, sentia raiva.
Naraku estava deitado sobre um futon, o quarto exalava a acidez de seu youki, bem como a de seus pensamentos malignos. Uma sensação abrasadora causava tremendo desconforto, fazendo-o sentir uma raiva imensurável e algo além... Algo que ele próprio não saberia explicar, mas sabia não ser mais uma simples frustração por ter fracassado ao tentar manipular a humana de cabelos acobreados.
Kagura adentrou o recinto, acompanhada de alguns youkais centopeia, aranha e mesmo escorpiões. Imediatamente, no abdome ferido de seu mestre abriu-se uma fenda e por ela as criaturas foram sugadas.
— É assim que você cura suas feridas? Que nojo! — a mestra dos ventos deixou escapar o comentário ao mesmo tempo em que torcia o nariz.
— Eu quero que mande uma marionete para segui-los. — ignorando as palavras desagradáveis de sua cria, ordenou.
— Tá bem, que seja! — sacudiu os ombros sem dar muita importância, até que olhou através do espelho de sua irmã mais velha – sentada ao lado de Naraku – e tomou um susto — "Ela está com ele?".
— Então a senhorita atravessou o mar para viajar tanto?! — os olhos amarronzados de Rin cintilavam curiosidade e surpresa enquanto ela ajudava Annabelle a limpar os cortes nos braços com um trapo úmido.
As duas acomodavam-se encostadas no grande dragão de duas cabeças adormecido. Adiante, uma fogueira acesa alumiava o daiyoukai, sereno, sentado embaixo de uma espessa árvore. O fiel súdito, por sua vez, jazia deitado sobre o lombo escamoso e a essa altura lutava contra o sono, secretamente curioso acerca das estórias que a dona dos cabelos de fogo contava.
— Sim, viajei em grandes embarcações, algumas vezes acreditei que a caravela afundaria no meio do percurso por causa das ondas, cada uma maior do que a outra, atiçando as velas, sacudindo os mastros... — chacoalhou a cabeça, ligeiramente agoniada — Bom, pelo menos a viagem turbulenta valia à pena quando saltávamos nos portos e vislumbrávamos belas vilas e urbes. Tanta gente diferente e misturada...
— Eu nunca vi o mar... — a garotinha suspirou, a imaginação a levava longe — do outro lado do mundo tem muita gente como você?
— Como assim?
— Ah, assim... — segurou um chumaço de fios alaranjados — com esses cabelos claros, esses olhos grandes e redondos...
— Oh! — deu um riso breve — Sim, a variedade é grande! Tem gente de cabelos claros e escuros, olhos de todas as cores e formatos, peles de várias tonalidades diferentes...
— E as roupas? — tocou uma rosa bordada na beira da saia da companheira recente.
— Existe todo o tipo de roupa que você possa imaginar... — sorriu terna e afagou a cabeça da pequena — Agora, está um pouco tarde para tanta conversa, não acha? A essa hora garotinhas deveriam estar sonhando! — apertou de leve o nariz delicado, rosando-o. Riram juntas.
— Acho que vou sonhar com esses castelos e com essas pessoas todas! — brincou ao se espreguiçar. Deitaria sobre o lombo rígido de Arurun, nunca se importou com isso, no entanto observou Annabelle ajeitar o vestido e oferecer-lhe o colo. Empolgada e comovida com o carinho, enrubesceu.
— Deite aqui, vou cantar uma cantiga de ninar das minhas terras para você.
— Obrigada, senhorita Anaberu Rosu. — ajeitou-se timidamente sobre as pernas esticadas e deitou-se de lado. A bochecha acomodada sobre a saia macia.
Então, a afagar os cabelos lisos e escuros da pequenina, a forasteira respirou fundo e deu início a seu humilde recital. Em tom suave e aveludado, entoou a canção, à capella¹, em perfeita afinação. Os olhos de Rin, sonolentos, teimaram, mas tombaram no fim. Jaken esboçou um sorriso abobalhado antes de adormecer – estava calmo.
Sesshoumaru ergueu o olhar à copa da árvore que parecia se balançar ao ritmo da música, depois fechou os olhos e apoiou a cabeça ao tronco. Atentou-se ao som da voz, aos ruídos das folhas caindo e ao assovio do vento melancólico. Desapressado, descolou as pálpebras e mirou a humana que acolhia a sua pequena Rin. Ainda que o vestido estivesse em retalhos, as fitas ao peito, os bordados nas extremidades e os tecidos requintados denunciavam-lhe a nobreza. A floresta estava escura, a chama da fogueira sucumbia pouco a pouco, no entanto o corpo da desconhecida brilhava sutilmente, circundado por lume ebúrneo.
Ao fim da última nota, Annabelle deixou de observar a criança adormecida para enfim encarar o daiyoukai que a analisava. Esperou-o falar alguma coisa, de repente fazer uma pergunta e nada veio. O silêncio era seu discurso.
— Pensei que tentaria me matar, como fez da outra vez. — então, ela deu início ao que esperaria ser uma conversa.
Sesshoumaru, antes com os orbes de ouro fixados em sua figura, virou o rosto para frente e fitou a escuridão da noite.
— Por que anda com uma criança humana se despreza a nossa raça? — mudou de assunto.
Nada, nem um sussurro sequer. Annabelle bufou e resolveu mudar a abordagem:
— Como é tagarela! Será que você não pode parar de falar nem por um segundo? — e riu depois, com o devido cuidado para não acordar a garotinha aninhada sobre suas pernas. Finalmente, o irmão de Inuyasha tornou a olhá-la sem emotividade.
— Você é a mulher de Naraku. — não foi um questionamento.
— O quê? Claro que não! — naquele instante fora tão espontânea que falou alto. Depois do breve ataque de histeria, cobriu a boca com as mãos e se fez imóvel, preocupada com o sono de Rin e de Jaken. Nenhum dos dois despertou — Não sou a mulher dele. — terminou em um murmúrio.
— O cheiro dele está impregnado em seu corpo. — disse naturalmente, quase como se fizesse pouco caso.
Sabia o que o youkai quisera dizer com a afirmação. Passou as mãos pelos braços feridos, abraçando a si mesma. Uma lembrança curta, como um feixe de luz, atarantou o cérebro confuso: ela, voraz, sentada sobre o corpo inerte do hanyou aranha. Annabelle murmurou um lamento e alisou o rosto empalidecido com as mãos nervosas.
— Ele a forçou? — ali sim, o youkai pareceu demonstrar um fio de curiosidade.
— Eu não sei... — admitiu em um sussurro atordoado — "não me lembro". — Você me traiu — rememorou as palavras ácidas de Hitomi e perguntou-se se estavam relacionadas a algo que ela fizera quando estava fora de si. Os céus de verão quiseram debulhar em tormenta, e ela os conteve bravamente. Primeiro, a recordação de que por pouco não ceifara a vida da irmã, agora se perguntava se finalmente dera a Naraku o que o algoz tanto queria e sua consciência latejava.
A quietude recaiu soberana uma vez mais, assim passaram a noite. A única vez em que Sesshoumaru dirigiu a palavra a Annabelle depois da conversa ligeira foi, quando ao passar das horas, percebeu que ela lutava contra o sono:
— Não se preocupe, mulher. Não tenho mais interesse em matá-la, durma.
A resposta da arruivada foi um riso seco. Ah, se ele soubesse o real motivo de sua relutância em dormir...
Sonhar era seu martírio. No entanto, a Rosa Branca era humana e em algum momento madrigal, seus olhos se renderam.
— Eu sabia que o encontraria... — o viu de costas, ereto e silente. Andou afoita até o rapaz e aproximou a mão de seu ombro. — Hitomi, eu sei que é você. — assim que o tocou, a roupa, bem como a pele local, se dissolveu e o efeito se espalhou gradativamente por todo o corpo do sujeito, até ele se desfazer em pó. Annabelle gritou aterrorizada, com as mãos sobre as maçãs pálidas.
— Nada, foi nisso que ele me transformou quando roubou a minha aparência – em nada. E você, sabendo disso, teve a coragem de se entregar para ele, você permitiu que ele a tocasse! Você se deitou com ele! — disse enojado.
— Hitomi, esse não é você! — falou convicta.
— Acontece que isso é o que restou de mim, Anaberu. Ou você achou que eu estaria em paz depois de tudo o que me aconteceu?
— Você não é essa pessoa amarga, isso é minha imaginação! — insistiu.
— Não ouse me tratar como uma miragem!Como pôde se apaixonar por meu assassino?! — e a voz dele ganhou volume e peso, ecoando por todos os lados, encurralando-a — Você era minha, Anaberu! — os rosnados embargaram. A essência do humano chorava.
— Então era assim que você me via, como uma posse sua? — engoliu em seco — Será que algum dia eu realmente conheci você, my lord?
— Desculpe-me por não ser o homem perfeito que você idealizou... eu era apenas um humano, me mantive forte por você até onde pude, mas não posso simplesmente me conformar de terem me roubado a vida no auge, e agora o mesmo sujeito quer me roubar outra vez, tirar de mim a minha linda noiva... — uma brisa fria afagou o rosto da escocesa.
— Me perdoe, Hitomi... nós dois somos humanos, e não somos bons em manter o controle. Eu não escolhi nada disso.. — conteve as lágrimas à beira dos cílios enquanto pôde.
— Minta para si mesma, é mais fácil. — ele afirmou desgostoso — Tudo na vida é uma questão de escolha, e se eu tivesse escolhido ouvi-la talvez hoje eu fosse o homem a dividir a cama com você. Eu teria sido o primeiro a tocá-la, a amá-la... mas ele foi astuto, não é verdade? Até mesmo sua memória mais querida comigo, foi ele quem proporcionou. Eu escolhi confiar em Naraku, e a perdi para ele.
— Pare com isso! — a jovem começou a perder a compostura.
— Sabe, eu acho que nem tudo que ele me disse foi falacioso. Em algo ele tinha razão sobre você, Anaberu.
— Não é você, é esse maldito fragmento, não é?! — o interrompeu.
— Você é muito atraente, sua peculiaridade é hipnotizante, eu não pude evitar me aproximar... mas essa peculiaridade a faz perigosa. Você atraiu o mal quando chamou a atenção daquela criatura na floresta, no dia em que curou a minha perna. — o espírito não se importou com a intervenção e prosseguiu.
— Criatura? — lembrou-se do ser a espreitá-la por trás da moita, no entanto tinha certeza de nunca ter mencionado esse evento a Hitomi.
— Naraku, foi você quem o atraiu ao castelo.
Antes de o sol raiar e abençoar as terras com o seu calor, o sujeito mascarado de babuíno já caminhava a arrastar sua clara manta pela grama. Adiante, encostada ao tronco tomado por musgo, uma sacerdotisa mantinha os olhos de graúna¹ cerrados e os braços cruzados, evidenciando a despreocupação.
— Naraku... — então, as esferas negras mostraram-se, pouco a pouco, vazias como de costume — Faz tempo que não o sinto por perto, o que andou fazendo?
— Não finja que não sabe, — os rubis cravaram-se na figura, cintilantes por baixo da máscara esverdeada — eu sei que esteve lá. — referia-se aos eventos recentes, quando Ailyn e Annabelle confrontaram-se — Sei que ajudou a sua reencarnação a chegar até mim. — uma sobrancelha se ergueu, desconfiada.
— Por que veio me procurar agora? Se não o conhecesse bem, diria que me esqueceu. — ah, sim, Kikyou tinha que ser desafiadora.
O ser costumeiramente provocativo selou os lábios e, ligeiramente afoito, se achegou. O ar de superioridade da vida passada de Kagome se diluiu no exato instante.
"O que ele está fazendo?" — havia um detalhe, por mais ínfimo que fosse, estranho naqueles olhos de sangue. O mistério teria arrepiado cada parte do corpo da sacerdotisa, teria surrupiado suspiros amedrontados da alma – se ela não fosse feita de barro. Conforme os pés de Naraku moviam-se para frente, os da morta-viva arredavam para trás — O que é isso, Naraku? — rosnou quase sussurrado.
— Está com medo? — um riso se formou nos lábios vis. As costas dela atritaram-se no tronco onde antes repousavam.
— Não seja ridículo, você sabe que não pode me ferir. — mirou-o intensa, mas não tão destemida assim.
— Estou farto de sua arrogância, Kikyou. — Encurralou-a com os dois braços, olhos cravados na figura de um amor tão antigo quanto sua própria existência — "O que estou fazendo aqui?" — repentino amargor quase gelou seu abdome conforme os olhos percorriam a figura frígida composta por argila. No semblante dela, o rancor transbordava concreto a ponto de Naraku quase sentir o cheiro.
— Afaste-se de mim. — ordenou tremente e enojada, compreendia a razão da visita. Não, o objeto de seu ódio não viera para matá-la, ele procurava por algo muito diferente – e sujo.
— Ou o quê? Acha que pode acabar comigo agora, sozinha? — riu brevemente.
— Há algo de diferente em você... — comentou a analisá-lo — posso dizer veemente que diante de mim não está o Naraku de tempos atrás. — e então, um riso escapou.
— Qual é a graça? — os dedos afundaram-se na madeira, arrancando lascas.
— Você está desesperado, não é mesmo? — tornou a fitá-lo impetuosa — Não conseguiu se manter distante. Você tenta com ardor, só que sempre se rende no final. — as unhas arrastando-se no tronco logo atrás não a intimidaram — O seu coração bate por mim, não pode escapar da sua humanidade.
— Desgraçada... — os dentes rangeram durante o sibilo, as mãos furiosas seguraram o rosto frio da sacerdotisa, arrebatadoras.
— Solte-me! — Kikyou protestou enquanto tentava livrar-se do toque doentio — Você nunca me terá! — a aura emanou firme, as palmas de Naraku começaram a queimar e mesmo assim as mãos não saíram de onde estavam.
A máscara que cobria a face exasperada caiu com a ajuda de alguns tentáculos originados dos ombros. Assim, as feições dele estiveram ainda mais transparecidas. O belo hanyou, naquele instante, era composto por confusão, luxúria e desgosto. A vislumbrar a mulher pálida, desejou que o negrume de seus cabelos fosse agraciado pelas chamas alaranjadas, sonhou que o céu noturno nos orbes enojados pudesse se transmutar no ensolarado firmamento da tarde – azul e calmo – e por fim, almejou que o cheiro de terra fosse, em verdade, doce como o de uma rosa branca.
— Tsc! — visivelmente frustrado, largou-a displicentemente e se afastou sem dizer uma palavra.
— Como se atreve?! — enfim, roubara daquele poço de indiferença alguma reação. Kikyou berrou indignada depois de a mente processar o recente acontecido — Como se atreve, Naraku?!
Não respondeu, persistiu em tomar distância até desaparecer dentro da nuvem de miasma, deixando a sacerdotisa e a ele mesmo assombrados pelas dúvidas.
— Senhorita Anaberu, senhorita Anaberu! — a mãozinha sacudia-lhe o ombro. Os raios de sol incomodaram a vista quando os olhos atordoados se abriram.
— Já é tarde? — disse em tom de resmungo enquanto sentava-se sobre a terra. Percebeu o suor a melar o rosto e o enxugou com uma mão. Transpirava não pelo calor, e sim por ter desfrutado de mais um sonho desagradável. Sonho? Não, fora deveras real para ser chamado assim... — "Não quero pensar nisso agora" — fugia enquanto podia, porque no fundo sentia-se infernalmente culpada. Não foi no castelo sombrio que traíra o falecido Hitomi, sabia. Fora um dia antes, dentro de uma caverna. Doeu na alma reviver as gentilezas que, por razão alguma, dedicou ao hanyou enquanto a tempestade bradava no mundo afora. Antes que os pensamentos a consumissem, Annabelle buscou observar como estava o cenário à sua volta – o dragão e o Senhor das terras do oeste se ausentaram, deixando-a na companhia de Rin e Jaken. — Somos só nós agora?
— Daqui a pouco o senhor Sesshoumaru está de volta, não deve ter ido longe... — a garotinha sorriu amena.
— E, como sssempre, eu tenho que cuidar desssa pirralha! — o youkai verde reclamou, era rotina.
— Ainda é manhã e você já com esse mau humor? Vai morrer cedo, viu? — Annabelle teceu o comentário enquanto se levantava e batia na saia, desfazendo-se dos fios de grama grudados ao tecido encardido.
— Você essstá um trapo! — Jaken a fitou de cima a baixo.
— Bom, no vestido a gente dá um jeito, já na cara... — curvou-se à frente do pequeno, mantendo o olhar na altura do dele, estreitando as esferas celestes em análise jocosa.
— Ora, humana inútil, eu vou já te enssinar uma lição! — ultrajado, balançou os braços e sacolejou o cajado de madeira, mas seu projeto de discurso hostil foi completamente ignorado pelas duas garotas.
Rin puxou Annabelle pela mão e juntas caminharam rumo a um riacho não muito longe. Jaken as acompanhou aos pulos, contrariado como sempre. Assim que chegaram à beira do córrego, a estrangeira aproveitou para se limpar. Despiu-se despreocupada e jogou água corrente sobre os cabelos e na pele. Notou que os cortes nos braços e na cintura estavam quase cicatrizados e estranhou a rapidez da cura. Então, lembrou-se de que dentro de seu peito jazia um fragmento da joia e ele deveria ser a causa da cicatrização veloz. Aturdia-lhe as ideias não se lembrar de como o conflito do dia passado começara, a única memória vívida que tinha era de quase ter matado a própria irmã a mando de Naraku.
"Ele quase conseguiu me controlar" — estava aterrorizada por tamanha sordidez num sujeito, e o remorso persistia a atormentá-la, pois concordava com Hitomi que se as coisas chegaram àquele ponto foi por ela ser permissiva. Tudo porque se deixara seduzir dentro daquela gruta, porque se permitira acreditar na tênue luz dentro da vasta escuridão que compunha Naraku...
A menininha ao lado, brincava de jogar água pelos ares. A Rosa Branca atentou-se às feições alegres e inocentes, os pezinhos chutando gotículas ao longe e sentiu saudades de uma época longínqua – sua própria infância.
"O que me custa aproveitar esse momento?" — No lugar dos cabelos negros e lisos, Annabelle vislumbrou os cachos dourados e suspirou, voltando seus pensamentos ao instante lúdico.
Aproveitou-se da distração da criança para jogar-lhe um pequeno jato de água, molhando-lhe a bochecha. Surpresa, a garotinha riu e revidou o "ataque". Quando deram por si, estavam rindo e imersas dentro do raso riacho, agitando as águas. Jaken as observava por trás de uma árvore. Deparar-se com a nudez de uma humana adulta o ruborizava e agitava seu coraçãozinho de réptil.
"E essssa agora, ter que ficar tomando conta de uma criança e de uma mulher!" — cruzou os braços e se escorou no tronco da macieira.
Depois de minutos de brincadeira intensa, as duas se vestiram e aproximaram-se da árvore. Os olhos de Rin brilharam de vontade ao se fixarem em uma maçã avermelhada, pendurada em um galho. Annabelle viu a pequenina se aproximar, subir em uma raiz, esticar o braço e tentar alcançar a fruta. Riu discretamente da falta de jeito da pequerrucha e se aproximou, o fruto estava alto mesmo para ela.
— Quer ver uma coisa curiosa? — perguntou à nova cúmplice e recebeu o consentimento com um aceno animado de cabeça — Deixe-me subir aqui. — pediu permissão para ficar de pé sobre a raiz, Rin desceu para dar-lhe espaço. Assim, o lume albugíneo se formou ao redor da silhueta e a larga estirpe ganhou vida, movendo-se ao bel prazer de Annabelle, bem como o galho que continha a maçã pendurada entre as folhas.
Enquanto a raiz erguia consigo a forasteira, o alto galho curvou-se de modo que a maçã se encaixasse perfeitamente na palma da mulher dos cabelos de fogo. Feito isso, tudo voltou a seu devido lugar e a jovenzinha pairou sobre a terra.
— Tome! — jogou o pomo suculento ao alcance de Rin.
— Isso foi incrível, senhorita Anaberu! — agarrou-o com as duas mãos e não tardou a tascar-lhe uma dentada.
— Sssenhor Sessssshoumaru, finalmente! — o fiel servo, até então entretido com a breve cena, pulou afoito e correu até seu mestre.
Ele estava logo adiante, abençoado pela costumeira serenidade recoberta por mistério. Os orbes preciosos testemunharam o ato da descendente dos druidas e esboçaram singelo brilho.
O sorriso de Annabelle se fechou. De algum modo inexplicável, ela se sentia vulnerável ao tê-lo por perto. Sentia-se subjugada à sua frieza. Seria possível aqueles olhos áureos transformarem-na em pedra se fixasse sua atenção dentro deles por mais de cinco segundos? Resolveu não se permitir intimidar e encarou-o com a mesma intensidade. Notou a sobrancelha reta levantar-se milímetros. Oh, então a face dele possua diferentes nuances, ainda que quase imperceptíveis? – soltou um riso, intrigando-o.
— Pequena Rin, é hora de me despedir de vocês... — rompeu a falsa calmaria e tocou os ombros da miúda.
— Poxa, mas já? — a garotinha se entristeceu — Fique mais um pouco, senhorita.
— Eu disse que passaria a noite, lembra? Agora preciso ir... — suspirou pesarosa.
— E para onde vai? — a voz do sujeito a surpreendeu. Anna enlevou os olhos à figura magnânima que não a perdia de vista e a princípio não se pronunciou.
— O sssssenhor Ssssessshoumaru fez uma pergunta, mulher! — Jaken se ofendeu em nome de seu mestre.
— Eu não sei, para algum lugar longe, muito longe daqui... — deu resposta tão vaga quanto seus céus arredondados estavam.
— Não poderá fugir para sempre. — o daiyoukai decretou.
— Eu sei que em algum momento ele vai me encontrar, mas se eu puder adiar isso... — começara a se explicar sem se dar conta.
— Não pode. — e então, Sesshoumaru ergueu seus olhos à copa de uma árvore alta a poucos metros da macieira.
— Hu, hu, hu, hu. — o riso ecoou pela floresta. Os olhos de Annabelle arregalaram-se e as bochechas perderam a cor.
"Outra vez não pude senti-lo por perto?!" — virou-se de frente para o salgueiro e avistou o Babuíno Branco afastar as largas cortinas esverdeadas para brindá-la com sua presença.
— Sesshoumaru, parece que você encontrou algo meu. Obrigado por cuidar dela para mim, mas sinto que essa é a hora de levá-la ao lugar ao qual pertence. — disse provocativo.
— Eu não vou a lugar algum em sua companhia! — endureceu-se dos cabelos aos dedos dos pés, a cortina branca a abençoou com intensa luminosidade.
Por baixo da manta branca, tentáculos encorpados e amarronzados se formaram e endereçaram-se velozes a seu alvo – a ocidental – e ela escapou em um salto. As folhas, descidas em cascatas, contiveram os braços do babuíno e começaram a açoitá-lo.
— Espera mesmo me impedir apenas com isso? — Naraku disse aos risos enquanto livrava-se das plantas sem muito esforço.
— Senhorita Anaberu! — a garotinha gritou aflita, chamando a atenção do oponente de Annabelle.
— Rin, fique atrás de mim. — Sesshoumaru ordenou em tom de seriedade aquém de seu padrão. A mão cobriu o cabo de uma das espadas à cintura.
O sujeito mascarado saltou de cima da árvore e aterrissou sobre a grama, provocando sutil fumaça de terra. Seus tentáculos impiedosos tentaram interceptar a vítima uma vez mais. A camada esbranquiçada não a protegeria para sempre e em dado instante os braços, as pernas e o pescoço finalmente foram enlaçados. Os pés, fincados no solo, trouxeram consigo o musgo e formaram caminhos por onde foram arrastados.
— Tire-os daqui! — bradou, vidrada no irmão de Inuyasha. Referia-se à menina e ao pequeno youkai.
O riso grave e tortuoso parecia vir de dentro dos ouvidos, ecoava em seu interior, balançando as hastes que compunham seu juízo. Estava cada vez mais perto dele e do perigo que ela própria se tornava ao se render às fantasias que alimentava pelo hanyou. Gritou consternada, chacoalhou-se como o animal acuado que era. E então, tal qual um raio certeiro, a lâmina de Toukijin cortou aquele Babuíno ao meio. O corpo de Annabelle tombou para o lado, afundando-se no úmido e granulado chão. A vista embaçada discerniu as formas claras do esbelto youkai a pairar sobre uma pedra. Depois de piscar vezes seguidas e recuperar o foco da visão, notou uma espécie de boneco de madeira dividido em dois, adornado por um fio de cabelo negro. Arrastou-se até o objeto, pegou as duas partes nas mãos e analisou-o na tentativa de entender o que era. O súdito esverdeado do youkai branco revelou, todavia:
— Uma marionete, como ssssempre o covarde não dá as carasss porque sabe não ssser páreo para o Ssssenhor Ssssseshoumaru. — ligeiro, assim que o mal fora cortado pela raiz, Jaken recuperara a confiança e a pose.
— Você me salvou, obrigada... — atordoada, voltou suas atenções ao sujeito que se aproximava em passos calmos, já com o gládio embainhado.
— Ninguém diz a Este Sesshoumaru o que fazer. — assim que passou ao lado dela, mirou-a e apontou em tom aborrecido.
Annabelle arregalou os olhos arredondados e riu discreta.
"Como é orgulhoso" — pensou. Mesmo assim, continuava agradecida por ser salva das garras de Naraku, não importava se o motivo do ato de heroísmo fosse resguardar a vaidade daquele ser tão "supremo".
Repentinamente, uma queimação infernal no peito a fez curvar-se para frente e encolher o corpo. Ouviu a voz de Rin dizer alguma coisa em tom desesperado. Os orbes, a contragosto, cerraram-se e quando deu por si, Annabelle desfalecera.
"Pensa que pode fugir de mim?" — Naraku, envolvido pela energia sinistra latente, franzia o cenho e fechava os punhos — "Enquanto o fragmento estiver dentro de seu peito, você estará sob meu domínio, Annabelle" — mirou-a através do espelho de Kanna, caída sobre a grama negligentemente, os cabelos cobrindo um pedaço do rosto sofrido. Sorriu discreto, mas por pouco tempo. Viu Sesshoumaru se aproximar e se havia sangue em seu corpo, o fluido borbulhou — "O que ele está fazendo?" — a garotinha suplicava para o daiyoukai não deixar a mulher desamparada.
— Senhor Sesshoumaru, por favor, não a deixe nesse estado! A floresta é perigosa, e ela é só uma garota indefesa! — Rin ajoelhou-se diante dele humildemente e insistiu — Ela tentou nos proteger...
— Rin, não ssseja inconveniente! O sssenhor Sssseshoumaru não tem a menor obrigação de... Sssenhor Ssssessshoumaru? — Jaken perdeu o fôlego e a vontade de espinafrar quando viu seu mestre se aproximar da jovem desmaiada.
Silente, caminhou e cessou o andar ao estar perante a criatura entre os fios de relva, vulnerável. Mirou-a concentrado às nuances: a boca entreaberta, a respiração pesada, os dedos das mãos levemente retraídos e o pingente lunar a refletir a luz do sol vespertino, cada detalhe que a fazia delicada e cândida.
Brando, Sesshoumaru abaixou-se, e depois de cravar os olhos na highlander adormecida por uma última vez, tomou-a no braço com cuidado.
— Senhor Sesshoumaru! — Rin uniu as mãozinhas ao peito e saltitou alegre, os olhos amendoados cintilavam gratidão. Jaken, por sua vez, se deu o direito apenas de suspirar longamente e baixar a cabeça em triste conformismo.
— Vamos. — ele disse, e foi só. Andou a frente dos dois companheiros leais com Annabelle sob sua proteção, os preciosos globos dourados fitavam a trilha adiante. Chegando ao dragão de duas cabeças, depositou o corpo desacordado cuidadosamente sobre o lombo escamoso.
"O ar está pesado" — Kagura percebeu. Era difícil enxergar além do corredor escuro, a nuvem arroxeada dispersava-se entre as paredes encardidas, e quanto mais próxima a mestra dos ventos estava do quarto de seu criador, mais densa era a quantidade de energia sinistra emanada. Um humano comum não aguentaria segundos naquele ambiente hostil. Ela riu, no entanto, para lá de satisfeita. — Ele está furioso... — ajuntou prazerosa.
"O momento está chegando, não tenho como adiar..." — lembrou-se de sua detestável natureza. O dia em que sua forma original se mostrava não poderia mais ser adiado. Ele o escolhia, de certo, porém o mês estava quase no fim e Naraku não tinha separado o tempo propício para esse contratempo. O fato de ter que se abster justo no instante em que a sua presa estava nas mãos de outro predador só piorava as condições de seu humor. — Kagura! — sua voz irritadiça ecoou por cada canto daquela ala do castelo. Contrariada, a serva deu as caras no aposento assombroso.
— Sim, meu mestre? — o deboche no modo de tratamento era mais do que óbvio. Naraku fingiu ignorar, pois julgava mais importante dar o comando, sem rodeios:
— Eu quero que vigie o grupo de Sesshoumaru.
— O quê?! — ela se alterou.
— Eu disse, vigie-os. — falou pausadamente, didático o suficiente.
— Mas eu é que não vou me meter com ele! — Kagura apontou a imagem de Sesshoumaru no espelho — Ele vai me matar!
— Kagura, isso não é um pedido. — disse em tom de aviso.
— Não é a Sesshoumaru ou seus lacaios que me quer vigiando, sei bem! — o gênio da youkai era incontrolável.
— Kagura, ouça bem, — fitou-a zangado — não é a Sesshoumaru que deve temer, ou já se esqueceu? — na palma da mão direita a esfera pulsante se materializou. A youkai perdeu o viço no mesmo instante — Uma vez você tentou me trair, não faz muito tempo... Digamos que estou lhe dando uma chance de me provar a sua lealdade... Então, o que você tem que fazer mesmo?
— Vigiar Sesshoumaru e seu grupo.
— Muito bem.
Engoliu seco, apavorada, sentia as pernas tremerem por baixo do quimono. Sabia que confrontar Sesshoumaru seria o mesmo que entregar seu espírito nas mãos da morte. Como aquele youkai era forte! Uma pena não ter aceitado a tarefa de ceifar a vida de Naraku e libertá-la das correntes...
A lua despontava no céu, contornada por estrelas luminosas. Annabelle abriu os olhos em tempo para admirar o espetáculo que era o céu noturno e se ver livre de mais um entre tantos pesadelos.
Sentiu a superfície em que estava se mover, ajeitando-se. Era Arurun deitando-se sobre o capim. O campo era extenso e plano, sem muitas árvores para escondê-los. Em que perímetro estariam? Sentia-se perdida.
Não tão longe, Rin dançava ao redor de Jaken, cantarolando uma melodia engraçadinha, fazendo rimas divertidas com o nome do pequenino e tirando-o do sério. Sesshoumaru, por outro lado, estava fora de vista, mas não por muito tempo...
Ao prestar atenção no firmamento, a moçoila notou uma luz a se mover. A princípio, pensou ser uma estrela cadente. Conforme o lume se aproximava, Annabelle se deu conta de que ele era, na verdade, o daiyoukai a caminhar sobre os ares, deixando um rastro claro e iluminado para trás.
— Enfim, acordou. — ele disse ao parar diante dela, ainda de pé sobre o nada, em seu único braço carregava um pacote grande, jogou-o ao alcance da jovem arruivada.
— É para mim? — surpresa, perguntou.
Sesshoumaru acenou um "sim" com a cabeça secamente e se afastou. Rin e Jaken notaram sua presença e vieram cumprimentá-lo. Em seguida, a criança alegre deu um grande "boa-noite" à Rosa Branca, feliz por vê-la bem.
Cautelosa, Annabelle desfez a fita que fechava o pacote e abriu o papel, deparando-se com um traje tradicional daquelas terras – um quimono fabricado em tecido nobre, estampado em azul-claro e branco como se representasse um céu diurno, a faixa, por sua vez, era de um tom de rosa semelhante ao das pétalas de flor de cerejeira, ao passar a mão pelos panos ela sentiu a maciez e sorriu.
— Obrigada... — murmurou, comovida.
Qualquer traço de gentileza se extinguiu por ali. Sesshoumaru caminhou para longe, provido de sua constante mudez, deixando-a a sorrir abraçada ao presente.
— Combina com seus olhos, senhorita Anaberu... — Rin subiu no corpo de Arurun, sentou-se de frente para a outra mocinha e afagou o quimono também.
"Ai, ai, ai, aonde será que o ssssenhor Sesssshoumaru está indo?" — Jaken se perguntava ao ver o mestre se afastar.
— Eu posso contar uma coisa para a senhorita? — levemente acanhada, ela perguntou e recebeu um aceno positivo da estrangeira, incentivando-a a prosseguir. Assim o fez: — Estou feliz por ter outra garota além de mim no grupo. O Senhor Sesshoumaru é maravilhoso comigo, também gosto muito do senhor Jaken, mas eu sentia falta disso...
— Disso o que, pequena Rin? — perguntou enquanto ajeitava a franja da menina.
— Desse tipo de carinho, não sei explicar direito... É como se eu tivesse uma mãe outra vez. —os orbes cintilaram ternura, bem como o fino sorriso ainda embaraçado.
"Acho que não tem problema eu ficar com eles por enquanto" — Comovida, Annabelle pensou aos suspiros, preenchida por leveza. A beleza da vida se estampava no olhar daquela criança a olhá-la terna, na noite estrelada, e nas pequenas coisas – como um gesto caro vindo do mais inusitado dos sujeitos. — Ei, você me ajuda a vestir? Eu nunca usei uma roupa assim... — pediu animada à garotinha. — Aqueles momentos de descontração a distraiam do terror na hora de dormir.
— Mas é claro! — bateu algumas palmas e ao sinal de Annabelle, foram para o outro lado do corpo de Arurun e trataram de pôr as mãos à obra.
— Você... — afastado do grupo, Sesshoumaru encontrou-se com a cria rebelde de Naraku.
Os olhos escarlates continham nas órbitas o brilho de admiração e um apelo que escapava do coração – onde quer que ele estivesse. Se a liberdade tivesse um nome ou uma forma física, seria ele – acreditava. Uma palavra daquele youkai e ela jamais precisaria cumprir ordens outra vez. No entanto, Kagura já o interceptara numa outra noite como aquela, e a resposta certeira da criatura magnífica a frustrou mais do que qualquer decepção vivida desde o início de sua mísera existência. Desde então, a Mestra dos Ventos andava em corda bamba, tendo cada passo devidamente vigiado por Naraku. Não seria tola de repetir a gafe...
— Ele a mandou aqui? — notando-a arisca, ele perguntou como quem não queria nada. Sequer a fitava, mirava o infindo mar de estrelas.
Kagura não respondeu de pronto, pois estava absorta na imagem da perfeição – na brancura que contrastava com o breu. Que sorte possuir uma visão não humana – ela pensou – para poder se perder na admiração que sentia.
— O que Naraku viu de tão interessante nessa mulher, me pergunto, — Sesshoumaru comentou — para enviar você aqui? Eu quase sinto o cheiro do desespero dele. — a voz aveludada se arrastou enquanto o youkai fazia as indagações.
— E você? — a pergunta o fez arquear sutilmente uma das sobrancelhas. O olhar fulminante a petrificou brevemente, porém Kagura tinha o costume de afrontar, e a curiosidade mesclada ao ciúme serviu de combustível para que prosseguisse a questão: — Não está interessado nela? — o desdém, se pudesse se transformar em veneno, escorreria pelo canto da boca rubra.
Ele não se deu o trabalho de responder, mirou-a de cima a baixo sem um traço de emoção no semblante, virou as costas e iniciou os passos da retirada. Não sem antes, porém, pronunciar os seguintes dizeres:
— Diga a Naraku que se ele quiser que venha buscar a mulher. Isso não é problema meu. — e assim Sesshoumaru caminhou para longe, deixando-a atordoada.
— Sacerdotisa Kikyou, então é você... — uma sombra surgiu de dentro da mata.
A mulher, resguardada pela densa mata e alumiada pelos espectros trazidos por suas serpentes, volveu o olhar aos céus, pacata, quase melancólica.
— E você quem seria? — perguntou-se interessada.
— A minha identidade pouco importa, fico feliz por conhecê-la. Ouvi muito sobre você, — os olhos azuis cintilaram por baixo da mortalha. — confesso que ao vê-la posso entender porque Naraku um dia foi louco por você.
— O que está insinuando? — ergueu uma das negras sobrancelhas, curiosa.
— Você é bonita, sim... Forte? Talvez. Mas não se compara à minha irmã. — riu amarga.
— Irmã? — perguntaria de quem a outra criatura falava, e eis que de súbito a lembrança de uma jovem de cabelos alaranjados a trocar carícias salientes com o araneídeo veio à tona — Você é irmã daquela garota... Foi você quem provocou aquela névoa de almas atormentadas, lembro-me de vocês duas a se enfrentarem, e se não me engano você perdeu a batalha.
— Annabelle, sim, ninguém pode com ela. Eu já aceitei minha derrota... e você, aceita a sua? — perguntou provocativa.
Kikyou, enfim, deixou o céu de lado e virou-se para a outra mulher. Encarou-a intrigada, tentava compreender aonde a gêmea de Annabelle queria chegar com aquela conversa estranha. Sentia-se dissecada pelo olhar de Ailyn.
— Eu não deveria estar aqui, mas a curiosidade de saber quem era a tal humana que roubou o coração de Naraku certa vez me fez tomar essa atitude impensada. — Rodeou-a — Sabe, eu planejava me vingar daquele imundo mandando-a de volta para o inferno, mas acho que isso seria um favor e nada mais. — enfim, respondeu os questionamentos da sacerdotisa. Kikyou, sentindo-se hostilizada, puxou o arco de suas costas e encaixou uma flecha na corda — Ah, querida, não perca o seu tempo. A ideia de matá-la nem durou tanto assim, perdi o interesse de imediato. Não sou do tipo que suja as mãos à toa. Acredite, não é a mim quem deve temer.
— Diga logo, o que quer?! — atirou uma seta de aviso, passou ao lado do rosto da desconhecida.
Quando o riso se findou, a névoa esverdeada cobriu o corpo da encapuzada e fê-lo sumir, como se nunca sua presença passara por lá. Kikyou permaneceu a apontar a flecha naquela direção por mais um tempo, atordoada. Nada naquele encontro fizera sentido de início, até que a bela donzela esculpida em barro começou a juntar os pontos:
"Há algum tempo, não sentia a presença de Naraku a minha volta... e hoje, mais cedo, aquele encontro foi muito esquisito. Era como se apenas o corpo dele estivesse a minha frente, mas a mente vagava longe, provavelmente perdida naquela mulher." — Kikyou observou atribulada — "O coração de Onigumo é o único trunfo que tenho em mãos para que eu possa cumprir meu propósito, não posso deixar que ninguém me tome isso" — fechou as mãos e atentou-se ao céu notívago — "Eu não queria que as coisas chegassem a esse ponto, mas apenas uma de nós pode existir" — iniciou os passos rumo ao seu novo objetivo. Carregava o arco e as flechas às costas.
Continua...
É gente, o cerco está se fechando entre Annabelle e Kikyou.
Sei que muitos de vocês odiarão a Kiks por essa postura, mas não vejo modo de ela se portar diferente, não nessa fase do enredo. Ela ainda está naquela vibe de ser meio pau no c*, para mim a Kikyou só melhora depois que o Naraku muda de corpo e tenta matá-la, parece que ela fica um pouco mais "humilde". Posso estar equivocada, mas essa é minha interpretação da personagem. O que vocês acham?
Ah, e eu marquei a expressão "olhos de graúna", porque isso é uma citação de José de Alencar, é assim que ele descreve os olhos de Iracema, e eu acho que veio a calhar. ^^
Bem, espero que tenham gostado, o próximo, particularmente, me deu certo orgulhinho de escrever, mas talvez o Sesshy esteja um pouco OOC... Se bem que acho muito difícil um personagem como ele ser mantido fiel até o final (seria muito chato).
Kissuuuuus, meu povo! Uma ótima semana para vocês!
