Caramba, eu não acredito que deixei a fanfic atrasar TANTO no ffnet! (No Nyah nem se fala, aquilo lá está um cemitério '-')
Me perdoem, é que Teia de Mentiras está tendo um retorno tão lindo no AnimeSpirit que acabei dando prioridade em postar por lá... ^^'
Bem, antes de direcioná-los aos novos acontecimentos, gostaria de dizer a todos que há uma cena nesse capítulo que foi inspirada em algo que uma amiga minha escreveu. Explico melhor nas notas finais, só direi logo para quem foi: Pih, quando escrevi pensei em você e na sua versão da Rin, Yey! ^_^
É isso pessoal, o capítulo está grande, mas até que tem bastante coisa interessante.
Espero que gostem, boa leitura!
Capítulo 24 - Rivalidade
Depois de alguns instantes, Sesshoumaru retornou ao local onde seu pequeno grupo se reunia. Jaken bocejava escorado no grande dragão, Rin e Annabelle riam juntas de alguma piada recém-inventada. As garotas capinaram desajeitadamente um pequeno espaço para fazer uma fogueira sobre pedrinhas e tocos de madeira. O daiyoukai inferiu que o fiel e pequenino servo a acendera com o bastão de duas cabeças.
Enfim, ao vislumbrar as duas presenças femininas entretidas, parou um pouco distante, virou as costas e mirou o firmamento constelado. Os astros refletiram luminosos nas moedas doiradas e solenes. A escocesa cessou o riso assim que o viu – o vento jogava os cabelos alvos para o lado, em consonância com a pele tenra que o adornava – e pediu licença a companheira. Rin compreendeu que a jovem pretendia ter algum contato com seu senhor e acenou um "sim" recatado com a cabeça. Jaken, contrariado, bufou e rolou os olhos.
A escocesa das Terras Altas caminhou relutante até a figura ilustre. Antes que chegasse ao lado, ele virou a cabeça e a encarou. Annabelle nunca se considerou uma pessoa tímida, contudo os trejeitos do sujeito surrupiavam-lhe qualquer tentativa de um ato espontâneo. Quando deu por si, estava travada e ansiosa, unia as mãos por baixo das mangas do novo traje e enrolava os dedos uns nos outros. Respirou fundo, ainda assim, não perdeu de todo a ousadia e foi em frente. Parou de dar passos desairosos quando esteve à fronte dele, ali sim teve a coragem de erguer o rosto e fitá-lo nos olhos.
— Eu queria agradecê-lo, não só pela roupa... — mordeu o lábio inferior — "Céus, por que estou tão nervosa?" — pensou antes de prosseguir — mas por ter me trazido com vocês. — "Ufa, saiu!" — quase deixou um riso escapar, era incapaz de acreditar em si mesma dentro de tal situação.
— Hum. — rolou os olhos pela silhueta delicada, agraciada pelo quimono distinto — Ficou bem em você.
"Isso foi um elogio?" — arregalou os olhos e os piscou diversas vezes — "Acho que sim" — agradeceu com um sorriso tão curto quanto à duração de uma frase proferida pela boca dele.
— Aquela mulher veio me procurar, o meio-youkai não desistirá tão fácil. — pronunciou a "raça" de Naraku com desdém e tornou a focar-se no infindável firmamento.
— Ele nunca desistirá. — afirmou com aspereza, o semblante empalideceu e ela passou a olhar o alto capim a balançar agitado.
— Parece que Naraku a deseja fervorosamente. — aquilo nos lábios dele era um sorriso zombador? Era uma curvatura demasiadamente tênue para saber.
— Ele aprontou alguma para você também, por isso você tentou me matar daquela vez, para atingi-lo... — inferiu. Sesshoumaru não se pronunciou sobre o caso, então ela prosseguiu com a questão que martelava em sua cabeça desde o início da peregrinação com o trio: — Por que me trouxe consigo? — precisou respirar devagar antes de fazer a pergunta, as mãos se apertaram levemente suadas à altura do ventre.
Sesshoumaru virou o rosto plácido na direção onde a pequena humana estava sentada a cutucar, brincalhona, o youkaizinho com um pedaço de capim. Aquele gesto do daiyoukai respondeu a dúvida por si só.
— Ela é uma menina muito especial, você tem sorte... — enfim, qualquer traço de desassossego se desfez e Annabelle sorriu preenchida de ternura.
Os orbes áureos afunilaram-se discretos, cintilando o zelo. Rin, para lá de sensitiva, girou o corpo na direção deles e acenou, chamando Annabelle de volta ao "ninho".
— Com licença, my lord. — reverenciou-o.
— Seus sapatos. — ele observou antes de ela partir.
— Ah, sim... — mirou os próprios pés, ainda guardados dentro das botas de sempre — Não consegui me adaptar a aquele tipo de calçado, — referia-se às sandálias — parece que meus pés ficam escorregando dentro das tiras. — e soltou um riso, quebrando as cerimônias.
Trocaram olhares pela última vez, ele sisudo como de costume, a dama dos cabelos acobreados, contente. E assim, a Rosa Branca voltou ao ponto de origem – sentada ao redor da fogueira com a garotinha tão amistosa.
Os risos perduraram por horas a fio, até um Jaken muito mal humorado cruzar os braços e chamar a atenção da nova parceira de jornada:
— Ei, humana! Você não vai cantar?
— Quer que eu cante para você dormir?! — não conseguiu conter uma risada de espanto.
— Ora, claro que não! — sacudiu os bracinhos, a face verdoenga adquiriu tonalidade rosada — É para ver ssse fazzz essssa menina dormir!
— Hum, sei... — ela sorriu astuta enquanto Rin ria sem se importar com o constrangimento do "cara de sapo". — Está bem, eu canto para você. — Deu um tapa ameno no chapeuzinho dele, amassando-o de leve.
— Ei! — Jaken ajeitou o acessório – Humpf! Acho muito bom. — desajustado, quase escorregou ao tentar subir no lombo de Arurun. Annabelle ofereceu ajuda, e o youkai orgulhoso negou. Com certo esforço, subiu no corpo escamoso e deitou-se virado para o outro lado.
— Senhorita Anaberu... — Rin segurou um trecho da manga do quimono e balançou-o singelamente — será que eu poderia me deitar em seu colo, como na noite passada?
— Mas é claro que pode, pequena! Venha aqui... — ajeitou as costas nas costelas do grande dragão e abriu os braços. Assim que a menina deitou sobre suas pernas, a escocesa escolheu outra canção gaélica e a entoou, foi quando o daiyoukai distante resolveu se aproximar e sentar do outro lado da fogueira.
Jaken aproveitou estar virado ao lado oposto para sorrir abobalhado e suspirar, como um bebezinho sonolento. O sono abraçou singelo não só o pequeno vassalo esverdeado, como também a amável garotinha e, novamente, eram ele e ela despertos, contemplando o céu pincelado de constelações. Vez ou outra o youkai a analisava com aqueles orbes invernais e Annabelle mantinha-se firme como uma rocha, ainda que seu interior tiritasse. O que ele estaria pensando? E ela se importava? A noite era a hora dos questionamentos, perguntava-se inclusive qual seria o intuito de seguir aquele grupo. Tomara a decisão de se agregar em um momento de temor, nada poderia ser pior do que estar atada à teia de Naraku outra vez, mas acompanhar Sesshoumaru e seus leais "escudeiros" era saga temporária, tinha plena ciência disso. Precisava se distanciar do predador com segurança, e o irmão de Inuyasha certamente era mais poderoso do que Naraku, a ponto de o hanyou não se atrever dar as caras e mandar uma marionete buscá-la.
"Não, não é só isso..." — lembrou-se da flecha acertando-o e o coração pareceu estancar. Rija, suspendeu a face aos céus e os olhos arregalados testemunharam os orbes celestiais girarem, misturando-se, criando imagens abstratas — "No fim das contas, eu estou preocupada com aquele bastardo" — comprimiu os lábios de raiva e remorso — "Annabelle, como é estúpida! Ele não se importa..." — ah, mas não tinha certeza! Memórias escondidas pulsaram arrebatadoras e desordenadas: Naraku a se aproximar, ela caída ao chão, a mão carrascal depositando o fragmento em seu peito, e então, a mente dela escapava para certo dia de chuva, quando a mesma desprezível criatura a levou a uma gruta e espantou-lhe o frio. De repente, frases emblemáticas ressoavam das lembranças, quase como um sopro. Não saía de sua cabeça algo que Annabelle estava quase certa de ter ouvido, e ainda assim tinha medo de se confundir com um sonho:
Nunca vi e nunca verei nada igual a você. — os dedos perpassavam por suas madeixas alaranjadas e enroscavam-se nas ondas, depois escorriam pelos fios, trançando a larga mecha que se esparramava pelo peito afoito dela. Os olhos avermelhados, dantes turvos como toda a recordação o era, tomaram a forma entristecida, trêmula. A escuridão derramada das esferas de sangue não era desenhada em ódio ou sadismo, mas em pesar.
O coração da escocesa palpitou em frenesi, despertando a curiosidade de Sesshoumaru. Se a pobrezinha reparou? De forma alguma, ela simplesmente não enxergava o que acontecia a sua volta, todo o ser atordoado prendia-se ao vislumbre da reminiscência: ele não saía de seus pensamentos, sua obsessão por Naraku alcançava tal patamar que superava o encanto do fragmento amaldiçoado cravado na carne e resgatava o que deveria estar esquecido.
Lembrou-se do nariz arrebitado esfregar-se no seu com sutileza, podia sentir o ar escapar da boca dele e adentrar a sua, cálido. E, quando as bocas quase se uniam em uma, rememorou-o dizer o que mais lhe era caro e odioso:
Você provavelmente não se lembrará de nada disso daqui a alguns minutos, então não vejo por que esconder, você mexe com meus sentidos, tão ou mais do que Kikyou — e foi a perdição, preferiria esquecer aquela revelação para sempre, desejaria não ter sentido o espírito esquentar como se estivesse em chamas, pois a certeza de que o descendente de Onigumo estava caído apenas por Kikyou fora dizimada. Annabelle foi consumida pela dúvida, pela raiva e pela vontade de reencontrá-lo.
"Isso só pode ser coisa desse fragmento!" — passou os dedos na pele por cima do caco amaldiçoado e começou a arranhar no intuito de abrir uma fenda e tirá-lo de lá. Uma breve descarga de energia, quase imperceptível, fez sua mão se afastar. A jovem bufou e persistiu, as unhas partiram a roçar suas pontas na maciez, provocando um corte superficial. As turquesas mantinham-se hipnotizadas, voltadas ao céu de uma noite esplêndida.
Uma mão conteve seu pulso com rigidez.
Annabelle volveu a atenção ao daiyoukai sentado ao seu lado e estremeceu. Como fora parar ali tão rápido? A interrogação refletiu em seu olhar pasmado.
— Está se ferindo. — desenrolou os dedos do delicado carpo vagarosamente. Orbes âmbares cravados na expressão atônita da humana.
Ela baixou o olhar ao busto avermelhado e levemente lascado, os braços penderam derrotados sobre a grama enquanto o órgão vital retomava o ritmo habitual. Sesshoumaru focou-se na garotinha que dormia tranquilamente ao colo quente e pareceu aliviado por ela não ter acordado. Visto que tudo estava em ordem, ele se levantou e endereçou os passos ao outro lado do pequeno fogaréu, onde se sentou e manteve a guarda.
Annabelle passou a palma sobre o leve corte, quase não sangrava. Os olhos se fecharam e a nuca acomodou-se no couro reptiliano de Arurun. Lutou contra o sono bravamente, não desejava reencontrar Hitomi nos sonhos e lembrar-se da culpa. Testemunhou o nascer do sol com o youkai branco, sentia-se analisada a cada suspiro.
— Para onde estamos indo? — elaperguntou reticente. Antes de qualquer resposta ser pronunciada, Rin esticou os braços para o alto alongando-se, e abriu os olhos devagar.
— Bom-dia! — a garotinha disse transbordada de vivacidade. Um pulo gracioso e já estava de pé, pronta para o decorrer do dia. — Senhor Jaken, é hora de acordar! — escalou o dragão e, ajoelhada ao lado do youkaizinho, sacudiu-o sem cuidado algum.
— Ai, Rin, issso não ssse faz! — o pobre coitado resmungou ao ser acordado no susto.
A ocidental se pegou a rir da cena enquanto Sesshoumaru anunciava um seco "vamos" ao grupo, e assim a peregrinação se dava ao início. Saíram do campo aberto e embrenharam-se na mata fechada, os raios solares transpassavam as largas folhas das copas e desenhavam formas sobre a estreita trilha de terra. Rin encontrou, a ornamentar as enormes raízes de uma árvore, ramos de miúdas flores violáceas, animou-se a colher uma gama delas e trouxe-as à Annabelle.
— Obrigada, pequena Rin! — sorriu-lhe terna, teve uma ideia repentina e decidiu repartir o buquê com ela — Sabe como fazer uma guirlanda? — perguntou.
— O que é isso? — a garotinha esbanjou curiosidade pueril. Piscou os olhinhos diversas vezes.
— Ah, é uma coisa que eu e... — iria falar da irmã, desistiu — que eu fazia muito quando criança. — Então, Annabelle tratou de trançar as flores pelos caules, compondo com as plantas uma delicada coroa. Rin observou atentamente os movimentos e os imitou.
— Que bonito! — colocou o acessório mimoso no topo da cabeça — Veja, senhorita Anaberu, sou uma princesa! — rodopiou.
— Majestade... — a jovem a reverenciou e proferiu-se com uma voz engraçada, bem teatral.
Jaken, a frente das duas, revirou os olhos e por sua atitude ranzinza, a escocesa se aproximou nas pontas dos pés e depositou a guirlanda sobre a cabeça dele sem que o rabugento percebesse. Sesshoumaru fitou-os de soslaio e atentou-se ao leal súdito.
— Ssssenhor Sssseeeshoumaru, o que foi? Tem algo em minha cabeça? — assustado, passou os dedos mirrados sobre o cocuruto e sentiu o diadema florido ao redor de seu chapéu — Masss o que é isssso? — ouviu risos vindos de trás, volveu-se e notou-as cochichando e mirando-o travessas. — Ah, vocêsss duasss estão me deixando louco! — ralhou.
— Acalme-se, senhor Jaken — Annabelle curvou-se diante do serzinho e beijou-lhe a testa. Por segundos, os orbes esbugalhados cintilaram meiguice para depois o réptil estressado praguejar – o rosto em brasa – e ter um desmaio súbito.
As meninas gargalharam incansavelmente.
— Você viu a cara dele?! — a dona das ondas flamejantes indagava e a garotinha assentia, envergada para frente de tanto rir.
— Andem. — Sesshoumaru chamou-as de longe, a voz parecia um pouco irritadiça. Elas apressaram o passo, a Rosa Branca se enrolou por a saia do quimono ser apertada e não dar espaço para as pernas se esticarem muito, Rin se foi veloz. Jaken logo acordou e correu desesperado por alcançá-los.
No auge do sol vespertino, o herdeiro das Terras do Oeste caçou um porco selvagem para que seus protegidos almoçassem e o levou até a gruta onde todos estavam.
— Será que tem um córrego aqui perto, ou um lago? — Annabelle perguntou a enxugar a testa e o pescoço com uma mão. Não bastasse o dia estar uma quentura, o local escolhido por Sesshoumaru para se acomodarem era úmido e fechado.
— É perigoso. — o daiyoukai apontou.
— Sou qualquer coisa, menos uma mulher indefesa... — sorriu discreta, as olheiras começavam a marcar as pálpebras visivelmente e de vez em quando ela bocejava.
— Mas está vulnerável. — fez a observação a examiná-la de cima a baixo.
— Não precisa se preocupar. — ergueu-se da rocha onde estava sentada, esticou braços e pernas em busca de mais ânimo. Ouviu um murmúrio de desagrado, por isso fitou-o diretamente e pela primeira vez o achou mais expressivo. O daiyoukai ficara visivelmente ultrajado.
— Faça como quiser. — deu-lhe as costas. Ora, ele, preocupado? — Jaken, cuide de Rin. — assim que deu a ordem saiu da pequena caverna.
— Eu já volto — depois de um suspiro, Annabelle declarou e completou em pensamentos: — "É mais orgulhoso do que o irmão". — Riu-se por dentro e também saiu do esconderijo, deixando um youkai e uma menina devidamente desentendidos do que se passara.
Não precisou perambular tanto para ouvir o som da água corrente e encontrar o riacho em meio à cerrada brenha. Que trabalho dava tirar aquela roupa! – pensou. Enfim livre de tanto pano, mergulhou, limpou o ferimento sutil acima dos seios, lavou os cabelos revoltos e apenas quando se sentiu completamente limpa emergiu das águas agitadas, secou-se ao sol, vestiu a primeira camada da roupa – de seda branca – e amarrou a barra pouca coisa acima dos joelhos para se preservar refrescada.
A água gelada trouxe consigo o baque da exaustão. Há quanto tempo não dormia? Não fazia ideia... Acomodou-se entre as raízes de uma árvore, mirou a copa até as pálpebras pesarem e selarem os cílios alongados. Foi fisgada pela sonolência e sem muita relutância. No estado em que se encontrava, alimentou tênue esperança de não sonhar com absolutamente nada e se Naraku não dera as caras até o momento, sequer enviara um inseto venenoso para policiá-la, não seria agora que marcaria presença.
"Eu só queria esquecer de tudo isso por alguns instantes..." — com essa ideia, adormeceu. O restante de seu traje jazia dobrado sobre um rochedo.
Passos aproximavam-se, alguém afastava o matagal com os dedos pálidos e a espreitava. Orbes luminosos traçavam o caminho até pairarem sobre a mocinha sonolenta. Por mais que não existisse vestígio de uma energia sinistra, Annabelle sentiu uma presença e seus olhos abriram-se súbitos, a tempo de ela perceber uma flecha encaminhando-se rumo a si e curvar a cabeça para o lado. A seta cravou-se no tronco e levou alguns fios acobreados consigo. A highlander se ergueu cambaleante e se deparou com a figura de Kikyou – já a apontar-lhe outra flecha – a encará-la lacerante.
Quis perguntar a razão daquele ataque, contudo não houve oportunidade. Logo, outra daquelas lanças purificadoras veio a seu percalço. O lume branco a envolveu, como de costume, só que dessa vez nem a sua aura foi capaz de protegê-la, no máximo desviou o gume da direção de seu peito e fê-lo acertar um dos ombros. Urrou de dor, o sangue esguichou, manchando a brancura da seda que a envolvia, pôs a mão no local enquanto o corpo arqueava.
— Você não me deu escolha, garota. Eu disse para que não ficasse em meu caminho... — a sacerdotisa atirou outro de seus dardos espirituais.
— Mas eu não quero ficar em seu caminho, não estou entendendo! — com um movimento dos braços, fez as raízes da árvore erguerem-se e formarem a sua frente um escudo onde a seta se fincou.
— Você não consegue matá-lo, e a sua presença está atrapalhando os meus planos de fazê-lo. — confessou. Outra flecha se foi sem misericórdia. Annabelle jogou-se para o lado e começou a correr, ao seu redor as plantas respondiam aos estímulos e faziam-se de obstáculos: árvores tombavam formando paredes, cipós enredavam os braços de Kikyou e tentavam roubar-lhe o arco, todavia os youkais que protegiam a vida passada de Kagome destroçavam as folhas, suspendiam os galhos e troncos, abrindo caminho para que a perseguição perdurasse — Não adianta fugir, uma hora a alcançarei. — lançou mais uma seta, essa acertou a extremidade exterior da coxa da oponente, fazendo-a cair sobre a terra fofa e gritar alucinada. — Eu preciso do coração de Naraku inteiramente inclinado a mim, você entende? — Kikyou baixou a próxima flecha, ao invés de atirar de uma vez resolveu se chegar. A presa ferida se levantou dificultosa e mancou até se esconder atrás de uma árvore larga — Isso é inútil, você sabe...
— Eu não quero lutar com você, não darei a Naraku esse gosto! — disse entre gemidos, enquanto tirava a lança cravada no ombro, mas ao tentar tirar a que perfurara a coxa, acabou por quebrar a haste e a lâmina permaneceu dentro da carne. Ela viu estrelas, depois tudo a sua volta girou. — Argh! — ofegante, tentou estancar o sangramento com as duas mãos. Sentia pontadas terríveis. A lembrança a assombrou outra vez, impregnando-a com a ideia de que o hanyou alimentava algum sentimento por ela, e o fato de Kikyou estar ali a tomar tal atitude era a comprovação de suas suspeitas.
A sacerdotisa prosseguiu:
— Esse fragmento, foi ele quem depositou em você. Tentou controla-la como fez comigo e não conseguiu... — um breve riso escapou — Você o purificou com esse poder misterioso que carrega. Incrível... É uma pena, garota, de verdade, mas eu preciso do coração de Onigumo, e Naraku está se apaixonando por você... — dava a volta no espesso tronco, prestes a alcançar a vítima.
Annabelle tinha em mãos a flecha que tirara do ombro, apertava-a tremente às costas. Enquanto prendia a respiração, um anseio dentro de si intensificou o seu lume natural. Se aquela mulher a tivesse procurado certo tempo atrás, entregar-lhe-ia a vida de bom grado, mas esse tempo se extinguira. No exato instante, lutaria por sobrevivência porque queria olhar nos olhos sanguinários outra vez e arrancar daquela boca vil a verdade sobre seus sentimentos. Precisava vê-lo, e não importava se essa necessidade brotava por conta do fragmento em si ou de seu próprio desejo. Ela iria encontrá-lo, era uma promessa.
A terra ganhou vida própria e envolveu os pés de Kikyou, fazendo-a tombar de bruços e largar o arco a frente, próximo ao pé da escocesa ereta adiante, sombreando a luz diurna. Annabelle pegou o objeto avermelhado e jogou-o longe, depois, abaixou-se ao lado da sacerdotisa e ao percebê-la tentar puxar uma flecha às costas com uma das mãos, virou-a de supetão e sentou-se sobre ela, num reflexo defensivo apontou-lhe a seta ensanguentada – tirada do ombro – e a manteve a milímetros de um dos olhos negros, pronta para perfurá-lo.
— Você é mesmo forte, ela tem razão. — Kikyou sorriu tranquila, os braços penderam sobre o chão, a luz de Annabelle ardia na vista.
— Ela quem? — perguntou confusa.
— Sua energia é tão poderosa que pude senti-la de longe naquele dia, então segui o clarão esbranquiçado e cheguei até você, sua irmã, Inuyasha... e seus amigos.
— Você esteve com Ailyn?! Ela está bem?
— Eu gostaria que você assumisse o meu papel e acabasse com Naraku... — mudou de assunto. Era melancolia naquele negrume inexpressivo? — mas você o ama.
— Eu não o amo! — a seta tremia em sua mão, o sangue descia do ombro ao peito e escorria da coxa ao joelho, tocando a terra. Os globos celestes tilintavam marejados.
— Vá em frente. — o semblante se fechou — Mate-me, ou eu a matarei.
— Não farei isso. — respirou fundo, recuperando a calma. Partiu a flecha ao meio e jogou os pedaços para lados diferentes. Depois, ergueu de leve a sacerdotisa pelos ombros, puxou as flechas que ela carregava no dorso, levantou-se, caminhou a arrastar a perna até o riacho e as atirou lá.
— Sabe que eu não desistirei. — disse deitada.
— Tanto faz. — respondeu impaciente e fez com que alguns ramos de plantas mantivessem a sacerdotisa cativa durante o seu afastamento excruciante. Mal sentia a ferida ao ombro, no entanto o gume encravado na perna a endoidecia. O corte começava a inchar, e quando ela relava o dedo no monte endurecido ali formado, a dor a impedia de ir fundo à fenda e tirar a ponta do dardo sacerdotal. Conforme perambulava, o sangue respingava no solo.
— Vai infectar. — a voz do daiyoukai soou próxima, ele surgiu por entre as árvores, austero.
— Me encontrou... — sorriu esquálida, ainda tinha algum senso de humor apesar de mal conseguir se manter de pé, encostar os dedos no chão trazia a pontada doída ao ferimento.
Sesshoumaru contemplou-lhe o estado. O tecido dantes claro parecia tingido em chá de tão encardido, os respingos avermelhados eram mero detalhe, o que chamava a atenção eram as pernas expostas, nem mesmo aquele poço de frieza conseguiu disfarçar o olhar prolongado na região à mostra. Annabelle engoliu em seco, e a situação só se agravou quando ele chegou perto. Notou no único braço dele o quimono azul e branco, o qual ele pousou cuidadosamente sobre o galho de uma árvore antes de cercá-la silente e fazê-la cair sentada sobre uma pedra, a gemer de padecimento. Os sons da água corrente e do canto dos pássaros, em outras circunstâncias, seriam tão bem-vindos... por que naquela hora escura eram terrivelmente agonizantes?
— Senti o cheiro de sangue. — revelou, trazendo em seu tom indiferente algum conforto para a jovem alanceada. Sesshoumaru se abaixou, assim se pôs quase na mesma altura dela e então, num sutil toque à coxa injuriada o clima de tensão se refez. Annabelle tremelicou em descontrole, as unhas arrastaram-se sobre o rochedo áspero — Segure-se. — Orientou-a sem dar uma piscadela e subiu os dedos – indicador e polegar – até o machucado, escancarando-o sem dó para adentrá-lo e puxar a lâmina.
Instintiva, a humana afundou o rosto na pele fofa que o enfeitava e apertou-lhe o ombro, cravando as unhas. A outra mão enrolou-se à longa manga das nobres vestes, lembrando a ambos a abstinência de um braço. Annabelle estava irracional a ponto de não compreender como aquele gesto poderia ofendê-lo e abafou um grito na manta de pele, mordendo-a.
Assim que tirou o pequeno losango metálico de dentro da fenda, Sesshoumaru jogou-o à grama e sacudiu a mão fazendo o sangue respingar. Sem qualquer cautela, afastou-se da mulher e ela quase tombou sobre o gramado, não esperava aquela mudança repentina de temperamento.
— Lave-se. — comandou autoritário, olhos fincados na efígie de uma bela criatura banhada em sangue. As finas cascatas carmesins desciam pelo braço e pela perna, confundiam-se com uma mecha empapada caída sobre o peito arfante.
Ela se levantou, manca, e ficou parada a olhá-lo apavorada. Percebeu que ele não sairia de onde estava, por essa causa orientou-o:
— Vire-se. — No entanto, o nervosismo a fez parecer arrogante e aquele youkai orgulhoso não obedecia a ordens de ninguém. Sesshoumaru prostrou-se como uma estátua na posição em que estava, sem tirar os olhos dela. Annabelle começou a se distanciar, em busca de um canto onde aquele sujeito não pudesse vê-la despida, e ele a alertou:
— Aquela mulher está por perto e anseia terminar o que começou.
Oh, sim, claro. Precisava da proteção dele e deveria agradecer imensamente por tê-lo por perto – o bendito tinha que recordá-la de sua pequenez, não é mesmo? Sentiu repentina raiva, os dentes rangeram por baixo dos lábios cerrados. Virar-se-ia de costas para despir-se, mas sabia ser provocativa quando bem entendia. Passou as mãos pela gola escancarada e num movimento simples fez a fina peça cair ao chão como uma pluma, revelando-se sem pudor. Sesshoumaru jamais se intimidaria, os olhos estreitaram-se e foi só. Nenhum músculo a mais se moveu.
Sem perceber, ela agira com ele do mesmo modo que com Naraku há algum tempo atrás, quando seu Hitomi ainda respirava e o hanyou escondia-se sempre por trás de uma máscara de babuíno. Porque, sim, sentia ser olhada pelo mesmo tipo de olhar lascivo.
"Não, esse aí não é assim" — quis convencer-se ao se encaminhar sôfrega ao riacho e adentrá-lo — "É superior". — A dor provocou singelos espasmos, ela grunhiu.
De costas para o youkai branco, limpou-se com dificuldade, tentou estancar o sangramento nas chagas imersas, o fluido avermelhado misturou-se ao líquido límpido e foi levado para longe. Quando Annabelle viu a água correr sem mais pinceladas de sangue, decidiu sair de dentro dela e vestir-se. Gritou de susto. À beira do rio estava o indivíduo "simpaticíssimo" a encará-la, no braço estendido jazia o quimono – presente dele.
Revirou os olhos cerúleos e respirou fundo, ao encontrar calma se ergueu à margem e ficou ali, de pé, esperando que suas roupas fossem entregues. Como Sesshoumaru demorou a dar sinais de que as devolveria, muda, Annabelle estendeu a mão em um gesto recatado de pedido.
"Ele está fazendo de propósito", — remoeu-se — "tudo porque eu mandei que se virasse" — meneou negativamente com a cabeça, já sem paciência para joguinhos.
— Precisa enfaixar isso. — ele disse, atentando-se ao ombro e à coxa da escocesa.
— Com o que, my lord? — arqueou uma das sobrancelhas.
A irritação passou quando a arruivada o contemplou rasgar uma parte generosa da própria manga e oferecer a ela. Pegou o pedaço de pano, dividiu e cobriu os trechos necessitados. Depois de um arrastado resfolgar, deu-se por vencida e assumiu uma postura humilde:
— Obrigada... — os ombros desceram vencidos, menos os olhos – estes se mantiveram fixados na misteriosa expressão do ser sobrenatural.
Pensou que finalmente ele devolveria suas roupas e presenciou as expectativas serem frustradas. Por mais algum tempo, Sesshoumaru fitou-a incessantemente, como se captasse cada traço seu. Céus, aquilo se tornava cada vez mais insuportável! O que diabos ele queria? Ao vislumbrá-lo dar um passo em direção a maior proximidade, cobriu os seios com os braços. E ele, finalmente, estendeu o dele, oferecendo as roupas de volta a Annabelle, que suspirou aliviada.
Pegou a peça com pressa, jogou sobre o corpo e começou a tentar amarrar a faixa. Falhou vezes seguidas, os dedos tremiam. Atou um nó de qualquer jeito e o daiyoukai insistia em mirá-la, provavelmente divertindo-se com a situação.
— O que é? — perguntou impaciente e levemente ruborizada, a saia apertava-lhe a coxa, por consequência a ferida, fora a primeira vez que deu graças por Naraku tê-la agraciado com um fragmento, pois sabia que a parcela da Joia de Quatro Almas já começara a fazer seu trabalho de cura — Hein, o que é?! — perguntou pela segunda vez e em tom mais alto — Não vai cair a língua se falar alguma coisa! — ele a puxou para longe do rio, arrancando-lhe um sibilo de dor por conta da perna, e logo que a teve distante da água corrente a rodeou — Que inferno! — ela esbravejou, a seguir acompanhou a movimentação dele a girar o próprio corpo, buscando manter-se sempre de frente para o pomposo youkai. Num repente, seu queixo foi apanhado bruscamente, o rosto erguido na direção do dele, olhos áureos enfáticos a petrificaram. Quase sufocou.
— Este Sesshoumaru gostaria de entender o que levou Naraku a se interessar por uma simples humana... — e eis que algo inédito aconteceu: ele sorriu inteiramente — mas você — farejou os cabelos úmidos em torno à face empalidecida de temor — não é tão simples assim, não é mesmo?
— Não... — escapou-lhe, as articulações pesaram, inertes.
— O que você é?
— Estou tão cansada dessa pergunta... — confessou lamuriosa — Solte-me, por favor. —repousou a mão sobre o pulso dele. Sesshoumaru não desfez o contato.
— Este Sesshoumaru quer uma resposta. — pressionou-a.
— Está certo! — bufou — Herdei o dom de minha mãe. Na minha família, as primeiras mulheres de cada geração são agraciadas pelo poder de controlar as forças da natureza. — tentou afastar a mão dele de si, agora com as duas próprias. Não fez nem cócegas.
— Aquela sacerdotisa disse que você ama Naraku. É verdade? — apertou-lhe a mandíbula.
— Você estava à espreita, vendo tudo?! — indignou-se — Me solte. — diante daquela pergunta, Annabelle falou em tom mais sóbrio.
— Responda mulher. — rosnou sutilmente, a voz soou como um veludo.
E as mãos feminis foram encobertas pela capa ebúrnea. Sesshoumaru sentiu queimação intensa no punho, por essa razão afastou-se de súbito a esticar e encolher os dedos, estalando-os.
— Já me basta um youkai me tratar como posse, eu não preciso de outro. — Dessa vezela que se aproximou, determinada, emanando sua aura e alumiando o trecho em que estavam.
— Meio-youkai. — deu o lembrete, não saiu de onde estava.
— Dane-se, não estou nem aí para essas nomenclaturas. — pronunciou-se sem escândalos, a firmeza não estava no volume da voz, mas em seus olhos brilhantes — Eu sou minha própria dona e escrevo a minha história, o que tiver que me acontecer será porque escolhi e não porque um de vocês me impôs. — Ah sim, escolhas, Hitomi ensinara-lhe essa lição — Não é porque você é um youkai completo e tem força maior do que a minha que eu me submeterei à sua vontade.
— Cuidado com o tom, mulher... — avisou-a, inclinando o rosto para frente pouca coisa.
— Não tenho medo de você.
— Mente muito mal. — sorriu outra vez, discreto, desarmando-a. Num repente, virou as costas e começou a andar. Annabelle, desnorteada, ficou parada onde estava. — Vamos. — freou os passos e chamou sem fitá-la. O grande Senhor das Terras do Oeste voltara a seu estado de natureza.
— Como espera que eu caminhe com a perna nesse estado? — apontou-se, o pé ainda não tocava o chão.
Ele deu meia volta, tornou a estar de frente a ela, e sem sobreaviso a segurou pela cintura. As feições da mulher atordoada perguntavam-lhe mil coisas que foram respondidas com o simples gesto de levantá-la e carregá-la em um só braço. Num salto gracioso, Sesshoumaru sobrevoou o céu crepuscular com a bela Annabelle Rose sob sua asa.
Encantada com a paisagem vista de cima, parou de pensar sobre a recente confusão e permitiu-se aproveitar o que a Mãe Terra tinha de melhor a oferecer: o firmamento colorido em tons de cobre com rosa, levemente enfeitado por astros e poucas nuvens. Altas árvores bailavam em conjunto, com o início da brisa noturna. Enquanto a fêmea de raça "inferior" deslumbrava-se com o cenário, o youkai branco a admirava em segredo.
— Maldito Sesshoumaru! — Naraku deixou escapar entre dentes, sua energia sinistra emanava impetuosa, fazendo as largas madeixas negras flutuarem rebeldes, provocando a ira de todos aqueles youkais esparramados pela saleta – partes dele próprio.
A face melada de muco, abatida, tinha em si a marca de uma cólera selvagem. Através do espelho de Kanna, o hanyou abrasado contemplara os acontecimentos do dia sem poder fazer muito a respeito. Kagura estava enclausurada, a receber o castigo merecido por ter invadido o porão e o visto na forma original, o hanyou tinha outros planos para Kohaku e se enviasse Kanna perderia o contato com o mundo exterior. Ah, mas ver as garras do irmão de Inuyasha circundando a tênue cintura de Annabelle extraía dele o seu pior. O ciúme gritava agoniado, e nada podia mantê-lo calado. Cada pedaço pútrido de Naraku era consumido pelas estocadas da insegurança, fazendo-o amaldiçoar ainda mais a condição de ser um meio-youkai.
Precisava respirar fundo e ser paciente, com o primeiro suspiro da manhã seu corpo voltaria ao normal e ele daria um jeito de reavê-la. Até lá, possuía outro trunfo em mãos e faria uso já.
Chegaram a Arurun nos céus, Sesshoumaru depositou Annabelle sentada sobre a cela. Rin comemorou a chegada dos dois e Jaken, bem, foi antipático como sempre...
Enquanto a garotinha contava como fora o dia ao lado do pequerrucho youkai sapo, a escocesa sentiu uma pontada no peito e jurou ter ouvido a voz grave e galante, tão conhecida:
Pensou que estava livre de mim?
A imagem do algoz, a sorrir-lhe perverso, tiniu nos olhos e ela quase acreditou vê-lo ali, a sua frente, chamando-a.
— Senhorita Anaberu? — Rin a chamou.
Nunca poderá se livrar de mim. Você é minha, Annabelle Rose. Muito em breve, estaremos juntos outra vez.
"Não pode ser!" — tapou a boca com as mãos, tentando conter a respiração, os batimentos cardíacos e o fogo passional que lutava para dominá-la.
Continua...
E aí, amigos? O que acharam? *_*
Então, a cena a que me referi nas notas iniciais foi o momento em que Annabelle ensina Rin a fazer uma guirlanda. Em uma fic da minha amiga Pih, ela descreve a Rin trançando as flores em uma coroa e eu achei aquilo de uma delicadeza tão grande que me encantou e me fez imaginar essa cena fofinha, uma música da Loreena Mckennitt também ajudou a criar o momento, chama-se "Mummers Dance".
Aqui está o link da fanfic da Pih, "Meu Segredo com um Youkai", super recomendo a leitura a todos:
historia/meu-segredo-com-um-youkai-7355030
