Gente, que vergonha! Olha como essa fanfic está atrasada aqui!
... e eu tinha uma tradição de sempre postar no ffnet, por ser o site menos complicado, imaginem só! Confesso que a falta de movimento foi uma das razões de eu ter ficado com preguiça de parar para editar capítulo (inserir a linha horizontal, etc) e postar na plataforma. Lá no AnimeSpirit a fanfic tá me dando um retorno mais legal, então priorizei postar lá e agora no AS, Teia de Mentiras já chegou ao vigésimo sétimo capítulo e aqui ainda estava no vinte e quatro. Falha minha ^^'
Mas agora estou corrigindo essa gafe e venho postar o capítulo que até agora é um dos meus favoritos!
Se vai ter Hentai? SIM! Se vai ter drama? SEMPRE!
Boa leitura, meus lindos!
Capítulo 25 – A escolha dela.
Annabelle encolheu-se contorcida, as mãos se enrolaram nos cabelos apertando a cabeça.
— Senhor Sesshoumaru, o que está acontecendo?! — a garotinha perguntou desesperada — Senhorita Anaberu, o que você tem? — ergueu o bracinho, pronta para tocar-lhe o ombro.
— Por favor, não se aproxime! — exclamou aflita.
O coral de vozes, calado por algum tempo, retornara aos cânticos infindáveis, misturando-se com a voz de Naraku e embolando as palavras. Embora não compreendesse o que ouvia, o ser da jovem ruiva preenchia-se de sensações ruins. Um rancor alimentado por gerações palpitava no âmago, fazendo-a sentir as mazelas das criaturas presas dentro da joia, travando a mesma batalha há incontáveis anos.
Annabelle, ofegante, espalmou a mão ao peito enquanto os olhos reviravam. A aura reluziu intensa, a brancura ainda era capaz de tocar o fragmento e mantê-lo purificado.
"Como uma força absurda dessas pode ser guardada dentro de um receptáculo tão frágil?" — Naraku, através do espelho de Kanna, admirava a relutância da escocesa, agora deitada sobre o lombo de Arurun a tremer e revirar os olhos.
— Ela está ardendo! — Rin tocou a testa da amiga e se apavorou.
— Issso é hora para essssa mulher adoecer? — Jaken fez-se de aborrecido, mas no fundo preocupava-se e seus olhos esbugalhados demonstravam isso.
Sesshoumaru conhecia uma montanha onde poderia encontrar algum tipo de erva ou planta para ajudar na recuperação de Annabelle. No entanto, levaria horas para chegarem lá e ao tocar o pescoço da humana, percebeu que não era uma simples febre o seu mal.
— Ela está lutando contra o fragmento. — ajuntou e rememorou-a a arranhar o próprio peito — "Está aqui". — abriu a fenda do quimono, expondo parte dos montes. Apontou a garra do dedo indicador à pele fervente, pronto para fazer um corte superficial e livrá-la do caco amaldiçoado.
— Sssenhor Ssssseshoumaru, veja! — o pequeno súdito, apavorado, apontou uma nuvem escura que se aproximava, encobrindo as estrelas. Grunhidos monstruosos ecoavam conforme a fumaça se aproximava.
O proprietário das Terras do Oeste sacou Toukijin e mirou os inúmeros youkais centopeia aproximando-se. Depois, atentou-se a seus súditos aturdidos – Rin abraçada a Annabelle e Jaken agarrado ao báculo – e, num único golpe, dizimou a infinidade colorida da tropa de Naraku.
— Ali tem mais! — Rin apontou para trás — E ali! — e para o lado — E ali! — e para o outro lado.
— Essstamos cercadoss! — Jaken, mesmo amedrontado, tomou a iniciativa de usar as chamas do báculo para afastar algumas bestas.
Até quando seus novos amigos conseguem resistir à minha horda de youkais? — e a voz de Naraku suprimiu as outras, entoando o solo triunfante na mente de Annabelle — Se algo acontecer a eles, a culpa é sua.
— Humpf, ridículo! — o daiyoukai, irritado, repetiu o movimento e seu gládio fez as criaturas aterrorizantes dissolverem em pó.
Naraku remoeu-se no porão do castelo, por enquanto não tinha condições de enviar mais "soldados" de seu exército ao "campo de batalha". Aquela não era uma boa noite para um embate, tampouco para formular mais armadilhas. Infelizmente, precisava esperar até o dia seguinte para tomar uma atitude pessoalmente. Enquanto seu corpo estivesse na forma original, a clausura seria sua única opção.
Todavia, brincar com a mente de Annabelle permanecia a ser um trunfo. Um sorriso se desenhou na face coberta de muco.
Tudo em volta se resumia a escuridão, o cenário compunha-se de um infinito nada. Annabelle, desnorteada, girava e corria, sem jamais chegar a algum lugar. Temia que aquilo fosse mais um pesadelo em que Hitomi surgiria para apontar-lhe o dedo, mas o timbre grave, estranhamente, causou-lhe alívio:
— Seria bem mais fácil se você não fosse tão teimosa. — Ele estava logo adiante, a brancura de sua manta alumiava o breu e traçava um caminho até a estrangeira — Eu poderia fazê-la esquecer os pesadelos que não a deixam dormir, as lembranças que a entristecem...
— Naraku... — parou, ereta, mirando-o com cautela — Onde estamos? — pousou a mão sobre o peito arfante na tentativa de conter a fúria do fragmento dentro de si.
— Em sua consciência. — se ela não ousava chegar perto, o hanyou o faria. Caminhou tranquilo, em uma das mãos jazia a máscara de babuíno, na outra a pérola quase completa — Isso é possível graças à Joia de Quatro Almas.
— Você está tentando me controlar outra vez? Será que nunca vai aprender? — os orbes azulados tremularam em indignação, no entanto parte de si via-se contagiada por euforia. As pernas bamboleavam, ela toda tremia – não de medo – mas de ansiedade. Conforme Naraku se aproximava o estranho calor a preenchia por dentro. — Você não pode me domar... — a última frase soou chiada e sem firmeza alguma.
— Ah não? — sorriu galante, parado em fronte a humana evidentemente desejosa. O caco da joia não deixara de fazer seu papel enfim, torturando os sentidos de Annabelle — Talvez você tenha razão, — guardou a pérola rosada no peito, cativou o rosto cálido em uma das mãos e esfregou o polegar sobre os lábios úmidos, entontecendo-a mais do que já o fazia — parece que esse fragmento a deixa ainda mais selvagem. — Induziu-a a abrir a boca e passou o ápice do dedo na ponta da língua avermelhada — Ah, sim... — suspirou perverso e sorridente — Você me devorou, louca de desejo, insaciável. Lembra-se? — o dedo abandonou a boca para os lábios se roçarem aos dela e mordiscá-los.
— Eu me lembro de tudo. — respirou fundo em busca de manter a compostura, tentando não mover um músculo ainda que seu corpo parecesse possuído por certos ímpetos — De tudo, Naraku. — enfatizou, fitando-o diretamente.
— O que está tentando me dizer, Annabelle Rose? — estreitou os olhos, o sorriso persistia a enfeitar-lhe o rosto e alargou-se ao sentir mãos encaloradas tocarem seu peito, fazendo a manta a descer para revelar-lhe o tórax rijo e leitoso.
— Eu lembro... — pausou a apreciar o peitoral pálido, liso, sem uma cicatriz e afagá-lo, suspirou aliviada ao vê-lo curado da flechada.
Acabou por se desconcentrar das palavras e prender-se ao peito que subia e descia tranquilo, às longas madeixas negras esparramadas sobre a clara mortalha a cobri-lo da cintura para baixo e por fim, perdeu-se nos olhos maliciosos, perigosamente sedutores. Controlou-se para em um pulo não avançar sobre o corpo dele e fazê-lo seu. A mão, já a percorrer a barriga de Naraku, segurou-se à manta e puxou-a para cima, forrando-o novamente. O riso maldoso, ao invés de provocar ira a excitou.
— Pare... — murmurou suplicante.
— Parar? — largou a máscara displicentemente e segurou-lhe as mãos, trazendo-as de volta ao peito — Tem certeza de que quer que eu pare? Algo me diz que o que você mais deseja nesse momento é se entregar a mim. — Cativou a nuca acobreada, colou a boca à orelha eriçada e sugou-lhe o lóbulo em vagareza tortuosa — Por que não se rende? — sussurrou grave — O seu poder, o seu corpo, a sua alma, entregue-os para mim, Annabelle Rose. — ouvi-la gemer em resposta o incentivou a colar-se a ela e resvalar os dedos entre os seios apertados dentro da gola do quimono, no local onde o fragmento cintilava ainda rosado.
— Não... — a voz soou entrecortada, Naraku abandonara a orelha para afagar o pescoço arrepiado com sua língua faminta. Enquanto os dedos afastavam as ondas alaranjadas, os dentes roçavam-se à pele, a boca quente a sorvia — "Ele disse que estamos em minha consciência, então por que parece tão real?" — apertou os ombros do hanyou e sibilou seu nome: — Ah, Naraku... — ouviu-o abafar uma risada enquanto beijava-lhe o colo afoito e começava a desfazer o laço rosado — "Se continuarmos por esse caminho..." — arregalou os olhos e encontrou forças para empurrá-lo — Eu disse não. — recobrou a firmeza e ajeitou o traje.
— Não? — riu sarcástico e retomou a proximidade puxando-a pelos braços abruptamente — Pare de ser tão hipócrita, você quer!
— Não quero nada disso, é esse fragmento envenenado que você colocou em mim que me faz sentir essas coisas! — afastou-o novamente, determinada.
— Ah, não me venha com essa desculpa! — embora as feições mostrassem fortes traços de irritação, o hanyou gargalhava ensandecido enquanto insistia em desafiá-la — Muito antes de eu presenteá-la com o fragmento, seu corpo já respondia aos meus toques — circundou a cintura dela com um braço e trouxe-a rente ao peito, sentiu-lhe o coração descompassado e naquelas batidas apressadas encontrou alguma satisfação — Seu querido Hitomi ainda respirava e você já me queria...
Um tapa esquentou-lhe a face esquerda, apesar de não causar qualquer tipo de dor física tirou-o do sério. Os orbes escarlates cintilaram a ira, cravados na mulher que o mirava destemida e raivosa.
— Dessa vez não será como você quer, você nunca mais vai me machucar ou me magoar Naraku. — afirmou convicta e grave, sem pestanejar.
— O que a faz ter tanta certeza? — sombrio, arregalou os olhos sanguinários e questionou.
— Ele não vai deixar você chegar perto. — cerrou os dedos com firmeza, todos os músculos endureceram e o par de turquesas tremeluziu a chama de Annabelle.
— Ele? Oh sim... — se havia sangue a fluir em seu interior, naquele instante borbulhara em fervura incandescente — Olhe só para você... — conteve a cólera, retomou a postura altiva e a rodeou, analisando-a — Até que caiu bem, — referia-se ao quimono — mas confesso que prefiro quando usa os vestidos de sua terra natal. — respirou fundo e um sorriso mórbido rasgou-se brilhante, escurecendo mais ainda suas nuances — Sesshoumaru deve alimentar algum tipo de afeição para gastar o tempo precioso dele comprando roupas novas para uma humana como você. — os dedos passearam pela longa manga, contornando os desenhos em azul e branco.
Annabelle, até àquele instante tensa e controlada, num repente rompeu a gargalhar.
— Do que está rindo? — confuso e levemente irritado, questionou. Não era nada habitual presenciar uma cena de escárnio ser iniciada pela jovem escocesa, aliás, a miséria por trás dos risos histéricos era notável.
Ela deu as costas ao meio-youkai, se curvou e pousou as mãos ao ventre, rindo incontrolavelmente. Dava breves pausas para recuperar o ar e se punha a rir de novo, incansável.
— Do que ri tanto?! — Naraku superou o nervosismo da mulher, tomou-lhe o braço e a virou para si. Não admitiria que qualquer ser, fosse humano ou youkai, fizesse pouco dele.
— Você é inacreditável! — enxugou os olhos, ainda a rir sem se importar com os ânimos do híbrido — Deve estar se roendo, não é mesmo? Sesshoumaru é muito mais forte do que você, por isso não se atreve vir em carne e osso, invade meus pensamentos porque sabe que aqui ele não pode alcançá-lo. Sabe que não é páreo para um youkai desse porte. — sentiu ter um trunfo nas mãos ao notar o semblante de Naraku enegrecer.
— Em tão pouco tempo e já está tão próxima dele... — o tom de ironia não era jocoso como parecia.
— Você está com ciúmes. — afirmou ao mesmo tempo em que se esforçava inutilmente para prender outra risada — Você está morrendo de ciúmes dele! — tapou a boca com as duas mãos, rubra de tanto rir.
— Não seja tola, mulher! — a agarrou pelos cabelos e a sacudiu, nada foi capaz de extinguir aquele riso ácido — Acha mesmo que eu, Naraku, sentiria ciúmes de você?!
— Ah, não se preocupe! Não tenho interesse amoroso algum em Sesshoumaru, embora a sua beleza seja estonteante, devo confessar... — e parou de falar para continuar a rir.
— Cale a boca! — ralhou, segurando-a pelas madeixas arrepiadas.
— Você está enciumado, eu sei. — O riso se fechou, tão súbito quanto começara. Séria, persistiu a encará-lo enquanto pronunciava-se: — Eu já disse, me lembro de tudo, Naraku. Lembro do que aconteceu antes e depois de você colocar esse maldito caco de vidro em mim. — Os olhos carminados entregaram no brilho o tamanho choque e os dedos dele afrouxaram o aperto nos fios flamejantes — Lembro de cada palavra sua, de cada ação, e da dor inexprimível que senti quando essa coisa foi depositada em meu peito. — espalmou o local.
— Annabelle, você... — não conseguiu prosseguir, sabia do que ela estava falando, via a revelação através dos céus reluzentes e certeiros.
— Quer saber de uma coisa? — uma lágrima raivosa correu pelo canto da face — você, Sesshoumaru, até mesmo Hitomi, no fundo são todos iguais.
— Que besteira é essa? — um riso nervoso escapou.
— Sim, vocês, machos, atraem-se pela novidade. Eu duvido que qualquer um dos três já tenha se interessado pelo meu interior, pelo que sinto e pelo que realmente sou. — Rememorou a atitude do daiyoukai naquela tarde, acuando-a por interesse acerca de seu poder, a seguir resgatou a lembrança de Hitomi a compará-la com uma divindade, e amargurou-se ao pensar na postura do jovem mestre depois de morto, invadindo-lhe os sonhos só para atormentá-la — A primeira coisa que reparam sempre é a minha aparência peculiar, depois ambicionam o meu dom. O que move a luxúria de vocês é essa curiosidade débil, mesquinha. Humanos, youkais, ou mestiços, são todos a mesma coisa. — estapeou o peito de Naraku, não uma, nem duas, mas várias vezes enquanto vomitava sua mais nova crença — São todos iguais!
— Pare com isso. — não agiu de imediato, a postura agressiva de Annabelle a fazia se assemelhar à Kikyou esculpida em barro. Naraku viu-se imerso na onda de rancor que tomou os olhos da escocesa e em vez de tentar se aproveitar, simplesmente a conteve — Pare! —prendeu-lhe os pulsos.
— Aquela sacerdotisa acredita que você sente alguma coisa por mim, e eu sei, não adianta negar, que até você crê sentir qualquer fagulha. Olhe nos meus olhos e negue. — a mudez de Naraku a enlouqueceu — Negue! — gritou.
— Mas que inferno, garota! Será que terei de cortar a sua língua para fazê-la parar de tagarelar? — a ira de Annabelle começou a consumi-lo.
— Kikyou estava certa. — um sorriso desgostoso se formou enquanto ela balançava a cabeça em negativa — Ela sempre esteve e eu fui tola por não ouvi-la... Apesar de eu não acreditar que alguém com um caráter torpe como o seu seja capaz de nutrir um sentimento genuíno, — desvencilhou-se das mãos dele — é preferível ser odiada a ser amada por você. — Esfregou os dedos às pálpebras, as manteve secas até onde pôde – não por muito tempo – e então as lágrimas desceram infindas, os ombros começaram a chacoalhar e a única opção encontrada foi esconder o rosto e a vergonha entre os dedos. Ela soluçou, inundada por copioso pranto.
Como na noite em que passaram juntos em uma caverna, Naraku sentiu o peso do remorso sobre o seu costado. Já não lhe trazia regozijo algum presenciar o infortúnio da Rosa Branca. Suas mãos, temerosas, pairaram a poucos milímetros dos ombros da jovem humana. Ela virou as costas e abraçou a si mesma, os soluços sofridos ecoaram pela paisagem escura em conjunto ao respingo das gotas salgadas ao chão. O meio-youkai inspirou e expirou, para num impulso abraçá-la por trás, mergulhar a face nos cabelos de fogo e fechar os olhos.
— Venha para mim, fique comigo... — sussurrou sereno — Eu levarei toda essa tristeza para longe de você. — afagou-lhe os braços, contudo nada a fazia se acalmar.
— Isso não passa de uma mentira, mais uma das muitas que você adora inventar, bastardo! — esmurrou os braços que cobriam os seus, agitou as pernas e ele a apertou mais forte.
— Eu posso fazê-la esquecer do sofrimento, mas você precisa me permitir, precisa se render. — virou-a cuidadosamente de frente para ele — Você sabe que fiz isso com Kohaku, certo? Aquele menino não faz ideia de que matou a própria família... — delicado, enxugou o rosto encharcado e desconsolado.
— Por sua causa. — complementou.
— É, por minha causa... — suspirou um tanto cansado — só consegui entrar na mente de Kohaku e fazê-lo esquecer de tudo, porque nas profundezas do âmago era isso o que aquele menino desejava. Eu o poupei da tristeza e da vergonha por ter cometido um crime imperdoável.
— E então você o escravizou, agora a vida daquela criança se resume a obedecer seus comandos. Qual o sentido de existir nessas condições? Qualquer dia desses, você fará Kohaku matar a própria irmã, como tentou me fazer matar Ailyn. O que faria de mim caso eu entregasse minha mente para você?
— Meu castelo seria sua casa, minha cama o seu leito... — cativou as maçãs ainda úmidas e afastou alguns fios molhados que grudaram ali – faria de você a minha companheira, minha mulher. Eu a escolhi, Annabelle.
— Isso é absurdo! — tentou futilmente resistir, os dedos repousados sobre os ombros dele escorreram até os braços — Você diz essas coisas, você vem e me tira da tempestade, para depois me ferir de alguma maneira mais cruel, isso nunca vai mudar.
— Me dê essa chance, nem que seja a última. — acolheu-a em seu peito e acariciou o topo da cabeça alaranjada, como fizera certa vez em um fim de tarde chuvoso — Eu quero juntar os seus pedaços...
— Você tem talento para dizer justamente o que eu quero ouvir... — Naraku estava conseguindo derrubar a fortaleza, nem mesmo ele acreditava em seu feito.
— O que quer que eu sinta por você, sei que é recíproco, sei que você também sente por mim, que seja uma fagulha – como você mesma disse – já é alguma coisa. — percorreu os dedos pelas ondas, penteando-as.
— Amor e desejo podem andar de mãos dadas, mas não são a mesma coisa Naraku. Não acredito que o que sintamos um pelo outro seja amor.
— Seja o que for, é forte o suficiente para que nem eu ou você consigamos escapar.
Annabelle ergueu o olhar à figura que mirava o vazio, resignada com sua constatação.
— Isso, sim, é uma verdade... — a voz suave da moçoila recuperou a atenção do captor.
Fitaram-se silenciosos por alguns instantes, ambos reescreviam na memória cada segundo dividido e devaneavam cada um à sua maneira. A letargia no olhar de Annabelle firmava a ideia de Naraku de reconstituir o seu sorriso. E como alguém como ele teria algum tato para refazer um coração partido? Ora, e era esse o foco? O importante não era o êxito em convencê-la? Não se sentia um vencedor, porém...
Sentia-se vencido pelo sentimento, vencido por uma humana.
— Amanhã ao entardecer, um de meus insetos irá até você. — pousou as mãos sobre os ombros encolhidos e a encarou confiante — Deverá segui-lo por uma trilha estreita que a levará até Kagura.
— Kagura? Por que ela? — não fez caso de disfarçar o incômodo em suas feições.
— Não posso me arriscar, esse não é o meu melhor momento.
— Típico... — e lá ia a sua fada das Terras Altas voltar-se contra ele outra vez, depois do trabalho que fora amansar seu temperamento.
— Annabelle, dessa vez não irei forçá-la ou chantageá-la. A escolha ficará por sua conta, ir ao encontro de Kagura antes de o sol se pôr por completo, ou ficar com Sesshoumaru e declarar-se minha inimiga. — incisivo, determinou.
Estava farto de discutir sobre assuntos que o expunham tanto. Temia o rumo que poderiam tomar caso insistissem naquele diálogo excêntrico. Afastou-se devagar, os dedos escorreram até que nem suas pontas tivessem qualquer contato com a superfície macia do traje da arruivada. Enquanto isso, ela o olhava interrogativa e conturbada.
— Estarei esperando por você. — Encerrou quase terno, um sorriso se formou discreto e despretensioso, natural a ponto de passar desapercebido por ele, mas não por ela.
E assim, aos poucos, a silhueta do aracnídeo desvaneceu e Annabelle o perdeu de vista. Somente a negritude e o frio cortante marcavam presença no limbo que era sua mente.
Os longos cílios orvalhados descolaram-se e os orbes azuis abriram atordoados. Sentiu um peso sobre seu corpo – era a pequena Rin adormecida, em uma das mãos segurava um pedaço de pano umedecido. Atentando-se bem, a ocidental notou que vários trapos como aquele lhe cobriam a testa, o pescoço e mesmo os braços. Livrou-se de cada um cautelosamente, não era sua intenção acordar a garotinha acomodada sobre suas pernas.
— Então acordou! — a voz reptiliana doeu nos ouvidos.
— Cara de sapo... — um risinho escapou — Onde nós estamos? — olhou em volta e vislumbrou altas árvores encobertas por musgo e cipós. A terra era fofa e escura, densa névoa se espalhava pelas redondezas. Por cima das copas esverdeadas via-se o topo de uma montanha.
— Você essstá dando muito trabalho para o ssssenhor Ssseshoumaru! — Jaken cruzou os braços depois de fincar o cajado no solo úmido.
— Como é? — massageou as têmporas, a cabeça latejava.
— Ora, por sssua causa o sssenhor Ssseshoumaru precisou desviar de ssseu caminho para arranjar ervasss para febre, essstúpida! — Apontou-lhe o dedo esguio — Ssssinceramente, não entendo porque meu messtre perde tanto tempo com duass humanass e... ai! — um calombo cresceu no topo da cabeça, erguendo consigo o pequeno chapéu preto — Sssenhor Sesssshoumaru! — os olhos resplandeceram devoção.
Lá estava o sujeito responsável pelo cascudo recentemente recebido, dentro do punho fechado: uma gama de folhas diversas. O daiyoukai se achegou silente, inclinou-se à mulher enferma e ofereceu-lhe o ramo:
— Tome.
— Obrigada... — pegou-as cuidadosamente — Alfavaca... — sorriu, sentando-se com cuidado, sem perturbar o sono da menina ou movê-la mais do que o necessário — e hortelã? — cheirou a outra parte do ramo em mãos.
Jaken, ao receber um único olhar de seu mestre, compreendeu o seu dever e, contrariado, caminhou até Arurun, tirou da bolsa pendurada em sua sela uma cumbuca e embrenhou-se na mata. Depois de alguns instantes, voltou trazendo nas mãos o recipiente cheio d'água até o talo. Conforme dava os passinhos desajeitados, derramava pouca coisa.
— Sabe o que fazer com isso? — Sesshoumaru perguntou, de pé, encostado à árvore mais próxima.
— Sim... — Annabelle depositou Rin cuidadosamente na terra fofa, pegou o pote das mãos do pequenino e o agradeceu. Então, aproximou-se da fogueira, amassou alguma daquelas ervas numa das mãos e jogou-as dentro da água fervilhando perto do fogo. — Me admiro de você... digo, do senhor conhecer a planta certa para uma mazela humana. — mirou-o.
— Masss que atrevida!
— Calma, cara de sapo! — sorriu matreira, mascarando a angústia — Não disse para ofender, só estou curiosa.
— A sua febre estava tão alta que poderia tê-la matado, se você fosse uma humana comum. — sereno, ele se manifestou.
— Rin esteve comigo esse tempo todo? — comovida, atentou-se à menininha que respirava devagar em sono profundo.
— Há algo de diferente em você agora. — Sesshoumaru pontuou, surpreendendo-a.
— Por que diz isso? — acanhou-se, não quis volver a ele para mirar os olhos fulvos e cristalinos.
Sim, a consternação estampava-se no semblante apático, na sombra que enevoava o olhar. Annabelle não parava de pensar no diálogo travado em sua consciência. Seria um sonho? Seria o poder da Joia tentando influenciá-la?
Não, tinha certeza de que o encontro fora real. Naraku tinha esse poder, certo? Assim ele deveria fazer com o irmãozinho de Sango, ou com qualquer um de seus servos... Finalmente, a vez dela chegara – era a nova vítima da acirrada tentativa de manipulação.
...Porém, como poderia esquecer o peculiar lume naqueles olhos de sangue? Tinha medo de se deixar iludir, e ao mesmo tempo algo dentro de si gritava a certeza de haver algo de sincero na proposta do hanyou aranha.
O coração apertou e ela sentiu uma forte pressão dentro da caixa torácica. Eram seus anseios criando forma e adquirindo força, crescendo feito ervas daninhas. Muitas divagações misturavam-se e cantavam no interior despedaçado. O espírito almejava conforto... houve um tempo em que Annabelle acreditou não querer esquecer das experiências passadas, pois sua existência seria encerrada no momento em que sua consciência se entregasse ao vazio, e então, nada mais teria sentido. E eis que, subitamente, a pobre rosa branca já não se importava de existir. Qualquer júbilo vivenciado fora tão efêmero perto dos calvários, as alegrias fugazes transmutavam-se em borrões, a razão inibia a capacidade de simplesmente sentir e viver sem dor, sem culpa. O que ela era e o que experimentara a impossibilitava de encontrar um meio de ser feliz.
"É assim que ele deve se sentir". — concluiu penalizada — "Naraku também quer se esquecer de quem é e do que fez, porque o peso é muito grande..." — bebia o chá curativo e vislumbrava a dança das chamas — "agora entendo como é, Naraku..." — baixou o olhar para a cumbuca vazia em mãos — "acreditar que é melhor se entregar ao vazio do que ter que viver carregando o fardo de simplesmente existir".
A Mestra do Vento, isolada em uma saleta, com braços e pernas imobilizados, mantinha a cabeça abaixada e os globos carminados focados no piso mucoso. Não conseguia esquecer a visão de mais cedo – quando, bisbilhoteira, desceu ao porão do castelo e deu-se com Naraku em sua forma original – um amontoado de tentáculos e pedaços de youkais.
Como se já não bastasse o odioso hanyou a vigiar severamente por conta de sua tentativa de conspiração há alguns dias, agora a fúria do algoz haveria de ser imensurável, uma vez que Kagura conhecia sua verdadeira forma. Pisava em ovos – constatava. Sua vida poderia escapar-lhe a qualquer momento, numa única pontada no peito. O suor descia pela testa, colava os fios da franja à pele e ela tremia por inteiro.
"É só uma questão de tempo, eu sei, e ele vai me matar!" — cerrou os olhos e comprimiu os lábios.
O som da porta a abrir provocou um espasmo de pavor. Da escuridão surgiu a youkai albina a segurar o espelho esférico. Calma, desceu os degraus estreitos para poder ficar no mesmo nível da irmã mais nova.
— Kanna? — Kagura balbuciou — "O maldito a mandou vir aqui e me matar, é isso?!" — riu irônica — Vamos lá, acabe logo com isso... — e ao invés de vir o ataque esperado, as amarras a soltaram. O corpo esguio tombou ao chão provocando estalos na madeira.
— Naraku ofereceu mais uma chance a você, Kagura, é melhor não desperdiçar. — disse a criatura com aparência infantil, sem um triz de emotividade no tom.
— O que ele quer de mim agora? — resignou-se em acatar a ordem que fosse, era sua melhor opção.
— Senhorita Anaberu, está bem? — Rin perguntou assim que a viu despertar sob as brandas faíscas do sol de um novo dia.
— Nunca estive melhor, pequena Rin. — depois de sentar e alongar os braços, respondeu a esboçar tênue sorriso.
— A senhorita está diferente... — preocupada, ajoelhou-se ao lado da amiga e recebeu um afago no cabelo.
— Impressão sua, pequenina. — abraçou-a de lado para confortá-la, embora ela fosse quem mais precisasse de alento. Mais uma noite se passara, amaldiçoada por outro pesadelo...
— Hitomi... — o viu diante de si e dessa vez teve medo de tocá-lo, pois não queria que ele se desvanecesse em pó. A voz soou num murmúrio apático. Seu coração palpitava de terror e não de saudade, como há algum tempo costumava ser. A visão do desapontamento nos olhos amendoados paralisava a pobre escocesa. Annabelle quis chorar, e não escorreu uma lágrima.
— Você irá ao encontro dele? — o espírito magoado também não fez esforço para se aproximar. Miraram-se à distância, abraçados pelo zéfiro gélido da morte.
— Eu não aguento mais isso... — confessou enquanto cerrava os olhos à procura de calmaria.
— Não aguenta mais a minha presença? — endureceu as palavras e o timbre.
— Eu tentei, Hitomi. Quase tirei a minha vida para não me permitir chegar a esse ponto e você estava lá, você viu. — reabriu os globos celestes, um fio de coragem se desenhou nas pupilas. — Isso está me consumindo, eu já nem me reconheço mais...
— Então, você irá... — suspirou entristecido, respondendo à questão por ela.
Poderia seu antigo amor conhecê-la melhor do que ela própria? Annabelle ainda não havia decidido se iria ou não, e aquela alma penada a julgava por antecedência... Um misto de melancolia e raiva se revolveu do peito à garganta, o cenho franziu chamando a atenção da garotinha. A forasteira, não querendo causar transtornos, forjou alegria no semblante e prosseguiu a conversa:
— Onde está o grandioso senhor Sesshoumaru e seu fiel escudeiro, senhor Jaken? — teatralizou a fala, enfatizando os adjetivos escolhidos para denominar cada sujeito. A desconfiança da menina logo se dizimou, e elas riram juntas. Por trás das risadas descontraídas, escondiam-se inúmeros questionamentos de Annabelle.
Naquela manhã o sol dera as caras com brandura, as nuvens cinzentas ofuscavam seu brilho. Seriam o clima e a paisagem um reflexo de como a afilhada das Fadas se sentia? A natureza confessava o que os lábios dela jamais poderiam dizer. Algumas de suas cores desbotaram, porém, o vermelho jamais sucumbiria ao cinza. O sangue fervia na reminiscência dos olhos que a espreitavam há tempos, desde o dia em que ela salvara a vida de certo jovem mestre de um castelo...
Estarei esperando por você — ele disse, lembrava-se. E ela iria? Por que Naraku lhe dera uma escolha?
— O senhor Sesshoumaru foi resolver algum assunto em um vilarejo distante, e o senhor Jaken vem logo ali! — a voz entusiasmada de Rin desviou a atenção de Annabelle dos devaneios.
— Aqui esssstá o café da manhã de vocêsss! — e lá vinha o youkaizinho serelepe a carregar um cesto quase de seu tamanho, cheio de pêssegos. Assim que chegou perto das garotas, despejou as frutas desmazeladamente.
— Obrigada, sapinho. — Annabelle afagou o chapéu dele e mirou os frutos imersa em nostalgia. Certa vez, ela apanhara pêssegos para amigos muito queridos...
— Ora, mulher, eu já disssse que... — iria se afetar, como todas as vezes, contudo a olhou bem e por alguma razão, suspirou e se acalmou — Ah, deixe para lá! — sentou-se resignado.
A criança do grupo se deliciou com as frutas, a adulta comeu apenas uma e malmente. Rin ofereceu-lhe mais algumas, insistiu para que comesse, e Annabelle negou com educação, dizendo-se satisfeita. Notando a amiga cabisbaixa, a garotinha teve a ideia de colher algumas florezinhas brancas de uma moita ali perto, e então, ao retornar, pediu para trançar os fios alaranjados da estrangeira.
— Mas é claro, pequena Rin, eu vou adorar! — ajeitou-se, sentada ao chão. A pequenina sentou sobre uma pedra logo atrás e começou a dividir as longas ondas em partes.
— Seu cabelo é tão lindo, senhorita Anaberu... — comentou encantada — como o Senhor Sesshoumaru, a senhorita tem uma beleza rara. — sorriu.
— Assim você me deixa sem graça. — riu ligeiramente embaraçada.
— Você e ele até combinam. — a garotinha deixou escapar.
— Rin, mas que absssurdo! — Jaken resmungou.
— Mas é verdade, senhorita Anaberu e senhor Sesshoumaru formariam um lindo casal, e ela poderia ficar com a gente para sempre! — os olhos brilharam sonhadores.
— Pequena Rin, mas que ideia! — Annabelle gargalhou espontânea — Me desculpe, mas não posso ficar com o seu querido senhor Sesshoumaru, e ele também não iria querer me ter como companheira.
— Ué, mas por quê?
— Você é muito jovem para entender... — passou a mão pelos cabelos, sentiu pequenas flores a adornar o trançado feito com cuidado — Obrigada pelo penteado.
— Sssenhor Ssseshoumaru... — Jaken, empalidecido desde o primeiro comentário inusitado, apontou para trás das garotas a sussurrar, mostrando-lhes que o mestre estava ali, silente, a ouvir os devaneios da mais nova.
Annabelle virou-se e o encarou serena. Notou que a manga do nobre quimono fora consertada e sorriu. O imponente youkai branco não se pronunciou a respeito do que ouvira, resumiu-se a perguntar se a febre passou e ela assentiu com um meneio de cabeça.
— Vamos. — então ele anunciou ao grupo e caminhou na frente, Arurun os esperava adiante.
Antes de partir com eles, Belle olhou para trás como se procurasse algo além das árvores. Como não avistou nada, partiu a andar um pouco desorientada, mirando a trilha debaixo dos pés, porém nenhuma pedra ou fio de grama chamava a atenção de seus olhos opacos.
Um afago – eram os dedinhos de Rin contornando os dela, segurando delicadamente a sua mão. Vislumbrou através da menina a inocência e uma luz similar a que ela sabia ter perdido.
"Eu só quero que isso tudo passe..." — fechou os olhos por segundos, viu o amor que falecera e duvidou até mesmo de ainda sentir algo de bom por ele.
Desejou esquecê-lo e quebrar uma promessa. Balançou a cabeça, apertou o passo.
As horas foram correndo, o sol que já se mostrava fraco desde o início do dia, sucumbia mais e mais às nuvens, no entanto não chovia. A rotina se seguiu como nos outros dias, sem muitas palavras do líder da trupe, brincadeiras e gargalhadas de Rin e o mau humor costumeiro de Jaken.
Um pouco atordoada, Annabelle anunciou que tomaria um banho e logo estaria de volta. Mentia, e não estava acostumada a fazê-lo. A criança humana aproximou-se com a preocupação estampada nos traços, ao vê-la naquele estado a ocidental não pôde fazer outra coisa a não ser ajoelhar à sua frente e abraçá-la de supetão.
"Em uma outra vida, quem sabe, pequena Rin..." — respondeu à sugestão dada pela garotinha há minutos atrás — Cuide do senhor Sesshoumaru. — e lhe sussurrou ao ouvido, como se fosse um segredo, todavia sabia que ele tinha ouvido, pois a fitava de canto, recostado em uma pedra — Até mais! — soltou-a apressada e correu para dentro da mata, cobrindo o rosto com um dos braços. A amiguinha fez menção de segui-la, e então seu tutor mirou-a incisivo, deixando claro que não deveria fazê-lo.
— Sinto que a senhorita Anaberu não vai voltar para nós. — ela disse a conter o choro.
— E quem quer que ela volte?! — Jaken se fingiu de indiferente.
Sesshoumaru nada disse, simplesmente ergueu o rosto ao céu e manteve-se firmado nas nuvens cinzentas. Jamais alguém desvendaria o enigma que eram os pensamentos do irmão mais velho de Inuyasha.
Annabelle correu por entre as árvores, levando alguns galhos e folhas consigo, encardindo o quimono claro. Largou as botas pelo caminho, parou quando se deparou com o prometido: um inseto no meio da brenha, a chamá-la num zumbido. O mundo parou de girar naquele instante – poderia jurar. As turquesas arregaladas fincaram-se naquela criatura alada e a boca alargou-se, ansiando por ar.
Ofegante, voltou a mover-se, dessa vez devagar, e seguiu a abelha-youkai como se estivesse hipnotizada. Atravessaram o verde desbotado como o firmamento nublado e pararam quando o vento se agitou.
"É ela" — a mocinha arruivada selou as pálpebras inchadas e respirou fundo, aproveitando a sensação de ser agraciada pela brisa.
— Você veio. Inacreditável... — A cria mais jovem de Naraku pousou, sentada dentro de sua larga pena ebúrnea — Por que, garota? — embora não simpatizasse com a humana, precisava fazer a pergunta. Não conseguiria compreender, mesmo se tentasse, Annabelle desperdiçar a chance de viver uma vida protegida por Sesshoumaru para ir ao encontro do hanyou odiado por todos.
— Leve-me até ele. — ignorou a indagação e desfilou até a pena, sentando-se atrás da mensageira. Seus globos celestes não se fixavam em nada.
Kagura a analisou por mais alguns segundos, e parou ao concluir que a mulher não tinha nada a perder – exceto a alma.
Voaram longe, contra as nuvens e contra o prenúncio de uma tempestade. Pararam sobre um casebre de madeira numa montanha, protegido por uma barreira púrpura.
— Ele está lá. — Kagura anunciou, fazendo o transporte pairar em frente à sacada da pequena construção.
Anna desceu cautelosa, tocou os pés ao piso de madeira, pousou as mãos à porta e fechou os olhos por instantes. O coração palpitava desesperado e uma tontura repentina a consumiu, fazendo-a cambalear. Seria o miasma a amortecendo? Não, a brancura a protegeria hoje e sempre, nunca o veneno do assassino de Hitomi conseguiria sobrepujar a aura pura de uma descendente das fadas. Era a luxúria que a estremecia dos pés à cabeça, combinada à ansiedade de finalmente realizar uma fantasia proibida.
Ela fizera a escolha.
Abriu a porta abruptamente, causando espanto no ser que lá dentro estava. Naraku virou-se ágil e ficou de frente para a sua convidada. Como no último encontro, apenas a manta branca o cobria e os fartos cabelos estavam soltos, esparramados sobre o peito. Ela o fitou de cima a baixo, arfante, a mão ao seio angustiado que subia e descia tentava conter o impossível. Os olhos rubros expressavam surpresa, bem como os lábios mudos e entreabertos.
Ao notar que ele não se moveria ou diria uma palavra, Annabelle, cautelosa, entrou na cabana de um só cômodo – vazio – e fechou a porta. Não ousou chegar perto, porém. Deixou os braços rentes ao corpo, a mostrar sua postura desarmada e inofensiva. O dia iluminado chocava-se com a noite sombria naquela troca de olhares incessante, sem uma piscadela.
— Então, você veio... — sussurrou desacreditado e ousou dar o primeiro passo para uma aproximação.
A criatura infernalmente desejada por ele, em vez de respondê-lo com uma frase, tratou de desamarrar calmamente a faixa rosada do vestido oriental. Um pequeno sorriso embasbacado se formou nos lábios pálidos do híbrido, os olhos expandiram-se brilhantes, resgatando o dia em que ele a possuíra pela primeira vez, disfarçado de humano. Através do gesto de se desfazer do obi, Annabelle trouxe à tona a bela cena de suas delicadas mãos a desatarem o laço e a tirarem as fitas dos ilhós do espartilho, e se Naraku achava que a situação não poderia se intensificar, a voz da mulher entoou algo o entorpeceu:
— Eu me rendo. — a faixa caiu graciosamente ao chão e os dedos feminis afastaram sem pressa o tecido sedoso que cobria seus seios redondos e empinados. — Corrompa-me. — Num movimento com os ombros a roupa desceu, desvendando a fronte dela por inteiro, e por fim, ao esticar os braços para baixo a peça caiu feito uma cortina a se abrir. Num ombro e na coxa jaziam as lascas da manga de Sesshoumaru a cobrirem as chagas causadas por Kikyou.
Naraku balbulciou qualquer coisa, e desistiu antes de o som formar qualquer sentido. Por trás do olhar lascivo, um resquício de raiva sobrevivia graças aos trapos sobre as feridas de flecha. Ele respirou fundo, buscando dentro de si alguma serenidade. Ela se entregara, enfim, e ele tinha o que queria diante de si. Por que se aborrecer com o que se passara entre ela e o Youkai Branco? Finalmente, a euforia o fez arrancar o único tecido que vestia apenas com uma mão. E então, na mesma condição que ela, em um salto parou tão próximo da humana que suas respirações se misturaram. Seus olhos não se separavam dos dela, como se estivessem presos e como se desejassem encontrar por trás do azul-turquesa um vacilo, qualquer traço de fingimento. Nada. Convicção transbordava do semblante e da primeira atitude – vinda da mulher – de envolver a nuca do aracnídeo, laçar os dedos nas madeixas negras e beijá-lo com urgência, selando os corpos despidos e afoitos. Naraku tentou se apartar para falar, Annabelle o puxou e grunhiu:
— Quieto. — e o beijou novamente, com tamanho ardor que o desarmou antes mesmo de pensar em reclamar, e acendeu seus instintos.
Os dedos dele cravaram-se na trança tão bem tecida e trataram de desfazê-la sem muito zelo, as pequenas flores tombaram dos fios de fogo ao chão e foram levadas pelo vento. Depois, no mesma afobação, rasgou as bandagens improvisadas e arrastou os dedos sobre os trechos da pele que nem parecia ter sido rasgada por lâminas sacerdotais – internamente, agradeceu à Joia por tê-la curado e amaldiçoou Kikyou por tê-la ferido.
Enquanto isso, a humana persistia a rolar a língua sobre a dele, inundando-o de paixão. Por trás dos baixos gemidos o desespero da escocesa se camuflava, uma lágrima rolou do canto de um dos olhos espremidos e escorreu pelo queixo. Naraku segurou-lhe o rosto com as duas mãos e cessou o ato para encará-la. Nas feições do hanyou uma grande interrogação se desenhou, e quando sua protegida intentou colar a boca à dele, a conteve, amassando as maçãs quentes nas palmas.
— Annabelle, você...
— Shh! — tocou a ponta dos dedos nos lábios afoitos e os selou — Não é hora para isso, por favor.
— Mas você...
— Eu quero, está me ouvindo? — cativou os ombros dele com força e o puxou, atritando os corpos — Então não fale, apenas faça. — a doçura se transmutou em autoridade — Você não me fez vir aqui à toa, ou fez? — desafiou-o sem temor algum de encontrar os olhos seus — Cumpra o prometido, me faça esquecer de tudo, já não me importa mais... — afagou o peito rijo, roçou os beiços rosados aos dele, cativando-os entre suspiros, suplicando em pensamentos para que nada mais fosse dito, que a razão cedesse por completo.
Naraku estremeceu por dentro e por fora. Não sabia descrever a sensação de tê-la rendida, tampouco poderia dizer se era boa ou ruim. Mas, se ela pedia tanto por aquilo e o hanyou já estava cansado de esperar, para quê desperdiçar a chance? Certa vez ele mesmo dissera ser inevitável, e o que tanto se adiara finalmente aconteceria. A mente e o corpo da criatura estonteante eram seus. Então, das costas dele um fio de seda surgiu e subiu ao teto do casebre. Naraku agarrou Annabelle com firmeza e saltou trazendo-a consigo. O fio translúcido, embora fino, tinha força para empurrar o telhado e fazê-lo se destituir em pedaços, um campo de força rosado os protegeu dos escombros a cair. A rosa despetalada cerrou os olhos e amorteceu as juntas, deixou-se guiar até onde quer que o perverso inimigo de Inuyasha a levasse. Sentiu as costas colarem-se em algo macio, bem como os braços abertos, as mãos e as pernas. Estava presa e não se importava, também não se assustou ao sentir a rede por trás se balançar ao ter o araneídeo caído por cima dela.
Enfim, abriu os olhos, constatando o que já sabia: estava atada a uma grande teia tecida por ele, sustentando-se no alto de árvores imensas cujas copas atravessavam o nevoeiro. Ao redor deles uma barreira os tornava invisíveis para o resto do mundo. Naraku, envolto pelo youki esmagador, deu início ao cumprimento do combinado, arregaçando a boca da humana com um beijo enquanto alisava-lhe o seio onde o fragmento estava escondido.
Os olhos azuis reviraram, a brancura oscilou, as pernas já abertas aumentaram ainda mais o espaço, os dedos dela se enroscaram em alguns fios daquela orvalhada obra arquitetônica. Já não via nada a frente, apenas sentia a língua morna dele abandonar a sua e escorregar do canto da boca ao queixo. Dentes roçaram-se à pele de lá ao pescoço – lugar onde a língua faminta quis explorar uma vez mais e se lembrar da textura sensível, da doçura da pele. Annabelle conhecia o percurso a seguir: Naraku foi descendo sem pressa pelo colo ofegante, espalhando beijos pelo rastro molhado e fazendo-a arfar em resposta. Até que a mão dantes a alisar um monte, cativou-o com firmeza e circundou o mamilo endurecido com o polegar. Com tão pouco, a mulher delirou em êxtase e sua genitália palpitou – mais uma prova de que o tal caco da Joia não deixara de fazer seu trabalho. Grato à pérola, o grande vilão sorriu e tomou aquele monte dentro da boca, sugando o bico róseo numa vagareza torturante, perpassando a língua por cada milímetro da auréola. O aroma libidinoso a escapar pela fresta molhada serviu-lhe de incentivo para fazer o mesmo com o outro seio antes de traçar novo caminho – inédito para ambos – descendo pela barriga eriçada e leitosa, provocando tremeliques.
— O que você está fazendo? — ela perguntou em tom de protesto e excitação. Naraku persistiu a descer pelas curvas sensibilizadas e parar diante à porta melada. As mãos nada cerimoniosas seguraram as coxas roliças de Annabelle antes mesmo de elas tentarem endurecer e proteger a entrada. Mesmo presa, a escocesa esforçou-se para inclinar a cabeça para baixo e ao conseguir, vislumbrou-o a encará-la sorridente, uma parte do rosto era encoberta pelas ondas escuras. — Naraku? — indagou e ele retrucou com uma singela lambida no clitóris intumescido, fazendo-a ver estrelas e rememorar dos sonhos em que ele e o amado falecido se confundiam. Estranhamente, a lembrança não despertou qualquer tipo de melancolia. O instinto adormeceu a consciência.
— Quem domina a situação sou eu, Annabelle Rose, nunca se esqueça disso. — disse em tom arrastado, enquanto largava uma das pernas dela para perpassar os dedos pelos grandes lábios molhados e abri-los, assim sua língua voraz tinha melhor contato com o botão inflado e o circundava.
— Está se vingando de mim... — disse em meio a gemidos prazerosos. A língua, então, adentrou a brecha que a tal ponto já se mostrava bastante receptiva. — Não pare.
Ele deixou escapar um riso enquanto experimentava a textura cálida e pulsante e sugava os fluídos que escapavam, atestando o quão enlouquecida ela estava. Depois de molhá-la bem, introduziu um dedo em seu interior e tornou a lamber e lambuzar o clitóris em brasa. A presa, vulnerável, se tremeu em frenesi, fazendo o suporte do casal balançar. O hanyou encontrara o ponto certeiro e manteve o ritmo da carícia até o orgasmo vir avassalador. Anna perdeu o controle sobre si, a voz escapou tão selvagem quanto os sacolejos do corpo.
Se ela achava que a vingança por tê-lo imobilizado e abusado se findara, enganava-se redondamente. Naraku não cessou as lambidas e sucções até que os fluidos respingassem da teia e se perdessem no nevoeiro. A fez chegar ao limite mais de duas vezes, e quando a pobrezinha já quase perdia o juízo, ele parou, acomodou-se sobre ela e mirou-a nos olhos, sorridente.
— O que está esperando? — perguntou impaciente. Naraku permaneceu calado — Não é hora para jogos! — resmungou e tentou soltar os braços, afoita.
— Oh, quer me tocar? — a teia ao redor dos pulsos tornou-se mais espessa — Que pena... não é mesmo? — empurrou singelamente a glande pulsante adentro da feminilidade ardente e escorregadia.
Annabelle rosnou:
— Maldito! — se soara como ofensa? Claro que não. — Pare de enrolar!
— Quanta pressa... — debochou. A luxúria desesperadora dela o animava ainda mais, líquido translúcido respingava de seu sexo rígido — Está bem, eu darei o que tanto quer. — e a invadiu de todo, em uma única estocada animalesca. O corpo dele tombou sobre o dela, espremendo os seios redondos debaixo do peitoral retesado.
Ela gritou aplacada pelas tantas sensações. Conforme ele saía e se enterrava outra vez, os pensamentos recentes transformavam-se em borrão. Era o ofício de fazê-la esquecer-se de tudo? Ou era simplesmente a sua alma cedendo à tentação? Quis tanto agarrá-lo, mas mesmo que sua aura queimasse, não conseguia se libertar dos fios. Enquanto isso, Naraku a deflorava descomedido, ia ao fundo do canal encharcado sem cerimônias, girava-se por dentro a cutucar as paredes, apertava-lhe os seios com ardor e mordia-lhe o pescoço e os ombros, marcando-os de hematomas.
— Eu quero tocá-lo! — à aquela altura não conseguia falar nada sem ser no grito.
O hanyou não respondeu com palavras, e sim com grunhidos. Estava diferente, parecia fora de si. Annabelle fitou-o nos olhos e notou o vermelho a brilhar intensamente enquanto o youki a envolvê-lo se intensificava. Longas patas negras e pontiagudas rasgaram a queimadura nas costas de Naraku e abraçaram a humana enquanto as mãos do sujeito se ocupavam a apertar-lhe as nádegas, puxando-a pelos quadris e fazendo-a se remexer.
— Naraku! — clamou pelo nome. Sentia uma dor aguda perpassar por todo o corpo, ao mesmo tempo o prazer a dominava até o último fio de cabelo.
A vista ficou turva a ponto de ver o amante duplicado, sentiu as costas arderem, depois uma forte sonolência confundiu os sentidos. Relutou enquanto pôde, o fragmento a potencializar suas sensações a fez atingir o ápice mais algumas vezes antes de Naraku grunhir ensandecido e a inundar até transbordá-la. O gozo não o impediu de continuar o ato delicioso e tortuoso, maculando-a como sempre quis, arrastando pele sobre pele. Annabelle jurou vê-lo lutar contra os demônios interiores, as veias do pescoço dele saltavam esverdeadas. Era o corpo ansiando por tomar a forma real? Afinal, ele tinha sangue de youkai. Não importava, os questionamentos cessaram quando os olhos dela se fecharam derrotados. Suas energias foram sugadas durante o ato sexual, o fragmento da Joia dentro de si se acalmou por um tempo e permitiu que ela descansasse. Naraku acomodou-se sobre ela e controlou a respiração até retomar a razão. As patas recolheram-se, deixando-o em sua forma humanoide de sempre. Por instantes, o meio-youkai deitou o rosto no peito da jovem e escutou o seu coração bater deveras cansado. Ele suspirou e ergueu o rosto no intuito de mirar o dela, desacordado.
"É humana, afinal..." — afagou o rosto empalidecido — "Talvez tenha sido demais para você" – cativou-a nos braços com cuidado. Tomou impulso com os pés e saltou para dentro da cabana com a bela adormecida em seu colo. Reparou no quimono azulado jogado ao chão e deixou escapulir um suspiro de desagrado. Cobriu-a com a sua manta de babuíno. A levaria para sua antiga e nova morada – o castelo. E lá, havia de resolver o que fazer com a humana. Sequer pensou como tudo se sucederia caso ela aceitasse sua proposta. Tornar-lhe-ia uma escrava? Mirou-a descansar serena enquanto a levava dentro de sua barreira flutuante, perdeu-se por segundos naquele semblante vulnerável e deu-se conta: não mentiu quando propôs fazê-la sua companheira.
Adentrou a grande e sombria construção sem dar importância às crias e ao servo humano que o fitavam reticentes, levou a mulher até o quarto onde ela costumava dormir no tempo em que Hitomi ainda respirava e deitou-a no leito preparado para ela. Sentou-se ao lado e ficou de guarda.
Essa mulher vai destruí-lo. — as mesmas vozes que lhe sussurravam ideias tentavam fazê-lo enxergar o que deveria importar. Tentaram fazê-lo pensar em Kikyou, em Inuyasha... e falharam. Abrupto, o araneídeo arrancou a peça de seu ombro e a jogou no piso de madeira. A pérola opaca rolou sobre o assoalho até bater num canto à parede. Pela primeira vez desde que Naraku adquirira seu primeiro fragmento, a Joia não conseguiu dominá-lo.
Ele só enxergava uma coisa, e ela estava ali, a dormir um sono conturbado.
"Eu a escolhi". — concluiu, acreditando ter deixado para trás o amor não correspondido por uma sacerdotisa.
Continua...
É gente, eu demorei para voltar, mas também cheguei logo com umas 8000 palavras. Como dizem aqui na minha terrinha: TOMA-TE! Hahahahaha
Espero do fundo do coração que vocês tenham gostado do que leram aqui, desde que comecei a escrever essa fic já tinha o distinto hentai desenvolvido na minha cabeça e embora eu o tenha achado interessante, foi um pouco difícil construí-lo porque, não sei se vocês sabem, mas tenho fobia de aranha...
Bom, tudo por amor a causa. Né? Eis o resultado, e tudo o que posso dizer é que daqui em diante Naraku terá muito a aprender sobre a vida e sentimentos. Ku ku ku!
Kissuuus e obrigada por acompanharem até aqui!
