Antes de começar o capítulo, primeiramente, boa noite pessoal!
Em segundo, deixo um agradecimento especial para Alexiz tutsi por começar a acompanhar a fanfic e lê-la em Português, mesmo não sendo a sua língua materna. Estou super feliz!
Agora, espero que gostem do que se seguirá, não falarei muito porque não quero dar nenhum SPOILER, apenas aponto para o detalhe importante: 18+
Pronto, estão avisados. Boa leitura!


Capítulo 26 - A perdição dele

Kikyou caminhava com dificuldade, as pernas estavam atoladas até os joelhos dentro do brejo. Usava um cajado de madeira para ajudar nos movimentos enquanto focava os orbes negros em uma árvore de tronco espesso, adornada por musgo e névoa.

Assim que a sacerdotisa alcançou uma das raízes levantadas acima da lama, se encostou para descansar. Uma espécie de porta se desenhou no fuste úmido e se abriu, convidando-a. Desconfiada, a vida passada de Kagome puxou o arco vermelho das costas – resgatado por ela depois do conflito com Annabelle – e encaixou uma flecha – catada do fundo do rio – na corda.

— Isso não é necessário, sacerdotisa. Não tenho a menor intenção de entrar num embate com você. A voz ressoou de dentro, aparentemente calma.

Kikyou adentrou a porta que na verdade era um portal. Ao atravessar a luminescência verdoenga, viu-se dentro de uma toca – ou algo similar. As paredes eram um construto de rochas e plantas, não havia mobília, apenas uma grande fogueira no centro a esquentar um caldeirão negro cheio até o talo. Ao fundo, a mulher encapuzada de outrora estava recostada.

— Bem-vinda ao meu humilde lar, sacerdotisa. então ela baixou o gorro, revelando os cabelos dourados e olhos de céu aberto, como os da jovem arruivada que Kikyou tentara assassinar.

— Vocês são quase idênticas... comentou ligeiramente perplexa Se não fosse o seu cabelo...

— Ah, sim, já me cansei de ouvir isso. Podemos pular essa parte? deu a volta no caldeirão, se achegando à visitante.

— Você me atraiu até aqui, não foi?

— E você tentou matar minha irmã. Afirmou rançosa. Kikyou estreitou os olhos e estranhou o riso amargo da ocidental Coitadinha de você.

— Do que se trata isso tudo, garota?

— Abaixe isso e podemos conversar. apontou o indicador para a seta prateada, mirada para si desde o instante em que a miko chegara.

Um pouco relutante, Kikyou acatou ao pedido dela, sem nunca deixar de estar na defensiva, porém.

— Sacerdotisa, eu sei quem você é. Mas você não me conhece, por isso me apresento: me chamo Ailyn Rose, e como pode ver, sou irmã de Annabelle e sua única parente viva. Acredito que queira saber por que a atraí até mim, não é mesmo?

Kikyou meneou a cabeça num aceno positivo e esperou pelo que viria. Ailyn sorriu satisfeita e se pôs a frente do caldeirão borbulhante, na beira do objeto ela pousou as mãos e embora a matéria-prima incandescente pudesse causar queimaduras horrorosas, nada aconteceu com a pele por debaixo das luvas de veludo. A pedra esverdeada do anel cintilava.

— O que tem para me contar? como a outra, pôs-se de fronte ao recipiente pelo outro lado.

— Para contar? Não... farei melhor, vou mostrar. o líquido parou de se remexer num súbito e ficou estático, sua coloração transmutou do escuro para tons espelhados, permitindo que Kikyou visse através dele o próprio reflexo de primeira, e em seguida a imagem de duas meninas, uma ruiva e outra loura, num bosque qualquer.


Annabelle abriu os olhos de uma vez e sentou-se esbaforida. Sentiu uma pontada às costas, roçou os dedos de uma mão na região da lombar e sentiu um corte, estava ferida. Os acontecimentos de horas atrás ainda pareciam borrões, ela duvidava de sequer terem acontecido e então se deu conta de onde estava – ao baixar os olhos, notou que a manta a cobri-la fora tecida por ela mesma, continha bordados delicados de uma rosa vermelha e outra branca, ao olhar para o lado deparou-se com sua harpa dourada, e logo adiante estava a arca com suas antigas roupas. Tudo permaneceu exatamente como era, sem nada a faltar. Era o seu quarto – ou melhor – seu cativeiro de luxo.

A escocesa recordava de tudo, para sua infelicidade. Lembrava-se detalhadamente do que vivera com Hitomi e de como, enfim, se rendeu à teia de Naraku. Não saberia decifrar o que sentia sobre as últimas horas, mas de uma coisa ela sabia: não havia remorso em seu coração, e talvez por isso ela se odiasse um pouco mais...

"Por que ele não apagou minhas memórias?" — indagou-se confusa. — "E eu realmente quero esquecer?" parou ali, pois refletir além traria uma dor de cabeça indesejável.

Apática, deu passos arrastados até o instrumento musical e dedilhou uma corda. Alguém bateu à porta.

— Quem é? sem dar importância ou se virar para ver, foi só o que disse.

— Senhorita? uma voz juvenil, ligeiramente familiar, soou antes de a porta ser arrastada para o lado O senhor Naraku me mandou buscá-la, Kagura preparou um banho. ajoelhado ao chão em pose respeitosa, o menino não ousou levantar a cabeça, pois com o canto dos olhos notara-a coberta apenas pela manta aveludada.

— Kohaku... virou-se surpresa e comovida com a presença do menino. A imagem do pobrezinho ofuscado pelos comandos de Naraku, pronto para retirar o fragmento das costas, e a lembrança do sofrimento de Sango fizeram o coração da hóspede congelar dentro do peito. Annabelle foi até o rapazote e abaixou-se diante dele, tocando-lhe o ombro Está tudo bem. disse serena, fazendo-o ruborizar ainda de cabeça baixa e olhar distante Vestirei alguma coisa.

Ele, reverente, virou as costas para que ela se sentisse à vontade e se vestisse. Belle não quis perder tempo com todas as camadas de roupa, portanto pegou uma de suas túnicas claras e cobriu-se de modo a permanecer confortável, pois o corpo todo ardia e logo estaria nu outra vez, submerso em águas mornas. Enfim a trajar alguma coisa, permitiu-se ser guiada pelo aprendiz de exterminador através do corredor escuro e de ar pesado.

— Kohaku, posso fazer uma pergunta? durante o percurso, perguntou ligeiramente curiosa.

— Sim, senhorita. a voz se manifestou tímida.

— Você tem algum resquício de memória sobre a sua vida antes de viver nesse castelo?

— Não, nada... respondeu reticente.

— E como você se sente em relação a isso? não conseguiu se conter, e de repente uma pergunta se transformou em duas.

— Eu não sei senhorita, acho que não me importo. o tom permaneceu calmo e submisso.

— Não fica nem um pouco triste com isso?

Ele parou, virou-se de frente para ela e mirou-a confuso.

— Tem algo importante de que eu deveria me lembrar, a senhorita sabe? um brilho diferente reluziu nos orbes castanhos de Kohaku.

— Ah, não... eu... "Sango, ele precisa se lembrar dela!" quero dizer, queria saber como se sente, se não o angustia se lembrar de nada, de sua família, se tinha pais e irmãos...

— Algo dentro de mim me diz para não lembrar, ou sofrerei muito com isso. confessou, a presença daquela mulher trazia-lhe estranha paz interior e sensação de acolhimento. Poderia jurar que naquela escuridão ela era a única luz.

— Então se sente melhor por não se lembrar de nada?

— Sim. Afirmou pontualmente Vamos, senhorita? Kagura está esperando.

— Claro, me desculpe por fazer tantas perguntas, não queria deixá-lo desconfortável.

— Não tem problema. Reverenciou-a e retomou o andar, Annabelle fez o mesmo.

Pararam diante de uma porta aberta, dentro do cômodo expansivo havia uma banheira redonda feita em madeira. Kagura, impaciente como sempre, aguardava de braços cruzados, as costas escoradas na parede encardida.

— Kohaku, antes de entrar e ter que lidar com a cria temperamental de Naraku, falou-lhe uma vez mais depois vá ao meu quarto para conversarmos, eu posso tocar uma música para você, se gostar. Sorriu.

— Ah, sim... senhorita! surpreso e vermelho até o talo, o garoto sorriu bobamente e depois se retirou às pressas. Não perdera o jeito de criança no fim das contas.

"Ele é só um menino e sua inocência permanece intacta. Seria por que perdeu a memória?"

— Não ficarei aqui o dia todo, muito menos sou sua empregada para te dar um banho! o resmungo da Mestra dos Ventos cortou-lhe os pensamentos.

— Bom te ver também, simpatia de pessoa. Depois de um longo suspiro, Annabelle fez a piada seca e entrou. Pode ir, eu me viro sozinha.

— Naraku mandou que eu ficasse de olho em você.

— Então fique quietinha aí, não precisa fazer nada. disse, menos impaciente do que a outra, mas também sem muito humor.

Desfez-se da túnica e subiu os degraus que a levariam à borda da banheira. Kagura, a observá-la, tapou a boca com uma mão na tentativa de abafar uma interjeição.

— O que foi? a humana perguntou, acomodando-se dentro da água quente e perfumada que lhe proporcionava algum alívio.

— Você já viu o estado em que suas costas estão? Como consegue se mover sem morrer de dor sendo uma simples mulher?

Annabelle não podia ver como estava por trás, no entanto enxergava marcas nos pulsos e tornozelos, o pescoço e o ombro doíam e deveriam estar cheios de hematomas. Aquilo, sinceramente, não significava nada para ela. Tratou de lavar o corpo e suas chagas, sabia que o tal fragmento faria o trabalho de curar a pele, dor maior jazia na alma.

Feixes das horas de carícias tórridas se pincelaram na memória fazendo-a semicerrar os olhos e afundar-se toda na água. Tamanho prazer carnal era arriscado causar vício. Outra vez, ela pouco se importava. Emergiu ofegante, saiu do banho e secou-se com pressa. Kagura entregou em suas mãos um vestido no mesmo molde dos outros seus.

Humpf, não acredito que Naraku perdeu o tempo precioso dele mandando fazer roupas para você. Acho que foi ciúmes por causa do gesto de Sesshoumaru. riu-se enquanto mostrava-lhe um longo vestido branco com detalhes em madrepérola, acompanhado de um elegante espartilho rendado e uma camada interior de seda quase transparente.

A moçoila não deu uma palavra, resumiu-se a tomar a veste delicadamente para si. Kagura entendeu o gesto como um pedido de privacidade e saiu a dar de ombros, porém, antes de ela partir de vez, a voz suave chamou-lhe a atenção:

— Eu não desejo mal algum a você, Kagura. Não há razão para que seja tão ácida comigo, jamais farei algo para prejudicá-la.

A youkai a fitou de soslaio e deixou-a sem resposta. Saiu às pressas a batucar os pés na madeira. Annabelle compreendeu aquilo como um ato de rebeldia e não deu muita atenção. Preocupou-se em iniciar o ritual de se vestir, outra lembrança vívida era o trabalho que roupas de sua terra costumavam dar para se pôr. Enfim, depois de cada peça e camada adornarem-na, a ocidental passou a mão pelo tecido da saia e pelas fitas que iam da barriga aos seios. Rodopiou sem muito ânimo, ajeitou os cabelos ainda úmidos e parou, mirando o nada com seus lindos olhos vazios.

— Ficou bem melhor assim. A voz de Naraku soou da entrada.

Ela se virou devagar até estar de frente para o dono de seus pensamentos. Cogitou questionar a razão de suas recordações ainda existirem, todavia a visão de seu captor inibiu a possibilidade de formular qualquer raciocínio.

O hanyou veio em traje formal – quimono arroxeado, cheio de bordados –, os cabelos estavam metade presos ao topo da cabeça, tornando-o a digna imagem de um senhor feudal. A quentura a consumiu uma vez mais, o fragmento pulsava em seu peito entorpecendo-a, incentivando-a a dar passos afoitos até ele, mas antes que o fizesse o próprio dono do castelo tratou de se achegar. Quando estavam diante um do outro, sem sorrisos, olhos vidrados, ele perguntou:

— Está arrependida?

— Não. respondeu de pronto.

Os rubis cintilaram surpresos e satisfeitos, a mão subiu cautelosa até o cristal de lua no pescoço delicado e o contornou. Naraku demonstrava-se ansioso por uma conversa, já Annabelle queria adiar a troca de palavras o máximo possível, a ponto de sequer questionar a razão de a Joia não estar no mesmo lugar de sempre – sim, ela percebera a ausência da energia, contudo não se importava. As turquesas devoravam-no sem cerimônias e isso, de certo, não o desagradou. Ela o puxou pelos ombros e selou um beijo estalado. Animado, o meio-youkai envolveu a tênue cintura enquanto a induzia a abrir a boca e recebê-lo.

Annabelle roçou o corpo ao dele propositalmente, espremendo-o contra si.

— Você precisa de tempo para se recuperar... avisou-a num sussurro.

— Eu quero que me possua já. Foi incisiva. O calor intensificou no peito e entre as pernas. O simples toque apertado dele, a respiração chiada e a voz desatinavam os sentidos da estrangeira...

O largou de súbito. Encaminhou-se à parede e encostada lá, subiu a saia até o início das coxas, exibindo cada milímetro das pernas torneadas e entreabertas.

Era um convite.

Naraku alargou o sorriso perverso e não resistiu um segundo mais. Abriu a faixa a prender-lhe as calças, abaixou-as o quanto foi conveniente e partiu rumo à satisfação de seu desejo. Cativou-a pelos quadris e a suspendeu. As pernas dela enlaçaram-no pela cintura. O falo pulsante se meteu para dentro sem sobreaviso, surrupiando um grito agudo da goela humana. Uma mão dela alisou as costas escondidas pelas fartas ondulações escuras e por camadas de roupa, a outra espalmou uma das nádegas do araneídeo e o empurrou para si, implorando que se enterrasse no pequeno abismo molhado. Tão logo ele se punha para a beirada da entrada, ela o compelia a se colocar totalmente dentro, apertava-o entre as pernas, arranhava a nalga redonda e leitosa, raspava os dentes e os lábios pelo pescoço dele, como se intentasse enlouquecê-lo do mesmo modo que ele a enlouquecia.

— Annabelle... grunhiu suplicante Não me provoque. E ela o prensou entre as pernas com mais intensidade, ao passo de que seus grandes lábios se comprimiram, pressionando o sexo faminto de Naraku.

O youki dele se espalhou novamente, fazendo-o prender a respiração para controlá-lo.

— Não se contenha. rosnou ao ouvido do hanyou.

— Não quero machucá-la. confessou em meio às estocadas vorazes que faziam as costas da humana arrastarem-se à parede.

— Não se contenha! exclamou, segurou a nuca do amante e beijou-o inflamada.

Outra vez, Naraku não conseguiu segurar seus instintos e sua voz misturou-se às várias outras que o compunham, fazendo-o rosnar como uma fera enquanto a adentrava com força, sem pena. Sua mão subiu pelo canto do corpo frágil e agarrou-se à cabeça flamejante, emaranhando-se nos cabelos, inclinando a face inebriada da mulher para cima para que ele pudesse afundar o rosto no vão entre o pescoço e o ombro. As fitas do vestido se afrouxavam por si só, com a fricção entre os corpos. Annabelle sabia que o ato perduraria por longo tempo, Naraku não era um simples humano e nem precisava fingir ser, não mais. Dessa vez ela se manteria acordada e firme, para usufruir e para perder-se naquele instante – o único que a fazia esquecer momentaneamente de todo o resto. Quando Naraku ameaçava controlar seus ímpetos, ela repetia incansável – Não se contenha! – e apertava-lhe o tecido que cobria a queimadura de aranha, lambia-lhe o rosto até encontrar sua boca e invadi-la.

Por mais horas a fio, ele a possuiu disparatado. Jogou-a ao chão, apoiada sobre os joelhos e os cotovelos, de modo que seus quadris arrebitassem para cima, e a esticar a pele das nádegas para os lados com os dedos, adentrou-a de novo e de novo. Depois, agarrou o rosto morno e trouxe-o para si, enquanto ele, ajoelhado, a penetrava com ardor. Os dedos livres enfim, com garras crescidas, arrancaram as fitas do vestido e do espartilho por baixo, abrindo espaço para se meterem por dentro do pano e terem contato com os seios, estimularam assim os mamilos dos montes balançantes e prensaram a carne macia, eriçada, em sincronia aos golpes certeiros e intensos. O movimento do saco escrotal a atritar-se com a fresta empapada o ajudou a provocar ainda mais estímulos – como se não bastasse o ínfimo caco de preciosidade – e a jovem não resistiu, rendeu-se aos espasmos de um orgasmo tão violento que a derrubou no chão. Naraku caiu por cima e persistiu a maculá-la até que ele próprio não mais suportasse e o gozo escapasse, borbulhando no íntimo de Annabelle.

Terminado o ato, o hanyou levantou devagar e reparou que o tecido branco às costas da escocesa avermelhara – era sangue. Apoquentado, a ergueu consigo e a despiu apressadamente. A humana lutava para se manter consciente, mas estava fraca. O sucessor de Onigumo sentou sua boneca de porcelana em um dos degraus da banheira e livrou-se da própria roupa para poder entrar nas águas perfumadas junto a ela.

Quando ambos estavam despidos, ele a mergulhou com cuidado, tendo o braço enfraquecido da Rosa Branca a envolver sua nuca.

— Você está ferida. disse a reparar os cortes nas costas quando a sentou entre suas pernas, virada para o lado oposto. Foram as patas pontiagudas de aranha que a abraçaram noutro dia, sabia. Nunca imaginou ser possível causarem tamanho estrago.

— Estou bem... Annabelle proferiu-se sonolenta, a cabeça tombava para frente e para trás, Naraku precisou segurá-la e pousar a nuca acobreada em seu peito.

— Não, você não está. E pode morrer se continuar por esse rumo. Lavou as feridas com zelo.

— Eu não me importo.

— Não diga besteiras! irritadiço, virou-a de frente para si e a acomodou sobre seu colo, cativando o rosto esquálido nas mãos O fragmento da Joia anestesia a dor e ajudará a se curar, mas precisa de tempo para se recompor.

— E nós... não poderemos? entontecida, questionou afoita.

— No estado em que se encontra, é só nisso que pensa? não pôde evitar um riso desacreditado. Sabia que Annabelle o desejava, só não imaginava que com tal veemência. Claro que aquilo lhe massageava o ego, todavia, por alguma razão Naraku não se sentia satisfeito. Não era o suficiente. Faltava algo, uma coisa que ele não saberia descrever...

Em vez de perder tempo a refletir sobre aquilo, pegou-a no colo, cobriu-a com os retalhos do vestido e trouxe-a consigo para o próprio quarto. Ela reconheceu o cômodo e outras lembranças vieram à tona – a vez em que ele a amaldiçoara com o tal caco de joia. Anna cerrou os olhos fortemente, contendo a torrente dentro deles. Sentiu-os quentes, bem como o nariz e a garganta.

— O que você tem? sereno, Naraku perguntou.

— Muitas memórias... — Ela engoliu o choro, não permitiu que uma lágrima sequer descesse e abriu os orbes atenuados, direcionando-os ao sujeito sentado a sua frente, enfim lhe ergueu uma mão. Deite aqui comigo. pediu fracamente.

— Annabelle, eu não sei se é uma boa ideia...

— Por favor e o tom dócil, unido ao toque da mão dela sobre a dele, o desarmou.

Ela estava diferente, e ele também. Os sussurros das vozes tortuosas pareciam distantes, a Joia, mesmo guardada em outro cômodo e não mais na carne dele, reluzia maldade e ressoava ecos de ambição, mas diferentemente de antes, o hanyou esforçava-se para ignorar os sinais.

Vai jogar tudo para o alto por causa do desejo que sente por uma humana? Deveria ter aprendido quando amou a sacerdotisa, tolo! a sinfonia persistia.

Naraku fez-se de surdo e acomodou-se ao lado de Annabelle, viraram-se de frente um para o outro e ficaram se olhando.

— Você dorme? a jovem perguntou.

— Raramente contou.

— Quando dorme, você sonha?

— Às vezes. Por quê? afastou alguns fios do rosto dela.

— Eu queria saber como são os seus sonhos... arrastou-se um pouco mais para perto, tocando o nariz ao dele.

— Não posso dizer que são agradáveis confessou. Chega dessa conversa, você precisa descansar.

— Naraku, o que pretende fazer comigo? ignorou a orientação dele e insistiu em falar, mesmo os olhos teimando em fechar. Ouviu-o respirar pausadamente, e não desistiu mesmo assim Escolhi parar de controlar meus ímpetos e me entregar a você, mas não quero confrontar as pessoas que me acolheram um dia. Não lutarei contra Inuyasha por você.

— Não arriscaria a sua vida desse jeito. Foi curto e grosso "A trouxe para cá, não tive coragem de apagar o seu passado e sequer pensei no que farei com ela... O que está acontecendo comigo?".

— Eu queria tanto que você parasse de persegui-los, que deixasse isso tudo para trás... os cílios se tocaram isso sim é um sonho bom que, infelizmente, sei que jamais se realizará.

Naraku abriu a boca para falar, eis que percebeu a mocinha ter dormido finalmente. Suspirou aliviado, se preparou para levantar, mas o braço dela o envolveu e a bochecha se colou ao peito dele. Não era impressão, ela buscou seu corpo para se aninhar. Sentia-se segura com ele, então? O que era aquilo, sentir o peito a espremer por dentro?


— Eu sinto o cheiro de Naraku! Ele esteve por aqui há pouco, eu sei! as narinas aguçadas do meio-youkai cachorro moviam-se frenéticas e ele explorava o local inóspito ao redor de uma cabana.

— Mas o que será que ele fazia num lugar como esse? Miroku subiu uma trilha íngreme a apoiar-se no cajado dourado. Parou em frente ao casebre de madeira e pôs a mão à porta.

— Não é só o cheiro de Naraku que está empesteando esse lugar. Inuyasha observou desconfiado Anna esteve aqui também.

Naquele dado instante, o monge abrira a porta que dantes tocava e já da entrada deparou-se com roupas femininas largadas sobre o chão.

— Annabelle? Kagome, com Shippou nos braços, perguntou confusa.

— E sabe dizer se eles estão por perto? Sango se manifestou tensa, a segurar a arma às costas.

— Será que ela decidiu ficar com ele? a colegial se angustiou Ou ele fez alguma coisa a ela?

— Naraku deve ter sequestrado Anna-hime! Só pode ser! Shippou se atiçou nos braços da mocinha de outra era.

— Eu não acho que Naraku a tenha levado a força. Miroku saiu de dentro da cabana trazendo o quimono azul e branco em uma das mãos. Entregou a peça nas mãos de Inuyasha e o hanyou tratou de cheirá-la. Dentre o forte aroma de Naraku, havia o estranho resquício do cheiro de seu irmão mais velho.

— Que nojo! as orelhas chacoalharam bem como o corpo. Ele atirou a roupa da estrangeira longe, deu as costas para aquele lugar e começou a andar Vamos sair daqui!

— Inuyasha, o que houve? Kagome correu atrás do companheiro Por que ficou tão nervoso?

— Eu nunca vou entender o que se passa na cabeça daquela garota, sinceramente! confessou.

— Ei, Miroku, o que está acontecendo? Sango perguntou em baixo tom, ao lado do rapaz.

— Parece que Naraku e Anna-hime andaram fazendo uma coisa que sinto muita falta de fazer. Olhou-a com um brilho diferenciado no olhar. Sango avermelhou dos pés a cabeça e acertou o ápice de seu osso voador no cocuruto do sujeito, presenteando-o com um calombo.

Constrangida com a postura infame do monge, a exterminadora apertou o passo para dentro do casebre de madeira e sem demora avistou farrapos de tecido no chão. Cativou-os nas mãos certa de que lhes eram familiar e saiu dali de dentro, unindo-se aos amigos.

Num rompante, o grupo todo fez silêncio assim que passos desapressados soaram sobre as folhas secas de uma trilha. O sujeito esguio parou diante de todos sem nada a dizer, os olhos preciosos miravam a peça de roupa atirada na terra.

— Sesshoumaru! Inuyasha esbravejou e pousou a mão sobre o cabo da Tessaiga.

Ignorando a histeria do irmão mais novo, o daiyoukai se ajoelhou e cativou o quimono na quietude costumeira.

— Hum... depois de cheirar bem o tecido, abandonou a vestimenta onde estava, tornou a ficar de pé, virou as costas para seu parente e trupe e começou a se afastar, sua silhueta enfim se perdeu dentre as árvores e arbustos.

— Tá, isso foi muito estranho! Shippou comentou empalidecido, por instantes sentiu descomunal medo.

Sango reparou os detalhes vermelhos no quimono claro do Youkai Branco, comparou a vestimenta dele com os retalhos em sua mão e teve a certeza de que eram feitos do mesmo material. Os olhos piscaram interrogativos enquanto a jovenzinha mostrava o que tinha em sua palma à colegial de outra era.

Kagome analisou os pedaços de pano à mostra, depois mirou o caminho por onde Sesshoumaru desapareceu e sentiu-o ligeiramente diferente, só não sabia explicar de que maneira. Ela ainda desconhecia o fato de o proprietário das Terras do Oeste ter adotado uma criança humana.


Abraçado à Annabelle, Naraku manteve-se vidrado nas nuances dela. Havia algo a faltar nas feições da escocesa, poderia ser um simples traço na curvatura dos lábios ou na cor desbotada das maçãs. O hanyou tentava arduamente decifrar que peça era essa, que pedaço dela se fora e se via frustrado, afogando-se em um mar de dúvidas. O desconforto na região do diafragma se fazia pior, era um aperto quase insuportável. Sem razão aparente, as memórias pincelaram-se vívidas – o casal na caverna, ela proporcionando a uma criatura nascida do caos um fio de paz e acalento. Os sorrisos da mulher e a ternura nos olhos quando ao seu lado tinha a companhia de Kagewaki martelavam nas lembranças. Céus, como doía! Naraku nunca reparara o quanto aquilo o machucava até então.

Fechou os olhos na esperança de conseguir se concentrar para não pensar em mais nada e, em um desses raros momentos comentados por ele, adormeceu e sonhou...


Você? Naraku percebeu outra presença além da dele dentro da estranha névoa arroxeada um homem em roupas claras a luzir em meio a vasta escuridão e ao frio cortante.

O seu espelho, outrora sereno e benevolente, trazia nos traços amargura e lertagia. Nem parecia o mesmo homem, malmente era um espectro.

Hitomi Kagewaki, decidiu deixá-la em paz essa noite para me atormentar? riu despreocupado Então é verdade que sua alma está presa dentro da Joia de Quatro Almas.

Ria enquanto pode, em breve a sua alma estará enclausurada aqui também. falou apático.

O que quer de mim? Veio me intimidar para deixar Annabelle em paz? Desista, Kagewaki. Não há nada o que você possa fazer. Escarneceu Você está morto.

Sim, eu estou. E, por essa razão, você não tem mais como se livrar de mim. Deu dois passos rumo a maior aproximação Não pode simplesmente me fazer desaparecer para conseguir o que quer, e eu sei de tudo Naraku. A pedra me mostrou.

Oh, é mesmo? manteve-se no mesmo humor, nada intimidado O que será que a Joia mostrou a um espírito vagante e moribundo como você?

Você se infiltrou no castelo, tomou minha aparência e desgraçou a minha família porque queria Annabelle para si, só por isso. Por uma razão mesquinha, você me tirou a vida e o mais irônico disso tudo é que mesmo causando tamanho estrago, você não conseguiu e nem conseguirá o que tanto quer. Naraku abriu a boca para falar, Hitomi o ofuscou Não, sabe que não estou falando de se tornar um youkai completo, isso é uma desculpa e nada além. Você quer de Anaberu o que eu tive. O seu coração.

O hanyou arregalou os orbes carminados e abriu o riso. Riu incansável.

Sua postura apenas me prova como você sempre foi um sujeito ridículo e genérico, Kagewaki. O jovem mestre cuja bondade era a principal característica agora atormenta os sonhos de uma garota porque não se conforma de ela seguir em frente. A sua benevolência como a da maioria dos humanos não passa de uma fachada. Agora, depois de morto, você mostra a sua verdadeira essência miserável. Estou bem vivo, Hitomi, e você é apenas uma lembrança remota que se extinguirá, aceite.

Por que acha que Anaberu não resiste a você? Se sua aparência fosse diferente da minha, crê que ela sentiria toda essa atração por seu corpo? Se você não tivesse colocado esse fragmento dentro dela, acredita que Anaberu entregaria os pontos tão facilmente? Posso ser miserável, mas não iludido como você. Anaberu Rosu me amou, e só se deita com você por ver através de seu aspecto físico algo que remeta a mim. Ninguém seria capaz de amar um monstro de seu feitio Naraku. Você é digno de pena.

Pena? Detestava aquela palavra. Amargo, recordou-se de quando Annabelle tentou matá-lo com um punhal misterioso e desistiu por se apiedar dele. Se dissesse que as palavras de Hitomi não o afetavam, mentiria para si mesmo.

Novamente aquela dor no centro do abdome o atormentava. Não parecia física, vinha de dentro e o rasgava. Os cabelos flutuaram assim que o miasma emanou impetuoso. O jovem mestre falecido sorriu triunfante, a nuvem escura atravessou-o sem deixar uma marca.

Não pode matar o que está morto. Relembrou-o de sua impotência Não permitirei que desgrace a vida de Anaberu, é só isso o que você sabe fazer. Por onde passa, causa estrago, tudo o que toca vira pó. A única coisa pela qual tem apreço é sua ganância. Esse é você. Mas, um dia, Naraku, sua alma estará presa nesse limbo, juntamente à minha e a todas as outras, e então lutaremos um contra o outro e eu me vingarei.

É você quem não a deixa esquecer constatou.

Se ela realmente quisesse me apagar de sua vida, já o teria feito. Essa é uma batalha que você não pode vencer.


Quando Annabelle despertou, não fazia ideia de quantas horas se passaram. Fazia tempo que não dormia um sono tão tranquilo, sem pesadelos e sonhos, a mente a vagar pelo silêncio. Estranhou, todavia, o quarto onde estava. Poderia jurar ter dormido junto de Naraku nos aposentos dele, mas se encontrava agora na antiga cela, a mirar sua harpa áurea. E havia outra coisa, alguém, um menino a guardá-la, sentado próximo a seus pés.

— Kohaku, o que faz aqui? questionou curiosa enquanto se ajeitava sobre o leito. Alguém a vestira com a primeira camada de roupa e lhe colocara o espartilho mal amarrado, o meio-youkai – ela supôs. Onde está Naraku?

— Ele disse que tinha coisas para resolver e me pediu para ficar a sua disposição. Com as maçãs rosadas de rubor, o rapazote mirou o chão como de costume.

— Coisas para resolver? preocupou-se. Pensou se o hanyou arquitetava armadilhas contra o grupo de Inuyasha e se condoeu.

— Senhorita? elevou os olhos amadeirados à figura melancólica e se preocupou. Annabelle percebeu a consternação do irmão de Sango e forjou um sorriso para abrandá-lo.

— Vou tocar uma música para você. Levantou-se do futon e encaminhou-se à harpa. Kohaku sorriu cerimonioso e sentou a frente do pomposo instrumento, observando-a se acomodar sobre um banquinho e ajeitar os dedos nas cordas.

A escocesa iniciou uma melodia nostálgica, depois de alguns acordes abriu os lábios e entoou notas suaves. Cativou não só a atenção do menino, mas de duas outras criaturas que a espreitavam do outro lado da porta.

— Por que estamos fazendo isso, Kagura? Kanna questionou insípida.

— Fique quieta! bronqueou num sussurro.

O lume esbranquiçado a envolveu como uma fina capa, e de repente o quarto escuro já não precisava de velas. Os globos cerúleos focaram-se à porta e avistaram o olhar avermelhado da Mestra dos Ventos e apenas com um sorriso se fez entender. Kagura se levantou e entrou no cômodo, Kanna a seguiu e as duas sentaram ao redor da musicista.

Naraku atravessou a barreira e se aproximou da imensa propriedade obscura. Viu através de uma janela a luz ebúrnea e conhecia bem a pessoa responsável por tal brilho. Ao aterrissar no chão desértico, algo chamou a atenção – uma única flor lilás a desabrochar na terra árida e escura. De novo, o aperto no peito e as vozes aplacaram-no, dizendo-lhe para tomar cuidado, alertando-o de que estava perdendo o rumo. O aracnídeo pareceu surdo, pois caminhou errante à construção, atravessou os corredores e a porta, deparando-se com todos os moradores do castelo distraídos com a seresta.

Lá estava ela, a divindade adorada por Hitomi, absorta em cada nota como se a música pudesse fazê-la se afastar de tudo que a entristecia. Tal sensação expandia-se pelo cômodo e aplacava os ouvintes, distraindo-os da recente presença de seu mestre. Nos olhos negros de Kanna, ainda que lhes faltasse expressividade, havia lume. Simples curiosidade, talvez, e ainda assim já era algo além do nada de sempre.

Naraku não sabia aonde aquela situação o levaria, até cogitou a ideia de Annabelle fazer seus subordinados voltarem-se contra ele, e então o olhar azulado recaiu brando sobre sua figura, afastou qualquer pensamento nocivo e o fez dar passos, sem perceber, rumo ao objeto de sua ruína.

— Saiam. ele disse reticente, sem sequer olhar para os súditos ao dar a ordem. Parou o andar de sonâmbulo quando estava às costas dela. As mãos se colocaram sobre os ombros pequenos.

Kagura foi a última a deixar o quarto, silenciosa como todos os outros. Antes de se retirar, porém, parou metade do corpo entre a porta e o corredor e mirou o casal com o canto de um olho. No vermelho de sua íris e no negro da pupila atenta, Naraku a afundar o nariz nas ondas incendiadas e suspirar se refletiu completamente perdido. Annabelle, por sua vez, resumia-se a mirar a parede e piscar pausadamente.

"Ela irá traí-lo, mal posso esperar para ver." com essa esperança, a Mestra dos Ventos se foi e assim ficaram os dois no vasto e escuro cômodo.

Dedos pentearam as madeixas ruivas, afagaram o pescoço marcado por mordidas e sucções passionais, massagearam os ombros inertes e desceram pelos braços que abandonaram as cordas douradas e pendiam inanimados. Annabelle ergueu a face desbotada e deparou-se com o hanyou visivelmente atordoado. Os toques dele eram uma tentativa de consolo? Naquelas carícias não havia traço de malícia, nos olhos dele a angústia cintilava.

— O que é isso? ela perguntou em baixo tom, encarando-o apática. Sua mão levemente fria ergueu-se e alcançou o queixo dele, depositou um afago singelo e sem muito efeito.

— Farei com que Kagewaki deixe de importunar seus sonhos. Naraku decretou decidido.

A apatia da humana se dissipou e uma tristeza descabida se mostrou evidente em cada feição. Mão e cabeça desceram, palavra nenhuma veio.

Então, o meio-youkai ajoelhou-se ao lado da jovem estrangeira e cativou-lhe o rosto em luto, obrigando o azul a se encontrar com o vermelho. Os dentes rangiam-se por baixo dos lábios rosados e comprimidos, ela chorava em tortuoso silêncio, apenas os olhos transbordavam, o restante era mórbida mudez.

— Não consegue esquecê-lo ou simplesmente não quer? duro, perguntou sem rodeios. Temia a resposta a seguir e tinha razão, pois Annabelle diria algo que ele preferiria não ter ouvido:

— Hitomi é parte de mim. A humana se levantou abruptamente, soltando-se do toque, e caminhou até a grande janela.

— Entendo. Permaneceu ajoelhado e com as mãos cerradas por instantes, a vista perdida em qualquer canto do aposento soturno.

— Meu pai amava minha mãe profundamente, a mudança repentina de assunto fez a raiva de Naraku dar espaço à confusão. Enquanto isso, Anna tocava o fino papel que revestia a janela e prosseguia apesar de eu ser muito pequena, lembro bem de como eles se olhavam e trocavam carinhos. Como ele a admirava! O carisma dela era tamanho que meu pai ficava ofuscado, e assim como aqui, na minha terra o homem se sobrepõe à mulher em tudo na vida. Ainda assim, minha mãe era a líder da família, e meu pai a amava tanto que não se importava de viver à sombra daquela grande mulher.

— Por que está me contando essas coisas agora? não se aproximou, fitou-a de longe e com cautela.

— Por muito tempo, eu não pude compreender como meu pai se deixou envolver por outra mulher tão rápido... deu continuidade sem se importar com a pergunta Eu não o odiei, jamais poderia, era meu pai, mas durante tantos anos a mágoa esteve dentro do meu coração. Minha mãe mal fora executada por bruxaria e ele estava nos braços de outra, uma mulher vil e mesquinha... selou as pálpebras por alguns instantes e respirou fundo, recobrando as forças Ele nos apresentou Amelie em Paris, fingiu que se conheceram lá e foi deixando que ela entrasse em nossas vidas aos poucos... mas a verdade era que, ainda na Escócia, enquanto o corpo de minha mãe apodrecia dentro de um rio, meu pai já se deitava com aquela víbora, e eu acredito que por isso ele quase não chorou a morte da verdadeira esposa. A morte do suposto amor da vida dele... enxugou os olhos orvalhados e engoliu saliva até as pregas vocais pararem de tremular Eu o julguei em silêncio, o condenei por se render e desonrar a lembrança da minha mãe, e olhe só para mim agora. Em meio às lágrimas, um riso ácido escapou E apesar de me sentir culpada, não sinto um pingo de remorso. Faria tudo de novo. Por fim, virou-se de frente para ele e deu início a proximidade.

Naraku procurou os dizeres certos para aquela situação e não encontrou um vocábulo sequer. Conforme Annabelle fechava a distância entre ambos, mais palpável se tornava sua perdição.

"O que eu fiz?" ele se perguntou lamentoso enquanto os braços da humana o envolviam pela nuca. Imóvel, Naraku sentiu os lábios mornos contornarem os seus e o gosto salgado do pranto alcançou-lhe a língua. Não conseguiu fechar os olhos, abraçá-la ou corresponder de imediato aquele beijo sofrido. Annabelle insistiu, no entanto, e atou o peito ao dele. O coração dela pulsava firme apesar de partido. Enfim, Naraku se viu compelido a cessar a junção das bocas e simplesmente enredá-la com devoção.

Annabelle não sentia remorso. Ele, por outro lado, não sabia o que fazer com tanto arrependimento. Poderia tê-la feito esquecer de tudo, a mente da estrangeira estava aberta a seus dotes de manipular. Naraku estava relutante, no entanto.

— Eu preciso de você... ela murmurou, o queixo pousado sobre o ombro do hanyou.

Inferno – essa era a definição da ocasião para ele. Tê-la nos braços a fazer aquela confissão nunca fora tão pesado. Apertou-a mais, escondendo o desespero por trás da cortina de fogo, a respiração quente afagou o pescoço da humana e acabou incentivando-a a mais uma vez optar pela luxúria. As mãos delicadas espalmaram o peito do usurpador de Hitomi e o empurraram de súbito. Naraku, atordoado, se preparou para reclamar e a voz sufocou na garganta ao vê-la arrancar as próprias roupas como uma fêmea no cio. O cheiro do desejo o desnorteou e ele ficou sem reação. A seguir, Annabelle repetiu o ritual – agora com as roupas dele – e sem demora os dois estavam em seu estado natural, sem pudores. A boca dela, voraz, degustou o peito rijo do Senhor de suas tragédias. Conforme a língua descia pela pele, desenhando as divisões da barriga, a hóspede do castelo baixava o corpo. Os dedos desavergonhados vinham junto com os beijos quentes, arrastados pela pele eriçada. Naraku ergueu a cabeça para o teto e revirou os olhos, derrotado. Os pensamentos se perderam numa densa névoa tão logo a forasteira tomou o membro ereto dentro da boca faminta e o sugou com ardor.

O ciclo se repetia, hanyou e humana não eram fortes o suficiente para lutar contra o instinto e a insanidade. A cópula inevitável se deu, Naraku se esforçou para não se exaltar e feri-la como das outras vezes. No fim, deitaram-se um de frente para o outro e se encararam misteriosos, sem uma piscadela. Na tentativa de analisarem os gestos um do outro, acabaram presos numa inércia que perdurou até Annabelle adormecer.

Após um longo respirar, o vitorioso perdedor se sentou cuidadoso, observou-a por mais alguns minutos para enfim deixá-la às sós com seus fantasmas.

Já em outro cômodo da extensa propriedade, Naraku se viu obrigado a lidar com a Joia, resguardada em um campo de força entre duas velas acesas.

Livre-se dela. As vozes insistiram. A cabeça dele latejou a ponto de o corpo precisar buscar apoio em uma parede.

— Não! bradou, o youki emanou impetuoso. Não... vagou para fora do quarto e sentou-se na varanda. Os olhos pairaram justamente sobre a pequena flor nascida no deserto, protegida até mesmo do miasma dele, um pequeno milagre para lembrá-lo do que uma simples mortal era capaz de fazer.

"Eu a amo?" indagou-se preocupado. Se amar alguém significava sentir a dor que ele se via obrigado a suportar, certamente o amor era uma maldição.

A cúpula protetora do castelo sofreu leve ruptura, chamando a atenção do hanyou atormentado. O fantasma do passado desceu dos céus, envolto pelas serpentes carregadoras de almas.

— Kikyou... sussurrou atônito e estático.

Ela tocou os delicados pés na terra escura, a pouca distância da singular flor. Silente, a sacerdotisa se abaixou e tocou as pétalas com zelo. Naraku vislumbrou um fio de ternura nos orbes negros e fantasmagóricos, por instantes viu através da boneca de barro a mulher que vivera naquelas terras há cinquenta anos e constatou não a ter esquecido por inteiro. Eram tantas as sensações... tantos os infortúnios...

— Ela está aqui a sacerdotisa afirmou com convicção.

— Não deixarei que encoste em um fio de cabelo de Annabelle. Ergueu-se, de guarda à entrada.

Misteriosa, Kikyou também se pôs de pé e sorriu, desconcertando-o.

— Não preciso mais fazer nada... suspirou Só quero conversar com ela.

— Não chegará perto dela, Kikyou.

— Vejamos o que ela decide mirou a porta, o mesmo sorriso enfeitava a face alva.

Naraku sentiu o piso sombrear e olhou para trás. Annabelle estava à porta, atenta a conversa.

— Volte para o seu quarto ordenou de imediato e foi desobedecido. Annabelle, está me ouvindo? a escocesa sequer voltava os olhos a ele, toda a atenção fora cativada pela figura além da flor.

— Estive com sua irmã outra vez, sei onde ela se esconde. Kikyou contou e arrancou uma reação de espanto da estrangeira. Quando houver oportunidade, me procure. Gostaria que tivéssemos uma conversa e foi tudo. Segundos depois o corpo da sacerdotisa já estava a flutuar nos céus, perdendo-se além da barreira. Por fim, a ruptura no campo de força se fechou.

Assim que a ilustre presença desvaneceu, Annabelle desencostou-se da porta e iniciou a caminhada de volta ao quarto. Naraku, incomodado, acelerou o passo e a alcançou.

— É uma armadilha, Annabelle. segurou-lhe o braço e a virou de frente para si. Kikyou quer matá-la. Você não vai.

— Quem decide isso sou eu. soltou o braço do toque, os olhos resplandeciam insubordinação. Boa noite... depositou um carinho na bochecha retesada do hanyou, um beijo casto na boca entreaberta e entrou no quarto, deixando-o ansioso no corredor, sem saber o que pensar sobre o que acabara de vivenciar.

Continua...


É, gente... outro capítulo grande e cheio de informação. Espero que ninguém tenha se perdido.
Não sei se vocês se lembram, mas há muitos capítulos atrás, quando Naraku salvou Annabelle das mãos da irmã pela primeira vez, ele disse que Hitomi não estava no paraíso... e ele tinha razão. A alma de Hitomi está presa dentro da Joia assim como a de centenas de youkais e a da sacerdotisa Midoriko. Se a maldita Shikon pode corromper os vivos, por que não os mortos? Espero que agora todos compreendam parte da razão da amargura do nosso doce jovem mestre. É, complicado... mas Hitomi ainda tem um papel importante a cumprir aqui.

Ah, e já estava mais do que na hora de Naraku começar a sofrer um pouquinho né? Depois de tudo o que ele fez, a consciência precisava pesar, até porque essa é a prova de que ele nutre algum sentimento por Annabelle. Bom, paro de comentar por aqui, pois quero que vocês testemunhem os acontecimentos por si só.
Espero do fundo do coração que o capítulo tenha agradado e vocês estejam curiosos para saber o que diabos a loura escaldada mostrou à Kikyou para fazê-la assumir tal postura. No futuro estejam preparados para um flashback dessa conversa.

Até o próximo, pessoal!

Kissuuuuus S2