Capítulo 27 - Humanidade

Naraku manteve a posição de vigília em frente à porta do quarto de Annabelle. Os globos escarlates, vidrados, tinham uma entrada diante de si e, no entanto, contemplavam outra coisa.

Contemplavam pensamentos confusos, recordações amargas...

O hanyou lembrava sôfrego da boca da estrangeira dizendo-lhe que Hitomi era parte de si. Depois, dava-se conta de que ele mesmo não esquecera Kikyou. A aparição da sacerdotisa revirou-o por dentro, provocando até certa ânsia. Certamente, a paixão avassaladora que o corroía antes não era a mesma. Não desejava tomar o amor de outra vida nos braços e torná-la sua, e apesar disso seu coração ainda sobressaltava na presença dela. Seria essa a sensação de Annabelle quando pensava em Kagewaki? – perguntava-se.

Como se não bastasse ter que lidar com aquela memória moribunda, agora precisava dar um jeito de impedir que a ocidental saísse de suas vistas.

— Mandou me chamar? — Kagura deu o ar de sua graça em tom de tédio.

— Quero que a vigie. — o rebuliço interior não transpareceu na voz. Naraku parecia mais calmo do que nunca.

A subordinada bufou e foi só, não se atreveria a peitá-lo outra vez, não depois de ser tão castigada. Aborrecida, Kagura sentou-se com as pernas cruzadas e as costas encostadas à parede, os braços repetiram o movimento, entrelaçando-se. Os longos cílios negros se tocaram e os lábios avermelhados contraíram-se impacientes.

— Não a perca de vista, entendeu? — o criador retificou.

— Sim, não se preocupe.


Annabelle despertou de um sono sem sonhos, como da vez passada. Sem pressa, alongou os braços e as pernas, sentou-se à beira do tatame e respirou fundo. Em seu íntimo, uma vontade de ficar ali, deitada, a esperar as horas passarem a tentou. Os membros pareciam pesar toneladas. O fragmento a poupava de sentir dor, mas o cansaço... ah, este sim a arrebatava. A causa era a atmosfera densa daquele Locus Horrendus, pensava. De que importava? Não se deixaria definhar, apesar de a vida soar como um martírio de uns tempos para cá. Uniu as forças internas e externas e levantou o corpo num impulso.

O convite da sacerdotisa ecoou recente e tentador. A curiosidade e a preocupação com sua gêmea faziam com que a escocesa intentasse se organizar para sair do castelo, mesmo sabendo dos riscos que corria. Kikyou poderia muito bem lhe pregar uma peça.

Annabelle decidiu se arriscar. Foi até a arca, puxou um vestido qualquer e, assim que apertou os nós do espartilho, jogou a vestimenta pesada sobre as curvas. Quando estava ajeitando a saia azul aveludada, a porta correu violentamente causando estrondo e Kagura adentrou sem pudores:

— Se pensa que vai a algum lugar, está muito enganada. — Ereta e com o leque aberto, abanou-se visivelmente irritada.

— Ele a mandou, não foi? — suspirou.

Humpf! — a mestra dos ventos virou o rosto para o lado.

— Se Naraku é tão ruim para você, por que é sua aliada? — aproximou-se com cuidado.

— Então você não sabe? — riu-se amarga — Meu coração está nas mãos dele. No momento em que quiser, Naraku pode acabar com a minha vida.

— Isso é absurdo! — apesar de um gesto daquele nível vindo do meio-youkai ser esperado, ainda assim, a crueldade dele conseguia superar as expectativas de Annabelle.

— E você? — Kagura perguntou direta. Ao perceber que a mulher não compreendera a indagação, complementou: — Naraku não tem seu coração na mão, você é poderosa e pode fugir quando quiser. Por que não reage, por que não se manda daqui?

— Se eu fugir agora, ele descontará a raiva em você — encarou-a enquanto falava.

— E você se importa? — estranhou o comportamento da outra, sentiu-se intimidada pelo olhar sereno e indecifrável.

Annabelle sorriu em resposta, deixando Kagura ainda mais confusa. Para disfarçar o embaraço, a cria de Naraku prendeu os olhos na arca onde os vestidos de outras terras estavam guardados.

— Gosta de algum? — mudando de assunto, a Rosa Branca perguntou.

Kagura apontou um que a forasteira não vestia há anos, branco com bordados verdes e vermelhos. Belle ajoelhou diante do objeto de madeira e trouxe a roupa para seu colo, esticando-a. Puxou também do fundo do baú um de seus claros e lisos corpetes.

— Experimente — calma, sugeriu.

— Ah, eu não sei se... — sem perceber, a face ruborizara e todo o mau humor ficou para trás.

— Vai ficar bonita, confie. Eu ajudo você. — A ruiva se pôs de pé e tratou de auxiliar a youkai a se despir dos trajes orientais para ter o corpo esguio coberto por túnica semelhante a que Anna vestia.

O corpete escolhido pela hóspede tinha suas amarras pelas costas, por essa razão a dona da roupa amarrou-o por Kagura.

— Que apertado! — resmungou quando as fitas foram repuxadas, torneando sua cintura. Annabelle riu e, tão logo terminou de amarrar o laço de seda, ajudou a sua guarda-costas a trajar a parte final e mais bonita.

— Nossa, você precisa se ver em um espelho! — comentou admirada. — Só falta uma coisa... deixe-me soltar o seu cabelo. — Sem cerimônia, meteu os dedos nos tufos amarrados e os fez escorrer. Embora a criatura a quem arrumava tivesse fama de antipática, não houve protesto. Anna a induziu a sentar, e, ajoelhada às costas daquela Cinderella, pegou algumas madeixas negras e as trançou ao topo da cabeça, dando-lhe o toque digno de uma princesa europeia. — Pronto, ficou linda...

Naraku entrou no quarto de supetão e flagrou a cena – no mínimo – curiosa. As sobrancelhas arquearam-se ao passo de que os olhos transpareceram uma interrogação.

— Kagura, o vestido é seu. — enquanto mirava o hanyou no fundo dos rubis, dirigia-se à criação dele em timbre terno.

— Deixe-nos. — Naraku encarava a humana na mesma intensidade.

Quieta, a escrava desconfiada se ergueu e partiu a segurar a longa barra do vestido. Assim que os passos da youkai soaram bem distantes, o araneídeo se pronunciou escarnecedor:

— São melhores amigas agora? — riu discreto.

— Qual é o problema de eu ter uma boa relação com a minha guardiã? — pôs-se a altura dele e respondeu em deboche similar.

— Isso foi uma provocação? — sorria afiado ao mesmo tempo em que a zanga se evidenciava no cenho franzido.

— A vida dela é amarga demais, eu só quis adocicar um pouco. — estava óbvio naquele discurso o peso da repreensão.

— Oh, Kagura ganhou uma defensora! — aproximou-se irônico — Você a tratou com candura por ser o exemplo de uma alma pura, ou para convencê-la de liberar a sua saída do castelo?

— Eu não preciso fazer Kagura gostar de mim para conseguir sair daqui, tampouco preciso driblar você, sabe disso. — deu o passo final para fechar a distância entre ambos, desafiando-o.

— Não irá a lugar algum, Annabelle Rose. — apesar do baixo volume, soou grave e ameaçador.

— Não estou pedindo a sua permissão. — o nariz roçou ao dele e os hálitos cruzaram-se quentes. A voz de Naraku, em vez de intimidá-la, instigava outro tipo de sensação e o cheiro desse estímulo era mais que evidente ao olfato aguçado do meio-youkai. — Eu voltarei para você... — colou a maçã à dele e sussurrou ao ouvido: — prometo.

— Você não conseguirá atravessar a barreira. — tentou debilmente manter a firmeza, e os olhos já ameaçavam a revirar nas órbitas. As mãos, vorazes, contiveram os braços dela no intuito de prendê-la... e a pele leitosa escorreu pelos dedos.

— Me observe. — Afastou-se devagar, aos poucos a aura agraciou seus contornos. O lume alabastrino cintilou nos olhos de sangue e ele a acompanhou até a varanda do castelo, depois seguiu seus passos sobre a terra e testemunhou os braços feminis estendidos para frente, as palmas tocando o campo de força e trincando-o sem esforço.

Naraku pensou em materializar seus infindáveis tentáculos e amarrá-la, atá-la ao solo, todavia tudo o que fez foi olhar a silhueta se perder na névoa, em transe.


"Como vou saber onde encontrá-la?" — Annabelle pensou conforme caminhava por uma trilha. Adquirira o hábito de não refletir tanto sobre as coisas para se sentir menos pior, acabou por esquecer de aprofundar um pensamento sobre o convite da sacerdotisa. O combustível que a movia era o fato de Kikyou saber o paradeiro de sua irmã. — "Ailyn..." — a vista ardeu, bem como o órgão vital a pulsar no peito.

A última vez em que estiveram juntas foi num contexto estarrecedor. Por pouco a vida de sua gêmea não se findou em suas mãos. E quem era o culpado?

"Naraku..." — selou as pálpebras e parou os passos por instantes. Não saberia descrever o que sentia ao lembrar do nome e da figura. Um misto de raiva e paixão borbulhava em seu ser. Queria ferir, matar, agarrar e tomar para si, que sensação brutal e perigosa! O raciocínio nevoava e, de repente, a escocesa se via num estado tão primitivo quanto o dos primeiros homens que habitaram a Terra. Esperava que a qualquer momento o vilão tentasse controlá-la, e então se deparava com a inusitada situação de conseguir sair da morada sombria sem necessitar de maiores esforços. Ele ficou parado, atônito, vendo-a ir. Era isso o que ele queria, que Annabelle fosse embora? E por que até então Naraku não tentou manipulá-la ou fazê-la esquecer como ele tanto dizia que faria?

Tantos eram os questionamentos que a cabeça começou a doer. Então ela ouviu o barulho da água corrente e assim que saiu de debaixo das árvores os olhos doeram. O sol luzia intenso, e em tão pouco tempo Anna quase esquecera da sensação de calor, ou do som do rio...

Da beleza a mente se esquecia aos poucos, mas as mazelas nunca pareceram tão frescas na memória. Pousou a mão ao peito, sentiu o caco de gema vibrar.

"É isso..." — a Joia se alimentava de suas tristezas, como deveria se esbanjar sobre a miséria de Naraku.

— Sabia que viria. — a voz de Kikyou soou serena e um pouco distante, induzindo Annabelle a erguer o olhar do rio ao lado para deparar-se com ela. A sacerdotisa, sentada sobre um rochedo coberto por limo, mirava o horizonte e sorria discreta. — Você é mesmo uma pessoa muito inocente.

— Vai tentar me matar outra vez? — aproximou-se devagar.

—... ou muito confiante. — completou, agora a encarar a estrangeira com atenção e notar-lhe o semblante seguro.

— Onde está Ailyn? — permaneceu austera e sentia-se preparada para o que quer que viesse.

— Antes de qualquer coisa, devo um pedido de desculpas. — se levantou elegantemente. Annabelle percebeu que naquela tarde Kikyou não trouxera consigo o arco e as flechas, tal visão a fez suspirar ligeiramente aliviada. — Eu me excedi e quase tirei a sua vida.

— E o que fez você mudar de ideia? — surpresa, precisou fazer aquela pergunta. Os olhos arregalaram-se cintilantes. Esperaria qualquer coisa, menos uma atitude humilde daquela boneca de argila.

— Sua irmã. — quando Annabelle pensou que não poderia se surpreender mais, a resposta veio.


Horas passaram-se como anos mesmo a noção de tempo de um ser sobrenatural como Naraku sendo diferenciada. Dias, para ele, costumavam ser ínfimos, bem como um ano ou dois. Todavia, aquela era a tarde mais longa de sua vida.

Kanna ofereceu o espelho como uma janela para o mundo exterior e seu mestre recusou estranhamente.

— Deixe-me sozinho. — foi tudo o que disse, sentado à parede, os braços cruzados e escondidos dentro das longas mangas do quimono claro. Os cabelos soltos cobriam parcialmente a face esquálida.

A cria, sem dar qualquer importância, saiu do cômodo e fechou a porta, deixando-o no breu.

Pegava-se pensando sobre quanto tempo precisaria passar para ele ter que tomar uma atitude. Depois rememorava seus dizeres à humana, ela estava ali por escolha e não por uma artimanha dele. Certo? Então por que cargas d'água surtaria e a raptaria de volta, tendo a promessa de que ela retornaria.

Essa mulher irá enlouquecê-lo... — o coro familiar entoou o malfadado refrão.

— Pare de zunir na minha cabeça. — rebateu impaciente. A pedra no altar brilhava desfazendo a escuridão do quarto.

Olhe só para você, reduzido a sua triste insegurança, atormentado por ideias irrelevantes, esquecido de suas próprias ambições.

— Eu não me esqueci dos meus objetivos. — tentou futilmente manter a compostura.

É mesmo? Então por que desde que essa mulher chegou ao castelo você não tem feito esforço algum para coletar mais fragmentos, ou para dizimar seus odiosos inimigos?

— Sei muito bem o que tenho que fazer e quando fazer. — fechou os olhos e respirou fundo.

Não se importa se Inuyasha e Kikyou ficarem juntos novamente?

Subiu as pálpebras lentamente, revelando seu olhar enraivecido.

O que importa realmente para você, Naraku?

O hanyou não respondeu, pois em seu íntimo perguntava o mesmo. Já não sabia dizer quais eram as prioridades, quando pensava no que mais queria, lembrava-se do sorriso da humana, do acalento recebido na caverna e almejava ter aquilo outra vez. Acreditou que teria o regozijo quando Annabelle estivesse em seus braços, quando fosse sua, e mesmo dividindo a cama ainda não sentia que a tinha por inteiro. Em verdade, era como se nunca antes a mulher parecesse tão distante. Ainda que copulassem como dois loucos e Anna demonstrasse necessitar daquilo para sobreviver, Naraku a sentia escorregar por entre os dedos. A qualquer momento a perderia, se é que algum dia a tivera.

Você é fraco. — as vozes pulsaram ao ritmo do coração acelerado do araneídeo. — Não é digno de ter o poder da Joia.

As duras palavras soaram como uma condenação e ele não aceitaria aquilo. Os orbes escarlate, vidrados, estreitaram-se manchados pela sombra carregada desde o nascimento. Se a maldita pérola quase completa possuísse uma boca, certamente sorriria naquele instante.


— Ailyn contou a nossa história... por quê? — Annabelle se perguntou, a mão aparava o queixo e o olhar fixava-se no córrego agitado.

— Sua irmã parece uma criança perdida e arrependida. — Kikyou declarou — Graças a ela sei sobre sua vida e pelas coisas que passou até chegar nessas terras. Agora, mais do que nunca, sinto como somos parecidas e como errei com você. — respirou fundo, demonstrando remorso genuíno.

— Parecidas? — ajoelhada à beira do rio, a estrangeira soltou um riso. — No poder, você quer dizer?

— Você também conhece a dor da perda, de não poder voltar atrás e fazer uma escolha diferente. — comentou reticente. Enquanto Annabelle mirava o azul da água, Kikyou contemplava o azul do céu.

— De qual escolha você se arrepende tanto? — indagou sem malícia, atenta ao que viria depois.

— Sequer sei por onde começar... — a voz entoou como uma singela onda a quebrar na areia da praia, triste e vazia, deslocada. — Eu poderia nunca ter acolhido um bandido moribundo, para começar. Poderia também nunca ter sugerido que Inuyasha usasse o poder da Joia para se tornar humano... Poderia nunca ter tentado tirar a sua vida. — fitou-a — Ainda bem que fracassei.

— Você não é tão azeda quanto eu pensava. — soltou o comentário espontaneamente e sem querer fez a sacerdotisa torcer os lábios levemente — Ai, desculpe! — espalmou a testa, encabulada.

— Eu não tiro a sua razão. — abriu meio sorriso. — Nem sempre fui assim... Muito me aconteceu para que meu coração azedasse. — Suspirou, e ao fitar a jovem arruivada de soslaio notou seus traços entristecerem compassivos.

— O que quer de mim? — evitou se aprofundar em assuntos passados por não desejar incomodar Kikyou ou fazê-la trazer à tona lembranças indesejáveis — Não deve ter me chamado aqui só para dizer o paradeiro de minha irmã, contar que sabe da minha história e pedir desculpas. — levantou e limpou a terra dos joelhos.

— Vim fazer uma sugestão...

— Se for para eu ajudar a você ou aos outros a acabar com o Naraku nem comece. — cortou-a — Não quero fazer mal a ele.

— Enquanto você se recusa a enfrentar o que precisa ser feito, acaba acidentalmente fazendo mal a muitas outras pessoas. Quantas vidas poderiam ser poupadas e quanto sofrimento evitado se você simplesmente aceitasse a missão de liquidá-lo? — Kikyou discursou com eloquência, cativando cada expressão da ocidental com a devida atenção. — Você não pode ter um poder desses à toa, já parou para pensar que destruir o Naraku possa ser o seu destino?

— Eu não acredito em destino. — quis ser firme, porém um leve gaguejar entregou a confusão das ideias.

— Você disse que não o ama, então por que está perdendo o seu tempo dividindo o teto com Naraku? Ele tem algum trunfo contra você e a mantém presa?

— Não, eu escolhi estar com ele. — passou uma das mãos pelo canto do rosto, os olhos baixaram acanhados.

— Por quê? — a miko, por sua vez, não sentia medo ou vergonha de encará-la incisiva.

— Eu não sei, é como se eu sentisse uma enorme necessidade de... — ruborizou de súbito, a ponto de as bochechas esquentarem. Como diria a uma mulher quase santificada que precisava saciar a sua luxúria com o hanyou? — Eu preciso dele.

Kikyou se aproximou silente e atenta a um ponto específico entre os seios de Annabelle. Sem pudores, a sacerdotisa meteu a palma sobre a pele e antes que a Rosa Branca pudesse pronunciar qualquer expressão de surpresa ou desagrado e disse:

— É esse fragmento e você sabe disso. Na feita que estiver livre dessa peça, estará livre de Naraku também. Por que ainda não o tirou? — o preto e o azul cruzaram faíscas naquele momento.

— Eu tentei, mas parece que ele pôs uma barreira ou um campo de força na pedra, houve um choque elétrico e...

— Eu posso tirar isso de você.

— O quê? — os globos de céu expandiram-se desacreditados.

— Você quer que eu remova o fragmento? — ofereceu com naturalidade.

Annabelle cerrou os lábios, comprimindo-os estremecida. Um de seus pés deu um passo largo para trás e o outro acompanhou, desatando o toque da antiga paixão de Naraku do seu busto. O peito queimou e tudo o que ela conseguiu pensar foi no hanyou e em voltar para o castelo. Ela queria infernalmente estar com ele.

— Que pena... — Kikyou resfolgou conformada e iniciou o andar que a afastaria da forasteira, contudo disse-lhe mais uma coisa antes de partir: — Se por acaso decidir se libertar das garras de Naraku e viver a sua própria vida, o seu poder terá bom uso num vilarejo próximo a um monte sagrado. Você poderia cuidar dos doentes, oferecer conforto aos órfãos e às viúvas... — piscou algumas vezes, devagar e tranquila, depois mirou-a pela última vez — e você encontrará algum acalento para si mesma, — no fim das contas, o conselho dado por ela era a receita que a própria seguia. Algo que dava sentido à sua existência era cuidar dos enfermos, dividir o seu dom com aqueles que precisavam — como uma sacerdotisa. Não deixe Naraku azedar o seu coração, como fez com o meu. — completou e deu o início à partida.

Belle atentou-se bem àquelas palavras e sentiu-se sabiamente aconselhada por alguém maduro. Sentiu que o encontro com Kikyou desde o princípio tinha como intuito oferecer a ela um caminho, e não necessariamente o de ser a ceifadora da vida do meio-youkai aranha.

Kikyou quis dizer que a sua vida ainda tinha um propósito. Annabelle pensaria muito sobre aquela conversa nos dias que se seguiriam, porém, naquele instante qualquer pensamento foi cortado pelo som das árvores a se balançarem.

As duas mulheres viram um garoto a saltar pelos galhos e a ruiva o reconheceu no ato:

— Kohaku! — exclamou, no entanto o menino não respondeu, pareceu sequer ter ouvido. — Tenho um péssimo pressentimento. — alegou.

— Siga-o. — Kikyou a aconselhou e foi isso o que a highlander fez.

Gozando do poder cedido pelo fragmento, Annabelle banhou-se da aura ebúrnea e flutuou, seguindo os saltos do jovem aprendiz de exterminador. Kohaku era veloz e por isso estava muito a frente. Os olhos azuis o avistavam quase como um ponto. Demorou certo tempo até Anna alcançá-lo e se deparar com o que acontecia...

No céu, uma horda colorida de youkais, a frente do menino, a sua irmã confusa e preparada para se defender de um golpe de foice.

— Ele o mandou aqui, não foi? Maldito Naraku! — Sango praguejou de raiva e tristeza.

O menino não se manifestou, seguiu à risca o roteiro e investiu golpes contra o próprio sangue.

O Osso Voador serviu de escudo, os joelhos da exterminadora dobravam-se a cada golpeada, e ela sabia que o jovenzinho não desistiria de atacar. A sua companheira youkai, na forma de grande felino, não sabia bem o que fazer e mirava os lados farejando alguma coisa. Num repente, uma árvore próxima pareceu ganhar vida e curvou-se na direção de Kohaku, imobilizando-o com os galhos espessos. Sango viu o irmão se debater em frenesi e caiu de joelhos, embasbacada. Kirara fitou o firmamento e observou a descida súbita de Annabelle.

— Anna... — a exterminadora se pronunciou ainda atônita, um campo de força formado às suas costas se desfez como uma miragem e abriu passagem aos amigos que não estavam tão longe.

— Naraku, aquele maldito, tentou nos separar de novo e pregar uma peça em Sango! — Inuyasha se chegou num pulo, a grande espada empunhada em mãos e pronta para desferir o golpe. Então, ele sentiu o cheiro conhecido e vislumbrou a amiga de outrora se aproximando de Kohaku, afastando os galhos que o enclausuravam e pegando-o no colo.

Kagome e Miroku também chegaram a tempo para ver Annabelle abraçar o garotinho até ele parar de se debater e fitá-la nos olhos. Em alguns segundos de profundo olhar o castanho turvo readquiriu o brilho e a vida.

— O que aconteceu?! — ele perguntou amedrontado.

Shh... — Annabelle afagou a testa dele e pousou uma mão sobre os orbes trementes, logo após ele caiu em sono profundo.

— O que você fez? — Inuyasha ralhou e se aproximaria, mas Sango o impediu com um braço.

Por fim, a escocesa encaminhou-se à irmã de Kohaku com ele nos braços e abaixou-se à sua frente, entregando em suas mãos o precioso parente adormecido.

Muitos dos youkais que sobrevoavam os céus tinham sido derrotados pela Ferida do Vento de Inuyasha, contudo, restaram alguns sobreviventes e eles foram o suficiente para tirar o garotinho do abraço terno de sua única família. Sango gritou e tentou acertá-los com a sua arma, a rapidez com que voaram a atrapalhou de alcançar a sua felicidade. Insetos venenosos rodeavam a horda, impedindo que Miroku utilizasse o Buraco do Vento.

A raiva cresceu intensa dentro da europeia, as mãos delas fecharam com força e os cabelos agitaram-se para cima. Kagome observou o fragmento incandescer branco no peito de Anna e quando ela voltou o olhar para fitar o grupo, o azul se mostrava da mesma cor do lume:

— Eu vou protegê-lo. — disse à Sango com veemência antes de seu corpo voar como um foguete atrás da pequena multidão de lacaios do: — Naraku! — vociferou ao chegar no castelo. Não encontrou problemas para atravessar a barreira e sabia que Ele foi quem a permitiu entrar tão fácil. — Naraku! — não poupou a garganta ao gritar o nome pelo jardim deserto, e persistiu enquanto escancarava as portas da construção e pisoteava a madeira dos largos corredores, afoita por encontrá-lo. Finalmente, ele estava em um cômodo qualquer e sorria. O garoto – pivô da situação – jazia deitado em um futon, observado pelo hanyou detestável.

— Oh, — enfim a olhou em ares de naturalidade — você voltou. — pretendeu indiferença no tom.

— Que merda é essa?! — aproximou-se irada, a bater os pés.

— Do que está falando? — fingiu-se de desentendido.

— Seu filho da... — rosnou e partiu a esbofetear os ombros dele.

— E voltamos aos primórdios de nossa relação. — risonho, não se moveu ou tentou pará-la. De frente para a humana, assistiu-a agredi-lo sem descanso, alternando murros e tapas, espalhando-os pelo peito, pelos ombros e pela barriga também.

— Desgraçado, nojento! Prometeu que não me magoaria mais! Seu... Argh! — grunhiu quando não encontrou mais palavras ofensivas para vomitar.

— Mas eu não fiz nada a você, minha Annabelle Rose. — ainda inabalável, segurou o rosto da humana e afastou alguns fios que caíam sobre os olhos.

— E você acha que eu fico feliz quando faz esse menino tentar matar a irmã?! Acha que festejo quando você resolve machucar as pessoas, jogar umas contra as outras, seu merda?! — os braços cansaram de bater naquele corpo que nem saía do lugar e penderam ainda tensos, as mãos agarraram-se à saia.

— E desde quando eu falei que abandonaria os meus planos se você viesse para cá? — arqueou uma das finas sobrancelhas e a encarou em ares de desafio. Annabelle perdeu o ar e a cor por segundos. De repente qualquer som ficou preso na garganta e ela não disse mais nada. Naraku falou por ela: — Aceitei você não querer me ajudar em minha empreitada, mas nunca dei a entender que eu havia desistido.

— Tem razão. — os olhos rolaram para baixo, estancaram no piso escuro. Um sorriso soturno se formou na boca e quase causou calafrios no hanyou. Em rapidez estranha, a postura indiferente dele mudou para sutilmente preocupada.

— No que está pensando? — a abordou em ar de curiosidade.

— Em como eu fui tola. — fez-se distante aos poucos, encaminhando os passos à porta.

— Aonde pensa que vai? — segurou um dos pulsos com firmeza suficiente para causar desconforto.

— Para o meu quarto. — não o olhou.

— Está mentindo. — apertou um pouco mais, Annabelle conteve um gemido.

— Me solte, está machucando. — reclamou sem muita alteração.

— O que achou que fosse acontecer quando viesse para cá? — ignorou a exigência dela e a virou para si, obrigando-a a encará-lo de modo que pudesse ler as expressões com primor, coisa que ele costumava fazer bem. Porém, na face de Annabelle não havia nada além da palidez. Desde quando ela se tornara a imagem de uma casca vazia?

— Sinceramente, eu não sei. Eu só queria que toda a tristeza e o sofrimento acabassem, mas pelo que vejo não faz diferença se estou aqui ou se estou longe, a marca não sai, só cresce. — o tom, o olhar, tudo nela se mostrou apático. O que quer que aquela mulher estivesse sentindo estava bem guardado.

Naraku sentiu-se terrivelmente culpado outra vez e largou o braço de sua presa. Não queria despedaçá-la como fazia com suas vítimas, todavia, ele não poderia simplesmente abandonar todos os afazeres por causa dela.

— Você vai embora? — perguntou como quem não quer nada.

— Para onde eu iria? Estou cansada de perambular. — se expressou como se já nem se importasse, ainda com o olhar vazio.

Kohaku, enfim, abriu os olhos devagar e acordou desnorteado. Assim que o menino murmurou qualquer coisa, o semblante de Annabelle mudou e ela se ajoelhou ao lado do leito, afagando a franja do irmão de Sango.

— Senhorita?! — manifestou-se sonolento — O que aconteceu?

— Você dormiu, foi isso o que aconteceu. Está tudo bem! — segurou uma mão do jovenzinho e a afagou.

Naraku cumpriu o papel de mero observador e se prendeu na mudança gritante de postura dela. Os olhos opacos retomaram a ternura, bem como a voz. Até mesmo a um moleque que mal conhecia, Annabelle dedicava uma atenção que a Naraku nunca mais dera. Um relance dessa candura o hanyou conheceu na gruta, e foi só.

Sentiu raiva dela, acabou por deixar escapar um balbucio de desagrado, ela o olhou discreta em resposta.

— Quem era aquela moça? — Kohaku perguntou e recebeu um olhar inquisitório de Naraku.

— Acho que você estava sonhando, pequeno. — Annabelle respondeu com doçura, amenizando a tensão — Vamos deixá-lo descansar mais um pouco. — ergueu-se e ofereceu a mão ao Senhor do castelo e ao perceber que ele não a daria, ela mesma teve a iniciativa de cativar os dedos rígidos entre os seus mornos.

Puxou-o para fora do quarto sem muito esforço, pois o sujeito atordoado acabou por se deixar levar. Assim que estiveram no corredor, ela o largou e rumou o andar aos aposentos que lhe foram cedidos.

Ouviu os passos dele atrás dos seus e tentou ignorar, então chegou no cômodo luxuoso, começou a fechar a porta e a mão dele a impediu. Annabelle podia ver metade do rosto conturbado através das tiras de madeira e papel de seda.

— O que você quer? — ela perguntou já impaciente.

— Você. — forçou a porta a correr até escancará-la.

A humana não se esforçou para impedi-lo, pelo contrário, deu espaço para que ele entrasse, e de costas para o aracnídeo, começou a baixar as mangas do vestido, expondo os ombros. Naraku ouviu o som sutil das fitas a serem desamarradas apressadamente, testemunhou a as camadas da roupa dela caírem ao chão e quis gritar, mandá-la parar... contudo viu-se preso na mesma inércia de outras vezes, refém da própria luxúria. Então, como uma maneira de puni-la, agarrou-a pelas costas e meteu a mão entre as pernas dela, manipulando a genitália úmida sem pena, esfregando os dedos pela pele morna e lisa, já intumescida sem que ele precisasse fazer muito.

A odiou por desejá-lo tanto, amaldiçoou os gemidos sofridos a escaparem da garganta feminil e chegou a segurar o pescoço dela numa das mãos enquanto a tocava, apertando-o voraz vez ou outra, sufocando-a e devolvendo-lhe o ar, fazendo a consciência dela oscilar, a vista enegrecer e o corpo inteiro tremer diante da mistura de sensações: de morte e de prazer. Mesmo as mãos de Annabelle estando livres, em momento algum ela tentou impedir o que ele fazia, de fato ela parecia gostar. Mais endoidecido pela resposta do corpo de sua convidada, Naraku rosnou ao ouvido eriçado e o sugou. O esperado aconteceu: antes de um breve desmaio, Anna atingiu o ápice e se tremeu da cabeça aos pés. O meio-youkai a amparou nos braços, evitando que ela tombasse.

Em segundos, a Rosa Branca retomou a consciência e pôde fitá-lo ofegante. Via-o todo borrado, como uma pintura impressionista.

— Eu odeio você. — ele falou num sussurro, pousando o corpo dela no tatame.

— Eu também o odeio. — ao fim da frase a mão desavergonhada tinha passeado pelo peito dele e descido até apanhar o volume entre as pernas do "odiado". O toque poderia ser sobre a roupa, e mesmo assim não deixava de ser intenso. Um gemido grave escapou da boca dele.

— Maldita... — notou-a puxar sua calça para baixo e dessa vez não aceitaria um serviço pela metade, então ele mesmo tirou a parte de cima do quimono e no fim das contas ficou completamente nu para estar de acordo com ela. Queria sentir o corpo quente debaixo do seu, mas principalmente o coração descompassado, mesmo sabendo que a razão da arritmia seria meramente um espasmo físico e nada mais.

Tendo a visão da jovem com as pernas escancaradas diante de si, Naraku não resistiu e se meteu para dentro da fresta viscosa. Annabelle virou o rosto para o lado, ainda de olhos abertos e o gesto o fez se sentir desconfortável, por esse motivo o amante agarrou a face da Rosa e a obrigou a mirá-lo. Dessa vez, a humana o desacatou e virou o rosto com força a mordiscar o lábio inferior. Num outro método de punição, Naraku cravou-se dentro dela vezes seguidas, cutucando-lhe o interior e arrancando-lhe gritos rasgados. As unhas dela agarraram as nádegas rijas do meio-youkai, e as pernas dobraram-se ao alto, ela toda estava endurecida. As paredes febris o apertaram, prendendo-o. Ele se forçou mais ainda para o fundo, e com rapidez, em estocadas vorazes. Os corpos friccionavam, melados. As testas uniram-se e os olhos cerraram. Houve o momento em que ele próprio já não queria olhá-la e se ver obrigado a lidar com a expressão desapontada.

O ato se findou quando Naraku gozou exaurido. Os dedos dele apertavam a madeira do chão, os dela não tocavam a nada, os braços penderam abertos sobre o futon e o olhar perdido no teto. Não se beijaram. Não se abraçaram. Ele fez questão de não deixar o corpo cair sobre o dela como das outras vezes e se jogou para o lado, mirando a escuridão acima dos dois. Tudo o que se ouvia eram as respirações.

— Solte o menino. — ao recuperar o ar, ela soltou a voz — É tudo o que peço.

O vilão riu desacreditado.

Riu até cansar.

— Por favor. — insistiu.

— O que acabou de acontecer aqui foi uma tentativa de me seduzir? — perguntou ainda a gargalhar.

— Não, o meu pedido é uma tentativa de fazer de você alguém melhor. — girou o rosto e o fitou séria.

— Esqueça Annabelle. Kohaku é um trunfo que não pretendo me desfazer.

— Tem razão, eu não sei onde estava a minha cabeça quando pensei que você poderia melhorar. — virou o corpo para o lado oposto. Naraku estranhou a ausência de persistência e permaneceu a observá-la, à espera de alguma ação, ou pelo menos um suspiro magoado.

Nada. A humana petrificou na posição em que estava, o hanyou se levantou cauteloso, deu a volta ao leito e parou de frente a misteriosa criatura. As pálpebras estavam seladas, no entanto ele sabia que a mulher ainda não dormira, assim como estava certo de que ela o notara de vigília e optou por ignorá-lo. Não havia mudança no semblante de Annabelle, estaria triste, estaria com raiva? No que ela tinha se tornado?

No que ele a tornara?

Você não me ama, duvido até mesmo que ame Kikyou, mas de alguma maneira torta, esquisita, você se importa. E se você é capaz de se importar, existe algo de bom em você. — Naraku rememorou um momento agora tão distante quanto um sonho, quando a escocesa tocou seu rosto graciosamente e afirmou com veemência a sua crença. Ela fora a única a enxergar qualquer traço de benevolência em seu ser obscuro, bem como fora a única a quase implorar para que ele não desistisse de si mesmo quando dividiram o singelo calor de uma fogueira em uma caverna rochosa.

Ao bater os pés sobre o assoalho, encaminhando-se ao quarto, Naraku refletia sobre a saudade que sentia daquela Annabelle, e torturava-se por crer tê-la matado. Como pudera destruir o que mais almejava? O discurso do fantasma de Kagewaki soava profético. Sem perceber, o rival de Inuyasha deixou escapar um riso irônico enquanto sentava-se. Os olhos ardiam como se neles alguém tivesse jogado areia. Naraku levou o dorso de uma mão e os esfregou, percebeu na pele pequena quantidade de água, levou-a a boca e provou o gosto salgado das poucas lágrimas que por pouco não desceram pelas órbitas. Tornou a rir de si mesmo, ainda que a dor o consumisse por um lado, e a raiva por outro. Seus olhos procuraram o cenário afora, além da janela, e prenderam-se na singular flor que sobrevivia ao seu miasma.


Annabelle abriu os olhos vagarosamente, como das outras vezes não sentia a mínima vontade de se levantar para enfrentar o dia – se é que era dia, a bruma arroxeada que camuflava o castelo do olhar de forasteiros não permitia que os raios solares brindassem a terra com seu brilho dourado. Ao sentar, a humana mirou os lados e estranhou não haver qualquer presença no quarto além da dela. Geralmente Kohaku estava por perto, ou mesmo Kagura. Todavia, ninguém a visitara naquela manhã funesta.

Antes de resolver sair, a jovem apática se chegou ao parapeito amadeirado e pôs o rosto para fora. Os cílios acobreados se tocaram enquanto a pele eriçava-se com o vento gelado. No fim das contas, ela ainda era capaz de sentir alguma coisa. Então, os olhos se abriram e finalmente as pernas iniciaram a caminhada. Anna vagou pelos corredores sem procurar uma direção certa até que por coincidência esbarrou com Kagura.

— Teve uma boa noite de sono? — a guardiã dos ventos perguntou um pouco mais simpática.

— Eu acho que sim... — respondeu reticente, fitando todos os cantos como se procurasse por alguém.

— Ele está no quarto onde guarda a joia. — contou de pronto, como se a interrogação nos traços da ocidental fosse previsível.

— Ele quem? — as esferas celestes piscaram ainda interrogativas.

— Naraku, — riu — quem mais seria? — a youkai estava animada ou seria impressão? A conduta de Kagura confundiu os sentidos de Annabelle.

— Tem alguma coisa diferente acontecendo aqui. Estou enganada? — encarou-a sem titubear.

— Você é tão sensitiva e ainda não se deu conta? — outro riso escapou — Garota, eu não faço ideia do que você disse ou fez, mas precisa saber o que aconteceu enquanto você dormia...


Kagura não sentia sono naquela madrugada, por isso estava sentada na varanda da enorme construção. Seus orbes carminados procuravam ver além da barreira um céu estrelado e a cria de Naraku sonhava acordada em um dia alcançar a tão desejada liberdade. Por mais que seu coração não estivesse dentro do peito, ela jurava poder senti-lo palpitar, assim como pôde senti-lo parar ao ver parar ao seu lado o tão odiado mestre.

Naraku?! — sobressaltou-se e imediatamente ficou de pé, a postos. Atrás do sujeito surgiu o menino usado sempre de peão para os planos mais terríveis. Kagura estava convicta de que mais uma vez Kohaku teria uma missão suja para cumprir e tentou se preparar psicologicamente para levar o garoto ao local onde teria que cumprir tal objetivo. — O que quer que eu faça?

Leve Kohaku até o grupo de Inuyasha e devolva-o à irmã. — disse sem rodeios.

E depois?

Volte para cá.

Quando devo trazê-lo de volta? — estranha às intenções de seu criador, arqueou uma das sobrancelhas. Geralmente, Naraku era bem claro acerca de seus planos.

Ele não voltará. — o mestre começou a demonstrar impaciência na voz.

Não me diga que vai matá-lo?! — sabia que não deveria se surpreender com uma atitude cruel quando se tratava do hanyou, ainda assim não desejava que o menino morresse tão cedo.

Kagura, estou mandando que devolva Kohaku à irmã dele. Será tão difícil de entender o que quero? — Naraku soou mais grave.

E o fragmento nas costas dele, é para tirar? — o cérebro logo embolar-se-ia de tão confuso.

Leve-o já! — exclamou, tirando de sua serva qualquer coragem de fazer nova pergunta.


Os olhos de Annabelle quase saltavam das órbitas conforme Kagura revelava como havia sido suas horas madrigais. As batidas cardíacas aceleraram para depois quase estancarem e o corpo todo amolecer, tonto.

— E foi isso, Naraku enlouqueceu. Ele simplesmente libertou o menino! — ela terminou o relato já às gargalhadas, de tão desacreditada que estava. — Claro que mais tarde ele deve ir atrás do fragmento, mas... — um movimento brusco da humana interrompeu seu discurso — Ei, aonde você vai? — Annabelle não pensou, simplesmente correu na direção do cômodo onde Kagura dissera que Naraku se isolava. — "Ele fez isso por causa dela" — a mestra dos ventos constatou e cessou o riso.


— Naraku... — abriu a porta de correr com cautela, sem causar ruídos. Não obteve resposta, e percebeu o quão denso estava o youki ali dentro.

Sem demora, avistou o meio-youkai sentado no meio do cômodo. A parte de cima do quimono escuro jazia aberta e caída para os lados, deixando à mostra a queimadura em forma de aranha que naquele instante cintilava como se estivesse em chamas.

Ele sabia de sua presença, mesmo que Annabelle não tivesse aberto a boca para falar, contudo optou por não mirá-la. Seus olhos foram cativos pela pérola em um altar adiante, entre duas velas. Os dedos rijos apertavam os joelhos dobrados. A raiva dele era tanta que quase possuía um cheiro.

Num repente, braços o envolveram por trás, e um queixo acomodou-se em seu ombro tenso. Um coração acelerado gritava, colado às suas costas. Ela o abraçara numa tentativa de acalento, trazendo no gesto a nostalgia de tempos passados.

— Obrigada... — Annabelle sussurrou rente ao ouvido dele.

Uma mão, ainda rígida como pedra, tocou a dela que tremia.

Por fim, uma gota respingou sobre o peito de Naraku. De canto, os olhos dele captaram o pranto suave descer das preciosidades cerúleas enquanto os lábios rosados exibiam um discreto, mas doce sorriso. A cor voltara às bochechas dela, ao menos em parte. A energia maligna foi se dissipando dos cantos como poeira. Havia alguma esperança enfim – ele pensou, e quando deu por si seu próprio coração parecia calmo, tão sereno a ponto de seus próprios olhos se fecharem e as articulações amolecerem. A única negritude que permanecia no amplo quarto era uma fina camada de fumaça ao redor da esfera rosada quase completa.

— Annabelle... — sibilou quase em tom de lamento e ela apertou ainda mais o enlace — "O que você fez de mim?"

Humano. — os burburinhos contaram — Ela está tornando-o humano e você permite. Não era você quem desejava tanto se tornar um youkai completo?

"Eu já não sei mais..."

O que você realmente quer Naraku? A humana ou poder? Não pode ter os dois.

Os olhos de sangue, fechados, espremeram-se. Como se a dona dos cabelos de fogo pudesse sentir a angústia dele, sua aura começou adentrar os poros da pele leitosa e acalmá-lo aos poucos.

"Eu quero que Annabelle volte a ser o que era" — ele compreendeu, pois, que não bastava tê-la em seu castelo, tampouco em sua cama. Naraku queria ver a sua hóspede e amante feliz. Bem como ela fora a primeira pessoa a notar luz dentro da infindável escuridão que o compunha, fora também o primeiro ser a quem o hanyou não desejava machucar, porque se a ferisse, estaria a apunhalar a si mesmo. Por essa razão, Naraku escolheu abrir mão de um trunfo que tinha, simplesmente para ver um sorriso enfeitar os lábios de sua humana outra vez. E, quem sabe, qualquer dia sua escocesa não precisaria de agrados para ser terna com ele, como antes o era com Hitomi?

Aquele foi o momento em que a teia o prendeu sem que pudesse perceber, e de supetão o predador tornou-se presa.

Continua...


TCHARARARAM!
Demorei, mas voltei, e de quebra com um capítulo GIGAAAANTE que já estava postado no Anime Spirit há um tempão (desculpem).
Tentarei deixar a fanfic atualizada aqui como está lá, prometo, só não posso dizer em quanto tempo farei isso, pois ando enrolada com minhas atividades e sem muito tempo para organizar outras coisas, para escrever, enfim...
Espero que gostem.
Sobre o diálogo entre Ailyn e Kikyou, num futuro um pouco distante teremos mais detalhes sobre.
Kissuuus!