Oi pessoal, estou por aqui novamente! Obrigada pelos incentivos, como eu disse, farei o que posso para manter a fanfic atualizada no site!
Bem, nesse capítulo vamos matar a saudade de alguns personagens que estavam sumidos na estória.
Desculpem possíveis errinhos de digitação ao longo do texto, a gente faz o possível para revisar direitinho, mas ás vezes algum detalhe passa batido.
Boa leitura!


Capítulo 28 – Reminiscências

O grupo de amigos acampava em meio à brenha verdejante, protegidos pelas altas copas das árvores. Um dos rapazes estava ausente todavia, e por essa razão a mocinha deitada em um saco de dormir demonstrava certa zanga no olhar. Além dela, apenas uma pessoa permanecia acordada – abraçada à arma talhada em ossos de youkais, Sango observava as chamas da fogueira bailarem agoniadas enquanto pensava sobre as diversas tragédias que acometeram sua vida em tão pouco tempo.

Kagome, num rompante, sentou e jogou a colcha para o lado:

Sinto a presença de um fragmento!

O movimento brusco da colegial despertou Shippou, deitado na beira de seu leito improvisado. Miroku, sempre alerta, abriu os olhos em um segundo e então todos se encararam, sabendo que o que quer que estivesse prestes a acontecer haveria de estar relacionado a algum plano de Naraku. A oriental do século XXI indicou o caminho a dar passos na frente. O arco e flechas estavam a postos, caso um embate se desse.

Não muito longe, em uma parte onde as árvores não existiam em tanta abundância, o vento soprava agitado e contornados por ele estavam Kagura e Kohaku, sentados sobre uma larga pena.

À primeira vista, o trio de humanos e a pequena raposa estranharam o figurino da Mestra dos Ventos – pois em muito se assemelhava às roupas da estrangeira ruiva – porém, dadas as circunstâncias do encontro e do que aqueles indivíduos já conheciam sobre o criador da youkai, todos se sentiram acuados e se prepararam para o pior. Shippou preparou alguns de seus cogumelos mágicos e os deixou a postos caso fosse necessário usá-los. Contudo, a mão que segurava o ombro de Kohaku o soltou. Kagura indicou com os olhos para onde o garoto deveria seguir. Depois de algumas piscadelas confusas, o irmãozinho de Sango se ergueu e caminhou errante até o grupo. Ele sequer possuía uma arma, trajava as roupas simples de sua antiga rotina.

Aos poucos, Sango baixou a guarda e apoiou o Osso Voador sobre a grama. Nada nos traços do rapazote indicava hostilidade ou vazio, os amigos tinham diante de si uma criança atordoada, somente... e inocente.

Não me perguntem por que estou fazendo isso, nem eu mesma sei dizer. Naraku simplesmente mandou devolvê-lo. Claro que ele deve vir atrás do fragmento depois, mas isso é problema de vocês. — Kagura explicou antes de dar de ombros e partir para longe em seu transporte excêntrico.


— Aquilo foi muito estranho... a raposinha cochichou com a adolescente de outra era, enquanto afastados, observavam Sango e seu irmão sentados juntos à beira de um córrego. O sol da manhã raiava brando e as largas folhas de altas árvores fragmentavam-lhe as luzes.

— Tem razão Shippou, eu também não sei o que pensar, acho que precisamos tomar certo cuidado. Kagome tentou ser sábia, no entanto não teria coragem de chamar a exterminadora de youkais para conversar sobre o assunto.

Ao menos não tão cedo.

— Então você ainda não lembra de nada do que aconteceu, Kohaku? a irmã mais velha perguntou a encará-lo apreensiva. A proximidade era tamanha que os ombros de ambos chocavam-se e o menino corava sem se aperceber.

— Não, eu sinto muito... ele se encolheu, acuado e tímido A minha mente parece um grande vazio, tudo o que me lembro é de como era a minha vida no castelo.

— E como era lá? de repente o caçula de sua família teria algumas informações úteis para revelar sobre o odioso inimigo. Com o coração preenchido por raiva, Sango prosseguiu: O que Naraku fez a você?

— Ele me tratava como um lacaio, me mandava fazer coisas horríveis e eu não conseguia desobedecer... os braços cruzados sobre os joelhos apertaram-se fechando um abraço ao redor de si mesmo, os olhos amadeirados tremularam por instantes, visivelmente tristes. A expressão desconsolada de Kohaku fez Sango se arrepender de tê-lo interceptado tão rápido. Então os traços do garotinho começaram a amenizar de súbito, bastou ele parar de falar sobre Naraku para contar sobre a chegada de uma agradável hóspede: E aí, um dia, uma moça diferente chegou. Ela tinha os cabelos cor de abóbora e os olhos cor de céu, nem parecia desse mundo...

— Anna... Sango murmurou, a recordar do último encontro com a ruiva e da promessa feita por ela: proteger seu irmão.

— Ela foi gentil comigo, cantou e tocou harpa para mim, Kohaku abriu meio sorriso e desde que ela pisou no castelo, o comportamento de meu antigo mestre mudou.

— Mudou como?

— Eu não sei explicar, é como se a presença daquela moça o deixasse menos cruel... suspirou Ele parece gostar muito dela.

— Kagome! a jovem exterminadora chamou a amiga no mesmo instante e ela veio sem titubear, o pequeno youkai raposa surgiu saltitante logo atrás. Você precisa ouvir isso... afirmou à colegial. Por favor, Kohaku, continue. pediu com suavidade, era perceptível no pequeno irmão o desconcerto por mais dois indivíduos entrarem na conversa.

— Pode falar, Kohaku, não se acanhe! Kagome alargou um sorriso amistoso nos lábios, dando ao menino a coragem que ele precisava para continuar.

— Meu mestre... respirou fundo digo, meu antigo mestre Naraku me libertou porque aquela moça pediu.

— O quê?! Shippou empalideceu e seu pequeno corpo rolou uma cambalhota para trás enrolando-se na cauda como se fosse uma bola de pelo. Os olhos giraram confusos e o youkaizinho não sabia se ria ou se chorava por conta da situação O Naraku? Eu não acredito!

— Não é do feitio do Naraku agir desse jeito, ele tem que ter uma intenção por trás dessa atitude. Sango coçou o queixo conforme o cenho franzia ligeiramente consternado. Ah, sim, o bastardo tinha de estar tramando algum plano ardil, provavelmente faria Kohaku atacá-la na primeira chance – como já havia feito. E, além do mais, o fragmento da Joia permanecia nas costas do menino, obviamente o hanyou malicioso o viria buscar quando tivesse uma chance. Não, aquilo tudo só poderia ser uma nova forma de fazê-la sofrer, mas, mesmo assim, Sango não desistiria do único parente que lhe restara e seus globos amarronzados resplandeciam determinação. Kagome a observava em silêncio, porque nem ela mesma sabia o que dizer sobre o caso. Enquanto a oriental mais velha se via recoberta de suspeitas, o coração da mais jovem alimentava em si alguma esperança de retratação. A menina Higurashi, tão benevolente, era também muito intuitiva. Uma voz, lá de dentro, lhe dizia que dessa vez não havia artimanhas, e sim atos provocados pelo ápice do desespero... e dos sentimentos.

Keh! finalmente Inuyasha se manifestou. O meio-youkai chegara a tempo de ouvir o que considerou absurdo e não deteve suas opiniões. A garganta implorou por libertar tudo o que a mente pensava, e assim o fez: Você deve estar de brincadeira com a minha cara, moleque! Até parece que o Naraku iria te soltar só porque tem uma quedinha pela Anna-não-sei-o-que-lá! Nem pela Kikyou ele faria isso! cruzou os braços e fechou os olhos, o nariz empinou-se confiante. Mas é claro que isso é uma armadilha!

— Inuyasha! Kagome se levantou e o repreendeu no ato. Sango e Kohaku estavam visivelmente constrangidos com a atitude do sujeito cujas orelhas deveriam ter ouvido a conversa de longe.

— Falando em Kikyou, a gente sabe muito bem que vocês deveriam estar se encontrando às escondidas ontem e por isso você não estava aqui quando a Kagura apareceu para entregar o Kohaku! Shippou, desafiador, comentou a cruzar os braços e batucar os pezinhos. O pequenino não percebeu como suas palavras acanharam não só o cão híbrido, mas também sua amiga tão bem quista que guardava alguns sentimentos e tristezas para si.

— O que foi que eu perdi? Miroku aproximou-se a trazer um porco selvagem sobre o lombo. O animal pesava tanto que o monge precisava se apoiar no cajado para continuar andando Deve ter sido uma bela de uma fofoca para você me largar lá no bosque com a nossa caçada e me fazer carregar sozinho! resmungou para o amigo.

Humpft, nossa caçada? Fui eu quem matei, você não moveu um dedo! Tinha mais que carregar esse bicho mesmo para ter alguma utilidade no fim das contas, apesar das palavras ofensivas, a careta no rosto do hanyou arrancou uma risada do rapaz humano, era sempre assim.

— Não importa o que aconteça e o que o trouxe aqui, eu vou cuidar de você. Sango abraçou o seu ente querido singelamente e esboçou um sorriso meigo, fez isso para tentar acalmá-lo depois da explosão de Inuyasha.

— Essa é boa, Naraku libertar uma de suas marionetes por causa de uma garota! todavia, o mal-humorado do grupo insistiu nos comentários desagradáveis.

— Foi isso mesmo que eu ouvi? Miroku se direcionou às duas mulheres do grupo. Kagome meneou uma afirmação com a cabeça. Shippou permanecia atordoado com a história, a pequena Kirara estava à beira do rio bebendo água como se nada de extraordinário acontecesse em volta. "Precisaremos esperar pela sucessão dos eventos para saber qual é a verdadeira intenção de Naraku" O monge contemplou o céu vespertino e dialogou apenas com seus próprios pensamentos.

Inuyasha, irritadiço, afastou-se do grupo por alguns instantes. Kagome fitou-o preocupada.


Naraku abriu as portas da entrada da construção e deparou-se com sua estimada humana sentada à varanda, vidrada em um novo adereço – feito por ela – no centro do fúnebre jardim.

"Mas como?" ele se perguntou ao vislumbrar uma árvore repleta de flores brancas, similares àquela que surgira por ali antes. Estupefato, o híbrido caminhou e estancou os passos assim que esteve ao lado da escocesa.

— Você gostou? a ocidental perguntou com naturalidade.

— Como você fez isso? havia admiração, mas também temor naquela indagação.

— Você sabe... o meu dom. mirou as próprias mãos Se quiser que eu desfaça, tudo bem.

— Não! ele se precipitou, mas logo recuperou o controle e a calma É uma bela árvore, só não entendo como qualquer planta conseguiria sobreviver ao meu miasma... enquanto refletia sobre a magia dela, notava o fino véu esbranquiçado a proteger a obra de Annabelle e ela própria É claro... abriu um sorriso sutil logo a constatar o óbvio: a árvore era como ela, um ponto de luz perdido nas trevas, apático porém firme, sobrevivendo.

O riso se fechou em um risco. A mulher não o olhava, contudo os sentidos aguçados de Naraku o possibilitavam de ouvir o coração bater depressa e a saliva a descer pela garganta angustiada. Annabelle estava ansiosa e ficara ainda mais quando ele sentou ao seu lado. Se ela fosse uma youkai, certamente perceberia que o estado de espírito dele não estava tão diferente...

— No que está pensando? bom ator como era, controlou os ânimos para transparecer serenidade.

— Em muitas coisas. resfolgou lentamente, bem como piscou os olhos em busca de autocontrole. Penso no céu de verão, nas flores da primavera, até da brancura da neve no inverno... penso nas coisas das quais sinto falta. manteve-se vidrada na árvore, mas podia percebê-lo bem pela visão periférica – as nuances da curiosidade nos olhos escarlates, até mesmo certo receio.

— Das coisas que sente falta? Hum... o tom dele era previsível, as notas dissonantes do ciúme completavam a melodia grave de seu falar aveludado.

— Naraku, finalmente virou o rosto e tomou coragem de encará-lo, lembrando-se vividamente das recentes horas passadas junto a ele em um abraço de gratidão e acolhimento o que eu represento para você? os dois empalideceram com a pergunta, mas os olhares não se afastaram, o dela trêmulo e o dele arregalado. Diante da mudez do hanyou, Annabelle controlou a respiração e o nervosismo para falar algo mais: Você disse que apagaria as minhas memórias, e até agora elas permanecem intactas. Você disse que... — "me faria sua mulher" pensou, mas calou, não teve a ousadia de dizer Por que eu ainda me lembro de tudo?

— Uma vez você me disse que esquecer de quem você era seria como morrer, lembra-se? pontuou, enfim, embora por dentro trepidasse Você sempre foi tão convicta, até mesmo Kagewaki tinha sua essência instável, mas você... você sempre soube o que queria e no que acreditava. suspirou, desagradado com as próprias lembranças de quando testemunhava os momentos calorosos do casal de longe O ser humano costuma ter a capacidade de amar e odiar o outro na mesma intensidade. Você é uma exceção, porém. Nem a mim, depois de tudo o que fiz, seu coração odiou.

Annabelle identificou nos olhos dele a mesma expressão de quando ela quase morreu afogada – um misto de tristeza e preocupação. As mãos dele repousavam sobre as pernas. Trêmula, a escocesa cativou uma entre as suas e em tom mais baixo, quase num murmúrio, perguntou novamente:

— O que eu represento para você?

— O que eu represento para você? rebateu com a mesma questão e arqueou uma das sobrancelhas. Soou desafiador e inseguro ao mesmo tempo. Não havia sarcasmo, sequer um traço de malícia naquela imensidão avermelhada e estonteante. Annabelle sentiu-se tragada pelos rubis, seu estômago revirou por dentro do ventre, mas o medo a aplacou e cessou seus movimentos, suas iniciativas. As mãos abriram-se, deixando a dele escorregar. Por fim, os céus baixaram turvos. Naraku tomou o queixo dela entre os dedos e inclinou-lhe o rosto para cima. As pálpebras cerraram-se firmes enquanto ela ofegava. Entendo. cessou o toque e a aproximação. A mulher quis gritar e a voz não saiu conforme ele se afastou em tenebrosa mudez.

Annabelle tinha algumas teorias, mas temia se permitir acreditar nelas. Naraku, por sua vez, tinha muitas certezas.

Kagura os espiava da janela de um cômodo, ela também tinha lá algumas ideias e esperanças.


Kohaku contemplava o sol baixar por de trás da montanha enquanto caminhava com o grupo de estranhos. Ao analisar suas nuances, percebia-os preocupados e desconfiados – com exceção da bela exterminadora a esboçar um sorriso ou outro. Como ela era familiar!

Num rompante, vidrado na moça que se dizia sua irmã, imagens surgiram à mente e o fizeram paralisar – ele, a segurar uma foice, ceifando a vida de tantas outras pessoas, e por último, a mesma criatura – que agora lhe sorria – chamava-o aos prantos, até que flechas acertaram-no em cheio e tudo mais se tornou em escuridão. Kohaku estancou, pálido de horror.

— O que eu fiz? a voz chiou entrecortada, e o menino pôs as mãos à cabeça.

— Kohaku?! Sango, que caminhava um pouco à frente, parou e virou-se, suas mãos imediatamente tocaram os ombros do garoto, contudo seu irmãozinho parecia preso em um outro tempo, numa memória fúnebre Acho que ele está se lembrando! Comentou com a amiga, logo atrás, apreensiva com a situação. Kohaku, está tudo bem, acalme-se! abraçou-o, no entanto o pobrezinho permanecia gelado e a expressão mantinha-se horrorizada. Está tudo bem... repetiu, afagando-lhe as costas.

Num reflexo abrupto, talvez na vã esperança de se afastar da dor por instantes, Kohaku empurrou Sango e correu de volta à direção da mata.

— Kohaku! a exterminadora gritou e foi atrás. Miroku, chamou Kirara e assim que a youkai aumentou de tamanho, o monge a montou e seguiu o rumo da amiga.

— Inuyasha, temos que ir até eles! Kagome disse sem titubear.

— E se for uma armadilha do Naraku?! Shippou, no colo da colegial, questionou.

— O que com certeza é, mas temos que ir de qualquer jeito. Keh! o hanyou dos cabelos prateados resmungou, e ainda assim se prontificou a levar a adolescente e a raposa nas costas. Com sua velocidade, chegaram rápido ao destino – Inuyasha acompanhou o garotinho pelo cheiro e o encontrou escorado ao tronco de uma árvore enquanto a irmã mas velha tentava consolá-lo inutilmente. Não parecia que Kohaku estava sob o controle de alguém, e sim que era uma criança arrasada, a chacoalhar os ombros e soluçar.

— Escute, não foi sua culpa. Sango tentou explicar Você lembrou, não foi?

Não era como se o menino tivesse recuperado completamente a memória, muitas lacunas remanesciam, somente os piores momentos latejavam, fazendo-o se contorcer de dor na cabeça e dor no coração.

Inuyasha respirou fundo e se achegou, tocando o ombro dele:

— Ei... assim que Kohaku se virou para responder, um punho fechado acertou-o no estômago e o fez desmaiar.

— Inuyasha! Kagome berrou e Sango logo em seguida, Miroku observou com cautela o amigo segurar o garotinho nos braços antes de mirar as moçoilas arrefecidas.

— Isso vai acalmá-lo por enquanto, precisamos achar um lugar para passar a noite. o meio-youkai colocou o corpo adormecido cuidadosamente sobre seu ombro direito. O restante da trupe compreendeu sua atitude – mesmo desajeitada – e o seguiu trilha a frente. Não se podia brincar naquela época e naquelas florestas, principalmente à noite, e Kohaku demoraria um tempo até se reestabelecer.


Annabelle jazia sentada, as costas apoiadas à parede no canto de seu quarto, os braços a abraçarem as pernas contraídas e o queixo a buscar apoio nos joelhos. Os olhos miravam o nada, pois tudo o que a garota humana via era um momento, e não um lugar.

Recordava-se das horas que passara com ele, abraçados, sem trocar uma palavra, somente suspiros. A mão dele, sobre a sua, afagando-a sutilmente, e a joia a resplandecer sombria à distância.


A pele do hanyou, tão macia, nem parecia pertencer a um ser que já se desfigurou e regenerou incontáveis vezes. A cicatriz de aranha, morna, remexeu-se ao toque tímido dos dedos de Annabelle, e a princípio Naraku endureceu e seu youki tornou a crescer. Então, com um simples "shh" e um beijo na bochecha ela o acalmou enquanto insistia na carícia suave. Aos poucos, seu algoz amoleceu e tornou a se permitir apreciar o momento.


Ela não lembrava bem a partir de onde o dono dos belos olhos carminados ficou sonolento e adormeceu dentro do enredo, todavia o evento a assombrou desde então. Era ele, ali, vulnerável em seus braços. Jamais em outra situação Naraku se permitiria baixar a guarda, ou com outra pessoa. Era óbvio, ele confiava nela... ou confiava no efeito que tinha sobre ela por causa da Joia de Quatro Almas.


Annabelle o deitou com cautela, não queria despertá-lo, mas a cabeça do hanyou se recusou a abandonar seu colo e ela mesma ficou com pena de tirá-lo do conforto, assim, o deixou lá e afagou suas longas e negras ondulações. A contemplar o rosto sereno, já percebia nas feições distinções do antigo jovem mestre, e, de fato, quando o olhava via muito mais Naraku do que Hitomi. Doía, machucava, ela só não sabia dizer se a razão do flagelo era ainda saudade, mágoa reminiscente, ou algo novo. Ela tinha ciência sim, de uma coisa: estava com medo, muito medo.


Todas as sensações presentes a apavoravam. Recordou-se de um lugar mencionado por Kikyou na última conversa em que tiveram e cogitou a ideia de fugir para lá, recomeçar longe dos anseios e das dúvidas, mas pensar em se afastar dele causava outro tipo de dor e o tormento não tinha fim.

A porta se arrastou devagar, a espinha dorsal gelou enrijecida e os orbes cerúleos arregalaram-se. A garganta, seca, mal conseguia mover os músculos para tentar engolir uma ínfima quantidade de saliva.

Era Kagura. Annabelle se permitiu respirar, aliviada e frustrada ao mesmo tempo. Como isso era possível?

— Kagura... disse baixo, no entanto a outra não a permitiu prosseguir e foi muito direta:

— Se você ajudou Kohaku, acredito que possa me ajudar. ajoelhada à frente da escocesa, encarou-a no fundo dos olhos sem qualquer piscadela – Me liberte.

... o quê? indagou atordoada.

— Faça-o devolver meu coração, faça Naraku me deixar ir também. havia desespero naquele pedido, e muita tristeza escondida por trás da postura orgulhosa da Mestra dos Ventos.

— Kagura, eu não tenho esse poder... estremecida e desacreditada, argumentou.

— Tem sim! cativou-lhe as mãos com firmeza, desconcertando-a ainda mais Ele fará qualquer coisa por você, não vê? Me ajude... o gesto e a súplica fizeram Annabelle desarmar-se.

— Eu tentarei, prometo. depois de respirar fundo, afirmou compassiva e determinada.

Um sorriso estampou-se na face da escrava, talvez aquela curva em seus lábios rubros fosse a maior demonstração de candura possível de expressar diante de uma vida tão árida. Logo após, a olhar desconfiada para os lados, Kagura ergueu o corpo com agilidade e saiu furtiva do quarto, esquecendo a porta aberta. Annabelle, petrificada, mudou a direção do olhar para a porta e esperou por nova visita, de outro alguém...

e ele não veio, não se atreveria.

Naraku encontrava-se em situação parecida a da humana. Sua alma conturbada revolvia-se dentro do corpo carnal, e o coração de homem pulsava intenso, violento, como um tambor fervoroso. Ele odiava aquela sensação e daria tudo de si para se livrar dela. Ainda sentia na mulher a sombra da piedade e aquela maldita pérola sussurrava sobre isso o tempo todo.

Pena, pena e desejo, nada mais. E o que ele sentia ia tão além de tudo isso... Só de pensar na possibilidade de amá-la a raiva crescia como um incêndio. Ele não poderia, sequer tinha essa capacidade. Não era?

A porta abriu com violência, antes mesmo o meio-youkai já sentira a presença e eriçou-se todo. Assim ela era, uma mulher de atitude apesar dos anseios. O coração gritou para que ela o encontrasse e assim o fez – sem pensar, impulsiva, instintiva – um espírito livre, como ele sabia ser. Naraku observou em silêncio a forasteira se aproximar, ao notar que ela não se sentaria, ergueu-se com elegância e a fitou sério, percebendo-a ofegar, o peito descer e subir aflito enquanto a humana se preparava para dizer qualquer coisa e nenhuma palavra vinha.

Ficaram naquele ciclo vicioso de olhares cravados e muita tensão até que uma mão tocou o ombro de Naraku com firmeza.

— Na última vez que deitamos juntos, você conseguiu controlar melhor a sua energia sinistra e seu instinto de youkai. Isso tem a ver com a joia não estar mais em seu corpo? falou rápido, as palavras quase se atropelaram e diante daquele nervosismo todo o sotaque estrangeiro gritou, quase tornando a situação engraçada.

— Um pouco. respondeu secamente.

— Por que você tirou a joia do ombro se qualquer pessoa pode roubá-la daquele quarto a qualquer momento?

— Há barreira no quarto onde ela está, só entra lá quem eu permitir. ignorou a primeira parte da pergunta e agiu com naturalidade.

— E por que você tirou a joia do seu corpo, Naraku? insistiu quase histérica.

— Reservou a madrugada para me fazer um interrogatório? ergueuuma das sobrancelhas em tom de deboche, precisou vestir a velha máscara ou entraria em surto, mas Annabelle era persistente e continuaria até o amanhecer se preciso fosse.

— Foi por sua causa que Hitomi não apareceu mais em meus sonhos? Desde que cheguei aqui nunca mais o vi ou senti. partiu a andar pelo quarto de um lado para o outro, os pés pisavam com firmeza na madeira provocando ruídos. Você o afastou da minha mente com o poder da Joia, não foi isso?

— Eu disse que faria isso, você sabe. Deveria me agradecer por finalmente conseguir dormir. acompanhou-a com os olhos, analisando cada expressão angustiada.

— Qual foi a real razão de ter libertado Kohaku? parou repentina, girou o corpo e o fitou profundamente, cheia de anseios.

— Não era o que você queria? novamente, Naraku buscou manter a naturalidade no tom e no semblante. Tal postura a deixava ainda mais agitada e apesar de ele perceber, não conseguiria mudar seu jeito de ser Pensei que ficaria feliz, não estou entendendo o motivo de tanta agitação.

— Está me dizendo que o mandou até a Sango só para me agradar? aproximou-se vagarosa. Na noite anterior o abraçou agradecida, porém, com um dia inteiro dedicado aos pensamentos, Annabelle se via presa em uma teia de desconfiança. Precisava manter o olhar grudado ao dele para ler cada sinal, e ainda assim compreendia que Naraku sabia fingir com maestria e isso a deixava arredia. O que você está tramando? perguntou em tom de pedido, como se implorasse para que ele fosse verdadeiro.

— Não consegue confiar em mim. sorriu desgostoso. A ocidental sabia que aquilo não era uma pergunta.

— Eu quero confiar, mas estou com tanto medo... desabafou, a voz embargou na garganta. Ela poderia se conter à vontade, e o hanyou sabia que o choro queria descer no fim das contas. O aroma salgado invadia as narinas do araneídeo. Por que você faria isso só por minha causa?

— Venha aqui. abriu os braços sutilmente, o que mais poderia fazer se nem ele entendia bem o que estava acontecendo? E ela foi, encolhida como uma criança acuada, de encontro ao seu abraço e afundou o rosto em seu peito aos suspiros. Minha Annabelle... sibilou enquanto afagava os cabelos alaranjados à nuca. Compreendia-a por sentir exatamente o mesmo: medo do amanhã, da inconstância da vida e dos eventos. Ele ainda era o inimigo de todos, tinha a cabeça a prêmio e um objetivo a cumprir.

— O que será daqui para a frente? mas que inferno! Por acaso ela lia seus pensamentos? Não era a primeira vez que o casal se fazia a pergunta, entretanto a resposta parecia mais complicada do que o enigma da esfinge¹.

— Eu não sei. em um lapso de franqueza, respondeu.

— Você me ama? ergueu o rosto, enfim, para uma vez mais ter o vislumbre daquela vermelhidão surpreendida.

— Você mesma disse que eu não tenho essa capacidade, então por que me pergunta? tentou contorná-la inutilmente.

— Eu posso ter me enganado. Talvez lá no fundo, por trás de toda essa capa de maldade e sadismo, exista algum sentimento genuíno dentro de você. levou as mãos ao rosto dele e o acarinhou cuidadosa Quem sou eu para dizer o que você pode sentir ou deixar de sentir, apesar de tudo o que já fez e pode vir a fazer? roçou os narizes Naraku, você é um mistério para mim...

— Engraçado você dizer isso, de olhos semicerrados, quase a encostar as bocas e arrepiado até a alma pelo discurso dela, disse em baixo tom: porque você também é um mistério para mim, Annabelle Rose. Não posso negar que sua crença me agrada de alguma forma, ainda que me surpreenda depois de tudo você ainda ter qualquer esperança a meu respeito.

— Parte de mim quer acreditar na possibilidade de existir alguma luz em você, mas a outra parte – aquela que você despedaçou luta contra essa pequena muda de esperança que quer crescer dentro de mim. o fragmento pulsava dentro do peito, fazendo-a arfar de desejo, inebriada pelo hálito quente e pelo timbre aveludado de voz, porém, diferentemente das últimas vezes, ela se esforçava para não se render, para permanecer sã, visto que queria enfim uma conversa. Eu preciso saber quais são as suas pretensões, se você vai seguir com esse plano ferrenho de machucar os outros gratuitamente... afastou alguns fios negros das maçãs alvas, respirou fundo e abriu a boca outra vez para falar, e Naraku a abafou num beijo repentino.

Os papéis se inverteram, dessa vez o meio-youkai queria escapar do diálogo de qualquer jeito. Ele a encurralou entre a parede e seu peso, prensando-a contra si. Os pensamentos de Annabelle nevoaram por segundos, no entanto ela ainda teve forças para virar o rosto e continuar o discurso em sussurros vacilantes:

— Esqueça a ambição de coletar os fragmentos dessa pedra amaldiçoada... suplicou enquanto ele lambuzava seu pescoço com beijos molhados e mordiscava o seu queixo Pare de ferir as pessoas...

— Não estou ferindo você agora, estou? murmurou ao ouvido arrepiado ao mesmo tempo em que uma de suas mãos se encaixou por cima da saia azulada, entre as pernas dela. Chega dessa conversa.

O corpo se remexeu extasiado, todavia a humana compreendeu muito bem a intenção de seu amante e por isso se decepcionou. Manipulá-la – era esse o objetivo. Fitou o teto escuro enquanto suas articulações tremulavam. Céus, os dedos dele eram tão ágeis que ela até se esquecia de ainda estar vestida! Suspirou pelo orgasmo, e pelo desagrado. Muda, atentou-se aos movimentos dele para despi-la, e depois para desnudar a si – Naraku era um exímio sedutor. Seria ela capaz de seduzi-lo para ajudar Kagura? – pensou.

Sem um pedaço de pano que os cobrisse, um fronte ao outro, contemplaram-se sem afobação. Olhos perpassaram por cada curva, traço e peculiaridade.

— Você é tão linda. o hanyou comentou vidrado, encorajado a tocá-la e ao mesmo tempo desentendido de si. Noutro dia, ele não se contentava apenas em ter a superfície. Hoje a induzia a se dedicar à carne, porque era tão medroso quanto ela.

Os globos celestes cintilaram docilidade e melancolia, depois os longos cílios arruivados se tocaram para que a humana pudesse desfrutar da sensação do toque. As pontas dos dedos de Naraku arrastaram-se pelos ombros, pelos braços e pela curvatura dos seios, desenhando-os. Sem pressa, as palmas cobriram os mamilos róseos com gentileza e o toque amoleceu o corpo de Annabelle. Ela abriu a boca úmida, chamando-o para um beijo que aconteceu, e foi calmo, como as carícias, como o abraço, como todos os gestos de quem buscava por consolo.

Sentaram-se, ele ao chão e a escocesa em seu colo, ainda abraçados, e assim fizeram amor pela primeira vez depois de tantas cópulas regadas a pura luxúria e violência. Naraku a ajudou a movimentar os quadris lentamente enquanto recebia beijos pelo rosto e afagos nas costas. Os sons que os dois emitiam eram baixos, murmurados, como lamentos. Mas o ato em si, em um ponto foi como das outras vezes – ainda que sereno e afetuoso – uma fuga da sórdida realidade.

— Fui sincero quando disse que a queria aqui como minha mulher, enfim, ele disse, ainda que num murmúrio quase inaudível, a boca espremida no pescoço esticado dela quando disse que tentaria juntar os seus pedaços.

A bela ocidental apertou o enlace e seu coração bateu tão forte que o som pareceu vir de dentro de Naraku também. Mas são tantas as razões de um coração acelerar... No caso dela, seriam boas ou ruins? A dúvida o aturdia. Fitou-a, e ela estava prestes a se debulhar em pranto, em longas inspirações de ar a humana se continha. Então, o meio-youkai beijou um olho de cada vez e experimentou o sabor salgado, as testas uniram-se, ambos fecharam os olhos e buscaram se concentrar no ato que os fazia encontrar um júbilo em meio a tanto sofrimento. Vagarosa, Belle deu continuidade à sua coreografia.

Depois de um tempo considerável dentro daquele embalo ameno, com o manto ebúrneo de Annabelle a agraciá-lo, satisfizeram a carne, mas não os corações aflitos. A maçã rosada e úmida de suor da jovenzinha pousou no ombro do vilão. As pernas, antes a abraçar a cintura dele, abriram-se e os calcanhares reencontraram o piso. Já as delicadas mãos se mantiveram firmes às costas, unidas à queimadura.

— O que está tentando fazer? a voz de Naraku quase parou no meio da garganta, estava desarmado. Sua cabeça procurou a dela para se apoiar.

— Dar a você alguma paz. contou singela Deixe-me ficar aqui essa noite. apertou mais o abraço. Essa era sua forma de retribuir o afeto que tão arduamente ele conseguiu demonstrar.

— Fique. e rendeu-se à ternura, à sensação de calor que ele tanto almejava desde quando teve seu primeiro vislumbre. Como poderia Annabelle saber que, quando desistiu de matá-lo o condenou do mesmo jeito? Naraku perdera parte de suas convicções, duvidava da própria jornada, depois duvidava se momentos como aquele adiantariam de algo, se estaria a se iludir como a maioria dos seres da raça que ele abominava costumavam fazer. O fato sempre foi que o hanyou tinha medo de sofrer – como boa parte dos humanos, como Annabelle.


— Kagome, o que foi? Inuyasha sentiu o aroma peculiar a se aproximar, mas não se virou para olhá-la. Estava sentado à grama, bastante afastado do restante do grupo.

— Vim ver como você está. sentou-se ao lado e o fitou amigavelmente. Ele não ousaria fazer o mesmo, os olhos dourados pareciam entristecidos.

— E Sango? perguntou como quem não quer nada Conseguiu acalmar o Kohaku?

— Não deve ser fácil para ele lidar com o que fez, eles precisarão de um tempo para se curarem... mirou o céu estrelado, visivelmente preocupada mas eu acho que o Kohaku não está mesmo sob o controle do Naraku, Inuyasha.

— Eu não sei, a Kikyou... quase mordeu a língua, foi instintivo começar a falar sobre o encontro que tiveram. Sentiu-se culpado, pois sabia que Kagome ficava arrasada quando ele dava essas escapadas. Então, se calou.

— Pode falar, sei que vocês estavam juntos quando a Kagura veio trazer o Kohaku para gente. tentou fingir não se importar, e falhou como em todas as outras vezes Sobre o que vocês conversaram?

— Kikyou acha que Anna pode estar mudando o coração de Naraku. revelou amargo Ela me disse que, sem perceber, Naraku pode estar sendo purificado pela aura de Anna, e seu lado humano está sobrepujando o lado youkai.

— Isso é uma notícia boa, não entendo porque você está tão chateado! o coração puro de Kagome alegrava-se com uma possível regeneração.

— Você não entende, né? suspirou aborrecido Vamos supor que Naraku esteja ficando bonzinho, e daí? Por causa disso esqueceremos tudo o que ele fez e o deixaremos ser feliz? Aquele maldito se derreter para a Anna e ficar mais humano não mudará o que ele fez no passado, nem trará a vida de Kikyou de volta! jogou o rancor para fora, mais por querer se convencer de fazer justiça do que acreditar que o faria.

Inuyasha poderia ser intempestivo, mas sua alma era bondosa e se tinha algo que o meio-youkai cachorro detestava era fazer os outros sofrerem. Não que se importasse com os sentimentos de Naraku, e sim com os de Annabelle. Não queria magoá-la, mas não poderia deixar de cumprir a sua missão – em nome de sua primeira amada que tanto sofreu e corria sério risco. Uma vez que o coração humano do hanyou aranha não alimentasse mais sentimentos pela sacerdotisa, ele não teria problema algum para eliminá-la. E, claro, sempre seria difícil crer completamente em uma redenção, tratando-se de quem Naraku era e de como ele sabia mentir. Qualquer que fosse a situação, no fim a europeia sairia aos frangalhos dela e Inuyasha sofria por se importar.

Kagome, por mais chateada que estivesse pelo destaque que ele dava à Kikyou, compadeceu-se da angústia de seu querido Inuyasha e pousou a cabeça ao ombro dele.

— Sinto que Naraku está ficando cada vez mais vulnerável. Inuyasha tentou falar com naturalidade, mas o cenho franzia Acredito que em breve encontraremos o castelo dele. era uma sentença, sabiam.

Palavra alguma viria a calhar, a colegial sabia. Não havia muito o que dizer. Ela fechou os olhos pensativa, apesar de tudo. Um braço a contornou timidamente pelo lado, e assim eles demonstraram a cumplicidade que tinham.

Seria maravilhoso se a vida fosse tão simples e todos pudessem oferecer perdão a um pecador da pior estirpe, entretanto é uma utopia pensar que as pessoas possuem essa capacidade quando perderam tanto, sofreram tanto... Inuyasha perdeu o amor, Sango perdeu a família, Miroku em breve poderia perder a vida – e o culpado pelo calvário de todos era Naraku. Ele precisava pagar.

Mas e Annabelle? Que mal ela fizera? Ela precisaria pagar em nome das mazelas que Naraku causara?

O mundo nunca foi justo, bem como a vida, e nunca será.


Os dias começaram a passar como sopros, quando a vida se torna agradável o tempo corre.

Não sabiam se podiam chamar aquilo de felicidade, mal falavam de seus sentimentos um para o outro. Entendiam-se por gestos, pela entrega da pele e finalmente dividiam o mesmo quarto. Naraku decidiu parar de levar Annabelle para outro cômodo quando ela adormecia, e ele próprio poucas vezes ia ao aposento onde depositara a Joia.

— Não sabia que você guardava isso... ela comentou enquanto abria um mapa que desenhara para Hitomi sobre os lugares para onde já tinha viajado. O senhor do castelo notou o suspiro saudoso e sentou ao seu lado.

— Sente muito a falta dele, não é? às vezes fazia esse tipo de pergunta, só para se arrepender em seguida.

— Hitomi me fez sentir algo que há muito tempo não sentia. passou a mão sobre a página de rascunhos Depois de tantos anos viajando sem rumo, finalmente senti que tinha um lar. Não tive vontade de ir embora, quis criar raízes em um lugar que não fosse a minha terra natal. apontou a Escócia com o dedo indicador.

— Você tem um lar aqui. comentou a contemplar a região que ela fitava no papel Ainda tem vontade de voltar para esse lugar?

— Eu gostaria, mas creio ser uma coisa que nunca acontecerá. Quando saí de lá, não foi nas melhores condições...

— Mas já faz um bom tempo. Acha que as pessoas ainda lembrarão de você?

— Eu duvido muito, mas tudo bem, como você disse, eu tenho um lar aqui. Para que pensar em voltar? suspirou e abriu um singelo sorriso – não como os que ela esbanjava há tempos atrás, era um riso discreto, calmo.

— Deve ser um lugar interessante. não era apenas uma tentativa de puxar assunto, quando Naraku deu por si, já imaginava como seriam não só os bosques do país de origem de Annabelle, mas também todos aqueles lugares por onde ela passou.

Notou-a encará-lo sem piscadelas, sabia que a todo momento a escocesa tentava desvendá-lo, contudo aquele olhar era diferente dos demais. O sorriso aumentou naquela boca por segundos, abrindo-a levemente. Então, ela deu um suspiro e retomou a expressividade comedida.

Pensou em levá-lo para conhecer todos os lugares desenhados, quis sugerir que viajassem, fossem embora juntos e lembrou-se de ter prometido isso a Hitomi. Seria mais uma traição a carregar na consciência. Além do mais, Naraku jamais conseguiria sair de solo nipônico. As vítimas de suas armações se certificariam disso. Remoer sobre o destino do aracnídeo a deprimiu em instantes, fazendo-a destoar da postura anterior.

Naraku se preparou para perguntar o que acontecera, no que ela pensava, e hesitou. Era o fantasma de Hitomi, nunca estariam livres dele. O hanyou não era ingênuo, no fim das contas. Silente, afastou alguns fios de fogo do rosto alvo e afagou o rosto desbotado com o dorso de sua mão.

— Tocarei uma música para você. ela conseguiu se recompor apesar de estar aos cacos. Se havia um lado bom em ter passado por tamanho sofrimento era isso: encontrar a força necessária para fingir que estava tudo bem, ao menos.

Naraku se acomodou quase deitado sobre o tatame e logo que Annabelle começou a dedilhar as cordas e tirar o magnífico som delas, os olhos dele se fecharam diante do mais puro deleite. Adorava aquelas serenatas, aquelas notas, e mesmo as palavras em um dialeto desconhecido. Era como se pudesse compreender as intenções por trás delas, e como era bom conseguir se divertir com algo diferente do costumeiro para ele, Naraku obtinha regojizo sem ter de fazer um mal a uma alma.

Claro que seus inimigos perceberam o sumiço e cada vez mais estranhavam. Ao mesmo tempo, Kohaku depois de recordar seus feitos teve o espírito destroçado, se Sango não insistisse incansavelmente, o menino sequer se alimentaria, e se o deixasse sozinho temia que o caçula tiraria a própria vida.

— As vezes me pergunto se Naraku fez isso de propósito. ela comentou com Kagome em uma das raras vezes em que estava longe do irmão. Os rapazes se banhavam em uma fonte termal.

— Como assim? a amiga interrogou confusa.

— Se ele me devolveu Kohaku, só para jogar na minha cara que mesmo juntos, estamos amaldiçoados pelo passado. roçou o braço nos olhos para disfarçar o choro raivoso.

— Sango, você precisa ter paciência! tocou-lhe o ombro gentilmente Essas coisas levam tempo, Kohaku sofreu um trauma muito sério...

— Naraku roubou a nossa felicidade! e ela desabou, cobriu o rosto com as mãos e soluçou copiosamente Não acredito que um dia nos recuperaremos disso, não aguento ver meu único irmão tão infeliz!

— Sango... abraçou-a forte, esperou que dentro de um abraço a exterminadora conseguiria se acalmar e decidiu que só a soltaria quando estivesse um pouco aliviada.


— Ei, Kohaku... Inuyasha o chamou enquanto se vestiam eu sei que é difícil, mas uma hora você precisa se fortalecer e enfrentar isso. o menino não respondeu, os olhos inchados, baixos, representavam apenas vazio. As olheiras o faziam parecer mais velho.

— Sabe, todos nós passamos por perdas aqui... Miroku, brando, se achegou.

— Foram vocês que causaram essas perdas? perguntou letárgico.

— Não foi culpa sua, entende isso? Você não escolheu fazer o que fez, Naraku o obrigou e depois apagou as suas memórias. o monge explicou com cautela.

— Então foi ele quem me fez esquecer? eis que o mancebo se expressou vívido.

— Sim! Inuyasha, então, envolveu-se com o assunto Fez você matar a sua própria família, esquecer de tudo e ainda te manipulou das piores formas possíveis. mesmo Miroku encarando-o recriminatório, ele continuou Transforme essa tristeza toda em vontade de fazer justiça, eu prometo que faremos Naraku pagar por tudo o que aprontou! o amado de Kikyou fitou o garoto humano com intensidade, nas esferas áureas havia o brilho e a força de quem intentava manter a palavra a qualquer custo. A honestidade transbordava do híbrido, bem como a angústia.

Kohaku suspirou e assentiu num balançar de cabeça. Em seguida, fez uma revelação animadora aos dois sujeitos que o acompanhavam:

— Acho que me lembro da localização daquele castelo.

Continua...


Eita pessoal, quanta coisa acontecendo e eu queria comentar um monte, mas não quero me intrometer na interpretação de vocês. Prefiro deixá-los livres para tirarem as conclusões que quiserem e fazerem suas previsões. OHOHOHO :O
Espero que tenham gostado, foi um capítulo muito difícil de escrever, mas o que vem a seguir se superou. TRETA, TRETA e mais TREEETAAA! (Assim que eu gosto, tentarei publicar o mais rápido possível).

Pelo menos deu para matar a saudade de alguns personagens da série (que eu espero ter abordado bem, não estou acostumada a escrever sobre eles), adiante mataremos a saudade de mais alguns - e da Ailyn que está sumida, não se esqueçam dela! :P

enigma da esfinge¹: da mitologia grega, a esfinge era um monstro com corpo de leão e cabeça de mulher que costumava descansar no topo de uma rocha ao longo de uma estrada para a cidade de Tebas. Sempre que algum viajante passava pela trilha, a esfinge o interceptava e propunha que solucionasse um enigma. As condições eram simples: se o enigma não fosse solucionado, a esfinge devorava o viajante ("decifra-me, ou devoro-te"). Claro que a esfinge gulosa comeu muita gente. Interessante né? Na internet vocês encontram qual era o enigma a ser solucionado e a resposta. ADORO essas coisas. 3

Kissuuuus, pessoal! Até o próximo!