Oi pessoal, voltei!
O título desse capítulo é uma homenagem à música da cantora Tarja Turunen (MINHA DIVA, MINHA DEUSA) chamada "Love to Hate". A letra combina muito com os sentimentos de Naraku (na verdade, com a forma como o aranhudo lida com esse negócio de amor, sentir, blá, blá, blá whiskas sachê...) e combina também com a indignação da Annabelle sobre essa maneira nada delicada de ser do nosso divoso Naralindo.
Espero que gostem, tem bastante informação para vocês hoje. Por outro lado, o outro capítulo está mais curtinho... Uma forra pra gente, hehehehe!
Boa leitura galera, aqui vai o 3.0 um pouco atrasado, mas com todo o carinho!
— Foi divertido enquanto durou, devo confessar... — proferiu em tom de deboche, a brancura dos dentes evidenciou-se num sorriso perverso — mas já enjoei desse jogo. De qualquer forma, obrigado pela distração, Annabelle Rose. — afagou o rosto esquálido, em seguida ela precisou buscar apoio na árvore perto deles, pois pensou que sufocaria.
"Distração?!"
A mesma sensação de horas atrás, quando o mundo pareceu preso em um vagaroso e infindável giro, se repetiu. Belle buscou por ar antes de erguer a cabeça e cravar os olhos nele. Naraku sequer se movia. Permanecia elegantemente de pé, encarando-a sem qualquer exaltação. Indiferente.
Capítulo 30 – Amor pelo ódio
— Você não pode estar falando sério... — um riso de nervoso escapou da boca dela — Depois de tudo o que passamos... — passou uma mão pela testa, por debaixo da franja arruivada.
— Tudo o quê? — perguntou como se os eventos passados fossem insignificantes a ponto de a memória falhar — Você se refere às horas de devassidão? — sorriu — Oh, sim, foram deleitantes, Annabelle, preciso confessar.
— Está me castigando pelo que fiz por Kagura?! — indignou-se e num único passo se fez próxima novamente.
— Se quisesse puni-la por isso, teria acabado com sua vida em meu castelo.
— Então o que é, você veio me dizer que vai me deixar aqui com essa sacola e ir embora como se nada tivesse acontecido? — deu um pontapé no receptáculo de suas roupas. Seu coração palpitava em tamanha velocidade que Naraku o sentia pulsar dentro da cabeça.
— Não me entenda mal, foi uma experiência interessante, mas agora minha curiosidade foi saciada, você cumpriu o seu papel. Portanto, pode ir embora. — ergueu a mão a frente apontando o caminho para o bosque.
— Você é inacreditável! — estapeou o ombro do sujeito, depois tentou empurrá-lo e o corpo rijo moveu-se levemente, contudo não saiu do lugar — Depois de tudo o que tivemos, você vem com essa conversa para cima de mim?!
— Depois de tudo o que tivemos? — o hanyou riu despreocupado — E o que tivemos, Annabelle Rose? Acha que estamos apaixonados, por um acaso?
Antes de responder, a escocesa ponderou. Eram tantas as sensações dentro de si que a confundiam, no exato momento não sabia bem o que dizer sobre seus sentimentos pelo araneídeo, suas mãos pediam para acertar-lhe uma bofetada e não para dedicar algum afago.
— Se não estamos apaixonados, então o que seria isso? — enfim, o respondeu com outra questão.
— Apenas uma ilusão, uma inútil ilusão da qual já tirei tudo o que queria. — manteve a insuportável secura.
— Mentiroso! — ralhou, e sua voz cobriu a dele — Eu não sei o que isso é, mas é forte, profundo e inevitável. Sei que sente isso também! — apertou a palma contra o peito dele.
— Essa coisa forte que você sente é uma fantasia, Annabelle. Uma fantasia implantada em você pelo fragmento da Joia que carrega no peito. Nós não sentimos nada um pelo outro além de simples atração física. — explicou pacientemente.
— Se o que sente por mim é uma mera atração, poderia muito bem ter escapado, me deixado ser atingida pela Ferida do Vento e morrer sozinha. — contra argumentou, segurando-o pela gola fofa. Os lábios dele contorceram-se sutilmente.
— Assim que eu tirar esse fragmento de você, estará livre desse sentimento. — o fato de ele não derrubar a hipótese fez Annabelle persistir em abraçar a sua crença.
— Covarde, — meneou negativamente a cabeça — você está com medo.
— Medo? Hu, hu, hu, não seja ridícula mulher. — escarneceu — Pegue suas coisas e vá!
— Está com medo de sentir, porque sentir dói e eu sei bem, também sinto essa dor. — os dedos escorregaram da gola, soltaram-no — Eu deveria ter adivinhado, é típico de você querer fugir quando a situação fica complicada, quando você não consegue entender direito o que está acontecendo. — de repente, as expressões de raiva transmutaram-se numa estranha calma, os olhos, contudo, mostravam-se impetuosos e estáticos, presos aos dele.
— É você quem não quer entender o óbvio, Annabelle Rose. Você foi usada por Naraku. Agora, pegue essa sacola e entre no bosque antes que eu mude de ideia e a mate aqui mesmo.
— Eu o desafio a fazê-lo. — aproximou o rosto ao dele — Mate-me.
"Humana idiota!" — o verdadeiro Naraku, sentado com as costas encostadas à parede do quarto, observava através de um espelho a marionete que exercia o seu papel e praguejava em pensamentos. Aquela postura irreverente da ocidental trouxe lembranças indesejáveis sobre uma distinta sacerdotisa a qual ele não conseguia matar.
— Você é tão... — ela prosseguiu, e o meio-youkai imaginou que depois de a mulher mordiscar o lábio inferior vomitaria uma palavra de baixo calão, mas ao invés disso, o xingamento foi: — humano!
Você é tão humano – Anna acertou, não poderia tê-lo ofendido de maneira pior.
As mãos dele apanharam-lhe os ombros e a encurralaram contra o tronco da árvore, entretanto Annabelle prosseguiu sem se permitir intimidar:
— Você despreza a minha raça por acreditar que nós somos seres meramente emotivos, que nossos corações são facilmente amolecidos, mas em toda a minha vida e por todos os lugares por onde perambulei, a maioria das pessoas que conheci eram gananciosas, egoístas, arrogantes e preconceituosas! Pensavam tanto em adquirir posses e títulos que se esqueciam de sentir empatia umas pelas outras, e quando por acaso se viam ligadas afetivamente a alguém, fugiam disso como cãezinhos acuados! Não, você não se difere em nada dos seres da minha raça, Naraku, — riu árida como o deserto — aliás, você não poderia representá-la melhor!
Um tentáculo esverdeado atravessou a pele de babuíno e aproximou-se do colo dela, onde jazia o fragmento.
— Eu disse a você, e foi sério. Você tinha uma chance. — Anna persistiu a falar e a encará-lo — Se me abandonar aqui por causa de seus medos infantis, está acabado. Não permitirei que me magoe mais uma vez sequer! — por fim, a voz embargou, numa descida penosa de saliva pela goela.
— Adeus, Annabelle. — em baixo tom, o hanyou respondeu e então a humana não conseguiu mais enxergar seus olhos.
No instante em que o tentáculo tocou o seio e tentou alcançar o caco de vidro, a brancura da aura dela o consumiu e o purificou, tornando-o pó. Antes de o fantoche desaparecer totalmente, contudo, através dele o real indivíduo ouviu-a dizer:
— É incapaz de se despedir pessoalmente de tão covarde que é, você merece morrer sozinho e sem amparo, destroçado pelos golpes da espada de Inuyasha. — e aquilo doeu mais do que ele poderia imaginar. As mãos do usurpador de Kagewaki fecharam-se e os rubros orbes estreitaram.
— Kanna, — após um longo suspirar, referiu-se à menina que estava a sua frente, contendo em mãos a janela que ele tinha para o mundo — você foi buscá-lo?
— Sim, enquanto Inuyasha estava no castelo fui ao vilarejo. — explicou sem emoção alguma.
— Bom. Agora saia, quero ficar sozinho. — determinou ríspido.
A pequenina girou nos calcanhares e se encaminhou a saída, brindada pela mesma tranquilidade na qual entrara no quarto. Naraku a invejou secretamente, pois tudo o que mais desejava naquele instante era ser preenchido pelo mesmo Nada que compunha Kanna, todavia, apesar de ele ter o poder de tirar a alma de suas criações, a sua era um fardo penoso e aparentemente obrigatório de se carregar.
Quando pensou que poderia apreciar a solidão como antes da presença de Annabelle fazia, a porta correu uma vez mais. Seus olhos capturaram a imagem de uma mulher em roupas ocidentais e seu coração lhe pregou uma peça. Fê-lo enxergar as fartas ondulações de fogo, fê-lo acreditar que ela tinha voltado e por segundos Naraku perdeu o ar. Então, a razão voltou a si, as pálpebras selaram e quando abriram enxergaram quem era a intrusa:
— Kagura, tsc! — esfregou os dedos nos olhos, depois virou o rosto para uma direção oposta — Essas roupas não combinam com você. Ordeno que volte a usar o seu quimono.
— Seu grande imbecil! — vociferou e entrou no cômodo sem temores. A atual postura da Mestre dos Ventos surpreendeu seu criador a ponto de ele tornar a olhá-la com os olhos arregalados.
— Perdeu a noção do perigo, escrava? — Naraku se ergueu, e embora estivesse irritado com a conduta de sua prole, um sorriso mórbido enfeitou-lhe a face.
— Você mandou embora a única criatura nessa terra que sentia algum afeto por você! — prosseguiu no mesmo tom — A sua capacidade de se auto sabotar é impressionante!
— Saia do meu quarto antes que eu resolva acorrentá-la no porão como da última vez. — alertou em baixo tom, já não tão sorridente.
— Por que você fez isso, Naraku?! — era tristeza misturada à ira naquela indagação?
Que se danasse, ele só queria que aquela boca carmim se calasse de uma vez por todas, por essa razão virou a palma da mão para cima. Kagura soube o que se sucederia dali, o seu coração se materializou às batucadas na mão do algoz e os dedos dele o apertaram sem misericórdia. Ela caiu de joelhos ao chão e contorceu-se conforme Naraku pressionava o órgão vital e o desapertava, torturando-a. O youki dele, incontrolado, revolvia-se pelo quarto. A vista de Kagura embaçou e ela pendeu para a frente, o rosto contra o piso.
"Esse é o meu fim" — teve certeza. Porém, a dor cessou de supetão. Uma das esferas de sangue abriram-se e o contemplou de costas, silencioso. O coração desaparecera do toque.
— Não quero ouvir mais nada sobre Annabelle, está me ouvindo? — mirou-a de soslaio.
— Sim. — tristemente conformada, assentiu.
— Saia, depois decido como a punirei por sua insolência. — ordenou.
Kagura, mesmo dolorida, levantou ligeiramente e o deixou a sós com seus fantasmas. O hanyou sentou-se novamente e, atarantado, baixou as mangas do quimono, jogou os cabelos para frente dos ombros e pousou uma mão à nuca. A queimadura de aranha incandescia.
Miroku, Sango e Shippo montaram Kirara e foram ao vilarejo nas redondezas procurar por Kohaku, enquanto isso Kagome e Inuyasha permaneciam no cenário onde o castelo de Naraku dantes se encontrava, agora tudo o que se via era um extenso território desértico adornado por apenas uma árvore florida. A garota do futuro se aproximou do tronco e o tocou, o rapaz com orelhas de cachorro, por sua vez, mirava o céu incessantemente, nas moedas de ouro a raiva era uma crescente.
— Ela o ajudou, é aliada dele. — Inuyasha concluiu — e por causa dela, perdi a chance de acabar com aquele maldito de uma vez por todas! — golpeou a terra com a espada.
— Inuyasha, Annabelle não é uma pessoa ruim. — Kagome suspirou deprimida — Eu sinto pena dela.
— Pena? Eu sinto raiva, muita raiva! — esbravejou — Quando cheguei aqui, aquele cretino parecia tentar matá-la, e ainda assim aquela garota idiota o protegeu! Eu não entendo!
— Pois eu entendo muito bem. — deu passos curtos na direção dele, o meio-youkai ainda estava de costas para ela — Anna ama Naraku, é isso.
— Que burrice! — deu uma risada descrente — Como uma pessoa pode amar alguém que quer o seu mal? Naraku ia matá-la!
— Kikyou tentou matar você algumas vezes, já se esqueceu? — parou ao lado dele, inclinou o rosto de modo que pudesse vislumbrar a expressão embaraçada de seu companheiro. As bochechas evidenciaram o rubor, os olhos antes zangados agora eram pincelados pela confusão.
— I-isso... isso é diferente! — gaguejou, depois virou o rosto para o outro lado e cruzou os braços, escondendo as mãos nervosas por dentro das longas mangas vermelhas.
— Não, é exatamente igual. — num pequeno pulo se pôs de frente para ele, as mãos posicionaram-se sobre a cintura e o olhar de Kagome era incisivo. Inuyasha se absteve de dar uma nova resposta, sequer encontrou palavras além de um resmungo qualquer. A colegial respirou fundo para evitar de se aborrecer por conta do ciúme dela e da conduta de seu ente querido, depois deu continuidade ao seu raciocínio, com a calma que lhe era permitida: — Tente ser um pouco compreensivo, não sabemos o que aconteceu entre eles dois e a Anna já sofreu tanto... — suspirou.
— Eu não quero machucá-la, Kagome. — confessou, e finalmente se permitiu demonstrar a preocupação latente — Mas se ela se colocar no caminho, infelizmente não tenho escolha.
— Calma... — tocou-lhe um dos ombros e sorriu amena — Vamos dar um jeito de fazer a coisa certa sem machucar uma pessoa inocente. — o sorriso e o tom da menina o acalmaram por instantes, até a expressão dela mudar da água para o vinho e a zanga se mostrar vívida nas palavras seguintes: — E, da próxima vez, vê se não se mete a procurar o Naraku por sua conta! — apontou-lhe o dedo indicador — Estamos juntos nessa, seu bobão! — beliscou-lhe uma orelha.
— Ai, Kagome! Por que está fazendo isso? — reclamou enquanto Higurashi ria descontraída.
— Ele não está em lugar nenhum! — Sango bradou dos céus, e antes mesmo de sua amiga felina botar as patas no chão, a exterminadora saltou e correu até a amiga.
— Sango, Shippou?! — Kagome os recebeu, em seguida Miroku desceu do lombo da youkai e se aproximou dos amigos — O que houve?
— É o Kohaku! — a raposinha apontou, pendurada na ombreira rosada da outra mocinha — A gente procurou na floresta, no vilarejo, e não encontramos nem sinal dele!
— Não sabemos se Kohaku fugiu por se sentir culpado, ou se foi capturado por... — o monge não deu continuidade às ideias, tendo em vista a agonia nos olhos de sua secreta paixão.
— Naraku! — Inuyasha rangeu os dentes — Aquele Maldito!
Annabelle andava errante pelas trilhas, sua aura emanava intensa, as árvores sacudiam-se como se estivessem angustiadas, o vento não escolhia apenas uma direção para seguir e por causa de tamanha confusão partículas de grama e terra voavam pelos ares, o córrego ao lado ondulava como um oceano em bravura. Os pés da ocidental enterravam-se na areia diante do peso dos passos e ela chorava. Chorava infernalmente. A mão apertava o decote querendo atravessá-lo junto à pele e tentar acalentar o coração. Imagens do início da manhã ressurgiam frescas na memória – dois corpos nus agarrados, soldados um no outro, feitos para permanecerem unos – e com elas as lembranças dos últimos meses. Quanto tempo durou aquilo? Para ela, uma vida em segundos, mas uma vida.
Caiu de joelhos, agarrou-se aos ramos sobre a terra, as flores lamentaram, a natureza enlutou-se pela condição de sua representante. Os dedos sujos de terra molhada enrolaram-se ao cabelo, a sacola carregada às costas caiu e as roupas se esparramaram. Ela se importou? De jeito algum.
— O que há com você? — uma voz conhecida soou.
Annabelle ergueu o rosto lentamente, primeiro viu as sandálias, depois o tecido vermelho das calças, por último a parte branca do quimono e o rosto sereno da sacerdotisa.
— Ele me enxotou, me mandou embora! — revelou aos soluços.
— Está livre dele. — Kikyou se ajoelhou diante dela — Por que chora?
— Porque dói, dói imensuravelmente! — desabafou — Ele disse que teve de mim o que queria, que eu fui apenas uma distração! Eu não posso acreditar nisso, não depois de tudo o que vivemos! Quase dei a minha vida pela dele!
— O que sente por Naraku? — perguntou em ares de calmaria.
— Eu acho que... — soluçou — eu não me atrevo a dizer, não posso! — os ombros chacoalhavam. Kikyou os conteve com as mãos e seus dedos de argila sentiram arranhões debaixo das finas mangas.
— O que é isso? Por que está toda machucada?
— Fui me lavar, tirar o cheiro dele da minha pele, mas a essência daquele filho da mãe está impregnada em todo o meu ser! — e parou de falar para se afogar em lágrimas e desespero — Eu não entendo, ele me fez uma promessa!
— Nunca acredite nas palavras de Naraku, ele não tem honra. — suspirou — Você acha que o ama, não é mesmo?
— Eu não quero! Não posso! — vociferou, não só triste, mas enraivecida — Não quero amar alguém tão vil e mesquinho!
— E você não ama, é esse fragmento em seu peito que a faz acreditar que ama. — explicou — Por mais puro que você o tenha mantido, a maldade nunca se esvai por completo da Joia de Quatro Almas.
— Você está me dizendo o mesmo que ele, mas como todos esses sentimentos quase palpáveis poderiam ser uma simples ilusão?!
— Escute-me, — num repente, o semblante da sacerdotisa ficou sisudo e as mãos dela cativaram a face encharcada de Annabelle — não é a Naraku que você realmente ama. Você conheceu o amor uma vez, lembra? O amor surgiu para você na forma do homem o qual Naraku roubou a aparência. Não permita que esse fragmento amaldiçoado feche os seus olhos para a verdade.
— Hitomi... — sibilou sôfrega, o pranto descia em cascata por mais uma razão agora. — eu me esqueci de como eram os olhos dele, assim que penso em meu Hitomi surge a lembrança dos olhos vermelhos de Naraku. — cerrou as pálpebras infladas com força.
— Depois de tudo o que passou e sofreu, ainda vejo bondade dentro de você. — a seriedade transmutou-se em um olhar piedoso — Naraku não conseguiu corrompê-la, eu percebo isso. — olhou ao redor, testemunhou a natureza em fúria e depois tornou a fitá-la — Acalme o seu coração, nem toda a esperança está perdida, não para você.
Os olhos azuis permaneceram fechados, não mais com a mesma firmeza. Ela tentou controlar a respiração, aos poucos tornando-a mais lenta. Era possível sentir uma quentura ao redor de si, uma energia sutil a abraçando, similar à sua.
Era a aura de Kikyou.
Conforme Annabelle se acalmava, o vento, as árvores e o rio eram preenchidos pela quietude e o som dos grilos evidenciava-se com a chegada da noite. Os globos celestes abriram-se devagar, poucas lágrimas rolaram por fim, então o amor perdido de Inuyasha tirou um papel enrolado de dentro da gola.
— Tome. — entregou nas mãos da ocidental.
Ela o abriu com cuidado e percebeu ser um mapa.
— Onde é isso? — a princípio, estranhou as figuras até notar um monte desenhado próximo a localização — É aquele lugar do qual me falou? Você já esteve lá?
— Exato. — Kikyou sorriu — Nunca fui a esse lugar, mas ouvi rumores. Lá você terá uma vida nova, poderá se afastar de tudo o que já a feriu de alguma forma. É uma nova chance de se estabelecer e ser feliz. — suspirou — Tudo o que eu não tive...
Annabelle compadeceu-se da dor dela, e de coração apertado teve a iniciativa de tomar-lhe as mãos com firmeza.
— Se você está aqui, assim como eu, também tem essa chance. — encarou-a emocionada.
— Não sou como você, meu corpo não é feito de carne, é um mero receptáculo que me permite andar. Minha alma não tem restauração, mas a sua sim. Sabe, eu olho para você e vejo quem já fui, talvez por isso no início a temesse, a visse como um empecilho. — revelou ligeiramente desconfortável — Hoje, tudo o que quero é mantê-la intacta, como se dessa forma eu pudesse manter a lembrança que tenho de mim mesma.
— Kikyou, obrigada... — sorriu melancólica — Você pode discordar, mas eu ainda vejo em você algo dessa mulher do passado, você ainda é essa pessoa. Busque-a dentro de seu coração. Acredito que nós duas ainda podemos fazer coisas boas...
A sacerdotisa sentiu-se hipnotizada pelo azul, e ainda que não houvesse um coração real a bater no peito, a região aqueceu. Seria uma esperança? Um portal surgiu pelas suas costas, cativando a atenção de Annabelle e findando aquele breve suspiro de empatia entre as duas.
— Antes que você vá ao lugar que indiquei, — ela falou — alguém gostaria de vê-la.
"Ailyn!" — Anna se levantou, pegou a sacola e andou até o portal no meio da brenha. Entretanto, antes de adentrá-lo, mirou a sacerdotisa mais uma vez e dedicou-lhe o último sorriso de gratidão.
— Boa sorte. — Kikyou desejou antes que a ocidental sumisse das vistas. Assim que o portal se fechou, a sacerdotisa prendeu os olhos na direção norte e iniciou a jornada que a levaria justamente ao local onde o senhor das mazelas de Annabelle se escondia.
— Ailyn! — ela exclamou ao apalpar os braços da gêmea.
— Não precisa fazer um escândalo, vá! — a alourada sacudiu as mãos e manteve distância.
— Você está bem? Há quanto tempo está escondida aqui?! — caminhou pelo interior da árvore, remexeu alguns objetos em prateleiras e olhou dentro do caldeirão.
— Desde quando fugi, naquela vez. Ei, não bagunce as minhas coisas! — advertiu impaciente.
— Nossa... — reaproximou-se da irmã — Deve ser duro se manter aqui, escondida de tudo e de todos... — lamentou — Eu sinto muito, por tudo.
— O que passou, passou. — disse em tom de indiferença, mas seus olhos esboçavam algum traço de incômodo.
— Kikyou me contou que estiveram juntas e que você mostrou para ela o nosso passado. Por que fez isso?
— Aquela sacerdotisa da boca grande... — riu — Eu soube que ela tentou te matar, então quis fazê-la se arrepender. Eu sabia que no fundo o coração dela era mole, como o da menina que é reencarnação dela.
— Como você sabe que Kagome é a reencarnação de Kikyou?! — perguntou estupefata.
— Irmãzinha, você tem poderes referentes às forças da natureza e eu tenho uma forte ligação às forças sobrenaturais... — moveu o dedo mindinho onde o anel da pedra verde se encontrava resplandecente.
—...a que preço? — Annabelle perguntou desanimada.
— Não se preocupe, não tentarei matá-la outra vez, eu já não quero os seus poderes. — deu de ombros e circulou pelo pequeno cômodo, passando os dedos pela alça do caldeirão — Um único fragmento da Joia pode me manter eternamente jovem e nesse plano. Imagine todos...
— Ailyn, qualquer um dos caminhos termina mal. — se achegou, sempre que podia, tentava abrir-lhe os olhos — Por que você insiste tanto nessa ideia de eterna juventude?
— Imortalidade — a corrigiu — eu quero imortalidade.
— Para quê? Não acha que um dia tudo ficaria repetitivo?
— Você não compreende, não é mesmo? — riu breve, depois cravou os olhos no líquido que borbulhava dentro da enorme panela arredondada — Eu fiz um pacto para conseguir o poder que tenho. No dia em que eu morrer, terei de pagar com a minha alma. — viu o próprio reflexo como se estivesse preso dentro da gema verdoenga — Quando tentei matá-la, não foi simplesmente por querer absorver o seu poder, mas para oferecer a sua alma em troca da minha. Uma alma tão grande valeria o escambo para o diabo. Não se brinca com o outro mundo sem oferecer algo em troca... mas naquela época isso me parecia mero detalhe. Amelie soube vender a ideia. — riu em tom de deboche, mas agora de si mesma.
Anna emudeceu, Ailyn notou seu silêncio e fingiu não dar importância.
— Sem ressentimentos? — a Rosa Vermelha brincou.
— Sempre senti a sua falta, mas você não me deu escolha. Se eu não me escondesse, você insistiria naquela perseguição. Então, rodei por diversos lugares, cada vez mais longe de você... — rememorou.
— E veio parar aqui, nesse fim de mundo. Nessa terrinha de gente retrógrada e de demônios-aranha. — gargalhou, no entanto, não era um riso divertido, havia rancor por trás — No fim das contas, não adiantou de nada, você quebrou o feitiço que não me permitia encontrá-la para conjurar a adaga e se livrar daquele bastardo, e além de não conseguir matá-lo me arrastou para cá, mas ao menos eu soube da existência da Joia e por isso, só por isso — pontuou — eu te perdoo.
— Gostaria tanto que pudéssemos voltar a ser o que eramos uma para a outra... — pensou alto, os olhos baixos, entristecidos.
— Você e esse seu saudosismo! Supere, Annabelle!
— Eu sei que você pensa o mesmo, eu pude sentir isso naquele dia, quando quase a matei. — fitou-a.
Ailyn fugiu do olhar de sua irmã, e esforçou-se para manter a capa de superioridade, só que algo na forma como suas sobrancelhas d'ouro se moviam a entregava. Não houve resposta atravessada, sorrisos de escárnio, nada.
— Vamos voltar para casa. — a Rosa Branca sugeriu — Vamos voltar para a Escócia!
— Não temos casa, não temos nada lá. Não seja ridícula! — ralhou — Agora descanse um pouco, amanhã te levo para onde quiser ir. Se você ficar aqui por muito tempo o seu amiguinho pode me encontrar e não estou nem um pouco afim de olhar para a cara sonsa dele.
"Que gênio!" — Annabelle respirou fundo, o temperamento de sua irmã tornava-se cada vez mais difícil com a idade. Todavia, Ailyn estava certa sobre seu cansaço. A gêmea ruiva caminhou errante até a poltrona e sentou-se lá, não sabia se conseguiria dormir, mas tentaria descansar os olhos e não pensar em nada.
E quem disse que conseguiria? Seus pensamentos teimosos insistiam em fazê-la lembrar do araneídeo deitado diante de si, esperando-a adormecer enquanto entrelaçava os dedos nos cabelos alaranjados. Os olhos dele, serenos, os lábios retos, e a pele pálida desnuda. Annabelle girou o corpo no assento, tentando se acomodar. Ailyn a observou, percebeu os cílios orvalhados e manteve-se calada, não quis interferir naquele momento de lamúria interna.
"Eu não o amo, não o amo!" — Belle repetia mentalmente como um mantra.
Sentado de frente para a parede, Naraku golpeava insistentemente as próprias costas com uma katana. O movimento repetia-se em um ciclo vicioso: o gládio acertava a cicatriz e a arrancava fora para segundos depois o desenho de aranha se reconstituir intacto, então o hanyou acertava-se novamente e novamente, cada vez mais intempestivo.
— Não sabia que era adepto ao autoflagelo. — ela falou da porta.
— Kikyou?! — parou no mesmo instante, não esperava que a mulher aparecesse tão cedo — O que faz aqui?
— Vim entregar os fragmentos que encontrei, como sempre. — disse com naturalidade, ao passo de que se sentou em frente a ele.
— Entregue e saia. — afoito, orientou-a. Porém, além de a sacerdotisa não dispor os cacos pelo chão como de costume, ela se manteve sentada e atenta às expressões dele, analisando-o.
— Eu sei o que você fez. — contou e o fez sentir-se desnudado até o espírito, apesar de não fazer ideia sobre o que ela falava, não ainda. Sem problemas, pois Kikyou prosseguiria: — Foi uma atitude nobre, Naraku, deixá-la ir.
— Do que está falando? — o hanyou gelou por dentro, mas fez-se de desentendido.
— Deve gostar muito daquela garota, não é mesmo? Parece que me enganei quando pensei que ela fosse apenas uma forma de tentar me esquecer. — sorriu — Parece que você conheceu o amor verdadeiro no fim das contas...
Os olhos de Naraku alargaram-se, quase saltando das órbitas. Em um movimento ágil, ele se atirou sobre a mulher de barro com as duas mãos intentando cobrir o pescoço frágil. Kikyou não piscou ou se mostrou assustada, os seus braços permaneceram jazidos ao chão, bem como as pernas. Os olhos, por sua vez, cravados como juízes cruéis na figura atormentada sobre seu corpo.
— Se amo alguém que não seja você, o que me impede de arrancar a sua cabeça nesse momento? — perguntou a esboçar um sorriso maníaco, os dedos a roçarem-se na pele alva, mas sem se atreverem a apertá-la.
— Você pode ter o sentimento que for por outra mulher, mas enquanto o coração de Onigumo bater em seu peito, não estará livre de mim. — sentenciou-o duramente. As mãos a poucos centímetros de seu pescoço estremeceram, indecisas se esmagavam seus ossos ou se afagavam seus contornos.
"Madita seja!" — outro ímpeto lhe surgia por ter o corpo tão próximo ao dela, como se pudesse buscar consolo naquela escultura fria, composta de barro. Enojado de si e de seus pensamentos, tirou seu peso de cima dela e sentou-se onde antes estava. Kikyou também voltou à posição anterior e finalmente entregou alguns fragmentos que coletara.
— Abandoná-la foi a coisa mais certa que já você fez. — disse enquanto se levantava calmamente e batia a sujeira do traje — Estar ao seu lado seria uma sentença de morte para ela. — e encaminhou-se à porta — Sem você, a garota tem chances de ter uma vida decente. — e se foi.
Um baixo grunhido zuniu por trás dos dentes a rangerem. Kikyou lera suas intenções e seus anseios. Nunca uma decisão fora tão difícil, ou dolorosa. Depois de fazer Annabelle dormir, Naraku maquinou diversas ideias. O fato de ela ter se jogado a sua frente enquanto Inuyasha o atacava o atormentou de maneira indescritível. E se ela morresse? O que seria do mundo sem a luz dela? O que seria do mundo dele? Não suportaria ter o sangue de Annabelle em suas mãos, e se ela continuasse a acompanhá-lo isso inevitavelmente aconteceria, pois jamais seus inimigos lhe dariam uma trégua, e ele próprio nunca quis isso. Seu ser complexo e passional dividia-se em ramificações e essas concordavam em ceder ao ódio, ao poder, à ganância. Porque toda a dor e a insegurança passavam-lhe uma noção de fraqueza, lembravam-no do ignóbil humano que fora em outra vida.
E mesmo com toda essa essência fadada às trevas e à destruição, ele chorava por dentro, consumido por uma tristeza imensurável, desejoso pelos abraços dela, pelos sorrisos que conseguira conquistar com tanto esforço. Um lado seu queria acreditar que o coração da mulher estava a se abrir para ele, mas depois da separação, se aquele coração algum dia se permitiu acolhê-lo, esse tempo e a chance se apagaram. A oportunidade de ter Annabelle por inteiro esvaíra-se mediante a escolha dele de protegê-la.
Acima de seu próprio desejo, Naraku optou pelo bem maior de sua desejada.
Kikyou tinha razão, sem a intenção, Naraku agira com nobreza, talvez pela primeira vez em toda sua existência. Jamais poderia fazer Annabelle feliz, ao seu lado a escocesa teria que viver para sempre escondida, resguardada dentro de um castelo fantasmagórico perdido dentro de uma bruma de miasma. Ela não merecia isso...
Se ele fizera o certo, por que então sofria tanto?
Porque a amava. Sabia que a amava, já não podia negar ou esconder.
"Maldito seja o amor" — pensou — "Malditas sejam as duas" — reforçou — "De nada me serve esse coração humano idiota, que apenas me distrai e me separa de meu verdadeiro objetivo!" — vestiu as mangas do quimono, ajeitou a gola, prendeu os cabelos em um rabo de cavalo alto e se ergueu — "Pensarei numa forma de me livrar desse estorvo de uma vez por todas" — concluiu ao sair do quarto — Kanna! — chamou pela serva.
— Sim, mestre. — no meio do corredor ela surgiu.
— Acomodou Kagura em seu devido lugar? — perguntou sem esconder o sadismo.
— Sim, como o senhor mandou.
— Não consigo dormir... — Annabelle percebeu depois de tanto tentar acomodar o corpo naquele assento desconfortável.
— Demora, mas dá para acostumar. — Ailyn se referiu à poltrona.
— Não é só por isso... — confessou — Não consigo parar de pensar.
— Ai, Annabelle, como você é complicada. — revirou os olhos.
— Você já amou alguém? — perguntou timidamente.
— Ih! Começou... — debochou.
— É sério Ailyn, você já se apaixonou alguma vez?
— Para a minha sorte, não. E nem pretendo. — deu de ombros.
— Por que essa aversão toda ao amor?
Ailyn respondeu com um olhar, fitou a irmã de cima a baixo e apontou-a.
— Acredite, o amor não é só sofrimento. — sorriu saudosa.
— Bem se vê! — jogou os cabelos para trás e riu descontraída.
— Eu fui feliz no amor uma vez... — recordou nostálgica e um discreto sorriso abrilhantou sua moldura.
— Aí Naraku surgiu e matou o pobre coitado, que azar... — mexeu o líquido dentro do caldeirão e comentou como se fosse algo trivial, então viu a irmã desbotar novamente e percebeu que seu comentário fora inadequado — Ai, me desculpe! Não lido muito bem com esse tipo de coisa, você sabe.
— Tudo bem, é difícil de entender quando você não viveu a experiência.
— O que eu não entendo é, se aquela criatura deplorável fez tanto mal a você, como pode ter se apaixonado por ele? — caminhou até a poltrona esfarrapada onde a outra jazia e brincava com uma mecha de cabelo.
— Já nem sei o que sinto, Ailyn... — recostou uma mão sobre o lugar onde o fragmento se escondia — não sei se o sentimento parte de mim ou se Naraku me enfeitiçou para que eu ficasse assim.
— Me dê o fragmento, se a faz sentir coisas que não deseja. — ergueu a mão a ela, pronta para receber o resquício da pedra.
— Nem pensar. — respondeu de pronto.
— Aff! — resmungou — Não me custava tentar... — voltou ao caldeirão.
— Que poção está preparando? — perguntou devido à curiosidade.
— Tonta, não é uma poção. É o nosso jantar! — riu desacreditada.
— Nossa, mas o cheiro... — Anna não conseguiu disfarçar a careta.
— Não reclame, dá para comer!
Quando deram por si, riam juntas da atual situação. Olhavam-se secretamente aliviadas por não estarem brigando, e depois de tantos anos separadas, pela primeira vez sentiram-se parte de uma família. Annabelle a agradeceu em pensamentos, estar com a gêmea a ajudou a acender a esperança de uma vida melhor. Talvez Ailyn tivesse razão sobre a possibilidade de encontrar a felicidade sem precisar de uma alma gêmea. Decidida, Belle buscaria o sentido da vida em seu dom como Kikyou sugerira, passaria a ajudar os necessitados, a fazer a sua parte para tornar o mundo num lugar melhor.
Naraku, por sua vez, tomava a direção contrária. Estava cada vez mais próximo de uma queda sem fim. Ideias da pior estirpe brotavam na cabeça, junto com os sussurros conspiratórios dos seres que o compunham, e das almas atormentadas presas dentro da Joia. Uma parte essencial de si retorcia-se, implorando para sair. Talvez todo o ódio por suas origens estivesse fazendo algum efeito enfim. Ele sorriu, porém os olhos tremulavam.
— Annabelle, hora de acordar! — Ailyn a sacudiu sem cuidado algum, quase a ruiva cai do assento.
— Mas já?! Eu mal fechei os olhos... — respirou fundo, irritada e com olheiras gritantes entregando a má noite de sono.
— Não dormiu quase nada, não foi? — a moçoila dos cabelos dourados meneou a cabeça com uma mão sobre a própria testa — Acho que você precisa começar a tomar uns chás para dormir, ou ficará doida.
— Antigamente eu sonhava com Hitomi, depois os sonhos se tornaram pesadelos, então Naraku deu um jeito de Hitomi não visitar meu sono e agora temo dormir e ter que lidar com o vazio... ou então, com Naraku por si só. — mirou o teto, sem focá-lo no entanto.
— Sente muito a falta dele? —Ailyn perguntou em tom de seriedade.
— Do Naraku?
— Hitomi. — disse o nome.
Annabelle selou a boca em um silêncio mórbido, a culpa se desenhou em cada traço seu. A Rosa Vermelha, atenta às nuances, resfolgou como se tomasse coragem para uma atitude, e depois, num jeito impaciente fez nova pergunta:
— Se pudesse, gostaria de vê-lo novamente? Parece que vocês dois tem assuntos mal resolvidos.
— Ele se foi, Ailyn... — lamentou.
— Você não faz ideia de que dia é hoje, não é mesmo? — sorriu.
— Confesso que ando meio perdida no tempo. — levantou-se da poltrona e abaixou-se em frente a sacola de roupas, arrumando-a.
— Para a sua sorte, hoje à noite acontece o Samhuinn¹. — segurou o pulso da outra, impedindo-a de continuar a arrumação.
— A Noite de Todas as Almas! — petrificou onde estava, compreendeu no ato o que sua consanguínea queria dizer.
— Sim, a única madrugada do ano em que os mortos podem se misturar com os vivos.
— Mas o espírito de Hitomi é diferente, parece preso em algum tipo de limbo... — ao se lembrar da condição, logo perdeu qualquer resquício de entusiasmo.
— Minha irmã, alegre-se! — a mão de Ailyn pousou sobre o ombro de Annabelle — Se alguém tem o poder de se comunicar com os mortos e invocá-los, essa pessoa sou eu. — disse com o peito estufado de confiança, causando espanto na mulher sentada ao chão. — Ah, não me olhe assim, eu te devo uma! Só preciso que me mostre o último lugar em que esteve com ele, e prometo a você que trago seu Hitomi para uma visita.
— É perigoso você sair daqui, não sei o que Naraku pode fazer a você. — lembrou-a do perigo.
— Eu não vou à cabana, Belle. Você vai.
Belle? Há quantos anos Ailyn não a chamava assim? A jovem oriunda das Terras Altas se comoveu e um sorriso terno afastou a sombra da melancolia.
— Então, é pegar ou largar, terá uma noite inteira para se resolver com o seu amor perdido.
— Eu pego. — fez a decisão.
— Certo, passe mais um dia aqui, à noite a envio para onde quer que seja esse lugar, e de lá você segue para onde tiver vontade.
— Obrigada, Lynnie. — levantou-se, pensou em abraçar sua parente, entretanto mudou de ideia ao vê-la se afastar, na defensiva.
— Tá bem, sem comoções! Agora me ajude a arrumar essa espelunca. — pegou uma vassoura e começou a varrer aquele pequeno espaço mais para se distrair do que para fazer uma faxina realmente.
Annabelle suspirou, conformada com o jeito fechado e deveras ácido de sua irmã. Ao menos compreendeu com esse reencontro que todo o sofrimento causado por Naraku lhe rendera um bom fruto: o arrependimento de Ailyn. Graças a isso, quando a lua se enlevasse acima das montanhas e as estrelas cintilassem na vastidão do céu noturno, o anseio de saber a quem seu amor se destinava seria saciado.
Estaria Kikyou correta e na verdade o seu coração sempre estivera a procurar por Hitomi?
Torceu para que sim.
E Hitomi, como se mostraria para ela? Seria o doce jovem mestre que a fez se sentir acolhida ou o espectro errante e cheio de rancor? Teria que descobrir por si mesma.
Continua...
¹ - Samhain (no texto, está em gaélico porque é a língua mãe de Annabelle e Ailyn, mas o termo irlandês é mais conhecido) é conhecido na cultura celta/pagã como um dia em que os mortos e as criaturas sobrenaturais (elfos, fadas, etc) podiam circular normalmente pelo nosso plano. Era o Dia de Todas as Almas, convertido pelo Cristianismo a Dia de Todos os Santos e alguns dizem que o Halloween vem dessa tradição. Acho super legal e sempre quis abordar essa temática. (Tem uma música muito legal da Loreena Mckennitt sobre esse "evento", chamada de "All Souls Night")
Então, você acharam que o Hitomi tinha morrido é? Bem, morrer ele morreu né... mas vocês entenderam o que eu quis dizer! Hehehehe. Sim, ele dará o ar de sua graça no próximo capítulo graças à Ailyn - falando nela - eu tinha prometido que essa loura fatal voltaria e aí está. Acreditem, ela é uma personagem difícil, mas importante. Vocês verão mais sobre ela logo, logo.
Pois é pessoal, a coisa tá pegando para todo mundo nessa fic, e como vocês podem perceber alguns caminhos estão se diferenciando da série original. Mais tarde acho que isso ficará evidenciado melhor.
Espero que nada tenha ficado confuso, sempre tenho esse medo por conta do tamanho dos capítulos. O próximo tá mais curtinho e eu gostei bastante. Esse aqui editei que só e ainda sinto que talvez não tenha conseguido descrever muito bem o sofrimento da Anna e o tormento do Naraku. De qualquer forma, para ajudar a deixar vocês no clima sugiro assistirem o lyric video da música da Tarja que comentei nas Notas Iniciais, tem no youtube. Se vocês a escutarem lendo a discussão entre Naraku e Annabelle, ou mesmo a parte que a coitada da Belle tá lá chorando as dores com a Kikyou, ou o Naraku sofrendo a dor de cotovelo sozinho, entrarão no clima direitinho! Infelizmente, no FFNET acho que não é permitido postar link de nada dentro das fanfics, mas se vocês escreverem na barra de busca do youtube "Tarja love to hate lyrics" é o primeiro vídeo, e ainda tem legenda em espanhol - o que será lindo para a minha leitora espânica que tem me deixado tão feliz com seus comentários! YEY!
É isso gente, kiiiisssuuuus cheios de luz para todos!
