Oi pessoal, como estão? Tudo bem?
Deixem-me começar dizendo que falta apenas UM capítulo para que a fanfic esteja devidamente atualizada no FFNET, yey!
No passinho da tartaruga manca, estou conseguindo! Obrigada pela paciência de todos e desculpem por eu vir sempre correndo e ainda não ter respondido alguns reviews em minhas fics, eu sou "atrasilda", mas amo vocês!
Publico aqui o capítulo exatamente como está no AnimeSpirit, espero que não tenha muitos errinhos bobos ou redundâncias, como eu não tenho muito tempo e escrevo cada capítulo aos poucos, às vezes acho que a fluidez do texto se compromete... espero que seja somente impressão.
Boa leitura, gente!


Capítulo 32 - Coração

Naraku estava sentado em um canto de seu espaçoso e escuro quarto, seus olhos de sangue miravam o nada, sem piscar, e os dedos das mãos abriam e fechavam como se experimentassem a própria funcionalidade. O silêncio consumia o cômodo e a ele próprio, nenhuma expressão se desenhava em suas nuances.

Depois de um resfolgar lento e mórbido, o hanyou se levantou e em passos calmos deixou aquelas acomodações para visitar uma outra – o quarto de outra pessoa. Parou à porta entreaberta e fixou o olhar indiferente num objeto dourado, deixado ali no meio do recinto para lembrá-lo de quem um dia dormira ali. Os cílios negros cruzaram-se devagar, depois se apartaram e os globos escarlates permaneceram opacos, diferentemente do instrumento musical que brilhava na escuridão.

"Matarei a Kikyou primeiro, depois decido o que fazer com você, Annabelle Rose" — pensou conforme fechava a porta e se afastava daquela lembrança.

— Mestre... — uma voz infantil o interpelou no meio do corredor. Naraku fitou-o por cima do ombro, o menino ajoelhava em respeitosa postura — Estou apenas esperando as suas ordens.

— Não precisamos ter pressa, — o primeiro traço de expressividade se formou nos lábios a se curvarem num sorriso perverso — Kohaku.


O lume ebúrneo escapava dos contornos dela e se espalhava pelos redores. A escocesa continuava sua caminhada rumo ao que seria uma possível nova cria de Naraku, por mais que seu fraco juízo a mandasse ficar longe de qualquer assunto relacionado ao aracnídeo.

Depois de descer um barranco, enfim notou um sujeito peculiar a seguir jornada na direção dela e o brilho ao seu redor diminuiu, luzindo discretamente. Ele parecia um homem comum, a forma como se vestia era até engraçada. Aquela roupa quadriculada, amarrada em apenas um de seus ombros, o chapéu de palha e as sandálias de madeira definitivamente não combinavam em nada com ele.

"Deve ter roubado" — pensou, analisando-o de longe.

— Ei! — o homem cessou o andar e fitou curioso a criatura adiante, cuja aparência se escondia por trás de uma capa — Como você brilha... O que tem nessa sacola? — e então ele esboçou um pequeno sorriso ambicioso ao notar o volume que Annabelle trazia às costas.

— Nada demais, apenas minhas roupas. — respondeu calmamente.

Hum, — suspirou ao perceber pelo tom de voz que a pessoa à frente se tratava de uma mulher — droga, não vão me servir. Mas, de repente, posso vender! — os olhos esverdeados cintilaram e entusiasmado com a ideia, ele se aproximou destemido — Ei, mulher, deixe-me ver seu rosto. Será que é tão bonito quanto sua voz? — e deu uma risada breve, notavelmente perversa.

"É, ele roubou as roupas" — concluiu ao revirar os olhos, nada intimidada com as maneiras do estranho.

— Estou procurando por um homem sem rosto que matou um monge, você o viu? — desconfiava dele, mas como o indivíduo tinha olhos, boca e nariz, seu aspecto não fazia jus à descrição narrada pelo menino com quem Anna conversara há pouco tempo.

— Ele tinha um rosto bonito, me serviu bem! — apalpou as maçãs da nova face enquanto exibia os dentes lustrosos num sorriso orgulhoso.

— Quem é você? — perguntou, mantendo a distância enquanto podia. Conforme ele andava em sua direção, Annabelle dava passos para trás.

— Essa conversa está chata, vamos, mostre logo seu rosto! — e o ladrão de faces alargou o andar, caminhando em maior velocidade ao encontro dela. Annabelle fez sua vontade e baixou o capuz. QuandoMuso viu as ondulações alaranjadas balançarem arrepiadas e os olhos celestes tremeluzindo, estancou no ato e soltou um murmúrio de espanto — Uma youkai?!

— Não... — Belle, por sua vez, pousou a mão à testa e respirou fundo, procurando manter-se paciente. Era sempre a mesma pergunta.

— Como não? — insistiu — Olhe só para você, ninguém tem cabelos dessa cor, ou olhos tão claros... é linda! — desavergonhado, aproximou-se mais, mirando-a de cima a baixo como se pudesse enxergar por baixo da mortalha, os globos verdejantes cintilavam admiração e desejo, desconcertando-a. — É a criatura mais estonteante que já vi... — murmurou, pronto para cativar as maçãs dela em suas mãos bárbaras.

Os olhos dela arregalaram. Aquele elogio, Annabelle sabia tê-lo ouvido antes e por isso ficou sem reação.

Nunca vi e nunca verei nada igual a você... — ele mesmo pareceu se estranhar, como se as palavras escapassem antes de sequer pensar nelas.

Eram coisas já ditas, e por outro alguém – Naraku. Primeiro, quando se fez de Hitomi e tomou a inocência de Annabelle para si, por último, o seu triste discurso antes de inserir o fragmento da joia no peito dela.

— Quem é você?! — exclamou e afastou-se novamente, num largo passo jogou-se para o lado e mirou os arredores, preparada para correr e esconder-se na floresta.

— Sinto que te conheço. — prosseguiu atordoado, ignorando a pergunta dela — De onde eu te conheço, garota? — não importava quantas vezes ela se afastasse, Muso tornava a fechar a distância entre ambos.

— Eu nunca o vi antes! — quase gaguejava. Embora ele parecesse um homem comum, algo nele causava calafrios em Annabelle. Seus pés moviam-se para longe por instinto, agora em pequenos pulos.

— Essa luz que te cerca... — ele comentou com o tênue lume refletido nos olhos — Eu quero ela, eu quero você! — e agarrou os ombros encolhidos.

— Solte-me! — o empurrou e partiu a correr mata a dentro. Poderia ter usado o seu poder, poderia tentar purificá-lo inclusive, todavia uma força interna a impediu de voar – talvez curiosidade – e de o ferir.

O sujeito a seguiu veloz e conseguiu segurá-la por um dos pulsos, virando-a de frente para si.

— Você é minha, eu sei que você é minha! — bradou, puxando-a abruptamente para si.

— Você é louco, me solte! — outra vez se poupou de usar a própria energia, pois quando teve o corpo rente ao dele percebeu o tronco firme do homem pulsar por inteiro, como se toda aquela extensão fosse um órgão vital descompassado. Antes que Annabelle pudesse perguntar sobre o fenômeno, porém, o estranho colou a boca à sua e a invadiu com a língua exasperada. — Hmmm! — a estrangeira estapeou o peito rijo dele, e os braços fortes a contornaram, prendendo-a. Ele grunhia e ofegava, parecendo cada vez mais desesperado pela falta de correspondência.

Aquele toque, e mesmo o beijo, como as palavras de antes... tudo era muito familiar. O fragmento dentro do peito dela latejou, Anna sabia bem o que aquilo significava e entendia porque não tinha forças para se afastar. A sua luxúria despertava novamente, e de repente ela sentia que quem a tomava nos braços era outro, um certo hanyou tão passional quanto aquele estranho. Um gemido dela foi abafado pelo estalar das bocas, a esse ponto as costas da escocesa já se encostavam em uma árvore onde ele a encurralara.

Ao sentir algo molhado escorrer entre os rostos, Muso parou o que fazia e a encarou. Arfante, Annabelle chorava, derrotada por suas memórias, pelo fragmento de joia, pelos próprios anseios.

— Por favor, me deixe em paz... — sussurrou enfraquecida, não só para ele, mas para os próprios sentimentos.

— Não, pare de chorar. — segurou o rosto dela outra vez e tentou enxugar as lágrimas com os polegares. Era inútil, quanto mais ele roçava os dedos pelas bochechas e pelos cantos dos olhos, mais ela soluçava — Eu disse para não chorar! — esbravejou, não de raiva, seus traços estavam visivelmente atribulados, era preocupação. O grito deu um susto na moçoila, mas não cessou seu pranto – apenas ajudou a intensificar mais. Então, ele a abraçou forte, escondendo o rosto debaixo das ondas acobreadas e amassando o nariz contra o pescoço dela.

"O que está acontecendo?" — ela se perguntava, sem conseguir manter o controle das emoções ou do corpo, estava em choque. — "Preciso me mover, preciso sair daqui!" — os dedos das mãos retorceram-se, o coração acelerou ainda mais. Sentiu afagos nas costas, por baixo da capa, sentiu carinhos sutis nos cabelos. Ele tentava consolá-la? — "Isso é loucura!" — finalmente recuperou o fôlego e alguma força para empurrá-lo longe. As palmas das mãos branquearam luminosas, tocaram o peito de Muso e ele caiu para trás. Estava distraído para prever a reação da jovem, sentado sobre a grama encarou-a surpreso e com os olhos estremecidos.

Annabelle começou a se afastar, e o sujeito, ao invés de se levantar rastejou até ela e segurou-se na barra do seu vestido, ajoelhado.

— Não, não vá! — o homem, que no início pareceu tão orgulhoso e forte, suplicou — Você é a minha luz! — abraçou-se às pernas dela, afundou o rosto em sua saia e a Rosa Branca perdeu o ar — Por favor, não chore mais! — ele pediu — Não aguento vê-la triste, dói infernalmente! O que eu devo fazer para te ver sorrindo? — um soluço escapou da boca dele, Anna sentiu a saia umedecer. Ele chorava.

— Me solte! — exigiu trêmula, estava confusa com a postura daquele sujeito. Seus dedos pressionavam os ombros rijos na tentativa de afastar o bandido de si, entretanto ele teimava em segurá-la num aperto que quase a sufocava. As pernas de Annabelle debatiam-se dentro do enredo.

— Nunca senti isso antes, por mulher nenhuma! — confessou desvairado — Eu quero possuí-la, mas não é só isso. O seu corpo não é o suficiente, eu preciso do seu coração! Só que eu não quero o seu coração a força! Não, não! Eu quero que você... — resfolgou no meio da frase por não saber como exprimir aquele turbilhão de sensações. As palavras atravessavam-no como se há muito estivessem presas. — Eu quero que você seja feliz. — elucidou, aparentemente mais calmo — É como se o seu sorriso desse sentido a minha vida... — os dedos desapertaram a saia e afagaram o veludo. — Isso é tão estranho... — a cabeça latejou, os olhos dele se fecharam. O pranto cessou.

Os braços dela penderam inanimados, vagarosos retomaram o controle e fizeram as mãos dela pousarem sobre a cabeça dele.

— Quem é você? — perguntou em inesperada serenidade, a voz suave de modo que os olhos não estavam – estes se fixavam no céu e tremeluziam a luminosidade do dia. A aura albugínea intensificou e os contornou, fazendo com que o corpo do homem a abraçá-la amolecesse levemente.

— Eu não sei... — confessou em baixo tom, os olhos semicerrados voltados para o chão — Não me lembro. — a energia pueril passou a acalmá-lo, até mesmo o deixou sonolento.

— Não se lembra de nada? — persistiu, piscando os olhos enfim, o ar voltara aos pulmões.

— Você. — ergueu a face e tornou a olhá-la, paixão e devoção trasbordavam no olhar — O que eu sinto por você não começou agora, quando olhei nos seus olhos soube que a conhecia. Não consigo explicar o que é essa sensação, meu peito está apertado. — o discurso a comovia cada vez mais, e ele prosseguiu: — Eu quero... quero protegê-la, mantê-la a salvo... mesmo que para isso eu tenha que ficar longe.

"Mas eu nem o conheço..." — não teve coragem de falar, pois naquele instante o homem que matara um monge para roubar a sua face parecia tão inocente quanto uma criança. — "Será que meu poder pode ajudá-lo a se lembrar de quem é?" — ajoelhou-se diante de Muso e lhe tocou os ombros — "Não, eu não tenho esse poder..." — suspirou frustrada, e de supetão o caco de vidro dentro dela pulsou e uma ideia perigosa se desenhou na mente. Ela não tinha o poder de recuperar memórias perdidas, mas a Joia de Quatro Almas o tinha. Annabelle abraçou delicadamente o estranho, suas mãos perpassaram as costas dele, e como a roupa que ele improvisara não cobria perfeitamente suas costas, os dedos da forasteira resvalaram em algumas queimaduras em formato conhecido – patas. Patas de aranha. O ar congelou nas vias respiratórias, Anna tornou a fitá-lo nos olhos. Uma cria de Naraku que tivesse memórias sobre ela? O medo de pôr a ideia em prática se foi. A jovem ruiva tomou o rosto roubado de um monge em mãos, concentrou-se, e envolvendo-os dentro da sublime luminosidade das fadas, perguntou novamente:

— Quem é você?

— Onigumo... — disse com os olhos turvos, os braços inertes e as mãos fechadas sobre a terra.

Annabelle o largou de súbito e o homem caiu desacordado sobre a superfície fofa. Atarantada, ela se ergueu o mais rápido que pôde, catou a sua sacola de coisas que caíra pelo caminho quando tentou se esquivar do sujeito, e finalmente seu corpo alçou o voo que deveria ter feito no primeiro minuto em que Muso se aproximou.

"Onigumo?!" — já distante, em outra extremidade da floresta, tapou a boca com as mãos enquanto sentava-se sobre a larga raiz de uma árvore. Ao ouvir o nome que remetia à humanidade de Naraku, o medo de sofrer, de partir-se em pedaços uma vez mais a fez recorrer à fuga. — "Eu não quero saber o que foi aquilo!" — convenceu-se a sacudir a cabeça — "Eu não quero mais saber de nada sobre ele" — referia-se a Naraku, afinal, ela mesma dissera ao hanyou que a chance de ele fazer parte de sua vida fora perdida. O semblante desbotou sisudo, num misto de raiva e orgulho.

A vários metros dali, depois de alguns instantes, Muso acordou desorientado e sentou a roçar os olhos.

— Que sonho estranho... — comentou entre bocejos.


Naraku escondia-se nas profundezas de um bosque e contemplava um de seus braços oscilando entre a forma humanoide e a monstruosa – cheia de escamas – maior do que o normal.

"O que é isso? Quando intentei estrangular Kikyou essa metamorfose começou..." — refletiu sobre um momento recente, em que foi testar a sua capacidade de assassinar o passado, já que finalmente se via livre de seu coração humano. O araneídeo foi até a sacerdotisa, encontrou-a na mata e apertou-lhe o pescoço. Estava pronto para trincar a bela escultura de argila e então o ocorrido se deu. Por ora, ele conseguia controlar aquele mal, no entanto não sabia até quando. Era como se os milhares de youkais que compunham seu corpo quisessem assumir o controle.

— Humpft! — bufou, subestimando as forças que habitavam dentro dele. — "Agora é sua vez, Annabelle" — pensou nos planos que tinha para a outra humana e um sorriso taciturno enfeitou-lhe a face.


Com o sossego recobrado, e a evitar de pensar no estranho evento que vivenciara, Anna olhava o mapa que Kikyou lhe dera e depois mirava os lados da floresta – todos iguais – e suspirava. Sabia que havia um tal monte no caminho, mas pelo menos dali onde estava não podia ver a ponta de nenhuma montanha além das copas das árvores e da neblina.

"Como é que eu vou achar esse lugar se os caminhos são todos iguais?" — suspirou — "árvore, mais árvore... árvore de novo. Se ao menos eu tivesse uma bússola..." — lamentou por não ter adquirido uma quando viajou nas mais diversas caravelas. Cansada de caminhar errante, escutou o som do rio e o acompanhou, assim que chegou à margem, sentou-se e olhou o próprio reflexo na água. "Eu poderia procurar por um vilarejo para passar a noite, mas aí as pessoas olhariam para mim e sentiriam medo..." — chateou-se por suas particularidades, passou os dedos por alguns fios de fogo e os enrolou num cacho — "Que droga, eu preciso arrumar um jeito de ganhar dinheiro, conseguir um cavalo, uma carroça..." — quando deu por si fazia os mesmos planos de outrora, da época em que era uma andarilha solitária, coisa que Annabelle voltara a ser, e justo quando ela tanto quisera se acertar em um lugar. Primeiro com Hitomi, e por fim com Naraku.

Estapeou a água corrente, desfazendo o seu reflexo nela. Melhor assim, não queria mesmo olhar para si. Sua imagem, por alguns instantes, tornou-se um bolo de formas desconexas, eis que uma sombra se formou atrás da moça e naquelas nuances impressionistas uma forma a mais se inseriu. Annabelle estreitou os olhos, aproximou o rosto da superfície aquática e quando as águas se acalmaram ela viu um menino conhecido logo atrás, os olhos castanhos opacos e a mão a erguer uma foice – apontada para o pescoço dela.

Tudo aconteceu muito rápido. Antes de poder chamá-lo pelo nome, a ocidental atirou o corpo para o lado, quase escorregando para dentro do rio e a foice do garoto se cravou na terra. Então, ela se ergueu e deu largos passos para trás, mantendo uma distância segura. Sem muito esforço, o mancebo puxou sua arma pela corrente, virou-se de frente para a mulher e manteve a posição de batalha.

— Kohaku! — exclamou sem precisar fazer perguntas. O peito esquentou de raiva. Naraku retomara o controle do menino e o fizera ir até ela de propósito, para lembrá-la do quão cruel ele era capaz de ser.

O menino pareceu surdo, não respondeu ao estímulo e correu até ela, apontando-lhe a foice novamente.

Furiosa, Annabelle rangeu os dentes, ergueu os braços devagar e com esse movimento, fez com que raízes escondidas por baixo da terra emergissem e se amarrassem nos tornozelos do irmão de Sango, fazendo-o cair e largar a lâmina descuidado. Longe do perigo de ser acertada pela foice, enfim ela foi até o garoto ainda inexpressivo e segurou-lhe a cabeça, forçando-o a olhá-lo.

— Kohaku, olhe para mim. — em tom de seriedade, ordenou, e quando o menino tentou fugir de seu olhar fulminante, ela premeu o rosto dele entre os dedos, afim de mostrar que ele não teria como escapar de seus olhos azuis, tampouco de sua luz. O véu esbranquiçado o contornou, purificando o fragmento jazido em seu cangote. Os olhos do menino recobraram o brilho aos poucos.

— Senhorita Anaberu! — voltou a si.

Com isso, ela se sentiu confiante para desamarrar as raízes de suas pernas, então o rapazote sentou-se de frente a ela e perguntou:

— Como vim parar aqui?

— Eu não sei. Onde está sua irmã e os outros?

— Irmã? Outros? De quem você está falando? — piscou os olhos, visivelmente confuso.

"Eu não acredito nisso" — o sangue ferveu, as maçãs ruborizaram de tamanho furor — "Naraku retomou o controle sobre ele e o fez esquecer de que esteve com Sango, imperdoável" — fechou os punhos, respirou fundo, mas não conseguiu recobrar a paciência como quis. Nada naquele segundo conseguiria fazê-la forçar um sorriso.

As largas folhas nos mais diversos galhos balançaram, uma brisa diferenciada perpassou por eles, trazendo consigo uma presença. Arrepiada até o talo, Annabelle se levantou e olhou em volta, não podia enxergá-lo, contudo sabia que estava ali.

— Seu grande filho da puta! — rosnou. Kohaku se assustou e corou diante do linguajar dela.

— Hu, hu, hu, hu, — a risada ecoou por entre as trilhas de mata fechada e as árvores continuaram a sacudir em agonia — me pergunto onde uma garota delicada e bem-vestida aprendeu tão maus modos... — escarneceu, nem um pouco ofendido pelo xingamento.

— Anos de experiência em barcos, tendo que lidar com marinheiros, mas isso não vem ao caso! — respondeu irritadiça — O que está fazendo aqui Naraku, se você mesmo me mandou embora? Achei que eu fosse irrelevante para você. — provocou.

— E é. — a voz dele disse impiedosa — Pensou mesmo que eu libertaria Kohaku por sua causa? Que tolice...

— É isso, veio fazer uma demonstração do quão babaca você é? — perguntou entredentes, parada onde estava. — Bem, já pode ir então! — fingiu-se de indiferente, porém o coração trepidava de ira e tristeza combinadas.

— De certo modo, fiz um favor a Kohaku. Quando Kanna o trouxe de volta ao castelo, ele estava desorientado, arrasado. Tinha finalmente se lembrado de tudo o que fez e sofria tanto, pobrezinho... — suspirou em falsa compaixão — então fui piedoso e apaguei aquelas tristes memórias que o assombravam, de novo.

— Quanta bondade a sua! — Annabelle escarneceu, arrancando uma gargalhada sinistra da garganta dele. Não era só a voz de Naraku, mas várias juntas, num coro dissonante. Ela sentiu um frio revirar seu estômago. "Mas o que é isso?" — nesse ínterim, a jovem sequer notara Kohaku de pé, com a foice em mãos e pronto para mais um ataque.

— Eu não quero fazer isso... — ouviu-o dizer, as mãos tremiam junto com o gládio.

— Está tentando fazê-lo me atacar?! — questionou indignada e aproveitou para tomar a foice das mãos do Kohaku.

Naraku riu outra vez, as mesmas vozes saíram se sua garganta.

— O que está acontecendo com você, por que não mostra a cara? — o desafiou. — Kohaku, saia daqui! - o orientou, sem devolver-lhe a arma.

— Kohaku, fique! — deu a ordem, o tom ainda mais grave e gutural. A esse ponto o youki dele se espalhava mesmo sem que quisesse.

Havia algo de errado, muito errado com ele e ela sabia. Pôde ouvi-lo gemer bem baixo, e viu-se pela infindável fez preocupada com o maldito, mal podia crer em si mesma. Seria cômico, se não fosse trágico.

Se ele não diria onde estava escondido, ela mesma o encontraria com o poder que tinha. Annabelle fechou os olhos, concentrou-se, e quando os abriu novamente sabia para onde tinha que ir. Seu corpo flutuou e numa velocidade absurda avançou pela floresta, perfurou uma barreira que sequer podia ser vista e o encontrou no meio do pântano, os negros cabelos a cobrirem parte de seu rosto, a manta de babuíno acima do quimono púrpura escondia seus braços rentes ao corpo. O olho escarlate que estava a mostra se esbugalhou.

— Não se aproxime. — alertou-a, parado onde estava. Uma energia escura o circundava.

— O que está acontecendo? — perguntou, deixou a sacola pendurada em um galho seco, largou a foice de Kohaku pela trilha de terra e adentrou a lama onde ele parecia estar atolado.

— Eu vou matá-la. — avisou.

— É mesmo? — continuou a caminhar, o denso vestido parecendo cada vez mais pesado conforme ela adentrava o brejo — Eu duvido. — persistiu.

Naraku atirou a pele de macaco para os ares, expondo o costumeiro traje elegante e as mãos enormes, esverdeadas, com garras aterradoras. Annabelle parou por um breve instante, analisando-o, e depois tornou a andar até ele.

— Eu disse que vou matá-la! — estalou os dedos verdoengos.

— Pensei que tivesse mandado Kohaku para isso, já que você nunca tem coragem de fazer o trabalho sujo com as próprias mãos. — ela também se livrou da capa que a cobria do pescoço para baixo. A lua na gargantilha cintilava furta-cor.

— Annabelle... — rosnou. Patas de aranha rasgaram as suas costas, a humana estava próxima o suficiente para as pontas peludas roçarem-se em seus braços, cabelos e costas, e ainda assim ela sequer piscou. — Vá embora!

— Não, você não mandou Kohaku para me matar... — concluiu — mas você queria sim que ele me machucasse, porque você é um merda de um sádico que se diverte com o sofrimento alheio! — ralhou. — Vi o seu inseto quando saí daquela cabana, eu sei que você sabe o que aconteceu e quis se vingar de mim, Naraku! Por isso capturou Kohaku novamente, você é mais previsível do que pensa! — e gritou num timbre ainda mais estridente, sem pestanejar e sem parecer se envergonhar diante do conhecimento dele sobre a noite que passara com Hitomi.

— Saia! — vociferou, afastando-se trêmulo, visivelmente descontrolado.

— O que é isso, está perdendo o controle do seu corpo? — embora fosse difícil caminhar naquele lamaçal, ela deu passos largos suspendendo a saia até ficar de frente para um araneídeo que cobria o rosto com as mãos. — Está com vergonha porque está feioso? Que gracinha! — debochou, cega de raiva — Como se eu nunca o tivesse visto assim, cheio de treco pendurado!

— Cale a boca... — meneou a cabeça, ainda escondendo o rosto por trás dos dedos.

— Eu me lembro de você assim, daquela vez em que eu deveria tê-lo matado e fui burra o suficiente para sentir pena de sua existência miserável e dar para trás! — berrou irracional, movida pela mágoa como uma adolescente vingativa, completamente diferente do que costumava ser, mas a certa hora qualquer pessoa perde as estribeiras, mesmo alguém como Annabelle, e ela não pararia por ali: — o deixei vivo para depois você se aproveitar de mim e me jogar fora! Foda-se se você está com vergonha desse aspecto, mesmo quando você se aproveita da aparência de Hitomi continua feio por dentro, a sua essência é asquerosa, não importa a capa que você use! Quem se aproveita da miséria dos outros para conseguir satisfação é horrível em todos os sentidos! Ah! — Annabelle gemeu de dor, uma das terríveis mãos segurou-a pelo pescoço e Naraku atirou os dois para fora do brejo. As costas dela atritaram-se em pequenas pedras no chão e a dor a infligiu. As enormes patas a circundaram como se fossem grades e embora os dedos apertassem-lhe a pele, deixando-a sem ar, seus olhos permaneciam a fitá-lo incendiados, as pernas debatiam-se entre as dele. Os cabelos do hanyou voaram para trás, exibindo a face que ele tanto tentara esconder. Metade ainda era aquela que Anna conhecia, a outra lembrava mais as feições de um aracnídeo, com vários olhos em um seguimento e uma pinça de quelícera amarronzada, quase respingando veneno.

— O que está acontecendo com você? — conseguiu perguntar quando as mão a desapertou, no entanto permaneceu ao redor de sua garganta, as unhas roçando-se na fina epiderme. — Você está se desfazendo! — e mesmo com toda a raiva e a amargura, a escocesa se viu triste por ele uma vez mais, pois encontrou no olho avermelhado o lume do desespero. Ele sofria, como da vez que ela quase o sacrificara. Seu ser estava prestes a se perder.

Naraku riu como se não importasse, depois, afastou alguns fios de cabelo espalhados pelo rosto da humana.

— Engraçado... — suspirou — mesmo abdicando de meu coração humano, eu não sinto a menor vontade de eliminá-la. — contou, tentáculos e partes de centopeias saíam de suas articulações e tombavam na grama, todos os pedaços dele sequer faziam menção de ferir Annabelle, como se os youkais que habitavam dentro de seu ser tivessem cada um o próprio coração, e todos eles estivessem inclinados a devotar qualquer tipo de sentimento pela mulher de terras distantes.

— O que você fez com seu coração?! — questionou, imóvel e aflita, e então lembrou-se do encontro inusitado que tivera no início da tarde, bem como das coisas estranhas que ouvira da boca do homem que se dizia ser: — Onigumo... — sussurrou — Você se livrou de Onigumo! — tão logo ele se retirou de cima dela, Anna se sentou. Enquanto isso, Naraku escorou-se no tronco de uma árvore, arfante — Você retirou o próprio coração e veja agora, como está! É isso o que você quer para você?!

— Parece que eu ainda não estava pronto... — disse aos risos, ofegando.

Annabelle respirou fundo, selou as pálpebras por segundos e lutou, inutilmente, para tentar se manter indiferente e não fazer nada. Àquele ponto, as roupas de Naraku se destituíram mediante às mutações, pouco dele ainda parecia humano, da cintura para baixo o seu corpo se compunha de pedaços de artrópodes e tentáculos coloridos. Ele cerrava os dentes tentando conter os gemidos de dor. Os olhos cerúleos reabriram-se, refletindo aquela imagem deplorável em cada pupila. A Rosa Branca se levantou devagar e silente, deu passos até o araneídeo que se contorcia, e quando esteve diante dele, segurou-lhe a cabeça mirando-o no olho humano e nos olhos de aranha.

— O que está fazendo?! — perguntou arredio e ela não disse nada. Eis que ele sentiu o calor... aquele calor que ele tanto almejara desde o momento em que fora consumido por ele. Era a luz dela.

Mesmo magoada, enraivecida e tentada a enchê-lo de bofetadas, Annabelle ainda era a mesma moça que um dia em uma gruta disse a ele não querer que desistisse de seu coração. Ela não ficaria parada ali assistindo-o se tornar um monstro completo, sem qualquer identidade. Os lábios rosados ficaram bem próximos da boca metade humana, metade aracnídea e o fio de luz saiu de dentro dela para percorrer o interior dele. Naraku não remexeu um músculo, os seus pedaços paralisaram como se estivessem hipnotizados, conforme os traços dele – primeiro do rosto, depois o tronco – voltavam ao normal. Ela o abraçou e seus dedos sentiram as costas sem qualquer cicatriz, provando que a alma dele vagueava longe, e ainda assim ela podia sentir algo desse espírito logo ali, nos suspiros de alívio dele. Então, o hanyou fez as bocas unirem-se de uma vez só, esganado por mais daquela energia, evitando que Annabelle se apartasse, e ela se conteve para não permitir que seu ritual se transformasse num beijo passional. O intuito era ajudá-lo a se recompor e só. Todavia, os braços dela, desapercebidos, subiram pela coluna rija, contornaram o pescoço de Naraku com seu coração gritando a procura do dele, e nem um ruído escapava do peito do híbrido.

Anna rememorava as palavras de Onigumo, como se fosse Naraku dizendo-as. Novamente, ela estava sem rumo, sem saber no que acreditar, sequer confiando em si mesma e no que sentia. Por um lado, existia a teoria de que seus sentimentos pelo hanyou fossem mera ilusão provocada pela Joia amaldiçoada, por outro ela tinha o coração ambulante de Naraku a fazer uma declaração platônica – genuína.

Enfim, o corpo dele retomou a aparência costumeira. Ouviu-o gemer e o tom de voz era o mesmo, grave e sedutor. As mãos dele alisaram as costas por baixo da cabeleira flamejante, a língua dele arrastou-se sobre a dela e nesse instante ela notou o perigo e se afastou. Fizera a sua parte.

Naraku a observou, o peito descia e subia veloz, a pele estava rosada e levemente suada, as mãos seguravam-se na saia. Os orbes tremelicavam ao fitarem o sujeito despido.

— Isso vai mantê-lo estável, mas não por muito tempo. Você precisa reaver o seu coração. — dito isso, ela virou o rosto para o lado e mirou uma direção qualquer. Onde estava a ira? Onde estavam os xingamentos e as provocações? Restara apenas a raiva e a vergonha de si mesma.

— Annabelle... — sussurrou a encará-la. Surpreso pelo gesto, sabia que em algum lugar o seu coração batia descompassado. Seus dedos roçaram as pontas numa maçã dela, depois cativaram o queixo fazendo com que os olhos de ambos se encontrassem novamente. — "Se não fosse por ela, talvez eu não sobrevivesse. Salvou minha vida de novo, mesmo depois de todo o mal que lhe causei" — admirou suas nuances, nunca enegrecidas pelo rancor. Então afagou o lábio inferior dela, afinal, não se precisa ter um coração no peito para sentir desejo, uma vez que ele faz parte do instinto primário de sobrevivência das mais variadas espécies. Ele aproximou o rosto ao dela, pronto para beijá-la, mas seus lábios entreabertos entraram em contato com a bochecha morna, Annabelle virara o rosto novamente.

— Vá embora... — murmurou, fugindo do olhar carmim — Vá buscar o seu coração! — gritou ao sentir que ele insistia e marcava seu rosto com um beijo suave.

— Obrigado, Annabelle Rose... — disse ao ouvido dela antes, para depois se afastar aos poucos, persistindo a encará-la reticente, e quando estava a uma distância segura, alguns de seus insetos venenosos trouxeram-lhe um novo quimono e a manta de babuíno. Annabelle, estática no mesmo lugar, assistiu-o se vestir com classe e depois desaparecer nos céus dentro de sua nuvem de miasma. Foi ali, naquele momento, que ela se permitiu desabar na grama, abraçar a si mesma e tentar assimilar os acontecimentos. As batidas dentro do peito latejavam e faziam-na se sentir febril, as pernas tremiam, ainda que ela as tentasse conter abraçando-se a elas. Sentiu-se vertiginosa, primeiro o frio e depois o calor a aplacaram, enquanto se lembrava de Onigumo proferindo aquelas declarações que da água para o vinho fizeram sentido.

"Ele me mandou embora para me proteger? Naraku me ama?" — e doía, céus como doía! Queria tanto acreditar na hipótese, mas tantas vezes se feriu ao tentar ver o que havia de bom dentro dele... O que poderia fazer para se livrar da dor, como fugir dela?

— Senhorita Anaberu... — ouviu a voz doce e inocente de Kohaku.

Anna inclinou o olhar para cima, mordiscou os lábios para conter as emoções e o observou aproximar-se preocupado. Ela, ali, pensando em um meio de fugir de seus fantasmas, e agora se via diante de alguém que parecia um sonâmbulo por não ter as memórias ruins. O que a ausência das próprias dores não fizera a Kohaku? Ele estava ali, mas não estava. E sim, ela sabia que uma parte do menino não desejava se lembrar do passado, e por isso ele era presa fácil. Mesmo tendo a oportunidade de estar novamente com a irmã, uma parte de Kohaku parecia ter escolhido voltar à teia da aranha. Ser livre para fazer escolhas, tendo a consciência de si mesmo e do caminho pelo qual se percorreu pode, sim, ser um fardo e como ela sabia disso! Pois escolhera se entregar à aranha também.

A estrangeira fechou os olhos e resfolgou. O menino ajoelhou diante dela na tentativa de entender o que ela tinha e recebeu um abraço singelo. As bochechas coraram vividamente. O enredo perdurou alguns minutos, as mãos dela acarinharam as costas do irmão de Sango como se quisessem confortá-lo e o carinho o induziu a fechar os olhos. Finalmente, Belle apartou o abraço e afagou o rosto do rapazote. Ela sorria discretamente, parecendo compreender de súbito uma nova verdade:

— A dor... — suspirou — é terrível, mas necessária. A dor pode ser cruel, mas nos faz sentir que estamos vivos, que temos um propósito. Por pior que pareça, não fuja da dor, não fuja do passado, Kohaku. — disse aquelas palavras não só para ele, mas também para si mesma. Não era só da lembrança de Hitomi que Annabelle fugia até certo tempo, ou do desejo por Naraku. Annabelle fugiu das dores ao viajar para longe da Europa, onde vivera as primeiras perdas e testemunhara traições. Isso acabaria enfim, a jovem ruiva escolheu abraçar o próprio passado e com isso, fez uma revelação para o garotinho: — Eu também perdi o meu pai, Kohaku, não o matei com minhas próprias mãos, mas poderia tê-lo salvado com o meu dom. Só que eu tive medo, além de um dia ele ter me feito prometer evitar usar esse poder, eu tive medo de não conseguir, e por isso nem tentei.

— O que a senhorita está tentando me dizer? — tocou os ombros dela, Annabelle fixava o olhar num ponto distante.

— Meu pai faleceu quando eu tinha treze anos, minha madrasta conhecia o meu dom e tentou me convencer a trazê-lo de volta à vida, mas eu não tive sequer coragem de tentar e por essa razão, minha irmã passou a me odiar... — lembrou-se por completo daquele momento que parecia fragmentado. Aquele foi o dia em que Ailyn decidiu entrar para a Ordem de Amelie e começar a caçada. "Foi minha culpa, eu sinto tanto Lynnie!" - e depois lembrou-se de quando o cavalo caiu sobre a perna de Hitomi, e ela quase foi tão covarde como quando perdeu seu pai, mas teve a sorte de ser mais madura e segura de si para agir e salvá-lo. "Eu deveria ter tido essa coragem antes..."

— Eu lamento muito pela senhorita, mas não acho que deva se culpar. — a voz do menino a trouxe de volta ao presente. — Acho que a senhorita fez o que seu pai queria que fizesse, porque ele mesmo pediu para guardar o seu poder.

— Obrigada, Kohaku... — suspirou — você também não deve se culpar por nada, nada mesmo, entende? — segurou as mãos do menino.

— Mas... eu não sei do que está falando. — piscou os olhos algumas vezes, novamente ruborizado.

— Apenas se permita lembrar, é tudo o que peço. — e levantou-se de uma vez.

Um inseto venenoso se aproximou deles dois e sobrevoou o ombro do menino, em seguida uma ventania os circundou. Kagura surgiu por entre as árvores, sua grande pena pousou ali perto e ela desceu.

— Kagura... — Annabelle sorriu e acenou.

— Naraku me mandou buscar Kohaku. — disse com secura, mas seus olhos demonstravam amistosidade para com a humana.

— Como você está? — foi até ela, a Mestra dos Ventos não saiu do lugar.

— Estou do jeito de sempre. — foi direta, sem dar detalhes. Anna percebeu que a youkai não falaria muito, provavelmente por causa daquela abelha irritante que zunia e os observava.

— Antes de irem, posso fazer uma pergunta? — pediu.

— Ande logo. — a outra respondeu sem muita paciência.

— O que aconteceu com o... — falaria "coração", mas ponderou — com o sujeito estranho que parecia uma cria de Naraku?

— Você conheceu o Muso então... — Kagura comentou — Naraku o absorveu. — pareceu ligeiramente transtornada com o evento.

— Entendo... — demonstrou certo alívio, coisa que a amiga não entendeu muito bem, todavia não perguntou sobre. "Sendo assim, ele está bem" — sorriu singela, afastou-se aos poucos, pegou de volta sua sacola de roupas e de longe, acenou aos dois: — Kohaku, pense nas coisas que eu disse para você. Kagura, eu espero que fique bem. — com isso, os dois subiram na pena da cria de Naraku e partiram para uma direção, Annabelle seguiu o caminho oposto, sem sequer imaginar aonde daria.

Caminhou por horas a fio, até que encontrou um vilarejo quieto demais para ser habitado. Ao adentrá-lo, notou certas casas reviradas, outras estavam destruídas e o cheiro de fumaça remetia à ideia de que um incêndio dizimara parte das casas naquele local. Ela sentou nas escadas em frente a entrada de uma construção maior – e em melhor estado – para abrir o mapa que tinha e analisá-lo outra vez. Percebeu na mata ao redor árvores mais altas do que as outras e o formato delas se assemelhavam ao de algumas no papel, rodeando um círculo – o qual Anna deduziu que fosse o vilarejo em que ela se encontrava. Se fosse assim, a sua jornada seria perigosa, afinal, haveria muitas outras vilas e ela teria que passar por cada uma.

"Isso será difícil" — pensou, recordando-se de como as pessoas a tratavam ao pensar que fosse uma youkai. O que ela poderia fazer? Enquanto maquinava alguma coisa, a escocesa entrou na casa para vasculhar o que restara lá dentro, e ao explorar os cômodos revirados encontrou algumas coisas interessantes: bastante pó de arroz e alguns tipos de tinturas coloridas, restos de tecidos e outros tipos de bugigangas. A jovem teve uma ideia.

Despejou suas roupas da sacola, comparou-as aos tecidos e restos de quimonos jogados no que considerava ser uma casa de chá, revirou alguns móveis e encontrou agulha e linha. A noite seria longa...

Com o raiar de um novo dia, Annabelle saiu de dentro do casarão trajada em seu novo vestido que misturava a cultura ocidental à oriental. Tratava-se de um quimono branco, no qual ela bordara arabescos azuis e prata pelas mangas e pelo busto, na cintura, em vez do obi, um espartilho azul-turquesa a modelava e a saia, diferentemente do original, era mais solta de modo a proporcionar maior conforto para as pernas, bordada como o restante do traje. No rosto, uma maquiagem carregada de pó de arroz para fazê-la parecer ainda mais excêntrica, as pálpebras delineadas em cor semelhante à do corpete trançado, abaixo do olho esquerdo ela desenhara o mesmo arabesco azulado que enfeitava todo o vestido. Os cabelos estavam soltos em sua maioria, com apenas uma pequena mecha ao lado da orelha amarrada em uma presilha prateada. Por fim, a estrangeira mirou as próprias palmas e os dedos abertos, ainda manchados de branco e conversou com alguém em pensamentos:

"Pai, sei que prometi esconder esse dom para ter uma vida normal e estar a salvo, mas terei que romper com a minha palavra mais uma vez, me desculpe. Eu sei que deveria ter quebrado essa promessa faz tempo, quando você precisou de mim." — e cobriu-se com um véu transparecido, a sua brancura contrastou com a aridez dos campos pelos quais ela percorreu. O deserto fazia parte do caminho, segundo o mapa. Havia muita árvore seca espalhada pelo papel até que em algum instante a natureza começaria a se tornar mais generosa. Ironicamente, aquela precariedade toda seria de grande ajuda.

Não tardou para que Annabelle cruzasse o primeiro vilarejo e fosse abordada pelos sujeitos com espadas e tochas nas mãos, prontos para um embate.

— Uma youkai! — eles gritaram o alerta.

— Não se preocupem. — tirou o véu do rosto, mostrando as nuances — Me chamo Shinrinko¹ e sou uma youkai que trabalha para o bem dos humanos. — contou sua história.

Os homens de certa idade fitaram-na confusos e ainda desconfiados, algumas senhoras e crianças espiavam das janelas das casas, todos ficaram quietos por alguns instantes, até que um dos homens tomou coragem de falar:

— Não acreditem nela! Ela vai nos amaldiçoar!

Annabelle se abaixou, tocou as mãos no solo seco e fez brotar uma pequena flor, então boa parte daquelas pessoas arregalaram os olhos, estarrecidas pelo pequeno milagre.

— Posso tornar fértil a terra de vocês, desgraçada por tantas guerras... tudo o que peço em troca é um lugar para passar a noite, e um prato de comida.

Os burburinhos soaram como chiados, alguns dos senhores a favor dela e outros ainda contra. Contudo, a indecisão não durou mais do que cinco minutos. O povo daquele vilarejo e de outros que se seguiram era tão massacrado pela falta de suprimentos que bastava Annabelle exibir um pouco de seu dom e eles se rendiam à promessa. Então, a dona dos cabelos de fogo tocava o chão com suas mãos, cantava canções em gaélico e de repente as plantações tornavam a dar frutos e as hortas ficavam repletas de vegetais suculentos outra vez. Assim, ela traçou sua rota rumo ao novo lar, longe de todos aqueles a quem conheceu desde que pisara em solo nipônico, mas dessa vez não era uma simples fuga do passado e sim a tentativa de reconstruir a sua felicidade, apesar de no fundo saber que seu coração não estava de todo livre, pois aquele pequeno fragmento ainda latejava dentro do peito.

Enquanto isso, entre Naraku e seus inimigos a guerra persistia cada vez mais ferrenha e sem volta.

"Pelo menos você encontrou o seu caminho agora, Annabelle..." — ele pensou ao observá-la através do espelho de Kanna. A boca retorceu de leve diante da vontade de espreitá-la, e com o órgão vital de volta às origens, parecia cada vez mais difícil segurar o ímpeto de ir até ela, porém a escolha fora dele, mandou-a embora. Precisava aprender a deixá-la ir, mesmo porque, o seu fim já estava traçado e não era sua intenção arrastá-la junto consigo. A Joia quase em seu formato esférico completo cintilava na palma dele, e Naraku sabia que se quisesse permanecer vivo por mais tempo para terminar de completá-la, precisaria de mais poder ainda. Então, a imagem no pequeno espelho mudou: o reflexo da dona de seus pensamentos se dissipou e deu espaço à figura imponente de um daiyoukai.

— Sesshoumaru... — disse o nome enquanto cravava o olhar na criança humana que saltitava contente ao lado do senhor das terras do oeste. Um sorriso malfazejo se rasgou na face e a pérola entre os dedos resplandeceu.

Continua...


Shinrinko¹: segundo o google tradutor (fonte SUUUPER confiável) significa "Filha do Bosque" - o que faz sentido, já que o poder da Anna consiste em manipular as forças da natureza :3
Pois é gente, da morte da mãe de Annabelle vocês já sabiam, e agora sabem um pouco sobre a perda do pai e razão da amargura de Ailyn. Sem ser no próximo capítulo, no outro (eu acho), teremos o momento da nossa loura fatal e a chegada de personagens muito queridos para mim. Estou ansiosíssima por esse momento!
Acho que vocês entenderam mais ou menos a cronologia aqui, né? Annabelle encontrou com o Muso antes de ele esbarrar com Inuyasha e seus amigos, naquele instante ali em que ele acorda desorientado, não se lembra direito do que aconteceu e acredita que Annabelle é parte de um sonho, algo assim. Depois, eu tentei expressar a instabilidade de Naraku - porque essa foi a razão de ele absorver Muso de volta. Então, imaginem que depois que Naraku deixou Annabelle no pântano, toda a sequência do anime foi a mesma - inclusive o Muso gritando pelo nome da Kikyou ao ser absorvido, pois ele se esqueceu completamente do encontro com a Anna e ao entrar na caverna de Onigumo outras memórias vieram à tona.
Espero que tenha ficado bem explicado, ufa!
E agora seguimos a estória de Annabelle, a youkai de Taubaté!
Um beijo grande e obrigada por tudo, espero que tenham gostado da declaração de amor que o coraçãozinho do Naraku (Muso, seu lindo! Eu tenho um crush nele...) fez pra Belle-chan. 3