Oi pessoal, aqui estou novamente com um capítulo atualizado (nem tanto)!
No outro site em que publico a fanfic, já tem mais um postado, mas pelo menos agora o atraso é de apenas um capítulo e não cinco. HUEHUE
Bricadeiras à parte, espero que gostem dessa adaptação que fiz! Muito obrigada Alexiz tutsi por seguir acompanhando e comentando, você tem sido um incentivo maravilhoso! Obrigada a todos que passam por aqui e dedicam um pouco de seu tempo para ler também!
Boa leitura.
Capítulo 33 - Monte Hakurei
Kikyou, depois muito perambular, deu-se com um vilarejo devastado pela guerra. Boa parte das casas estavam destroçadas, os restos de telhado de madeira chamuscados, espalhados pelos redores, muitos homens feridos jaziam deitados sobre traçados no meio da terra, as esposas faziam o possível para propiciar-lhes algum conforto e ainda assim os gemidos de dor reverberavam em conjunto ao uivo do vento.
— Uma sacerdotisa! — um garotinho exclamou, visivelmente esperançoso, conforme via a vida passada de Kagome atravessar a névoa de poeira.
— Por favor, — uma anciã se achegou e ajoelhou perante ela — ajude nossos homens! Fomos atacados inesperadamente por uma trupe de bandidos, eles levaram o pouco que tínhamos de valor e queimaram o resto. — a voz embargou na garganta da senhora e ela tapou a boca com as mãos enrugadas.
— Não se preocupem, estou aqui para cuidar dos enfermos. — Kikyou anunciou em tom de serenidade, e em seguida passou a analisar os sujeitos agonizantes. Então, entre gemidos, um deles comentou:
— Se ao menos Shinrinko estivesse por perto...
— Shinrinko? — a sacerdotisa pestanejou curiosa e voltou-se ao homem.
— A youkai da floresta... — o mesmo menino que a recebeu se aproximou, ajoelhando-se ao lado dela e mirando o camponês sofrido. — dizem que ela tem feito muitas coisas boas em alguns vilarejos. Por onde ela passa, a grama volta a crescer e as árvores a darem frutos.
— Interessante... — Kikyou estreitou os olhos escuros — nunca ouvi falar dela, como ela é?
— Há relatos de que a youkai possui cabelos da cor do fogo e olhos cristalinos como a água. — a anciã se fez próxima novamente.
— E que, com um simples olhar, ela afasta youkais mal-intencionados. — o homem de quem a sacerdotisa cuidava concluiu.
"Cabelos de fogo, olhos d'água..." — ela ponderou por alguns segundos, depois sorriu tranquilizada —"Só pode ser ela. No fim das contas, acho que fiz um bom trabalho" — suspirou aliviada — "e a ajudei a encontrar seu destino".
Depois de longos dias de caminhada exaustiva e missões que ela abraçara – fossem afastar youkais famintos, ou reestruturar terras arrasadas – finalmente, Annabelle atravessou uma densa bruma esbranquiçada e encontrou um vilarejo isolado em meio a grandes pedras e árvores possivelmente milenares. Uma gama de flores rosadas enfeitava a entrada e à distância, por trás da cortina de névoa os globos azulados enxergaram o topo pontudo de um monte.
"Deve ser aqui" — pensou ao olhar o mapa que Kikyou lhe entregara. A ansiedade fez com que a ocidental sentisse o peito apertar. Enquanto ela peregrinava, conseguia se distrair e abstrair pensamentos, o foco era simplesmente ajudar os necessitados e depois partir, sem se apegar ao solo ou a alguém. No entanto, agora que encontrara o lugar indicado, percebia que outra vez tentaria fixar raízes e depois de passar por tantas situações desastrosas, a pseudo youkai adquirira um temor enorme no sentido de estreitar laços com qualquer pessoa.
"Faça a sua parte, apenas" — disse a si mesma e respirou fundo. Enfim, descobriu o rosto da mortalha branca que usava costumeiramente, exibindo a exótica maquiagem pálida, o sombreado azul desenhado nas pálpebras e os arabescos no canto da face.
— Quem é? Parece uma youkai — os burburinhos começaram. Annabelle estranhou, porém, o lugar onde ela estava. Embora a maioria esmagadora de moradores fossem mulheres, o vilarejo parecia não sofrer qualquer ameaça ou necessidade. Em verdade, a mata em volta era tão colorida que fazia a escocesa lembrar das lendas sobre as terras das fadas, frutas e legumes não faltariam para aquela gente, bem como a carne, pois a fauna local era notável. As casas eram humildes, sim, mas bem arranjadas e em pouca quantidade. Um pequeno grupo de mulheres se estabelecera ali, os poucos homens eram idosos, e a maior parte da população eram crianças.
"Ela me disse algo sobre órfãos e viúvas" — relembrou do dia em que encontrou Kikyou e ela mencionou aquele lugar pela primeira vez — "mas essas pessoas não parecem precisar de ajuda".
— Ei, youkai, o que quer aqui? — a voz de uma moça cortou-lhe o pensamento, ela apontava um bastão de madeira para o rosto de Annabelle enquanto mantinha a postura defensiva.
— Eu... — "Não sou uma youkai" — quase o disse, mas lembrou-se da fama que adquirira e prosseguiu com o conto que inventou há pouco mais de um mês — sou Shinrinko, a youkai das florestas. Não pretendo fazer mal algum.
— Ouviu falar de nosso vilarejo como os outros youkais não foi? Para o seu azar, muitas de nós fomos exterminadoras de seres como você e sabemos nos defender! — deu um passo a frente mirando a ama para o pescoço de Annabelle.
— Não vim atacá-los, já disse. — segurou o ápice do bastão e o abaixou devagar, o semblante sempre transbordando calmaria.
— Então o que veio fazer aqui? — outra mulher, também desconfiada, perguntou.
— Para falar a verdade, nem eu mesma sei... — suspirou — tenho andado por tanto tempo, ajudando quem eu pude pelo meio do caminho até chegar aqui. Uma sacerdotisa me disse que eu seria útil nesse lugar, mas vocês já parecem ter tudo o que precisam. — sorriu — Talvez ela tenha me enviado para cá por acreditar que eu precisasse desse lugar, e não o lugar de mim.
— Não me diga que veio procurar abrigo aqui... uma youkai, conosco?! — a primeira camponesa que a confrontou, eriçou-se toda.
— Alguns youkais são cruéis e odeiam os humanos, é verdade... — inevitavelmente, lembrou-se de Naraku e um nó se formou na garganta — mas nem todos são assim, alguns gostam de ajudar as pessoas. — e pensou em Inuyasha, saudosa dos momentos em que esteve em seu grupo. — Bom, não forçarei a minha presença. Se não sou bem-vinda, me retiro. — reverenciou-as respeitosamente, virou as costas e caminhou para a bela entrada com aroma de flores. No caminho, notou no meio de um grupo de crianças uma garotinha de cabelos negros e olhos acinzentados a fitá-la curiosamente. Sorriu discretamente e atravessou as flores, perdendo-se na névoa.
— Que coisa esquisita foi essa? — a moça baixou o bastão e resfolgou. Disfarçara o temor muito bem até então.
— Não devemos baixar a nossa guarda, ela ficará por perto. Tenho certeza! — a outra comentou, ainda desconfiada.
Annabelle tornou a caminhar, explorando a mata fechada que contornava o vilarejo e parou a jornada quando se deparou com uma fonte termal. Não pensou duas vezes, jogou a sacola sobre uma rocha, despiu-se e adentrou as águas mornas. O corpo relaxou no instante em que entrou em contato com aquela temperatura. A escocesa fechou os olhos por segundos e soltou um suspiro prolongado. Estava cansada de ter que se banhar em riachos gelados.
Os cílios antes esbranquiçados por conta da maquiagem, agora acobreados, desentrelaçaram os fios e a vista enxergou as copas das árvores ao alto. Sons de grilos e pássaros misturavam-se com o da água, em outra época isso poderia representar tranquilidade, porém, no presente nem mesmo os tons da natureza conseguiam acalmar a alma dela.
"Eu sinto tanto a falta dele..."
Naraku maquinava há um tempo a possibilidade de absorver os poderes de Sesshoumaru, todavia, sabia que para obter êxito precisaria de um corpo ainda mais poderoso. Por essa razão, todos os dias caçava os mais diversos tipos de youkais e os absorvia. Os que serviam eram mantidos no interior de seu corpo, os que pareciam indigestos, o hanyou regurgitava pelo abdome. O castelo logo ficou empesteado com o cheiro das partes cadavéricas largadas displicentemente pelos corredores e cômodos, contudo o araneídeo não parecia se incomodar. O abatimento em suas feições, apesar de seu youki emanar cada vez mais intenso, era visível para suas crias. Kanna, no entanto, era a única com coragem o suficiente para segui-lo pelos cantos, inclusive até ao único quarto mantido limpo e intocável. Da porta, a youkai albina o observou contornar a harpa dourada, alisar os contornos lapidados, sentar-se ao banco e dedilhar uma melodia simples repetidas vezes.
— Sente-se. — Annabelle orientou amena e ele a obedeceu, ainda que o ato o confundisse levemente.
— O que está tentando fazer? — perguntou enquanto fitava o belo instrumento musical. Então a humana segurou seus braços com delicadeza e posicionou as mãos dele ao redor das cordas.
— Ensinar você a tocar alguma coisa. — ela esbanjou outro de seus sorrisos singelos, desarmando-o. Cada vez que a ocidental lhe dedicava um sorriso, Naraku sentia-se mais vivo.
Os olhos rubros, quase arregalados, piscavam desconcertados enquanto ela explicava a nota que cada corda emitia e manipulava os dedos dele a tocarem-nas. Então, os fios dourados dantes retos ondulavam e a melodia lhes escapava doce, serena como a voz e o olhar da estrangeira. Se tocar aquele instrumento fosse uma forma de mantê-la com aquela expressão amável, Naraku o faria com gosto – e ele era esperto o suficiente para captar as coisas com rapidez, fossem ruins ou boas. Ele sempre fora excepcional.
— Nossa, você aprende rápido! — Anna se surpreendeu e o deixou livre para continuar a dedilhar os acordes que aprendera num piscar de olhos.
— Sou um bom observador, — esboçou aquele típico sorriso com uma pitada de malícia — acho que você já reparou nisso. — a encarou, e o riso alargou ao notá-la corar suavemente.
A jovenzinha, em vez de retrucar, caminhou desapressada até as costas dele.
— Não pare. — pediu suave quando o meio-youkai preparava-se para abandonar a música, e por fim, pousou o queixo sobre o ombro dele, abraçando-o por trás. — Concentre-se. — orientou ao perceber que um dedo escapara da nota certa.
— Com você me provocando desse jeito fica um pouco difícil... — ele riu e suspirou, sentindo a respiração dela atravessar suas ondas soltas e entrar em contato com o seu pescoço. Depois, ela afastou delicadamente algumas madeixas daquele local e depositou um beijo calmo na pele sensível — Está fazendo de propósito, não é? — fechou os olhos e a ouviu rir bem baixinho.
— E você gosta que eu sei. — sussurrou ao pé do ouvido, Naraku não aguentou, girou o rosto na direção do dela e as bocas se esbarraram. A música parou, os braços dela o apertaram, amassando levemente o claro quimono de dormir. Annabelle já não parecia se condoer por ele usar o figurino de Hitomi, pois ela mesma fez questão de transformar um simples esbarrão em um beijo devotado.
Momentos como aquele se repetiam com frequência, tornando a interação entre ambos mais descontraída, e sempre terminavam da mesma forma: os dois nus, entregando-se um ao outro, dividindo toques e sensações, os gemidos e os suspiros se misturando e reverberando por onde quer que eles estivessem fazendo amor. E quando acabava, abraçavam-se por longas horas, olhavam-se em silêncio, afagavam os contornos um do outro, acarinhavam os rostos suados e sorriam.
Naraku abriu os olhos e os dedos abandonaram as cordas para as mãos pousarem sobre os joelhos. Dessa vez, ela não estava ali para orientá-lo, e ele sabia que Annabelle desaprovaria o plano que intentava pôr em prática. Os rubis estremeceram e as narinas inspiraram profundamente, buscando captar um resquício de cheiro de rosas naquele quarto, porém, conforme os dias se passavam cada vez menos traços da presença dela se mantinham naquele quarto, ou no castelo.
Não olhe para trás, — desde que ela partira, o coral dentro da Joia tornara-se mais vívido e influente — você sabe que não nasceu para ter uma vida medíocre ao lado de uma humana qualquer, e não é a você que ela ama.
No fim das contas, ele acabava por resistir e conseguia controlar o ímpeto de procurá-la, por mais doloroso que fosse ter que tentar se acostumar a viver sozinho, depois de finalmente experienciar o acalento e o carinho em uma espécie de reciprocidade até então desconhecida. A vida era tão mais fácil quando ele desconhecia essas coisas...
A culpa é sua, você procurou por isso, e só há um caminho para se livrar desse fardo agora. — as vozes persistiam, e pediam pela confiança dele – o que ele entregava sem impor muitas barreiras. O que os seres dentro da maldita pedra não compreendiam era o real motivo por trás da desistência de Naraku. Não era a ambição de ser um youkai completo que o impedia de ir ao percalço de Annabelle, e sim a sua vontade de mantê-la a salvo. Embora sentisse necessidade de tê-la por perto, abdicava disso como podia em prol da segurança da mulher, e então tinha que lidar com suas crises de abstinência sozinho, ou ao menos ele pensava estar sozinho...
Kanna, silente, testemunhava o desespero de seu criador a mirá-lo do outro lado da porta, e confusa perguntava-se qual seria a razão de tamanho sofrimento. Para ela, o funcionamento do mundo parecia tão mais simples e superficial. Ela era a única dali realmente desprovida de qualquer sentimento. Naraku a moldara como gostaria de ser.
Annabelle terminava de amarrar o laço de seu espartilho improvisado quando ouviu um ruído vindo da mata. Olhou na direção do som e notou uma criança escondida entre as folhas de um arbusto. Sorriu diante da ingenuidade da menina, que acreditava piamente estar bem camuflada, no entanto seu quimono branco com bordados lilases a denunciava ali, encolhida no verde.
A mulher dos cabelos arruivados a reconheceu, era a garotinha que a encarou curiosa antes de ela sair do vilarejo.
— Olá. — a escocesa a saudou, surpreendendo-a — Pode sair daí, não farei mal a você. — se aproximou devagar, tomando o cuidado devido para não assustá-la.
A menina afastou qualquer folha ou galho e saltou para fora do arbusto, destemida. Os olhinhos cinzentos percorreram a figura de Annabelle, primeiro estranhando seu rosto limpo – sem a branquidão do pó e os desenhos em azul – em seguida analisando suas roupas diferentes das costumeiras, por fim cravaram-se no azul dos globos e, depois de respirar fundo, a pequenina afirmou sem titubear:
— Você não é uma youkai.
Os olhos arregalados de Anna piscaram várias vezes, confusos.
— Como é? — ela perguntou.
— Você não é uma youkai, — a criança repetiu e justificou: — a sua energia não é maligna.
— Você consegue ver ou perceber essas coisas? — ajoelhou-se diante dela para ficarem em alturas parecidas. As feições daquela menina demarcavam a sua inocência, ela quase sorria, orgulhosa de si por notar algo que mais ninguém notara. E não era só a aura dos seres que a pequenina sentia, pelo visto. Agora os olhos arrendondados fixavam-se no peito de Annabelle, onde um fragmento da Joia de Quatro Almas estava escondido. — Você... — "É como a Kagome!" — pensou e concluiu com uma pergunta: — consegue sentir os fragmentos da Joia também?
— Sim, eu enxergo os fragmentos e a energia sinistra dos youkais. — contou sem mistério, sorriu serena. — A energia que te envolve é parecida com a das sacerdotisas. Apesar de você ser muito diferente das moças do vilarejo, eu sei que você é uma moça mesmo assim.
— Me pegou, — suspirou e relaxou os ombros, depois correspondeu o sorriso dela com outro — sou mesmo uma humana, mas não sou dessas terras, cruzei oceanos para chegar aqui.
— Por isso você é assim? — pegou uma madeixa alaranjada entre os dedos. Depois, aproveitou para suprir aquela curiosidade que alimentou desde o momento em que seus olhos bateram na estranha. Fez perguntas semelhantes às de Rin, instigando a saudade que Annabelle sentia da outra menina. "Como é sua terra natal? O que vocês comem, vestem, como arrumam os cabelos?" e por aí em diante... Tudo foi respondido pacientemente pela escocesa, a conversa fluiu até que gritos de outra mulher ecoaram pelo bosque e Anna ficou em alerta.
— É melhor você voltar, estão procurando por você. — tocou o ombro da garotinha.
— Yoru! — a voz de alguém se tornava mais próxima.
— Mas você não pode ficar sozinha na floresta... — a garotinha apelou — é perigoso!
— Yoru, o que está fazendo aqui? — enfim, uma mocinha bem mais jovem que Annabelle passou entre duas árvores e exclamou de susto ao ver a criança junto à criatura considerada esquisita por ela.
Annabelle se afastou da menina para não criar qualquer tipo de atrito e demonstrar que não lhe faria mal.
— Motoko, essa moça está sozinha e não tem onde ficar. — Yoru explicou.
— Ela é uma youkai! — disse, empalidecida pelo medo.
— Não é não. — sorriu, causando espanto na outra — Ela faz de conta que é, mas é uma mulher comum.
— Mas... mas olha pra ela! — apontou-a.
— Sim, ela é estrangeira, sua boba! — riu.
A mocinha até então amedrontada, arqueou uma sobrancelha e colocou as mãos na cintura. Depois, se achegou de Annabelle e a rodeou, observou a sacola da forasteira e a revirou sem cerimônia, notando roupas diferentes do usual lá dentro.
— Ei! — Belle reclamou, no entanto não fez nada para impedir Motoko.
— Nunca vi gente se fingir de youkai, eu hein! — meneou a cabeça e voltou a ficar de pé — Yoru, vamos embora. Acho que essa daí é meio louca da cabeça. — o comentário fez a ruiva rir inevitavelmente.
— Que feio, Motoko! Nós todas fizemos um juramento, lembra? Não podemos deixá-la sozinha aqui. — a pequenina cruzou os braços.
— Tá bem, tá bem! — bufou impacientemente.
— Vamos... — Yoru ergueu a mão à Annabelle, convidando-a.
— Não sei se é uma boa ideia, elas não me quiseram lá... — hesitou, não só pela péssima recepção de outrora, mas também pela ansiedade que a consumira desde que ela se deu conta do quão palpável era a probabilidade de criar vínculo com outras pessoas novamente.
— Vamos logo! — a menininha apanhou os dedos dela entre os seus e começou a puxá-la, induzindo-a a dar passos arrastados. A outra garota, pouca coisa mais velha que Yoru, caminhou na frente sem olhar para trás.
Percorreram a trilha e logo estiveram à entrada florida daquele lugar. Ao atravessarem a bruma, Anna enrijeceu com os olhares e apertou a alça da sacola que trazia às costas. Dessa vez, não havia pintura para disfarçar suas nuances inseguras.
— Yoru, onde você estava?! — a mesma mulher que mais cedo ameaçara Annabelle com um bastão correu de dentro de um casebre e a abraçou forte. Com o queixo sobre o pequeno ombro, ela abriu os olhos e se deu conta da presença da estranha. — O que ela faz aqui? — levantou-se em pose de ataque.
— Mana, fique calma! — a menina disse sem alterações — Ela não é uma youkai...
— Como assim não é uma youkai?! Olhe só para ela! — puxaria o bastão amarrado nas costas.
— Ela é estrangeira. — Motoko contou a revirar os olhos — Por isso é esquisita.
A moça fez uma careta, constrangendo ligeiramente Annabelle. Lá estava ela numa situação daquelas, e era tudo que ela menos desejava.
— Ela é como nós, — Yoru prosseguiu — perdeu muita gente querida e está sozinha, zanzando por aí e correndo riscos... Vamos abandonar alguém só por causa de sua aparência?
— Yoru, você tem certeza de que não sentiu youki nessa mulher? — pela última vez, a guerreira demonstrou desconfiança.
— Sim, a moça tem uma aura parecida com a minha. — apontou-se contente.
— Escutem, não precisa ser para sempre, — enfim, Annabelle se manifestou — mas se eu puder ficar aqui por um tempo, serei muito grata. Pelo menos até eu decidir o que farei da minha vida.
A esse ponto, a maioria das pessoas que viviam ali já estavam aos redores, prestando atenção nos acontecimentos.
— Não negamos ajuda aos necessitados, — outra mulher saiu do casebre onde a exterminadora antes estava, uma senhora de cabelos lisos e grisalhos — você é bem-vinda aqui, pelo tempo que decidir ficar.
Bastou que a mais velha desse a palavra, e todos pareceram acalmar os ânimos.
— Desculpe tê-la ameaçado mais cedo, me chamo Himawari. — a dona do bastão prestou a típica reverência de cordialidade, todavia seus olhos amendoados ainda recaíam sobre a forasteira com desconfiança.
— Ah... — Anna demorou a encontrar um jeito de se expressar sem parecer desconfortável — Está tudo bem. — Estava? Não sentia acolhimento espontâneo, não da maioria ali. Não queria que sua presença fosse imposta a ninguém, muitos pensamentos se atropelaram na mente dela, fazendo-a questionar se não deveria arrumar outro lugar para ir. E para onde iria? Melhor seria se arranjasse um jeito de voltar a seu país de origem, todavia, só em cogitar a alternativa de partir de vez das terras onde o Sol nascia, o coração doía. — "Eu ainda tenho esperanças de encontrá-lo" — olhou para baixo, entendida do que sentia e se culpando por não seguir em frente de uma vez, então a mão cobriu o peito onde um caco pulsava discretamente — "Isso não vai passar, não enquanto esse fragmento estiver aqui".
— Venha comer alguma coisa. — a senhora a chamou, cortando-lhe as ideias.
Annabelle a seguiu até o casebre, sentou-se à beira da panela que borbulhava no fogo e mirou-a silente.
— Eles vão se acostumar com você. — ela falou como se estivesse evidente a razão da tensão da nova inquilina — Mas a grande questão aqui é se você vai se acostumar com eles, com esse lugar. Sinto que você está apenas de passagem.
— Há muitos anos não me fixo em um lugar por muito tempo, não sei se ainda consigo me acostumar. — contou.
— Fique o quanto quiser, onde se alimenta uma boca, se alimenta duas. Muitas das pessoas que estão aqui também viveram como nômades boa parte da vida, outras vieram de vilas arrasadas pela guerra, ou por saqueadores, ou por youkais. Dificilmente alguém que vive conosco não tem uma história triste para contar. Perdemos filhos, maridos, pais... — a mulher de idade sentou do outro lado do receptáculo e mexeu o caldo ali dentro. — Yoru tem sorte de ter a irmã, pelo menos. Ela é uma menina especial, não?
— E precisa de proteção, se youkais descobrirem sobre ela... — respirou fundo.
— Por isso estamos tão bem escondidos, queremos que Yoru tenha uma infância segura e normal. Além disso, temos o monte sagrado como proteção. — sorriu despreocupada.
— Qual é a história do monte logo adiante? — perguntou, intrigada.
— A energia que o circunda é tão pura que afasta youkais e pessoas más intencionadas. Todos aqueles cujos corações estão enegrecidos de alguma forma, não pisam nesse lugar. É o que conta a história. Coma, já está bom. — entregou uma cuia nas mãos da estrangeira.
— Por isso escolheram ficar aqui... — mergulhou o recipiente na sopa, depois provou o sabor e sentiu-se no céu. Comida de verdade, enfim. — Obrigada por me acolherem, farei o que estiver ao meu alcance para ser útil. — suspirou depois do último gole no caldo suculento e limpou a boca com o dorso da mão — Apesar de vocês saberem a verdade sobre minha humanidade, prefiro continuar a fingir ser uma youkai.
— Não precisa fazer isso. — a garotinha surgiu à porta e acabou ouvindo o final da conversa.
— Pode vir, Yoru. — a anciã a chamou com um gesto, e a pequenina correu animada até estar sentada ao lado de Annabelle — Ela tem razão, você não precisa fazer isso.
— De qualquer jeito, as pessoas não costumam acreditar em mim quando digo que sou humana, e apesar de esse monte possuir um campo de proteção forte, acredito que youkais realmente poderosos conseguem resistir a essa energia. Se pensarem que uma youkai os protege, talvez pensem duas vezes antes de passarem por aqui. — não era apenas por causa de proteção que Annabelle gostaria de manter a farsa, era também por querer construir uma nova identidade e não ser alcançada por Inuyasha e seus amigos. Que vergonha teria de encará-los após aquele último encontro... Protegera Naraku com seu corpo e agora as pessoas que foram suas amigas deveriam odiá-la. Se fosse prudente, se arrependeria do feito, só que isso estava longe de ser verdade. Por um lado, seria bom se manter distante, perder o contato com quem quer que fosse. Esperaria pelo dia em que o hanyou aranha buscaria o fragmento contido em seu peito e a partir dali seria livre, nunca mais olharia para trás – buscou convencer-se disso enquanto se levantava e ia até a janela admirar a paisagem local, as pessoas e a fina névoa semelhante à sua aura. Queria sentir-se em casa.
Kohaku andava pelos corredores obscuros do castelo e refletia sobre o último encontro que tivera com a ocidental. Desde o momento em que ouvira sobre a história de vida, as divagações e a necessidade de sentir a dor, o menino não conseguia de parar de pensar e se perguntar sobre as coisas. A figura de uma bela mocinha de cabelos e olhos acastanhados impregnava-lhe as lembranças. Não sabia quem ela era, sequer fazia ideia de seu nome, mas era como se fosse um anjo a proteger seus sonhos, alguém que o conhecia desde que tinha nascido.
Quem era ela? Quem era?
— Ei. — a voz de Kagura o fez estancar — Que menino esquisito... — ela comentou, encostada à parede e de braços cruzados. — Naraku quer falar com você.
— A moça de cabelos de fogo, ela já viveu aqui, não é? — perguntou antes de seguir o rumo que o levaria ao mestre.
— É, parece que você se lembra de algumas coisas... — Kagura deu de ombros como se não importasse, porém o brilho em seus olhos denunciava singelo pesar. — Vamos, Naraku espera e ultimamente ele anda bem ranzinza. — caminhou a frente.
Kohaku resolveu cessar as perguntas e segui-la por aquele corredor que parecia nunca encontrar um fim. Ao chegar ao cômodo indicado, a Mestra dos Ventos abriu a porta e ele entrou, ajoelhando-se diante da criatura encostada à parede. Sorte do irmão de Sango ter uma máscara para protegê-lo, ou sucumbiria ao fortíssimo youki espalhado pelo quarto, escurecendo seus cantos. Até mesmo Kagura sentiu-se fragilizada por aquela energia. Talvez por ter nascido do corpo daquele ser, conseguiu distinguir na aura sinistra a raiva, e também uma amarga tristeza. Quase sentiu pena dele...
— Saia, Kagura. — como se pudesse sentir o fantasma da compaixão no olhar dela, Naraku ordenou grave e a serva não contestou. Finalmente a sós com o outro escravo, orientou-o. — Ouça, Kohaku, eis o que você fará... — e conforme o araneídeo dava a ordem, a joia quase completa em sua palma cintilava.
Alguns dias passaram-se, Annabelle sentia-os como anos de tão vagarosos e infindáveis que pareciam. Ela acordava, alimentava-se e ajudava os aldeões com as tarefas diárias. Colhia frutos, legumes, às vezes contava histórias para as crianças, e quando a tarde se iniciava a ocidental dava início à sua peregrinação. Saía do vilarejo e desbravava a mata ao redor, andava por horas, até estar perto do gigantesco monte. Havia algo de místico ao redor dele que a fazia se sentir em paz. Mesmo sozinha, não pressentia qualquer perigo ao sentar-se em frente ao monumento da natureza e contemplar seu topo arborizado, colorido por matizes diferentes. Seria o efeito da luz do sol na névoa que o cobria? De que importava? O mistério o fazia ainda mais encantador.
Conforme as horas corriam e o astro do dia dava indícios de que se esconderia por trás das colinas, Anna iniciava o percurso de volta. O seu lume se confundia com o das estrelas no céu ao voltar flutuando ao bosque próximo do vilarejo, onde muitas vezes a garotinha simpática a esperava.
— Você é como uma sacerdotisa, mas não é uma sacerdotisa. — Yoru comentou sorridente, sentada sobre uma pedra a balançar as perninhas.
— Que esperta! Parece com outra menina que conheci. — a Rosa Branca deixou escapar e riu de si mesma, depois retomou a postura costumeira. Adorava crianças, contudo buscava manter uma distância afetiva não só da menina, como de qualquer pessoa ali. Adquirira temor em se apegar depois de tudo o que passara. Ainda assim, a menina era insistente e não se intimidava com o comportamento reticente da jovem, a seguia como uma sombra.
— Eu acho que você é uma fada. — disse enquanto a seguia de volta à morada.
— E eu acho que andei contando histórias demais para você. — riu enquanto andava, sem se virar para olhar a menina.
— Ou você é uma duruida. — persistiu.
— Druida. — corrigiu-a e parou, mirando-a sobre o ombro com o canto de um olho — Druida seria mais apropriado, só que os druidas não se diferem muito dos monges e das sacerdotisas, Yoru. Então é como se eu fosse uma sacerdotisa.
— Não é não, as sacerdotisas não trazem os mortos de volta à vida.
Annabelle freou os passos.
— Eu vi você reviver um coelho outro dia, Shinrinko. — a alcançou e parou em frente a ela, os olhos cor de grafite cintilavam animação. — Você o encontrou morto no meio da mata, pegou nas suas mãos, soprou uma luzinha na boca dele e o coelhinho saiu pulando pelo vale! — saltou animada.
— Yoru, você não pode contar isso para ninguém, me entendeu? — abaixou-se diante da menina e tocou seus ombros, o rosto estava da cor da lua no céu. — Prometa que não vai contar!
— Eu prometo, se você prometer que será minha amiga. — disse sapeca e direta. Annabelle respirou fundo e cobriu a testa com uma mão. — Por que você se mantém longe de todos? Não gosta da gente?
— Não é isso pequena Yoru... — suspirou e olhou para baixo — você nem deveria estar aqui, olha como escureceu rápido! Vamos embora...
— Só depois que você me responder direito. — cruzou os braços emburrada.
— Está certo, eu respondo. Mas vamos andando enquanto eu falo. — ergueu a mão à menina. De mãos dadas, foram andando entre os vaga-lumes e Annabelle começou: — Eu não ficarei com vocês para sempre, planejo voltar para o meu país assim que eu tiver condições. — notou-a fazer um bico —Não fique triste, será o melhor para mim, sinto falta de casa. Então, como não criarei raízes aqui, prefiro não me afeiçoar a ninguém.
— Isso é triste, se você se afeiçoasse a alguém talvez mudasse de ideia e ficasse com a gente...
— Não, eu preciso ir embora daqui Yoru. — foi direta, seus dedos esfriaram nervosos e a menina sentiu.
— E o que está esperando para ir? O que a prende aqui? — encarou-a curiosa.
— Há algo comigo que não é meu, estou esperando o dono vir buscar. Quando eu me livrar disso, finalmente poderei ir.
— É o fragmento, né? — mais uma vez, a garotinha a deixou desconcertada e a fez cessar os passos. — Quando o dono virá buscar?
— Eu não sei... mas preciso que também mantenha isso em segredo. Se souberem que carrego isso comigo, certamente não me deixarão ficar aqui. — os orbes azulados tremeluziram o brilho dos pirilampos e o da melancolia. Annabelle recebeu um afago gentil na mão e fixou-se na garotinha que lhe sorria terna.
— Amigos guardam os segredos uns dos outros. — Yoru falou.
— Sim... — enfim, ela retribuiu o sorriso com um à altura e caminharam juntas até chegarem na pequena vila. Lá, os dedos da criança e os da escocesa se desentrelaçaram. Yoru correu para sua irmã Himawari e levou uma bronca por ter saído na surdina.
Annabelle foi se recolher na cabana da anciã, onde um leito fora arranjado num cantinho da sala só para ela. A senhora dormia cedo, então a ocidental tinha toda a privacidade do mundo para se deitar e pensar sobre a própria vida. A sopa, como sempre, estava pronta para ser reaquecida no momento em que ela desejasse comer. Naquela noite, entretanto, Anna não sentia fome. Observando a chama da vela serpentear ao vento, ela roçava os dedos sobre o peito, onde o caco de gema se escondia. Uma pequena descarga elétrica a assustou, era a proteção para que ela não conseguisse tirá-lo. Ainda que soubesse, bem lá no fundo, que se ela realmente se esforçasse conseguiria arrancá-lo-lo de dentro de si, a escocesa sequer tentava. Um lado seu parecia não querer se desfazer da peça, talvez por temer deixar de sentir tudo o que sentia. Aquele mesmo lado desejava nutrir sentimentos por Naraku e a fazia sentir uma saudade abrasadora dele. O maldito a tinha libertado dos pesadelos com Kagewaki para agora, em seu lugar, assombrá-la toda vez que seus olhos azuis se fechavam, fossem para dormir ou simplesmente piscar. As lembranças se pincelavam vívidas, bem como a falta dos braços dele a enredarem-na à noite, o calor do corpo uno ao seu, a respiração a atravessar suas ondas e afagar o pescoço. Como era difícil se readaptar a dormir sozinha! A presença dele a acalmava tanto... No entanto, desde que Naraku a mandara embora, o único encontro que tiveram foi quando ele se via desprovido do coração. Depois, o meio-youkai nunca mais a procurou, sequer enviou um súdito ou um mero inseto para vigiá-la. Era como se ele tivesse se livrado daquela dependência que tinha dela de uma vez. Mas, se era assim, por que então o ente que representara seu coração fizera aquela declaração acalorada para ela? Será que Naraku teria se livrado dele de outra maneira? Quanto mais ela pensava, maior a confusão se tornava a ponto de fazê-la chacoalhar a cabeça, virar-se para o outro lado e fechar os olhos firmemente, pregueando-os. Contaria carneirinhos, faria o que precisasse, mas tentaria abstrair as ideias e pensar em qualquer coisa que não fosse ele, ou no tempo que passou com ele, ou em Hitomi. Que se danasse tudo!
Assim a noite se esvaía e outro dia chegava, o ciclo se iniciava como sempre, só que dessa vez ela tentou ser mais amistosa não só com Yoru, mas com todos ali. Himawari já não lhe parecia tão hostil, provavelmente a irmã caçula enchera seus ouvidos com elogios à estrangeira e ela finalmente cedia. De algum modo, isso aliviou Annabelle e uma nova atividade foi adicionada ao seu dia a dia: treinar luta de bastão com a jovem exterminadora. Aceitou a oferta, e passou dali em diante a gastar as primeiras horas da tarde com Himawari, para depois ir até o monte admirá-lo – e não mais solitária, com Yoru a tira colo. A princípio iam caminhando, mas perdiam muitas horas. Então, já que a menininha já sabia tanto sobre ela e seus poderes, Annabelle a colocava nas costas e flutuavam até estarem próximas daquele lugar que até que enfim a escocesa aprendeu o nome:
— Monte Hakurei. — Yoru disse admirada — É tão bonito...
— Tem razão. — sussurrou, entorpecida por aquela paisagem.
Às vezes à noite, ela se reunia com as pessoas do vilarejo, e sentados em uma grande roda entre os casebres, todos a ouviam cantar e tocar numa harpa improvisada, lapidada em madeira pela pequena Motoko que tinha dotes de carpinteira. Após adquirir alguma segurança e intimidade, Annabelle se dedicava a entretê-los e assim distraia a si mesma. A música a fazia ir dormir um pouco mais tranquila, mesmo que o âmago ainda quisesse gritar de saudade.
Apesar de aos poucos, a ruiva se adaptar àquela gente, ao longo do dia a mesma parte de si que persistia em carregar o fragmento e o sentimento consigo ansiava por alguma notícia ou algum relance dele. Nada surgia, nem um sinal...
"Ele me deixou, ele realmente me deixou" — doeu constatar. Naquelas andanças todas por bosques e ao redor do monte, nunca Naraku deu sinal de sua presença, e ele era forte o suficiente para superar a aura local. Se ele realmente quisesse aparecer, nada o impediria, nem mesmo um lugar sagrado. — "Poderia ao menos vir buscar esse maldito fragmento! Por que me tortura?" — Algo que há muito tempo não a angustiava, sombreou seu coração: — "Pode ser que esteja atrás da Kikyou..." — imediatamente ela tateou as próprias bochechas e as apertou, desconcentrando-se daquele pensamento infame.
Dormiu, acordou, viveu mais um dia, dormiu de novo, e mais tempo foi se passando, até ela já não fazer ideia de qual estação do ano brindava aquelas terras, já que os redores nunca deixavam de ser floridos.
Durante a manhã e a tarde, tudo se seguiu normal, até que no início da noite, quando Annabelle pousava com Yoru no bosque após visitar o monte, a ocidental sentiu o ar das redondezas pesado e seu coração descompassou.
— O que foi, senhorita Shinrinko?! — a menina perguntou ao descer das costas de Anna.
— Yoru, eu preciso que você volte para o vilarejo. Está bem?! — falou entre pausas.
— Mas, por quê?! — insistiu.
— Acho que um conhecido meu está por perto e preciso falar com ele. — os olhos dela brilhavam, Yoru não sabia dizer se de alegria ou agonia. — Por favor, Yoru... — falou baixo, suplicante.
— Está certo, vai lá! — deu-se por vencida, principalmente quando Anna abriu um sorriso de gratidão quase de orelha a orelha, e a conversa findou ali. A mulher levantou num pulo e se pôs a correr entre as árvores.
Não notara somente a densidade do ar, mas também a tênue nuvem de miasma misturada à brancura das nuvens normais. Estava longe, mas nem tanto. Era ele! Conforme as estrelas sumiam na vastidão do céu e tudo o que se via era aquela névoa púrpura, ela sabia estar no caminho certo. A sua aura branca gritava, a lua no pescoço brilhava como uma lanterna tentando conter a explosão de energia. Finalmente, ela parou, apoiada a uma árvore e o esperou descer, mal conseguia respirar, perdera a noção das próprias atitudes e do porquê estava tão empolgada depois de tudo o que ele a fizera passar.
"Eu só quero vê-lo outra vez, é só isso".
E então seu desejo se realizou, mas não da forma como ela esperava. Naraku despencou do céu na grama, seu corpo era humano somente da cabeça à cintura, os braços estavam decepados acima do cotovelo e de resto ele era composto por incontáveis pedaços de artrópodes que se remexiam barulhentos. Ele todo era recoberto pelo mesmo muco que fazia seus cabelos negros parecerem lisos, os fios cobriam-lhe o rosto junto com a grama e ele grunhia agoniado.
Mais uma vez, ela não pensou, passou por cima das mágoas e do orgulho e correu até ele. Quando deu por si, Naraku estava amparado sobre suas pernas, a humana dera um jeito de girar-lhe o tronco e dar abrigo à sua cabeça suja de terra, plantas e gosma.
Virado de frente a criatura que ofegava e o olhava de cima a baixo com o pânico transparecido em cada feição, ele deixou escapar um riso breve.
— O que aconteceu com você?! — perguntou aos gritos, histérica, apalpando o rosto do hanyou e afastando os cabelos grudados na moldura empapada.
— Não vai gostar de saber... — embora fraco, não perdera o senso ácido de humor.
— Naraku! — bradou o nome num misto de raiva e apavoramento.
— Mandei Kohaku sequestrar a protegida de Sesshoumaru... — parou, ofegante, estava exausto.
— Por que fez isso, seu idiota?! — continuou no mesmo tom, mas apenas a sua voz era agressiva, seus gestos, em contrapartida, eram de tentar confortá-lo em seu colo, as mãos perpassavam os cabelos dele e um braço o envolvia. Uma lágrima escorreu de um dos olhos, desfazendo parte da pintura que ela insistia em usar no rosto.
— Para atrair Sesshoumaru ao meu castelo e poder absorvê-lo. — fixava-se nos céus atribulados de verão e os viu arregalarem com sua última frase.
— Você... fez o quê?! — dessa vez, a indagação soou como um sussurro e os lábios dela tremelicaram.
— Gosta dele, não é? — prosseguiu, e então grunhiu de dor. O braço dela o enredou ainda mais — Sesshoumaru seria um bom partido para você, já que seu Hitomi se foi.
— Pare de falar asneiras! Você é maluco de se meter com ele, quer acabar morto?! — sabia, pelo estado em que ele se encontrava, que a tentativa em absorver os poderes do Youkai Branco falhara. Apoiou-o em seu outro braço, de modo que o pudesse ter mais próximo de si, e não apenas a cabeça recostasse em suas pernas. Por trás daquele jeito sarcástico, nos olhos dele Annabelle enxergava a frustração e um certo tipo de conformismo que a deixava ainda mais desesperada — É isso o que você quer não é? Que alguém te mate! — disse irritadiça, as lágrimas estreitando a beirada dos olhos.
— Sabe... — sôfrego, remexeu um dos braços amputados mais do que a metade e com certo esforço conseguiu regenerá-lo com o intuito de ter dedos para afagar aquele rosto atarantado. E assim fez, mesmo mal conseguindo controlar o membro – levou a mão ao rosto dela, acarinhou a bochecha gelada de susto e o pó de arroz dissolveu-se em sua palma, bem como os desenhos em azul — até que não seria ruim morrer assim, tendo você como a minha última visão antes de seguir para o submundo. — sorriu, dessa vez tão brando que pareceu quase inocente. Ela menou a cabeça desesperadamente, tremendo dos pés à cabeça e segurou a mão dele em seu rosto, prensando-a contra a bochecha e encharcando-a de lágrimas. — Mas ainda não estou preparado, Annabelle... — concluiu, o riso esmoreceu e cada traço na face dele indicou medo e sofrimento.
Ela imediatamente entendeu a razão de ele estar ali, de ter vindo até ela. Não fora por saudade, ou por não ter aguentado ficar longe. Naraku viera pedir ajuda, estava evidente na forma como a fitava, mas o aracnídeo era orgulhoso demais para dizer. Seu corpo implorava, ou pereceria, ela sabia. Dessa vez a situação fora muito séria, a cada vez que um embate acontecia os inimigos dele se superavam, se fortaleciam e Annabelle tinha certeza de que ele sabia que o fim estava próximo.
Na verdade, o fim poderia ser ali e já, Naraku sofreu para conseguir regenerar um braço, não conseguiria regenerar o resto, estava tão fraco que não conseguia sequer formar uma barreira, Inuyasha seria capaz de sentir o seu cheiro, encontrá-lo e liquidá-lo. Mais uma vez, o destino do hanyou estava nas mãos da descendente das fadas e cabia a ela fazer a escolha que daria paz ao resto do mundo ou ao seu coração. Anna prendeu a respiração, o pranto respingou de seu queixo no peito dele, ela grunhiu e o apertou contra si. Não estava pronta para se despedir dele também. E mesmo sabendo que ele se aproveitava de sua vulnerabilidade para conseguir o que queria, ela uniu a boca a dele e despejou o seu calor dentro dele, apertando-o num abraço, abrigando-o consigo enquanto podia. O outro braço dele também se refez, e em minutos aquela infinidade de partes monstruosas transmutou-se em duas pernas. Assim que o sentiu abraçá-la pela nuca, Annabelle o soltou e Naraku se pôs sentado diante dela. Vendo-o ali, despido e desprovido de qualquer cicatriz – embora ainda fragilizado – finalmente a humana pôs seus demônios para fora: um grito rasgou-lhe a garganta em brasa e ela partiu para cima, enchendo-o de socos e tapas no peito e nos ombros. Conforme esbravejava, o choro caía como uma torrente, tirando-lhe as forças, fazendo-a estremecer por inteiro e soluçar descontrolada. Ele segurou as suas mãos e a puxou para um abraço, premendo o rosto dela em seu peito, onde o coração batia acelerado. Ouvi-lo foi acalmando-a aos poucos, embora as lágrimas persistissem a marcar a face. Enquanto isso, silente, ele afagava os cabelos de fogo e a apertava contra si, com o queixo apoiado ao topo da cabeça flamejante.
— Por que me tortura desse jeito? — ela perguntou lamentosa — Me liberte, por favor... tire esse fragmento de dentro de mim... — suplicou em um sibilo. Ele a prensou ainda mais naquele abraço, e mergulhou o nariz nas ondulações acobreadas, depois o roçou ao pescoço dela aspirando o perfume de rosas, embriagado por ela toda. — Naraku... — ela gemeu e os braços penderam, mãos abertas sobre a grama. Os olhos marejados elevaram-se ao céu, as estrelas cintilavam conforme o miasma se dissipava.
— Eu não posso. — enfim, ele disse. — Não quero deixá-la ir. — disse ao ouvido eriçado, tão baixo e fraco como ele ainda estava. Talvez por isso não conseguisse controlar o impulso de se manifestar, de demonstrar a sua vulnerabilidade, não só do corpo, mas do espírito.
— É tarde, você mesmo me mandou embora. Eu disse a você! — mordeu o lábio inferior, tocou o peito dele com as mãos na tentativa de afastá-lo, apesar de Naraku estar enfraquecido, um empurrão humano e sem muita vontade não seria o suficiente para o repelir. — Você não pode me jogar fora e depois voltar atrás como se nada tivesse acontecido, a sua chance foi desperdiçada!
— Eu realmente tive alguma chance um dia? — questionou sussurrado, conforme desgrudava o nariz do pescoço e do rosto dela, para fitá-la uma vez mais, os rubis fundos e cansados. O tom de voz e o jeito como ele a olhou a desarmou. Annabelle engoliu seco, pois nem mesmo ela saberia o que dizer a ele. A dúvida sobre seus sentimentos serem uma ilusão a aturdia, só saberia responder quando aquele fragmento não estivesse mais dentro de si e sua alma fosse lavada.
Acariciou o rosto dele com leveza, tentando vagamente atenuar a escuridão dentro dele. Naraku fechou os olhos e suspirou.
— Eu sinto tanto a sua falta... — foi tudo o que coube a ela dizer, e com essa afirmação Anna uniu as testas.
— Você é feliz aqui? — perguntou um pouco mais calmo, tocando os ombros encolhidos e os massageando sutilmente.
— Defina felicidade. — fechou os olhos.
— Não acho que eu possa fazê-lo, me desculpe. — sorriu discretamente — Eu não sei se conheço a felicidade. — e com essa, mais uma vez fez o coração dela se apertar.
— Naraku... — outra vez, o nome dele escapou de sua boca e ela se sentiu tentada a beijá-lo. De fato, seus lábios esbarraram nos dele, fazendo-os entreabrirem e tentarem sugá-la. Eis que Annabelle se afastou, e sentada diante dele, olhou para os lados, preocupada — Você ainda não consegue formar uma barreira, não é?
— Demorarei um tempo para readquirir esse poder. — contou enquanto analisava-a. Viu-a resfolgar e desatar o nó da fita do cordão com o pingente de lua. — O que está fazendo? — questionou. Ela segurou a sua mão e depositou o colar lá. — Mas... isso a protege, camufla sua aura! — segurou o objeto e mirou-a confuso.
— Esse pingente o ajudará a camuflar o seu cheiro enquanto você se recupera totalmente, é tudo o que me proponho a fazer por você. — depois de inspirar e expirar profundamente, tomou coragem e disse.
— E você? A sua aura atrairá youkais de todos os lados, eles tentarão consumir você!
— Posso lidar com isso, tenho o fragmento que você me deu e esse lugar é protegido pela energia pura de um monte sagrado. — contou e pôs as mãos sobre a dele, fechando seus dedos sobre o objeto. — Nesse momento, você precisa disso mais do que eu. Quando estiver recomposto, sinta-se à vontade para me devolver. — assim, ela se levantou e espalmou as palmas em seu traje meio ocidental, meio oriental, limpando-o da grama. Notando-o ainda apático e na mesma posição, estendeu a mão a ele e Naraku aceitou o gesto.
Ereto à frente da humana, encarava-a atônito com suas ações altruístas. Viu-a pegar o cordão de sua mão, aproximar-se um pouco mais e tomar a iniciativa de colocá-lo ao redor do pescoço dele. Delicada e perigosamente perto, Annabelle deu o nó na fita com calma. Naraku sentia a sua respiração quente afagar-lhe o rosto, o desejo dela exalava no cheiro, o fragmento no peito chegou a deixá-la tonta de vontade, todavia a escocesa se manteve firme. Assim que terminou de dar o laço no cordão, suas mãos escorregaram pelos ombros e pelo peito dele, e em segundos se recolheram.
— Obrigado. — o meio-youkai agradeceu mais uma vez, em baixo e aveludado tom.
— Você deve ir agora, antes que eles te encontrem. — mirando a grama para não ter que olhá-lo e com as mãos firmemente fechadas sobre a saia, decretou.
Calado, Naraku afastou os cabelos arrepiados que cobriam os olhos dela, segurou-lhe as maçãs e a induziu a olhá-lo outra vez. A rigidez nas articulações de Anna não o intimidou ou impediu de afagar as bochechas rosadas e os fios avermelhados.
— Por favor... — a voz soou entrecortada, quase entregue, ao passo de que os olhos dela se fecharam e as mãos dantes fechadas abriram-se. Annabelle sentiu a maciez da boca dele sobre a dela, primeiro como um afago sutil, depois sentiu o calor molhado da língua a contornar-lhe os lábios e abri-los sem esforço para explorar o interior da cavidade. Ela não correspondeu, nem rejeitou. Ficou ali, como uma boneca, a se permitir ser degustada, buscando naqueles instantes crer que o tempo parara e só os dois existiam. Então, com a chegada de um vento frio aquelas sensações cessaram. A estrangeira abriu os olhos e estava sozinha no bosque, Naraku partira do mesmo modo que aparecera – como se fosse uma miragem.
Não tão distante dali, envolto pela energia branca abençoada por ela, ele flutuava confuso, sem conseguir compreender a ela ou a si mesmo.
"Maldição, Annabelle! Por que você tem que ser assim?" — rememorava o afeto nos olhos dela, mesmo depois de tudo o que ele fez. Foi até ela na esperança de que ela o salvasse, e após ser salvo odiava-se por ter obtido êxito. — "Seria tão mais fácil se você me odiasse, como todos eles... Por que não me odeia, mulher?" — parou diante do robusto monte, os olhos fixaram-se na tênue barreira ao redor da enorme elevação. A lua em seu pescoço tremeluziu furta-cor e ele soube que aquela peça o protegia da energia purificadora. Naraku estreitou os olhos cansados, o coração atordoado, no entanto, não se acalmava. O hanyou pôs a mão sobre o peito e o apertou, desejando em seu íntimo arrancar aquele órgão palpitante e jogá-lo longe. — "Eu queria poder ficar ao seu lado, Annabelle Rose" — O fato de não tê-la procurado por tanto tempo só fez dele mais amargo e miserável.
Esqueça essa ideia, você precisa se livrar disso! — as vozes, sempre as vozes.
"Como posso me esquecer, quando sei que ela quer ficar comigo também?"
Ela não quer, isso é uma ilusão, uma mentira que você mesmo criou e que se tornou tão convincente a ponto de ela mesma acreditar nessa sandice. Mas ela não o ama, ela tem pena de você!
"Se Annabelle não sente nada por mim, então por que sentiu a minha falta?" — dessa vez o araneídeo pareceu mais firme em suas ideias e esperanças. — "Ela se importa comigo..."
Esqueceu-se de que estar ao seu lado é uma sentença de morte? — insistiram.
"Eu posso pensar em uma forma de fugirmos, irmos para longe de tudo isso e vivermos juntos, em paz..."
Até ela envelhecer e perecer? A garota é humana, não seja tolo!
Os olhos escarlates arregalaram-se, Naraku abriu a boca, mas nenhum som escapou. O corpo inteiro gelou como ele tivesse se tornado pedra.
Não importa qual seja a sua escolha, você a perderá de qualquer jeito, seja para outro ou para o tempo. Esses sentimentos não servem de nada, se você os alimentar, quando menos esperar será consumido de dentro para fora e tudo o que restará de você será essa miséria que sente agora.
A mão que apertava o peito o arranhou, o cenho dele franziu, bem como os lábios se espremeram. As pálpebras se fecharam firmes e quando se abriram, um relance de tristeza se mostrava perdido em meio a um oceano de rancor. Como pudera ser tão ridículo a ponto de cogitar largar mão de tudo outra vez para viver um romance passageiro com uma garota humana? — perguntava-se, perdido entre a dor, o orgulho e a ambição por poder. Como poderia ainda desejar esse destino, mesmo conhecendo o final trágico que teria?
Você precisa da Joia, de qualquer forma Naraku, seja para se tornar um youkai completo ou para pedir a imortalidade para a sua humana...
"Eu, Naraku, desejaria à Joia juventude eterna para Annabelle?" — desdenhou de si mesmo. Mais do que querer que ela vivesse para sempre para que ele não tivesse que lidar com a dor da perda, o hanyou ansiava por se ver livre do elo que o mantinha preso à sua condição humana.
Vidrado no monte, Naraku teve uma ideia. Seus passos encaminharam-no ao que ele considerava um potencial esconderijo. Cada movimento seu foi regido pela ode daquelas vozes ao ódio e ao desespero.
Ailyn lia um livro, sentada na poltrona do casebre empoeirado, escondido dentro do tronco de uma árvore. Acomodada, fazia tempo que não se esforçava para coletar fragmentos da joia, nem se dava o trabalho de pensar num modo de ir embora, seguir caminho para qualquer canto do mundo, porque não importava onde ela estivesse, aquela sensação de vazio, de necessidade, não passava. Nada estava bom o suficiente para ela, a Rosa Vermelha queria sempre mais do que tinha, entretanto, sempre que ia em busca de algo, acabava como um cão correndo ao redor do próprio rabo e nunca atingia a meta.
O embate contra a irmã que terminou na salvação de sua vida a fizera reconsiderar muitas coisas, e não ver o sentido em mais nada. Havia uma mágoa que não desagarrava seu coração, uma desconfiança exacerbada nas pessoas e no modo como o mundo funcionava, e por fim o medo de morrer e ser engolida pelo juramento que fez apenas para se sentir especial e poderosa.
Bufou, tentando não levar a própria situação muito a sério. Então, a porta de sua morada foi empurrada com força e ela reconheceu a sombra à entrada antes mesmo de o sujeito entrar. Seu corpo estancou quase reto sobre o assento e ela perdeu a cor.
— Como me encontrou aqui?! — questionou.
— Eu sempre soube onde você estava. — o babuíno branco entrou sem cerimônias, e analisou o lugar — Que espelunca! — disse aos risos.
— Como assim sempre soube onde eu estava?! — levantou-se e esbarrou na estante à parede amadeirada.
— Você tem algo que me pertence. — apontou a testa dela, onde um caco de joia se cravara há tempos. — Enquanto esse fragmento estiver com você, saberei onde você está.
Um espírito o agarrou por trás – era uma daquelas almas materializadas em névoa esverdeada, evocadas por ela.
— Oh, por favor, Ailyn Rose... você deve saber que esse não é meu verdadeiro corpo. Não perca o seu tempo. — não fez menção em se soltar do abraço mortal. O sorriso perverso se mostrava lustroso por baixo da máscara de primata, e ela se lembrava muito bem daquela expressão macabra.
— Se sabia onde eu estava, por que não me procurou antes? Poderia ter vindo aqui e me matado! — raciocinou.
— Para que a pressa? Esperei até encontrar uma utilidade para você. — explicou em ares de naturalidade.
— Utilidade?! — Ailyn riu desacreditada — Está completamente louco se pensa que moverei um dedo para fazer qualquer coisa por você!
— Infelizmente, você não tem muita escolha, querida Ailyn. — os braços por baixo da manta esbranquiçada tornaram-se tentáculos e estes esgueiraram a mulher dos cachos dourados. Ela os estapeou, no entanto, quando menos esperava, seus braços e pernas foram capturados pelas ramificações escuras e ela gritou, se debateu, porém nada o fez desapertar as amarras. — Você pode trabalhar para mim, ou morrer aqui mesmo, engolida pelo meu miasma. O que você prefere?
Depois de um grunhido enraivecido, ela parou de se sacudir e respirou fundo.
— Ande, fale logo o que quer! — vencida, amoleceu o corpo, mas não o interior em fúria. Annabelle tinha razão sobre Naraku, ela deveria ter ouvido a irmã – constatou.
— Você sempre invejou as habilidades de sua irmã. — viu-a ranger os dentes e divertiu-se — Eu, Naraku, ofereço-lhe uma chance de exercer o mesmo dom de Annabelle Rose.
— Do que está falando?!
— Trazer os mortos de volta à vida.
— Eu não tenho esse poder.
— Ah, minha cara, mas a joia tem. — aproximou-se, os tentáculos tornaram a ser braços. A marionete do hanyou tocou o fragmento na testa dela com o dedo indicador. — E você, uma bruxa que manipula as forças do além, é a pessoa mais indicada a me auxiliar nessa empreitada.
— Q-que empreitada?! — dura como uma pedra, gaguejou ao perguntar.
— Ouvi falar de um grupo de sete mercenários que foram decapitados há muitos, muitos anos... Sabe, ultimamente tenho feito mais inimigos do que esperava fazer, então acredito que precisarei de alguns reforços e você, Ailyn, irá trazê-los de volta à vida para mim.
O oxigênio parou no meio da garganta e tudo o que existia ao redor girou. Ela sabia que experienciava um ataque de pânico e se desesperou por não conseguir disfarçar. A risada do babuíno ecoou pela saleta, enlouquecendo-a de medo e raiva. Que escolha ela teria? Teve de engolir o gênio e a arrogância, suprimir o turbilhão de raiva e a vontade de gritar para concordar com a tal "empreitada".
— Siga-me. — seco, ele ordenou e começou a caminhar à frente dela. Ailyn foi logo atrás.
"Se há algo de bom a se tirar disso, é que finalmente poderei sair dessa alcova" — revirou os olhos, cobriu-se com uma mortalha escura e deu início a jornada.
Continua...
Gostaram da minha versão de como o Naraku foi parar no Monte Hakurei? YEY!
Pessoal, o capítulo ficou enorme, e o outro vai pelo mesmo rumo, mas posso dizer que está bastante emocionante também, e dessa vez com um certo destaque à nossa (não tão) querida Ailyn!
Vejo vocês em breve!
Kissuuuus!
