Olá, pessoal! Demorei, mas estou de volta!
Vocês repararam na capa da fanfic? Depois de quase dois anos, resolvi sentar para desenhar e deu nisso daí. O flash da camêra do meu celular fez Annabelle sair meio loira, Naraku e Hitomi estão parecendo duas moças, mas pelo menos a arte da fanfic agora é minha de fato. Hehehehehe
Espero que gostem do capítulo, fortes emoções nele!
Boa leitura.


Capítulo 35 - Desabrochar

De longe, a irmã de Annabelle viu Bankotsu se aproximar de um barranco, ali o esperava um menino em trajes de exterminador de youkai que ele chamou de "ninja". Conversaram por alguns instantes, o líder do Exército dos Sete meneou a cabeça algumas vezes, outras suspirou profundamente, até que a interação se findou e o garoto se preparou para partir, eis que encarou a árvore onde Ailyn se apoiava e arregalou os olhos espontaneamente.

— Senhorita Anaberu? — sussurrou espantado — Não... não é ela.

Bankotsu o observou sem comentários ou perguntas, Kohaku ruborizou e fingiu que nada tinha acontecido. Partiu sem dar qualquer satisfação sobre seu comportamento estranho.

— Então, o que ele tinha a dizer? — Ailyn, enfim, afastou-se da árvore e caminhou sobre a relva alta até estar próxima de seu "amigo" de jornada.

— Notícias sobre meus irmãos, e também sobre o paradeiro do meu companheiro. — ele fechou os olhos e balançou levemente os ombros, embora o gesto o fizesse parecer despreocupado, um tênue risco na testa denunciava que sua indiferença era falsa.

— Seus... irmãos estão bem? — a escocesa perguntou mais para tentar puxar assunto do que por se importar realmente.

— Dois deles falharam e voltaram ao mundo dos mortos. — contou sem rodeios e deu as costas a ela — Bom, chega de enrolar, o caminho é para lá. — apontou a direção além do barranco.

A jovem dos cabelos alourados estreitou os olhos, analisando-o. Um riso baixo e curto escapou de sua garganta, Bankotsu a mirou por cima do ombro.

— O que é? — ele perguntou um tanto confuso.

— Nada não. — Ailyn reproduziu o mesmo gesto dele de outrora, sacudiu os ombros displicentemente e começou a andar na direção em que ele apontou. — "Somos mais parecidos do que imaginamos" — pensou, justificando para si a razão da risada furtiva.

Para ela, Bankotsu estava obviamente chateado pela perda dos entes queridos, mas fingia-se de indiferente para não demonstrar fraqueza, coisa que ela mesma tinha o costume de fazer. E, depois de uma noite de troca de testemunhos em que ele dormiu bastante e ela esteve insone a pensar sobre os eventos mais recentes, houve tempo para fazer algumas comparações. Ambos eram humanos, ambos não nasceram com um dom diferenciado, ou uma magia interior e lutavam para serem fortes e diferentes do resto, sem se importarem com os caminhos que deveriam escolher para tal. Um suspiro de admiração fugiu-lhe enquanto ela se apoiava nas pedras cuidadosamente para não escorregar. Bankotsu já estava bem à frente e a esperava, aparentemente impaciente. — "Por que estou gastando tanto tempo pensando nisso?" — e o humor mudou de dócil a azedo outra vez, enquanto Ailyn o via apressá-la num mover de mãos que a chamava. Primeiro um suspiro admirado, depois outro aborrecido, e ela se valeu dos poderes adquiridos: um círculo se formou à frente dela, a ocidental pulou dentro dele, depois outro círculo surgiu pelas costas do mercenário e lá ela se materializou.

— Ei, podemos usar essa sua habilidade para buscar o meu companheiro! — Bankotsu piscou os olhos esbugalhados vezes seguidas, e um sorriso maroto enfeitou-lhe a face.

— Você sabe exatamente onde ele está? — perguntou a revirar os olhos e bater um pé na terra.

— Tenho algumas coordenadas do castelo. — coçou o queixo.

— Digamos que se você soubesse exatamente onde seu amiguinho está, eu até poderia levá-lo lá. — enfim, ela sorriu também, porém não era um sorriso solidário, tampouco natural. — Mas o que eu ganharia em troca? — de braços cruzados e num andar elegante, ela o rodeou. Bankotsu riu e pousou as mãos sobre a cintura.

— O que é isso, uma barganha? — acompanhou-a com o olhar. — O que você quer, mulher?

— Hmm... — Ailyn tocou um lado do rosto com a mão, apoiando-se nela, o cotovelo jazia sobre a outra. Parou de dar voltas e ficou de frente para ele, e fazendo-se de pensativa, acabou se perdendo nos detalhes do peitoral da armadura por alguns instantes, depois na singela fita vermelha que o prendia à grande ombreira – aquela armadura deveria ter quase o peso do homem – reparou, e seus olhos subiram ao pescoço do sujeito, presos no pomo de Adão protuberante, e também no que tinha por trás. Os dedos que seguravam a própria bochecha abandonaram a pele leitosa para aproximarem-se daquela garganta amorenada, e quente – sentiu-a quando roçou as pontas num afago tão sutil quanto a brisa da tarde.

Pois a mão firme do guerreiro conteve a dela, e a afastou de si. Embora Bankotsu fosse pouca coisa mais baixo do que Ailyn, sua mão era bem maior do que a dela. Em um movimento, os dedos fortes cobriram os feminis por completo e os esquentaram.

— Oh! — ela entreabriu os lábios e os globos cerúleos expandiram-se, abandonando o pescoço do morto-vivo para encontrar seus olhos escuros e diretos, sem filtro algum.

— Você quer os fragmentos da joia? — Ele não sorria, nem piscava, todavia o tom de voz despretensioso dele quase a fez acreditar que se ela dissesse que sim, ele os ofereceria. No entanto, Ailyn paralisou e não conseguiu falar palavra alguma, Sua mão transpirou dentro da dele. Bankotsu a puxou ainda mais para perto, apertando-lhe o pulso e quando ele se pronunciou pela segunda vez, a forasteira pôde sentir seu hálito morno — Hein, é isso o que você quer? — Ainda a olhava na mesma intensidade, como se pudesse queimá-la por dentro.

— Me solte... — quis ser ríspida, mas a exigência soou sussurrada. Enfim seus olhos fugiram dos dele, e com a outra mão ela tentou abrir os dedos dele para livrar-se do toque.

— Então me responde, quer os fragmentos? — Bankotsu sequer forçou os dedos para que continuassem fechados, e ela ainda assim não conseguiu se libertar ou se afastar dele. — Se quer tanto, por que ainda não tentou tirar de mim enquanto eu dormia? — Ailyn abandonou a mão dele e começou a empurrá-lo, forçou a palma livre contra a sua armadura robusta. Ela grunhia enraivecida, porém fraca. — Naraku tá de olho em você, não é? Por isso que tá comportada. — tirou a conclusão e prensou ainda mais o pulso dela entre os dedos, fazendo-a sentir a mão adormecer. — Mas por que ele te poupa se você apronta tanto hã? — foi dando passos para frente, forçando-a a andar junto, encurralando-a.

— Não é da sua conta! — já que a armadura dele atrapalhava tanto, ela o segurou pela gola e tentou sacudi-lo, o homem era uma fortaleza, nem balançou. Ailyn sentiu as costas atritarem-se no tronco de uma árvore e gemeu dolorida, fazendo-o rir uma vez mais.

— Por acaso você é a vadia dele? — risonho, perguntou em tom mais baixo. Uma de suas sobrancelhas levantava-se, acusando a malícia na pergunta. Dessa vez, era ele quem a analisava. A raiva ferveu dentro de Ailyn e os dentes dela rangeram.

— Como ousa?! — o torpor de minutos atrás passou, e com o retorno da razão veio a bruma que a protegia, arrastando-se primeiro pelo chão para depois se elevar e enrolar as pernas de Bankotsu, prendendo-o no chão. Se isso o assustou? Pelo contrário. O rapaz se aproximou ainda mais e a segurou pela nuca, laçando os cachos dourados entre os dedos e obrigando-a a olhá-lo nos olhos sem escapatória.

— Se eu perceber que você tá tentando me passar para trás, eu juro que te mato. — Decretou, a ponta do nariz roçava-se à dela, mas o tom era grave e o negrume no olhar mais ainda — Entendeu? — apertou ainda mais o enlace nos cabelos, fazendo-a sentir uma ardência na nuca. A mão que continha a dela a soltou de súbito para espalmar-se no tronco escuro da árvore, o braço rente à cintura de Ailyn e os dela, já retos nem se mexiam. Mesmo assustada, mirava-o sem piscar e sua névoa já o enredava pelas articulações dos joelhos e das axilas.

— E que garantia tem de que não vou matá-lo primeiro? — rosnou bem baixinho, provando a ele e a si que não seria subjugada. Inclinou o rosto para frente, quase tocando os lábios aos dele. Se não fosse pela sua respiração ofegante a entregar o nervosismo, talvez ele tivesse se sentido intimidado, ainda assim, mais uma vez os atos dela serviam apenas de incentivo para a diversão dele.

— Tenta... — Bankotsu, instigado pela provocação, roçou a boca na dela, aproveitando-se da proximidade, e quando ia lhe mordiscar o lábio inferior, tentado a transformar o clima de tensão em algo muito mais picante, sentiu o corpo ser tragado para trás e por pouco não caiu sentado já distante da moça. Seus pés enterraram-se na terra para que pudesse se manter ereto, apenas um pouco curvo para frente. Foi aquela fumaça mística, constatou, que o puxou para longe na forma de quatro braços em torno de seu corpo. Ailyn, descabelada, ainda encostada na árvore, ofegava com o peito a descer e subir freneticamente. O dorso de uma mão esfregava a boca e ela toda suava.

Aos poucos, a bruma desapareceu como uma miragem e o líder dos mercenários limpou a roupa, depois alongou os braços. Por último, a fitou outra vez e se sentiu triunfante diante da vermelhidão na face dela, e da raiva frustrada nos olhos.

— Vê se anda na linha garota, tô te avisando. — e deu as costas para ela, tornando a peregrinar na direção apontada por Kohaku, sem contar com a habilidade de criar portais da jovem justamente por não querer se ver numa posição favorável à qualquer chantagem. Era ele quem ditava regras ali, e que ela ficasse ciente.

Ailyn desencostou as costas da árvore e apontou a mão para ele, as intenções perversas transbordavam de seu olhar e de seus dentes a mordiscar os próprios lábios. Eis que um zunido estridente em seu ouvido a tirou da posição. Um daqueles malditos insetos surgiu ao seu lado como prova de que Naraku observava tudo e que ela teria mesmo que andar na linha, como Bankotsu sugeriu. Irada, fechou as mãos e acelerou o passo.

— A vadia de Naraku é minha irmã, não eu. Pensei que tivesse prestado atenção na história que contei, seu idiota! — sibilou quase fora de si, e andou na frente sem sequer se dar o trabalho de olhá-lo, apenas ouviu o riso diante do comentário infantil e rancoroso.

Numa noite deram-se tão bem, agora ela queria engasgá-lo outra vez, a raiva era tremenda que parecia escapar de seu corpo e exalar como uma aura negra. Raiva sim, não só dele contudo. Ailyn estava furiosa consigo mesma, pela excitação que sentiu quando esteve sob o domínio dele. A proximidade entre ambos provocou tamanha palpitação entre suas pernas que a deixou desorientada. Sentiu vontade de devorá-lo por inteiro, ímpetos avassaladores tiveram de ser contidos ou ela não responderia por si. Não sabia o que era mais forte, a raiva ou o desejo por aquele moleque baixinho. Ah, por favor, ela merecia coisa melhor! — pensava.


Passaram dois dias caminhando sem descanso, Ailyn se perguntava se Bankotsu seguia esse ritmo simplesmente para castigá-la.

— Anda, molenga! — ele dizia à frente, sempre risonho e ela, evidentemente exausta, a apoiar-se em árvores, continha inúmeras praguejadas em pensamentos, orgulhosa demais para admitir que estava cansada.

Só que Ailyn, apesar de manipular as artes do submundo, era humana antes de tudo e exercício físico nunca fora uma prática em sua vida. Em dado momento, suas pernas ficaram tão exauridas que ela tombou na terra. Bankotsu parou ao ouvir o ruído de galhos se quebrando, girou-se e a viu caída. Quieto, se aproximou, ajoelhou diante dela e ergueu uma mão. Ela a estapeou e tentou se levantar sozinha, mas se desequilibrou novamente. A brancura nos lábios sugeria que ela estava desidratada. O rapaz meneou a cabeça negativamente e, como se o corpo dela fosse uma pluma, pegou-o e o atirou sobre o ombro.

— O que está fazendo? — Ailyn estapeou as costas dele e chacoalhou as pernas.

— Se for esperar por você, passaremos o dia inteiro aqui. Então vou te carregar! — de olhos fechados e um sorriso brilhante nos lábios, Bankotsu se colocou de pé e a carregou como se fosse um leitão abatido. Os protestos da escocesa não duraram muito, diante de seu cansaço. Não muito depois o rapazote a ouviu respirar pesadamente e percebeu que a moça dormia, já era fim de tarde e ele próprio não descansava há duas noites – por simples e pura desconfiança. Mas, ao recostá-la sobre a raiz alta de um salgueiro e tirar os fios dourados que cobriam o rosto, contemplou um semblante tão sereno que não se sentiu mais ameaçado. Sorriu e amoleceu os ombros, sentado de frente para ela.

— Nem parece uma besta selvagem e histérica enquanto dorme... — comentou para si, vislumbrando-a resmungar durante o sono e virar o corpo de lado, acomodando-se.


Ailyn acordou no meio da madrugada. Estranhou a manta enrolada em seu corpo, pois sabia que aquele pedaço de pano não existia até antes de cair no sono.

— Um monge andarilho passou por aqui. — ouviu a explicação, Bankotsu estava recostado do outro lado da árvore, a cabeça apoiava-se nos braços. Ele disse de olhos fechados, o sono dele era leve a ponto de ouvir o movimento sutil do corpo dela sobre a grama.

— E você roubou isso dele, claro. — comentou desdenhosa, apesar de a coberta a proteger do frio.

— Um agradecimento viria a calhar, você tava tremendo. — respondeu-a em tom semelhante.

— Agora você se preocupa com o meu bem-estar? — prosseguiu sendo desagradável, encolhendo-se dentro da manta e espremendo os olhos, nitidamente fazendo birra.

— Se você ficar doente, vai me dar trabalho. — debochou, e conteve a risada ao ouvir um murmúrio de desagrado vindo da raiz ao lado.

"Por que raios eu vim parar nesse fim de mundo, e agora tenho que cooperar com um sujeitinho tão primitivo?" — com a pele fria, mas o espírito febril, Ailyn virou-se para um lado e depois para outro, tamanho era o incômodo dentro dela. E, para piorar a sua situação, a sonolência se fora e a mente hiperativa a fazia pensar em coisas que não queria, e lembrar-se do constrangimento que o mercenário lhe causara. Os pensamentos foram se resumindo na imagem da boca dele, unicamente, e então a irmã de Annabelle perdeu a paz de vez, se levantou e andou em círculos.

— Eu quero dormir, mas assim tá difícil. — Bankotsu reclamou, ela fez o possível para ignorar e mediu o peso nas pisadas, ainda assim o rapaz estava incomodado — Eu vou ter que te amarrar? — irritado, desencostou-se da árvore e inclinou a cabeça para olhá-la — Mas que pé no saco!

— Eu vou dar uma volta! — exclamou com os ânimos incandescentes e foi-se.

— Tá, faz o que quiser! — ouviu-o dizer ao longe.

Conforme se afastava, alimentando a ideia de simplesmente ir embora, ouviu o zunido outra vez. Três insetos venenosos a seguiam.

— O que vocês querem, pestes? — ralhou — Será que eu não posso nem tomar um ar?!

Os youkais seguiram-na mesmo com todas as possíveis reclamações.

— Mas que inferno! — gritou, sem temer acordar qualquer fera naquela floresta sombria. Chutou pedrinhas pelo caminho, arrancou gravetos de árvores e voltou ao local onde Bankotsu dormia, já que Naraku a obrigava a fazê-lo, mesmo sem estar presente.

Ailyn ficou sentada sobre a grama, de braços cruzados, até o sol emitir seus primeiros raios e o saqueador de outra época despertar revigorado.

— Preciso de papel, tinta, e um pincel! — esse foi o jeito dele de dar bom-dia.

A ocidental revirou os olhos e se levantou completamente desinteressada. Em mais ou menos uma hora a dupla encontrou o monge de quem Bankotsu roubara a manta – caído morto entre alguns arbustos, a sacola do sujeito já tinha sido explorada, provavelmente pelo companheiro dela de jornada, e, sem cerimônias, Bankotsu meteu a mão ali dentro, revirou os pergaminhos e enfim riu satisfeito, anunciando:

— Eu sabia que encontraria aqui! — e puxou alguns papeis enrolados, tinta preta e um pincel.

— Resolveu virar artista? — ela escarneceu, mirando-o a certa distância.

Bankotsu ignorou a gracinha da moça e guardou os materiais consigo.

— Vem, estamos perto! — puxou-a pelo braço, completamente descuidado.

Ailyn reclamou, e não reclamou pouco, mas seu corpo foi arrastado até o limite da montanha, e do outro lado do precipício dava para ver um imponente castelo. Finalmente, o guerreiro a soltou e sentou-se sobre o gramado verdoengo e começou a meditar sobre qualquer coisa que ela não conseguia entender. Ele sorria do nada, como se a musa da inspiração o visitasse, então ele escrevia um ideograma no papel, analisava-o, a alegria se transformava em irritação e ele amassava a folha como uma criança chateada.

"Defunto doido!" — com o estranhamento estampado em todas as feições, ainda de pé ela o olhava a entortar os lábios.

— Lavem bem os seus rostos... — o rapaz disse consigo mesmo — Não, não está bom. — amassou o papel e jogou fora, escreveu outra coisa que continuou a não apetecer seu julgamento — Não, não e não! — e jogou mais uma porção de folhas para trás. Ailyn riu, e logo parou ao receber um olhar enraivecido.

Em alguns instantes, o menino do outro dia surgiu diante de Bankotsu novamente, anunciando o retorno dos irmãos dele. Então, um som alto e metálico reverberou e o ser metade máquina reluziu nos olhos da estrangeira. Antes, quando os conheceu, um dos homens do bando improvisara uma plataforma quase em formato de carroça para que todos pudessem ir de carona naquela "coisa", mas agora, além de ele ter meios de se locomover – que pareciam patas de aço – dois canhões adornavam suas costas. Mais bizarro impossível, ao menos para a imaginação dela. Quaisquer que fossem suas opiniões sobre o assunto, porém, Ailyn manteve-as guardadas para si e decidiu por só observar a interação entre os companheiros de guerras e saques. Ouviu-os comentar sobre os acontecimentos e as derrotas decentes, depois contemplou Renkotsu – que a olhava de um modo detestável vez ou outra – escrever para Bankotsu a frase considerada por ele genial, mas para ela sem sentido. Lavem seus pescoços? Que porcaria era aquela? Ela não conseguiu evitar revirar os olhos. Se não era Renkotsu, era Jakotsu a encará-la com ímpetos assassinos, e a implicância começaria, se não fosse Bankotsu a anunciar o ataque ao castelo.

Ela iria de expectadora a essa empreitada, e só. Disse em alto e bom som que não os ajudaria, porque não era trabalho dela resgatar um oitavo integrante. Os homens riram, deixando claro que qualquer esforço da parte dela não seria necessário.

"Melhor assim" — ela pensou, vendo Bankotsu se separar de Renkotsu, Ginkotsu, Suikotsu e Jakotsu. A princípio, ela não entrou na propriedade, ouviu de longe os sons da batalha e das vidas tiradas sem custo, viu fumaça se espalhar do chão ao céu, e somente quando a quietude se instalou, Ailyn chegou no pátio arrasado através de um de seus portais. Com exceção de Bankotsu, os homens fitaram-na surpresos com a habilidade. A vaidade reinou até ela ouvir o líder do bando reclamar por seu irmão afeminado não ter deixado uma mulher viva para servi-lhes saquê.

"Sério isso?!" — o sangue borbulhou nas veias a ponto de a face rosar, Ailyn bateu os pés conforme caminhou, passou entre Bankotsu e Jakotsu forçando-os a afastarem-se e se enfurnou dentro de um cômodo de madeira logo atrás deles.

— O que deu nela? — o rapaz de voz aguda perguntou de olhos arregalados.

— E eu que sei? — Bankotsu deu de ombros.

Encostada à parede, Ailyn perguntava-se o mesmo. O humor dela nunca fora dos melhores, mas irritar-se por tão pouco?

Passou os dedos pelo rosto, jogou a franja enrolada para trás e respirou fundo, buscando calma. O que quer que fosse aquela penúria, tinha certeza de que seria passageira, teria que aguentar o tempo que durasse.

"Não é pior do que viver dentro de uma árvore" — convencia-se.

A voz de Renkotsu, enfim, chamou-lhe a atenção novamente. Ele perguntava a Bankotsu se realmente poderiam confiar em Naraku. O coração de Ailyn acelerou, ela nunca dera bola para aquele sujeito, mas a indagação dele acendeu uma esperança esquisita nela. Ela, de fato, por mais que quisesse falar tudo o que sabia sobre o hanyou, não podia dar um pio ou sua vida estaria em risco. Mas, se um dos amigos de Bankotsu o fizesse pensar sobre o assunto e o convencesse de se desvincular do vilão, ela poderia unir forças com o rapaz e...

"Espera, no que estou pensando?" — sacudiu a cabeça, e logo viu que tinha razão em não dar valor àquelas ideias loucas, pois o próprio Bankotsu se mostrou deveras desinteressado em saber mais sobre o Naraku. O sujeito era simplista, estava ali para fazer o seu trabalho e aproveitar a vida.

Qualquer conversa que poderia surgir de teorias conspiratórias cessou com o som de uma forte ventania, um pequeno tornado. Olhando através da fresta, Ailyn notou a presença de um youkai moreno, cabelos presos em um rabo de cavalo alto, e seus olhos vidraram-se nele tão logo ouviu os indivíduos discutirem e acusarem-no de carregar fragmentos da Joia de Quatro Almas nas pernas.

Assistiu admirada Bankotsu erguer a alabarda – que ela descobriu ser o tal companheiro dele – e a arma deveria ter o dobro de seu peso. Como os movimentos dele eram graciosos, e rápidos... – devaneou, a mão encostada ao batente da porta, apenas um de seus olhos a mostra. E um olho azul arredondado foi o suficiente para chamar a atenção do youkai lobo.

— Você... ei, eu te conheço! — claramente, ele se referia a ela, apesar de a jovenzinha ter certeza de nunca ter cruzado com ele antes. A distração teria custado caro ao lupino se Inuyasha não tivesse chegado a tempo e tomado seu lugar na luta contra Bankotsu. As lâminas da Tessaiga e de Banryu se atritaram provocando faíscas, e quando Ailyn percebeu, aquele castelo dizimado já era um lugar superpovoado por inimigos de Naraku. Os amigos do meio-youkai cachorro chegaram e confrontaram os companheiros de Bankotsu. Não só Kouga – o lobo – a reparou lá, mas também Kagome que sentiu a presença de seu fragmento. A sorte da escocesa foi o foco de Renkotsu cair sobre a menina, não permitindo que ela arranjasse tempo para denunciá-la.

Tudo parecia estar sob controle, por isso ela se manteve quieta e bem escondida, inibindo o seu cheiro com magia, e também a sua aura. As palavras em gaélico eram entoadas apenas em pensamentos, e ela se concentrava, de olhos fechados, para manter-se invisível aos olhos dos oponentes.

Então, um clarão despertou-lhe a atenção, aproximava-se de seu esconderijo. Viu Bankotsu, a se proteger atrás de Banryu, se jogar lá dentro e pular sobre seu corpo, agarrando-a contra si.

— Droga, não vai dar tempo! — ele exclamou alucinado e fechou os olhos com força. Ailyn compreendeu o que ele quis dizer quando viu a luminosidade dourada adentrar impiedosa e o telhado começar a ruir, então ela segurou Bankotsu consigo, um círculo se formou abaixo dos dois e eles caíram dentro dele.

— Ele já era! — Inuyasha anunciou confiante, ainda a empunhar a sua espada contornada por vendaval — Um humano não poderia sobreviver à minha Ferida do Vento!

— Eu não teria tanta certeza, cara de cachorro! — Kouga apontou um círculo a surgir ao alto. De dentro daquele portal todos viram dois corpos caírem e rolarem pelo chão, um homem e uma mulher ainda atordoados. Por último, caiu a grande alabarda fincada ao solo arenoso.

— Você!? — Inuyasha referiu-se à Ailyn.

— É a irmã da Anna! — Sango exclamou.

— Ela ainda tem o fragmento na testa! — Kagome denunciou — Ei, por que você está lutando pelo Naraku? Ele quase fez a sua irmã te matar!

— Isso não é da conta de vocês! — Ela respondeu duramente, enquanto Bankotsu a ajudava a levantar.

Não eram só os olhares dos amigos de Annabelle que recaíam sobre ela, mas também os de Renkotsu e Jakotsu. Bankotsu, por sua vez, era o único que não parecia julgá-la, mesmo que a fitasse incessantemente.

Uma voz terrivelmente conhecida por Ailyn ecoou por todos os cantos, e inesperadamente o ser em traje de Babuíno Branco surgiu – e dessa vez ele tinha cheiro de flores.

— Naraku... — ela empalideceu e segurou-se no braço de Bankotsu, apavorada.

As coordenadas foram sucintas: eles deveriam recuar. Não era bem isso o que o líder do Exército dos Sete queria, e ele tornou a apontar a alabarda para Inuyasha, insistindo em lutar, mas o comando de Naraku – ou melhor – da marionete de Naraku foi mantido, e o grupo de homens, com o respaldo de Ailyn, percebeu que bater em retirada seria a melhor opção no momento, ou acabariam sendo derrotados ali mesmo.

Subiram no lombo metálico de Ginkotsu e partiram em busca de sobrevivência, as questões eram muitas, e transbordavam dos olhos dos companheiros de Bankotsu a encararem a mulher de feições únicas. A Rosa Vermelha, constrangida, olhava para o céu para não ter que lidar com ninguém.


— Irmão, por que não pegamos o fragmento daquela mulher? — Já de noite, enquanto eles montavam acampamento, Jakotsu enchia os ouvidos do parceiro de perguntas.

— Quantas vezes eu vou ter que falar que ela tá com a gente? — impaciente, respondeu sem mirá-lo.

— Chefe, eu estou com Jakotsu, — Renkosu comentou — deveríamos pegar o fragmento dela para o senhor, e também estou preocupado com uma coisa... Por que ela é aliada do tal Naraku se ele já atentou contra a vida dela? Pior, fez a própria irmã tentar matá-la? Ainda não estou convencido de que esse Naraku seja de confiança...

— Cadê a mulher? — Suikotsu perguntou olhando para os lados.

Ela não estava lá. Enquanto eles se distraiam conversando sobre qual deveria ser o destino dela, Ailyn tinha tomado chá de sumiço. Bankotsu, mais sério que o de costume, respirou fundo e se afastou dos compadres sem dar satisfações. A passos pesados e largos, o mercenário se meteu por entre as árvores e parou diante de um riacho. Olhou para cada lado que pôde e não viu nada além de mato, água e vaga-lumes.

"Ela foi embora mesmo?" — perguntou-se aborrecido.

Uma luz cor de esmeralda o induziu a olhar para o lado e a viu surgir, repentinamente, protegida por uma mortalha negra.

— Onde você tava? — questionou irritado, sentado na beira do rio.

— Eu fui buscar uma coisa. — aproximou-se dele e sentou ao seu lado, aparentemente calma.

— Sabia que todos querem o seu pescoço? — referiu-se aos companheiros.

— Menos você. — abaixou o capuz, sorridente.

— Hein? — confundiu-se com o sorriso estampado na face dela.

— Você me salvou. — encarou-o enfim, parecendo levemente contente.

Bankotsu abriu a boca para responder, porém escolheu não dizer nada e os lábios fecharam-se quase num bico. O rapaz virou o rosto, tornando a mirar as águas correntes, os braços se cruzaram, bem como as pernas. A alabarda jazia recostada a uma pedra.

— Eu trouxe uma coisa... — ela disse, ligeiramente acanhada no tom, mas não nas expressões. Depois de desamarrar a fita da mortalha e livrar-se do pano, Ailyn apontou para uma garrafa rechonchuda de vidro em seu colo, cujo líquido no interior aparentava ser alaranjado.

— O que é isso? — Bankotsu a viu segurar a garrafa e apontar a ele, oferecendo-a.

— Uísque. — contou – É uma bebida da minha terra natal, fui buscar para você.

— Hum... — segurou o conteúdo em uma mão, depois a fitou ainda desconfiado — E quem me garante que você não tá tentando me envenenar para pegar os meus fragmentos?

Em vez de responder com palavras, e já um pouco sisuda, Ailyn tirou a garrafa da mão dele, arrancou a rolha e sem qualquer delicadeza, encaixou a boca no gargalo e tomou um gole generoso da bebida.

— Satisfeito? — perguntou a limpar o canto dos lábios, úmidos. Finalmente, Bankotsu sorriu e aceitou a oferta, tomou uma golada ainda maior do que a dela e quase se engasgou.

— Essa é das boas! — tossiu entre as palavras.

— Cuidado, é forte. — alertou e pediu a garrafa de volta, tomou mais um gole.

— Posso saber a razão do presente? — claro que uma hora ou outra ele teria que voltar a ser provocativo, no entanto isso não o impedia de continuar bebendo sem se preocupar com as consequências.

— Ora, você nem teve tempo de comemorar o retorno do seu... — olhou para a alabarda — companheiro! — e começou a rir irremediavelmente, riu tanto que até estranhou — Eu avisei que esse negócio era forte. — balançou a garrafa e bebeu mais um pouco, arrancando risos dele também.

— Está ficando quente... — embora risse da alteração de Ailyn, Bankotsu percebeu que ele próprio não estava tão sóbrio, pois se atrapalhou para desfazer-se da armadura, seus dedos vacilaram ao desamarrarem a fita vermelha da ombreira.

Fraca de tanto rir, Ailyn o ajudou a se desfazer das peças superiores, e a partir da cintura ele se virou. Logo, o moço revivido trajava apenas seu quimono branco que brilhava à luz do luar e à luz verde acendida pela magia da forasteira. Quase deitados sobre a grama, tomando o elixir do desacanhamento como se bebessem água, conversaram aos risos sobre os assuntos mais triviais, a cada gargalhada que dava, Ailyn apoiava a cabeça sobre o ombro dele e segurava-se em seu braço. Despercebida, já estava quase o abraçando e ele bem que estava gostando, pois não parava de olhá-la com um sorriso abobalhado e certa malícia no olhar. Ao erguer o rosto para cima, os olhos azuis-claros encontraram-se com os escuros. A mordiscar os próprios lábios de maneira sapeca, ela passou a ponta do dedo indicador pelo nariz arrebitado dele e desceu pela boca, afagando-a. Ele não fez nada para impedir, tampouco diminuiu a proximidade. Quieto e sorridente, manteve-se na mesma posição ao passo de que ela se inclinou ainda mais para perto e disse, quase a beijá-lo:

— Você me parece vivo demais para um morto. — e prendeu um riso.

— Tá caidinha por mim. — enfim, a malícia escapou no tom sussurrado e no riso galante.

— Até parece! — imediatamente, as bochechas dela arderam em brasa e ela o empurrou. Bankotsu caiu deitado, rindo deliciosamente.

Ela tentou se levantar, mas caiu sentada de tão bêbada. Então, ele a puxou pelo braço, fazendo-a rolar por cima de seu corpo e depois, prendeu-a embaixo de si, segurando-lhe as mãos para assegurar-se de que ela não o esmurraria.

— Me larga! — Ailyn urrou.

— Shhh... — Bankotsu sibilou e aproximou os rostos novamente, a trança caída sobre um dos ombros a fazer contraste com a brancura de sua roupa o tornava uma visão ainda mais interessante. Ailyn debateu as pernas por curto tempo, então elas sossegaram entre as dele. — Isso, fica quietinha. — as mãos dele percorreram os braços dela, suspendendo-lhe as densas mangas avermelhadas, depois cativaram o seu rosto – eram tão quentes, tão vivas...

Os olhos dele, quase fechados, reluziam o fogo inconfundível da luxúria, bem como o sorriso maroto. Primeiro, ele esfregou a boca úmida pela bochecha dela, esquentando-a ainda mais. Logo, os cantos dos lábios se esbarraram e o ápice da língua dele afagou o lábio inferior pintado de vermelho para depois, esgueirar-se pela singela abertura e começar a adentrar a cavidade que tanto pedia por aquilo. Sequer deram-se conta de que estavam se beijando, o gosto amargo do uísque prevalecia, misturado às texturas. Bankotsu prensou o corpo feminil debaixo do seu e, empolgado pelo momento, pressionou o volume por baixo das calças entre as pernas dela, abertas por vontade própria. Os dedos brutos dele começaram a subir aquelas camadas pesadas de saia e apalpar as coxas roliças conforme o beijo entorpecente aprofundava-se e eles se lambuzavam aos gemidos.

— Irmão, cadê você? — A voz de Jakotsu foi ouvida por ambos, e mesmo distante os alarmou, fazendo-os apartarem-se imediatamente. — Ah, está aí! — não muito depois ele chegou e logo se espantou com a cena: um homem e uma mulher ofegantes, sentados cada um para um lado, as peças da armadura de Bankotsu largadas pela grama e as roupas do casal amassadas, bem como o cabelo dourado de Ailyn, bocas borradas de tinta rubra acusavam o que o casal andara fazendo.

— Irmãozinho! — risonho e com a fala vagarosa, meio embolada, o líder ergueu a garrafa e o convidou: — Vem beber com a gente! Olha essa bebida que a, a — ele estalou a língua no palato, mirou-a a sorrir desajeitado e perguntou: — como é mesmo o seu nome?

— Ora! — ultrajada, ela se levantou e afastou-se cambaleante — Divirtam-se os dois, boa noite. — esbarrou o ombro em um galho, mas estava dormente demais para sentir.

— Ih, ela ficou brava... — Bankotsu coçou o canto do rosto com o dedo indicador.

— É claro que ela ficou brava! — Jakotsu espalmou a mão à testa e suspirou — Ela está com a gente faz um tempo e até agora você não decorou o nome dela...

— Que culpa eu tenho se o nome dela é difícil? — e bebeu novamente, agindo como se não estivesse incomodado, mas suas sobrancelhas tencionadas o entregavam.


Ailyn caminhara bastante, a ponto de chegar onde o riacho parecia mais fundo, ali ela se ajoelhou e lavou o rosto, o pescoço e principalmente a boca. Esfregou os lábios até intumescê-los, depois bebeu muita água no intuito de se hidratar e fazer a embriaguez passar.

Aqueles calores estranhos – mas bem conhecidos – intensificaram com o uísque. Ora, ela estava longe de ser uma virgem santa, já tivera experiências anteriores, todas insignificantes. Por curiosidade, ou por necessidades da carne, Ailyn entregara o corpo a alguns homens em sua vida, muitas dessas vezes ela teve algo a ganhar em troca, e sempre se saiu como vencedora. Porém, a sensação de frio revirando-se dentro da barriga lhe era inédita. Ela toda se tremia.

Lembrou-se da conversa que teve com Annabelle sobre amor e de como ela desdenhou do sentimento. Seria possível o desdém voltar-se contra ela? A indagação a fez rir histericamente, cobrindo o ventre com as mãos. Sim, ela sentia uma forte atração física por Bankotsu. Ele era jovem, viril, e poderoso, além do mais, fazia tempo que Ailyn não se sentia desejada ou se deitava com alguém, era natural!

… então por que diabos ela estava tão aborrecida por ele não se lembrar de seu nome? Por que isso seria relevante?

Ah, devia ser a bebida. Com certeza era!

— Ei... — ouviu uma voz suave pelas suas costas. Virou-se rapidamente, na expectativa de que fosse ele, mas era o outro.

Era Jakotsu.

— O que você quer? — suspirou chateada.

— Olha, eu vou ser bem sincero, — se aproximou e sentou ao lado dela — detesto mulheres, só de estar ao lado de uma me dá nos nervos.

— Então, por que está aqui? — cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha.

— Porque apesar de você ser mulher, eu quase vou com a sua cara. — disse naturalmente — E eu gostaria de ter mais disso. — suspendeu a garrafa vazia.

— Nossa, muito obrigada! — ironizou — Lamento, mas o estoque acabou.

— Gosta dele? — Jakotsu inclinou-se para frente, ficando mais perto dela e encarando-a incisivamente.

— Hã?!

— Gosta do meu irmão? — ele aprimorou a pergunta.

— Vocês são irmãos de verdade? — ignorou completamente e mudou de assunto.

— Sim, eu e Bankotsu somos. — sorriu e apoiou a cabeça nas mãos.

— Parecem tão unidos... — Ailyn comentou e molhou os dedos de uma mão no córrego ao lado.

— Mas é claro, somos uma família, cuidamos um do outro. — ela riu em resposta, fora um riso seco — Por que está rindo?

— Eu tenho uma irmã também. — contou.

— A que tentou te matar, não é?

— Não posso condená-la, fui eu quem quis matá-la primeiro. — deu de ombros.

— E por quê? — ele piscou os olhos negros algumas vezes, sem conseguir entender.

— Porque eu a odeio. — falou pausadamente, o olhar já não se fixava em nada.

— Por que a odeia tanto? — insistiu em perguntar, estava mesmo curioso sobre aquela relação fraternal.

— Ai, sinceramente? Eu já nem sei mais... — cobriu o rosto com as mãos, depois massageou as têmporas e bufou.

— Eu acho que você deveria procurá-la e fazer as pazes. — disse confiante.

— E por que eu faria isso? — encarou-o confusa.

— Porque deve ser muito triste viver tão solitária.

— Bem, eu discordo, até acostumei... — riu outra vez — mas eu não estou mais sozinha de qualquer modo, não é verdade? Não que eu tenha escolhido assim, mas... — debochou.

— Então, gosta dele ou não? — Jakotsu não tinha esquecido do assunto.

— Ah, mas que coisa! — resmungou — Por que me pergunta isso?

— Porque ele gosta de você. — afirmou sem titubear.

— Ah, faça-me o favor! — Ailyn gargalhou espontânea — Ele nem se lembra do meu nome!

— Mas arriscou a própria vida para salvar a sua pele. Isso não conta? — Jakotsu cruzou os braços e o sorriso em seus lábios avermelhados se fechou.

Ailyn abriu a boca, no entanto não conseguiu responder. O ar travou no meio da garganta, ela empalideceu e seus olhos cerúleos escancaram-se. Não esperaria que seu coração fosse acelerar daquela maneira por causa de uma pessoa nem em cem anos. Sentia as batucadas tremelicarem dentro do peito e o corpo inteiro esquentar de dentro para fora. Era verdade, Bankotsu a salvou da Ferida do Vento e, por autodefesa ou qualquer outra coisa que ela desconhecia o nome, desde o instante ela tentara não pensar nisso, mas a sua mente a traía. Trazer uma bebida para ele foi uma forma de agradecimento, todavia a escocesa era muito orgulhosa para admitir. Aquilo realmente mexeu com ela e a grande verdade dentro de si era que tinha medo de elaborar uma resposta para aquela pergunta, pois era a mesma que ela vinha se fazendo ultimamente: "Eu gosto dele?".

— Você gosta. — Jakotsu respondeu por ela, como se Ailyn fosse o enigma mais fácil de se resolver. O sorriso crente dele a assombrou.

— Gosto nada! — nem mesmo o tom histérico a fez soar ciente da ideia que defendia.

— Gosta sim! — ele riu — E agradeça aos céus por ele gostar de você, ou eu te retalhava aqui e agora. Mas, prometi a mim mesmo que se um dia meu irmão arranjasse uma mulher de quem gostasse, não mexeria com ela. — levantou as mãos ao alto, como se o gesto pudesse representar paz.

— Eu não sou a mulher do seu irmão! — levantou-se, cansada da conversa.

— Tá certo. — era óbvio no jeito de falar que ele não a levava a sério. — Agora vamos voltar ao acampamento, ou você prefere dormir no meio do mato, rodeada de youkais? — Jakotsu também se pôs de pé.

A contragosto, Ailyn voltou com o rapaz esguio para o paradeiro da trupe de baderneiros e deu-se com um Bankotsu a dormir o sono dos justos, até roncava de vez em quando. Os outros ainda estavam despertos e persistiam a encará-la em ares de hostilidade. Sentiu-se com sorte, porém, de arranjar uma espécie de aliança repentina com Jakotsu, mesmo por uma razão que não a agradava. Decidiu-se por recostar em um canto próximo do rapaz andrógino, mas não dormiu tão bem quanto gostaria. Qualquer barulho a despertava. O descanso se deu nas primeiras horas da manhã, quando Bankotsu acordou. Mesmo o homem estando ressacado, passava-lhe segurança. Era duro aceitar, só que Ailyn se sentia protegida por ele. Assim, ela dormiu até ser sacudida por um deles e ter que se levantar para prosseguir a jornada.

Bankotsu evitava olhá-la, e o constrangimento parecia recíproco. Não se falaram, buscaram perambular a passos de distância, e quando pegavam carona em Ginkotsu, cada um sentava em uma extremidade. O clima estava tão esquisito que todos reparavam e às vezes cochichavam entre si.

No entanto, o momento em que teriam de se falar outra vez chegou, pois Kohaku surgiu orientando Ailyn de que ela deveria levar Bankotsu a uma tal de Ilha Hijiri através de seus portais.

"Eu não quero fazer isso" — pensou consigo mesma a suspirar, enquanto aproximava-se dele e anunciava as ordens de Naraku, transmitidas pela voz de uma criança.

— Tá bom, então vamos. — Bankotsu segurou sua imponente Banryu às costas e chegou perto dela, sem encará-la por muito tempo, contudo — E o que a gente tem que fazer lá?

— O menino não revelou, disse apenas que você precisaria estar lá. — respirou fundo, controlando os ânimos. As mãos se escondiam por trás do denso tecido avermelhado da saia.

— Sendo assim, me leva logo. — deu de ombros.

— Você não tem nada a me dizer? — vomitou a pergunta que quase levou a alma junto.

— Oi? — Bankotsu estreitou os olhos de leve, mostrando-se alheio ao que quer que ela quisesse saber.

Ailyn o encarou por alguns segundos, ainda à espera de qualquer palavra, e nada veio. Por fim, depois de mais um de seus costumeiros suspiros, ela desistiu.

— Esqueça, vamos logo com isso. — revirou os olhos, deu uma pigarreada e se achegou.

— Hum? — ele piscou os olhos de leve quando sentiu o queixo dela apoiar-se em seu ombro desprovido de proteção, e os braços delicados envolverem-no pela cintura. Os cachos soltos, e densos, esbarraram no rosto dele. A mulher olhava a frente, acomodada rente a ele, um sorriso tão sutil a ponto de não ser possível identificar clareou o semblante dela. Enfim, o círculo luminoso os envolveu e rápido como um feixe de luz os levou até um casebre de madeira no meio de uma ilha repleta de flores com o mesmo aroma adocicado que perfumara a marionete de Naraku.

Pouco depois de os pés de ambos tocarem o chão, Ailyn afastou-se aos poucos, a bochecha estava a milímetros da dele, quase as peles macias se rasparam ao apartar do abraço. O cheiro dela ficou impregnado nele, como se fosse proposital. A estrangeira o olhou por um tempo, sem nada dizer, e ele retribuiu mirando-a intensamente. A atmosfera altamente pura daquele lugar faziam com que o homem e a mulher sentissem vertigem, e algo a mais...

Ailyn virou as costas para ele, outro portal se formou, aquele que a levaria para longe do líder dos mercenários por tempo indeterminado. Pronta para adentrá-lo, repentinamente ela girou o corpo e andou até o morto-vivo outra vez, e antes que Bankotsu pudesse perguntar o que raios ela queria, a ocidental o segurou pela nuca e colou as bocas, provocando um estalo quando as separou – também de repente. Ele deu um suspiro atordoado, e ela, sem nada a dizer ou fazer depois de um instante de loucura, se foi, desaparecendo das vistas do sujeito que massageava os próprios lábios.

"Eu sinto que vou me arrepender disso depois" — disse a si mesma, tentando ser racional. Sobre as copas das árvores do lugar onde ela surgira, diversos insetos a espreitavam, testemunhando a mudança que ela sofria. Alguém, em um local seguro e não tão distante, ria diante de tamanha ironia.

Ailyn fechou os olhos e sorriu, algo em torno a confortou e a fez pensar sobre a conversa com Jakotsu.

— Você está por perto, eu posso sentir... — sussurrou — Belle... — e referiu-se à irmã pelo apelido carinhoso dos tempos de infância sem sequer se dar conta. Ao longe, bem distante, era possível enxergar o topo de um monte em meio à neblina.

Continua...


NHOOOOIM geente! Não tá fofinho esses dois? Acreditam que desde que eu criei a Ailyn, pensei nela como shipp do Bankotsu? Mas mantive a boquinha caladinha para não estragar nada!
Pois é, agora quanto à fanfic eu devo confessar que cometi uma gafe no capítulo passado ( Olha eeelaaaa, se denunciandoooooo). É que, assim, amo o anime Inuyasha com todas as minhas forças, mas como faz muito tempo que não assisto na íntegra, me esqueci de algumas coisíneas... _
Uma dessas "coisíneas" que me esqueci foi de que o Ginkotsu se quebrou todo (depois de voltar a vida) e AÍ que o Renkotsu fez toda aquela plataforma doida pra ele, só que eu não me lembrava do troglodita metálico sem ser um troglodita metálico. Então, por isso, aqui em Teia de Mentiras ele já voltou do mundo dos mortos todo estrupiado, virou uma carroça por um tempo (HAHAHAHHAHAHA) e depois o Renkotsu consertou ele, mudancinhas inocentes de enredo! YEY! ( Eu tô rindo, mas é de vergonha). Mas é aquilo né, fanfic é para a gente usar a criatividade, nem tudo pode ficar igual ou perde a graça (OOOOLHA A DESCULPA ESFARRAPADA NA CARA DE MADEEIRAAA)...
Brincadeiras à parte, embora eu respeite a cronologia da história, vai ter coisa que vai mudar SIM. O que, não posso dizer para vocêres... Hihihihi!
Espero que tenham gostado, apesar de qualquer possível errinho.
*Ah, mas uma coisa, não tenho certeza de onde li ou vi isso, mas juro que em algum lugar eu vi que Jakotsu e Bankotsu são irmãos de verdade, é capaz até de ter sido em fanfic e eu estar embolando as coisas. Seja como for, eu gostei assim, sempre achei que eles tinham uma ligação bem fraternal mesmo. FOFOS!
Para quem está com saudades do shipp principal, eu digo: calma, eles já voltam, prometo! 3 (EU TÔ COM SAUDADES TAMBÉM! ;-;)
E para quem quer muito ver o pega-pa-capá entre Ailyn e Bankotsu, só tenho uma coisa a dizer: EU TAMBÉM ESTOU ANSIOSA POR ESSE MOMENTO! *_*
E é isso, até que falei bastante hoje...
Kissuuuus gente linda e obrigada por tudo! S2