Olá pessoal, olhem só quem deixou a fic atrasar no FFNET outra vez. Pois é...
Confesso que não estive muito motivada para atualizar a fic por aqui. Sempre assumo um compromisso comigo mesma de que não desistirei de um projeto porque ele recebe poucos feedbacks, só que todos somos humanos e temos as nossas falhas, ultimamente tenho deixado esse site de lado porque no AnimeSpirit tenho conseguido mais retorno.
Bem, tentarei consertar esse erro de qualquer jeito, pois acredito que haja leitores por aqui - ainda que tímidos - e por isso estou aproveitando esse momento de recesso para passar por aqui e não deixar mais vocês na mão.
Ah! Antes de desejar-lhes boa leitura, vocês deram uma olhada na capa nova? Acho que a atualizei e não postei capítulos depois, não me lembro.
Eu que fiz, espero que gostem.
Boa leitura!
Capítulo 36 - Reconciliação
Annabelle dançava de mãos dadas com algumas crianças no pátio do vilarejo, naquela ciranda os pequeninos entoavam uma canção folclórica da região, e por conviver com eles há alguns meses a jovenzinha já a sabia de cor:
O que é puro se torna sujo,
O sujo se purifica
O que é bom se torna mau
E o mau se torna bom...¹
E então, repentinamente, ela parou. Um singelo arrepio percorreu-lhe a espinha.
— Senhorita Shinrinko, está bem? — os dedos de Yoru apertaram os seus.
— Sim, não é nada... — respirou fundo e soltou as mãos. Depois de recuperar o fôlego, sorriu como se nada tivesse acontecido. — Me esperem aqui, em breve estarei de volta.
— O que deu nela? — Motoko, a menina que a levara ao vilarejo junto com Yoru no dia em que se conheceram, perguntou num sibilo.
— Eu não sei... — a pequena companheira de Annabelle disse, porém secretamente tinha alguma noção da razão de ela se afastar depressa. Yoru, por ter capacidade de sentir auras tanto puras quanto malignas, percebia uma certa energia negativa se aproximar.
Anna caminhou por dentro da mata e seus passos cessaram quando ela se deparou com a mulher que era praticamente sua imagem, exceto pelos cabelos mais claros. Ailyn estava elegantemente ereta, as mãos sobre o ventre, a capa negra contrastava com a vermelhidão do vestido, os cabelos amontoavam-se por cima do capuz abaixado e ela sorria com uma naturalidade diferente.
— Então é aqui que você está vivendo agora? — a gêmea alourada olhou ao redor — Essa névoa me provoca náuseas. Como você consegue suportar isso?
— A névoa na verdade é uma barreira purificadora, pessoas com maus pensamentos e sentimentos são repelidas pelo campo de força do monte sagrado. — explicou, parada onde estava, analisando-a ainda em tom de surpresa. Quase sorria.
— Sorte a sua, se não fosse por isso a horda de youkais que encontrei pelo caminho já estaria aqui, atrás de sua cabeça e do seu fragmento da Joia. — ela riu e cruzou os braços. Annabelle engoliu seco, nitidamente preocupada. — Que visual pitoresco você resolveu assumir, não? — referia-se às roupas e à maquiagem de Annabelle. Olhou-a de cima a baixo, a deixar claro o estranhamento nas feições meio tortas, e parou de súbito as gemas cerúleas no pescoço sem enfeite — Onde está o seu pingente? Pude sentir a sua aura de longe, e agora perto de você ela quase grita aos meus ouvidos. Não deve ser diferente com aquelas criaturas. — sentou-se em uma rocha ali perto.
— Eu... — resfolgou antes de terminar — emprestei. — seu olhar melancólico focado nos próprios pés a denunciou.
O riso de Ailyn ecoou por entre as árvores.
— Para ele?! — indagou ainda a rir.
Annabelle respondeu com um suspiro, não queria comentar ou contar o contexto em que o empréstimo aconteceu.
— Por quê? — mas a irmã era insistente, e a encarava em genuína curiosidade.
— De que importa? Desde então, nunca mais o vi. — encostou a mão no tronco de uma árvore e o afagou. — Talvez seja melhor assim, estou feliz aqui.
— Mentirosa. — a acusou sem titubear, causando espanto na Rosa Branca. — Como foi a noite com seu falecido amor? — Já que não conseguiria arrancar um relato sobre o estranho empréstimo, referiu-se ao episódio em que a ajudou a se encontrar com o espírito de Hitomi.
— Muito diferente do que eu esperava. — raios, por que Ailyn a forçava lembrar de coisas tão duras? — Mas tudo isso ficou para trás, agora estou bem, me sinto em paz. — roçou as unhas em um pedaço de musgo, distraindo-se ali.
— Eu duvido! — risonha, revirou os olhos escarnecendo.
— O que veio fazer aqui, Ailyn? — mudou o foco, tornou a olhá-la — Desde quando saiu de seu esconderijo? É arriscado, se Naraku a encontrar...
— Ele já encontrou, por isso estou perambulando por aí.
— O que, como assim? — Annabelle se sobressaltou, e enfim chegou perto de sua parente.
— Dispensemos os detalhes, até porque não sei se tenho permissão de contar. — deu de ombros, como se não ligasse para nada do que acontecia. — Digamos que por livre e espontânea pressão, voltei a colaborar com o dito cujo.
— Ele a chantageou... — Anna levou uma mão à testa e a massageou. — Por que eu ainda me surpreendo?
— Fique tranquila, você sabe que não importa qual seja a situação, eu sempre consigo tirar algum proveito. — passou os dedos entre os cabelos dourados e os jogou para o lado.
— Tem certeza de que está bem? — fitou-a atarantada.
— Sim, mas que coisa! — apesar de rir, mostrou-se impaciente — Não aja como uma mãe neurótica, que pé no saco! — e quando se deu por percebida, usou a expressão completamente informal, costumeira de Bankotsu.
—...pé no saco? — Annabelle estreitou os olhos e os lábios. Conhecia sua semelhante o suficiente para saber que aquele jeito de falar não condizia com o usual.
A outra escocesa tapou a boca e um riso, feito isso a ruiva não se conteve e riu estranhada.
— Ah, a convivência... — Ailyn suspirou — o que ela não faz?
— Convivência com quem? — menos cerimoniosa com a irmã, sentou-se do outro lado da pedra e apoiou as mãos sobre os joelhos.
— Ninguém especial. — os orbes azuis semicerraram, muito mais pacíficos do que costumavam ser, e o sorriso na boca dela já não era tão malicioso como o de rotina.
— Ailyn... — Anna piscou os olhos algumas vezes, lendo as expressões dela — Não me diga que...
— Ih, nem vem! — ela se levantou e ajeitou a saia — Só estou me divertindo, tenho que tirar algo de bom da situação que vivo. Não é nada fácil lidar com um bando de marmanjos grosseiros, violentos e imbecis! — pôs as mãos na cintura e arrebitou o nariz.
— Quem são esses? — confusa, levantou-se também.
— Eu já falei demais! — virou-lhe as costas, as bochechas estavam discretamente coradas.
— Ailyn, foi o Naraku que a mandou aqui? — se achegou devagar, quase lhe tocava o ombro. Não sabia o que pensar de toda aquela situação, mas se a gêmea mais nova estava lá e trabalhava para o hanyou, deveria haver alguma conexão.
— Não. — respondeu secamente.
— Então o que faz aqui? — tomou coragem e pousou a palma ao ombro tenso, por baixo do manto escuro.
A discípula de Amelie virou-se, contudo, a sua resposta foi o silêncio. Ailyn encarou as feições de seu reflexo bondoso e conteve a respiração na garganta. As palavras de Jakotsu ecoavam dentro dos ouvidos e ela quase as acatava, ainda assim, seu coração era orgulhoso e o perdão para ela era ofício árduo, sequer acreditava muito em sua existência. Sisuda, persistiu a mirar Annabelle tirando de sua visão cada aspecto que pudesse demonstrar falsidade, e a moça dos cabelos de fogo parecia mais transparente do que água. Não era de se espantar que ela não sentisse o peso daquela neblina purificadora nas costas.
Jamais seria como ela, Naraku tinha razão. No entanto, a ideia de que não poderia se comparar ou superar a irmã não a aturdiu como normalmente fazia. Ailyn não conseguiu decifrar o que sentiu ali, havia um desejo de trocar testemunhos, e até de pedir conselhos. Havia também o medo, pois ao olhar para a sua igual, as marcas de um amor trágico evidenciavam-se em cada gesto dela. Não era aquilo o que a Rosa Vermelha desejava para si, não mesmo!
— Eu não quero ser como você. — pensou alto.
— E nem tem que ser. — Annabelle sorriu serena. — Você tem que ser você mesma.
— Ainda sofre muito não é? Você pode tentar disfarçar de todas as maneiras, e mesmo assim conseguirei ver através da sua alma. — tocou a mão que ainda lhe afagava o ombro.
— Ninguém está imune ao sofrimento. Não são somente as nossas conquistas que nos fazem quem somos, são também as nossas derrotas. De fato, acredito que são as derrotas que nos tornam verdadeiramente fortes, porque se conseguirmos superá-las, superamos qualquer coisa. — disse em um tom tão calmo que quase chegou a ser monótono.
— Você superou as suas derrotas? — por derrota, tomava Naraku como sinônimo. Olhava-a em ares de seriedade profunda.
— Cada dia tem sido uma superação. — afagou o próprio busto — Mesmo com esse empecilho.
— Dê para mim. — tentou induzi-la, como sempre — Se não quer o fragmento, eu quero.
— Você não muda mesmo, Ailyn... — riu e meneou a cabeça.
Uma silhueta aproximou-se, atravessando a bruma e interrompendo a conversa.
— Ah, estava demorando! — a dona dos cachos de ouro revirou os olhos, aborrecida.
— Kohaku? — Annabelle arregalou os orbes cerúleos diante da presença inesperada.
— Mestre Naraku mandou buscá-la. Você precisa esperar pelo senhor Bankotsu. — o menino disse, ajoelhado diante da Rosa Vermelha em reverência. Ele evidentemente evitava encarar Annabelle e ela percebeu, assim como esteve atenta às expressões dele, no presente muito mais vívidas. Os olhos castanhos cintilavam translúcidos, sem qualquer resquício da mórbida opacidade de quem servia apenas como mero fantoche nas mãos de um vilão.
"Ele está consciente!" — Belle guardou a esperança consigo, resumiu-a a um discreto sorriso.
— Manda uma criança para me escoltar?! E essa agora... — riu-se.
— Então o nome dele é Bankotsu... — Annabelle sorriu.
— O que é que tem?! — a irritação fez-se presente.
— O tal que a ensinou a chamar os outros de pé no saco. — respondeu brincalhona.
— O tal que vive me chamando de pé no saco! — resmungou, de braços cruzados — Vamos logo moleque, me leve para onde tenho que ir! — foi até o irmão de Sango e deu-lhe um tapa no ombro, fazendo-o pender para frente.
— Ailyn! — a chamou, a moça a mirou de soslaio — Foi bom te ver. — comentou.
— Foi bom te ver também. — e sorriu de leve, demonstrando tranquilidade. Dito isso, desapareceu na névoa esbranquiçada junto com Kohaku. Annabelle andou um pouco para frente, na tentativa de alcançá-los para dizer mais alguma coisa, porém a dupla se perdeu de vista e qualquer palavra a ser dita ficou na imaginação dela.
Havia um pensamento latejando dentro de Ailyn. Por que a sua irmã abriria mão do pingente que a protegia, e para deixá-lo nas mãos de um monstro como Naraku? Ah, ele deveria estar na penúria para precisar daquele artefato... e o desespero dele era tamanho, a ponto de apelar para a proteção do Exército dos Sete. E o papel dela nisso tudo? Em parte, Ailyn sentia que Naraku se divertia às suas custas, e que colocá-la a mercê daqueles zumbis era um modo de mostrar-se poderoso, dominador, quando na verdade essa pompa toda não passava de uma fachada. Naraku deveria estar miserável.
Os uivos do vento e o peso da energia pura a circundá-la a fizeram perder a concentração. Durante a longa caminhada, cada vez mais a paisagem se perdia em uma densa névoa ebúrnea, de modo que quase não se podia enxergar a trilha ou qualquer coisa que os rodeasse. Ailyn, a pensar sobre como poderia prejudicar o hanyou ou como poderia encontrá-lo, passou a sentir-se tonta e o corpo balançou para frente.
— É a barreira. — Kohaku explicou, todavia ele não parecia afetado pela energia pueril.
— E por que você me parece tão bem? — veio a apoiar-se na parede de pedras, perdeu o equilíbrio e seu peso a fez cambalear para o lado. Enfim, quando um dos pés pisou no nada, Ailyn se deu conta de que eles subiam uma rampa íngreme de terra e que ao lado havia apenas o precipício. Apavorada, jogou-se para trás e caiu deitada, arfante por compreender que quase despencou desfiladeiro abaixo.
— Senhorita, respire fundo, você precisa andar. Não tenho como carregá-la... — Kohaku a orientou timidamente.
— Está me chamando de gorda?! — levantou-se dificultosa, colou-se à parede onde antes se apoiava e veio andando a segurar-se nas pedras e no barro.
— Não, não é isso! — corou e a acompanhou — O caminho é longo... por isso, preciso que ande.
— E mais essa agora... — respirou fundo, o ar parecia rarefeito — então ao menos me dê o braço, vamos, seja útil!
Desajeitado, o irmãozinho de Sango atendeu a exigência e foram subindo aquela trilha, juntos, sem fazerem ideia se era dia ou se era noite, ou quanto tempo levaria para que chegassem aonde quer que fosse.
Enfim, depois de muito tempo, ao menos para a contagem de Ailyn, a dupla chegou em um lugar que parecia um templo dentro da montanha. Assim que os pés dela alcançaram o piso amadeirado ela se livrou das botas pretas, sentou-se e massageou os próprios pés – cheios de bolhas – ignorando o que havia por trás. Estalou os dedos daqueles pés cansados e esticou as pernas, olhou ao redor e finalmente deu-se conta de que atrás de si havia um homem mumificado sentado em um altar.
— Ai, que nojo! — levantou-se e limpou a roupa. — Mas que mau gosto deixar uma coisa dessas aí!
— Cuidado com as palavras — uma voz suave e infantil reverberou, a falta de emoção no tom o tornava fantasmagórico. Ailyn arrepiou-se toda ao notar a silhueta branca atravessar a névoa, então, quando as formas se tornaram mais nítidas e os olhos azuis reconheceram a pequenina, o temor passou. — Esse homem foi um monge muito respeitado, e por isso foi santificado — Kanna explicou — A barreira que protege o monte é obra dele.
— Será que minha irmã será santificada e mumificada quando morrer? — tocou o dedo indicador ao queixo, piscou os olhos algumas vezes e logo desatou a rir. Imaginar Annabelle naquele contexto era divertido, deveria admitir.
Eis que em instantes, os olhos da escocesa pesaram e nevoaram, um sono a aplacou depressa e seu corpo tombou desacordado sobre o piso de madeira.
— O que houve com ela? — Kohaku perguntou.
— A barreira é muito forte, a fez perder as forças. — Kanna disse.
— Não só isso, — a figura do monge ressecado se manifestou, assustando o jovem aprendiz de exterminador de youkais — Naraku deu ordens para que eu a acorde somente quanto o chefe do Exército dos Sete chegar.
— O monge está vivo?! — o garoto se afastou do defunto embalsamado com pressa.
Kanna ignorou a pergunta e se foi, calma como veio.
— Ah! — Aiyn deu um pulo e percebeu-se sentada no piso amadeirado. Demorou alguns minutos para lembrar daquele lugar e da sensação sufocante que ele representava.
— Até que enfim acordou, mulher. — a conhecida voz de Bankotsu chamou-lhe a atenção, o guerreiro sentava-se ao seu lado. Vislumbrar o rosto dele certamente fora um alívio, ela quase sorriu enquanto ajeitava o vestido e pegava as botas para calçar. Então, uma outra voz acabou com qualquer sensação de sossego:
— Conheço alguém que pode cuidar desse braço. — uma marionete de Naraku mostrara-se ereta diante do casal, mal se via os lábios moverem-se por baixo da máscara de primata.
"Cuidar do braço de quem?" — a jovem forasteira arqueou as sobrancelhas e olhou em volta, tornou a fitar Bankotsu e compreendeu. Era o braço dele, embora o corpo todo parecesse vivo e saudável, um de seus braços voltara a ser puramente ossos e o rapaz sequer parecia sofrer. Aquele braço representava o que o líder dos mercenários realmente era: um morto.
Ailyn empalideceu e afastou-se discretamente dele, Bankotsu a encarou com seriedade e a mocinha simplesmente virou o rosto.
"Um morto, é o que ele é. Por que se surpreende?" — falou consigo mesma e lembrou-se da irmã, do sofrimento que a ofuscara, o luto por perder alguém a quem amou tanto. — "Não mereço esse destino, e nem o terei" — respirou fundo — "Que futuro ele tem?"
Bankotsu estreitou o olhar enquanto movia os dedos do braço esquelético, não era tolo para não perceber que a condição de seu membro a perturbara. Um riso seco escapou de seus lábios, e foi só.
— Como foi o reencontro com sua irmã? — a pergunta de Naraku, ao invés de quebrar o clima árido ali instaurado, apenas piorou a situação para ela.
— Hein, o quê? — Ailyn sacudiu a cabeça levemente.
— Eu sei que reviu Annabelle, não se faça de desentendida. Como foi? — depois da pergunta, um riso malicioso contribuiu um pouco para piorar ainda mais.
— Normal, nada demais. — ela moveu os ombros para cima e para baixo, fazendo-se de indiferente.
— Já está com saudades? — o babuíno insistiu. Bankotsu os observava sem parecer ter algum interesse em se intrometer na conversa.
— É uma piada, não é? — irritada, deu uma risada ríspida. — É claro que não! — levantou-se e deu as costas aos dois.
— Oh, que pena Ailyn Rose, porque terá que vê-la mais uma vez. — Naraku manteve o tom jocoso e calmo. A gêmea de Annabelle virou-se para ele, uma incógnita desenhada em seus traços e em seus braços retos, as palmas das mãos voltadas para cima. — Quero que leve Bankotsu até ela, para que dê um jeito nisso. — enfim, apontou o dedo ao braço mortificado do homem, induzindo-a a mirá-lo outra vez e revirar os olhos devido a tamanho incômodo — Ora, ora, parece que ela está com nojo de você... — escarneceu.
— Que se dane. — Bankotsu levantou depressa. — Era só isso?
— Quando estiver curado, deve voltar a esse monte e encontrar o restante dos seus irmãos. — orientou-o.
— Nunca que eu piso nesse lugar outra vez! — Ailyn resmungou.
— E quem disse que você os acompanhará? — o sorriso de Naraku alargou.
— Mas... — surpresa, arregalou os olhos, pousou uma mão ao busto, fitou o companheiro de jornada e depois tornou a cravar os olhos no babuíno.
— Levará Bankotsu até sua irmã, e quando o braço dele estiver curado a parceria entre vocês estará terminada. — decretou.
Em silêncio, os dois se olharam e não piscaram. Embora quisessem adivinhar os pensamentos um do outro, uma nuvem parecia os cercar e torná-los indecifráveis. Se Naraku já esboçava um sorriso prazeroso, ao observar o impasse entre os dois e o modo como se encaravam, os dentes da marionete cintilaram através da névoa.
— Vamos logo com isso! — depois de respirar fundo, Ailyn falou e iniciou os passos.
— Ei, ninja, você vai? — Bankotsu se referiu a Kohaku.
— Não, ele fica. — o babuíno pousou a mão no ombro do garotinho.
Desceram a trilha sem trocar palavras, o orgulho da europeia era tamanho que mesmo ao evidenciar dificuldade para levantar as pernas e andar, ela se apoiava nas paredes de pedra, fazia tudo o que estava a seu alcance para não precisar pedir ajuda a ele. Algumas vezes, Bankotsu chegou a erguer o seu braço intacto para ela, mas a jovem o recusou sem sequer olhá-lo. Buscava sempre andar na frente para poder ficar de costas a ele.
Quando enfim, depois de muito tempo, viram-se distantes daquele monte sagrado e o véu de energia pura pareceu mais fino, o assassino de aluguel se manifestou:
— Vai ficar me evitando até quando?
— Não diga besteiras, não estou evitando ninguém — irritada, bufou conforme afastava alguns galhos de arbustos para poder passar entre eles.
— Ah não? Então o que tá fazendo? — riu desacreditado.
— Estou tentando chegar até minha irmã o mais rápido possível, nem acredito que logo me verei livre dessa situação ridícula! — suspirou como se estivesse aliviada — algo a cutucou, Ailyn olhou de soslaio e viu o dedo ossudo perto de seu cabelo — Pare com isso! — estapeou a mão dele e pulou para longe — Se acha tão engraçado, não é mesmo? — reclamou enquanto limpava o ombro e ele ria.
— Engraçado é você não estar nem aí para a cabeça decepada de um senhor feudal, ou para corpos esquartejados, espalhados pelos vilarejos, mas se cagar toda por causa da minha mão.
— Eu não estou... "me cagando" de medo por causa da sua mão, seu idiota! — rolou os olhos e meneou a cabeça.
— Tá com nojinho que eu sei. — aparentemente despreocupado, andou ao lado dela e a mulher insistiu em não olhá-lo diretamente, bem como não respondeu sua última afirmação, apenas certificando-o de que suas ideias não estavam de todo erradas.
— Chegamos... — ela parou em frente a um lago envolto por pedras, sentou-se sobre uma e mirou as copas das árvores. — A qualquer momento ela aparece.
— Como você sabe?
— Eu só sei. — fechou os olhos, afagou o musgo a cobrir a superfície rochosa.
Instantes depois, puderam ouvir um movimento por entre as plantas, e enfim a silhueta quase idêntica à de Ailyn surgiu do meio da mata. Bankotsu a encarou assombrado, não só pela peculiar mistura do oriente com o ocidente no figurino dela, ou pela face coberta de pó de arroz e desenhos de arabescos azulados, mas pela enorme semelhança entre ela e a loura, separadas apenas pelos tons e pelas curvas dos cabelos.
— Você voltou! — Anna sorriu singela e se aproximou da irmã, mal notara a presença de outra pessoa além delas duas até ele se manifestar:
— Como ela sabia? — Bankotsu questionou, curioso como uma criança.
— Digamos que podemos sentir a presença uma da outra, já esqueceu do que te contei? — Ailyn disse sem muita alteração.
— Oh... — a ruiva o contemplou e se chegou aos poucos. — Então é ele...
— Andou falando de mim, foi? — o rapaz estreitou o olhar e riu-se sapeca.
— É, andei sim. Desabafei com a minha irmã sobre o fardo que tem sido andar com você e sua trupe! — o rubor tomou conta das bochechas dela.
— Qual é o seu nome mesmo? — ignorando o comportamento azedo da mais nova, Belle perguntou amena.
— Bankotsu. — foi direto.
O sorriso da moça de branco aumentou discretamente, pois ela lembrara daquele nome, Kohaku o pronunciara. Agora o nome possuía um rosto.
— Não viemos aqui bater papo, ele está aqui para você... dar um jeito nisso aí! — a loura se ergueu da pedra, foi até os dois e apontou a mão ao braço injuriado dele. — Cuide disso para ele poder seguir o rumo dele e eu o meu, por obséquio. — bufou impaciente, detestava pedir favores.
— O que aconteceu com você? — Annabelle o fitou no fundo dos olhos, a pergunta parecia ser referente ao membro, mas era mais ampla. Os olhos azuis e arredondados miraram o pescoço do rapaz, e depois a sua alabarda carregada nas costas. — Os fragmentos sustentam sua vida... — comentou em baixo tom e o sorriso se fechou — Você não deveria estar aqui, entre nós.
— O que andou contando para ela? — Bankotsu se aborreceu, a mão cobriu o cabo de sua estimada Banryu e ele se pôs em estado de alerta.
— Não contei nada, ela pode sentir os fragmentos. — Os dedos de Ailyn cobriram os dele e os desentrelaçaram da arma.
— Quem o trouxe de volta à vida? — a jovem dos cabelos de fogo perguntou.
— Eu. — Ailyn respondeu por ele, e a revelação foi um susto para a gêmea — Eu, sob as orientações do Naraku e com o poder de um fragmento da Joia de Quatro Almas. Satisfeita?
— O que Naraku está tramando? Onde ele está? — as mãos pousaram sobre as maçãs pálidas pintadas de branco e azul, depois cobriram a boca.
— Vai nos ajudar ou não? — a outra questionou impaciente.
Annabelle baixou o olhar para o gramado verdoengo, depois se encaminhou ao lago e vislumbrou o próprio reflexo como se a água serena fosse o seu espelho. Tinha plena consciência de que se ajudasse o rapaz, trabalharia em prol de algum plano maligno do aracnídeo. O tempo em que passara distante dele a fez criar ilusões de estar livre de sua teia, até que quando menos esperava lá estava outra vez em uma situação daquelas onde deveria fazer uma escolha, e o coração a empurrava para a errada.
Tirou os olhos do reflexo da água para focar-se em seu outro reflexo, vivo, ansioso, quase ofegante. Os olhos de Ailyn eram raivosos, como sempre, porém não só. O brilho os denunciava, estavam preocupados, talvez tristonhos.
— Me dê o braço. — Annabelle estendeu as palmas para cima e optou por acatar a vontade do coração outra vez. — Faço por você, minha irmã. — deixou claro, e acabou por desconsertar os dois.
Bankotsu entortou os lábios levemente e o cenho franziu, porém acatou o pedido e pousou o braço sobre as mãos mornas e cintilantes. Em poucos instantes, o lume o envolveu até o ombro e a carne começou a contornar aqueles ossos. A sensação era diferente de quando a vida lhe fora devolvida pelo poder da Joia, pois junto com a matéria a paz o envolvia, a ponto de fazê-lo fechar os olhos e suspirar. O guerreiro voltou a si quando sentiu uma ardência na testa, Annabelle repentinamente arrancara alguns fios de sua franja.
— Ei, por que fez isso?! — resmungou cheio de zanga. Ailyn, do outro lado os fitava de olhos arregalados e punha uma mão sobre a boca para abafar o riso.
— Eu só queria me certificar de que você está vivo mesmo. — a sorrir com uma naturalidade estranha, a ruiva disse.
— Hum... — ainda rabugento, o rapaz fechou e abriu os dedos, depois os estalou — Parece que tudo está em seu devido lugar. — então, ele se virou e fitou a outra gêmea sem nada mais a dizer.
— É isso, agora você pode ir. — Ailyn disse por ele, direta e certeira.
A moça que se fingia de youkai, atenta aos dois que se contemplavam numa expectativa de algo que ela poderia presumir, deu passos para atrás.
— Vou deixá-los às sós. — e assim, desapareceu dentro da clara névoa enquanto a estrangeira alourada mal abria a boca para dizer-lhe qualquer coisa.
"Annabelle, sua estúpida!" — praguejou em pensamentos e voltou a atentar-se na figura ereta e imponente, um pouco mais perto do que ela se lembrava.
— O que está esperando, por que ainda não foi? — cruzou os braços, parada onde estava.
— Pensei que fosse tentar tomar os meus fragmentos agora que não somos mais aliados. — risonho, manteve a guarda aberta como se pouco importasse.
Ailyn deu um passo atrás e engoliu seco, a sua indiferença teatral caiu por terra e ela se sentiu compelida a fugir do olhar dele.
— O que foi, está com medo de eu te atacar para roubar o seu? — o mercenário chegou mais perto, o hálito morno afagou a orelha dela. A Rosa Vermelha tocou o peitoral da armadura dele e tentou empurrá-lo, então Bankotsu largou sua alabarda para segurar-lhe os pulsos e mantê-la perto.
— Me larga! — vociferou num ranger de dentes, e ele a cativou pelo rosto, prensando as bochechas entre os dedos brutos e forçando-a a olhá-lo.
— Calma! — disse brincalhão — Só quero devolver uma coisa que você me deu há algum tempo atrás...
— Do que você está falando? — persistiu a tentar empurrá-lo — Vá embora!
Ele riu primeiro, depois atou a boca à dela num beijo muito mais fogoso do que recebera antes de partir para a ilha Hijiri. A língua dele a forçou a abrir os lábios e desunir os dentes, adentrando o espaço sem cerimônia alguma e desfrutando das texturas no interior. De olhos fortemente cerrados, Ailyn arranhou as mãos que prendiam sua cabeça, as apertou e estapeou, e nada as tirou de lá. Apesar dos grunhidos agudos, abafados pelas línguas que giravam uma sobre a outra, ele não parou. Seu corpo induziu o da escocesa a andar para trás, até as costas se encontrarem com o tronco de uma árvore e então ela não teria mais como tentar correr, mesmo se quisesse.
A partir do momento em que a encurralou, deixou de segurá-la pelo rosto e apertou a cintura entre os dedos. Bankotsu não brincava quando dizia querer aproveitar a vida ao máximo, abandonou a boca dela para devorar-lhe o pescoço e nenhum apelo o fez parar. Os dedos que o beliscaram certas vezes e o tentaram afastar, emaranharam-se nos cabelos de sua nuca, Ailyn o abraçava e ele, satisfeito, partia a descer uma manga daquele vestido rubro enquanto mordiscava o ombro macio e quente.
No entanto, quando no auge da empolgação, a mão dele se esgueirou por baixo da saia dela e começou a subi-la, os olhos de céu se abriram num rompante e ela o afastou com a sua neblina fantasmagórica.
— Não. — ofegante, ela apoiou as mãos ao tronco atrás de si, e quando encontrou algum equilíbrio começou a ajeitar os cabelos arrepiados e depois a roupa toda amassada.
Embora Bankotsu tivesse senso de humor, dessa vez não riu. Calado, levantou-se do chão, pegou sua alabarda e sem encarar a mulher ele se afastou, os passos calmos e a postura impetuosa. Não disse um "adeus" que fosse, simplesmente se foi e a deixou ali. Ailyn fechou os olhos e respirou fundo, mordiscava o lábio inferior conforme pensava nos últimos dias e no que vivera com aquele bando, com aquele homem. Passou as mãos pelo rosto e massageou as têmporas, depois riu – não por estar alegre, e sim por conta da acidez em seu interior, era uma risada de escárnio. Debochava de si mesma.
— Vá atrás dele. — a voz a fez dar um pulo de susto. — Ainda há tempo. — Annabelle surgiu de dentro da bruma protetora.
— Bisbilhotando a vida dos outros, que bonito! — disse a apoiar-se na árvore — Céus, como estou tonta! — cobriu a testa com uma mão e curvou-se.
— Não deveria ter usado o seu poder aqui, a fonte dele são almas atormentadas, é impuro. Por isso você está assim. — tocou-lhe os ombros.
— Oh, é mesmo? — ironizou, no entanto não negou ajuda para se manter de pé.
— Vou tirá-la daqui. — apoiou-a em seu ombro e caminharam juntas em sentido oposto ao de Bankotsu — Não a levarei para o vilarejo onde estou hospedada, ou vai se sentir pior. — explicou — Mas também não posso sair dos limites dessa barreira, ou muitos youkais me perseguirão, já que estou sem o meu pingente.
— Porque é tola. — complementou — Não entende que com esse tipo de atitude, seja emprestar aquela lua para Naraku, ou mesmo curar o braço do Bankotsu, você só contribui para que mais catástrofes aconteçam?
— Eu curei o braço dele por sua causa. — não quis mencionar seu ato de desespero quando viu Naraku sofrer.
— E não passou pela sua cabeça a razão pela qual o braço dele estava naquele estado? É óbvio que ele esteve em um embate com seus amiguinhos, Annabelle, aquele grupo de imbecis que querem derrotar Naraku! — e ela tossiu no final, engasgada por conta daquela atmosfera.
— Eu sei tão bem como você, e ainda assim percebi que você estava sofrendo por causa daquilo, porque você gosta dele. — prosseguiu a fala e o andar arrastado no ritmo viável para que Ailyn não se desequilibrasse.
— Gostar dele?! — riu — Bankotsu é um morto-vivo! E sendo aliado de Naraku, duvido que dure muito!
— E você gosta dele mesmo assim — não titubeou ao afirmar.
— Mas que mania, Annabelle! Posso sentir atração por ele, afinal de contas não estou morta! Mas gostar?! Ele é um mercenário sem títulos ou princípios, vive para causar o caos! Tudo o que ele preza é poder, o único desejo que tem é se tornar cada vez mais forte, porque sabe que a condição de humano o torna vulnerável! Ridículo, chega a me dar pena! — falou aos risos, não se sabe se debochava apenas de Bankotsu ou se o escárnio também era de si.
— E desde quando gostar de alguém depende de títulos, de poder? Não escolhemos por quem nos apaixonamos. — expressou-se sem exaltações, como se aquela ideia fosse a coisa mais comum do mundo, no entanto a outra moça ria de se acabar. — Ele gosta de você, Ailyn. — encerrou com seriedade.
— Gosta de mim? — piscou os olhos algumas vezes, ainda recuperava o ar depois de tanto rir. Sentia-se mais tonta do que antes, o suor respingava pelo canto da testa. — Que tolice! — e riu de novo, fracamente.
— Ele há de gostar muito de você para partir sem tomar o seu fragmento da Joia para si. — jogou a ideia ao vento, numa reflexão — Pois, se ele é um mercenário ambicioso por poder e sem princípios como você diz, e a parceria entre vocês terminou, o que o impediria de atacá-la e roubá-la? — e sorriu — para mim, ele tem sentimentos por você.
— Isso não vem ao caso! — ralhou, já sem paciência alguma para aquele diálogo.
— Ah, mas vem sim, minha irmã! — parou subitamente, fazendo a outra cambalear para a frente e só não cair porque estava bem segura. — Você não percebe? Mais tarde, se você não deixar o qye sente claro tanto para você quanto para ele, o arrependimento a consumirá. — virou-se de frente para ela.
— De que vale, se eu sei que não vai durar? — ela sorria, mas os olhos dantes jocosos, no presente pareciam tristes e conformados. O tom de voz mudou de estridente para baixo, numa suavidade melancólica — Aquele braço era a representação do que ele todo é, a juventude e o viço dele são uma ilusão, e só.
— E a nossa juventude também não é? Daqui a uns anos seremos apenas um conjunto de ossos enterrados na areia, Lynnie. A grande certeza da vida é a morte, e ela vem para todos, cedo ou tarde. — afagou o rosto de sua consanguínea e acabou por surrupiar-lhe qualquer coletânea de palavras que estivesse guardada, pronta para uso. A frase a seguir foi pura e simplesmente um desabafo da alma:
— Eu tenho medo...
— Medo de quê? — ainda a sorrir, perguntou.
— De sofrer. Amar é sofrer, é perder. Primeiro eu vi o que nosso pai passou, depois Amelie, depois você... Eu não quero isso para mim, o amor é uma maldição que não pretendo carregar.
— Falando assim, você soa como... — "Naraku" — pensou, sem se atrever a dizer — Bem, Amelie eu duvido ter amado alguém de verdade, — antes que a outra arranjasse tempo para defender a madrasta, Annabelle prosseguiu sem respirar: — quanto a mim e quanto ao papai, tenho certeza de que ambos não nos arrependemos de nossas experiências. A única coisa da qual me arrependo é não ter vivido o meu sentimento com Hitomi ao extremo, Lynnie. O que me entristeceu por muito tempo foi a ideia de que aquele amor não pôde ser consumado, por isso digo a você para aproveitar a oportunidade e consumar o seu. Se qualquer coisa ruim acontecer, você sempre terá essa lembrança para acalentar o seu coração. Viver é sofrer, temos que sofrer para mudarmos, para amadurecermos, para adquirirmos força. O amor, contudo, é um alívio nisso tudo, é a pausa que a vida nos dá para respirarmos e apreciarmos o seu lado bom com plenitude. Se ao fim de sua vida você não tiver conhecido o amor, de que a sua passagem por esse mundo valeu?
Ailyn selou os lábios e mirou o chão, conversar sobre a brevidade da vida a aturdia, principalmente porque ela sabia qual seria o seu destino no momento em que desse o seu último suspiro. A sua alma estava prometida ao submundo, e ela mais do que ninguém sabia que teria que aproveitar a vida ao máximo, pois o que viria depois seria apenas dor e desespero, não por alguns anos, mas por toda a eternidade. Jurou não se lamentar, conhecia o preço quando assumira o compromisso, não olharia para trás, nenhuma lágrima desceu de seus olhos por isso ou por qualquer razão, apesar de sua voz em sussurros tremular:
— É tarde, não sei para onde ele foi.
Annabelle, sorridente, tirou de dentro da gola alguns fios negros de cabelo e depositou na mão da irmã.
— Não será difícil descobrir... — piscou um dos olhos.
— Você... — Os orbes dilataram, bem como o queixo quase caiu — que danada!
— Eu sabia que você seria orgulhosa, o mandaria embora e depois se arrependeria. Somos irmãs, afinal. — riu-se.
— Parece que a bruxinha branca conhece um pouco sobre o ocultismo! — brincou.
— Já se esqueceu de que eu li algumas partes daquele livro? — relembrou sem rancores, no mesmo tom jocoso da outra. Riram juntas.
— Obrigada, — a enxugar os olhos depois de tanto rir, guardou os fios da franja do Bankotsu no decote — Belle.
O sorriso de ambas fechou enquanto olhavam-se, a ruiva tomou a iniciativa de abraçá-la sem apertos, sem desespero. Passou os braços levemente em volta da irmã e fechou os olhos. Ailyn não a escorraçou dessa vez ou teve pressa de afastá-la, só fechou os olhos e passou as mãos pelas costas dela, por baixo das ondas alaranjadas.
— Cuide-se. — Annabelle sibilou.
— Você também.
E apartaram-se. Estranhamente mais disposta, Ailyn conseguiu andar sem precisar de suporte, então as duas prosseguiram a jornada até o limite da barreira do Monte Hakurei.
— Daqui, você segue para onde quer que ele esteja. — Annabelle falou conforme a irmã atravessava a película quase invisível. — E que tudo dê certo! — torceu.
— Desejo o mesmo para você. — de todos os votos que ela fizera, aquele soou o mais sincero. Um sorriso foi a resposta da ruiva. Em seguida, um portal se formou pelas costas de Ailyn, ela selou as pálpebras e proferiu alguns dizeres. Os cabelos rentes ao seu peito brilharam e ela saltou dentro do círculo esverdeado que a levaria para onde quisesse.
"Ora, ora... quem diria que as duas se reconciliariam?" — os preciosos rubis mantinham-se focados no cristal em forma de lua crescente. Dentro da vasta escuridão, apenas aqueles olhos maledicentes se mostravam em contraste à pedra transparente por onde ele via os acontecimentos referentes à Annabelle. Acontecera da mesma forma certa vez, ele lembrou: — "Quando ela tentou me matar e falhou, sua irmã veio buscá-la para cumprir o ritual e essa pedra ficou comigo" — um tentáculo aproximou a lua da cabeça flutuante de Naraku — "e eu pude ver tudo o que acontecia com ela... como posso agora." — os rubis piscaram lentamente — "lamentável, Annabelle, mas sua irmã tem razão, Bankotsu não há de durar muito. Os fragmentos dele e de seus irmãos precisam retornar a sua origem" — por trás da joia transparente, outra reluziu e o lume se espalhou como pontos de luz dentro da caverna de carne – a carne dele. —"Até Ailyn, uma mulher cega pela inveja e absurdamente egocêntrica teve o coração fisgado pelo amor" — um riso seco ecoou — "quando eu tiver meu novo corpo serei imune a isso, e então eu rirei de todos eles com gosto. Tudo será diferente. Tudo..." — o tentáculo que sustentava o pingente desfez o nó em volta de seu cordão e ele caiu sobre um monte de pedaços que se formava numa coisa só.
O sol começava a baixar no céu rosado, parte da esfera acobreada escondia-se por trás do topo daquele monumento de pedras, folhagens e flores. A ocidental arruivada e sua pequena companheira assistiam os fenômenos da natureza, sentadas na copa de uma grande árvore.
— Shinrinko, por que você sumiu por tanto tempo? — a voz da pequena Yoru tirou a atenção de Annabelle do monte.
— Ah, me desculpe, eu tive que fazer algumas coisas... você viu aquela luz no topo do Monte Hakurei? — apontou.
— Não vi nada não... — a menina meneou a cabeça.
— Deve ter sido impressão minha. — coçou o queixo, pensativa. — "Eu espero que tenha sido impressão! — corrigiu-se em pensamentos, afagando o peito com uma mão, o pequeno caco lá dentro aquecera discretamente e um repentino aperto causou-lhe ligeiro mal-estar, porém Annabelle não o compartilhou com a criança ao seu lado. Manteve os traços asserenados e buscou se concentrar nas maravilhas de uma paisagem calma, mesmo que uma voz interior tentasse alertá-la a todo custo que aquela calmaria teria os dias contados.
Continua...
¹: musiquinha que as crianças cantam no início do episódio 107 - "As primeiras lágrimas de Inuyasha" na dublagem BR, resolvi usá-la porque me soa como uma canção folclórica conhecida por toda a região, e Annabelle está vivendo próxima do monte, então... ^^
O braço de Bankotsu estava naquele estado porque ele veio da batalha contra o grupo de Inuyasha, ocorrido na ilha Hijiri nos episódios 112-113. Imaginem que essa luta ocorreu exatamente como na história original, a única diferença foi o modo como o braço dele foi curado. ^_~
Até o próximo!
Kissuuuuus!
