Capítulo 38 - Armadilha
Annabelle adiou o máximo que pôde a proximidade entre os dois, Naraku permaneceu onde estava, ainda a oferecer o pingente lunar de volta. Quando a jovenzinha quase podia tocar a peça, o hanyou propositalmente a trouxe de volta à palma e deu um riso breve.
A ocidental inevitavelmente recordou da última vez em que o viu e seu peito vacilou. Naquela ocasião, o híbrido estava tão vulnerável e disse-lhe coisas que a estremeceram tanto... E ali, diante dela, no presente, quem era? Havia qualquer intenção obscura por trás daqueles pequenos rubis, embora pouco deixassem ser transmitido.
Os dedos vis e frios convidavam os dela insistentemente. Ele a estava testando, Anna estava certa disso e não permitiria que o temor a paralisasse novamente, ainda que sentisse aquele olhos carminados tragarem-na de tão diretos. Pousou a mão sobre a dele e rodeou o cristal com os dedos, então os dele se fecharam sobre os dela, segurando-a com firmeza. Surpreendida, ela quase deu um pequeno pulo.
— Eu a matei. — grave, contou sem rodeios, mirando-a intensamente.
Annabelle abriu a boca para perguntar "quem?" e seus olhos dilataram de súbito.
Rememorou as palavras de Sesshoumaru:
— Tamanho esforço para se livrar de um empecilho tão besta... — e fez o comentário em leve tom de deboche.
— Que empecilho?
— Pergunte a ele quando tiver a oportunidade, mas não se esqueça... — parou e mirou-a de soslaio — a próxima pode ser você. — disse grave, e finalmente desapareceu dentro da névoa escura.
— Kikyou... — tremente, ela murmurou enquanto se sentia congelada por dentro. Naraku riu baixo e soltou a mão dela aos poucos. Belle impulsionou-se para trás no intuito de se afastar dele, os olhos visivelmente marejados perpassaram por toda a figura do hanyou novamente, e ela apertava a lua cristalizada contra o peito desesperado, prendendo a respiração para não se render a histeria. Sentia raiva, descrença e uma dor imensurável. Não, definitivamente, aquele não era o mesmo Naraku que a procurou quando esteve em pedaços!
— Gostou do meu novo corpo? — o algoz arqueou uma sobrancelha e se pronunciou discretamente sedutor — Sesshoumaru o danificou um pouco, mas já dei um jeito nisso. — enfim uma explicação para a razão de ele estar se reconstituindo no instante em que apareceu para ela. Todavia, no presente ela se importava apenas com a ação derradeira.
— Como você pôde? — a pergunta indignada soou sussurrada. Ele começou a se reaproximar, os passos pesados o levaram até ela e sua sombra a cobriu. Annabelle ergueu a face encarando-o com cada emoção a transbordar de seus olhos. O vilão parecia mais alto do que ela se lembrava, a mão que se aproximava de seu rosto também, bem mais robusta. Ela tentou se afastar e viu-se encurralada entre ele e a árvore sem folhas, então engoliu a amarga saliva e o indagou: — E agora está aqui para me matar, é isso?
— Isso depende, — sem alterações, o aracnídeo roçou as pontas dos dedos na bochecha da humana e contornou-lhe o queixo — você ficará em meu caminho?
O fragmento dentro dela pulsou e aqueceu, provando-a que aquele sujeito ainda tinha o mesmo efeito sobre ela e isso era evidente para ele também, mesmo que naquele instante Naraku não sorrisse, Annabelle tinha certeza de que ele se divertia às suas custas.
— Eu quero distância de você! — a ocidental conseguiu soltar a voz num grito.
— Estou vendo... — os olhos comprimiram-se maliciosos, ele podia sentir o cheiro das sensações dela, afinal.
— O que fez com ela?! — resistiria, estava decidida. A raiva pelo que ele fez havia de ser maior do que qualquer resquício de desejo que pudesse sentir por ele.
— O corpo de Kikyou, a uma hora dessas, é arrastado pela correnteza desse rio de miasma. — com satisfação, comentou enquanto baixava a mão de Annabelle a cobrir o busto, tirava de sua posse o cordão para que ele mesmo pudesse passar a fita em volta do pescoço dela e dar o nó, repetindo o gesto da dona dos cabelos flamejantes no dia em que decidiu erroneamente emprestar o colar a ele.
A Rosa Branca virou o rosto e cerrou os olhos, sem conseguir aguentar fitá-lo por um segundo a mais. Imaginar a sacerdotisa naquelas condições a aturdia, não conseguia acreditar que o maldito fora capaz de assassiná-la. Então, sentiu o pousar suave de uma mão em seu peito e suas pálpebras desencostaram. Voltou o olhá-lo, notou-o concentrado, uma luz branca saía da pele dela e perpassava aquela mão hostil, clareando o olho avermelhado no dorso. Naraku selou as pálpebras por instantes e assim que as abriu, sorriu levemente desgostoso e a encarou.
— Ainda não é o momento. — disse, confundindo-a. Por fim, começou a se afastar.
Estática no mesmo lugar, Belle o assistiu desaparecer dentro de uma névoa arroxeada e subir aos céus, se perdendo entre as nuvens. Então, cada parte do corpo dela estremeceu e uma sensação esmagadora subiu do estômago à cabeça, era fúria. Ao invés de jogar-se no chão e chorar pelas desgraças, a escocesa envolveu-se de luz e decidiu por primeiro procurar as pessoas que a acolheram durante meses, precisava saber se estavam bem. Em poucos instantes, a visão dela captou lume azulado na entrada de uma gruta escondida entre alguns arbustos, num local onde a mata sobrevivera, a uma distância segura de onde um embate caloroso acontecera, o ar ainda era puro. Annabelle pousou bem em frente e de imediato escutou a voz infantil:
— Shinrinko! — a luz azul cessou e Yoru veio correndo lá de dentro.
— Você conseguiu! — Anna se abaixou e a abraçou forte — Estou tão orgulhosa de você! — acarinhou a cabeça da menina.
— A sua lua... — a pequena reparou assim que apartaram o enlace — Ele devolveu!
Os dentes rangeram por baixo dos lábios cerrados, a descendente das fadas respirou fundo para conter a cólera ainda a queimar dentro dela e enlevou o olhar aos aldeões escondidos no fundo da caverna cheia de musgo, todos ainda visivelmente assustados pelos momentos de terror vivenciados. Só de repará-los em tais condições ela se condoía, pois culpava-se enormemente. As mãos se fecharam por baixo das mangas compridas.
— Eu não disse que ela voltaria? — Motoko veio saltitante e tocou o topo da cabeça de Yoru, arrepiando-a. Himawari permaneceu dentro da gruta, fitando-as aliviada.
— Yoru, Motoko, — Annabelle começou, mantendo-se sóbria — preciso que segurem as pontas aqui mais um pouquinho, tudo bem? — segurou nos ombros das duas.
— O que você vai fazer? — a carpinteira quis saber.
— Eu soube de uma coisa terrível que aconteceu a uma amiga minha, preciso encontrá-la o quanto antes. — respirou fundo, contendo o nervosismo.
— Vá, depressa! — Yoru afirmou e abriu um grande sorriso, embora cansada — Eu acho que ainda consigo sustentar uma barreira, e se qualquer coisa acontecer, temos Himawari que é boa com o bastão.
— Obrigada... — Belle afagou o rosto da criança e a abraçou mais uma vez, em seguida abraçou Motoko.
Longe de tudo e de todos, num ambiente escuro e frio, Naraku flutuava sentado dentro de seu campo de força, os tentáculos esverdeados às costas balançavam-se sutilmente, bem como a farta cabeleira negra dele. Numa das mãos, a Joia quase completa cintilava escura.
"Faltam apenas alguns fragmentos, um que ainda preciso descobrir o paradeiro, o de Kohaku, os de Kouga, o de Ailyn, o de Annabelle..." — piscou os olhos devagar, lembrando-se de quando tocou a mão ao peito dela e do que sentiu – uma queimação por dentro, e não era luxúria.
Se absorver aquele fragmento do jeito que está, você pode ser purificado no mesmo instante — as vozes dentro da pérola amaldiçoada disseram. Desde que ele se escondera no monte, o coral tornou-se cada vez mais incontrolável. No entanto, o que parecia insuportável de início tornou-se proveitoso. Seguir os conselhos daquelas vozes era um modo eficiente de ele se afastar de tudo aquilo o que considerava uma pedra em seu caminho – suas raízes humanas.
Enfim, seu coração não mais jazia no peito, e aquele vazio parecia confortá-lo na maior parte do tempo, porém, ao Naraku ver-se frente a frente com Annabelle, algo em seu interior causou um aperto imenso. Diante da expressão melancólica e enraivecida dela, o aracnídeo não conseguiu sentir prazer algum, e ao tocar a face fria de decepção, ele quase se sentiu gelar também. Amargurado, estava ciente de que não conseguira se livrar totalmente da humanidade dentro de si, ao menos daquela parte que tinha relação com a estrangeira.
Por que não a matou? — as vozes persistiram — Não seria mais fácil?
— Eu não quero matá-la. — resfolgou aborrecido — Não preciso fazer isso, Annabelle Rose não se colocará em meu caminho. — refez a sentença, como se a autocorreção fosse fazê-lo parecer se importar menos.
Então terá que dar um jeito de corromper aquele fragmento para poder retirá-lo de dentro dela. Sabe o que isso significa, não é?
— Sim... — passou uma mão pela testa, por baixo da franja rebelde. — "Terei que fazê-la sofrer".
Acha que é capaz, Naraku? — as almas dentro da pedra o desafiaram. Ele riu, mesmo sem se divertir, riu de nervoso.
Kanna adentrou o recinto sombrio, alumiando-o com sua silhueta esbranquiçada. Naraku fitou-a de soslaio, a garotinha segurava o espelho em mãos e no reflexo Ailyn, a gêmea da criatura que torturava os pensamentos do hanyou, escorregava sobre os escombros do monte caído, puxava pedras e jogava-as longe como se procurasse algo por baixo daqueles restos, ou melhor, alguém.
— Humpft! — ele desdenhou risonho, uma ideia se pincelou na mente.
Uma ideia nada benigna.
"Ela tem que estar em algum lugar por aqui!" — Annabelle sobrevoou cada ramificação daquele rio púrpura, e não conseguia encontrar nem mesmo um sinal. Ao perceber que já abusava do uso da energia e começava a enfraquecer, não teve escolha além de correr pelo terreno desértico e procurar de tudo que era jeito. E, mesmo cansada, com uma última esperança a tremeluzir dentro de si, ajoelhou-se sobre a terra, espalmou as mãos sobre ela e de olhos fechados concentrou-se profundamente em tudo o que o solo poderia oferecer. Visualizou raízes, vermes, restos, pedras e uma trilha foi se traçando em sua cabeça, até que ela percebeu algo de diferente não tão distante dali e correu, seguindo a intuição.
Freou os passos de supetão, enterrando os pés na areia escura. Onde o rio transformava-se em cascata, sobre as pedras e a balançar por conta da corrente de água venenosa, o corpo de Kikyou se encontrava a boiar com a fronte afundada e os longos cabelos soltos a ondularem-se em sincronia aos movimentos do líquido.
A aura de Annabelle a cingiu e ela não pensou meia vez antes de puxar a sacerdotisa pelos braços e tirá-la dali de dentro. Virou o corpo da mulher de barriga pra cima e notou seus olhos semiabertos, além de um pequeno sorriso se formar nos lábios pálidos.
— Você está viva! — a pôs no colo e apalpou-lhe o rosto, descobrindo-o dos fios lisos que se grudavam nos cantos — Você está viva! — lágrimas orvalharam os cílios arruivados. Prestando mais atenção na condição de Kikyou, percebeu a rachadura que começava no ombro e tinha fim no peito. — Eu não consigo acreditar que ele fez isso com você! — ajeitou-a nos braços.
—... como soube? — perguntou letárgica.
— O bastardo veio me dizer, em pessoa! — rosnou enfurecida.
—… e ele não tentou nada contra você? — fitou-a com atenção.
— Não... — confusa, mirou o além sem se focar em qualquer coisa, novo aperto consumiu seu peito. Ah, mas não queria dar espaço a pensamentos por ele! Chacoalhou a cabeça e voltou cada esforço seu à miko inerte em suas mãos. Tocou a ferida dela, fechou os olhos e a brancura enluvou seus dedos. — Eu vou curar você. — anunciou decidida e prosseguiu com o ritual. Inclinou-se, e desse modo tornou os rostos mais próximos. Se Kikyou não estivesse tão destroçada, talvez se sentisse embaraçada, só que Annabelle não se deu conta. Abriu a boca e de seu interior o fio iluminado desceu para adentrar a garganta da sacerdotisa.
A amada de Inuyasha também selou os globos turvos ao se sentir quente por dentro e em paz. Todavia, a luz de Annabelle não parecia conseguir dispersar todo o miasma, ou sequer fechar a enorme chaga. A ocidental tentou por mais tempo, e nada.
— Não adianta. — Kikyou tornou a mirá-la, as faces já afastadas — O veneno de Naraku está muito mais poderoso do que antes.
— Mas, mas eu tenho o dom de curar qualquer coisa viva! Isso é impossível! — apalpou os braços dela.
— Não, não é. — a outra deu um riso como se algo lhe fosse elucidado — Eu não sou uma coisa viva e meu corpo não é feito de carne e ossos.
Sem saber o que dizer, contudo finalmente entendida do que se passava, a escocesa mordeu o lábio inferior e pôs uma mão sobre o rosto, prendendo o ar para que o choro não a abatesse.
— Sabe o que é mais irônico? — Kikyou disse, — Ele me mandou para o mesmo monte que eu a orientei a vir, e eu não me dei conta. Nunca tinha prestado atenção naquele mapa que eu te dei — e ofegou, a voz cada vez mais fraca — Naraku pôs um homem moribundo em meu caminho para que eu me apiedasse, e cumprisse seu último pedido: enterrar uma mecha de seus cabelos no monte Hakurei. Foi dessa forma que me atraiu até o lugar onde seria o meu túmulo, assim ele disse.
— Kikyou, é minha culpa! — Belle enxugou os olhos com força, sem permitir que o choro se derramasse. — Há alguns meses, Naraku apareceu para mim quase derrotado e eu, com pena dele, emprestei esse meu pingente! — apontou o colar a enfeitar-lhe o pescoço — Essa pedra tem o poder de inibir a aura de quem a usa, e eu a emprestei para ele! Então, durante todo esse tempo, ele esteve debaixo de meu nariz e eu não pude perceber! — condenou-se, triste e raivosa ao mesmo tempo, mal tinha coragem de olhá-la nos olhos e lidar com o desapontamento que causara.
Uma mão fria tocou-lhe a maçã esquerda, causando pequeno choque.
— O seu coração é bom, fez o que achou ser o certo. — céus, aquela mulher talhada em barro parecia outra pessoa, a rigidez que a acompanhava não se mostrara nem por um segundo. Annabelle voltou a fitá-la e Kikyou tinha um sorriso tranquilo em seu rosto — Se quer me ajudar, leve-me para um lugar onde meus carregadores de almas possam me alimentar. — pediu.
— Sim, sim! — imediatamente colocou o braço dela em torno do pescoço e levantou-se, carregando-a de lado — Me indique um caminho.
— Bankotsu, onde você está? — Ailyn já estava rouca de tanto gritar por ele, caminhava errante pelas ruínas do monte e seus entornos. — Bankotsu! — girou, olhou para todos os lados, limpou a poeira do rosto e bateu na saia do vestido encardido.
— Não o encontrará mais. — Naraku surgiu às costas dela, provocando-lhe um grito de espanto.
A gêmea da mulher com quem ele se deitava rodopiou e deu um pulo para se distanciar. Ofegante, esbugalhou os olhos ao contemplar a aparência nova dele. O hanyou riu descontraído.
— O que faz aqui? — ela começou a dar passos para trás, um mais rápido do que o outro.
— Não se preocupe, vim apenas informá-la. — ereto em seu lugar de origem, a voz soou suave e constante.
— Informar o quê?! — ela, em contrapartida, se mostrava histérica. — Bankotsu! — insistiu em chamá-lo.
— Bankotsu está morto. Todos os guerreiros do Exército dos Sete estão. — sorridente, contou como se fosse algo corriqueiro.
— Está mentindo. — Ailyn meneou a cabeça em frenesi e tornou a olhar para os lados. — É mentira!
— Inuyasha o matou. — piscou os olhos devagar, tranquilo.
— Não, isso não é possível! Ele... — as mãos suadas contornaram o rosto apavorado, os dedos trementes enrolaram a franja puxando os fios dourados para trás — "Ele me prometeu que voltaria!".
— Bankotsu era apenas um humano no fim das contas. Poderia ter fugido com os fragmentos, no entanto resolveu ficar no monte para enfrentar Inuyasha e vingar a morte de seus irmãos. Quanta estupidez! — deu um riso discreto, ainda assim audível. — Foi engolido pelo poder da Tessaiga.
— Mentiroso! — esbravejou, enfim se impulsionando para a frente, a ira dominou o medo.
— Você se afeiçoou mesmo a ele, quem diria não? — uma das negras sobrancelhas ergueu, e os olhos escarlates dilataram-se levemente. Ailyn quis esgoelá-lo por aquele sorriso brilhante, porém ficou onde estava, com fogo a transbordar de suas turquesas. Ele prosseguiu: — O que sobrou dele jaz debaixo desses escombros... se é que sobrou algo. — e riu de novo, deliciando-se com o estado da Rosa Vermelha.
Depois de libertar um grito que se prolongou até a garganta arder, a mulher atormentada foi envolvida pela névoa esverdeada e apontou suas mãos a ele. Naraku permaneceu onde estava e com o mesmo estado de espírito, sem se importar com nada.
— Se quer se vingar de alguém, procure Inuyasha. — o campo de força o envolveu e ele começou a flutuar — Foi ele quem tirou a vida do homem que você amou.
— Volte aqui, peste! — correu na direção dele, o furor a dar espaço para o luto, a primeira lágrima rolou de seus olhos enraivecidos. Não o alcançou e não conseguiu se concentrar o suficiente para persegui-lo nas alturas, pois se tremia por inteiro, calor e frio circulavam dentro dela.
Um objeto caiu lá de cima e fincou-se no solo, bem ao lado da moça, as pernas dela vacilaram e Ailyn caiu sentada, de frente para a coisa: era uma espécie de foice acinzentada, composta em material parecido à adaga formada pelo corpo de Naraku quando ele tentou influenciar Annabelle a liquidá-la. Ah, sim, aquilo já acontecera antes! O coração dela saltou como se estivesse entalado na goela.
— Essa arma foi composta dos meus ossos, servirá de ajuda. Sem isso, você não dará conta de Inuyasha, assim como Bankotsu não deu. — das nuvens a voz dele ecoou como se pertencesse a um ser divino.
A estrangeira, engatinhou até se ver perto da foice, esticou o braço em sua direção, depois focou no monte de pedras adiante e repentinamente recolheu a mão ao peito, sem tocar no presente oferecido pelo meio-youkai. Às duras penas, Ailyn se ergueu e saiu correndo para longe, frustrando as expectativas dele.
"O que fará, Ailyn Rose?" — ele indagou em pensamentos, tão distante que a via como um ponto vermelho no meio da aridez.
— Então a sua amiga ficou bem? — Yoru perguntou enquanto observava Annabelle curar o tornozelo torcido de uma aldeã mais velha.
— Sim, — sorriu tranquilizada — e vai procurar por um lugar seguro para ficar, até se sentir melhor.
— Fico feliz por ela, senhorita Shinrinko, e por você, já que está mais animada. — a pequena ofereceu ajuda para outra pessoa com alguns ralados nos joelhos e cotovelos.
— Nenhum detalhe passa despercebido por você, não é mesmo? — a ruiva comentou, arrancando um riso sapeca da menina — Bom, acho que já podemos sair daqui de dentro e procurar um novo lugar para reconstruir o vilarejo.
Todos concordaram, a caverna definitivamente não era um lugar confortável para se viver. Então, saíram de grupo em grupo e seguiram a trilha atrás de Annabelle, como uma procissão. Ao cair da noite, cada um segurava uma tocha e assim eles alumiavam o caminho, o clima era frio e a paisagem tão soturna que Yoru andava abraçada a cintura de sua guardiã.
— Sabe, você tem irmã... — Himawari comentou a fazer um bico.
— Ih, olha só quem está com ciúmes! — Motoko cochichou, fazendo graça.
— Não é isso! — rubra, a mocinha de amarelo se defendeu — É só que desde que Shinrinko apareceu, ela quase não tem passado tempo comigo.
— Sua irmã tem razão, Yoru. — Annabelle disse amena e desconcertou a exterminadora de youkais que vinha atrás.
— Shinrinko, por favor não se ofenda, eu estava brincando! — Himawari chacoalhou uma das mãos, na outra balançou o cajado.
— De forma alguma, eu compreendo! — a ocidental a olhou por cima do ombro, sorria sem preocupação — Yoru, você tem sorte de ter sua irmã por perto, aproveite! — deu um empurrãozinho na pequena, direcionando-a à sua consanguínea.
— Pronto, satisfeita? — sutilmente emburrada, a pequena cruzou os braços, caminhando ao lado da mais velha. Himawari mostrou-lhe a língua primeiro, depois a puxou perto e logo a birra passou.
— Você tem irmãos, Shinrinko? — Motoko perguntou, puxando conversa.
— Sim, uma irmã, somos gêmeas. — contou, já com o olhar distante.
— Gêmea? Então existe uma moça igualzinha a você em algum lugar?
— Mais ou menos... — sorriu desajeitada, prosseguindo passo a passo, guiando-os todos a um novo rumo.
Durante o percurso, acabaram por contornar o monte e o vento pareceu mudar, ela fechou os olhos por instantes reconhecendo aquele tipo de brisa.
— O mar não está longe... — a senhora mais velha dentre aquelas pessoas, e a boa alma que acolhera Anna em seu casebre, comentou.
— Será que podemos viver perto do mar? — mostrou-se animada com a ideia, os olhos brilharam.
— Ah, sim, seria revigorante! — a anciã comentou. — Agora, precisamos dar uma pausa nas andanças e passar a noite em algum lugar por aqui. Sabe, minhas pernas já estão velhas e cansam rápido...
— Oh, perdão por fazê-la se esforçar tanto! — ofereceu o braço de apoio para que Keiko pudesse se abaixar e recostar numa pedra — Pessoal, vamos descansar por hoje, de manhã continuaremos a seguir caminho.
O povo, aliviado, começou então a buscar abrigo debaixo das árvores, sempre perto uns dos outros. Àquela altura, eles se encontravam floresta adentro, onde a flora e a fauna permaneciam intactas. O monte desabado e o terreno destruído ficaram para trás, embora dentro de Annabelle toda a decadência presenciada ainda a supliciasse. Ela não conseguia parar de pensar em como Naraku ressurgira, mudado não só na aparência como no jeito. A forma como ele a olhou a marcou como uma chaga. E o que ele fez, ou melhor, o que pensou ter feito, era não só inacreditável como imperdoável! Belle ainda podia sentir os rompantes da ira em seu peito, todo o seu ser chacoalhava em revolta às atitudes do hanyou e às sensações dela, mantidas em segredo.
Para se acalmar, ela respirou fundo e relembrou o encontro de mais cedo, e também, de um pedido:
— Ninguém deve saber que estou viva. — Kikyou declarou dificultosamente ao ser acomodada entre grandes raízes de uma árvore, sua mão cobria a de Annabelle — Nem mesmo Inuyasha, não conte nada a ele.
— Não se preocupe, eu nem tenho mais contato com ele. — ficara perceptivelmente triste ao lembrar da última vez em que viu o híbrido e seus amigos. Deveriam pensar que ela era uma aliada de Naraku e querer sua cabeça.
A sacerdotisa soergueu os olhos escuros ao céu e suspirou, seus fieis companheiros sobrevoavam e se achegavam a carregar novas almas para alimentá-la. Em breve, os espectros de luz adentravam-na, alumiando sua silhueta e a ocidental assistia silente.
— Acho que já consigo me mexer. — para ter certeza, Kikyou levantou um braço, e repetiu o movimento com o outro. Enfim, ela se levantou devagar, sem aceitar o apoio oferecido pela escocesa. — Não se preocupe, eu ficarei bem, conseguirei aguentar ao menos até encontrar Kagome, só ela pode me curar. — erguida, afirmou com segurança.
— Para onde você vai? — Anna seguiu os passos dela, intrigada com sua última afirmação.
— Obrigada por tudo. — virou-se para ela — Se não fosse por você, talvez Naraku tivesse conseguido cumprir sua missão. Infelizmente para ele, ainda não era minha hora.
— O que vai fazer? — insistiu, ansiosa.
— O que você não é capaz. — e com isso, ela deu as costas e caminhou devagar, as pernas a bambolearem levemente, os carregadores de alma, por fim, enrolaram-se a ela e a levaram embora antes que a outra moça pudesse perguntar qualquer coisa a mais.
"O que eu não sou capaz" — sentou-se na grama, ao seu redor várias pessoas já estavam aninhadas e adormecidas. — "Matá-lo" — compreendeu o sentido da frase — "Não consigo matá-lo" — abraçou-se às pernas — "Não consigo sequer pensar em fazê-lo". — e o coração doeu, preenchido pela dúvida. Por um lado, ela torcia para que outros conseguissem eliminá-lo e então a paz seria restaurada naquelas terras, naquelas vidas. Por outro, ela jamais conheceria a paz, pois com Naraku vivo as mazelas dela e de outros não teriam fim, e com ele morto, a dor da perda a consumiria a ponto de enlouquecê-la. Não gostava nem de imaginar o que seria de si, temia o futuro mais do que a morte e estava cansada de tentar preencher o vazio que ele deixara dentro dela.
Ouviu um som bem próximo, era Motoko virando de um lado para o outro, amassando a grama embaixo de seu corpo angustiado.
— O que foi? — Annabelle perguntou.
— Eu não sei... — enxugou a testa e balançou as pernas — não é perigoso ficarmos aqui? Será que não há youkais a espreita, querendo devorar a gente?
— Durma tranquila, eu ficarei acordada e de olho em tudo. — pousou o queixo nos joelhos.
— Tem certeza? Você vai ficar exausta.
— Ah, se você soubesse como estou acostumada a passar noites em claro... — riu de leve — Pode dormir, se por acaso eu ficar sonolenta posso chamá-la e trocamos de turno.
— Tá bem, então. — mais calma, a menina fechou os olhos e remexeu o corpo até encontrar conforto ao ficar de bruços. — Boa noite, Shinrinko.
— Boa noite... — murmurou.
E chegou a hora do dia que mais a angustiava, aquela em que todos dormiam e ela se flagelava com pensamentos e recordações. Olhou adiante sem reparar em nada, no lugar dos arbustos, das ervas e das flores ela vislumbrava uma memória de algumas horas atrás. Dessa vez, não pensava em Naraku e sim em Sesshoumaru, na frieza da voz e das moedas d'ouro. Não que ele já tivesse se portado de maneira muito diferente, contudo ela sentia um desapontamento vindo dele e se perguntava se seria porque ela escolheu ir embora, tinha certeza de que o youkai sabia o que sua partida significara. Todos estavam contra ela, e se as pessoas a sua volta soubessem das coisas que viveu com Naraku, também ficariam.
Ah a noite, e o ócio... péssimas companhias para quem toma todas as responsabilidades para si e esse era o caso de Annabelle. Se culpava pelo estado de Kikyou, e percebia que se culparia caso qualquer coisa ruim acontecesse a quem fosse, sendo pelas mãos do aracnídeo. Estava tão ligada a ele que não sabia até onde as ações do vilão se findavam e as dela tinham início. Como poderia tomar uma posição? Seria o fragmento em seu peito a razão de sua empatia por Naraku, além do desejo?
Lembrou-se novamente da última vez que estiveram juntos, antes de reencontrá-lo em seu novo e exótico aspecto, os olhos do hanyou transbordavam tristeza e apavoramento, o toque esbanjava desespero, e ele disse com todas as letras que não poderia deixá-la ir. No presente, Annabelle estava convicta do desapego dele, ainda assim, o bastardo não tirara aquele pedacinho de inferno da pele dela. Por quê?
"Merda, Naraku!" — apertou a saia dantes branca, a esse ponto quase amarelada e cheia de rasgos. — "Como eu me livro de você?" — a divagação a estremeceu, a razão queria liberdade, a emoção a revolvia de dor só por cogitar tal ideia, aprisionando-a naquela dualidade penosa.
E assim, as horas foram passando numa vagarosidade cruel até que o primeiro raio solar atravessou algumas folhas de árvore partindo-se em trés feixes de luz dourada. A manhã era tão fria que uma camada de neblina formou-se a abraçar o gramado, as pessoas se encolhiam ainda adormecidas, o astro diurno viera tímido, pouco fazia para aquecer os desabrigados. Annabelle suspirou e vapor saiu de seus lábios.
Ouviu som de passos, alguém se aproximava e atravessava o fino véu esbranquiçado. A ruiva reconheceu na hora.
— Ailyn... — levantou.
A outra cessou a peregrinação, os ombros baixos denunciavam o seu cansaço. Anna se achegou devagar, pisando com cuidado na terra para não acordar ninguém.
— Ele está morto. — a loura disse fracamente, as turquesas a fitar o chão verdoengo — Morto... repetiu apática e sua gêmea não precisou perguntar sobre quem ela falava, só pelas feições letárgicas e pela voz soar num fio, Annabelle sabia.
— Ah, minha irmã... — afagou os braços inertes, como se tentasse aquecê-los. Os orbes tremelicaram comovidos, ela conhecia aquela sensação horrível que sua consanguínea tinha o azar de experimentar. O que dizer a ela? — Eu sinto muito, muito mesmo! — a abraçou e afagou-lhe a cabeça, induzindo-a a encaixar o queixo em seu ombro. — Como isso foi acontecer?
— Traga-o de volta. — ainda catatônica, disse sem retribuir o abraço.
— Onde ele está? — não resistiu ao pedido, sentia dever isso a ela.
— Em algum lugar debaixo daquele monte. — contou.
— Espere aqui. — pediu com cautela e foi até Motoko. Tocou-lhe o ombro e a sacudiu levemente, a menina acordou de imediato, jogando os braços para cima e olhando para os lados.
— Hã, hein? O que foi? — perguntou desorientada.
— Motoko, hora de trocar de turno. — sussurrou. — eu preciso ir a um lugar, devo voltar no início da tarde.
— Certo, certo! — abanou a cabeça positivamente, virou o rosto para os lados e parou ao mirar Ailyn à distância, pálida e abatida como uma assombração. — "É a irmã dela!" — admirou-se com a semelhança entre as mulheres.
— Vamos logo! — a ocidental arruivada se achegou à loura depressa e cativou seu braço. — Segure-se em mim. — a outra obedeceu sem questionamentos e as duas alçaram voo, em outra ocasião a Rosa Vermelha a teria enchido de perguntas sobre aquela habilidade e ela teria que confessar conseguir realizar tal façanha por causa da Joia de Quatro Almas, mas o momento recente era diferente de qualquer coisa que viveram juntas no Japão.
Chegaram às ruínas do monte, e Annabelle mal respirou antes de erguer os braços para o alto, fechar os olhos e concentrar suas energias nas pedras aglomeradas. Uma por uma, as rochas começaram a flutuar junto com alguns grãos de areia, Ailyn aproveitava e buscava em cada buraco que se abria algum vestígio de seu estimado mercenário, e nada aparecia. Incansavelmente, ela ia procurando aflita, alguns pedregulhos que ainda jaziam no chão ela empurrava ou rolava, e as duas ficaram ali por toda a manhã, até a abençoada pelas fadas começar a perder o vigor e os objetos flutuantes tremerem nos ares como se quisessem voltar ao seu lugar de origem.
— Ailyn, eu não aguento mais... — avisou, as pernas tremiam e o joelho já dobrava.
— Aguente! Use o poder da Joia! — ordenou, também exausta, mas se arrastando pelos escombros, imunda de pó.
— Saia daí, agora! — rebateu a ordem com outra.
Sua irmã poderia estar miserável, todavia compreendeu o que se sucederia e ainda tinha algum apreço pela vida. Rolou para fora dos restos e contemplou a chuva de pedras. Belle caiu sentada, o suor fazia sua pele brilhar.
Ailyn ergueu-se afervorada e correu até a parente, puxou-a pelos braços e a obrigou a ficar de pé.
— Eu sinto muito... — ofegante, a Rosa Branca meneou a cabeça, cada traço em si demonstrava absoluta tristeza — Eu sinto muito! — repetiu, cobrindo o rosto com uma mão.
— Como assim sente muito? — a outra, desassossegada se pronunciou — Faça alguma coisa! — e a sacudiu pelos ombros.
— Você não entende... — tentou explicar.
— Ah, mas eu entendo muito bem! Já vi você agir covardemente antes! — a entonação firme de Ailyn cobriu os murmúrios de sua irmã — Por que eu pensei que seria diferente dessa vez?!
— Lynnie... — cativou as mãos dela e foi rispidamente empurrada, acabou sentada sobre a terra outra vez, surpreendida pela cólera repentina.
— Como eu pude cogitar a ideia de perdoar você?! — bradou, quase espumando de ódio. Depois andou em círculos, os dedos cravados à cabeça adornada por cachos. Entre gemidos e sussurros ela começou a urrar, a rosnar, a arrastar as unhas pelo rosto. — Você é uma inútil, não merece o poder tem! Isso é tão injusto! — vociferou, e tornou a produzir sons esquisitos, como se fosse um animal raivoso.
— Lynnie! — Annabelle persistiu a chamá-la pelo apelido de infância, o choro começara a se derramar.
— Não me chame desse nome! — virou-se para ela abruptamente, apontando-lhe o dedo — Eu renego você!
— Pare com isso! — ela se levantou e correu até a gêmea, recebeu novo empurrão.
— Como você pode me negar isso?! Já não bastou me negar meu pai? Amelie?! — gritou, jogando na cara de Anna os martírios do passado.
— Nosso pai me fez prometer que eu não o traria de volta! Amelie, nem as cinzas dela sobraram, e de qualquer jeito, aquela mulher nunca mereceu o seu amor, ela nunca se importou com você ou com ninguém! — endureceu a postura para se fazer ouvir, segurando os pulsos dela para que as agressões cessassem.
— Mentira, Amelie era a única que se importava comigo! — rebateu furiosa — Depois dela, somente Bankotsu demonstrou qualquer tipo de sentimento por mim!
— Isso não é verdade!
— É sim, cale a boca, você não entende! — grunhiu e agitou os braços, esmurrando os ombros de Annabelle freneticamente — Eu odeio você, odeio tudo o que você representa! Por que não morre, sua vadia? Por que não morreu no lugar da mamãe, ou do papai, ou de Amelie?! — o rosto ardeu infernalmente e o corpo dela cambaleou — Ah! — gritou de dor, cobrindo a maçã injuriada com uma mão, e então um estirão a trouxe de volta aos braços daquela a quem gostaria de escalpelar.
Depois do tapa, Anna a abraçou forte, prendendo-a dentro do enlace para impedi-la de agir com violência.
— Eu entendo, e como entendo! — falou ao ouvido dela, entre soluços – Também perdi pessoas amadas, também perdi o homem a quem entreguei o meu coração! Eu nunca quis que você tivesse que passar por isso! Mas, minha irmã, eu não posso fazer nada se não existir um corpo...
As mãos de Ailyn soquearam as costas dela e foram parando aos poucos, até repousarem abertas sobre o tecido encardido do quimono. Então, a mulher que parecia uma fortaleza se desmontou em pranto.
— Por que você foi me aconselhar a procurar por ele? Não percebe como isso foi cruel? Eu não queria isso, eu não queria ser como você! — soluçou também — Olhe para mim agora!
— Você vai ficar bem! — acarinhou os cabelos dela, apertando-a fortemente, aquecendo-a.
— Bem, como você?! — dentro do choro, deu um riso ácido — Nunca passa, Annabelle! O vazio deixado pelos que se foram nunca passa, e é pior quando sei que quando eu morrer, não encontrarei nenhum deles, porque vendi minha alma ao diabo!
— Deve haver um jeito de reverter isso, nós resolveremos juntas! — insistiu em mostrar uma luz dentro daquela escuridão toda, mas não foi convincente. O seu reflexo dourado se afastou, enxugou os olhos e riu, ria enquanto chorava, não havia esforço que fizesse as gotículas salgadas pararem de rolar. — Ailyn! — a chamou.
— Você é ridícula, Annabelle! — abraçou a si, alisando as mangas avermelhadas como se tentasse se limpar do toque.
— Espere, não vá, temos muito o que conversar! Principalmente sobre o nosso passado! — apertou o andar para estar perto dela.
— Eu não quero mais ouvir qualquer coisa vinda de você! O som de sua voz me enoja! — vociferou, atrás de si um portal abriu e ela se jogou lá dentro antes que o objeto de sua ira a alcançasse.
— Ailyn, não! — segurou o nada, não chegou a tempo e não fazia ideia de para onde a gêmea iria. Amaldiçoou-se por ter perdido o que conquistara com tanto esforço, ela tinha tanta esperança de que sua única família finalmente se aproximaria... E tudo se perdeu, por causa de...
— Que massante... — a voz dele interrompeu-lhe o raciocínio.
— Naraku. — falou entredentes, a respiração acelerou. Sabia que ele estava às suas costas.
— Ao menos ela aprendeu uma boa lição, estava merecendo, não? — pacato, comentou.
— Você é o responsável por isso, não é?! — virou-se para ele, as mãos cerradas.
— Eu? Hu, hu, hu! — riu a deleitar-se — Quem deu fim à vida de Bankotsu foi Inuyasha.
— Ailyn sabe disso? — o sangue congelou nas veias. A sensação tenebrosa piorou ainda mais diante da falta de resposta. O sorriso dele se alargou.
Os olhos dela se arregalaram e seus pés a levaram até o hanyou numa corrida desesperada. De frente para o pivô de seus tormentos, Annabelle o esbofeteou no ombro descoberto por armadura, arranhou seu rosto e seu pescoço, as feridas se regeneravam tão logo eram abertas. Naraku poderia a ter repelido, no entanto sequer se mexeu, a cada golpe recebido ele gargalhava em alta voz. Permitiu que ela o violasse até se cansar e arquear o corpo para a frente, apoiando as mãos em seu peitoral composto por ossos rijos.
— Maldito, eu quero assistir a sua queda! — arfou — Eu quero te ver em pedaços! — vomitou as ofensas — Qualquer coisa que eu possa ter sentido por você morre hoje!
— Oh, é mesmo? — aparentemente indiferente, Naraku conteve o rosto da humana entre os dedos, quase engolindo-o nas mãos e a forçou a encará-lo. Imediatamente, o fragmento no peito dela – levemente escurecido – palpitou, amolecendo as articulações nervosas. A raiva ainda transbordava dos olhos azuis, ainda assim o coração acelerado a entregava, bem como a inaptidão para responder, para escorraçá-lo. Bastou que o polegar do hanyou lhe resvalasse o lábio e as pálpebras pesaram. O corpo dela ainda gritava, implorava pelo dele. Então, a boca quente do mestre das mazelas roçou-lhe a bochecha e se encaminhou ao ouvido, arrepiando-a, para enfim dizer em tom grave e aveludado: — Eu acho que não. — seguido do pronunciamento, novo riso debochado. Enfim, ele a soltou como se nada acontecera.
Annabelle andou para trás, encolhida, estremecida, a fúria em seu íntimo não fora domada, porém mesclara-se à melancolia. Não queria, lutava contra, e no fim das contas acabava por ceder às lembranças de um tempo em que aquele sujeito chegou a olhá-la com carinho, e o pior de tudo era que ela sentia muita, muita falta daquela época que parecia tão distante quanto um devaneio.
— Por que está fazendo isso comigo? — murmurou roucamente, com a vista cravada nele. — O que eu fiz para você?
O sorriso dele se esvaiu, os lábios selados não promoveram um ruído sequer. Os olhos, fixos nela, sombrearam e Anna não saberia dizer a razão, acreditou ter visto ódio dentro deles, como via nele todo.
— Eu estava indo bem, seguindo a minha vida, quase nem pensava mais em você. Você não teve tudo o que queria de mim e por isso me mandou embora? — a voz embargou na garganta, ela respirou fundo, pois havia mais a questionar, e seu coração que trepidasse o quanto tivesse vontade, ela não se calaria ou se renderia ao pranto, que se danassem as finas lágrimas que escorriam de seus olhos incendiados de rancor, Belle prosseguiu: — O que mais você pode querer arrancar de mim? O que foi que você ainda não teve?
— Tsc! — o cenho dele franziu sutilmente, embora o peito estivesse vazio, as partes vívidas podiam sentir o frio a percorrê-las e a sensação de desagrado o consumiu dos pés à cabeça. E o mais estranho era ele saber que obtivera sucesso, porque podia perceber uma aura arroxeada envolver o pequeno pedaço de gema dentro dela. A escuridão crescia, à espreita, em torno do ponto de luz branca no centro da peça no peito de Annabelle.
— Isso tudo é por causa da noite em que estive com Hitomi pela última vez? — e a pergunta o acertou como uma flecha.
— Como é? — mal acreditou no que ouvira.
— Está se vingando de mim porque sabe que me deitei com ele. — a mulher desencolheu e assumiu uma postura confiante de uma hora para outra. Acatou a teoria como um fato e por esse motivo não perguntou, afirmou com convicção e deu continuidade: — Pois saiba que eu não me arrependo nem por um instante, e se houvesse outra oportunidade, me deitaria com ele outra vez. — as últimas palavras tiveram como propósito feri-lo e nada mais, não tinham compromisso algum com a verdade.
O semblante do demônio-aranha nevoou, o olhar pareceu brevemente opaco e seu respirar foi tão audível que as orelhas humanas captaram.
— Não me interessa com quem você se deita ou deixa de deitar. — disse, grave, e então um sorriso maníaco recoloriu a face cruel — Mesmo na morte, não seria atípico Kagewaki se contentar com as sobras. — assim que a testemunhou corar de raiva, gargalhou. Porém, nem ele saberia explicar a razão da galhofa, se ele sentia tudo, menos satisfação.
A esperou espernear, ou talvez atacá-lo com unhas e dentes, enchê-lo de bofetões, e recebeu o silêncio. Depois de engolir cada palavra exprimida com tamanha frieza por ele, Annabelle meneou a cabeça e cerrou os lábios, suspirou profundamente e passou ao lado dele sem se dar o trabalho de olhá-lo. Naraku se virou e contemplou-a ajoelhar, afundar as mãos na terra e ser coberta pela aura límpida.
— O que está fazendo? — perguntou a observá-la por cima de um ombro, foi ignorado. — Procura pelos restos de Bankotsu? — cogitou, e percebeu ter acertado. Quando a ocidental se deu conta de que nem daquela forma encontraria o guerreiro, voltou a erguer as pedras com o poder de sua energia e lançá-las longe. — Desista, Annabelle, não sobrou nada. — comentou, indiferente.
Ah, aquela frase, como soara familiar! E era... ela se lembrava bem de quando perdera o primeiro amor e quem foi o causador de sua dor.
— Ele foi engolido pelo seu miasma? — perguntou, seca, de costas para ele.
— Oh, não... como eu disse, Inuyasha acabou com ele e por acidente acabei absorvendo os restos, bem como absorvi o interior do monte Hakurei. — contou como se fosse um episódio corriqueiro.
— De que os restos de um humano servem para você, por que não os joga fora? — indagou, de pé e ainda sem fitá-lo.
— Mesmo se eu quisesse não poderia, os ossos de Bankotsu já foram dissolvidos dentro do meu estômago. — enlevou o rosto ao firmamento arroxeado, assim que ouviu passos repentinamente, tornou a olhá-la. Annabelle se afastava. — Vai atrás de sua irmã?
— Não é assunto seu. — a voz soou de longe — Apareça quando for para tirar essa maldição de mim, — estancou, sempre sem olhar para trás — e depois disso, não me procure nunca mais. — enfim, retomou a caminhada rumo a lugar desconhecido por ele.
Naraku girou o corpo devagar, seus rubis indecifráveis ainda a enxergavam, mesmo que de longe, e não davam uma piscadela. Os dedos das mãos moviam-se sutis, roçando uns nos outros, e os lábios, desbotados, mantiveram-se retos, levemente espremidos. Quando, enfim, a humana desapareceu, o hanyou baixou a cabeça e semi cerrou os olhos, o vento balançou as ondulações negras contra o rosto pálido sem ao menos ser sentido. De repente, sentir-se oco não pareceu tão reconfortante.
— Shinrinko, está atrasada! — Motoko resmungou tão logo a viu — Disse que chegaria no início da tarde, e veja só a altura do sol! — e em pequenos pulos se achegou da moça que vinha quase a se arrastar enquanto andava pelo meio das árvores, as turquesas desprendidas de tudo.
— Desculpe... — a linearidade do timbre causou espanto na menina que a abordara, e em Yoru, sentada em roda com alguns dos aldeões comendo um pedaço de carne assada na brasa.
— Himawari caçou o nosso almoço, junte-se a nós. — com um sorriso embaraçado, Motoko apontou o grupo sentado em conjunto e sugeriu.
— Estou sem fome. — apática, falou. — Quando todos tiverem terminado, podemos seguir caminho.
— O que é que ela tem? — uma menina cochichou com outra. Yoru, perto das duas, angustiou-se.
Belle sentou perto de uma moita, afastada de seus companheiros, e abraçou-se às próprias pernas. A anciã a fitava com discrição.
Se Annabelle era a definição da letargia, Ailyn era o rebuliço em pessoa. Conforme seus pés tocavam o chão, os vultos esverdeados choramingavam e envolviam a natureza ao redor, secando-a ao talo. Em breve, o lado do bosque que ela perpassava se tornou um pântano sombrio, cheio de espectros flutuantes e neblina.
Cansada, deprimida e indignada, a Rosa Vermelha sentou sobre um pedregulho e afundou os dedos nos cabelos dourados, mesmo cessando os movimentos, a respiração prosseguiu acelerada, bem como o coração ansioso tremia dentro do peito. As palmas geladas afagaram as maçãs esbranquiçadas de horror, enquanto a ocidental rememorava a vida em feixes, até o último dos poucos momentos de alegria.
— Bankotsu, seu idiota... — cobriu os olhos com as mãos — Me prometeu que sairia vivo de lá!
— Não culpe Bankotsu. — uma voz infantil e inexpressiva cativou a atenção da mulher de luto — Culpe quem o matou. — primeiro, Ailyn enxergou apenas uma forma toda branca através da bruma acinzentada. Aos poucos, a imagem da garotinha tornou-se nítida, e não só. Ao lado da criança, vinha um enxame de insetos venenosos que carregava um objeto familiar – a foice que Naraku oferecera de presente.
— Inuyasha... — Ailyn lembrava-se bem do rapazote de cabelos prateados em roupas vermelhas.
— Mostre a ele o que é a dor de perder a quem se ama. — orientou sem demonstrar comoção — Mate Kagome primeiro, depois livre-se dele. — finalizou. No espelho, a imagem da jovem reencarnação de Kikyou se desenhou.
Ailyn, ereta, suspendeu os braços e a arma talhada em ossos de aranha flutuou até seu toque como se fosse atraída por ele.
— Atchim! — o corpo da viajante de tempos futuros se tremeu todo com o espirro.
— Ih, Kagome, tem alguém falando de você! — Shippou comentou risonho, a mocinha riu também.
— Ou está ficando doente... — Sango tapou a boca com as mãos.
— Nem brinca com isso! — a outra abanou as mãos — Estamos cada vez mais perto de derrotar o Naraku, e além disso eu tenho que estar com boa saúde para ir bem nos exames da escola!
— O que seriam esses exames de escola? — Miroku coçou o queixo, pensativo — Por acaso é um novo tipo de guerra?
— Meio que isso... — Kagome coçou a cabeça enquanto segurava o riso.
— Ei, seus lerdos, vamos logo! — bem mais a frente, Inuyasha esbravejou, impaciente como sempre.
— Ai, tá bom! — a reencarnação de Kikyou respondeu e apertou o passo, no entanto, uma brisa estranhamente fria a fez estagnar enquanto os outros seguiam a trilha do meio-youkai cachorro. Ela se voltou para trás e focou os orbes castanhos nos arbustos e nas árvores que chacoalhavam, premeu as pálpebras, atenta a qualquer coisa embrenhada na mata e a raposinha em seu colo cutucou-lhe o braço.
— O que foi, Kagome? — o pequenino perguntou em ares de preocupação.
— Nada não! — sacudiu a cabeça e sorriu — deve ter sido impressão. — girou o corpo e foi saltitante até os amigos queridos.
Continua...
É gente, no próximo capítulo vai rolar um encontrão de personagens, e uma treta bem básica com direito a gritos, lágrimas, gente lavando roupa suja... uma dose saudável de desespero, sabem? Porque quando Naraku move suas patinhas, alguma cagada acontece, é de praxe. ^^''
Então, o Sesshoumaru meio que sentiu o cheiro da Annabelle, foi tirar a prova se era ela e aproveitou para ser bossalzinho, coisa que o nosso cachorrão curte pra caramba. Isso aconteceu pouco depois de ele ter acertado o Naraku. Lembram-se que depois do aranhudo "matar" a Kikyou, o primeiro que o encontra é o Sesshy. Então, depois disso (uns minutos, meia-hora, sei lá), ele sentiu o cheiro da Anna e foi lá dar um alerta à moda dele.
Sobre a Kikyou, aí está mais um fato que tomei a liberdade de modificar na série original, fanfic é isso né? Hehehehe.
Digamos que ela consegue assumir aquele disfarce e invocar o espírito daquelas duas meninas graças à ajudinha que teve de Annabelle. No entanto, como a nossa ruivinha só pode regenerar seres vivos, feitos de carne e espírito, não foi possível que ela recuperasse a sacerdotisa de todo - e por isso, a incumbência de curar Kikyou continua a ser de Kagome (acho que isso não pode mudar mesmo).
Espero que tenha ficado tudo certinho e vocês não estejam com muitas dúvidas. Qualquer coisa já sabem, é só perguntar nos comentários que eu esclareço com todo o carinho.
Kissuuuus!
