Capítulo 39 - Vingança

Era noite, os únicos sons a ecoarem das profundezas da mata eram o canto agudo de grilos e o coaxar rouco dos sapos. O grupo de amigos, sempre peregrinando juntos, se amontoou ao redor de uma fogueira, cada qual deitado para um lado, apenas Inuyasha cochilava sentado e de braços cruzados. Sango descansava com as costas amparadas pela fofura do pêlo de Kirara, Miroku recostara-se às raízes de uma árvore e abraçava o cajado dourado, Kagome e Shippou dividiam o saco de dormir.

Uma abrupta mudança climática despertou o meio-youkai por segundos, fazendo-o abrir um olho só. Como não sentiu qualquer presença maligna ou cheiro desconhecido, suspirou e se asserenou, pois acreditava que o frio repentino era apenas mais um fenômeno da natureza. Depois de poucos minutos, o hanyou já dormia como todos os outros, e foi nesse momento que uma fumaça escura se aproximou do leito improvisado, sorrateira e silenciosa.

A bruma tenebrosa se aproximou dos lábios entreabertos da adolescente que respirava pesadamente e adentrou-a não só pela boca, mas pelas narinas e orelhas. Então, os olhos de Kagome abriram-se devagar – verdes e brilhantes, porém sem expressão. Cuidadosa, a menina deu um jeito de se sentar sem que a raposinha a roncar fosse remexida. Shippou não percebeu ter ficado sozinho naquele saco de dormir, ninguém a notou levantar e caminhar na ponta dos pés, cambaleante, com os braços a balançarem para os lados. A viajante do tempo se afastou pouco a pouco, até se perder dentro da mata, dentro da noite.


Isso tudo é por causa da noite em que estive com Hitomi pela última vez?

Como é?

Está se vingando de mim porque sabe que me deitei com ele. Pois saiba que eu não me arrependo nem por um instante, e se houvesse outra oportunidade, me deitaria com ele outra vez.

Os olhos avermelhados piscaram vagarosos conforme o peito dele subia e descia num árduo respirar. O grande orbe em seu tronco girava para os lados, aflito, e os de suas mãos piscavam, como se cada janela sua para o mundo exterior se sentisse angustiada, e de fato estavam. Todo pedaço dele se revolvia como se a qualquer momento Naraku fosse desmontar, ainda que seu novo corpo fosse mais forte do que nunca e tivesse sido lapidado com o maior zelo. Todavia, alguma lasca sua não ia nada bem, e ele podia sentir a agonia, o furor, a escuridão a esmagá-lo. Ao mesmo tempo, não sentia vontade alguma de rebelar-se, de gritar, e o sangue não o esquentava. Ele sentia e não sentia, era composto de fogo e gelo. Seria o caso de sua mente estar a pregar peças?

O coração estava longe, quase inalcançável, já a mente permanecia intacta, cada parte do labirinto que a compunha se conservava dentro dele, e parte da composição das mentes são as memórias...

Naraku não conseguia controlar o ímpeto de seu cérebro a fazê-lo lembrar das amargas palavras de Annabelle, da mesma forma era incapaz de conter as imagens que se desenhavam em seus pensamentos do que poderia ter acontecido naquela noite, das coisas que ele não viu, que preferiu se abster de presenciar.

Os globos de sangue se fecharam, as longas pernas se desdobraram e ele se pôs de pé. Escondia-se numa cabana de madeira semelhante ao casebre onde possuiu Annabelle pela primeira vez e onde o espectro ou o que quer que fosse de Hitomi também a tomou.

"Como isso foi possível?" — amargo, perguntou-se. O cenho franziu. As pressuposições se misturavam às recordações de momentos vividos ao lado da escocesa, e de repente pareciam valer o mesmo que nada. Ele fora um consolo apenas, já que ela não poderia ter o que realmente queria...

Um sorriso se alargou na face alva, os rubis elevaram-se e focaram a paisagem além da pequena janela. De que importava tudo aquilo, afinal? Naraku abriu a mão e da carne de sua palma a Joia emergiu escurecida. O peso que ele sentia por ter que fazer a humana sofrer para enegrecer o fragmento dentro do peito num repente pareceu mais leve. Ah sim, sem perceber Annabelle dera ao araneídeo uma arma que antes não tinha contra ela: motivo.


— Shinrinko, é hora de você comer alguma coisa... — Motoko pousou a mão no ombro encolhido.

— Não tenho fome, obrigada. — Annabelle permanecia letárgica, seus olhos não focavam em nada específico.

Já era manhã, os refugiados aglomeravam-se em volta das frutas que conseguiram colher com algum esforço, somente ela se mantinha distante, sentada debaixo de uma árvore. De onde estavam, podiam ouvir o som da água e apesar de Anna acreditar que aquela melodia viesse das ondas e amar o mar profundamente, não se animava. Seus sentidos e sentimentos amargavam, não só pelo encontro com Naraku, mas pela culpa que secretamente carregava. Olhar, lidar com aquelas pessoas doía, porque ela sabia que por um triz o sangue delas não fora derramado, e por um deslise seu. Além disso, ainda tinha perdido a confiança da irmã, reconquistada com tanto esforço. De mãos atadas diante da perda que sua gêmea sofreu, e por entender precisamente o quanto aquilo era difícil, Anna se martirizava, sentia-se sufocar. Seu coração pedia que ela procurasse por Ailyn, só que ela não poderia deixar aquelas pessoas à míngua, devia muito a elas.

Estava decidida, primeiro encontraria um lugar seguro para abrigá-los, depois iniciaria uma jornada em busca de Ailyn.

Assim que todos terminaram de comer, a ocidental se levantou e tornou a guiá-los no sentido do litoral. Yoru continha-se para não enchê-la de perguntas, no entanto a seguia como uma sombra e não conseguia esconder a preocupação. Infelizmente, na situação presente, Annabelle não tinha forças para fingir sorrisos e por isso se limitava a caminhar sem olhar para trás.


— Teve bons sonhos? — Kagome ouviu uma voz feminina a soar baixa, nebulosa, conforme ela abria os olhos dificultosamente.

"Minha cabeça está latejando!" — a mocinha gemeu de dor, tentou mover os braços e as pernas e falhou. — O que é isso?! — algo a prendia, não eram cordas ou correntes, era uma energia tão pesada que a enfraquecia. Os globos castanhos, ainda embaçados, estreitaram-se para mirar quem estava de pé à frente. Reconheceu-a só pela silhueta. O vestido vermelho e a longa cabeleira dourada a denunciavam. Ailyn nunca teve a pretensão de se esconder, para falar a verdade. —...Você?

— Pois é, eu. — entediada, bufou. Ajoelhou-se na frente da menina e apoiou as mãos no cabo da foice feita dos ossos de Naraku.

— O que quer de mim? — embora temerosa, Kagome não hesitou encará-la.

— Sinceramente, não tem nada que você possa me oferecer além de uma fugaz satisfação. Depois, tudo voltará a ser o que era e eu permanecerei me sentindo vazia por dentro. — suspirou aborrecida. Com a vista restaurada, a jovenzinha notou traços de sofrimento nas expressões de Ailyn e abriu a boca para falar, mas a europeia prosseguiu, agora a sorrir com acidez: — E desde quando minha vida ou a sua foram algo além de um grande vazio? — aproximou uma mão do rosto tenso, raspou os dedos na bochecha quente — Naraku a quer morta, — contou sem grandes alterações, Kagome sentiu o coração estancar — e eu quero que alguém pague pelo meu sofrimento. — deu de ombros.

— Espere! Seu sofrimento?! Eu não fiz nada a você! — apelou para a consciência dela.

—...mas antes de matá-la, — continuou, ignorando as palavras da aprendiz de sacerdotisa — por que não fazê-la sofrer para aliviar a minha dor? — riu, seca.

— Não, não faça isso! — e antes que pudesse argumentar, um grito fugiu pela garganta, queimando-a. Ailyn, apenas com o fechar dos dedos, fez com que a névoa que circundava Kagome lhe causasse choques por todo o corpo. A menina tombou para o lado, e a irmã de Annabelle persistiu, a sede de vingança transbordava de suas turquesas.

— Vou fazê-la sofrer como ele deve ter sofrido!

— Ele? Ele quem?! — Kagome berrou, remexia-se na tentativa de se libertar e estava longe de conseguir. — Inuyasha... — murmurou.

— Se tivermos sorte, ele chega a tempo de vê-la dar o último suspiro. — riu-se sarcástica.


— Kagome! — o hanyou bradava o nome, procurando-a por todos os lados. Seu nariz bulia em fungadas, tentando resgatar o aroma da companheira.

Os outros companheiros também se empenhavam em investigar o sumiço. Sango e Miroku faziam uma patrulha pela área, montados no lombo de Kirara.

— Inuyasha, seu idiota! Como você não percebeu que ela se levantou, que ela saiu, ou pior, que foi levada por alguém?! — Shippou, por sua vez, esbravejava do lado do amigo, no canto dos olhos esverdeados gotículas se formavam.

— Olha só quem fala! — o híbrido acertou um cascudo no cocuruto do outro sem pena — Era você quem estava dormindo do lado dela e não se tocou de nada! — enraivecido, retornou ao saco de dormir, segurou a colcha em mãos e percebeu algo contorná-la sutilmente — Maldição! — praguejou quando se deu conta de que uma fina camada de fumaça escura se dissipava. Então olhou para a direção da floresta e viu uma trilha de névoa se formar.

— Ai, o que é aquilo?! — o youkai raposa entrou em colapso.

Dos céus, Miroku e Sango também contemplavam a linha reta que se desenhava em bruma e indicava uma rota até os escombros do monte Hakurei.

— Senhor monge, eu tenho um mal pressentimento... — a exterminadora compartilhou a preocupação. Miroku acenou positivamente com a cabeça, sentia-se como ela.

Inuyasha sacudiu a cabeça em busca de concentração e sacou a Tessaiga. Em seguida, impulsivo como só ele era, partiu a saltar em rumo ao desconhecido. Ele também tinha um pressentimento, sabia que encontraria Kagome, à medida que ele se encaminhava para frente, ficava ainda mais certo de sua ideia pois o cheiro da menina se intensificava.

— Inuyasha, seu idiota, me espera! — com dificuldade, Shippou o alcançou aos pulinhos e se agarrou a uma perna dele.


— Sssssenhor Ssssesshoumaru, algum problema? — O lacaio pequeno e verdoengo perguntou ao ver ser mestre frear os passos repentinamente. A garotinha que saltitava logo atrás também parou e prendeu a respiração, fazendo-se de estátua.

O belo e altivo youkai branco girou o corpo elegantemente e mirou o firmamento diurno. O vento balançou seus cabelos prateados com sutileza, nenhuma feição coloria o rosto principesco, a não ser o brilho de seus olhos áureos.

Sem aviso prévio, Sesshoumaru tomou impulso e sobrevoou as nuvens, conduzindo-se a qualquer lugar que tinha algo a chamar a sua atenção. Desastrado, Jaken abanou os braços tentando alcançá-lo e ao ver que fracassou, começou a choramingar. Logo, uma enorme sombra cobriu o sol acima de sua cabeça e o pequenino olhou para cima, confuso. Era Arurun alçando voo, de cima do grande dragão, Rin se inclinou e ergueu uma mão.

— Vamos logo, senhor Jaken! — convidou-o sorridente.


— Shinrinko... — a voz rouca pela idade a chamou serena. Annabelle permanecia longe de todos, a caminhar de olhar baixo.

— Sim, senhora Keiko? — em baixo tom, mirou-a. Os cabelos alaranjados caiam sobre um lado do rosto e a escocesa não parecia preocupada em ajeitar os fios.

— Todos estão preocupados com você. — num andar vagaroso a anciã se aproximou e, com cuidado, alcançou a frente e parou diante da moça, fazendo-a cessar o andar também. Anna abriu a boca para dar qualquer desculpa e foi interrompida — Sei que dirá qualquer coisa para me convencer de que está bem, mas olhe bem para mim, minha menina, vê essas rugas? — riu de leve — Elas me ensinaram muitas coisas, não é fácil me enrolar.

— Eu... — suspirou e desviou o olhar, cada traço de expressão endurecia na vã tentativa de manter firmeza.

— Não sei do seu passado, só percebo o quanto ele a marcou. Você tem dificuldade em se abrir, em confiar nos outros.

— É verdade. — confessou, a respirar fundo. — Mas para que falar sobre isso agora? Devemos prosseguir a jornada...

— Não sei do que você foge, Shinrinko, — Keiko não deu importância à sugestão de Annabelle e continuou: — só sei que não poderá fugir para sempre. Se você não enfrentar o que a atormenta, em algum momento isso a consumirá e não restará mais nada de você.

— Eu realmente não quero falar disso. — apertou a saia ao redor das pernas e enfim a mirou nos olhos, transbordando sofrimentos e dúvidas. A frase soou quase como uma súplica. — Quanto mais longe eu estiver, mais chances terei de construir uma vida nova!

— Você acredita mesmo nisso? — a mão pequena e engelhada pousou sobre a jovem e macia. Os olhos castanhos, tão estreitos e diretos a encararam, fazendo-a estremecer e um som embargou na garganta.

Annabelle não precisou responder com palavras, a água que escorreu tórrida de seus olhos a lavar e amolecer suas expressões manifestou cada frustração e tristeza até então contidas. Envergonhada pela própria vulnerabilidade, preenchida pela sensação de estar perdida e solitária, cobriu o rosto com as duas mãos. Não conseguia parar de pensar no ciclo vicioso de sonhos despedaçados e perdas significativas, do luto cultivado por pessoas a quem amou e por ela mesma, por se considerar um amontoado das cinzas de alguém que já não mais era, por se considerar uma vaga sombra de si mesma.

As pernas vacilaram, as mãos antigas seguraram-na pelo braço e a puxaram para perto, o queijo da jovem ocidental arranjou abrigo no ombro desgastado. Dedos afagaram a cabeça flamejante, arrumando as ondulações. Repentinamente, os joelhos tocaram a terra e ela se percebeu quase a cair para o lado. Era aquela senhora ajeitando seu corpo choroso no próprio colo.

Keiko avistou Yoru, Motoko e Himawari a se aproximarem e, silenciosamente, meneou a cabeça negativamente.

— Vão para lá, retardem o restante das pessoas... — Himawari sussurrou para a irmã caçula e para a amiga.

— Eu acho que isso tem alguma coisa a ver com a irmã dela. — Motoko cochichou ao ouvido da garota mais velha.

— Irmã? — a mocinha arqueou uma sobrancelha, esquecida das revelações de outro dia.

— É, ela apareceu para Shinrinko e não tem muito tempo... Shinrinko partiu com ela e depois voltou desse jeito.

— Tá, agora leva a Yoru daqui. — Enfim, Himawari recordou que a escocesa mencionara algo sobre ter uma irmã gêmea e abanou uma mão, com esse gesto indicou o caminho para as duas. Ela ficou, a uma distância respeitosa, observando a anciã consolar Annabelle.

— Compreende, menina? — Keiko perguntou com ternura — Não é o lugar onde você está que trará qualquer renovação. Enquanto você não superar o passado, ele a perseguirá não importa onde esteja, então pare de fugir e o enfrente.

Anna ergueu o corpo devagar, desatando o abraço acolhedor, o rosto se levantou encharcado e ela ainda soluçava. Antes que pudesse secar a trilha de lágrima das bochechas avermelhadas e quentes, Keiko o fez com todo o cuidado necessário.

— Pronto... — a mulher idosa ajeitou as madeixas de fogo para trás das orelhas e a escocesa esboçou um sorriso singelo de gratidão.

— Vá atrás de sua irmã. — outra voz, mais direta, aconselhou.

— Himawari? — Anna olhou para trás e a encarou, piscou os orbes cerúleos um tanto confusos.

— Não ouviu? Vai logo. — prosseguiu, o bastão de madeira era apertado pelos dedos impacientes.

— Mas como é que eu vou deixar vocês aqui, no meio da floresta?

— Shinrinko, com todo o respeito, apreciamos a sua ajuda, no entanto não somos dependentes dela. — a mocinha vestida em tons de laranja e amarelo fechou os olhos e falou com tranquilidade. Enquanto a anciã dava uma breve e espontânea risada, Belle estreitava os olhos por conta do estranhamento.

— Não é a primeira vez que nos metemos no meio da mata porque fugimos de youkais ou de saqueadores, e por nossa conta encontramos aquele lugar onde nos refugiamos por algum tempo, sem qualquer ajuda de um ser especial como você. — Himawari comentou com naturalidade, tornando a mirar a "entidade" tão querida por sua irmã. — Então, vá resolver o que tem para resolver, e se quiser voltar para nós quando acabar, sabe onde nos encontrar. Estaremos perto do litoral.

— Shinrinko, ela tem razão. — a mais velha entre todos os companheiros assentiu. — Você precisa...

Annabelle fitou atentamente as duas diferentes gerações perante seus olhos. Mulheres sem qualquer poderes sobrenaturais, e que contudo emanavam uma força interior passível de contagiar quem estivesse ao redor. Notou, inclusive, que essa tal força se alimentava de autoconfiança, elas sabiam ser capazes de fazer o impossível caso precisassem, e era esse o tipo de crença que ela ansiava por ter. Portanto, engoliu o amargor e tentou mandá-lo para longe enquanto pudesse. Culpar-se não era resolução para nada, percebeu.

— Obrigada. — agradeceu e se pôs de pé, a bater a sujeira da saia. Depois, passou as mãos pelo rosto e se o choro já limpara boa parte da maquiagem que a escondia, os dedos se incumbiram de terminar o serviço, deixando à vista somente os traços que a natureza lhe dera.

— Não há de quê, Shinrinko. — com a ajuda de Belle, Keiko também se levantou.

— Annabelle. — disse bem baixinho, olhando-a nos olhos.

— Hein? — a anciã e Himawari perguntaram sem muito entendimento.

— Meu nome. — respirou fundo e alargou o sorriso, mesmo se sentindo tão quebrada por dentro — Meu nome verdadeiro é Annabelle.

E assim, momentaneamente, ela se despediu das duas, revelando sua identidade e surpreendendo o antigo e o novo. Como um ponto de luz, Annabelle Rose alçou voo e iniciou a busca por seu sangue, tomada pelo anseio de fazer o certo dessa vez.


Kagome, caída sobre a terra escura, com o rosto virado para o amontoado de grandes rochas e terra que antes fora o monte Hakurei, ofegava. Após minutos torturantes, a sentir uma carga elétrica atravessar cada poro seu, um grande silêncio e um grande nada se instalaram ao redor. Ailyn parou de praguejar e de atacar, agora sentava em um pedregulho isolado e girava aquela estranha foice nas mãos. O olhar vagueava longe e certas vezes tremulava cintilante.

— Você... — ofegante, a viajante de eras distantes se esforçou para dizer — não quer isso...

— Quem é você para saber o que quero? — sem muitas alterações, perguntou.

— Não permita que o Naraku a controle... — ela piscou demoradamente. — Isso não vai trazê-lo de volta.

De supetão, Ailyn elevou o olhar aos céus e parou de rodopiar a haste da arma pela terra desértica.

— O que você pensa saber sobre mim, menina?

— Você estava apaixonada por Bankotsu. — Kagome revelou sem mistérios, o seu timbre se mostrou melancólico. A princípio, ela não tinha ligado as peças, mas depois de passar algumas horas nas mãos cruéis e magoadas, a mocinha se lembrou de um momento que presenciara.

A irmã de Annabelle se levantou e em passos irritados se achegou da vítima caída. Dessa vez, não foram descargas elétricas ou névoas fantasmagóricas que atingiram a reencarnação de Kikyou, e sim a mão impetuosa da mulher em luto, cujos dedos enrolaram-se nos tufos negros de cabelo à nuca fazendo a cabeça cansada levantar-se do chão.

— E se você estava apaixonada por Bankotsu, você não é uma pessoa tão ruim assim. — mesmo a sentir tamanha dor, em meio a gemidos Kagome persistiu com a sua ideia. Seus olhos amendoados não fugiram da ira nos azuis da cor do céu.

— Cale a boca! — Ailyn ordenou no grito.

— Eu vi como vocês se olhavam, e como ele foi corajoso em salvá-la da Ferida do Vento. Você devia ser importante para ele, ou Bankotsu não teria se arriscado... — contrariando a violência da situação, Kagome sorriu. O aperto ao redor dos cabelos afrouxou.

— Isso é ultrajante! — a ocidental dos cachos dourados a largou displicentemente e levantou. Enquanto caminhava rumo à foice cravada na areia, Kagome tornou a falar:

— Eu sei dessas coisas porque entendo, eu também estou apaixonada por alguém...

— Não me interessa, fique quieta ou eu juro que vou...

— Se quisesse mesmo me matar, já o teria feito. — enfim, ela conseguiu sentar. Para a surpresa de Ailyn, Kagome retomara o controle do próprio corpo e mais, aos poucos, a apoiar-se em cada joelho e depois nos próprios braços, a mocinha conseguiu ficar ereta. Era possível enxergar uma tênue luminosidade rósea em volta do corpo ferido, alumiando seus contornos.

— Parece que eu subestimei você. — a irmã de Annabelle tornou a segurar a foice feita de ossos e a apontou na direção de Higurashi.

— Não se deixe ser uma marionete, ainda há tempo. — Kagome insistiu.

— Já é tarde, Naraku pode ser um desgraçado, mas quem matou Bankotsu foi o seu Inuyasha. — afirmou incisiva. — E, por isso, vocês hão de pagar!

— Kagome! — a voz do hanyou ecoou atravessando a neblina, conforme ele se aproximava os ventos se agitavam e através da bruma, as duas mulheres puderam testemunhar o brilho dourado do enorme gládio. Ailyn agarrou a adolescente pelo braço e a pôs à frente, com a lâmina afiada da arma de Naraku a roçar-lhe o pescoço.

Conforme a névoa se dissipava, surgia não somente o alvo da ocidental, mas também os amigos corajosos da menina e a bolinha de pelo que ela nunca se preocupara em aprender o nome.

A refém, contrariando a gravidade da situação, abriu um extenso sorriso e seus orbes brilharam de alívio e de esperança.

— Inuyasha... — murmurou, o peito esquentou. Sabia que ele viria.

— Maldita! O que você fez com a Kagome?! — o meio-youkai ralhou apontando-lhe o fio da espada.

— Eu estou bem! — a jovem, ainda sorridente, não parecia se importar com os hematomas espalhados pelo corpo, ou com o uniforme aos farrapos. — Isso tudo não passa de um plano do Naraku! Ele... — e uma mão tapou sua boca, abafando-lhe a voz.

— Já chega dessa ladainha! — Ailyn revirou os olhos e apertou o enlace, o ápice da foice perfurou a superfície da pele de Kagome, provocando um corte raso no pescoço. Não só Inuyasha, mas a dupla de humanos e a pequena raposa gritaram pelo nome da amiga em maus lençóis. Ao som dos brados deles, a irmã de Annabelle esbanjou o sorriso mais forçado de sua vida. Alguém muito observador poderia dizer que a amargura quase amarelava os dentes.

— Inuyasha, — a bruxa pronunciou o nome num rosnado — que sorte você tem de ter chegado a tempo. Ao menos poderá se despedir de sua estimada garotinha.

— Solte ela agora! Ou eu... — conforme iniciava a ameaça, ele dava um passo a frente e apertava o cabo de sua espada mágica.

— Ou o quê? — riu — Vai me desfazer em pó como fez com Bankotsu? — o volume da risada aumentou e ela se tornou ainda mais aguda — Vamos lá, ataque, mostre o golpe derradeiro que você usou quando mandou Bankotsu de volta para o além!

Tsc! — Inuyasha relutou, pois por mais impulsivo que fosse, sabia que se usasse qualquer poder da Tessaiga acabaria por atingir Kagome por consequência e era só nisso que conseguia pensar. Sango e Miroku, todavia, prestaram bastante atenção no tom e nas palavras de Ailyn, e o fato de ela mencionar o nome de Bankotsu duas vezes não passou desapercebido.

— Interessante. — outra voz masculina ressoou atravessando as brumas e captou a atenção da vítima de Naraku. Ailyn olhou para trás, ainda agarrada à Kagome, e presenciou um facho de luz dourada descer dos céus e quase causar um furacão de bruma verdoenga. Quando os pés do sujeito enfim alcançaram o solo infértil, a poeira se dissipou aos poucos e a efígie se mostrou nítida diante de todos. Elegante nas vestes, delicado nos traços, porém certamente mortal pelo olhar e pelas garras nos dedos da mão que se retorcia.

— Senhor Sessshoooumaru, por favor, essspere! — o servo clamou das alturas, montado no grande dragão de duas cabeças juntamente à menina protegida pelo mestre.

Apenas com o olhar, o youkai se fez entender e Jaken manteve Arurun onde estava, dali ele e Rin seriam meros expectadores.

— Sesshoumaru, o que faz aqui? — rabugento, o caçula questionou.

— Você tem um talento nato para fazer inimigos, não é mesmo, Inuyasha? — tênue deboche se fez presente na forma como ele falava, bem como no sorriso deveras discreto na face alva.

— Keh! Se não veio para ajudar, vê se não atrapalha! — deu de ombros.

— Não sei se você se lembra, mas o seu problema maior, nesse momento, sou eu! — Ailyn se intrometeu, sua irritação superava qualquer tipo de curiosidade acerca do sujeito misterioso.

— Naraku está por perto. — o irmão mais velho anunciou, ignorando totalmente o chilique da mulher — Me parece que você estava tão distraído com frivolidades que sequer foi capaz de sentir o cheiro. — por frivolidades, ele se referia à garota humana feita de refém. Seus olhos âmbares perpassaram discretamente pelo estado dela enquanto tecia o comentário.

— Depois eu me acerto com vocês dois, no momento estou ocupado! — A fingir uma confiança exacerbada, o hanyou sorriu e ergueu as espessas sobrancelhas, porém, seu interior se revolvia nervoso pela situação de Kagome, e de ansiedade para que Naraku desse o ar de sua graça. Mesmo se sua companheira não mencionasse, parte de si saberia que o inimigo estava por trás dessa armadilha.

— Vamos lá, garota! Solte Kagome agora mesmo ou eu terei que ir até aí te ensinar uma lição! — ainda a encenar segurança, ameaçou.

— Você não está em posição de me impor condições, híbrido. Quem dita as regras sou eu! — segurou a garganta de Kagome com a mão e lhe apontou a foice.

— Explique para ela, Inuyasha! — Kagome, aproveitando-se de ter a boca destampada, disse: — Você não teve escolha a não ser derrotar Bankotsu!

— Keh! Eu não devo explicação nenhuma! Escuta, eu vou falar só mais uma vez, solta a Kagome! — num pulo Inuyasha se fez perto.

Ailyn, enfurecida pelo hanyou ter ignorado o apelo de Kagome e a crer que tal atitude fosse prova não só do assassinato, mas de indiferença por tê-lo cometido, tornou a encostar o frio ápice da foice no pescoço da jovenzinha, e dessa vez, sem palavras ameaçadoras, simplesmente segurou a cabeça do alvo com uma das mãos e cuidou que sua névoa enfeitiçada não permitisse que a menina movesse os braços ou as pernas.

Sango sentiu o ar desvanecer dentro de si, e assim como ela, Miroku teve a mesma sensação de invalidez. Por mais que exterminadora tenha orientado Kirara a se aproximar e tenha apontado o Osso Voador para Ailyn Rose, sabia que se atirasse o imenso bumerangue acertaria a amiga, e o monge tinha ciência de que seu Buraco de Vento não conhecia critério ao sugar as coisas. Shippou gritava pela companheira de jornada e apontava-lhe os bracinhos. Sesshoumaru se limitava a assistir a tragédia, simplesmente. E, do alto, a outra pessoa comovida com o desastre era Rin.

Quando o gládio mortifico estava pronto para fazer o sangue jorrar, o chão abaixo da mulher enfurecida estremeceu e da terra duas enormes raízes emergiram, cada uma enrolou um braço diferente de Ailyn e os forçou a abrirem por completo. Kagome, finalmente livre, não pensou em descobrir de onde viera o socorro, seu primeiro impulso foi correr até o rapaz que sempre a protegia e ele, mesmo atordoado com o acontecimento repentino, a abraçou com tamanha força que a surpreendeu e quase a sufocou.

O trio montado em Kirara testemunhou a silhueta se desenhar por trás da densa neblina. O poderoso e austero youkai pouco virou o rosto para vislumbrá-la. O olho dourado fitava de canto, sobre o manto branco e felpudo que enfeitava a armadura. Ailyn, porém, não olhava para qualquer direção diferente de Inuyasha. Desapercebido, o fato de estar abraçado à humana apenas gerou ainda mais rancor na ocidental de luto. O reflexo dos dois que podiam estar unidos de uma forma que ela jamais poderia estar com Bankotsu outra vez a incendiou por dentro.

— Ailyn, chega! — a voz de Annabelle gritou de dentro da neblina.

Os ouvidos, ensurdecidos pela mágoa, não a fizeram parar. A segurar a foice nas duas mãos, a jovem amargurada foi carregada pela bruma até o seu oponente. Inuyasha pôs Kagome atrás de si com agilidade e ergueu a espada. O cabo feito de ossos fortes se atritou à lâmina e nesse instante várias ramificações surgiram dele, mudando sua forma, agarrando a grandiosa Tessaiga.

— Maldição! — ele esbravejou ao ver sua espada ser atirada longe por aqueles apêndices. Nem mesmo a irmã de Annabelle esperava por aquilo, um riso desacreditado escapou da boca, conforme ela tornava a investir ataques contra Inuyasha.

A vantagem do meio-youkai era sua rapidez natural. Não foi tão difícil desviar dos golpes provindos de uma velocidade média e era apenas uma questão de tempo conseguir chegar perto da espada que fora atirada longe.

A bem pensar, se ele quisesse, poderia acabar com aquilo usando suas garras – pensou.

— Garras Retalhadoras de Almas! — o grito fez Annabelle gelar dos pés à cabeça, eis que uma bolha rosada rodeou sua irmã protegendo-a e aquele tipo de habilidade lhe era muito conhecido.

O nervosismo por estar diante daquelas pessoas – as quais ela tinha certeza que aprenderam a detestá-la e com razão – se dissipou e deu espaço a uma raiva descabida. Não ficaria parada assistindo aquela cena por mais nenhum segundo. Rápida como um furacão, esteve às costas da irmã e ainda sem dar voz à razão a puxou pelos cachos e a atirou no chão. Quando Inuyasha estava quase a partir para cima ela apontou a mão para ele e gritou:

— Não! — olhou fundo nos olhos dele, sem piscar. Imediatamente e sem entender a si mesmo, ele baixou os braços e suas unhas voltaram ao normal — Isso é assunto de família! — ela completou ao passo de que tornou a mirar a irmã com olhos inquisitórios.

Inuyasha piscou algumas vezes, recobrou o juízo e insistiria em não deixar por menos, mas Kagome lhe segurou o braço.

— O que está fazendo aqui, criatura?! — a passar a mão pela cabeça, Ailyn se reergueu e dessa vez apontou a foice para Annabelle.

Sem medo, a ruiva segurou o cabo daquela coisa e o apertou. Imediatamente as duas mulheres começaram a disputar o objeto, primeiro pela força, depois envolvidas por suas respectivas auras.

— Quando você aprenderá que nada de bom pode vir de um acordo com Naraku, sua idiota?! — Anna vociferou — Não se cansa de deixar que ele a use em prol do próprio benefício?

— Olhem só quem está falando! — a loura gargalhou, envolta por lume escuro, o fragmento na testa pulsava — A prostituta do Naraku!

— Shippou, melhor tapar os ouvidos! — Miroku comentou desconcertado. Lá em cima, sobre o lombo escamoso de Arurun, Jaken se precipitara e já cobria os de Rin.

Um som característico ecoou por aquela enorme ruína. Annabelle cerrou os dedos de uma mão e acertou o nariz de Ailyn sem pena. A pancada inesperada a deixou zonza e quase a fez cair para trás, a ardência a obrigou a cobrir as narinas ensanguentadas com uma das mãos e essa foi a deixa para Anna conseguir arrancar a foice do poder dela.

— Isso é coisa dele, não é?! — apontou a arma e a sacudiu — O que você esperava conseguir com isso?!

— Você... me esbofeteou? — ainda desacreditada, mirou os respingos de sangue sobre a luva. O cheiro e o gosto de ferro a enojavam.

— E esbofetearei outra vez se não me responder, o que você esperava com esse espetáculo de mau gosto, Ailyn?! — se pronunciou ainda mais indignada e histérica do que a outra. — Pela Deusa, como você é difícil! — desabafou.

O silêncio ao redor não pareceu incomodar as duas, era como se ambas tivessem se esquecido daqueles que estavam ali a observar cada ato e cada grito. A mulher dos cabelos d'ouro, mesmo ofegante, correu na direção de sua gêmea e ao invés de invocar os poderes do submundo a atacou com os punhos. Annabelle largou a foice e, dessa vez, ineditamente, revidou cada tapa e cada arranhão. As duas se atracaram pelos cabelos e rolaram pela terra escura, levantando poeira, ora uma se punha por cima aos tapas e beliscões, ora outra.

— Não é hora de intervirmos? — Kagome sussurrou incrédula.

— Eu é que não me meto em briga de mulher! — Inuyasha, aparentemente amedrontado, respondeu.

— E-ei, vocês duas! — Sango inutilmente tentou, até mesmo acenou.

Miroku coçou o queixo com o indicador, sem muito a acrescentar e Shippou se inclinava sobre a cabeça de Kirara para poder enxergar melhor e dar pitaco na briga:

Anaberu-hime, para a esquerda, não, não, para a direita! Abaixa!

Enquanto a maior parte dos expectadores estava entretido na luta nada convencional, Sesshoumaru contemplava o turbilhão de fumaça acima de todos.

— Por que você sempre tem que atrapalhar os meus planos?! — Ailyn perguntou aos berros, agarrada às madeixas alaranjadas.

— Seus planos?! — a empurrou para o lado — Desde quando isso é plano seu? Você caiu na lábia do Naraku por tão pouco outra vez?! Nada do que você está fazendo aqui a beneficiará, estúpida! — a balançou pela gola do vestido.

— Você, de todos aqui, não pode falar de mim! — gritou ensandecida e levantou a mão para ela novamente.

— Justamente eu, por tudo o que passei, tenho propriedade para dizer! — a conteve pelo punho — Ailyn, sinceramente, eu estou cansada! Pare de agir como uma menina mimada!

— Sabemos muito bem que a única de nós que foi mimada é você! — rebateu amarga e se soltou do toque na base da força.

— O que você chama de mimo eu chamo de superproteção, nosso pai tentou me esconder do mundo todo para que ninguém descobrisse o meu poder, algo que você insiste em dizer que queria ter sem conhecer o peso a ser carregado em troca! — jogou o cabelo molhado de suor para trás, descobrindo o rosto sujo de pó. — Mas ele nunca deixou de dar carinho para você!

— Nunca da mesma forma que deu para você! — resmungou.

— Você não pode jogar a culpa de seus atos em nossos pais que já nem estão mais vivos para se defenderem! — apontou-lhe o indicador — Cresça, Ailyn!

— Eu posso culpar você pela morte do nosso pai, e aí?! — acertou um tapa no dedo inquisitório, a mão de Annabelle caiu na terra.

— Isso não é justo Ailyn! — cravou os dedos no solo escuro e meneou a cabeça.

— O que você sabe sobre injustiças? A sua vida sempre foi mais fácil do que a minha, qualquer tipo de desastre ou fatalidade que acontecesse à nossa volta, o papai dava um jeito de esconder de você e me chamava para limpar o rastro da tragédia, tudo para que o seu poder permanecesse adormecido! — puxou uma madeixa de fogo, fazendo-a se inclinar para a frente.

— Você está delirando se pensa que minha vida foi fácil, aliás, você a dificultou sempre que pôde! — segurou tão forte na manga do vestido vermelho que a rasgou.

— Você destruiu a minha vida, por sua causa a pessoa mais próxima de mãe que eu tive queimou na fogueira, e meu pai morreu de uma doença qualquer! Desculpe se eu dificultei as coisas para você, irmãzinha! É que você sempre foi uma pedra no meu sapato! — Se levantou cambaleante e olhou para os lados procurando pela foice.

— A mulher a quem você chama de mãe pode ter sido a causadora da morte de sua mãe de verdade! — sem esperar muito, Anna também se pôs de pé e segurou o braço de Ailyn antes que ela pudesse se encaminhar à arma. O riso da gêmea não a desencorajou e ela não parou de falar — Eu vi Amelie no dia da execução de nossa mãe! — A risada cessou — E tenho certeza de que ela tinha alguma coisa a ver com aquilo!

— Mentirosa... — acusou sem muita firmeza.

— Quando o nosso pai estava a beira da morte, ele me contou muita coisa, a maioria eu já sabia e só recebi a confirmação. — Depois de um longo resfolgar, disse um pouco mais amena.

— Eu não quero ouvir as suas mentiras! — ia cobrir os ouvidos com as mãos.

— Você vai me ouvir, quer queira, quer não! — prendeu as mãos dela e as jogou para baixo, depois a conteve pelos braços — Pouco depois de nossa mãe ser executada e nos isolarmos em uma cabana, eu via nosso pai se meter no fundo da floresta e encontrar uma mulher encapuzada. Eu era muito jovem para perceber do que aquilo se tratava, mas certa vez pude ver o rosto dela e era o mesmo que vi no dia em que nossa mãe era carregada para a morte, era Amelie! — a boca de Ailyn abriu-se, pronta para iniciar uma defesa — Eu nunca contei isso a você porque queria poupá-la, porque sabia que uma das poucas alegrias da sua vida era acreditar que Amelie um dia a amou, só que eu não aguento mais e se você tem o direito de ser ríspida comigo, eu tenho o de ser com você também, então tome aqui a minha franqueza! Nosso pai reencontrou aquela mulher em Paris, na verdade foi atraído por ela. Cego de paixão, cedeu a todos os caprichos de Amelie, tornou-se comerciante para poder dar uma vida melhor a ela mesmo não sendo o tipo de trabalho que ele gostava de fazer. Finalmente casados, Amelie se tornou nossa nova mãe e era exatamente isso o que ela queria, pois teria poder sobre mim. Nosso pai, de repente, virou um obstáculo e então ela começou a envenená-lo.

— Sua imaginação é fértil demais, Annabelle! — debochou em meio a raiva.

— Quando nosso pai, em seu leito de morte, me pediu para não tentar trazê-lo de volta, ele me explicou. — a cortou.

Minha pequena Belle... — entre uma tosse e outra, ele segurou a mão da filha — Nem tente, prometa que não tentará.

Mas pai, como ficaremos sem o senhor? — a menina, chorosa, o abraçou, quase deitando sobre o corpo naquela enorme e luxuosa cama.

Ela... ela desconfia, mas de jeito nenhum pode ter certeza de que você herdou o poder de sua mãe. — o sujeito grisalho e esquálido afincou-se na ideia — Minha filha, ela está me matando...

Do que você está falando, meu pai? — tocou a testa e sentiu-a arder — Está com febre, eu chamarei alguém!

Não, não saia daqui até eu terminar, Belle! — ele disse em tom de súplica, a segurar-lhe o pulso. — Eu estive cego de paixão por muito tempo, finalmente não mais, mas poucas horas de razão me restam e eu quero usá-la para o bem das minhas filhas.

O apelo do pai a fez calar e permanecer parada diante dele.

Ela está me matando, me envenenando aos poucos para que pareça uma doença, eu sei. — prosseguiu arfante — E por mais que eu tenha parado de tomar aquele chá que ela me traz entre cada refeição, sinto que já é tarde, o veneno já fez efeito suficiente. Ela sabe que eu sei!

Meu pai...

Ela sabe que eu sei que ela é a responsável pela morte de sua mãe. Foi ela quem fez a denúncia, um dia um vizinho me contou que o que aconteceu à minha esposa foi obra de uma mulher invejosa e eu não liguei os fatos. Mas sabe como eu descobri? Pela maneira como ela olha para você primeiro, e pelo livro que eu encontrei nas coisas dela. Um livro cheio de terríveis feitiços, minha Belle, e um deles está me matando. Eu a vi moer a planta, fazer o chá exatamente como deveria ser feito e olhe o meu estado. E ela está fazendo isso para provocá-la, Belle, ela a quer ver usar o poder!

Mas por quê?! — agoniada, questionou.

Suspeito de que ela não tenha certeza de qual de vocês duas tenha nascido com a habilidade, pois eu nunca contei quem nasceu primeiro e sei que Lynnie não contou ter sido você, ela gosta que Amelie acredite na singularidade dela. Então, se você tentar me trazer de volta, ela finalmente descobrirá e fará algo muito ruim a você.

Então, o que eu faço? Não posso simplesmente assisti-lo morrer! — uma lágrima rolou pelo canto do rosto.

Minha pequena, não tema, não por mim. — ele sorriu — para onde quer que eu vá, tenho esperanças de reencontrar a sua mãe e o que é de Amelie já está guardado, me certifiquei de pedir à criada para levar uma carta ao padre da igreja mais próxima, e outra para o carrasco.

O que quer dizer com isso? — o pavor percorreu o baixo ventre dela, provocando náuseas.

Cedo ou tarde, a justiça será feita. E vocês devem fugir para longe daqui. Prometa-me que não tentará nenhuma besteira, que me deixará ir, Belle.

Não... não! — quis virar as costas, e o moribundo segurou-lhe o rosto entre as duas mãos.

Prometa-me, é meu último pedido! — a voz embargou na garganta, os olhos dele transbordaram como os dela e entre soluços ele suplicou — Eu imploro, pelo seu amor de filha, Belle, prometa que me deixará ir!

A menina a poucas estações de se tornar adolescente não conseguiu pensar em qualquer argumento para desconstruir as ideias do pai. O velho chorava como um garoto pedinte, a apertar o rosto juvenil entre os dedos e afagar-lhe os cabelos e ela, sem aguentar tamanho pesar se derramou em pranto mais uma vez.

Então você tem que me prometer que vai me deixar cuidar de você! — foi a vez dela de pedir, a segurar as mãos do amado pai com firmeza. Um sorriso foi a resposta dele, e só.


— Dali em diante o nosso pai ainda sobreviveu por algum tempo, graças às minhas tentativas de purificá-lo do envenenamento com os chás que eu fazia. — Annabelle sentia-se pesada depois de narrar memórias há tanto tempo enterradas.

— Está querendo me dizer que nosso pai foi responsável pela execução de Amelie? — Ainda desconfiada, Ailyn olhou para os lados e então reavistou a plateia quieta, atenta à história de vida das duas.

— As provas que tenho são as minhas lembranças e só, você pode duvidar o quanto quiser, não tenho como controlar seus pensamentos sobre isso. Durante todos esses anos, mesmo com todos os atentados que você cometeu contra mim, eu me comprometi a esconder isso de você porque me compadecia de seu sofrimento e não queria estragar um dos poucos sentimentos bons que restaram em seu coração, que era o seu amor por Amelie. Se era mais fácil para você me culpar por tudo, eu me omiti, assim como me omiti quando nosso pai disse que Amelie não tinha conhecimento de que eu era a irmã abençoada pelas fadas quando eu sabia que você já tinha contado. — os olhos azuis mantiveram-se focados na mulher que perpassava os dedos encardidos pelos cabelos claros e depois pelo rosto. — Eu sinto muito Ailyn, não pense que eu nunca me culpei por ter deixado o nosso pai partir, para falar a verdade isso me assombra até hoje, é um fardo muito difícil de carregar e eu não posso fazer nada para mudar isso. Mas você entende? Ele descobriu o livro, e depois eu o descobri com você naquele refúgio improvisado dentro de uma árvore e fugi. Agora me diga, com sinceridade, depois de ter lido cada página e cada feitiço, acha mesmo que estou mentindo? — suspirou desgostosa e exausta emocionalmente.

— O livro... — não era só Annabelle que era assombrada por lembranças, Ailyn lembrava com vigor das noites que virara lendo cada página do Livro das Sombras, geralmente enquanto a irmã dormia, e havia sim um feitiço específico que envenenava a vítima aos poucos, provocando violentos surtos de tosse seguidos de escarros ensanguentados, palidez, febre... — Céus! — empalidecida, quase caiu sentada e cobriu a boca úmida de enjoo com as duas mãos.

— Você tem razão, — Anna foi até a foice e a segurou entre os dedos, encarando cada detalhe da odiosa arma — eu também me deixei seduzir e ser manipulada, até desejei esquecer tudo o que vivi e quem eu era para poder viver aquilo tudo sem culpa. Como nosso pai quando conheceu Amelie, me deixei ser guiada pelo desejo. Às vezes a luxúria pode ser pior e mais forte do que qualquer feitiço... — apertou o cabo feito de ossos e assim como Ailyn, ela também olhou para cada lado, encarando cada pessoa que a cercava, sem esquecer ninguém — Vocês todos devem me odiar e com razão, ninguém me obrigou a nada, eu fiz as minhas escolhas e sofro as consequências delas ainda hoje, nesse exato momento. — girou até se ver de frente para a irmã uma vez mais. — Eu posso até ter sido mimada por nosso pai, no entanto, desde que você começou a me perseguir no intuito de me matar, eu passei por tipos de adversidades que você jamais teve que enfrentar. Para fugir de sua ira, eu peregrinei nas piores carroças e embarcações, tive inclusive de me fingir de menino para não ser atacada por marinheiros insaciáveis, conheci os porões mais sujos, cheguei a me alimentar de ratos até vir parar aqui. E se você acredita que logo ao chegar encontrei qualquer paz, está terrivelmente enganada. Eu tive que me cobrir com camadas infindáveis de véus, pois minha aparência diferente inspirava temor nos nativos. Por tempos morei escondida na floresta, como nossa família costumava viver, e não fazia nada além de observar as pessoas que por ali passavam para tentar aprender algum costume, para aprender o idioma. Gastei alguns anos da minha vida vendendo o meu talento para a música, disfarçada de estrangeira cheia de deformidades. Enfim, conheci Hitomi e o resto do conto você conhece muito bem.

— O que quer? Me fazer sentir pena de você? — embora o discurso soasse ácido, os olhos dela tremeluziam, fina água se formava acima das pálpebras.

— Eu só quero que isso tudo pare, aqui e agora. — fincou a foice no chão — Ninguém aqui é culpado pelas suas dores, sobretudo Inuyasha. Você precisa aprender a lidar com o seu sofrimento sem ter que vilanizar alguém. Afinal, você mesma já foi responsável pelo sofrimento de muitos!

O torpor duradouro se rompeu, o grupo se entreolhou, cada um sem saber muito bem definir o que sentia perante aquela situação.

— Eu não me sinto bem por ter matado Bankotsu, — Inuyasha comentou, surpreendendo a todos, certo rubor coloria suas bochechas, talvez por admitir aquilo na frente do irmão — mas aquele desgraçado não me deu outra escolha. E, se por acaso ele tivesse se saído vitorioso, Naraku se certificou de nos cercar de youkais que apenas esperavam um de nós perecer para atacar o outro e roubar os fragmentos da Joia.

— A intenção de Naraku nunca foi deixar o Exército dos Sete viver, de qualquer maneira ele daria um jeito de recuperar os fragmentos que sustentavam a vida deles... Repugnante! — Sango falou enojada, o Osso Voador já se resguardava às suas costas.

Ailyn ofegava diante do imensurável nó que se formava na garganta, o peito subia e descia frenético, ela se sentia quente e gelada, vertiginosa. Como toda uma vida poderia parecer uma fantasia qualquer num estalar de dedos? Duvidava da existência da realidade, enquanto mirava o anel em seu dedo, a gema verde florescente a reluzir intensa, e tinha medo de se perguntar se tudo o que fizera e o modo como passara os dias valera à pena. E se pensava que a sensação de vazio e exaspero não poderia se agravar, o espectro de Bankotsu a lhe sorrir nas recordações, os toques amornados que ela ainda podia sentir na pele a despedaçavam de vez. Sim, em pouco tempo aprendera a amar aquele homem de uma maneira que nunca pensou ser capaz, e cada poro seu sentia a falta dele. Nunca mais o veria, nesse mundo ou no outro, e ele fora, de todas as suas experiências, a mais verdadeira e genuína. Se o coração fosse um pouco mais macio, ela imploraria por um abraço, por um colo gentil para acolher as suas lágrimas inconformadas, contudo o seu gênio endurecido a deixou lá, errante, sem saber o que fazer além de conter o resquício dos soluços e controlar o sacudir dos ombros.

— Naraku... — Sesshoumaru murmurou, ainda focado na abóboda que se transmutava do verde para o púrpura.

— Naraku! — Inuyasha esbravejou, por fim alçando o olhar aos céus também.

Pouco tempo sobrara para as irmãs respirarem, as duas enlevaram os olhares em sincronia e contemplaram o sujeito tão comentado na conversa descer, protegido dentro do costumeiro campo de energia.

— Que comovente... — risonho, ele comentou — Sinto que já vivemos algo parecido antes, não? Hu, hu, hu.

Annabelle fechou as mãos com tamanha força que as unhas quase rasgaram as palmas. Os lábios se contorceram, possuídos por raiva, tristeza, indignação, e o coração acelerou sem o consentimento da mente. Os olhos vermelhos recaíram sobre ela conforme o sorriso macabro dele se alargava.

— Deve estar muito seguro de si para vir em pessoa e não mandar uma marionete. — Sesshoumaru, o único que notara a presença dele camuflada ali desde cedo, comentou aparentemente tranquilo.

— Ferida do Vento! — Inuyasha não esperou para ver aonde qualquer conversa chegaria. Resgatou a espada num só pulo e endereçou o seu golpe ao rival apenas para constatar que a barreira do araneídeo continuava resistente. Logo, o forte vendaval que atingiu a cúpula protetora retornou à origem e dividiu-se em vários, atingindo aleatoriamente quaisquer direções.

Sango pediu a Kirara que subisse aos céus o mais alto que pudesse, o mesmo fez Arurun. Sesshoumaru saltava de um lado para o outro com destreza e facilidade. Já Annabelle e Ailyn foram separadas no ato, cada uma foi lançada para uma direção oposta quando os ventos passaram por perto.

Estonteada, a ruiva ergueu o rosto da terra e enquanto tentava controlar os cabelos que se sacudiam e cobriam os olhos, procurou pela gêmea. Eis que a avistou já a altura de Naraku, encarando-o cara a cara e sem arma nas mãos.

— Falhou, Ailyn Rose. — fitou-a escarnecedor.

— Você é o verdadeiro culpado... — O furor e a melancolia não a permitiam sentir medo, os olhos arregalavam-se ardentes.

— Não pode me derrotar, sabe disso. — cruzou os braços, plácido.

— Ailyn, não! — Annabelle conseguiu ficar em pé, pena que não por tanto tempo assim. Outra rajada de vento vinha aterrorizantemente intensa e ela precisou se jogar para o outro lado e se esquivar de algumas pedras que voavam para lados desconexos.

Naraku, ao ouvir o grito de Annabelle, não conseguiu evitar encará-la lá de cima e o seu sorriso perdeu discretamente o lume.

A ocidental alourada, em vez de se mostrar ainda mais furiosa, começou a rir escandalosamente, a contrariar singelas lágrimas que escorriam pelo canto da face e limpavam a terra escura nas maçãs.

— Qual é a graça? — de repente sério, perguntou.

— Você falhou também. — disse convicta, fazendo-o erguer uma sobrancelha em resposta. — Eu posso ter perdido Bankotsu, mas tem uma alegria que você não vai me tirar Naraku. — deu mais algumas risadas de arrancar o fôlego, agitando a fumaça ao redor de si e enxugando os olhos — A alegria de saber que você jamais terá o que quer, ainda que isso esteja ao alcance dos seus dedos. — E fitou a irmã a tentar correr lá em baixo, depois se envolver de luz branca e no entanto não conseguir levantar voo por conta das rochas que eram carregadas pelos tufões a rodear o cenário.

— Se acredita que o meu maior anseio é uma mulher, você é mesmo uma pobre coitada. — riu, seco — Agora vamos, sabe por que estou aqui? — ergueu a mão a ela, focado no fragmento que brilhava à testa da Rosa Vermelha. — Vim buscar aquilo que me pertence.

Eu o trouxe de volta — ainda risonha, cega pelo desejo de vingança, contou — o filho de senhor feudal que ela tanto amava, eu o trouxe para ela. — o riso deu espaço a um rugido atormentado.

Ailyn não precisou falar mais, aquilo era tudo o que Naraku precisava saber sobre o evento. Nenhuma palavra mais veio da boca venenosa da aranha, e ainda que uma sombra escura tenha recaído sobre os olhos dele, o riso não se perdeu de todo.

Rápido como um feixe de luz celeste, um fio de cabelo dele se estendeu e se encaminhou à cabeça de Ailyn. Annabelle a essa hora já estava nos ares e seu braço quase alcançava a irmã, então ela pôde presenciar de perto o fio atravessar a testa de sua única família, sair pela nuca que esguichou um leve rastro de sangue, e voltar com o fragmento enrolado em si.

Assim que aquele fino cabelo abandonou o corpo da escocesa, a queda dela se iniciou veloz, Anna tentou acompanhá-la mas o corpo atingiu o chão antes que pudesse ser alcançado. Por ter caído de uma altura considerável, o som de ossos se partindo foi audível quando tocou o solo, uma pequena cratera se formou ao redor dela.

Kagome não conseguiu abafar um grito, protegida nos braços de Inuyasha. O meio-youkai cachorro, por sua vez, mirou Naraku com tamanho ódio no olhar que quase incendiou sua alma. Rin cobriu os olhos, quase abraçada a um Jaken também atônito, Sango abraçou Shippou contra o peito, na tentativa de poupá-lo do vislumbre da cena e Miroku enlaçou Sango por saber que ela também estava aterrorizada pelo acontecido.

Como certa vez, o mundo pareceu girar numa vagarosidade entorpecedora para Annabelle, ela sequer percebeu que pousou ao lado de Sesshoumaru e seu ombro esbarrou no dele. Enquanto o Dai-Youkai girava-se para poder contemplá-la de todo, Anna jogava-se no chão e seus joelhos arrastavam-se sobre a terra até que seus braços alcançassem a mulher caída. Sem pensar, ela a abraçou contra si e esperneou. Os olhos de Ailyn estavam arregalados e ainda pareciam vivos, mas o sangue a escorrer por trás de sua cabeça era a certeza de que a vida havia lhe escapado tão rápido quanto um sopro, provavelmente a europeia nem sentira.

"Você sempre foi a mais forte, Ailyn. Sempre foi você!" — orava para que ao menos um pensamento ela pudesse ouvir. A dor aplacou Annabelle como uma navalha a girar em seu peito. Uma luz rubra contornou a mão de sua irmã enfeitada pelo anel, ela a observou, agarrada ao corpo sem vida, e lembrou-se do pacto que o sangue de seu sangue fizera.

Ailyn estava condenada na morte.

Se Belle já estava apavorada, aquilo quase a fez entrar em colapso.

Sem dar importância às investidas contra Naraku acima de sua cabeça, fossem por Inuyasha, Sango ou Miroku, ela se concentrou e se envolveu de luz ebúrnea, seus olhos branquearam e o fio de energia começou a escapar da boca para adentrar a garganta de Ailyn.

"Ao menos você eu preciso salvar!"

Os ossos partidos dos braços, das pernas e das costelas da mulher se regeneraram aos poucos, a pequena ferida aberta na testa também, contudo os olhos dela permaneceram mortificados e nenhum ar perpassou as narinas pálidas.

— Não, não! — aos berros, Annabelle a sacudiu e a abraçou novamente. Tudo o que ela ouvia eram os próprios soluços, tudo o que ela via era a imagem de sua irmã criança, antes de se deixar levar pelo discurso de Amelie. Não fazia ideia do que acontecia ao redor, ou acima, e nem se preocupava. A consciência de que seu poder de nascença não seria suficiente para salvar a alma da irmã a estava matando por dentro, a sensação de invalidez era ainda mais intensa do que das vezes em que ela perdera outras pessoas, primeiro a mãe, depois o pai, então Hitomi... Não, com Ailyn tinha de ser diferente, ou ela não aguentaria!

Então, o fragmento pulsou dentro do peito, ainda escurecido pelos sentimentos ruins que nos últimos dias ela cultivara. Por mais que detestasse usar o poder daquela coisa, seria ainda mais detestável lidar com o fato de que a alma da irmã poderia queimar no inferno por toda a eternidade. Annabelle desconhecia se seu ato teria qualquer consequência e sequer pensou nisso, simplesmente cerrou os olhos, pôs uma mão sobre o peito e quando as pálpebras reabriram, as janelas da alma dela estavam não só brancas, mas cintilantes como o mais puro dos diamantes. Cada articulação se revolveu e endureceu. A claridade ao redor dela reluziu mais do que nunca, rapidamente se alastrando e aquietando o vendaval causado pela Tessaiga. O corpo de Ailyn, cuja cabeça acomodava-se entre as pernas de Annabelle, foi totalmente engolido pelo fulgor e não só, a área onde antes o monte Hakurei existiu também.

Qualquer conflito entre Naraku e seus inimigos cessou ali, pois a luz era capaz de desnortear até os youkais mais fortes, como Sesshoumaru. Todos protegeram os olhos e só puderam ouvir os grunhidos, os ruídos de pedras se movendo, coisas crescendo pela terra que tremia. Aquela esquisitice se prolongou por tantos minutos que eles não puderam contar, até que a luz alabastrina cedeu espaço aos raios solares.

Cada um deles abriu os olhos devagar, assimilando aos poucos a nova paisagem que tinham diante de si. O que antes era um terreno árido, foi coberto pela grama e enfeitado com árvores e arbustos de todo o tipo, alguns aquelas pessoas poderiam jurar nunca terem visto nas terras do Sol Nascente. As ruínas do monte foram agraciadas por um manto de flores esbranquiçadas onde borboletas coloridas pousavam despreocupadas. Ao redor das irmãs, um círculo de rosas vermelhas e brancas desabrochou como uma grande guirlanda.

— Era dia? — Miroku perguntou confuso.

Assim que Kirara aterrissou, Sango pulou de cima e tocou algumas moitas para ter certeza de que eram reais.

— Incrível! — Rin exclamou lá de cima enquanto Jaken não encontrava palavras para expressar seu espanto.

Kagome caminhou devagar até Annabelle e Inuyasha, também boquiaberto, foi logo atrás.

Naraku e Sesshoumaru vidravam-se em Annabelle sem tecerem qualquer comentário. Mesmo o Senhor das Terras do Oeste não conseguira ser tão indiferente diante daquele poder desconhecido.

Quando a oriental do futuro estava prestes a tocar o ombro de Annabelle, a escocesa caiu deitada de lado, inconsciente.

— Anna... — Kagome se abaixou e a virou para si, levou um susto com a repentina palidez. — Anna! — a chacoalhou.

Um puxar de fôlego a assustou ainda mais e quase a fez dar um pulo. Os olhos de Ailyn abriram-se repentinamente e ela sentou ofegante, o anel em seu dedo mindinho já não existia mais. Os cacos verdes da gema preciosa se esparramavam pelo gramado. A representar a joia na pele, somente uma marca semelhante a uma queimadura.

Os olhos castanhos de Higurashi esbugalharam e ela gritou. Inuyasha surgiu por suas costas e ela se abraçou às pernas dele.

Naraku desceu de altitude para ver mais de perto, seus preciosos rubis também estavam dilatados. Ele conhecia o poder de Annabelle relacionado à necromância, mas só de ouvir falar. Era a primeira vez que testemunhava o milagre. E não foi só a vida de Ailyn que ela resgatara, mas a de toda a extensão antes arrasada de terra. Um dia, ninguém mais saberia que um conflito se sucedeu ali.

Aquela era a dimensão do quão poderosa ela poderia ser, o fragmento da Joia fora um tempero a mais e só. Perdido na admiração que sentia, mal ouviu Sango, ajoelhada a frente de Anna, dizer:

— Ela não está respirando! — a exterminadora passou a mão à frente do nariz da estrangeira, depois encostou a orelha ao peito dela e se sobressaltou — Ela... ela se foi!

De volta à realidade, Naraku desceu ao chão florido e se viu paralisado, como da vez em que a encontrou quase afogada dentro do rio.

— Anna! — Kagome tentou fazer massagem cardíaca, sem efeito — Anna!

— Essa não! — Miroku passou a mão pela testa — Ela deu a vida pela da irmã! — mirou Ailyn que piscava e ainda olhava para os lados, completamente zonza.

Sesshoumaru, silente, se achegou para olhar de perto.

— Anna-hime... — Shippou choramingou e cobriu os olhos — Ela não merecia isso, é tudo culpa do Naraku!

O hanyou aranha nunca dera importância a qualquer palavra do youkai raposa, até ouvir aquilo. A saliva desceu amarga pela garganta, seu coração acelerava de desgosto em algum canto do mundo, tinha certeza. Seriam os restos de youkais a se contorcerem no interior do corpo para provocar tamanho desconforto? Se ele fosse humano, certamente vomitaria, ou pior, desmaiaria ali mesmo. Naquele momento, se amaldiçoou por ter adquirido força suficiente para mantê-lo lúcido diante da pior ocasião. Enfim, ele fitou Sesshoumaru em frente a montanhesa. No presente, Arurun já descera dos céus e estava ao lado do dono. A pequena Rin deu a volta e segurou uma mão de Annabelle, junto de Kagome que ainda esquentava o corpo alisando-lhe os braços e apertando-os.

Nada do que as garotas fizessem produzia qualquer estímulo na mulher que um dia dividira a cama com ele. As memórias se fizeram cruéis e certeiras como mais cedo, obrigando-o a reviver mentalmente os momentos em que conviveram no castelo, sem permitirem que ele levasse em conta as palavras duras de Ailyn, ditas há tão pouco tempo. Tomado por desespero semelhante de quando quase a perdeu para a morte certa vez, ele bradou:

— Idiota, faça alguma coisa! — olhou Sesshoumaru nos olhos, sem piscar, visivelmente aturdido. Se quem estava por perto acreditava que não poderia surgir nova surpresa, obviamente percebeu que naquele dia nada mais era impossível.

— Humpf! — o Youkai Branco arqueou uma sobrancelha, ele era conhecido por não obedecer ordens de ninguém.

Kagome prestou atenção nos dois, um pouco menos desacreditada do que o restante dos amigos. Para ela, aquela loucura parecia fazer um pouco de sentido e, ignorando totalmente quem fizera o pedido antes dela, a estudante assentiu:

— Por favor, Sesshoumaru, você é o único que pode salvá-la, use a Tenseiga!

— Por favor, senhor Sesshoumaru, eu imploro! — por conhecê-lo e saber que não seria qualquer coisa que o comoveria, Rin atirou-se aos pés de seu mestre e pediu em copioso pranto.

— Senhor Sesshoumaru... — mesmo o servo rabugento não continha a emoção em seus grandes olhos amarelados, as pupilas até se agigantaram. Ele se abraçava ao cajado.

As expectativas de todos recaíram em cima do sujeito que não tinha costume algum de se compadecer pelo sofrimento alheio, ao menos assim pensavam que ele era. O pomposo irmão de Inuyasha baixou o olhar áureo, perpassando-o por cada detalhe da moça empalidecida, parando ao deparar-se com o rosto marcado pelo sofrimento. Enquanto isso, Ailyn permanecia sentada a olhar para os lados, sem se fixar em nada.

Continua...


Pessoal, a boa notícia é que só falta mais um capítulo para a fanfic estar completamente atualizada aqui no site! A má é que não falta muito para ela terminar...
Mas também, pudera né? Vai passar de 40 capítulos, eita nós!
Espero que tenham curtido esse aqui, foi trabalhoso que só de escrever!

Kissuuuus!