As chamas agonizavam altas, insuportavelmente claras e quentes. Não existia nada além do fogo na imensidão que a contornava, ela o sentia arder infernalmente na pele, apesar de a carne não derreter. O corpo todo era tomado por aquele calvário ardente e os gritos dela se misturavam com os de uma multidão.
Não fazia diferença se ela se sacolejava da cabeça aos pés, ou se desistia e freava as articulações, a dor prosseguia latente, sem prazo para cessar, até que um clarão cortou o fogo em dois e as vozes que se harmonizavam à dela calaram.
Annabelle fechou os olhos com força, e quando os abriu a luminescência os incomodou tanto que ela os protegeu com um braço.
A escocesa esperneou e serpenteou-se na grama, ainda a sentir a intolerável queimação.
— Ela está de volta! — uma voz feminina anunciou, enquanto mãos a seguravam — Anna, está tudo bem, fique calma! — era Kagome.
— Ele conseguiu! — o monge, também a tentar contê-la, afirmou surpreendido, deixando-a ainda mais atordoada.
Aos berros, ela se sentou e a primeira coisa que enxergou foi Sesshoumaru a empunhar uma espada. O instinto a orientou a proteger o corpo com os braços, encolhendo as pernas. Afinal, certa vez o youkai esteve a um tris de assassiná-la, por que não tentaria outra vez? Porém, o golpe impetuoso nunca veio. Sem se demorar, Belle dobrou ainda mais os joelhos e se impulsionou para cima. Viu Sango, Miroku já de pé e Shippou olharem-na sem uma piscadela. Não soube desvendar se o trio sentia preocupação ou a punha em julgamento. Rodou enlouquecida, viu Inuyasha irritadiço e atarantado ao mesmo tempo.
— Senhorita Anaberu! — ouviu a voz de Rin com certos atrasos.
— Humana ingrata! — depois ouviu Jaken sem entendê-lo.
Então, a caminhar rapidamente para trás, suas costas atritaram-se a uma superfície rígida que parecia ter espinhos. Imediatamente a estrangeira se virou e seus olhos azuis agoniados encontraram os escarlates dilatados.
Após um prolongado respirar que a ajudou a lembrar das atrocidades recentes, Annabelle abriu a boca e um grito subiu de seu âmago, lacerando a garganta. O som animalesco não representava medo ou tristeza, era a manifestação da mais tempestuosa fúria.
— Annabelle... — ele, em contrapartida, esteve estático e vidrado nela. As mãos jaziam fechadas, unidas ao corpo ereto. Naraku estava mais pálido do que nunca.
— Saia da minha vista! — urrou alucinada, a coluna curva para frente e os pés fincados no gramado fofo. A humana se tremia por completo, o traje encardido grudava ao corpo por conta do suor. A aura dela queimava endoidecida. A raiva da europeia contagiou rapidamente os que a rodeavam, obrigando Naraku a retomar uma postura racional enfim.
Depois de encarar cada um de seus inimigos a assumirem posição de batalha, o hanyou-aranha suspirou, fechou os globos sanguinários e assim que os abriu um redemoinho de miasma o circundou e o levou pelas alturas sabe-se lá para onde. Inuyasha ainda tentou alcançá-lo enquanto bradava meia-dúzia de impropérios.
Annabelle quase caiu sentada depois de descarregar tamanha energia tão cedo, contudo conseguiu apoiar o peso nas próprias pernas e, cambaleante, volteou-se para trás novamente, por fim encontrou a irmã sentada no chão encolhida, abraçada a si mesma.
Gritou novamente, agora sem se demorar ou ferir a goela. A mão cobriu os lábios e o brado se transformou num murmúrio. O choro amornou o rosto e molhou os dedos sobre a boca. Anna se jogou no solo sem pensar que poderia ralar os joelhos ou coisa parecida. Ela abraçou a irmã como se não a visse há milênios e agarrou os fios dourados, penteando-os, aproximando-os do nariz para sorver o cheiro. Sim, Ailyn estava viva!
— Vamos. — depois de observar cada ato daquela ópera em silêncio, Sesshoumaru anunciou-se para seus seguidores sem dar-lhes tempo para fazerem perguntas. Tão logo falou, o youkai deu as costas a todos e começou a sua caminhada. Rin demorou a obedecê-lo, a bela cena de uma irmã abraçada a outra a prendeu e a acalentou. Queria poder estar lá e se agarrar às duas, entretanto não teve coragem de se intrometer, era o momento delas e só.
— Sesshoumaru, obrigada! — Kagome agradeceu emocionada. Ele parou por segundos, e então continuou a andar. O fiel escudeiro o seguiu aos pulinhos e logo atrás foi Rin, aos suspiros, a responder a gratidão de Higurashi com um sorriso.
A respiração desacelerou, acompanhada do coração. Annabelle afagou o rosto da gêmea e, ainda a segurar as bochechas avermelhadas, olhou para os lados. O grupo que restara as contemplava em quietude, ansiedade e curiosidade. Um frio percorreu o baixo ventre da arruivada, pois ela não se esquecera da última vez em que esbarrara com cada um deles. Naquela ocasião, lembrou amargamente de ter se jogado na frente de Naraku para protegê-lo da Ferida do Vento. Com aquele gesto, considerava ter se declarado inimiga daquelas pessoas. Deveria sentir-se amedrontada diante de um possível acerto de contas, todavia, o que mais a afligiu não foi medo e sim vergonha.
A escocesa vergou a cabeça e o olhar, depois fitou Ailyn outra vez e suspirou a tocar-lhe os ombros.
— Quem são vocês? — finalmente, a loura se pronunciou quase num sussurro.
Aquela pergunta provocou tamanho espanto que fez da Rosa Vermelha o foco da atenção de todos.
Capítulo 40 - Renascimento
Desde o término do conflito, as horas passaram ligeiras, logo a noite caiu pincelada de estrelas. Annabelle se viu num lugar o qual nunca pensou que retornaria – o vilarejo onde vivia Kaede e onde ela dividira momentos prazerosos com aqueles a quem chegou a considerar uma segunda família.
"Annabelle, você só a si mesma para responsabilizar." — suspirou sentada em uma moita, afastada dos casebres — "Nada será como antes...".
— Então você não está mais com Naraku? — Inuyasha cruzou os braços enquanto a afrontava com os olhos dourados. Se os companheiros não tinham coragem para iniciar aquela conversa, ele por sua vez não faria qualquer cerimônia.
Como tentaria contradizer a pergunta dele, se um dia ela esteve mesmo sob a asa do vilão? Anna se limitou a menear negativamente a cabeça. Por mais que tentasse ser discreta, cada expressão sua denunciava um desgosto abissal.
— E eu posso perguntar por que razão você resolveu ficar ao lado do maldito? — ele persistiu aborrecido.
— É complicado. — Belle respirou fundo e fugiu do olhar dele.
— Você o ama? — Miroku intrometeu-se, não de um jeito hostil, apenas indagador.
— Não! — ela rosnou instantaneamente e cada músculo do corpo enrijeceu.
— Bom para você. — Inuyasha encaixou Tessaiga ao ombro e tratou de se afastar.
— Ei, Inuyasha! — Shippou exclamou do colo de Kagome.
— Aonde você vai? — a mocinha em trajes exóticos questionou desentendida.
— Ué, não temos mais nada para fazer aqui. — o meio-youkai afirmou com naturalidade após cessar o andar.
— Não podemos deixá-las assim! — a adolescente interveio pelas ocidentais.
Sango não acrescentou qualquer palavra de defesa ou julgamento, sentia-se dividida. De um lado a mágoa pelos males causados por Naraku pulsava dentro do peito, amargando seu ponto de vista sobre a dona das ondas acobreadas. De outro, a bondade que residia em sua alma a fazia apiedar-se das condições das duas moças.
— A senhorita Kagome tem razão, — Miroku também intercedeu — no fim das contas, Annaberu-hime e sua irmã não deixam de ser vítimas das crueldades de Naraku.
— Senhor monge... — Sango, absorta, refletiu um pouco sobre a posição dele e fitou as gêmeas sentadas à grama.
— Eu agradeço. — Annabelle proferiu-se séria — Mas não posso aceitar o convite. Há coisas que fiz por opção e sei que vocês jamais poderão me perdoar, com razão. Não posso mais seguir com vocês depois de tudo o que houve. — se esforçou para manter o tom respeitoso e não soar arrogante.
— Se quer assim... — Inuyasha não demonstrou dar muita importância.
— Anna, — Kagome se chegou e ajoelhou diante dela, tocando-lhe o ombro — eu não a condeno. — os globos castanhos e calmos se fixavam nela.
A Rosa Branca mordeu o lábio inferior a conter um gemido, os olhos arderam tanto que ela se sentiu compelida a fechá-los, as mãos apertaram os joelhos. Ailyn a fitava conturbada, a reação da moça arruivada lhe provocava certa ansiedade.
— Se depois quiser conversar sobre o que se passou, estarei aberta a isso. Nesse momento, sua irmã precisa de um lugar calmo e seguro para ficar. — e então encarou a única família que restara a Annabelle ali, sentada, a piscar os olhos confusos e respirar pesadamente. — Como se sente? —perguntou-lhe serena.
— Eu não sei, às vezes minha cabeça lateja e eu fico um pouco tonta. — Ailyn respondeu com certo desconserto.
Anna mirou Kagome com comoção. A jovenzinha não esboçava qualquer vestígio de rancor pela Rosa Vermelha, mesmo depois de tudo o que passara. Os hematomas ainda marcavam-lhe a pele para lembrar a todos da violência que sofrera.
— Kagome... — Belle sussurrou, quis dizer tanto, a admirava com tamanho vigor, e apenas o nome escapuliu entre os dentes. As mãos estremecidas pousaram sobre a da aprendiz de sacerdotisa, o azul e o castanho se cruzaram em brandura por alguns segundos, aquele foi o diálogo entre elas. Logo, Kagome sorriu terna e também emocionada, depois acenou positivamente com a cabeça, insistindo no convite. Ninguém, nem mesmo Inuyasha se mostrou contra. Entenderam-se assim.
Anna e a consanguínea levantaram juntas, uma a dar a mão para a outra. Ailyn parecia uma sonâmbula no jeito de andar e de olhar para o nada. Vazio representava os pensamentos da moça, nenhuma remanescência de seu temperamento, era outra mulher, tudo se apagara para ser reescrito.
Ela era um livro em branco. Como uma criança, teria de aprender a andar com as próprias pernas.
Ah, sim, uma sublime inocência parecia ter lavado toda a escuridão que a manchava, e ela já não sobreviveria sozinha tão bem como fizera durante toda a outra vida...
"Por você Ailyn..." — ela apalpou o traje de sacerdotisa que Kaede lhe emprestara — "Por você eu segui com eles outra vez" — passou os braços ao redor das pernas e apoiou o queixo sobre os joelhos. Durante a jornada, não trocou dizeres com nenhum deles, nem mesmo com a irmã. Temia atordoá-la demais. Portanto, seguiu fixada na linha do horizonte, e quando chegou foi recebida com um banho quente e uma sopa deliciosa. Depois do jantar, pediu licença para se retirar e tomar ar fresco, precisava refletir, e, principalmente, ficar sozinha. — "Meus poderes não foram suficientes para curá-la completamente, ou talvez a cura total tenha sido levar as lembranças ruins embora...".
Annabelle não sabia descrever a angústia dentro de si, a sensação de deslocamento. Apesar de ser uma sensação antiga, ela jamais se habituaria. Conforme o tempo passava, aquele incômodo aumentava dentro dela. Todo canto em que ela pisava a rememorava de alguma coisa que a entristecia.
"Sorte sua Lynnie, por ter retornado sem se lembrar de nada" — mal terminara de pensar e já se recriminava pela ideia. — "Não, Annabelle, não se atreva a voltar a se comportar como naquela época..." — levantou-se, aborrecida com as cenas que viriam a circular a seguir dentro da mente.
Mesmo com toda a raiva a borbulhar em seu íntimo, tingindo o fragmento no peito com sutil negritude, restava qualquer tipo de saudade, de querer estar junto.
"Não se atreva, Annabelle!" — ordenava a si mesma firmemente, colocando força nos passos.
Caminhou e caminhou sem rumo certo, até se encontrar em frente ao poço de madeira. Ali, enfim, ela desacelerou a peregrinação e a si própria. À procura de calmaria, tocou as mãos na beira e inclinou o rosto para ver o que tinha dentro. Não enxergou nada.
"É por aqui que Kagome viaja" — lembrou e resfolgou — "Como será o futuro?" — olhou para trás, avistando as luzes das velas acesas dentro das pequenas casas, era hora de voltar.
Em poucos minutos, adentrou o pequeno chalé onde dividiria um leito com a irmã e deu-se com Ailyn a rodopiar, admirando-se num vestido nada convencional. Annabelle piscou os olhos algumas vezes, absorvendo cada detalhe daquela roupa florida e rodada, os seios quase pulavam para fora do decote justo, a saia sequer cobria os joelhos.
— Por que você está quase nua? — perguntou ligeiramente acanhada.
— Oi? — Ailyn parou de rodar e a fitou de olhos arregalados.
— Ficou um pouco apertado, mas serviu. — Kagome estava encostada à parede, Anna não a tinha notado até que falasse — Até que ficou bonito nela, né?
— Então é uma das roupas de sua era... — a gêmea ruiva riu de leve e suspirou aliviada. Riu de si mesma por não ter adivinhado. Ora, o uniforme da reencarnação de Kikyou era ainda mais curto e ela nunca se chocara tanto! Quando é com parente, a coisa muda. — É verdade, ela está ótima. Obrigada pela gentileza, Kagome. — colocou as mãos sobre a cintura e analisou Ailyn de cima a baixo.
— E como está! — Miroku colocou metade do rosto para dentro do pequeno cômodo.
— Seu monge tarado, saia já daí! — Sango o puxou pela túnica.
"Eu senti falta disso..." — depois de uma risada gostosa, Annabelle comentou apenas consigo.
Dois dias se passaram, a trupe permaneceu no vilarejo aproveitando o descanso que tanto mereciam. Por mais complicado e constrangedor que fosse, a escocesa abençoada pelas fadas dirigia-se a Inuyasha para falar somente o necessário, com Sango e Miroku não era tão diferente. E com a irmã, ela buscava interagir nas tarefas diárias como lavar roupa, colher vegetais e ervas, sem nada comentar sobre a Escócia, sem mencionar o passado ou o elo sanguíneo que as ligavam.
— Eu conheço você? — numa tarde, enquanto coletavam algumas plantas medicinais à beira de um rio, a loura perguntou como quem não quer nada.
— Sim, eu divido o quarto com você. — riu.
— Não, não assim, Belle... — ela a chamou pelo apelido nostálgico – Anna a (re)ensinou assim – se olhou no reflexo da água e depois se fixou em Annabelle. — Nós somos quase idênticas. Somos parentes?
— Lynnie, — tocou o rosto dela — eu poderia dizer que um dia você se lembrará de tudo, mas não posso te dar essa certeza.
— O que aconteceu comigo? — perguntou abalada.
— Você está bem, é isso o que importa. — segurou a mão suada dela — Está tudo bem. — sorriu amena — "Você é como na tenra infância, inocente". — afastou um cacho caído sobre o olho assustado.
— Então por que eu sinto essa apreensão seguida de uma tristeza repentina? É como se uma parte de mim estivesse faltando... — elevou o olhar ao céu límpido — Eu sinto uma saudade não sei de quê.
— Lynnie... — rumorejou.
— Você sabe de alguma coisa, não sabe? — tornou a interrogá-la.
— Vamos, estão nos esperando. — estendeu a mão a ela — Já colhemos o bastante por hoje.
— Você sempre foge do assunto... — resmungou antes de aceitar a ajuda para se levantar. As duas bateram a poeira dos vestidos e andaram lado a lado, durante a jornada passaram pelo poço e Ailyn parou de supetão.
— O que foi? — Annabelle a viu se inclinar para olhar dentro do algibe.
— Consegue ouvir isso? — a loura meteu o rosto mais para dentro.
— Ouvir o quê? — foi até a mulher, parou ao lado e se atentou ao interior da cavidade. Silêncio apenas, e mais nada.
— Como pode circular vento ali no fundo? Não está ouvindo o zunido? — mirou-a ligeiramente assustada.
— Deve ser impressão... — um pouco desconfiada, a pegou pelo braço — Vamos lá.
E assim foram, e ao chegarem no vilarejo se misturaram entre a gente. Ailyn interagia bem por certo tempo, depois se recolhia em algum canto, sentava e fitava a cicatriz no dedo mindinho.
— O que você fez por ela... foi incrível. — Sango finalmente puxou assunto com Annabelle, talvez por compreender o quão importante e intenso é um laço de sangue. — Parece que tudo o que ela precisava era de um novo começo.
— Eu não sei se esse é o recomeço de que ela precisa, Lynnie me parece perdida. — apesar do susto por ter sido abordada pela exterminadora, tentou manter a conversa natural.
— Acha que ela vai recuperar a memória um dia?
— Eu espero que não. — respondeu sem rodeios.
— Entendo... se fosse com o Kohaku, acredito que se esquecer de tudo para sempre seria o melhor para a felicidade dele.
"Kohaku..." — ela, ao contrário da irmã, lembrava-se das experiências passadas com detalhes. — "Naraku" — o fim da estrada era sempre o mesmo, aquele maldito nome.
— Ele voltou por um tempo. — Sango contou — Sei que foi por sua causa. — e a encarou.
Annabelle quase pulou, realmente não esperava por aquela revelação.
— Ele nos contou algumas coisas sobre sua presença no castelo de Naraku... — ela daria sequência e diria mais.
— Com licença! — Annabelle se afastou depressa, estavam em um pátio cheio de pessoas a circularem, logo alguns esbarrões foram inevitáveis.
— O que aconteceu? — Miroku se chegou preocupado, porém a sua dupla já não estava mais tão falante, suspirava um pouco desapontada não só pela reação de ocidental, mas consigo mesma por crer que poderia ter se expressado de um modo menos direto.
— Ah! — os pesadelos não deixaram de acordá-la à noite. Cada poro transpirava, encharcando-a e também o futon em que ela dormia. Anna sentou ofegante, olhando para os lados.
— Calma, calma! — Ailyn massageou-lhe os ombros — Foi só um sonho ruim...
— Parece que certas coisas não mudaram em você. — a voz de Inuyasha soou da entrada, ele estava de pé, de guarda. — Seus gritos me acordaram. — ele elucidou antes que ela pudesse perguntar.
— É, há coisas que nunca mudam... — a ruiva murmurou com a mão sobre o peito descompassado. — "Ou mudam, de certa forma" — se corrigiu, pois somente ela sabia que o protagonista de seu terror noturno já não era mais Hitomi, e sim Naraku. Só que dessa vez, não eram as fantasias quentes de outrora, Annabelle revia a cena do hanyou a executar a sua irmã friamente, e depois se deparava com Sesshoumaru a apontar-lhe a espada e o pavor acabava por despertá-la.
Inuyasha virou as costas e iria embora, Annabelle correu até a porta e o fez estancar com uma pergunta.
— Por que seu irmão queria me matar? — ainda arfante pelo modo como despertou, questionou. A dúvida a atormentava desde que tornara a respirar.
— Te matar? — Inuyasha deu uma risada — Você deveria agradecer aquele cretino por ainda estar nesse mundo.
— Como assim?! — o acompanhou pelo corredor estreito, Ailyn ficou de pé na entrada do quarto os observando.
— Você morreu. — contou sem rodeios, e seu testemunho quase arrancou um grito da boca dela — E o Sesshoumaru, num daqueles raros momentos de simpatia, a trouxe de volta com a Tenseiga.
De repente, o terror de se sentir queimar em chamas infindáveis fez sentido. Não era mais um de seus pesadelos, Annabelle conhecera o inferno por sabe-se lá quanto tempo, e Sesshoumaru, alguém de quem ela jamais esperaria qualquer ajuda depois da forma como ela partira, a tirou de lá.
"Eu fui no lugar dela, o anel levou a minha alma em troca" — apoiou-se na parede, zonza depois da revelação. Inuyasha a olhou por instantes, depois cruzou os braços e foi-se sem dizer nada mais, Anna também não perguntou, ficou a rememorar Sesshoumaru a sua frente, com a espada empunhada.
"Ele me salvou..." — encostou a cabeça à parede e piscou de leve, o coração se aqueceu.
Naraku pousou com delicadeza no solo desértico de um terreno onde um dia um imponente castelo existira. Naquela noite fresca e enfeitada por astros luminosos, nada restara no local de sua antiga morada a não ser uma árvore florida que brilhava em dissonância ao véu noturno de escuridão.
Ele andou dificultosamente, não por qualquer limitação física, pois seu novo corpo era uma fortaleza, a fraqueza estava na razão que oscilava, vacilava, ainda que nenhuma pulsação ecoasse dentro do peito.
Parou diante da árvore e tocou uma das flores, fechou os olhos e reviu a criadora daquele milagre caída ao chão, mais pálida do que aquelas pétalas, o peito sem fazer qualquer movimento. O ruído da brisa que o contornava foi ofuscado pela lembrança dos gritos de Kagome, das súplicas de Rin, do choro silencioso de Sango e de um curto rosnado de Inuyasha, todos em luto. Annabelle estava morta. A mão dele se fechou ao redor da flor e a despetalou.
— Sesshoumaru, por favor! — Kagome insistiu aos prantos, o Dai-Youkai nada dizia ou fazia, permanecia ereto diante da humana falecida, mirando-a inexpressivo.
Sango escondeu o rosto no ombro de Miroku enquanto abafava um soluço. Inuyasha mordeu o canto do lábio a encarar o irmão com afinco, apertando o cabo da espada diante do nervosismo.
Os globos preciosos, dourados como o sol, elevaram-se à figura de Naraku enxergando por trás da nova carapaça a sua miséria.
— Você foi o responsável pela morte dessa mulher, Naraku. — decretou sem qualquer exaltação, o olhar firmou-se no hanyou, cravando-se nele como duas adagas afiadíssimas.
Os rubis alargaram-se, o amargor na boca apenas se intensificou. Naraku mirou o fragmento ainda no peito de Annabelle, levemente arroxeado e concentrou-se na peça.
Finalmente você poderá reavê-lo — as vozes comemoraram, no entanto o que ele tentou fazer foi completamente contrário. Apontou a mão ao corpo inanimado, lume róseo contornou a finada e latejou ao seu redor. Nada.
— O que ele está tentando fazer?! — Sango se recompôs e pousou a mão sobre o Osso Voador, pronta para decapitá-lo se fosse preciso.
— Ele quer trazê-la de volta com o poder da Joia... — Kagome segurou o braço da amiga, impedindo-a.
Estranhamente, ninguém se intrometeu na tentativa de Naraku. Seus desafetos se comportaram como mera testemunhas, e pelas suas feições, Inuyasha e os amigos pareciam até mesmo torcer para que a magia da Joia fosse suficiente. Todavia, o estado de Annabelle não mudou em nada.
Nem mesmo a Joia de Quatro Almas tinha o poder de resgatar o espírito dela, o aracnídeo se deu conta e fitou Ailyn, acuada, sem nada compreender.
"Ela sacrificou a própria alma para salvá-la." — Naraku constatou,.as mãos fechadas e os orbes nelas a piscarem freneticamente. Seu corpo ardeu por dentro, parecia que a qualquer momento poderia desmontar. O lamento não vinha somente dele, a sensação foi a mesma de quando Anna o ajudou a se recompor quando na primeira tentativa de se desfazer do coração, os youkais que o compunham tentaram tomar conta de tudo e ele quase se transformou num monstro irracional. E agora, depois de tudo o que ele fizera para atingir um objetivo duvidoso, ele não seria monstro pior?
"Como consegue me fazer sentir tamanho arrependimento, se eu já não tenho um coração?" — olhou as pétalas na terra escura, contaminadas pela aridez enfim. — "Será porque você não estava somente nele, mas em cada pedaço de mim?" — Céus, queria se desvencilhar daquela dor abstrata, entretanto parecia mais resistente do que o próprio corpo dele.
— A Joia de Quatro Almas é inútil nesse caso, como pode?! — Miroku se ajoelhou ao lado de Annabelle, apoiado no cajado que o acompanhava sempre. Fixava-se na moça, depois se fixava em Naraku como se descobrisse que o hanyou conhecia a resposta.
"Sesshoumaru!" — Naraku o encarou com chamas no olhar, sua garganta emitiu um grunhido baixo no lugar de um pedido.
— A última chance dela é a Tenseiga! — Kagome também o olhou.
— Senhor Sesshoumaru, — entre soluços, Rin apelou — eu prometo ser uma boa menina e fazer qualquer coisa que o senhor quiser, por favor, salve a senhorita Anaberu, ela não merece isso! — abraçou-se na barra da calça dele.
Sesshoumaru vergou a cabeça para baixo, atento a cada gesto da garotinha que o acompanhava. Os olhos dela transbordavam, o nariz escorria e ela se chacoalhava por inteiro. Rin cobriu o rosto com as mãos por não gostar de ser motivo de preocupação, então, uma mão afagou o topo de sua cabeça e ela reabriu as pálpebras infladas, enxergando-o turvo através da torrente salgada, apoiado sobre um joelho, curvo diante dela. Por trás da cortina de frieza ela enxergou o zelo, a mãozinha apoiou-se na perna dobrada do youkai e apertou-lhe a calça.
— Por favor... — sussurrou, apegada ao último lampejo de esperança.
O irmão de Inuyasha se reergueu, perpassou o olhar por cada um que o rodeava, parou em Naraku por instantes, por fim focou-se na mulher desbotada e tocou o cabo da espada. Seu inimigo conteve um enorme suspiro na garganta e fechou os olhos, o alívio era discreto, porém perceptível.
Assim que sacou a espada sobrenatural, Sesshoumaru avistou os mensageiros de outro mundo atracados ao corpo de Annabelle. Num único e majestoso golpe os cortou ao meio, o formato do corte se desenhou como um fio de luz que em pouco tempo alumiou a moça por completo.
"Jamais será capaz de me perdoar..." — os dentes dele arrastaram-se uns sobre os outros, o cenho franziu bem como os olhos se encolheram, o respirar aumentou de velocidade. O grito enraivecido da humana ainda ecoava em seus ouvidos. Que aperto, e que vazio! — "Eu não serei, Annabelle Rose. Fiz de tudo para mantê-la segura, e ainda assim não pude conter o meu ódio, matei sua irmã e por isso você se sacrificou... Kagewaki tinha razão". — O discurso profético o acompanhava aonde quer que fosse, e a flor destruída no galho, cujos restos foram enterrados na areia, comprovava que tudo o que a mão dele tocava perecia.
Culpou-se, mas não sozinho. A raiva crescente se voltou à pérola que optara por resguardar. Se aquela preciosidade fosse uma pessoa, a mataria sem pena. A ira era tamanha que lhe tapava os ouvidos para os corais, ainda assim, fora tão longe, era tão perseguido, precisava do poder, precisava do rancor, só que precisava dela também... e estava cada vez mais difícil se controlar para não procurá-la, ainda mais depois de quase tê-la perdido pela eternidade. Porque, sim, cada parte que o compunha pertencia a ela.
— Eu estive pensando... — Kagome começou, ela e Annabelle estavam sentadas na grama, acima de suas cabeças havia um varal improvisado cheio de roupas estendidas. Era uma tarde amena, enquanto conversavam, a escocesa costurava uma roupa nova para si, o quimono que a adornava era por demais pesado.
— Diga. — concentrada na agulha e na linha, respondeu.
— Ailyn de vez em quando vai ao poço e diz escutar uivos lá de dentro, hoje de manhã ela me contou que viu uma luz vir do fundo. — fitou a mocinha dos cachos dourados a brincar de esconde-esconde com Shippou no meio das árvores.
— Uma luz? — a Rosa Branca cessou a atividade e mirou a irmã.
— Sim, Anna, quando eu atravesso o poço, também a vejo. — contou e tocou-lhe o braço.
— Acredita que Lynnie pode ser uma viajante do tempo, como você? — afagou a roupa quase pronta em seu colo.
— Você mesma me contou sobre a lenda do seu país, o poço pode ser como as pedras.
Annabelle suspirou e sorriu de leve.
— E ela dizia não ter poder de berço... — sussurrou saudosa.
— Então, continuando, eu pensei, pensei e pensei, e tenho uma sugestão a fazer. — assim que Annabelle a olhou, Kagome deu a ideia: — Na minha época, a medicina é bem mais avançada, talvez seja possível descobrir porque Ailyn perdeu a memória e se existe uma maneira menos traumática de ela se recuperar. A minha mãe e o meu avô podem dar todo o suporte, meu irmãozinho também ficará feliz em ajudar.
— Depois de tudo o que ela fez a você, você quer levá-la para a sua casa e pedir para a sua família cuidar dela? — o coração balançou, novamente cheio de emoção.
— Ela ficará segura no futuro, Anna. — sorridente, segurou a mão da outra — Além do mais, o que passou, passou! Eu sei que Ailyn teve uma vida muito difícil, talvez com certo amparo ela finalmente encontre um rumo e se ela gostar de lá, por que não ficar?
— Kagome, você é a melhor pessoa que eu já conheci em toda a minha vida. — fitou-a com os olhos marejados.
— Ah, que isso? — a menina acenou com uma das mãos e ruborizou enquanto ria desajeitada.
— Falo sério, você me faz acreditar que não importa o quanto o mundo possa ser cruel, sempre haverá um detalhe, ou alguém para colorir a escuridão e demonstrar que, ainda assim, vale a pena viver nele. — enxugou as pálpebras afim de evitar uma cena. O choro queria descer não só pelo gesto da adolescente que tentava disfarçar o rubor, mas também por saber que se a gêmea atravessasse o poço, provavelmente não a veria outra vez.
"É o melhor para ela" — assumiu, pois na era feudal havia tanto perigo à espreita e tantos lugares passíveis de trazerem à tona memórias ruins... no século de Kagome, tudo seria novidade para Ailyn e Naraku não conseguiria lhe fazer nenhum mal.
Sem objeções, Annabelle acatou a ideia e decidiram que a despedida ocorreria ao entardecer. Kagome precisaria voltar para casa por uns dias já que o período de exames estava por vir, Inuyasha ficaria por lá passando o tempo com a família dela e Ailyn aproveitaria a viagem.
Então, cada hora que se passou a escocesa gastou na companhia da irmã. Conversaram sobre trivialidades, uma trançou o cabelo da outra, até fizeram guirlandas com flores do campo, reviveram todos os hábitos de quando eram crianças sem que Ailyn soubesse.
O céu rosou e o sol de dourado passou a cor de cobre, era o momento de dizer adeus.
— Para onde vão me levar? — Ailyn perguntou assim que chegou ao poço.
— Para um lugar muito melhor para você, Lynnie. — Anna ajeitou os cabelos dela para trás da orelha, contendo a comoção enquanto podia.
— Eu a verei outra vez? — também contida, perguntou.
— Quem sabe do futuro? — a ruiva roçou os olhos e sorriu.
— Então até um dia, Belle. — a abraçou carinhosamente, grata sem nem saber a razão.
— Que melação! — Inuyasha reclamou, de pé sobre o poço — Vamos logo!
— Inuyasha! — Kagome, sentada sobre a madeira a ajeitar a mochila nas costas o recriminou.
Elas se soltaram devagar, a gêmea poucos minutos mais jovem deu a mão aos dois companheiros de jornada e juntos saltaram lá dentro. Annabelle correu até a beira e se apoiou nela, não enxergou nada além de terra nas profundezas do poço. Enfim, cobriu os olhos e chorou como uma criança.
Estava feliz por sua família, ainda assim era impossível reprimir aquela tempestade dentro de si. Um ciclo se fechou em sua vida, e por mais tortuoso que tenha sido ela sentiria falta.
Alguém a puxou para um abraço, imediatamente a ocidental ergueu o rosto para mirar quem tentava consolá-la e se viu amparada por Sango. Aquele ato lhe arrancou ainda mais gotículas, estava à flor da pele.
— Você fez o que devia fazer, ela ficará bem. — a acolheu por simpatizar com o sofrimento dela. Não era fácil estar longe de um irmão, o amor superava qualquer desavença.
Miroku as observou de trás, a exterminadora passava a mão pelo cabelo de Annabelle cuidadosamente.
— Eu não mereço o seu carinho Sango, eu não mereço! — disse entre soluços. — Não fui capaz de fazer Naraku libertar o seu irmão!
— Por um tempo, você foi. — Miroku falou sereno. — Não faço ideia do que você fez, mas você foi.
— E eu agradeço por você simplesmente ter tentado. — Sango completou. — Isso demonstra o quanto o seu coração é bondoso.
Belle respirou fundo, queria se recompor o mais rápido possível, do contrário o pranto a invalidaria por horas talvez, aquela tristeza toda quase não cabia mais em si.
Conforme caminhou de volta ao vilarejo ao lado do casal, via-se zonza de tanto pensar, de tanto lembrar, ainda a engolir amargo a violência cometida por Naraku. Ailyn podia estar viva, no entanto Annabelle sentia um luto imenso pesar sobre a alma, aquilo nada tinha a ver com os instintos aflorados pela Joia, era profundo demais e a corroía mais do que antes.
As horas passaram, dias passaram, e o sufocamento interior persistia, quase concreto como uma rocha. Ela se distraía como podia, depois de terminar de costurar um vestido começou a fazer outro, com nova estampa. Sango e Miroku se mostravam um pouco mais amistosos e Shippou nunca deixara de ser, já que não tinha o colo de Kagome procurava pelo dela e o recebia de bom grado. Anna socializava com os aldeões e com Kaede, de vez em quando a senhora de idade se empolgava e contava algumas aventuras dos tempos de juventude, porém, quando ela ia muito além e mencionava o cuidado de Kikyou por Onigumo, o aperto no peito e a dificuldade para respirar abatiam e escocesa mais uma de inúmeras vezes.
Ao cansar de interagir, ao sentir a necessidade escruciante de ficar só e em silêncio para poder lidar com seus fantasmas, Belle caminhava pelas redondezas, ia ao poço fazer pedidos e ia ao rio se assear. Enfim, somente cinco dias depois da partida de Ailyn, Kagome e Inuyasha ela se atreveu a ir até a famigerada caverna onde um bandido muito ferido foi instalado há não muito mais de meio século.
A saliva desceu espessa e quase entalou no meio da garganta, a forasteira agarrou a cesta de palha que tinha entre o braço e a cintura, as frutas sacudiram no interior, até o vento que contornava a brecha entre as rochas era fantasmagórico, o ar pesava denso.
Annabelle respirou fundo e enfrentou os maus sentimentos. Apertou o passo até estar dentro daquela gruta úmida. Logo que entrou, notou o único canto do cubículo onde a grama não crescia e se aproximou estremecida, apesar de não ser um lugar tão fechado, o peito dela subia e descia em acelerado respirar. A temperatura lá era fria, todavia ela suava.
Acreditou que a mente lhe pregava uma peça ao ver uma sombra se formar à parede rochosa do fundo. Só poderia ser o nervosismo – ela pensou, respirou fundo e fechou os olhos por segundos enquanto soprava o ar para controlar os batimentos cardíacos. Ao escancará-los, o susto foi tamanho que a cesta caiu de suas mãos e as frutas rolaram pelo chão.
— Naraku! — vociferou. O hanyou atravessara a parede como um espectro e estava bem ali, a sua frente, de pé sobre o trecho onde o mato não crescia, fitando-a sem piscar.
Possuída pelo calor da ira, ela cerrou as mãos, os orbes esbugalharam e a bocarra se abriu pronta para urrar as mais diversas acusações e ofensas. Entretanto, a voz ficou presa nas cordas vocais, as articulações que queriam se debater em cólera congelaram, Anna não possuía o menor controle sobre o próprio corpo.
Pare. — a voz do aracnídeo zuniu dentro da cabeça dela e o fragmento no peito pulsou, tornando-a uma estátua.
"Está me controlando!" — ainda mais raivosa com a constatação, quase trincou os dentes lutando para libertar os gritos. Tremia, vibrava, querendo se mexer e sem poder, e ele fechava a distância entre ambos numa vagareza tortuosa. — Mmm! — Annabelle conseguiu grunhir, fitando-o dentro dos olhos a fazer questão que ele identificasse o seu furor. Sua mente se abriu para ele há certo tempo, no presente fechava-se como um cofre. O que o permitia comandar os movimentos dela era ponto de escuridão que manchava o caco. Só podia ser isso! —"Maldito, eu não permitirei!" — ah, ele não faria dela sua marionete, jamais!
As mãos do vilão seguraram-lhe a face, apalparam-lhe as bochechas, depois tomaram os braços rijos pela luta interna e apertaram cada centímetro.
"O que está fazendo?! Não vai se aproveitar de mim, não mais!" — primeiro acreditou que ele tentaria fazê-la de fantoche como fazia com Kohaku, em seguida um frio percorreu a espinha apavorando-a ainda mais. E se ele estivesse ali para saciar os próprios desejos?
Ela grunhiu outra vez e mordeu o lábio inferior com tanta força que quase fez um corte. Naraku tomou-lhe um dos punhos e a puxou de encontro a si, fazendo-a repousar o queixo no ombro livre do adorno espinhoso da armadura. Annabelle ouviu o som de alguma coisa se fechando, assim que seu busto colidiu com o peitoral dele, compreendeu que de alguma forma aquele imenso olho avermelhado se escondera. O sucessor de Onigumo podia enfim modelar a sua imagem como bem quisesse. Indubitavelmente até a estatura dele aumentara, tendo em vista que os pés dela mal tocavam no chão para que o rosto dela pudesse permanecer pousado onde estava.
Ofegante, a escocesa persistiu a abrir a boca para bradar, apenas murmúrios pouco sonoros saíam, e a respiração entrecortava. Diante da própria inabilidade de se libertar das patas da aranha, ela chorou silenciosamente.
Tão logo Naraku sentiu o tecido sobre o ombro molhar, ele a pressionou mais contra si e afagou seus cabelos incessantemente. O nariz naufragou nas ondas alaranjadas, Belle sentiu o sopro quente de ar no pescoço a eriçar a pele, a provocar os sentidos e o pranto acentuou. O que viria depois? Os toques ousados pelas partes mais sensíveis do corpo dela? Beijos ardentes que a entorpeceriam? Por mais que os desejasse em seu mais íntimo sonho, os odiava naquele momento, e o amaldiçoava por ainda despertar essa ânsia dentro dela, mesmo depois de todos os crimes que ele cometera.
Nenhum avanço veio, porém. Ela captou um plangor grave, rouco, vindo da boca selada dele. O abraço perdurou forte, sufocante, as mãos trêmulas dele subiam e desciam as costas tensas, os dedos se enrolavam nos cabelos de fogo e ele arrastava o nariz pelo cangote da humana sorvendo-lhe toda a essência.
Pouco a pouco, os músculos de Annabelle desistiram de lutar, a garganta já ardida e seca se aquietou, o coração, todavia, batucava com tamanha bruteza que a deixava tonta. Ela soluçava às vezes, os cílios entrelaçados a gotejar. Os olhos de Naraku, cobertos pela franja bagunçada, também fechados pregueavam diante da força como o meio-youkai os cerrava.
— Você... você está viva... você está mesmo viva! — finalmente ele se manifestou, prensando o braço ao redor da cintura dela, esfregando a face na dela para sentir o calor. — Você está viva! — repetia em tom desacreditado, meio triste, meio risonho, insano.
Certa vez ele a proibiu de morrer, ela lembrava bem, e naquele mesmo dia Annabelle viu nos olhos dele preocupação, foi nesse instante que ela teve a sensação de que no fundo, bem no fundo da alma conturbada dele, residia alguma bondade, e talvez algum sentimento por ela. A mesma sensação queria dominar o coração dela no presente, e ela relutou por mais que a crença fosse resistente.
Estava cansada de alimentar esperanças por Naraku. Para que o faria? Para ser escorraçada outra vez? Pela Deusa, o patife assassinou sua irmã a sangue frio! Então por que ela começava a se sentir confortável, até mesmo acolhida dentro daquele abraço, de modo como não conseguia se sentir com o grupo que parecia lhe dar uma nova chance?
"Eu me odeio por não conseguir odiar você!" — os braços, as pernas e o pescoço amoleceram de vez, os olhos azuis cravaram-se no teto da gruta. Ouvia alguns risos, bem baixinhos, escaparem dos lábios dele, depois ouvia breves lamentos. Ouvia-o sofrer sem sentir o seu coração. O que era aquilo? Ainda existia nele algum resquício do homem com quem ela viveu por alguns meses?
— Por... quê? — provavelmente a emoção dele desestruturara o seu poder sob o fragmento a ponto de ela conseguir fazer ao menos essa pergunta. Era uma questão abrangente, referia-se não só ao que ele fez a Ailyn, mas tudo o que ele a fizera passar. Antes de queimar no inferno, Annabelle queimou nas mãos dele.
Naraku criou alguma distância entre os corpos, sem desfazer o abraço.
— Eu não posso perdê-la. — não mais destemperado, num timbre grave, revelou a encará-la. Não a permitiu se mover, mas a garganta dela encontrara alguma liberdade.
— Você não vai. — meneou a cabeça, os dizeres o estremeceram de início e fizeram os olhos avermelhados arregalarem — Não se pode perder o que nunca se teve. Talvez um dia você quase tenha conseguido, mas agora tudo não passa de uma remota lembrança. — e assim ela provou que não é preciso atravessar o couro de alguém com uma lâmina para causar um ferimento fatal. Ali, naquela gruta, Naraku agradeceu a própria sorte por seu coração estar longe, mas, ainda assim, doía. Talvez fosse o seu orgulho? A sua razão? Mas e todo o tormento pelo qual passou nas horas anteriores mesmo sem ter o órgão vital a pulsar dentro de si?
O fato de seu coração não estar dentro do peito não o fazia deixar de existir.
— Que cena interessante... — em um local desconhecido, a uma distância segura da caverna de Onigumo, um menino de cabelos e trajes claros assistia o encontro dos antigos amantes através de um espelho carregado pelas mãozinhas de uma garotinha talhada de modo parecido ao dele.
— Hum... — Naraku sorriu discreto e amargo, desceu o olhar ao peito agitado dela.
— O que vai fazer? — a pergunta saiu tremida, as mãos dela se fecharam, algumas partes de si conseguiram recuperar o movimento.
O indicador dele roçou o vão macio entre os montes empinados pelo espartilho por baixo do vestido azul.
— Não se atreva! — o ameaçou num fio de voz, não adiantou. Naraku persistiu a afagar o local e ousou tocar o nariz ao dela, misturando as respirações.
"Eu sinto muito Annabelle, antes de libertá-la, preciso senti-la, nem que seja pela última vez." — a ideia o incentivou a aproximar os lábios entreabertos dos trêmulos e rangentes, quando quase se tocavam, o hanyou sentiu o rosto se encharcar de um líquido gosmento.
Em um ato desesperado e numa demonstração de asco, ela cuspiu nele.
A respirar fundo, ele limpou a face com uma mão e a sacudiu para secar o fluido. Mirou-a novamente, o enraivecimento de ambos misturou-se quase a provocar faíscas.
— Nunca... nunca mais! — Belle rosnou.
— Sabe, Sango... — Miroku a encontrou sentada à grama, a limpar a grande arma que costumava carregar consigo — sei que nos preocupamos em poupar Anna-hime depois do que ela passou, mas acredito que já não podemos adiar essa conversa com ela. — sentou-se ao lado da exterminadora.
— Eu tenho pensado a mesma coisa, senhor monge. — suspirou — O clima está esquisito, tanto de nossa parte como da dela. Confesso que desde aquele dia no castelo de Naraku, tive minhas reservas em relação a ela e ainda tenho algumas...
— No entanto, — ele tomou a liberdade de completar o raciocínio — vimos o que ele fez à irmã dela, e como Anna-hime sofreu.
— Vimos também a grandeza do poder dela, um poder que Naraku certamente gostaria de ter ao seu favor. — engoliu seco depois de comentar. — Eu acredito que Anna seja uma marionete para ele, o canalha tem algum tipo de influência sob ela.
— Mas ela mesma disse que tudo o que fez, fez por escolha. — Miroku cruzou os braços sobre as pernas.
— Naraku pode não controlar a mente dela como faz com Kohaku, mas existem muitas formas de se manipular uma pessoa, senhor monge. Ela acredita que escolheu, quando na verdade fez coisas por sugestão... — continuaria a divagar sobre aquele assunto e outros, pois a dúvida era imensurável e o comportamento distante da ocidental a incomodava, todavia uma voz conhecida cativou a atenção dela e do amigo.
— Naraku, seu maldito! — Inuyasha apareceu à entrada da gruta com a Tessaiga empunhada em mãos. Com ele, Kagome a apontar uma flecha para a cabeça do araneídeo.
O ser tão odiado e caçado, parado onde estava, limitou-se a olhar para o rival de cima abaixo, com o resquício da saliva de Annabelle a respingar do queixo. Então, fixou-se novamente no que realmente lhe interessava – a criatura que o encarava furiosa, e que ainda lutava para tentar se mover. Tocou-lhe o rosto e suspirou, ignorando completamente as presenças que o ameaçavam. Enfim, uma sombra apareceu às suas costas e em um pequeno passo para trás ele foi engolido pela escuridão e desapareceu. Imediatamente, Annabelle recuperou o controle do corpo e abraçou a si mesma, limpando cada trecho de si por onde as mãos dele perpassaram. Atarantada, gritou a raspar as unhas pelo canto do rosto.
— O que aconteceu?! — Sango chegou primeiro, às pressas.
— Ouvimos Inuyasha gritar! — Miroku surgiu em seguida. — Naraku esteve aqui?!
— Sim, o bastardo esperou que fossemos para a era de Kagome para aparecer! — Inuyasha vociferou destemperado — E agora que estamos todos aqui e eu já perdi a minha paciência, você pode começar a explicar algumas coisas, anda, é bom falar logo! — apontou a espada para Annabelle enquanto cobrava aos berros — Cansei de ser bonzinho com você!
— O que você quer saber?! — virou-se de frente para ele, respondendo-o no mesmo tom colérico. As pernas tremiam.
— Inuyasha... — Kagome tocou-lhe o ombro tentando abrandá-lo, para nada.
— Tudo! Eu quero saber de tudo! Como, por exemplo, por que você protegeu Naraku aquela vez?! — fez a pergunta que todos há muito tempo gostariam de fazer.
— Porque eu estava apaixonada por ele! — vomitou a resposta sem respirar.
Um silêncio sepulcral contagiou a todos os ouvintes, o grupo a encarou estarrecido, com exceção de Kagome.
— Eu estava apaixonada por ele sim, e eu não preciso de ninguém a me julgar por isso, porque já basta a minha própria consciência que me tortura todos os dias, me dizendo o quão tola eu fui por me deixar seduzir por um cretino como ele! — prosseguiu, exausta de guardar para si todo o peso sozinha — Me deixei levar, por ser burra o suficiente para acreditar que lá no fundo, mas bem no fundo mesmo, existia alguma coisa aproveitável, algum rastro de benevolência naquele saco de merda de meio-youkai! E ele finge bem! O desgraçado tem talento nato para mentir! Houve vezes que eu quase acreditei que o canalha me queria bem, que queria cuidar de mim! Naraku soube ser acolhedor, compreensivo, até mesmo compassivo comigo! — estapeou a própria testa, depois esmurrou a parede de pedra e nem piscou ao ralar os punhos na aspereza — Até libertar Kohaku por minha causa ele fez! Claro que por pouquíssimo tempo, porque era tudo uma grande mentira!
— Anna! — ao vê-la tremer intensamente e pousar as mãos sobre a barriga, grunhindo ensandecida, Kagome tomou a frente e a conteve pelos ombros, não a deixaria acertar a parede outra vez.
— Nós vivemos juntos naquele castelo, dividimos tantos momentos, zelamos um pelo outro, eu comecei a vê-lo não como uma sombra de Hitomi, na verdade, pouco me lembrava de my lord quando estava com ele, Naraku me fez sentir acolhida em seus braços, — arfou, sem conseguir segurar o choro — e então, acreditando que era possível uma mudança no coração dele, tentei dar a Kagura a liberdade com a qual tanto sonhou, foi aí que ele se virou contra mim!
— Foi nesse dia que encontramos o castelo, não foi? — Kagome perguntou, Annabelle assentiu a balançar a cabeça.
— Mesmo depois de ele ter me tratado terrivelmente mal, quando eu percebi que ele não escaparia de vocês, fui dominada pelas minhas emoções e o protegi. — a lembrança provocou um frio colossal no ventre, tamanho desconforto a fez revirar os olhos e colocar uma mão sobre o peito exasperado.
— Foi o que eu disse, sugestão. — Sango cochichou ao ouvido de Miroku.
— E o que ele fez?! — Annabelle riu, ironizando a si mesma — Ele me teve mais uma vez, para depois me jogar fora no meio da floresta! E se eu disser que acabou por aí, serei eu a mentirosa! Ele me procurou novamente quando Inuyasha quase o matou pela segunda vez, e eu o curei! Eu o curei e emprestei o meu cordão para ele. — mostrou-lhes a lua de cristal pendurada no pescoço — Com essa pedra, o desgraçado conseguiu se esconder no Monte Hakurei e adquiriu aquele novo corpo cheio de tralha pendurada! Graças à minha ingenuidade, à minha estupidez e à minha teimosia, Naraku está mais forte do que nunca, o vilarejo onde eu vivi durante esses meses foi destruído e as pessoas que cuidaram tão bem de mim poderiam ter morrido no processo. Era isso o que vocês queriam ouvir?!
— Anna-hime, tem certeza de que Naraku não a obrigou a nada? — Miroku, relutante, perguntou, talvez para tentar arrumar uma justificativa que amenizasse a agonia dela. O estado de espírito da ocidental o sensibilizara, com Sango não parecia ser diferente. O único que ainda sentia o sangue borbulhar e a fitava agressivamente era Inuyasha.
Kagome analisou o fragmento no peito de Annabelle, notando por trás da cortina arroxeada de trevas uma luz que sobrevivia.
— Ele me controlou uma vez, quase me fez matar a minha própria irmã. — a voz embargou na garganta — E hoje, quando apareceu aqui, usou o poder dessa porcaria para me invalidar e fazer o que quisesse de mim. Todas as outras vezes, eu fiz o que fiz por minha escolha.
— Está dizendo que durante esse tempo todo que passou com ele, Naraku não tentou manipulá-la, controlá-la, como faz com Kohaku? Mesmo depois de conhecer a dimensão do seu poder? — Sango perguntou, uma fagulha de descrença no tom, não poderia admitir um absurdo daqueles.
— No auge da minha cegueira, Naraku disse que poderia me fazer esquecer todas as minhas tristezas e eu quis isso, quase supliquei por isso, para poder viver com ele sem sentir culpa. Não sei se o meu sofrimento era tão regojizante para ele, mas o fato é que ele nunca sequer tentou tirar as minhas lembranças de mim. — e ela riu repentinamente, escarnecendo a si mesma – Ele chegou a me fazer acreditar que não me tiraria as memórias por não querer que eu perdesse a minha essência, como se alguém como ele pudesse gostar de mim de verdade.
— E se ele gostar? — Kagome perguntou, surpreendendo a todos.
— Keh! Ridículo! — Inuyasha deu de ombros e fechou os olhos, ultrajado – Naraku não gosta de ninguém, esse papinho sobre ele já está me deixando entediado! Se o maldito tinha um pingo de sentimento por alguém, era por Kikyou, e mesmo assim ele teve a coragem de matá-la a sangue frio! — fechou uma das mãos, os ossos dos dedos se estalaram, os olhos comprimiram-se em uma mistura de raiva e melancolia.
Annabelle entreabriu os lábios, pronta para contar que a sacerdotisa estava viva, no entanto se prendeu a promessa que fizera a moça de manter segredo. Kikyou deveria ter suas razões, então, de coração apertado, decidiu omitir aquela verdade. Tinha esperanças de que em breve o peso seria tirado das costas do meio-youkai cão.
— Não, é sério, Naraku pode gostar de Anna de verdade! — Kagome prosseguiu, dificultando ainda mais a ocasião para a europeia. A mocinha falava como se tivesse feito uma grande descoberta — Ele teve sim coragem de matar Kikyou... — respirou fundo, pesarosa em recordar — Mas e você, Anna, ele tentou tirar a sua vida? — encarou-a com os olhos castanhos piscantes e arregalados.
— Ah... — a ruiva sobressaltada tentou resgatar na mente qualquer vislumbre de um momento similar a uma tentativa de assassinato e não encontrou nada. Lembrava sim dos cuidados dele, das carícias calorosas, das noites em que dividiram o mesmo leito e a cabeça latejava — Não, ele até disse algumas vezes que seria capaz de fazê-lo, mas sempre que chegava perto de conseguir, ele parava. Eu nunca acreditei que ele fosse capaz, até saber o que ele fez a Kikyou.
— Como você soube?! — Inuyasha perguntou em alta voz.
— Ele veio me contar, e foi só. Não tentou... nada contra mim. — constatou, as cenas a embolarem-se e depois a se encaixarem como peças de um quebra-cabeças. O suor respingava intensamente pelos cantos do rosto, já agoniada pela sensação de grude, Belle esfregou as mãos pela pele secando-a e jogou os cabelos melados para trás.
— Você disse que ele apareceu aqui e a paralisou, o que ele veio fazer? — Miroku, talvez o único capaz de compreender aonde Kagome queria chegar com aquele interrogatório, indagou.
— Eu... eu não sei! — exclamou e andou em círculos dentro da caverna — Quando ele controlou os meus movimentos, pensei que tentaria alguma de suas maldades, mas ao invés disso Naraku simplesmente me apertou nos braços e ficou repetindo "Você está viva, você está viva!" — encostou as costas na parede pedregosa, depois a cabeça e fechou os olhos, exausta. — Francamente, eu não consigo entender o que ele quer de mim! — desabafou.
— Ele a ama. — Kagome concluiu em baixo tom, a mirar o chão escuro.
— Isso é uma piada! — Inuyasha gargalhou.
Annabelle não pôde julgar a atitude do amado de Kikyou, pois ela mesma quase soltou um riso de incredulidade.
— Impossível! — disse, cética — Ele se diverte às minhas custas, como faz com todos que cruzam o seu caminho.
— Anna, quando percebemos que você estava morta, Naraku intercedeu por sua vida na frente de todos. — Kagome contou conturbada — Ele exigiu que Sesshoumaru fizesse alguma coisa. Os olhos dele... eu nunca os tinha visto tão assustados antes. — cobriu a boca com uma mão.
— Isso é verdade... — Sango completou, tão atônita quanto a amiga.
— Estávamos todos lá. — Miroku afirmou. — Não há como negar. Naraku poderia ter aproveitado para fugir, mas ficou entre nós até que você retornasse ao mundo dos vivos.
— E então ele vem aqui em pessoa só para abraçá-la... — Kagome deu um suspiro entristecido — é como se ele quisesse se certificar de que você estava mesmo bem.
Annabelle sacudiu a cabeça para os lados e cobriu os olhos, queria poder ignorar todos os comentários e perguntas que escutara.
— E daí? — Inuyasha enfim se meteu — Vamos supor que Naraku tenha aprendido a gostar de alguém de verdade, isso traz Kikyou, a família de Sango, o pai de Miroku de volta? Vocês por acaso o perdoaram e desistiram de derrotá-lo? — a mágoa se derramava nos sons guturais dentro da goela dele.
— Não, nunca! — Sango alegou de imediato.
— Então qual é o ponto dessa conversa toda?! — Inuyasha persistiu enraivecido.
— Inuyasha! — Kagome o encarou desapontada pela incapacidade dele de se sensibilizar com o estado miserável da europeia.
— Não! — Annabelle a impediu de começar uma discussão com o hanyou — Ele tem razão! — dessa vez, foi o rapaz de cabelos prateados que se mostrou surpreso — Se Naraku sente algo verdadeiro por mim ou não, não me interessa! Nada muda o fato de ele ter assassinado a minha irmã diante dos meus olhos! Eu aprendi do jeito mais doloroso o possível que ele nunca vai mudar! Não quero ouvir teorias sobre os sentimentos dele, eu venho me esforçando há meses para matar essa esperança dentro de mim, então, por favor, não alimentem isso! — bateu no próprio peito, entre o rolar de uma lágrima e outra.
Inuyasha resfolgou desgostoso, testemunhar o pranto dela o desestabilizou e quase o fez se arrepender de ter sido tão ríspido.
— Vocês façam o que têm que fazer! — ela prosseguiu — Só entendam que eu não quero estar perto, não quero assistir! — cobriu os olhos com as mãos, os ombros balançaram. Apesar de tudo, não queria que Naraku morresse. — Preciso ir embora daqui o quanto antes!
— Não diga besteiras, para onde você iria? — Inuyasha, um pouco mais dócil, se achegou ao lado dela, contudo sem olhá-la diretamente.
— Eu mencionei um vilarejo, lembra? — enxugou os olhos — Fui muito bem acolhida por aquelas pessoas... Depois que nosso lar foi destruído, estávamos migrando para o litoral quando eu fui atrás de Ailyn e toda aquela tragédia aconteceu. Disseram-me que se depois de resolver os meus assuntos eu quisesse voltar, seria bem-vinda.
— Então... — Sango também se fez próxima e tocou os ombros dela — se você quiser, Kirara pode levá-la até lá.
— Não importa para onde eu me mude, nunca estarei livre dele. Não enquanto eu tiver isso dentro do meu peito. — apontou-se.
— O fragmento... você quer que eu tire? — Kagome perguntou cuidadosamente.
Anna se calou por alguns segundos, a refletir sobre aquele momento crucial. Houve um tempo em que Kikyou se oferecera para fazer o mesmo e ela não aceitou, naquela circunstância uma parte muito mais abrangente de si lutava para manter os sentimentos e sensações avivados. Annabelle, no presente, já não era essa mulher. Tudo o que ela queria era se ver livre das correntes que a prendiam a Naraku. Nunca teria plena certeza de que tudo o que sentia era uma ilusão provocada por aquele fragmento, e embora temesse descobrir, temesse perder, não desperdiçaria aquela chance.
Acenou com a cabeça e fechou os olhos, os braços penderam para baixo. Annabelle amoleceu cada pedaço de si, entregue aos poderes de Kagome, otimista de que a habilidade da menina seria suficiente para burlar a energia sinistra que tentava impedir que a peça saísse.
Não foi tarefa fácil de início, a aprendiz de sacerdotisa tocou a pele e sentiu uma descarga elétrica repeli-la. Assim, uma aura rosada a contornou e ela se concentrou no que estava disposta a fazer. A partir do momento que a luminosidade cobriu sua mão, os lampejos do poder de Naraku não lhe fizeram mais mal algum. A palma da mão dela atraiu o fragmento como se fosse um ímã. Tão logo o tocou, a sombra que o cobria se dissipou e o losango retomou a cor rosada de costume.
No exato momento em que o caco de pérola abandonou o seu corpo, Annabelle sentiu um peso enorme abandoná-la. Ainda estava desconsolada, mas a raiva certamente não pulsava dentro de si com a mesma profundidade. Sentiu-se até mesmo zonza e precisou se apoiar nas rochas atrás de si.
— Obrigada... — sussurrou aliviada e preenchida por um calor repentino, deveria ser o poder de Kagome. Precisou abraçá-la diante da gratidão.
— Como você está, Anna? — retribuiu o gesto.
— Acredito que eu renasci. — comentou. — "Estarei livre agora?"
— Vá e viva a sua vida com dignidade, você não precisa mais se envolver nos jogos de poder do Naraku. — Sango ajeitou-lhe o cabelo.
— Inuyasha, — Annabelle o chamou, — eu espero que um dia você possa me perdoar.
— Perdoar o quê? — mirou-a embaraçado — Você não me fez nada, para com isso! — todo desajeitado, deu uns tapinhas nas costas dela — Anda, se arruma logo e para com essa frescura ou vai me dar vontade de vomitar.
"Então ele não tem raiva de mim" — deu dois soluços, comovida.
— Ah, você só sabe chorar é?! — ruborizado, Inuyasha resmungou — Tá na hora de sairmos dessa caverna!
— De acordo! — Miroku levantou o cajado, risonho.
Saíram juntos de dentro da gruta de Onigumo, Kagome e Sango a abraçarem cada braço de Annabelle. Ao chegarem ao vilarejo, a estrangeira agradeceu a Kaede por tê-la recebido por tantos dias, deu um último abraço em Shippou e depois de sorrir amena para o grupo que já a salvara de tantas situações, montou na felina de diversas caudas, ajeitou a sacola que continha seus pertences às costas e sumiu por entre as nuvens.
— Eu espero que ela encontre alguma paz... — Kagome devaneou fixada no firmamento alaranjado do entardecer, por fim fitou o seu companheiro que também elevava o olhar aos céus. Inuyasha poderia ser duro por fora, às vezes desagradável, todavia os olhos dele não mentiam. Uma infindável compaixão reluzia dentro deles. Não precisou que ele dissesse uma palavra para que a mocinha compreendesse que ele esperava exatamente o mesmo.
Kirara era veloz, não demoraria muito para que as duas alcançassem a praia, porém Annabelle não queria desgastar a companheira de viagem e por esse motivo decidiu parar em um córrego para que as duas pudessem saciar a sede.
Um barulho soou de dentro das moitas, balançando as folhas verde-escuro. Anna, que havia aprendido a manejar um bastão para se defender, procurou qualquer galho pela grama, ao finalmente alcançar um que lhe apetecesse ela olhou para onde identificara movimento e imediatamente desistiu.
Ele se mostrou diante dos olhos dela, belo como uma entidade descida diretamente do paraíso, a sua brancura a alumiar a floresta que era ofuscada pelo baixar do sol.
— Sesshoumaru... — sussurrou com um meio sorriso formado nos lábios, o olhar cerúleo tão direto quanto o dele, porém dócil.
Aproximaram-se em passos vagarosos e pararam um de frente para o outro.
"Então agora você está livre de mim..." — Naraku assistia os acontecimentos através do espelho de Kanna. Desde que retornara ao esconderijo, seu humor se mostrava pior do que o de costume. Sentado no chão de madeira, suspirava de tempos em tempos. Atrás de si, escondido por trás do batente da porta, o garotinho de cabelos e olhos claros espiava seus atos e ria-se por dentro.
— Até quando ficará aí bisbilhotando? — Naraku se pronunciou aborrecido — Eu dei uma tarefa a você.
— Akago já encontrou algumas pistas de como podemos atravessar para o outro mundo e adquirir o último fragmento. — rolou os olhos enquanto respondia entediado.
— Ótimo, diga o que tem para dizer e vá arrumar outra coisa para fazer.
— Quem é ela? — o menino focou os olhos de lavanda na imagem da mulher arruivada.
— Ninguém, Hakudoshi. — Naraku fechou os olhos e acenou com a mão à Kanna, indicando a outra porta para a menina sair. — Ninguém...
— Hmmm... — a cria dele alargou o sorriso e estreitou os olhos. Quantas ideias perversas não fervilharam na mente do pequeno demônio conspirador?
Continua...
São tantas emoções...
Naraku está tão f..., e esse capítulo me deu um trabalho da PESTE de escrever, mas está aí e eu realmente espero que o desfecho da Ailyn tenha sido decente. YEY!
Inevitavelmente, esse foi mais um capítulo com "toque" de Outlander. Acho que a quarta temporada me inspirou um pouquinho. Maravilhosa demais!
Então é isso gente, Hakudoshi terá uma breve participação na história e eu acho que daqui uns cinco capítulos Teia de Mentiras será encerrada... :'(
Parece pouco, mas é muito, viu?
Fico por aqui, uma boa semana a todos e muito obrigada por seguirem acompanhando!
Kissuuuuuuuus!
