Capítulo 41 - Hakudoshi

Kirara bebia água tranquilamente enquanto Sesshoumaru e Annabelle encaravam-se silentes, dourado a contrastar com azul-celeste. A audição avantajada dele captava os batimentos cardíacos acelerados. A humana respirou fundo, a manter o controle, e enfim, com os cílios já orvalhados, disse:

— Obrigada! — o sorriso se estendeu tremente.

Algo macio e morno tocou a mão dele, era a dela. Sem apertar ou esfregar, era um toque tão suave que mal podia ser sentido, e foi tão fugaz que Sesshoumaru quase duvidou ter acontecido.

Ele deu um passo à frente, a fazer uma análise apurada do estado da mulher. Estava saudável, a pele rosava cheia de vida e juventude. A lua cravejada em cristal, pendurada numa fita ao pescoço, cintilava em vários tons, e dentro dela já não havia mais o fragmento, era essa a tal diferença que ele notara desde o início do reencontro.

Então, o youkai focou o olhar na grande felina que saciava a sede no rio. Logo após voltou a encarar a escocesa com uma interrogação discretamente desenhada em suas feições.

— Kirara me levará até umas pessoas que conheço... — como se pudesse ler a mente dele, explicou, ainda atônita pela nobre atitude do youkai.

— Hum... — Sesshoumaru acenou brevemente com a cabeça.

— Estou feliz de tê-lo encontrado antes de partir. — confessou amena e ainda emocionada. Ele, por sua vez não disse nada, persistiu a encará-la minuciosamente. — Então... — um pouco embaraçada pela situação, aos suspiros, terminou: — mais uma vez, muito obrigada pelo que fez. Estou em dívida com você. — baixou o olhar e acabou por fitar os próprios pés.

— Você será a ruína de Naraku. — profetizou sem titubear, os globos áureos cravados na figura de uma moça vulnerável.

— O quê? — ergueu o rosto vagarosamente e mirou-o atordoada.

— Eu sempre soube... — o sujeito esguio se curvou levemente, de modo que sua face alva se nivelasse à dela — desde o início... — prosseguiu, passando os olhos por cada feição da estrangeira — desde que os vi na floresta. — o hálito fresco dele esbarrava no queixo dela, causando calafrios. — Você é o ponto fraco dele.

Annabelle sentiu-se vertiginosa e amedrontada, como na vez em que Kikyou a acertara uma flecha e ele foi quem tirou a lâmina cravada na pele dela. Defensiva, deu um passo para trás e resfolgou, gotículas de suor escorreram pelo canto da testa e pela pele que o decote não cobria.

De algum modo, as palavras de Sesshoumaru a atingiram criticamente. Mesmo sem o fragmento no peito, não aguentou sequer cogitar a possibilidade da morte de Naraku. Mas o que diabos era aquilo? Ela não estava livre?! Olhou para os lados e passou as mãos pelos cabelos, ouviu passos. Agitada balançou a cabeça e uma mão segurou seu rosto de supetão, ela podia sentir a ponta das unhas afiadas a roçarem em sua pele.

— Há algo de especial em seus olhos... — ele prosseguiu no mesmo tom inabalável. — até mesmo aqueles youkais ignóbeis de Naraku perceberam. Quando a conheci, eu também percebi. — os dedos foram escorrendo um a um, até o rosto dela estar livre do toque — Teria isso cativado o Naraku a ponto de ele quase implorar pela sua vida? — estreitou os globos dourados sutilmente.

— Foi por isso que me trouxe de volta? — rebateu a pergunta com outra, tênue irritação a esquentou por dentro e a incentivou a continuar mirando-o dentro dos olhos, ainda que seu interior todo perdesse o balanço — Me reviveu por acreditar que eu seja a fraqueza de Naraku?

— Não. — piscou devagar.

— Então por quê? — a gratidão se tornou cobrança — Por Rin? Eu tenho a impressão de ter ouvido a voz dela, foi ela, não foi?

— Não. — repetiu. Claro que a garotinha fora fator determinante, mas não era só isso.

— Por quê? — insistiu, um pouco mais próxima, vidrada nas poucas linhas de expressão que ele tinha.

— Porque eu quis. — respondeu quase num murmúrio, a voz a soar como uma marola, constante e branda, ao mesmo tempo profunda. Em vez de clarear as coisas, deixou-a ainda mais confusa e perdida. Annabelle abriu a boca para fazer mais uma gama de perguntas, porém uma voz conhecida interrompeu-lhe o pensamento:

— Senhorita Anaberu! — a pequena Rin surgiu do meio do mato e ao ver aquele pontinho de luz amarela vindo do verde, imediatamente Annabelle se jogou de joelhos, abriu os braços e a recebeu num abraço apertadíssimo.

— Rin! — não conseguiu conter a comoção, levantou-se com a garotinha e giraram abraçadas. — Estou feliz em vê-la novamente!

— Pensei que nunca mais nos encontraríamos! — exclamou à flor da pele.

— Como sssseeempre, esssssa humana inútil deu trabalho ao sssssenhor Sssseshoumaru! — Jaken, a sombra, veio enterrando a ponta do cajado na terra escura.

— Ele diz isso, mas chorou junto comigo quando achou que a senhorita tinha morrido. — Rin sussurrou ao ouvido dela.

Risonha, Annabelle pôs a menina no chão e tratou de segurar o pequeno youkai verde nos braços como se fosse um animalzinho de estimação.

— Ei, humana, eu exijo que pare com isssso já! — ele debateu os bracinhos e recebeu um beijo na testa que o deixou em brasa no mesmo instante.

— Também senti a sua falta, sapinho! — encheu o rosto escamoso de beijinhos, primeiro arrancou resmungos, depois suspiros.

Sesshoumaru os observou em silêncio, após abusar da boa vontade do servo do Dai-Youkai, Annabelle conversou um pouquinho com Rin e por último o olhou mais uma vez. Sem mais nada a dizer, a humana se levantou e caminhou até ele. O sujeito permaneceu ereto e imóvel como se alguém o tivesse empalado ali. Belle cessou o andar quando esteve tão próxima dele como há minutos atrás estava. Sem sorrir, sem piscar, a europeia deu apenas um suspiro e depois fez o inimaginável.

O abraçou.

Rin e Jaken tiveram um chilique ao mesmo tempo, a pequenina ruborizou e estendeu um sorriso de orelha a orelha, os olhinhos castanhos brilhavam como astros reluzentes. Já o fiel escudeiro de Sesshoumaru ficou pálido como se vira a mais terrível assombração.

— Ele vai matá-la, desssssssa vez ela conhecerá o ssssubmundo! — as mãozinhas verdoengas apertaram as maçãs empalidecidas, os olhos amarelos estavam mais ressaltados do que o normal.

Os de Sesshoumaru, por sua vez, arregalaram-se pouca coisa. O braço dele ergueu-se quase nada, depois voltou aonde estava. Ele não retribuiu e nem renegou, aonde estava ficou, como se tivesse sido esculpido em pedra. Todavia, uma pessoa observadora – como era Rin – poderia notá-lo asserenar aos poucos e seus olhos quase fecharem, sem focarem em nada específico.

"Essa sensação de calmaria... é parte do poder dela?" — perguntou-se, a relembrar dos instantes em que a humana, em desespero, demonstrou seus talentos.


Ainda que a luz fosse deveras clara e os olhos ardessem, houve um momento em que Sesshoumaru conseguiu vislumbrá-la, ajoelhada sobre a grama que crescia, envolta pela luminescência com as ondas alaranjadas a voarem para todos os lados. Nas costas dela, asas de borboleta transparentes, tão sutis, surgiram como uma miragem e desvaneceram em fugacidade.


— Não me importa qual foi o seu real motivo, — Annabelle murmurou e o trouxe de volta ao presente, o rosto apoiado ao ombro dele e uma mão a afagar-lhe as costas. — nunca me esquecerei do que você fez por mim. — a outra mão afagou as madeixas prateadas à nuca com sutileza, quase como um cafuné — Eu sei que no fundo, Sesshoumaru, você o fez porque tem um bom coração. — ah, aquelas palavras, que perigo! Se fossem proferidas por qualquer outra boca, talvez o atrevido não sobrevivesse para contar a história. Porém, ela fora tão branda e discreta no tom, e ele sentia uma aura tão cálida envolvendo-o junto a ela que cada fibra de si fora apaziguada.

Anna desfez o enredo aos poucos e deu passos para trás, no fim de tudo o temor deu espaço a um sorriso terno e ela esteve outra vez entre Rin e Jaken.

— Foi um prazer vê-los outra vez, mas agora preciso ir... — suspirou.

— Mas por quê, senhorita Anaberu? — Rin choramingou — A senhorita bem que poderia vir com a gente!

— Sinto muito pequenina, — abaixou-se e tocou os ombros da garotinha — eu tenho alguns amigos queridos esperando por mim, não posso desapontá-los.

— Mas... — ela fungou desapontada.

— Não fique assim, você tem o seu senhor Sesshoumaru para zelar por você, e você por ele. Além do mais, o cara de sapo ali precisa de alguma atenção...

— Ei! — Jaken cruzou os braços.

Rin, por mais que estivesse cheia de vontade que a amiga ficasse, se conformou de que não a convenceria a ficar.

— Você se tornará uma mulher maravilhosa um dia, tenho certeza. — encerrou assim, encaminhando-se à Kirara — Cuide desses dois, está bem?

— Está bem... — sorriu chorosa e ao mesmo tempo tímida diante do comentário feito pela ocidental.

Annabelle montou no lombo da youkai de várias caudas e acenou uma última vez antes de orientar a companheira a levantar voo. O trio a assistiu lá de baixo, a última visão que ela teve de Sesshoumaru foi aquela – o olhar dourado acompanhando-a, os longos fios claros a bailarem ao vento.

"Você..." — ele fechou os olhos delineados de vermelho, apreciando a terna brisa vespertina. — "Você foi o motivo." — guardou para si não só a razão, como a terrível sensação que teve ao vê-la jogada sobre a grama, pálida e impotente, em contraste à mulher que pouco antes se uniu à Mãe Natureza como se fossem uma só e devolvera a vida não só à Ailyn, mas a todo o perímetro devastado. O orgulho não o cegou a ponto de não perceber que a forasteira mudara alguma coisa dentro dele, em seu coração.

Rin parou ao seu lado, suspirante. Sesshoumaru fitou a garotinha e sentiu o peito aquecer. Não, não fora só a breve presença de Annabelle em sua vida que causara transformações, seu coração já estava em processo de amolecimento há algum tempo... O Universo conspirava para que a primavera se sobrepusesse ao inverno dentro dele, e pelos meios mais inesperados.


Dali, Anna pediu à grande e fiel cúmplice de Sango que a levasse à praia, pois sabia que as pessoas que a acolheram deveriam estar lá por perto. Durante o trajeto, rememorou a conversa com Sesshoumaru, aturdida com a teoria dele. Era impossível, por tabela, não lembrar de Naraku e do último momento dividido com ele. Já não sentia a mesma raiva contaminá-la, de certo o fragmento da Joia contribuiu para que o furor a dominasse, no entanto, a tristeza ainda sombreava seu semblante. Anna respirou fundo a conter a vontade de seu coração de fazê-la reviver momentos com o aracnídeo mais antigos do que o tempo em que dividiram o teto. Uma certa noite em uma certa gruta, antes de ela ter sofrido qualquer influência da Joia, teimava em se desenhar no seu espírito atribulado.

— Mais rápido Kirara! — abraçou-se à criatura felpuda, afundando o rosto no pelo fofo.

Em pouco mais de uma hora, ela ouviu o som de ondas a chocarem-se em pedras. Lá do alto, mirou cada canto ao redor do litoral. Numa região alta e arborizada, alguns casebres de madeira eram construídos e cabanas improvisadas subiam pela montanha há alguns metros da praia.

Com a certeza de que encontraria as pessoas que a trataram como família, pediu para Kirara deixá-la perto das construções. Encostou a testa na da youkai, fechou os olhos e a acariciou atrás das orelhas, ouviu-a ronronar em agradecimento ao agrado e assim se despediram.
Finalmente, Annabelle subiu a trilha de pedras com cuidado e imediatamente reconheceu as pessoas que se empenhavam em construir suas moradas.

— Shinrinko voltou! — a voz de Yoru foi a primeira a anunciar. Em seguida, a garotinha correu até a amiga e abraçou sua cintura com força. Pouco a pouco, Himawari e Motoko se chegaram, também alegres em vê-la.

Anna abraçou as três várias vezes, antes que perguntassem como sua missão se sucedera, ela tratou de perguntar como elas passaram aqueles dias, há quanto tempo chegaram no litoral, e as convidou para caminharem pela praia, mal podia esperar para sentir a água salgada outra vez. Dito isso, antes de irem fazer o passeio ela perguntou pela anciã e Yoru suspirou entristecida.

— O que houve? — afagou os cabelos negros da garotinha.

— A senhora Keiko se foi. — Himawari contou levemente saudosa.

— Oh, não... — Annabelle pôs uma mão à bochecha, sentiu uma pontada no coração.

— A hora dela chegou, Shinrinko. — uma das moças que fazia parte daquele grupo falou — Não se preocupe, ela partiu enquanto dormia, serena como sempre fora.

— O túmulo dela está a caminho da praia, podemos passar por lá, se quiser. — Motoko tocou o ombro da estrangeira e lhe deu um sorriso consolador. Annabelle concordou.

Caminharam por entre os arbustos e as pedras, dentro do bosque havia um pequeno olho d'água e, ao lado do jazigo de Keiko, pedras empilhadas formavam uma escultura, flores coloridas e frescas ainda enfeitavam o montante de terra que resguardava o corpo da idosa que partira naturalmente.

Belle tocou as pétalas pequeninas e fechou os olhos, depois pousou a mão na terra e respirou fundo, captando a essência de cada coisa viva que a rodeava. O ciclo da mulher que a acolhera se cumprira, e agora novos ciclos se inciariam. Apenas uma lágrima rolou de um dos olhos, depois ela sorriu e se levantou, conformada com os rumos que a Mãe Natureza tomara.

— Então, vamos lá... — chamou as outras e juntas vaguearam por algum tempo até alcançarem a margem azulada que contornava o continente.

Ela sorriu enquanto os pulmões se preenchiam com a brisa e o aroma da maresia. Livrou-se das camadas superiores do vestido e do espartilho, levantou a saia branca à altura dos joelhos e correu até o mar, pulou sobre as ondas, depois molhou o rosto, os braços e o colo.

— Vocês repararam nas roupas de Shinrinko? — Motoko comentou com as duas meninas.

— Sim, são tão diferentes e bonitas! — Yoru respondeu enquanto admirava o vestido azul-turquesa, em moldes ocidentais, jogado sobre a areia.

— O nome dela não é Shinrinko, já expliquei para vocês. — Himawari corrigiu-as, de braços cruzados — Ela se chama Anaberu.

As três se entreolharam, por fim miraram a moça que jogava água para o alto como se fosse uma criança.

— Vocês não virão? O mar está tão calmo! — convidou-as com uma mão.

Sem muito pensarem sobre a proposta, as mais novas correram aos risos até a água, Himawari foi logo atrás, mais contida.

"É isso..." — os globos azuis miraram o firmamento diurno se cruzar com a linha do horizonte. Além daquela imensidão oceânica, em alguma direção estava a sua Escócia. Em tese, nada mais deveria prendê-la naquelas terras...

Você está viva! — lembrou-se da exaltação dele, do calor de seus braços e de sua respiração arfante. Lembrou-se de Inuyasha a dizer que não poderia abrir mão de fazê-lo pagar, e nenhuma das inimizades que ele procurara fazer abriria.

"É o destino dele, Naraku procurou por isso." — fechou os olhos, respirou fundo — "eu já não faço mais parte dessa estória" — e mergulhou, como se a água pudesse lavar o seu passado para longe.


A Joia quase completa cintilava cada vez mais escurecida na palma pálida dele. Naraku fitava o próprio reflexo dentro da pedra, como se estivesse preso dentro dela. E, de certo modo, sua alma não deixava de ser prisioneira não só dos próprios caprichos, como das vontades daquela multidão de vozes incansáveis formadas como uma unidade.

Fora tão longe e continuava a não fazer ideia de onde queria chegar.

Mirou a outra palma, vazia, ainda a sentir a textura dos cabelos de fogo entre os dedos. Selou as pálpebras azuladas e aspirou o ar profundamente, relembrando o aroma floral, depois a maciez da pele dela. Ainda a sentia nos braços, quente e vulnerável. Se pudesse, prolongaria aquela memória até o fim dos tempos.

Se as vozes da Joia orientavam-no a se desapegar, as vozes dos youkais que o formavam imploravam para que ele a procurasse novamente, quase fazendo-o se esquecer do repúdio nos olhos e na atitude de Annabelle.

Quase...

Nunca... nunca mais! — o berro ecoou dentro dos ouvidos, ele afagou o próprio rosto lembrando-se da saliva a encharcá-lo, por sorte ele era ágil e fechou os olhos antes do cuspe acertá-los. E, por fim, Kagome fizera o desserviço de libertar a escocesa do fragmento. Qualquer influência que ele tivesse sobre a mente e o corpo da escocesa desvanecera como pó – assim acreditou.

Que a infinidade de monstros em seu interior se conformassem, a prioridade no presente era se sobrepôr aos inimigos que o cercavam por todos os lados. Para tal, precisaria se fortalecer muito mais e não se permitir distrair com qualquer outra coisa, tampouco perder tempo alimentando a pequena semente de ciúme a vibrar por causa do encontro entre Annabelle e Sesshoumaru na beira do rio.

"Isso não me diz respeito" — conversou consigo mesmo enquanto se levantava, abria as portas da cabana no alto da colina e voltava o olhar para baixo, além da névoa esbranquiçada.

— Como ele está esquisito... — Kagura, sentada a beira do abismo, notou. Kanna, ao lado, o fitava também, quieta. — Que que é? Vai ficar aí parada sem dizer nada? — bufou entediada — Ei, cadê aquele insuportável do Hakudoshi? — perguntou a olhar para os lados.

— Saiu há algum tempo... — a menina respondeu, monótona.

— Naraku o mandou para alguma missão?

— Não...

— Ué, para onde o moleque foi? — arregalou os orbes carmesim e os piscou.

— Eu não sei... — disse por último, virou as costas e começou a se afastar.


Os dias passavam-se calmos e vagarosos. Annabelle e o grupo de pessoas com quem vivia conseguiram terminar de construir alguns casebres e se dividiram dentro deles, bem a tempo de um período de chuvas torrenciais começar, a maior parte das vezes de madrugada. O barulho da água dos céus confundia-se com o quebrar das ondas e aqueles sons estranhamente a faziam se sentir em paz.

De manhã, ela saía para procurar por alimento. Enquanto Himawari se responsabilizava por caçar, Anna colhia legumes na horta e frutas na floresta. Assim que encontrava um descanso, descia a trilha e ia ao olho d'água para visitar o túmulo de Keiko. Toda vez que ia àquele pedaço, mais flores cresciam em volta do local de descanso da anciã. Era ela, a se empenhar para manter a beleza e a paz ao redor. Depois, voltava à pequena aldeia que se erguia e interagia com Yoru – retomou a dar algumas lições de como controlar o poder espiritual –, conversava com Motoko, brincava com as crianças e dava assistência aos idosos. Apesar de o passado ainda marcá-la e a saudade a abater de tempos em tempos, definitivamente ela se sentia mais leve ali, a viver a normalidade que tanto ansiara.

Enfim, teria encontrado seu lugar no mundo?

Era difícil dizer, pois quando o sol começava a descer por trás da montanha, Annabelle ia à praia molhar os pés nas ondas e sonhava com a sua Escócia. De olhos fechados, ela respirava o ar marítimo e orava para que um dia pudesse rever os campos verde-esmeralda, correr pelos montes e beber da água pura daqueles lagos.

Repentinamente, uma sensação de que alguém a observava a induziu a abrir os olhos de súbito. Tocou o bastão que trazia às costas e virou para os lados. Não era a primeira vez que aquilo acontecia. Geralmente ninguém surgia e ela acreditava ter sido impressão, contudo, naquele entardecer uma criaturinha se fez presente. Annabelle se virou e viu um menino em trajes claros a segurar uma lança. Os olhos violáceos perpassavam por cada centímetro dela enquanto um sorriso cheio de malícia se formava nos pequenos lábios, provando que embora ele tivesse uma aparência infantil, estava longe de ser uma criança.

— O que quer, youkai? — puxou o bastão de trás de si e apontou-o para o garoto.

— Quem é você? — perguntou, a voz tão aguda que o fazia soar como uma menina.

— De que isso interessaria a você? — desconfiada, deu um passo para trás.

— Se eu quisesse, já a teria decapitado. — mencionou, tranquilo e ainda sorridente.

— O que quer de mim?

— Hmmm... — os pés, enterrados na areia, iniciaram um caminhar em círculos ao redor dela.
Annabelle girou junto a ele, sempre com o olhar atento nas atitudes do desconhecido. Uma luz repentina passou por cima da cabeça dela, em um reflexo a escocesa inclinou o rosto para cima e avistou um belíssimo pangaré branco com a crina e a cauda talhadas a fogo. Inebriada, contemplou o animal pousar graciosamente, em seguida o garotinho saltou no lombo e gesticulou para que aquela criatura magnífica dominasse os ares outra vez.

— Nos veremos em breve. — anunciou a ela — Vamos, Entei! — e orientou seu companheiro em seguida. Assim, sumiram nas alturas.

"Quem é esse menino?!" — indagou-se não só durante os últimos suspiros do crepúsculo, como nos dias que se seguiram. Conforme cumpria a rotina, mirava cada lado ao redor, desconfiada.

Numa manhã aparentemente normal, Himawari veio até ela.

— Bom-dia, senhorita Anaberu! — observou-a lavar um vestido no laguinho ali perto.

— Bom-dia, tem alguma roupa que quer que eu lave? — sorriu amena.

— Não, não... — meneou a cabeça — Vim perguntar se viu Yoru por aí. Desde que acordei, não encontrei a pestinha.

— Ela deve ter descido até o olho d'água com as outras crianças. — comentou despreocupada.

— Tem razão, darei uma olhada lá. — também a sorrir com tranquilidade, a mocinha se levantou e foi embora.

As horas correram, e nada de Yoru aparecer. Os outros pequeninos retornaram às casas e a seguidora de Annabelle permaneceu desaparecida. Àquela altura, todos já estavam preocupados, por isso a ruiva decidiu por traçar uma busca. As pessoas se dividiram por cantos diferentes, Belle optou por procurá-la pela praia.

— Yoru! — gritou o nome a correr pela areia fofa.

— Olá. — uma voz familiar a cumprimentou, e não era de quem ela procurava.

— Você... — Annabelle o viu pousar junto ao cavalo. Uma angústia repentina fez um nó se formar na garganta. Seria um pressentimento?

Antes que a dúvida a atormentasse por demais, a atitude do menino deu a resposta.

— Por acaso é isso o que você procura? — ele apontou a lança para cima e uma bolha rosada surgiu, dentro dela o corpo desacordado de Yoru flutuava.

— O que fez com ela?! — a estrangeira vociferou e seu corpo foi circulado pela aura albugínea.

— Ela está apenas dormindo, mas se me atacar, o sono dessa garotinha poderá durar para sempre. — numa placidez profunda, ele se pronunciou.

— O que quer de mim? — atarantada, questionou.

— Tome. — ele tirou uma pequena garrafa de cerâmica de dentro da gola e jogou na direção dela. Annabelle a pegou no ar.

— O que tem aqui?! — sacudiu o objeto, preocupada.

— Quer que a menina volte para casa em segurança ou não? — arqueou uma das sobrancelhas e sorriu ao vê-la atormentada com a falta de escolha — Beba. — ordenou.

"Yoru..." — o suor escorreu pela testa, ela fitava a menina e depois o recipiente em mãos. E se fosse veneno? Ele a mataria e depois faria o mesmo com a menina? Que garantia ela tinha de que a garotinha ficaria bem?

Analisou os traços amedrontados da pequenina, mesmo desacordada. Respirou fundo e se decidiu que faria o que tivesse que fazer para mantê-la a salvo.

— Está bem, eu bebo, mas a ponha no chão pelo menos. — tentou.

— Certo. — num estalar de dedos, a bolha desceu com Yoru e se desfez como uma ilusão, deixando o corpinho frágil rolar sobre a areia. Annabelle fez menção de correr até a menina e o youkai com aspecto de criança imediatamente apontou a lança ao pescoço da irmã de Himawari, lembrando-a de cumprir a sua parte.

A ocidental respirou fundo, tirou a rolha da garrafa, mirou o líquido escuro que se revolvia lá dentro, cerrou os olhos e bebeu tudo num gole só.

O garoto riu descontraído, as formas dele num repente se embolaram, e depois tudo à volta dela pareceu derreter e se tornar líquido. O cenário girou veloz, deixando-a tonta, Yoru era como um ponto preto e branco na areia. Finalmente, Annabelle caiu desacordada no chão.

Hakudoshi desceu do cavalo, a ergueu como se fosse uma pluma e a jogou no lombo do bicho, por último subiu e indicou a direção ao seu leal alazão.


Os longos cílios acobreados começaram a se desentrelaçar.

Conforme as pálpebras se desencostavam, a vista turva zanzava pelos lados, identificando paredes pedregosas ao redor. As orelhas captavam som de água a gotejar, o clima era úmido e abafado, pouca luz entrava por qualquer lado que ela não saberia dizer.

Seu corpo jazia deitado sobre uma manta branca muito bem conhecida. No instante em que apertou a pele de babuíno, o espírito da escocesa se revolveu.

— O... quê? — as palavras soavam vagarosas e emboladas.

— O líquido que você bebeu a deixará atordoada por algum tempo, — o menino comentou em ares triviais — não posso me arriscar, compreende? Mas, de qualquer forma, se você tentar fugir, sei onde encontrar a sua amiguinha e acredite, eu só quero um motivo para me divertir com ela.

— Quem... é? — tentou se levantar e caiu sobre a manta, apertando-a com a pouca força que lhe restara. — Naraku... — queria se expressar e não conseguia.

— Naraku não faz ideia de que você está aqui. — deu de ombros, risonho.

Annabelle ouviu os passos do pequeno aproximando-se, em seguida enxergou um borrão branco muito próximo. A mão pequenina segurou o queixo dela e ergueu-lhe a face.

— O que ele vê de tão especial em você? — perguntou curioso.

"Que porcaria é essa?" — os olhos dela rolavam e o corpo transpirava. Que calor insuportável fazia ali dentro!

— Não pode ser só a sua aparência. — ele prosseguiu, se achegando um pouco mais.

— O que quer de mim? — conseguiu perguntar, finalmente a focar os olhos naquela criaturinha cheia de perversidade no olhar e no sorriso.

— Acredito que me servirá bem no futuro. — perto do pé dele havia uma cuia, ele a empurrou para perto dela — Beba isso.

"Outra vez?!" — Anna meneou a cabeça que ainda cambaleava por conta da outra dose.

— Ande! — pela primeira vez, o youkai se mostrou impaciente.

— Não. — ela teimou arfante.

— Muito bem, então. — bufou brevemente, segurou-a pelos cabelos e pressionou a cumbuca contra os lábios que se espremiam. A humana conseguiu resistir, mas por poucos instantes. Logo o líquido escuro e amargo atravessou por entre os dentes e foi descendo goela a baixo. Annabelle sequer teve a oportunidade de regurgitá-lo, uma vez que Hakudoshi pôs uma mão sobre a boca dela e a manteve lá até ver o movimento de deglutição no pescoço da mulher.

— Bons sonhos. — o menino disse a recostar a cabeça da ocidental sobre a manta. Por fim ele se levantou e saiu pela fenda da gruta.


Acordou depois de longas horas, uma intensa sede ressecava-lhe os beiços.

Não ouviu um barulho que não fosse a água a respingar do teto ao chão pedregoso, notou que o serzinho indesejável não estava lá. Então, se esforçou para ficar de pé e caiu de joelhos, sem qualquer estrutura. Aquela estranha emulsão que ela bebera duas vezes a fez lembrar da poção que Ailyn lhe deu na noite em que ela estava disposta a se sacrificar por uma promessa. Era como se seus poderes estivessem selados e toda a sua energia fora sugada.

Teve de se arrastar pelo piso áspero até encontrar uma poça de água fresca. Sem reservas, mergulhou o rosto nela e bebeu água como um cão afoito. Saciada, jogou-se deitada a mirar o teto da gruta, inspirou e expirou por mais algumas horas, se concentrando para recuperar o controle das próprias pernas. Aos poucos, a sensação de peso e de dormência melhorou. Cambaleante, Annabelle se esgueirou pelas paredes de pedra até chegar à entrada de sua prisão e o susto a fez cair para trás. A bendita da caverna ficava em uma montanha alta, a brecha para o mundo exterior dava direto em um precipício. Nesse movimento de jogar-se para trás, Belle acabou por fazer algumas pedrinhas deslizarem da beira lá para baixo. A altura era tamanha que não foi possível ouvi-las caírem no solo.

Nunca pensou que sentiria falta da presença do fragmento da Joia em si, talvez se ainda o tivesse, seu poder não seria selado por completo e ela ainda teria a habilidade de voar para longe dali.

"Mas no que é que estou pensando?" — suspirou aborrecida, lembrando-se de que o fragmento em troca do poder amaldiçoa o seu dono, e que ela poderia até não ser mais tão forte como no tempo em que o possuiu, mas seu espírito se encontrava muito menos conturbado.

"Ele não sabe que estou aqui..." — mais um suspiro lhe escapou conforme seu corpo buscava apoio na parede mais uma vez. Desejava ser encontrada por Naraku? Ah, que bobagem! Nada mais os ligava, e para que iria querer vê-lo outra vez depois dos últimos eventos?

Seria aquele "chá" alucinógeno? Por segundos foi como se ela o visse diante de si, a surgir de dentro de uma sombra como fizera na caverna de Onigumo. Estendeu a mão na direção dele, o coração estranhamente a perder o compasso. Naquele lapso temporal em que o viu a sua frente, sentiu ligeiro remorso por tê-lo tratado tão mal, ainda que ele merecesse a rejeição.

Piscou os olhos, quando os abriu não o viu mais lá. Não passara de um truque da própria mente.

As costas de Annabelle escorregaram pela parede e, deitada no chão arenoso ela perdeu a consciência mais uma vez.

Horas depois, talvez à noite, alguém a arrastou pelos braços de volta ao leito improvisado com a pele de macaco. Era o menino outra vez, entre uma piscadela e outra, entre o sono e a consciência, ela o vislumbrou.


Os dias foram se passando confusos, de modo que chegou o momento de ela já não conseguir contar quanto tempo se passara, nem se era o sol ou a lua a enfeitar o céu. O menino pouco lhe dirigia a palavra, em verdade parecia ir à aquele inferno apenas para ver se ela ainda estava viva. As condições em que ela era mantida eram deploráveis, a comida que ele trazia era suficiente apenas para sua sobrevivência. Quando ela precisava fazer as necessidades básicas, tinha de ir a beira do abismo para não ter que fazer dentro da gruta e conviver com os terríveis odores. Quando chovia, a água entrava e tudo ficava encharcado, e à tarde, com os raios solares a pino, aquele lugar virava um forno e ela sequer tinha meios para se banhar. O vestido azul tecido com tanto zelo partiu a desbotar e a se desgastar, a camada branca de baixo ficou cinzenta. Os cabelos dela, oleosos, grudavam à cabeça, os lábios dantes rosados perderam a cor. Ela definhava, pois era humana afinal. E, mesmo assim, nada preocupado com a saúde dela, o garoto a induzia a tomar aquela poção de tempos em tempos.

"Que escolha eu tenho?" — Annabelle lembrava-se de Yoru, de Himawari, de Motoko e de todos os outros aldeões que corriam risco de vida caso ela não dançasse conforme a música de Hakudoshi. Apegara-se àquelas pessoas, queria protegê-las a todo custo.


— Entre. — certo dia, ouviu-o dizer e ficou a imaginar com quem o moleque falava.

O estalo das sandálias de madeira na pedra a tiraram de sua posição. Deitada de lado, parou de encarar a parede para enxergar os contornos de uma antiga conhecida.

— Kagura... — sussurrou e deu um sorriso aliviado.

— Ah, então vocês se conhecem! — risonho, o menino comentou.

— Hakudoshi, o que você fez?! — a Mestra do Ventos correu até Annabelle e se ajoelhou a seu lado — Veja o estado dela! — cobriu os lábios com as mãos.

— Você... o... conhece? — perguntou, os orbes rolavam tontos.

— O que deu a ela?! — ainda no mesmo tom afoito, confrontou a outra cria de Naraku.

— Nada demais, uma coisinha que a deixa um pouco sonolenta. — cruzou os braços, encostado à parede.

— O que ela tem a ver com isso? — Kagura se levantou e ficou de frente para ele.

— Não percebe? — mirou-a sisudo — Ela é nosso trunfo contra Naraku.

E então, naquele segundo, o coração de Annabelle deu um pulo dentro do peito e seus olhos, mesmo pesados, arregalaram-se.

Você será a ruína de Naraku. — a frase profética de Sesshoumaru lhe soou em ecos, a cada vez que a ouvia na mente, o coração estancava e de repente o calor desconfortável se transformava em um frio abrupto.

— Se a tivermos em nosso domínio, podemos inclusive reaver o seu coração. — Hakudoshi prosseguiu seguro de si.

— O que te faz acreditar que a vida dessa mulher seja tão importante assim para Naraku?! — Kagura insistiu.

— Eu o tenho observado, ora. — riu-se — Naraku não parava de procurá-la através do espelho de Kanna, inclusive foi pessoalmente encontrá-la há algum tempo atrás. E que encontro comovente! — escarneceu.

— Isso é ridículo, Naraku já não tem um coração para se importar com alguém! — o timbre dela se acentuava cada vez mais.

— O que é isso, Kagura? Se eu não a conhecesse bem, diria que está discursando a favor dessa humana. — arqueou uma das sobrancelhas, desafiador.

A youkai olhou rapidamente para trás, mirando Annabelle por cima do ombro, e por fim tornou a encarar o pequenino.

— Não diga besteiras! Só acho isso tudo uma perda de tempo. — forçou um riso desdenhoso e abanou-se com o leque.

— Temos o coração de Naraku em nossas mãos, e agora temos a protegida dele. Assim que conseguirmos a Joia de Quatro Almas, teremos tudo o que é preciso para derrotá-lo. É a sua liberdade que está em jogo, Kagura. Irá desperdiçá-la? — deu um passo à frente, ficando em uma proximidade perigosa. Os globos cor de lavanda cravavam-se na figura da serva de Naraku, como se pudessem lê-la.

— Tsc! — Kagura rosnou e olhou para os lados, depois se virou de frente para a antiga amante do hanyou e respirou fundo. As turquesas apavoradas conversavam com os rubis confusos.

"Não, Kagura, não faça isso!" — ela implorava mentalmente, no entanto tinha capacidade apenas para menear a cabeça.

— Eu verei como está Goryomaru. — Hakudoshi se afastou sem pressa — Já que está aqui, aproveite e dê isso para ela. — tirou uma garrafa de dentro da roupa, e a jogou no chão displicentemente, o receptáculo rolou pelas pedras até tocar um pé de Kagura.

A youkai se abaixou elegantemente e pegou o objeto em mãos. Tão logo o menino saiu pela brecha, a antiga companheira de caminhadas pela floresta de Annabelle correu até ela e tornou a se ajoelhar ao seu lado.

— O que esse idiota fez com você?! — largou a garrafa para um lado e ajudou a humana a se sentar, apoiada à parede.

— Não... não o ouça. — murmurou ofegante, segurando-se nos braços da amiga — Não... ouça.

— Vou tirá-la daqui, isso é absurdo! — ia puxá-la para cima.

— Não, Kagura! — conseguiu falar mais alto, e apertou-lhe as mangas.

— Está aqui por que quer? — estranhou o comportamento da outra. Anna sacudiu a cabeça negativamente. — Então por que não vem embora comigo? — persistiu, teimosa.

— Não posso... — fechou os olhos, cansada. — Ele... ameaçou... pessoas que eu... — arfou. Não precisou completar para que a Mestra dos Ventos entendesse.

— Canalha. Não se difere em nada do maldito Naraku. — disse entredentes, sentindo-se de mãos atadas, sem ter para onde correr.

— A garrafa... — reabriu os orbes e apontou-a.

— Vai tomar isso por vontade própria? — segurou o recipiente, primeiro fitando-o para depois encarar a mulher indefesa outra vez.

Os olhos de Annabelle responderam por si só, pesarosos porém decididos. A Mestra dos Ventos engoliu amargo a atitude sacrificante da estrangeira. Quase não soltou a garrafa quando os dedos de Belle a envolveram e puxaram. Teve de assisti-la tomar gole por gole daquele sedativo, e em seguida cair desacordada como uma boneca de pano jogada no lixo.

"Droga!" — Kagura praguejou já a planar em sua enorme pena branca. — "Se eu resolver me unir a Hakudoshi, só estarei servindo a um mestre diferente. Além do mais..." — fechou os olhos com força, não poderia se esquecer da noite em que Annabelle se arriscara a qualquer custo para tentar lhe devolver o coração. Se havia uma pessoa que de fato se importava com seu sonho pela liberdade, era a ocidental.

A youkai tinha uma decisão a tomar e não poderia adiá-la para sempre.

Repentinamente, fez a pena mudar de direção. Os ventos a carregaram até a cabana no alto da colina.

— Kagura... — Naraku jazia sentado com o coração dela em mãos. Assim que ela entrou, percebeu no olhar dele que de alguma coisa ele sabia.

— Naraku! — ofegante e amedrontada, exclamou.

— Então, decidiu voltar para o seu verdadeiro mestre? — sorriu perverso.

— Você já sabe?! — piscou os olhos arregalados várias vezes.

— Hakudoshi pensa que poderá me derrotar por acreditar que tem meu coração em seu poder. — riu desdenhoso — Mas se esquece de que, assim como você, nasceu de mim e que, portanto, a vida dele está em minhas mãos.

— Não, Naraku! — notou que ele conhecia apenas parte do complô — Isso não é tudo!

— Não? — arqueou uma sobrancelha, ainda risonho.

— Ele a tem. — soltou em uma só respiração.

— Hum? — o aracnídeo se ergueu desconfiado.

— Sabe muito bem de quem estou falando! — vociferou, fora de si — Hakudoshi a chantageou, ameaçou ferir pessoas a quem ela tem algum apreço...

Subitamente, ele virou as costas.

— Não finja que não se importa! — Kagura apelou.

— Voltou por causa dela? — frio, questionou. O silêncio dela provocou nele um riso seco — Que tolice...

— Sei onde ela está, e posso dizer se for do seu interesse. — a controlar os nervos, contou.

Naraku a fitou sobre um dos ombros, a franja a sombrear o olho escarlate.


— Yoru? — Motoko se chegou em passos de tartaruga perto da garotinha que olhava o mar enquanto pequenas ondas molhavam-lhe os pés.

— O que será que aconteceu com ela? — angustiada, soluçou algumas vezes. Chorava discretamente.

— Eu não sei... — a outra tocou um dos ombros balançantes.

— Aquele menino de quem falei a vocês, ele não era humano, meus poderes ainda não amadureceram o suficiente e eu não pude lutar contra...

— Você demonstrou bravura, deveria se orgulhar! — tentou animá-la — Não era um menino, era um youkai poderoso, você sabe.

— E se ele tiver matado Shinrinko?! — cobriu a boca com as duas mãos, apavorada.

— Eu duvido! — a mais velha disse segura.

— Como pode ter tanta certeza? — mirou-a espantada.

— Bem, eu sempre passo perto do túmulo da senhora Keiko às manhãs, e a cada dia que o sol nasce ele está mais florido e cheio de vida ao redor...

— Não estou entendendo, Motoko. — baixou a cabeça, inconsolável.

— Eu acredito que se há flores e pássaros para alegrarem aquele olho d´água, é porque a chama da vida da senhorita Anaberu ainda não se apagou. — destacou a entonação do nome verdadeiro, para que Yoru se lembrasse da identidade da escocesa.

— Então por que eu sinto dentro do meu coração que ela não vai voltar para a gente?! — roçou os olhos, incontida.

— Sinceramente, Yoru? Eu acho que ela sempre esteve de passagem. O lugar dela é longe, bem longe daqui. — as palavras dela pioraram a condição da menininha. Suspirou e abraçou a pequena de lado. — Não chore, devemos ser agradecidas pelos momentos que passamos com ela e pelo aprendizado que ela nos deixou.

— Eu sei, eu sei... — suspirou e fechou os olhinhos escuros — rogo para que ela fique bem, onde quer que esteja. Que alguém possa fazer por ela o que não somos capazes de fazer...


Os dizeres de Sesshoumaru se misturavam aos de Hakudoshi na mente dela em ecos intermináveis a adoecerem seus sentidos. Melada de suor, Annabelle estapeava os próprios ouvidos como se de algum modo pudesse fazer aqueles sons escaparem, desaparecerem, mas se mal tinha forças para levantar os braços e concluir aquele gesto, tampouco poderia afastar os próprios temores.

Tentava erguer o corpo, caía sobre a manta, molhada como ela estava. Ofegava, queria gritar e só murmurava apelos.

Uma sombra cobriu a pouca luz que vinha de fora. A mulher, deitada sobre a pele de babuíno, fez uma força estrondosa para se jogar de frente e elevar a cabeça para ver quem vinha. No lugar do borrão branco, enxergou a inconfundível silhueta dele.

"Naraku?!" — suspirou, em primeiro momento aliviada por a presença a se aproximar não ser de Hakudoshi.

Imediatamente o alívio se transformou em pavor, como se de qualquer canto pudesse surgir alguém para emboscá-lo.

— Não... — sussurrou conforme ele se aproximava numa intensa tranquilidade. — Vá embora...

O hanyou se ajoelhou ao lado dela e sem parecer se importar com as súplicas, a segurou nos braços, enrolada na manta.

— Ele... ele vai voltar e... — rouca, persistia a falar.

— Hakudoshi não voltará mais. — respondeu grave — Inuyasha e seus amigos já cuidaram dele.

Os olhos dela, fundos, expandiram-se um pouco.

"Velhos hábitos dificilmente mudam" — concluiu, certa de que o araneídeo armara uma armadilha para o menino e deu um jeito de fazer com que o seu próprio rival a executasse. E ele se saíra vitorioso não só por conseguir que o livrassem de sua cria traidora, como também pudera conquistar os fragmentos da Joia que Kagome trazia consigo, incluindo aquele que um dia estivera guardado dentro do peito de Annabelle.

Ter consciência daquelas coisas poderia tê-la azedado, contudo, a lógica a levou a refletir sobre outra situação. Há não tanto tempo Kagura esteve naquela caverna, e de repente Naraku apareceu lá e agora a tinha nos braços, sem qualquer obstáculo.

— Kagura... — murmurou emocionada.

— Sim, ela me disse o seu paradeiro. — ergueu-se com ela em seu colo.

"E você veio me tirar daqui..." — uma goma formou-se na garganta, difícil de engolir. Estava fraca, porém lúcida. Não conseguiu desviar o olhar da figura dele um segundo sequer.

Naraku a tirou daquela caverna, a flutuar com ela sob sua proteção, envoltos pela barreira. Nada falaram, e ele em raros momentos a fitava. Embora o corpo tivesse todos aqueles novos adornos que o afastavam de um aspecto humano e os olhos parecessem mais frios do que um dia foram, algo nele permanecia intacto. Annabelle só não conseguia descobrir o quê.

O sujeito que assassinou seu primeiro amor e sua irmã a sangue frio pousou em algum canto daquela montanha coberta por neblina e a acomodou em uma rocha. A descansar os olhos, ela foi capaz de ouvir o som de água, depois ouviu roupas caindo na terra. Desentrelaçou os cílios e o contemplou nu diante de si. Os globos celestes já haviam recuperado foco suficiente para distinguir os músculos e os traços que ela bem conhecia.

Abriu a boca para reclamar, e ele, quieto, tratou de pacientemente desfazer as amarras de seu vestido, depois do espartilho, e passo a passo a despiu daqueles trajes complexos.

— Não... — Annabelle, zonza e a esperar pelo pior, tentou resistir.

Os braços do vilão a enredaram uma vez mais, ele se levantou a segurá-la. Aquele soar específico da água ficou cada vez mais próximo. Enfim, ela entendeu o que acontecia.

Naraku entrou calmamente com ela em uma fonte termal. Cauteloso, ele a acomodou em seu colo e perpassou as mãos pelos braços, pelos ombros e pelo rosto dela, limpando-a do pó e do suor. Os dedos percorreram os fios ruivos, penteando-os e enxaguando-os, depois desceram pela barriga em afagos quase ternos, alisaram cada centímetro maltratado de pele e deslizaram pelas coxas, induzindo-a a dobrar os joelhos e ficar em posição fetal no colo dele.

A cabeça da escocesa, pesada, pousou no peito rijo e a resistência se extinguiu gradativamente. Podia até ser que o torpor do caldo que ela era obrigada a tomar a fizesse ceder com mais facilidade, jamais saberia dizer. Todavia, naquele momento, diante daqueles afagos zelosos, dentro de uma fonte de águas mornas, ela o permitiu lavá-la até que todo o rastro da maldade de Hakudoshi desaparecesse de seu corpo.

Naraku, após limpá-la cuidadosamente, estava pronto para se levantar com ela, entretanto uma mão pousou em seu peito, e a voz murmurada pediu:

— Por favor... só mais um pouco — olhou-o melancólica.

A surpresa finalmente fez dos olhos vermelhos ligeiramente expressivos.

— Deixe-me ficar assim, só mais um pouco... — envolveu-o pela cintura e se aconchegou dentro do abraço. Os cabelos dele caíam por cima dos ombros e a cobriam levemente, como uma cortina.

Não havia fragmento a entontecendo de desejo, no entanto algo a aquecia por dentro e a atraía a ele, como uma mariposa se deixa iludir pela beleza da luz.

E ele, por mais tentado que estivesse a tomá-la para si, pois a sua natureza ainda era sombria a ponto de querer se aproveitar da vulnerabilidade dos outros, se limitou a apenas acolhê-la em seu abraço protetor.

"Será possível, Annabelle, que você não me repudie tanto assim?" — indagava a ajeitar os cabelos dela para trás de uma orelha. O queixo repousado sobre a cabeça atribulada, os olhos semicerrados por conta da discreta sensação de calidez, como se a fina aura esbranquiçada se dividisse por dentro dos dois. Ela pouco se parecia com a mulher que o rejeitara na caverna de Onigumo.

Fatalmente, o casal lembrou dos dias e das noites que passaram juntos...

"Senti tanta falta do seu calor" — ela confessava o segredo apenas para si mesma, enquanto acarinhava os tentáculos esverdeados que se remexiam nas costas dele, no lugar da queimadura de aranha. Quase se esquecia dos pecados que ele cometera. Quase se deixava levar pelas velhas esperanças.

Após um bom tempo dentro daquele abraço, enfim o hanyou se ergueu a trazê-la consigo de volta ao pedregulho onde pendurara as roupas dela e as dele. Ia deixá-la de pé, notou as pernas dela vacilarem e a puxou rente a si outra vez. Enfureceu-se com Hakudoshi novamente, o estado da moça era consequência das maquinações dele. Sorte a do menino ter sido sugado pelo Buraco do Vento de Miroku, ou Naraku poderia fazer pior.

Recostou-a na pedra e começou a vesti-la como se fosse uma criança, camada por camada. Annabelle até tentou ajudá-lo, porém mal tinha controle sobre os próprios membros.

Assim que terminou com ela, a deitou sobre a manta entre as grandes raízes de uma árvore e pôs as próprias roupas. Já coberto pelos trajes nobres, trechos de seu próprio corpo formaram aquela armadura imponente uma vez mais e o olho avermelhado tornou a se abrir em seu abdome.

— Eu vou levá-la de volta para aquelas pessoas. — disse, ereto, em frente a ela.

— Não! — respondeu de pronto, mesmo enfraquecida. Ele estranhou sua atitude — Eu... sempre serei... um perigo. — os olhos reviraram cansados — Enquanto tiver qualquer relação... com você. — e o olhou entristecida.

Naraku respirou fundo, sem poder rebater. Ele trouxera essa cruz a ela. O que poderia dizer?

Olhou adiante, percebeu os olhares que vinham de dentro da floresta, youkais os rodeavam famintos. Não poderia deixá-la sozinha naquelas condições. No fim das contas, com ou sem coração dentro do peito, se importava com ela tão ou mais do que no dia que a salvou do afogamento.

Teria sido ali que a ligação deles começara? – os dois se perguntaram a encararem-se. Ela, entre grandes raízes, deitada sobre o manto dele, Naraku enfim sentado ao lado dela, com as costas apoiadas no largo tronco da árvore. Annabelle lutava contra o sono, queria contemplá-lo por mais tempo e assim desvendar o que quer que ele estivesse pensando ou sentindo – se é que ainda sentia. Ela queria tanto que ainda sentisse...

— Descanse. — sereno, aconselhou.

— Você partirá...

— Quer que eu fique? Mesmo depois de tudo? — ligeiramente surpreso, perguntou. Anna acenou positivamente com a cabeça, também sem conseguir compreender as próprias vontades.

A palma dela se virou para cima e o braço estendeu-se, os dedos apontados para ele. Dentro dos olhos dela, Naraku podia vê-la pedir por sua mão. Devagar, os dedos dele deslizaram sobre os dela, e então se entrelaçaram. O orbe no dorso se fechou tranquilizado.

— Você... ainda sente algo por mim? — Annabelle perguntou e apertou a mão dele dentro da sua assim que ele fez menção de apartar o toque. A firmeza dela aos poucos voltava e se sobrepunha à tontura, nem que fosse por segundos.

A serenidade nas feições do usurpador de Hitomi em breve cederia à irritação e ele provavelmente se afastaria.

— Se você sente, — ela prosseguiu, antes que ele pudesse interrompê-la. Os olhos se fecharam. — deixe Kagura ir. É... tudo o que peço a você.

— Annabelle...

— Eu acredito... — quase a adormecer, admitiu para si e para ele — não deveria, mas ainda acredito em você. — e assim, os dedos dela perderam a força e soltaram os dele.

Naraku percebeu as feições dela mudarem, o sono a abatera. O peito subia e descia devagar.

"Acredita em mim?" — mirou a copa da árvore e resfolgou. Os olhos pareciam atribulados, já os lábios formaram um sorriso tênue e pouco duradouro. Mesmo depois de tudo o que ele fizera, a esperança dela sobrevivia e o coração da humana não se corrompera de todo. Via-se aliviado diante do próprio fracasso, e constatava que nunca se empenhara de fato, ainda que acreditasse que ela lhe tivesse dado motivo. Bastava que a doçura a abençoasse outra vez e ele mal podia pensar na raiva que sentia por ela ter se entregado ao espectro de Kagewaki. Como ela conseguia fazer aquilo, operar pequenos milagres nele?

Pensou no pedido conforme rolava os olhos sobre a figura adormecida, atentando-se a cada traço de sofrimento e resquício de inocência. Ela era forte, não só pelo poder de nascença, mas por toda e qualquer outra circunstância, como simplesmente não perder a benevolência, a crença, não completamente.


Os olhos dela se abriram assim que a luz fez contato com eles. Os raios atravessavam a cúpula rosada ao redor da árvore que a abrigava entre raízes. Ainda estava deitada sobre a pele ebúrnea de primata, no entanto, aparentemente, já não havia outra presença ali além da sua.

Sentou-se, ainda um pouco zonza. Do outro lado da barreira, corpos dilacerados de youkais estavam atirados ao chão. A flora que antes cercava a fonte definhou, e a água secara. Não era preciso ser genial para compreender que o hanyou utilizara suas habilidades para extinguir qualquer possibilidade de perigo antes de partir.

Ele a ama. — rememorou a sentença de Kagome, puxou a manta debaixo de si e a abraçou com firmeza.

Naraku destruiu tantos sonhos e vidas, se deleitou com o sofrimento alheio, procurou sentido em espalhar o caos por onde passou. Até mesmo ali, onde antes era um lugar agraciado pela natureza, tornara-se um deserto graças ao toque nefasto do miasma dele. Entretanto, aquele mesmo Naraku a salvara de diferentes formas, e ela não poderia adivinhar por quantas vezes. Mesmo sem um pedaço da Joia dentro de si, sentia-se inclinada a ele.

"Como posso estar tão carente a ponto de acreditar que isso seja realmente parte de mim?" — os pensamentos queriam navegar contra a corrente, o corpo dela, no entanto, se atava mais ainda ao manto usado tantas vezes por ele. Annabelle chafurdou o nariz nos pelos e jurou ainda poder sentir o cheiro dele.

— Me diga para onde quer ir, eu a levarei. — ouviu-o dizer, elevou a cabeça cheia de expectativas que logo se frustraram. Soube identificar a marionete a sair por trás de um arbusto, adornada por uma capa semelhante a que ela abraçava.

— Não tenho para onde ir. — levantou-se devagar e se cobriu com a manta.

— Não há o que temer, Hakudoshi se foi.

— Ele foi apenas um entre muitos que fariam qualquer coisa para atingi-lo, e eu estou ligada a você. Enquanto essa situação persistir, eu não devo me aproximar de ninguém, devo andar por minha conta. — respirou fundo, procurando por brandura.

— Deve haver um lugar onde queira ficar. — a marionete insistiu.

— Você não pode me levar até lá. — passou ao lado do porta-voz dele, amargava-a não ser ele ali a se despedir, mas àquela altura Annabelle parecia acostumada com a insistência de Naraku em fugir de situações difíceis.

O babuíno branco se virou, contemplando-a seguir sozinha floresta a dentro.

— Por favor, não me siga. — Belle pediu antes de desaparecer no meio da mata.


Naraku segurou a escultura de madeira em mãos e ele mesmo destruiu a marionete. Sentiu-se tentado a ir buscá-la, a dar-lhe abrigo e as infinitas almas a cercarem-no e a desejarem pela sua o fizeram relembrar dos tormentos vividos dentro do Monte Hakurei, quando se recuperava e reconstituía o próprio corpo. Estar com a humana somente o desconcentraria de sua verdadeira missão, a qual àquele ponto abandonar já não era questão de escolha. Se não fosse ele, seria outro a carregar o fardo. E, mais, seus atos não tinham retorno, não era como se pudesse abrir mão de tudo e ninguém fosse procurá-lo para uma prestação de contas. Por fim, de um jeito ou de outro qualquer relação que pudesse ter com Annabelle seria finita. Por ter uma essência youkai, viveria muito mais do que ela, teria de vê-la partir. Apesar de não crer em destino, eis um fato que ele não poderia mudar nem mesmo com o poder da Joia de Quatro Almas: a brevidade da vida de um ser humano.

"Cumprirei o meu papel" — decidiu — "mas preciso fazer uma coisa". — levantou-se do piso de madeira e caminhou por dentro daquele esconderijo, muito menor do que o castelo onde vivera por um tempo. No entanto, num canto escuro daquela saleta jazia uma antiga arca. Ele a abriu e a revirou até encontrar um mapa desenhado a nanquim bem no fundo, já encardido. Com os breves ensinamentos de inglês e gaélico da estrangeira, Naraku conseguiu lê-lo.

— Então, estou aguardando as suas ordens... — uma voz suave e levemente entediada alegou da entrada.

— Venha ver uma coisa. — Naraku, de costas para o sujeito, orientou.

De braços cruzados, o novo cúmplice do hanyou suspirou e o seguiu até uma espécie de porão.

Lá embaixo, alumiada por algumas velas estava uma harpa dourada empoeirada.

— Ora, ora, que objeto curioso... — o rapaz piscou algumas vezes — deve valer uma fortuna! — e deu um risinho.

— Confiarei uma missão a você, Byakuya. Ninguém além de você e de uma youkai a quem deve procurar pode saber. Entendeu? — girou o corpo e o encarou estarrecedor.

— Certo, certo! — abanou as mãos desajeitadamente — É só dizer que eu faço.

— Muito bem... — menos hostil, todavia tão sério quanto Sesshoumaru, iniciou a explicar seu plano. Conforme dava as coordenadas, sua nova cria fazia ligeiras caretas se perguntando qual seria a finalidade daquelas ideias.

Continua...


Ai, gente... eu sei que muitas amam o Sesshoumaru, mas eu não aguento com o Naraku, olha...
Espero que as Sesshy lovers tenham curtido a cena do bonitão, apesar de o Naraku mandar e desmandar no meu coração, foi uma delicinha escrever. 3
Mas o que eu gostei mesmo, e MUITO, foi de escrever a cena do resgate e do nosso aranhão banhando Annabelle na fonte. Até que ele sabe ser um amorzinho, mesmo depois de fazer tanta m****, né não?!
Eu espero que as minhas ideias futuras a respeito dele surpreendam bastante vocês. ^^
E o Hakudoshi, pois é, foi isso aí. Causou o caos e... no céu tem pão? (A morte dele foi exatamente como no original, Naraku simplesmente o abandonou e deixou que Inuyasha e companhia dessem conta do recado, de quebra ficou com os fragmentos que ele roubou. Like a Boss)
Antes de eu ir, só gostaria de dizer mais uma coisa que pode ser considerada boa e ruim ao mesmo tempo: terminei a fanfic.
Sim, ela está pronta e se findará no capítulo 46. T-T
Agora só falta revisar os capítulos para publicá-los, espero que se surpreendam com o desfecho.
Obrigada a todos que acompanham e deixam comentários incentivadores aqui!

Kissuuuuus e uma ótima semana a todos!