Oi pessoal, tudo bem? Andei meio afastada pelo universo das fanfics por diversos motivos, mas finalmente voltei e já consegui postar o capítulo final de Teia de Mentiras no Anime Spirit, e aqui falta pouco. Atingimos o fim no capítulo 46, olhem só! Quase lá...
Espero que gostem do que está por vir. Boa leitura!


Capítulo 42 - Traição.

Quanto tempo se passara? Um mês? Annabelle não fazia ideia. Ao menos durante esse período ela conseguira dar qualquer rumo a própria vida, ainda que não fosse uma ideia muito original. A escocesa se decidiu por guardar os poderes para si novamente e sobreviver das próprias habilidades artísticas. Com o manto de Naraku, ela cobria os cabelos exóticos, com um véu de renda sobre os olhos escondia a cor da água e assim viajava vilarejo por vilarejo, como musicista itinerante. Nos primeiros dias, cantava as canções de sua terra à capella, até que conseguiu dinheiro o suficiente para mandar fazer uma pequena lira de madeira. Logo tinha a sua própria carroça e o seu próprio burrinho – muito diferente do cavalo que uma vez a acompanhou – ainda assim, era um meio de transporte digno de levá-la aonde precisava ir. Dentro do decote, guardava uma bolsa de couro onde fazia uma poupança. Isto é, tentava, não dava para salvar tanto dinheiro quanto gostaria, talvez levasse anos para conseguir fazer o que desejava, retornar à terra natal.

"Seria outra tentativa de fugir dos meus fantasmas?" — se perguntava enquanto atravessava a floresta dentro daquele veículo quase a se desmontar de tanto balançar. A saudade das pessoas que a acolheram também não refrescava, ainda que tivesse consciência de que o seu estado de espírito não estaria apaziguado à companhia delas — "Aqui ou na Escócia, isso não muda dentro de mim" - suspirou angustiada. Dali em diante viriam as mesmas perguntas de sempre: o que estou fazendo da minha vida? Qual é o sentido de tudo isso?
Sempre que ouvia rumores de Naraku ou percebia sua energia sinistra se espalhar, ela tomava o rumo contrário, cada vez se distanciando mais e mais dos conflitos, dos reencontros, do destino do qual ele não poderia fugir e que ela não teria a capacidade ou o direito de mudar. No entanto, aquele continente era pequeno demais e cedo ou tarde um esbarrão aconteceria.

— Você... uma voz conhecida ressoou às costas dela, justo no instante em que ela escovava o burro que a carregava para cima e para baixo.

— Kikyou! levantou o véu a cobrir as turquesas e esbanjou um sorriso aliviado ao vê-la caminhar normalmente depois de quase ser morta pelas mãos do Naraku. A sacerdotisa, por sua vez, analisava-a de cima a baixo, interrogativa.

— Por que veste isso? referia-se à manta de babuíno.

— Me aquece nas noites frias. suspirou a apertar os pelos brancos.

Ouviu sons vindo da mata, viu alguns bambus serem derrubados e logo depois um menino em trajes de exterminador surgiu a enxugar o suor da testa.

— Senhorita Kikyou, agora será fácil atravessar essa trilha! Kohaku anunciou.

— Kohaku! Annabelle exclamou espantada e alegre, fazendo-o voltar sua atenção a ela.

— Senhorita... de olhos arregalados e ligeiramente ruborizado, o menino parou tudo o que fazia e ficou a mirá-la. Viu-a correr em sua direção, depois sentiu as mãos gentis apalparem-lhe as ombreiras e então o rosto amornado.

— Você está consciente?! perguntou arfante, ajeitando a franja dele com todo o cuidado.

— S-sim... vermelho como um tomate, fixou-se no chão E me lembro de tudo também.

Annabelle tapou a boca com uma mão primeiro, em seguida o abraçou forte.

— Estou tão feliz por você! comovida, confessou enquanto acariciava o topo da cabeça dele Mas por que não está com Sango? imediatamente se viu confusa por ele vagar por aí longe da irmã. Segundos depois, ao notá-lo esmorecer discretamente, arrependeu-se por ter perguntado. Imaginava o quão doloroso deveria ser para ele se lembrar de tudo e ter de encarar a irmã, era natural que quisesse se manter afastado. Desculpe... murmurou.

— Kohaku se uniu a mim em uma missão. Kikyou se aproximou dos dois e contou em tom sereno. nós derrotaremos Naraku através do fragmento dele.

— Mas, sem o fragmento, Kohaku irá... empalideceu só de pensar Não pode fazer isso com ele! encarou-a escandalizada.

— Senhorita, mesmo que eu tenha que me sacrificar, eu já me decidi. a certeza emanou de dentro dos olhos dele como duas labaredas intensas Vingarei a minha família e o meu clã, só assim poderei ficar em paz.

Os olhos de céu expandiram-se tremeluzentes, bem como a boca entreabriu sem emitir som mais alto do que o de um suspiro. Como ele amadurecera! Logo após, num giro, ela se fixou na vida passada de Kagome e além de enxergar na mulher a mesma convicção, percebeu uma brandura diferenciada. Kikyou não transmitia o mesmo amargor causado pelo rancor de uma morte prematura. Entre o menino e a sacerdotisa havia uma espécie de conformidade.

— Sango ficará arrasada se alguma coisa acontecer com ele, é sua única família... Annabelle disse à Miko, era o único apelo que poderia fazer. A mulher dos cabelos negros e pele cor de neve olhou para cada canto ao redor dos três, e por fim olhou dentro dos olhos da ocidental.

— Você pode ajudá-lo. decretou Pode impedir que ele morra e é por isso que estou aqui.

— O quê?! a outra se sobressaltou, Kohaku se mostrou tão surpreso quanto ela.

— Eu a procuro há um bom tempo... Kikyou, no entanto, se mantinha plácida. Você é a única que pode me ajudar a salvar Kohaku.

— Então me diga o que fazer! Belle conhecia seu poder de trazer os mortos de volta à vida, mas o que poderia fazer pelo menino se ele ainda estava vivo? Por acaso Kikyou sugeriria que ela ficasse ao seu lado até o dia em que Naraku resolvesse reaver o fragmento? Seria um calvário, mas ela poderia tentar.

— Entenda, se fizer, estará condenando Naraku. a sacerdotisa alegou sem rodeios.

Um frio tortuoso percorreu o interior de Annabelle e ela não conseguiu esboçar qualquer tipo de reação, a não ser vidrar os olhos na mulher.

— Posso ver que você não tem mais o fragmento em seu peito. piscou levemente depois de instantes encarando-a quase hipnoticamente.

— Kagome, ela conseguiu tirar de mim. respirou fundo, contendo-se enquanto podia.

— Você permitiu que ela tirasse. a corrigiu Até que enfim... esboçou um pequeno sorriso Agora você é livre, e o que quer que decida fazer será de responsabilidade sua, exclusivamente sua. e o riso se fechou.

Anna engoliu seco, baixando a capa branca até os ombros. Kohaku, silente, as observava sem muito entender daquela conversa.

— Sabe por que Naraku adiou até onde pôde tirar aquele fragmento de você? a sacerdotisa perguntou.

— Ele... selou os lábios e os olhos por instantes, rememorando o encontro que tiveram depois de ele quase perecer nas mãos de Inuyasha. Lembrou-se dele a abraçá-la e confessar que não a podia deixar ir. Em outras ocasiões, pareceu que o hanyou finalmente a libertaria daquele fardo e então ele voltava atrás. Não era o momento... parafraseou-o, foi mais ou menos o que ele disse quando se encontraram depois da queda do Monte Hakurei.

— Você, sem perceber, purificou aquele fragmento. Se Naraku entrasse em contato com ele, seu corpo se desintegraria e nem o pó ficaria nesse mundo. Foi por essa razão e nenhuma outra mais. comentou pausadamente, de modo que cada vocábulo fosse bem compreendido pela audição da ocidental.

— Não, está enganada... quis soar firme, só que nem ela tinha certeza. Outra lembrança ascendeu, no dia em que Naraku a mandou embora, sua marionete fez menção de tirar o fragmento de dentro do peito dela e assim que um tentáculo entrou em contato com a pele, o babuíno branco se dissipou em poeira. Annabelle ficou zonza, buscou apoio em uma árvore próxima. Durante todo esse tempo, acreditou que o aracnídeo não a libertara por razões sentimentais, e mais uma vez a circunstância lhe provava que tudo o que ele fazia ou deixava de fazer era em prol de seu próprio bem. Ainda assim, a pressão dentro dela não se aliviava.

— Naraku precisaria corromper aquele fragmento antes de tirá-lo de você, Kikyou prosseguiu ou seja, precisaria manchar a sua alma para que aquele ínfimo caco da Joia de Quatro Almas enegrecesse.

"Então, ele envenenou meu relacionamento com Ailyn outra vez e a matou..." ah, sim, fazia sentido. Desde que adquirira um novo corpo, maior parte das ações dele foram fazê-la sofrer de algum modo. Todavia, depois de todo o perrengue causado por ele, Naraku a procurou exasperado, e mesmo quando ela já não tinha o fragmento ele a salvou de Hakudoshi, a banhou cuidadosamente nas águas mornas de uma fonte... Fazia pelo menos um mês e, ao fechar os olhos, ela ainda podia sentir os braços a envolverem-na, protetores. Ele se arrependera!

Então, ela descolou as pálpebras e focou o olhar no menino tão sofrido, depois na alva sacerdotisa cuja vida se sustentava através das almas de jovens que partiram. De que adiantava Naraku se arrepender do mal causado a ela, quando não pensava meia vez antes de infringir o sofrimento e o caos na vida de tantas outras pessoas? Lembrava-se como se fosse ontem Kagome decretando o amor do hanyo-aranha por ela, bem como recordava das palavras duras e verdadeiras de Inuyasha. Nada mudava o que Naraku tinha feito, ou o que viria a fazer. A presença do irmão de Sango e de Kikyou ali naquele bosque provavam isso.

Annabelle, apesar de ter deixado claro que não queria se meter nessa história, sentia a culpa rodeá-la como uma nuvem escura.

— O que acontece se eu decidir não me envolver? perguntou em tom entrecortado, as mãos fechadas por baixo das mangas do vestido.

— Assim que Naraku conseguir tirar o fragmento de Kohaku, ele morrerá. Kikyou sentenciou. Mesmo que ela se mostrasse na maior parte do tempo como uma onda constante e inquebrável, naquele minuto o cenho franziu levemente e os olhos tremularam. Sua emoção contagiou a escocesa.

Kohaku fitava o nada, a tentar dominar os próprios anseios. Poderia ser um menino, entretanto as vivências o amadureceram precocemente e demonstrar força era questão de necessidade. Belle ajoelhou à frente dele e tocou-lhe o queixo, como se pedisse assim que ele a encarasse. Olhos amendoados e azulados cintilaram temores e entendimentos.

— Não o deixarei morrer. enfim, ela decidiu, por mais doloroso que fosse. Daria razão a voz de Sesshoumaru, seria a ruína de Naraku, mas não permitira que a vida de Kohaku fosse levada. O que preciso fazer?

— Faremos juntas. Kikyou, aliviada e orgulhosa pela decisão que ela tomou, também se pôs de joelhos. Kohaku, sente-se de costas para nós. orientou.

O aprendiz de exterminador de youkais era obediente, cumpriu a ordem sem questionamentos. Já sentado, ele apoiou as mãos sobre os joelhos e fechou os olhos.

A sacerdotisa pegou a mão direita de Annabelle, a pousou próxima à nuca do menino e ficou a segurá-la ali.

— Concentre as suas energias nesse ponto. Kikyou disse em baixo tom.

A escocesa fechou os orbes devagar, respirou fundo e fez como foi pedido. Invocou as forças da natureza para si, em seguida as enviou para aquele trecho de pele. A cortina branca de luz a envolveu e perpassou pela silhueta de Kohaku, aquecendo-o aos poucos, quase o adormecendo. A seguir, o lume de Kikyou misturou-se ao de Annabelle e as mãos que se tocavam sobre as costas de Kohaku cintilaram como uma pequena estrela.

— Pronto... ligeiramente ofegante, a miko soltou a mão de Anna. Kohaku abriu os olhos.

— Você ainda não está curada do ataque de Naraku. deu um suspiro lamentoso e ofereceu ajuda para que ela se levantasse.

— Estou bem o suficiente para terminar o que comecei. levantou junto a ela enquanto dizia.

— Como assim, Kikyou? perguntou incomodada com a forma dela falar.

— Você entenderá com o tempo... sorriu o importante é que Kohaku está salvo, graças a você.

— O que fizemos? ainda atribulada, quis saber.

— Se isso a fizer sentir melhor, saiba que o seu poder foi o responsável por curá-lo dos ferimentos de morte que sofreu. Se eu tirasse esse fragmento das costas dele agora, Kohaku não sofreria nada.

Annabelle resfolgou como se um peso enorme tivesse lhe sido tirado, ainda assim, havia o outro lado da moeda, a parte que não a permitiria ter paz.

— E Naraku? Como isso o atinge? perguntou melancólica.

— Você e eu, juntas, purificamos o fragmento. Eu dei um jeito de camuflar essa luz para que Naraku não perceba. No instante em que ele tocar esse fragmento, se o coração dele estiver em seu corpo, ele perecerá. ao fim da frase, a sacerdotisa suspirou, pois o sofrimento nas feições da estrangeira era quase palpável.

— Ele vai saber! ela disse, um pouco por medo, e muito por ter a esperança de que ele descobrisse e conseguisse se esquivar daquele destino de alguma maneira.

— Não irá, eu garanto. disse certeira.

Anna mordeu o lábio inferior e baixou a cabeça, uma mão foi ao peito querendo inutilmente contê-lo.

— Orgulhe-se, Kikyou tocou-lhe os ombros o que fez foi louvável.

"Eu o traí" — embora as palavras da sacerdotisa devessem acalmá-la, esse era o único pensamento a povoar a mente. Como poderia se sentir tão pequena se sabia ter feito o certo? E por que ainda se importava, ainda pensava tanto nele, mesmo sem aquele caco amaldiçoado a manipulá-la?

— Obrigado, senhorita Anaberu! Kohaku, ajoelhado a sua frente em infindável humildade a dispersou da crise. Como posso retribuir esse imenso favor? Me diga, farei o que estiver ao meu alcance.

— Quando tudo isso terminar, engoliu o amargor e inclinou a vista aos céus quando Naraku tiver sido derrotado, eu quero que você volte para a sua irmã.

— O quê? rubro por conta da surpresa, fitou-a.

— Me prometa, abaixou a cabeça e o mirou novamente você vai encarar o passado de cabeça erguida e vai conviver com sua irmã. ao vê-lo titubear, vergou o corpo para a frente e segurou-lhe as mãos. Lembra-se do que eu falei sobre a importância da dor? ele meneou a cabeça numa afirmativa, ela continuou: enfrente a dor, depois de alcançar o seu objetivo você deve se resolver com Sango. Aproveite que ainda tem uma família, Kohaku. foi impossível não se emocionar com as próprias palavras, afinal, ela estava sozinha. Uma lágrima rolou pelo canto do rosto. Você promete?

— Eu prometo, senhorita. também choroso, ele esfregou um braço nos olhos e selou o acordo.

— Precisamos ir agora. Kikyou quebrou a própria quietude e anunciou.

— Você ficará bem? Ele tentou matá-la, certamente tentará outra vez. Annabelle voltou-se a ela.

— Não se preocupe comigo, meu caminho está traçado. já de costas para a ruiva, começou a se afastar Agora cuide de você, tem toda uma vida pela frente, não a desperdice. mirou-a por cima do ombro.

— Nos veremos novamente? deu dois passos a frente e parou, não intentava segui-la.

— Acredito que esse tenha sido o nosso último encontro. Kikyou sorriu Apesar de tudo o que passamos, foi bom conhecer você.

— Também foi bom conhecê-la, Kikyou. um pressentimento tomou conta dos pensamentos dela. Uma voz interior lhe dizia que aquela seria a última vez que se cruzariam, embora isso a entristecesse, ela sorria e dessa forma transpassava um último gesto de gentileza a uma mulher tão sofrida.

Finalmente, a dupla perpassou a trilha que Kohaku traçara entre os bambus e se perdeu na imensidão esverdeada. Annabelle estava as sós com seu burro e sua carroça, como de costume. Em adicional, apenas um sentimento apavorante, uma nova angústia para a sua coleção. Olhou para todos os lados, desde no solo até no céu procurou algum vestígio de ser vigiada por ele, e nada. Nenhum inseto, nenhuma marionete, naquele momento crucial Naraku estivera ausente e não saberia que ela teve qualquer participação em seu declínio.

No fim das contas, Sesshoumaru estava certo, ela seria mesmo a ruína de Naraku.

"Como eu pude fazer isso?" pulou para dentro da carroça e fez o burro andar. Nas próximas noites, seu grande feito a assombraria mais do que a imagem de Hitomi um dia assombrou.

Por dias a fio, dentre um afazer e outro, durante a peregrinação que a levaria ao próximo vilarejo para conseguir o seu ganha pão, o remorso por tê-lo apunhalado pelas costas a atormentava, não importava o quanto ela tentasse se convencer de que não cometera crime algum. Em verdade, se tivesse pensado em si mesma não teria coragem de salvar Kohaku.

"Eu pensei num bem maior!" — queixava-se, irritada, e puxava as rédeas do burrinho, fazendo o possível para o animal ir mais rápido e nada acontecia, o animal em vez de apressar o passo simplesmente empacou.

— Maravilha! desceu da carroça e, num acesso de raiva, chutou uma das rodas simplesmente para machucar o pé e esbravejar ainda mais contra o mundo, contra todos.

— Ora, ora, o que temos aqui? ouviu uma voz masculina a princípio, e sem demora ouviu várias a rirem incontidas.

— Quem são vocês? cobriu a testa com uma das mãos, procurando paciência sabe-se lá onde.

— Ela é diferente. outro sujeito falou conforme se fazia próximo.

— Eu gosto! mais um vinha chegando, e de repente tinha uns cinco homens ali, todos mal vestidos e de péssima aparência, os típicos bandidos de estrada.

— Eu não tenho nada a oferecer para vocês. cogitou a ideia de subir na carroça, então lembrou de que seu pangaré era na verdade um jegue e se recusava sair do lugar. "Não posso usar o meu poder, são só homens comuns..." a sua honra não a permitiria derramar o sangue daqueles indivíduos, ainda que o caráter deles fosse duvidoso. Como última opção, havia um cajado amarrado às suas costas, por baixo da manta do Naraku —"Pelo menos não me chamaram de youkai" depois de tudo, restara um pouco de senso de humor.

Tão logo o primeiro deles chegou perto o suficiente, Annabelle jogou a pele de babuíno para cima da carroça, puxou o cajado de madeira que carregava consigo e o acertou na cabeça, fazendo-o desmaiar na lama. Os outros logo a rodearam, cada um a segurar uma espécie de faca ou espada. Sorte a dela ter aprendido alguns movimentos com Himawari, ela girava o corpo com destreza e os atingia nas canelas, no abdome e os derrubava. Sorte também os homens não serem exímios lutadores, não à toa a escolheram como alvo. Com certeza pensavam ser só uma mulher indefesa.

No fim das contas, derrubou a todos, deixando-os boquiabertos. No entanto, durante algum de seus graciosos movimentos, a bolsinha de couro que carregava a sua "poupança" caiu de dentro do decote. Um dos bandidos que se fingia de desacordado a pegou e saiu correndo em disparada.

Enfurecida, Annabelle correria atrás e percebeu que os outros começariam a assaltar a sua carroça. Não poderia deixá-los roubar a comida da semana, tratou de dar mais algumas cajadadas em cabeças alheias.

De repente, todos ouviram uivos.

— Lobos! um deles gritou esbaforido, imediatamente os homens fugiram e Annabelle se viu ilhada naquela trilha lamacenta.

— Vamos, vamos! abraçou-se ao burro, tentou empurrá-lo e nada fez com que o bichinho andasse. Rosnados se aproximavam por todos os lados. Anna respirou fundo, subiu na carroça e fez de tudo para o animal sair do lugar. Infelizmente, quando o primeiro passo fora dado, um lobo apareceu por entre as árvores e saltou diretamente no pescoço do burrinho. A escocesa abafou um grito enquanto a garganta de seu companheiro de estrada era dilacerada e o lobo amarronzado era tingido de vermelho com o seu sangue.

Outros como aquele vieram, para se alimentar do pobrezinho que até minutos atrás se recusava a andar. Um deles elevou a cabeça e notou a presença de Annabelle. Logo, vários dos lobos se fixaram nela e salivaram de fome.

"Eu não queria ter que fazer isso, mas não vejo outra alternativa..." levantou-se e desceu do veículo com os olhares bestiais a acompanharem-na. No entanto, nenhuma das feras deu o primeiro passo para um ataque. Ela as mirava diretamente e se aproximava aos poucos. Subitamente, Annabelle encarou um lobo específico, o maior de toda a alcateia e decidiu que deveria ir até aquele. O animal persistiu a rosnar e a se posicionar até o momento em que ela recostou a mão em sua testa e a afagou. Então, besta e mulher olharam-se nos olhos sem piscarem uma vez sequer. Os rosnados diminuíram de volume e de constância, até se extinguirem. Os outros lobos iniciaram o afastamento, e finalmente o líder também.

A ocidental fitou os restos do burro e suspirou.

"E agora, como eu sairei daqui?"

— Impressionante! alguém disse, não tão distante.

Annabelle procurou pela voz e o viu de pé sobre o galho de uma das árvores, os olhos cerúleos cintilando na direção dela.

"O youkai lobo!" — o reconheceu e tremeu nas bases por perceber que ele enxergara a manta de Naraku sobre as coisas dela. E se ela, com seu olfato humano, ainda podia captar o cheiro do hanyou naquela peça de roupa, o sujeito a saltar do galho obviamente captava também.

— Você é igualzinha àquela mulher que andava com o Exército dos Sete, cheguei a fazer confusão entre as duas. deu um riso, porém seu olhar reluzia desafiador.

— É minha irmã. buscou firmeza, apertava o cajado em uma mão. Você tem alguma ligação com aqueles lobos?

— Na verdade, eles estavam procurando um jantar decente para mim e para meus companheiros. Graças a você, parece que passaremos a noite de barriga vazia. andou na direção dela, com as mãos apoiadas à cabeça.

— Lamento por eles não terem deixado nenhuma fatia do meu burro para saciar o seu apetite. respondeu um pouco ríspida. O youkai não pareceu se importar, pois riu sem reservas.

— Carne de burro não é mesmo a minha primeira escolha.

— E qual seria, carne humana? apontou-lhe o bastão.

— A sua parece bem macia. passou a língua pelos lábios. Annabelle fincou os pés na areia, em posição de ataque. Ele gargalhou. Enxugou os olhos de tanto rir e tornou a falar: Não se preocupe, eu sei que é amiga de Kagome, por isso você não corre perigo comigo.

— Kagome falou de mim? baixou levemente o cajado e mirou-o com uma interrogação desenhada nos traços.

— Sim, ela me contou algumas coisas... o olhar dele, agora reticente, a embaraçou. Anna perguntou-se o que a adolescente poderia ter falado sobre ela.
"Kagome não seria indiscreta" — convenceu-se. Não vai me perguntar sobre a manta? o encarou uma vez mais.

— Está bem, por que anda com esse lixo fedorento? arqueou uma das sobrancelhas negras e marcantes e cruzou os braços.

— Eu... olhou para o objeto, depois tornou a olhá-lo e deu um suspiro. Eu não sei. os ombros baixaram, rendidos.

— Se não sabe o que dizer, então por que me pediu para perguntar? entortou os lábios para o lado e deu umas piscadelas confusas. A europeia quase riu do gesto.

— É verdade, bobeira minha. sorriu e estapeou a própria testa, no fundo tinha consciência da própria mentira. Jamais teria coragem de dizer a ele ou a qualquer um que carregava aquela manta por ser um consolo, uma lembrança que queria guardar sem saber a razão. Bem, se não se importa, é... pensou um pouco desculpe, esqueci o seu nome. e retomou: Preciso encontrar um jeito de sair daqui.

— Kouga. apresentou-se de peito inflado após uma bufada. Então, o youkai se aproximou do veículo dela e com a força apenas de um braço começou a conduzi-lo para fora da lama. Aonde quer que eu deixe isso?

— Ah, eu não sei, não faço a mínima ideia de onde fica o próximo vilarejo... atordoada, começou a segui-lo Por que está fazendo isso?

— Porque Kagome gosta de você, e se ela estivesse aqui, tenho certeza de que era isso o que iria querer que eu fizesse. estendeu um sorriso brilhante e a rigidez no olhar se desfez.

— Gosta mesmo dela, não é? suspirou, apiedada por ele. Sabia por quem o coração da amiga batia. "Que pena..." — guardou para si.

— Ah, que papo esquisito! Vamos logo, suba na carroça! Kouga enrubesceu como um garoto de quinze anos. Belle atendeu o comando dele a prender um riso.

— Obrigada, Kouga.

— Não há razão para agradecer, é o mínimo que posso fazer, afinal, foram os meus lobos que causaram essa bagunça. emburrado, ia arrastando a carroça barranco abaixo sem demonstrar dificuldade alguma.

"Ele e Inuyasha têm um temperamento parecido" pontuou, se dissesse em voz alta o veria soltar fumaça pelo nariz e pelas orelhas. Segurou outro riso e outro comentário em nome da boa convivência.

Em pouco mais de meia-hora, Kouga a deixou em seu destino. Não era bem um vilarejo, e sim uma cidadezinha bastante iluminada. Annabelle se animou, acreditou que faria um bom dinheiro ali e recuperaria pelo menos uma parte do que perdera.

— Boa sorte, ele disse a friccionar uma mão na outra, limpando-as adiante você encontrará alguns cavalos por um preço especial.

— Agradeço mais uma vez. o reverenciou respeitosamente, e sem querer inflou-lhe o ego. O príncipe da tribo colocou uma mão à cintura e jogou o rabo de cavalo para o lado. Espero não ter atrapalhado a sua jornada. fingiu ignorar a pose dele.

— Ah, de jeito nenhum, estou mais perto de derrotar o Naraku do que nunca! alegou cheio de confiança. A ocidental ergueu a cabeça e o fitou com atenção.

— É mesmo? demonstrou interesse.

— Sim, além dos meus fragmentos, agora tenho uma arma poderosa. ergueu uma das mãos e estalou cada dedo, dobrando e esticando-os.

"Mais um a querer acertar contas com Naraku" com o coração ainda mais apertado, devaneou sobre a desavença enquanto o via partir numa corrida tão veloz que levantava poeira. "Inuyasha, Kagome, Sango, Miroku, Sesshoumaru, Kikyou, Kohaku e Kouga... são tantos, e cada vez mais fortes e perseverantes..." os lábios se comprimiram. "E eu, Naraku, mesmo sem querer, deixei a minha contribuição".

Com aquela angústia a dilacerá-la por dentro, Annabelle cobriu-se toda – como costumava fazer ao visitar qualquer lugar – e procurou por estadia. Conseguiu algumas sacolas para guardar suas coisas e improvisou uma espécie de carrinho de madeira para transportá-las. Arranjou um jeito de fazer a sua performance na casa de chá que ficava no centro, e como lhe foi mais lucrativo do que o normal, optou por ficar lá por uma semana pelo menos.

Conforme o tempo passou, ela conseguiu quantia suficiente para comprar um cavalo decente, e também tecido para fazer roupas novas. Tudo ia bem... quer dizer, bem, na medida do possível, até que em uma noite ela teve um sonho deveras esquisito:


Kikyou?! — contemplou a imagem da sacerdotisa a cintilar esbranquiçada à frente, como uma alma penada. Os cabelos negros, soltos, revoavam como uma cortina de veludo e a moça sorria, estranhamente calma.

Eu cumpri minha missão, enfim. — contou.

Naraku está morto?! — exclamou espontaneamente.

Não... ainda não. Mas estará em breve, ele já não tem para onde correr. A minha outra parte tratará de terminar o que comecei. — e então ela começou a desvanecer.

Não, espere! Kikyou! — ergueu o braço, tentou alcançá-la e tocou o vazio. A ausência da sacerdotisa deixou tudo escuro ao redor.


— Kikyou! despertou arfante e suada. Olhou para cada canto que a rodeava e viu-se no pequeno quarto que alugara. — "Foi só um sonho?" — Não, era mais do que uma fantasia, sabia. Era uma mensagem! Sentiu que a presença da antiga protetora da Joia desaparecera mesmo do mundo, sentiu também que Naraku tinha algum envolvimento nisso. — "Ele está vivo..." — afagou a própria garganta, arranhada depois de gritar o nome da vida passada de Kagome. Em parte, um forte luto a esmorecia, em outra um alívio estranho a acalmava.

Assim que amanheceu, ela reorganizou seus pertences, selou o cavalo e foi-se sem direção certa.
Annabelle fechava os olhos, respirava fundo, como se assim pudesse sentir qualquer resquício de presença dele. Estava a procura de Naraku? Não podia acreditar em si mesma! Depois de todo o esforço para se fazer o mais longe possível dos conflitos entre ele e suas inimizades, ela estava novamente se metendo onde não era chamada.

Ora, mas se não fosse realmente chamada, por que ele apareceria à sua frente, e com um aspecto tão sombrio e enraivecido?

O cavalo freou tão bruscamente que as patas se enterraram na terra escura. O susto quase o fez empinar, a carroça sacolejou-se toda e por pouco não tombou para o lado. Anna meteu a cara para fora, e tão logo o viu, baixou a manta a cobrir-lhe a cabeça.

— Naraku! mirou-o arfante. Outra vez, ele estava diferente. As alegorias da vestimenta eram outras, mesmo o olho no tronco dele sofrera mudanças. Já não havia tantos espinhos a contorná-lo, apenas pinças semelhantes a quelíceras de aranha que surgiam de suas costas e se elevavam aos ombros, seguindo qualquer comando que ele desse. Seria mais uma de suas evoluções? Uma certeza ela tinha, o hanyou estava mais forte e a Joia, ainda mais enegrecida.

Nenhuma sensação ruim a fez desistir de descer de seu meio de transporte e parar diante dele, um de frente para o outro.

— Você a matou dessa vez, não foi? Você realmente a matou... triste e assustada, apertou a saia com as duas mãos, engoliu o choro e se encolheu.

— Sim, Kikyou finalmente está morta. revelou sem qualquer emoção.

— E Kohaku? mal respirou antes de perguntar, e quando se deu conta quase se entregara.

— Kohaku, ah sim... ele inspirou e expirou vagarosamente estou perto de conseguir obter o fragmento que sustenta a vida dele, é o último que resta.

— Não! deu um passo à frente, o coração a pular pela boca. Não toque naquele fragmento!

— O menino morrerá, é o seu destino. ainda na mesma calmaria suspeita, se pronunciava.

— Ele não morrerá, Naraku. engoliu seco, quis parar por ali, mas quando deu por si já estava a revelar o segredo de Kikyou Você sim, será purificado!

Um sorriso soturno rasgou-se na face dele, em um pulo o hanyou se fez tão próximo da humana que sua sombra a cobria por completo.

— Pensou que eu não descobriria nunca, não é? a mão agarrou o pescoço da escocesa e os dedos o apertaram. Acha mesmo que me falar isso agora muda alguma coisa? Antes de a maldita Kikyou morrer, os pensamentos dela estiveram conectados com os meus através das minhas teias. Eu sei de tudo, Annabelle. o nariz tocou o dela, enquanto os olhos azuis rolavam para todos os lados, os dele cravavam-se como dois rubis pontiagudos nas feições dela. Acharam que poderiam me purificar com o fragmento de Kohaku, mas me subestimaram. Se eu consegui manchar o seu fragmento, consigo corromper qualquer um. Nem mesmo a vontade da sacerdotisa Midoriko foi capaz de se sobrepôr à minha energia demoníaca. e riu, tão taciturno que arrepiou cada fio de cabelo dela Devo admitir que você aprendeu alguma coisa comigo. Nunca imaginei que seria adepta ao cinismo. o hálito dele soprava na pele empalidecida da moça que abria a boca em busca de ar. Os pés dela, aos poucos, deixaram o chão conforme seu corpo foi suspenso. Não era a primeira vez que se via naquela situação, contudo, Naraku já não era o mesmo de outros tempos, se ele tivera a capacidade de assassinar Kikyou, poderia muito bem se livrar dela ali mesmo.

E que propósito ela tinha na vida? Antes de conhecer Hitomi, Annabelle vagava sem rumo, seu objetivo era fugir de Ailyn. Agora a irmã estava longe e segura, brindada com uma nova vida. Nem mesmo a fuga servia como razão de viver. Enquanto estivesse ligada a Naraku, a sua cabeça estaria a prêmio ainda que indiretamente, e por isso ela não poderia se apegar a ninguém, ou essa pessoa também estaria em risco. O que ela fazia ali, então? Morrer, no fim das contas, seria um prêmio. Principalmente, morrer antes dele.

Os olhos se fecharam devagar, ela sequer fez menção de agarrar o braço dele, os dela balançaram conforme mandava o vento frio.

— Me perdoe... foi tudo o que ela disse, num sussurro quase inaudível. Pedia perdão não só ao meio-youkai, mas também à sacerdotisa sacrificada, por ter traído a sua intenção. Mas aquele turbilhão dentro dela se fortalecera tanto a ponto de não mais conseguir controlar.

— Por que não reage? a sacudiu, afrouxando o aperto aos poucos. A cegueira causada pela raiva começava a se findar.

— Faça logo, não me torture mais! espremeu os olhos e rangeu os dentes.

— Não! vociferou e a largou no chão, a cambalear. As mãos tremiam de nervoso. No fim das contas, apesar de se sentir traído, não tinha coragem para ceifar a frágil vida daquela humana.

— Faça. ofegante, com os cabelos arrepiados a cobrirem um dos olhos, ergueu o rosto e o encarou. Ele estava tão atormentado quanto ela. Faça! gritou e espalmou uma mão ao ombro dele Faça! repetiu e passou a empurrá-lo com as duas mãos – a tentar – porque o corpo dele era uma rocha que pouco se balançava para um lado ou para outro.

— Não, Annabelle! conteve as mãos dela entre os dedos fortes. A tristeza e a ira no olhar celeste o desestruturavam e num repente a alma dele se sacudia dentro da carapaça.

— Por que você não acaba com o meu sofrimento de uma vez, como fez com ela?! bradou incontrolável, entre soluços e rosnados. O pranto já lhe rosava a pele.

— Eu não entendo você, está livre para viver a sua vida, o que mais pode querer?! segurou-a pelos ombros, amassando as mangas bufantes do vestido azul. Annabelle riu amarga dentro do choro. O que você quer, mulher?! ele insistiu, a falar ainda mais alto, destemperado.

— Que merda! a escocesa praguejou, tirando as mãos dele de si para poder se afastar e enxugar os olhos, de costas para ele. Merda, Naraku! abraçou a si mesma.

— Por que ajudou Kikyou? perguntou, um pouco mais compenetrado. Em seu timbre, porém, a mágoa pelo ato dela reverberava sutil.

— Eu ajudei Kohaku, o menino não merece morrer por conta das suas crueldades! roçou os dedos nos olhos mais uma vez. Me desculpe! respirou fundo e cobriu o rosto com as duas mãos.

Então, o coração readquirido pareceu parar subitamente. Um inverno gelado revirou dentro do ventre dele, dilatando os olhos da face e o do tronco.

— Eu matei o homem a quem você amou, matei a sua irmã, que era sua única família neste mundo... enumerou conforme se aproximava outra vez e você me pede desculpas? virou-a de frente para si apenas com um movimento, segurou-lhe o rosto para poder olhar profundamente em seus olhos e encontrar qualquer tipo de fingimento. Viu apenas sofreguidão e remorso dentro das duas piscinas O que há de errado com você? mesmo aborrecido, afastou as ondas alaranjadas da moldura, atentou-se a cada feição dela que mudava de acordo com o seu toque, fosse violento ou gentil.

— Eu não sei! tocou as mãos dele, subiu as palmas pelos braços adornados por armadura, depois pelos ombros largos e fortes, cobertos por tecido nobre. Há tanta coisa errada dentro de mim que não sei por onde começar... os dedos alcançaram o rosto dele, afagaram as bochechas frias e enrolaram-se nas madeixas negras que desciam por cima das orelhas e atingiam o peito eu só sei que ao vê-lo aqui, diante de mim, mesmo sofrendo pelo destino de Kikyou, me senti aliviada por saber que você está vivo! a voz embargou Mas eu sei que isso não vai durar, que cedo ou tarde eles o cercarão e o derrotarão, e eu não tenho o direito de ter rancor deles por causa disso! uma palavra atropelou a outra e ela chacoalhou tanto a cabeça que ele teve que pressionar ainda mais as palmas contra as maçãs dela para aquilo parar.

— Por que se importa? Isso não é mais assunto seu. encostou a testa à dela, o seu modo de falar podia ser duro, todavia os gestos contradiziam o tom.

— Não é como se eu pudesse controlar isso Naraku! Acha que eu não repito para mim essa mesma frase todos os dias? Eu simplesmente me importo! Eu não quero que você sofra, não quero que você morra! enterrou os dedos por baixo dos cabelos dele, puxando a cabeça para perto.

— Piedade, o que sente é piedade, Annabelle, sempre foi. desgostoso, desdenhou Eu não preciso disso, ainda mais num momento como esse, em que estou tão perto de atingir o meu objetivo...

— Que objetivo? Que porcaria de objetivo Naraku?! Isso não faz sentido nenhum! É uma ilusão! os narizes resvalaram novamente, um prensado contra o outro.

— O que vivemos, sim, foi uma ilusão. Por alguma razão você quer se apegar a isso, mas a verdade despida de toda e qualquer mentira é que tudo o que vivemos não passou de uma fantasia. as bocas quase se esbarravam, as respirações se misturavam e embora Naraku proferisse um discurso tão desesperançoso, os olhos dele rolavam, quase fechados e o timbre passava de severo a chiado, baixo, como um lamento. Eu não passo de uma lembrança do seu querido Hitomi... era com ele que você deveria estar ago... ela não o deixou terminar. Hmmm! o hanyou grunhiu ao ter a boca envolvida pela dela e a nuca enlaçada por um braço.
Annabelle não queria mais ouvir, as mesmas dúvidas dele a cercavam, também não saberia dizer se fixava-se apenas numa ideia ou em algo que existia, se estava obcecada por algo que gostaria que pudesse acontecer e ao mesmo tempo não tinha capacidade para experienciar, por já estar tão despedaçada por dentro. Ela deu a entender a Naraku que por pouco ele não conseguiu tê-la, e que a oportunidade fora única e desperdiçada. Contudo, naquele instante, esquecida de qualquer orgulho ou de qualquer mágoa, ela o agarrava e sua língua dominava a dele em giros velozes, vorazes. Sugava-lhe os lábios com veemência, necessitada de sentir a textura e o gosto do beijo dele. Ele a abraçou, quase a lhe partir a cintura ao meio, e as pinças de aranha cruzaram-se ao redor dela. A ocidental não demonstrou qualquer traço de medo ou de asco, pelo contrário, uniu os corpos, totalmente alheia ao grande olho que se revirava fechado em todo o tronco do meio-youkai. Focava-se apenas em degustá-lo até o talo, e os ouvidos inebriavam-se com os gemidos graves que escapavam, a misturarem-se com os doces e agudos dela. Dessa vez, não havia fragmento como pretexto para os desejos que se revolviam dentro dela. Conforme os corpos se atritavam e eles mordiscavam a boca um do outro, ela se sentia arder e sabia que o cheiro de sua volúpia alcançava as narinas dele. Mais um pouco daquela devoração e Naraku perderia o juízo. O hanyou apartou as bocas de súbito, encararam-se ofegantes.

— Se isso é uma ilusão, por que me pareceu tão real? Annabelle perguntou, tentando controlar a respiração e o coração acelerado. Suas mãos insistiam em percorrer a face, agora morna, do aracnídeo. O silêncio dele era prova de que não saberia responder, nem por ela e nem por ele. Então, ela prosseguiu: O fim não demorará a chegar, eu sinto... ajeitou a franja dele para trás.

— Não, não demorará. fechou os olhos, resignado.

— Eu quero estar com você uma última vez, antes de tudo acabar. disse em tom de súplica, afagando os lábios ainda rosados pelo beijo. Se eu não posso fazê-lo mudar de ideia, me dê ao menos esse consolo.

— Por que insiste nisso? tomou a mão que o acariciava e a beijou demoradamente Sabe que não passa de uma mentira...

— Sabe aquela caverna onde passamos uma noite, antes de tudo voltar a desandar? não deu trela à pergunta e nem à sentença dele.

— Ah, sim... suspirou eu lembro bem. sorriu sutil e discretamente melancólico.

— Não fica longe, em dois dias chego lá.

— Aonde quer chegar com essa estória? cético, meneou a cabeça.

— Eu disse a você, sei que se lembra, que certa vez você quase me teve. Não foi em seu castelo, e sim naquela caverna, na época em que eu não sofria nenhuma influência de fragmento da Joia. Lá dentro, eu abri o meu coração para você, Naraku. Eu quis amá-lo. acarinhou os cachos que se formavam à nuca dele, encarando-o nostálgica e terna. Ele sentiu como se cada dizer daqueles o desarmasse e sugasse suas forças. Ela tinha razão, ele se lembrava tão bem que poderia reviver o momento em detalhes. O precioso momento que ele estragou. Após recuperar o ar, ela continuou: Eu só quero estar lá com você mais uma vez, quero entender o que se passa dentro de mim agora que a Joia não pode mais controlar os meus sentimentos ou os meus instintos. Eu preciso descobrir se isso é realmente uma mentira tão convincente, ou se é uma verdade que não quero aceitar.

— Annabelle... murmurou rouco, refém da própria fraqueza.

— Você pode me encontrar lá daqui a dois dias? segurou-lhe as mãos com carinho.

— Eu irei. e rendeu-se. Ainda que seu corpo fosse indestrutível, o coração, que já estava guardado dentro do peito, caía por ela, bastava que o olhasse assim, com a ternura do tempo em que a sordidez dele ainda não a tinha atingido. Naquele fim de tarde, os ecos da antiga Annabelle ressoaram vívidos nas atitudes, nas expressões e no sorriso que agora se formava no rosto dela, colorido pela esperança, mesmo depois de tudo.

Pouco a pouco, eles se afastaram, as mãos enfim se desentrelaçaram. A ocidental voltou à carroça, e o hanyou flutuou pelos ares dentro de sua bolha protetora.

Depois de todos os crimes que ele cometera – os que ela sabia e os que não tomara conhecimento – a humana dera-o a chance de ao menos se despedir. Não era seu maior desejo, mas já era alguma coisa.

A ansiedade os preencheu durante o tempo em que estiveram separados. Em um período de dois dias, os dois só conseguiram pensar no encontro que combinaram. O mundo poderia estar a se desfazer, guerras a serem travadas, o cerco poderia estar a se fechar cada vez mais, os gritos das inúmeras almas dentro da Joia poderiam entoar o seu miserável refrão, e tudo o que importava era que estariam juntos mais uma vez, nem que fosse a última.

Continua...


Capítulo com direito a participação do Kouga! Lobinho mais lindo de todos!
O explorei muito pouco aqui, sei disso, infelizmente o Kouga não fazia mesmo parte da proposta, mas espero que tenham curtido essa pequena contribuição. O foco sempre foi o Naraku. Quem sabe em outro projeto eu não elabore os outros personagens um pouco mais?
Aqui termina os feitos de Kikyou também, o destino dela não foi muito diferente do da série. Acho que não poderia ser diferente, por um lado a morte dela me entristeceu, por outro me aliviou porque ela finalmente pôde descansar.
O que acharam? Se vocês estão com saudades de cenas quentes entre Naraku e Annabelle, acho que vão amar o próximo capítulo... :X
Obrigada a todos e uma ótima semana!
Kissuuuuuuus!