Capítulo 43 - Verdade

"Perdoe-me Kikyou, mas eu preciso... preciso estar com ele." — Annabelle lamentou apenas em pensamento, a remoer a morte da sacerdotisa e a promessa que fizera a si mesma de não dar mais nenhuma chance ao azar. O cavalo trotava veloz, e se ela fechasse os olhos, podia vislumbrar a entrada de pedras da gruta. No tempo estimado, ela chegou ao local de encontro e parou diante da porta de um paraíso esquecido.


— Ela já está lá. — Byakuya alegou da escada do porão.

Naraku, sentado no centro daquela saleta engolida pelo breu, abriu os olhos e respirou fundo.

— Foi por ela que me mandou fazer aquelas coisas esquisitas, não foi? — o servo perguntou ligeiramente provocativo.

— Saia. — o hanyou-aranha ordenou severo, de costas para ele e já ereto.

— Tá certo, entendi, não é para tocar no assunto! — abanou as mãos e subiu os degraus até sumir pela porta.

Naraku já não tinha o espelho de Kanna para espiar o mundo afora, só podia contar com seus insetos e o olho de Byakuya, mas depois da pergunta inconveniente, não procuraria por sua sombra para pedir qualquer coisa referente à Annabelle – não tão cedo.

Fechou as mãos e encorajou-se, estava na hora.


A escocesa deixou a carroça estacionada ali perto e entrou vagarosamente naquele poço de lembranças confortantes e dolorosas. A primeira coisa que viu foram restos de pedaços de madeira chamuscados no chão. Perguntou se ainda eram os que foram usados na fogueira que a aqueceu, ou se depois dela outra pessoa esteve lá. Preferiu acreditar na primeira hipótese. Abaixou-se em frente aos poucos gravetos e suspirou, de olhos fechados. Lembrou-se de Naraku sentado ao seu lado, do barulho da chuva, da conversa que tiveram e dos carinhos que dividiram.

Uma sombra encobriu a fraca luz solar, já escondida por trás de nuvens. Anna se ergueu e virou de uma vez só. Era ele, e mais. Por alguma razão, o usurpador de Hitomi trajava seu antigo quimono arroxeado, cheio de bordados. Por cima, a mesma manta branca de babuíno que cobria Annabelle.

Até o último momento ela temeu que Naraku fosse desistir, que o medo o paralisaria e ele não daria as caras. Preparava-se para uma terrível frustração, eis que o viu, elegante como um senhor feudal, com os cabelos presos ao topo da cabeça, ondas esparramadas por cima dos ombros. E ela, por sua vez, vestia por baixo da manta um vestido azul muito semelhante ao que costumava usar quando vivia no castelo do pai de Kagewaki.

— Você veio... — de repente, a ocidental reparou que se encontrava em situação semelhante à dele, há tempos atrás, quando o híbrido marcou um encontro com ela em uma espécie de cabana suspensa, Naraku pareceu tão surpreso pela escolha quanto ela estava com a dele agora. Sorriu sem perceber, os lábios tremiam nervosos enquanto sustentavam aquele sorriso.

— Sim. — o hanyou também era observador e tinha boa memória, mas pensava em outras lembranças. Especificamente naquelas do dia em que habitaram a gruta. Em passos lentos, foi chegando perto. Ainda sem entender muito bem o que fazia lá, afagou os ombros cobertos por pele de primata e ajeitou as ondulações acobreadas para trás.

Annabelle recostou a cabeça no peito dele e fechou os olhos assim que ouviu as batidas, aí sim teve certeza de que ele estava ali por inteiro, e que também já não seria difícil para seus inimigos o exterminarem. Angustiada, ela segurou as bordas do quimono e subiu as mãos até a gola, enfim elevou a cabeça para poder olhá-lo nos olhos.

— Eu decidi que não renegaria mais o meu coração. — sabendo que ela percebera, revelou.

— O que mais você desistiu de renegar? — perguntou estremecida.

Naraku perpassou os dedos pelo canto do rosto dela, pela bochecha, e então cativou-lhe o queixo. A estrangeira, a procura de se concentrar naquele momento e esquecer por algumas horas o passado, o presente e o futuro, fechou os olhos e entreabriu os lábios. A princípio, a boca dele se esfregou na dela com suavidade, logo o ápice molhado da língua do aracnídeo desenhou cada contorno e ele começou a sugar-lhe os lábios, tortuosamente vagaroso. A respiração dele adentrava pelas narinas e pela boca dela, morna e pesada. Annabelle mordeu de leve o lábio inferior dele e o puxou, a própria língua tocou a dele bem de leve, mas o híbrido enrolava para aprofundar aquele beijo, e quando ela fazia menção de tomar a iniciativa, ele afastava os rostos. Seria temor ou provocação?

— Naraku! — enlaçou o pescoço dele, aproximou o rosto com tudo de si e o meio-youkai a impediu a pousar os dedos sobre a boca rósea, afagando-a.

— Para que a pressa? Deixe-me apreciar esse momento... — amassou os beiços entumescidos com o polegar, a esbarrar os narizes.

— Estamos separados há tanto tempo... — choramingou enquanto alisava a nuca dele.

— Não há fragmento algum para deixá-la afobada, Annabelle. — os lábios passearam pela maçã do rosto dela e alcançaram a sua orelha. — Não pode usar a Joia como desculpa dessa vez, comporte-se.

— Não quero falar sobre Joia de Quatro Almas, e nem quero me comportar. — os olhos reviraram, Belle esticou os braços e a pele de babuíno caiu de cima do corpo, para igualá-lo a si, puxou a que o cobria e desvendou o belíssimo quimono.

— Você é impossível... — riu ameno e provocativo. Para ela deveria ser difícil fingir que estava tudo bem e que aquela era uma situação trivial, porém, para ele fazia parte do enredo. — Sente-se. — orientou, e ao mesmo tempo pousou as mãos nos ombros frágeis, induzindo o movimento. Sentaram no chão juntos. Encararam-se, enfim sem risos ou tentativas de se esquivarem um do outro.

— Quanto tempo se passou desde que estivemos separados? Um ano? — Anna perguntou.

— Um pouco mais. — sereno, fez rapidamente as contas.

Pensou em perguntar a ele o real motivo de tê-la mandado embora, contudo não queria estragar o encontro que sugeriu por si só. Suspirou, saudosa e ligeiramente angustiada. Prevendo que ela desviaria o olhar, Naraku segurou o queixo delicado mais uma vez, e olharam-se pesarosos, a humana era quem mais se demonstrava sentida.

— Você mudou tanto... — ele comentou, consciente de que qualquer transformação para pior fora ofício dele. — Lembro da primeira vez que a vi na floresta, de sua aura cálida e gentil.

— Você mudou também. — não se estendeu, pois sabia que comentar a evolução dos sentimentos do araneídeo poderia trazer problemas. — Mudamos juntos.

— Juntos... — sorriu brevemente, não por alegria e sim por simples e puro desdém.

— Você estava certo. — afirmou subitamente.

— Hum? — um pouco confuso, Naraku piscou os olhos carminados.

— Mesmo antes de você colocar aquele fragmento em mim, eu quis você. Essa atração que eu sinto por você começou muito antes de qualquer influência daquela pedra, eu nem lembro bem quando. Não queria assumir, mas eu sabia. — respirou fundo, era difícil admitir algo tão secreto, e havia tanto mais...

— Você disse que não queria falar sobre a Joia, Annabelle. — mesmo desconcertado com a revelação da estrangeira, ele manteve a postura austera.

— Sim, é verdade, mas quero que saiba disso. — segurou as mãos de Naraku sobre os joelhos, os olhos vidravam-se nos avermelhados.

— Do jeito que fala, parece acreditar que eu vá morrer amanhã. — riu-se, o deboche ainda lhe caía bem, fazia parte do seu charme.

— E você pode. Se não for amanhã, pode ser depois, sei que não demorará muito. — apertou os dedos longos e tesos entre os dela.

— Não me subestime. — e então o escárnio deu espaço à zanga — Aqueles idiotas não me derrotarão tão facilmente!

— Eu sei, não será fácil, mas é inevitável e você sabe.

— Se me chamou aqui para isso, acho que já é hora de eu ir embora. — levantar-se-ia imediatamente, contudo, o peso dela sobre si o impediu. Annabelle sentou sobre as pernas dele e o abraçou com firmeza, a repousar a cabeça em seu ombro e a afagar as madeixas presas em um rabo-de-cavalo alto.

— Me desculpe, não vá... — murmurou ao pé do ouvido do ceifador da vida de Hitomi — Fique comigo, — sugou levemente a cartilagem sensível — por favor. — e cochichou novamente. Não se compreendia, deveria detestá-lo, se não fosse ele a perecer seriam outras pessoas também benquistas por ela. O corpo no qual se abraçava era o de um assassino frio, contudo, a pele era morna e, o cheiro das ondulações escuras, embriagante. A ânsia por ele, por estar em seus braços, serviu como bússola. Queria-o entregue, não o permitiria escapar de suas mãos tão cedo. O ápice da língua arrastou-se delicadamente na garganta eriçada que esticava em resposta.

— Annabelle... — disse o nome em um gemido sutil, as mãos desapercebidas perpassavam pelas costas e experimentavam o tecido azulado por baixo das largas mechas afogueadas.

Surtira efeito, a humana observou. Por isso, desceu o rastro de beijos pelo pescoço pálido, até chegar à clavícula. Teve de afrouxar o obi para poder abrir discretamente a gola e experimentar aquele trecho dantes coberto. Uma mão, esperta, adentrou a fenda da roupa dele e afagou-lhe o peito afoito.

Ouviu-o dizer seu nome mais uma vez e não deu importância para o apelo, passou a língua pela pele e relembrou o gosto que tanto apreciava. Já o livrara do adorno superior do quimono – uma espécie de colete em um tom púrpura mais claro. O torpor o fez inclinar-se para trás, eis que de supetão ele a segurou pelo cabelo e a fez sentar de costas para si, encurralando-a entre as pernas. A ardência no topo da cabeça arrancou um grito da boca rosada, então, com uma mão Naraku segurou as duas dela rentes à lombar envergada. Annabelle cerrou os olhos ao passo de que ele afundou o nariz e a boca no seu pescoço, desesperado pelo cheiro. Com a mão livre, levantou cada camada daquela saia enorme, afastou facilmente as coxas dela e perpassou os dedos pela brecha molhada e quente.

— É isso o que você quer? — sussurrou roucamente, a boca colada na orelha da mulher. O corpo dela estremeceu, as mãos sequer relutaram para se soltarem. O clitóris palpitava conforme o indicador do hanyou o circulava e massageava, a alternar a velocidade e intensidade do toque atrevido. Logo que o botão ficou inflado e febril, e a entrada dela encharcada e pulsante, o dedo médio a adentrou sem reservas e girou para os lados, submerso em quentura, tateado por paredes gulosas. Anna mordeu o lábio inferior e mesmo assim os gemidos se libertavam ferozmente. O controle sobre as próprias articulações se perdeu e ela toda se tremeu.

— É isso o que você quer? — Naraku perguntou outra vez, incisivo, a mordiscar a bochecha dela. Os dedos, cada vez mais velozes em seus movimentos, não tinham pena.

— Você! — virou o rosto e as bocas se atritaram — Você é o que eu quero! — e o beijou sem aviso, lambuzando-o todo de paixão com os lábios de cima e com os de baixo. Ele ainda sabia exatamente como e onde tocá-la, o orgasmo a aplacou como se eletricidade perpassasse o seu interior, Belle quase sentia os choques, todo o seu ser vibrava.

Naraku testemunhou os espasmos e controlou os ímpetos, a sua vontade era devorar cada trecho daquela mulher, os feromônios dela quase o entonteciam. Era impossível não se lembrarem das cópulas tórridas que tiveram, dos corpos a balançarem em conjunto, assim como era impraticável não ansiar por reviver cada fetiche.

O gosto ainda era doce, ele notou ao sugar o néctar translúcido dos próprios dedos. Distraído, soltou as mãos dela e sem demora a europeia virou-se de frente para ele, a envolver-lhe a cintura entre as pernas. Enquanto buscava recobrar o fôlego, Annabelle soltou os cabelos escuros com todo o zelo e os arrumou ao redor dos ombros fortes e desnudos. Então, ela terminou de desamarrar a faixa e enfim o despiu até a cintura. Os dedos o afagaram do peito à barriga, as unhas a roçarem-se na pele que parecia seda, mas era mais rígida do que diamante. Naraku, em contrapartida, começou a desamarrar as fitas do vestido dela. Ele tinha uma agilidade única para desfazer aqueles nós, talvez por terem convivido tanto tempo e por tantas vezes repetirem aquele ritual.

— Se soubesse como tive que me conter para não atacá-la naquela fonte termal... — o meio-youkai comentou enquanto trocava beijos estalados com a escocesa.

— Obrigada pelo cuidado. — agradeceu-o sem cessar o encontro das bocas.

— Eu nunca fui tão zeloso com alguém, Annabelle... — tornou a marcar aquele pescoço com sucções e lambidas. Sem perceber, estava se confessando. — Nunca quis tanto alguém... — mordeu o ombro enquanto baixava a manga da túnica branca que a cobria.

— Eu estou aqui, com você. — acarinhou as ondas escuras à nuca, abraçada a ele com firmeza.

— Por pena? — arfante, a descer e subir a língua entre os montes empinados, ousou perguntar.

— Ouça-me, — embora não quisesse que aqueles beijos quentes sofressem qualquer pausa, segurou-lhe a cabeça e o forçou a olhar em seus olhos — se o que eu sinto por você fosse meramente piedade, jamais estaríamos assim.

Naraku, apesar de envergonhado pelo lampejo de vulnerabilidade, sorriu e uniu as bocas mais uma de muitas vezes.

Ah, sim, o beijo dele era único, o toque tinha tamanho efeito sob ela, quase como um sedativo para os pensamentos ruins. A presença dele em sua vida acabou por se tornar uma espécie de válvula de escape, desde que se habituara a dormir ao lado dele, as suas noites de sono foram mais proveitosas, e quando se separaram, era um martírio não tê-lo ali, ao lado, para abraçá-la, para lhe ceder o peito como apoio. Só de pensar em viver em um mundo onde ele não existisse, o peito comprimia agoniado. Enquanto ele tornava a beijar-lhe o seio e apertar outro, Annabelle se dividia entre excitação, saudade, temor e epifania.

"Eu o amo" — aquela era a sua verdade secreta. Enrolou os dedos nas ondas negras com força. A língua molhada circulou um mamilo dela e a boca desejosa o sugou. Uma lágrima escorreu por um olho enquanto um gemido contido entalou na garganta.

— Eu a machuquei? — olhou-a e cessou o que fazia.

"E ele me ama, eu sei" — concluiu não só por ver preocupação nos olhos vermelhos, mas por avaliar tudo o que viveram e mesmo os gestos mais sutis do hanyou.

Se era amor correspondido, por que doía tanto? E por que era tão difícil contar sobre seus sentimentos para ele? Seria por conhecer que destino ele teria? Ora, se sabia que teriam pouco tempo juntos, essa era a hora de se confessar!

Eram os atos cruéis que ele cometera. Cada atrocidade maquinada por Naraku a impedia de aceitar amá-lo, e tampouco dizê-lo em alta voz, como se fosse maior pecado ter um sentimento real do que simplesmente se deitar com ele para saciar a luxúria.

— Annabelle? — suave, a chamou e acariciou o rosto molhado.

"Eu te amo, Naraku" — pensou no que queria dizer, e foi só. Levantou-se, quieta, pegou a manta de babuíno e a estendeu sobre o chão pedregoso. Com a mão, indicou para que o meio-youkai se sentasse ali, na superfície confortável, ao seu lado. Ele foi, ainda que confuso, e sentou de frente para ela. A forasteira, sem dar um pio, começou a puxar a calça dele para baixo. Naraku ajudou a movimentar as pernas. Delicada, ela o livrou das meias e das sandálias.

— Você é tão bonito... — suspirou a contemplá-lo inclinar o corpo e jogar o cabelo para trás.

— Venha aqui. — risonho (afinal, quem não gosta de um elogio?), ergueu-lhe a mão. Anna não protestou, assim que os dedos se encontraram ele a puxou para perto e repetiu seus atos. Sem pressa, a ajudou a se desfazer da túnica branca, das meias, das botinas e finalmente ficaram os dois nus, abraçados, a se aquecerem. O falo rijo esbarrou-se à virilha dela, e os olhos escarlates fixavam-se na mocinha cheios de expectativas.

Annabelle pôs as mãos sobre o peito da aranha e a incentivou a deitar.

— O que pretende? — curioso, perguntou a arquear uma sobrancelha e a sorrir galante.

— Darei o que você merece. — sem risos e sem piscadelas, afirmou.

— Oh, mal posso esperar... — brincou, com o timbre grave e sedutor.

Então, a viajante de terras distantes o encurralou entre as pernas e tomou-lhe os lábios em outro beijo intenso e sufocante, retribuído à mesma altura. Antes que os fôlegos se perdessem, ela liberou a boca sedenta, para degustar o queixo tão bem-talhado. Desceu pelo pescoço, desenhando círculos com a língua e sugando trechos de pele eriçada. Naraku fechou os olhos e grunhiu entredentes, uma mão a apertar a manta abaixo de si, a outra a afagar a cabeça alaranjada. Anna prosseguiu, por onde as unhas arranharam, marcas pouco duraram, a capacidade de regeneração dele era tamanha que não importava o que ela fizesse, a pele alva permanecia intacta. O prazer, no entanto, não adormecera nem um pouco. Ele sentia cada pontada, cada lambida. Cada vez que os dentes dela raspavam em seu peito e depois em sua barriga, estrelas pareciam cintilar no teto daquela caverna. A língua da descendente das Fadas, ao contornar o umbigo, o fez contrair o abdome e virar o rosto para o outro lado. Finalmente, após quase um século a tentá-lo com aquela trilha percorrida tão lentamente, ela segurou o membro latejante em uma mão e sugou a glande rosada. O aracnídeo se contorceu em resposta. A humana lambeu com vigor desde a ponta até a extremidade do sexo dele, e assim que o melou todo com saliva, começou a mover a mão que o segurava para cima e para baixo, ao passo de que sua boca tomou posse do ápice inflado e o sugou cheia de vontade.

— Annabelle! — quase urrou aquele nome, a outra mão lhe massageava as bolas, arrepiando a pele frágil que as envolvia. Enquanto isso a glande era pressionada entre a língua e o palato da escocesa incessantemente.

Querendo mais, Naraku empurrou a cabeça dela para baixo e seu membro entrou ainda mais fundo dentro da cavidade bucal. De início, Belle quase engasgou. Entretanto, assim que conseguiu controlar a respiração, se acostumou com a invasão e tornou a sugá-lo com a mesma ânsia. Com as mãos, ele a ajudava a manter o ritmo e assim o regojizo do mestiço se prolongou até que não aguentasse mais.

Após sabe-se lá quanto tempo, Anna sentiu o líquido se esparramar goela abaixo, a quantidade foi tanta que parte escorreu pelo canto do lábio cor-de-rosa. Ao fim daquela deliciosa tortura, ela o olhou e, simultaneamente, limpou com uma mão os restos que lhe marcavam o rosto.

— Deite-se. — ainda ofegante, ele disse em tom autoritário.

Sem contestar, também com os ares descompensados e lubrificada pelo suor, a Rosa Branca recostou as costas sobre a pele de babuíno. Para sua surpresa, Naraku a segurou pela cintura e num giro a virou de costas para si. A humana olhou por cima do ombro e estava pronta para perguntar o que ele pretendia, e veio o segundo ato: o hanyou a pegou pelos quadris e a compeliu a empiná-los para o alto. Curiosa e um pouco confusa, ficou na posição que ele a deixou e apoiou o próprio peso nos joelhos e cotovelos. Por último, as mãos impetuosas seguraram-lhe as coxas, fazendo-a afastar as pernas e arreganhar-se toda para que ele pudesse abrir seus grandes lábios entre os dedos e ter o vislumbre perfeito de sua porta rósea e pedinte.

Do modo como estava, Annabelle não conseguia enxergar bem o que acontecia, todavia pôde ouvir um riso breve e charmoso, seguido disso uma sensação a fez tremer-se toda: algo molhado e macio contornou a fresta e desceu até o botão ainda sensibilizado pelo gozo de outrora. Manter o corpo firme foi tarefa árdua, pois cada vez que a língua dele rolava pela pele em brasa, ela sentia que se desmontaria toda. Ele a lambia com avidez, apertando os trechos inchados e avermelhando-os, adentrando a fresta desejosa e apalpando suas paredes contraídas. O líquido escorria de dentro dela e o meio-youkai bebia cada gota. Os dedos selvagens apertavam-lhe as nádegas com tamanha intensidade que deixavam marcas avermelhadas. A língua, desavergonhada, ousou subir ainda mais e afagar o outro orifício da estrangeira, um dedo chegou a resvalá-lo. Annabelle não aguentou e sua cabeça acabou por afundar-se na manta, os dedos apertavam o tecido, trêmulos. Naraku teve de segurá-la com firmeza para que não viesse abaixo. E ele persistiu a demarcá-la com a boca até que cada fibra dela se sacudisse outra vez. Foi assim que o hanyou a deixou cair deitada, ainda com o quadril ligeiramente inclinado e balançante.

— Vire-se, eu quero que olhe para mim. — a puxou para cima, e ela fez como foi ordenado, porém sem aguentar ficar sentada muito tempo.
Anna se deitou e a cabeleira arruivada se esparramou por cima do branco. Naraku, por cima da silhueta ainda a tremelicar, apoiou-se nos próprios braços e perdeu-se naquela figura docemente entregue. Quase a podia confundir com a mocinha que ele deflorou em uma cabana.

… e depois, na mesma cabana, o fantasma de Hitomi a encontrou e a teve.

O semblante sombreou por instantes, então uma mão terna alcançou-lhe o rosto atarantado e o afagou. De volta ao presente, Naraku suspirou e segurou as mãos dela à altura da cabeça, entrelaçando os dedos.

— O que espera? — a antiga amante perguntou, os olhos em sintonia com os dele.

— Tenho medo de machucá-la, — declarou — entenda, você não tem mais a proteção do fragmento, o seu corpo é humano...

— Quando você me teve naquela cabana, eu também não tinha a proteção de qualquer fragmento. — disse, sem mágoas no tom de voz, mesmo que falasse sobre um assunto tão doloroso. Sequer notara que antes de comentar, o araneídeo já se revolvia em pensamentos sobre aquele evento.

— Era diferente. — soou teso, e foi notado. Fechou os olhos, resfolgou e buscou amenizar o tom — Naquela época, eu não era tão poderoso quanto hoje, nem tinha toda essa carga de energia sinistra e...

— Eu sei que você não vai me ferir. — falou por cima — Não chegamos até aqui para desistir, estou errada? — os olhos dela recaíam sobre ele como o olhar de uma sereia. Sem conseguir escapar do feitiço, o hanyou sentia ser tragado para dentro do azul. E ela erguia a cabeça para cima, pronta para provocar outro choque de lábios sedentos, uma perna resvalava à dele, atrevida. — Eu não tenho medo de você. — doce, ela finalizou, as mãos a apertarem as da aranha. Então, Anna vergou a coluna para a frente para que os corpos esbarrassem e ela pudesse senti-lo outra vez.

Naraku respirou fundo, desacreditado de que estava mesmo vivendo aquele momento. Era preciso muita concentração para que seu youki não se espalhasse pela caverna. A humana lhe despertava os instintos mais primários, aqueles dos quais ele tanto se envergonhava, e ainda assim, ela conseguia fazê-lo os apreciar.

Ele encostou a boca na dela, ambos inspiraram e respiraram no mesmo ritmo, conforme o sexo rijo se esfregava na fenda e se empurrava aos poucos. Annabelle abriu ainda mais as pernas e contraiu cada músculo interior, recebendo-o em gradação, a cada apalpada que levava, Naraku erguia a cabeça para cima e trancava as pálpebras, os gemidos soavam contra a vontade dele, a disputar com os dela.

Enfim, adentrou-se todo naquele mundo quente e acolhedor que há tanto tempo não visitava. A falta que ela fazia em sua vida o deixava sem base, o híbrido mergulhou a face entre o ombro e o pescoço da mulher e essa foi a forma de arranjar forças para começar a mover os quadris para frente e para trás. Anna o ajudou a cruzar as pernas ao redor dele. Em breve, as mãos deles se desencontraram para que Naraku pudesse lhe apertar a cintura e ela, uma vez livre, tateou as costas firmes até encontrar a textura conhecida – a queimadura. Os carinhos recebidos na cicatriz de aranha o incentivaram a remexer-se mais veloz dentro do canal febril. Olharam-se, as testas unidas, e ela afastou os cabelos da moldura para poder deleitar-se naqueles olhos vermelhos – os mais belos e mais marcantes que já vira. Sentiu-se atenuada por aquela cor quente e passional, a única que quis ver a sua frente quando finalmente teve a oportunidade de passar a noite com o homem a quem acreditou ser o único amor de sua vida. Irremediavelmente, pensar naquilo a angustiou e a incentivou a apertá-lo ainda mais contra si. Prensou os seios contra o peitoral rijo e as peles deslisaram uma sobre a outra por causa do suor dela. Beijou o rosto dele todo, e depois lhe tomou a boca com urgência, o próprio aperto de suas pernas ao redor da cintura do hanyou o induziu a intensificar as estocadas, fazendo a manta por debaixo dos dois enrolar-se. Ele podia sentir o limite do abismo dentro da forasteira, se chocava contra aquela parede e Annabelle emitia gritos secos e agudos a cada fricção. Se ele ameaçava ir um pouco mais devagar, ela o apertava outra vez e implorava assim por mais daquela tortura.

Sem o fragmento para entorpecê-la, Annabelle sentia a dor, às vezes prendia a respiração e nesse ato uma outra sensação se misturava com a ardência e quase a enlouquecia. Podia ver ao redor dele a fina camada arroxeada de energia, e Naraku notava a brancura cercá-la. O claro e o escuro se misturavam conforme ele a possuía insaciável. O jeito como ela o fitava em nada se assemelhava com o vazio que durante algum tempo a ofuscara, havia um brilho diferenciado em cada gesto da estrangeira. Seria ilusão? Não queria pensar sobre aquilo, não numa hora daquelas. Já estava prestes a alcançar o seu limite, as unhas das mãos teimavam em se agigantar em garras, então Naraku preferiu cravar os dedos na pele de babuíno para não rasgar a pele dela. O mesmo fenômeno vocal de outrora se sucedeu, a voz do híbrido se misturou com a de todos os monstros que o compunham e ele se derramou dentro dela assim, representado por cada pedaço seu. As patas de aranha, porém, Naraku conseguiu manter armazenadas dentro de si. Os músculos das costas se movimentaram um pouco e pronto.

Annabelle o abraçou forte, sem deixar que se afastasse, conservando o peso dele sobre si. Os dedos afáveis acariciaram os cabelos negros, enquanto o rosto ainda a transmutar de bestial para humano era confortado entre os seios mornos.

Abstraído nos batimentos precipitados dela, Naraku fechou os olhos e os abriu apenas quando a vermelhidão retornara a colori-los.

— Tem outra coisa que você precisa saber... — Annabelle murmurou, centrada no teto da caverna.

"Conte a ele! Conte!" — a consciência implorava para que se declarasse. O hanyou se acomodou, sentado ao lado. A Rosa Branca, mesmo enfraquecida depois de tamanho gasto de energia, imitou-o, ficaram frente a frente a contemplarem-se.

— Diga. — a disfarçar as expectativas, mirou-a enquanto penteava-lhe a franja molhada de suor.

Abriu a boca, e nada da frase sair. Sentia o mesmo aperto, o mesmo temor e a mesma necessidade. Balançou a cabeça, se não conseguia confessar aquele sentimento, ao menos contaria uma coisa sincera:

— Você precisa saber o que aconteceu... — respirou fundo — quando me encontrei com Hitomi.

— Por que quer falar disso agora? — imediatamente se mostrou incomodado.

— Eu preciso que você saiba. — era um jeito de demonstrar o que sentia por ele, já que era incapaz de dizer as palavras pontuais.

— Não quero saber, Annabelle. — virou-se para o outro lado e começou a procurar pelas próprias roupas. Qual era o ponto? Será que ela não percebia que tudo o que ele mais queria era se esquecer daquele episódio desagradável, não só pelo que ela fez, mas pelos crimes que ele cometeu por simples e puro ciúme?

— Eu só conseguia pensar em você! — soltou ao vento. Com o hanyou de costas, era mais fácil.

Naraku, que já começara a vestir a calça, estancou.

— Eu não me arrependo, porque precisava me despedir dele e entender o que era aquilo tudo o que eu sentia. — contou, arfante e encolhida — Mas ao mesmo tempo, foi um pesadelo, era como se meu corpo estivesse ali, mas meu espírito vagueasse longe. Eu só queria estar com você...

— O que está tentando me dizer? — ainda de frente para a parede, ele perguntou.

"Tão sagaz para outras coisas, e não consegue perceber?" — mordeu o lábio inferior e selou os olhos intensamente. Após conseguir recobrar o ar, o abraçou pelas costas a chafurdar o rosto nos cabelos longos e na marca de queimadura.

Naraku afagou os braços dela e segurou as mãos entrelaçadas na altura de sua barriga. Perturbado com os conselhos que sempre ouvia de dentro da pedra e com os seus próprios temores, só conseguia pensar no quanto a despedaçara a ponto de lhe tirar todo e qualquer norte. Até a mais bela lembrança que ela possuía ele maculara. Apesar de os olhos cerúleos terem recuperado algum brilho, parte dela ainda era aquela mulher partida em tantos pedaços impossíveis de juntar, e que via nele uma necessidade absurda por ter sido o que sobrara na própria vida. Era isso, a sobra, sempre seria.

O hanyou murmurou um lamento qualquer e se voltou à escocesa mais uma vez, notando naquele semblante angustiado alguma expectativa, e seria cuidado? Entre as pernas dele, Anna se aconchegou e alisou seus ombros, depois seu rosto, aquecendo-lhe as bochechas tesas. Os dois sentiram que já viveram algo parecido, há certo tempo atrás, no mesmo lugar.

— Quente... — Naraku se repetiu, porque foi a mesma sensação. Os beijos que ela espalhou por cada canto de sua face até agraciar a sua boca com um selinho o confortaram como daquela vez. — Eu não tenho o direito de pedir isso, mas gostaria que um dia pudesse me perdoar. — a puxou para perto cuidadosamente, as pernas dela sobre as dele. Sem perceber, a posicionou em seu colo. Annabelle o abraçou contra o seio e repousou a cabeça ruiva sobre a negra, mal podendo crer naquele pedido tão humilde. Ela teria essa capacidade? Por melhor que seu coração fosse, ainda era apto a oferecer o perdão a alguém como ele? Em verdade, já não o oferecera? Ora, o meio-youkai tirou vidas preciosas para ela, no entanto, Annabelle estava lá à sua companhia, na tentativa de se confortar e confortá-lo junto, mesmo sabendo que não poderia mudar o futuro.

Uniu-se mais ainda ao usurpador de Hitomi naquele abraço e sentiu o falo dele aceso outra vez. Tentaria não ser tão afobada como antes. Assim, cingiu os corpos num abraço ameno e beijou-lhe um dos ombros, as mãos sobre a pele de aranha esturricada a transmitirem algum acalanto. Empurrou-se devagar contra o mastro pulsátil, Naraku, por sua vez, apanhou um dos seios e afagou o mamilo entre os dedos habilidosos. Aproveitando-se de que Anna esticara o pescoço para jogar a cabeça para trás, arrastou a boca por toda a pele até retornar aos montes balançantes e eriçados.
Enquanto a escocesa serpenteava as ancas para os lados em ritmo gradativo, o aracnídeo se deleitava com aqueles pomos macios e firmes, ora sorvia um, ora outro, a girar a língua ao redor da auréola cor-de-rosa. E pobre da mocinha se pensava que ele não poderia a enlouquecer mais, pois Naraku arrastou os dedos pela virilha dela até subi-los pelo clitóris ébrio e manipulá-lo com primor.

Mal percebiam a noite cair e a caverna ficar escura, os corpos se acaloravam em esfregação. Annabelle praticamente saltava sobre ele enfim, a estremecer de cima a baixo e o companheiro de caverna a auxiliava a agarrar-lhe as nádegas, vez ou outra espalmando-as. A energia sinistra teimava por emanar através do aracnídeo novamente, então a humana segurou seu rosto entre as mãos e o beijou desesperadamente, até que outra vez sua aura o abrandasse e ele pudesse matar a saudade daquela sensação singular que o fizera cair por ela desde o princípio.

Compartilharam mais um orgasmo torrencial. Belle, cansada, apoiou a cabeça ao ombro dele, ofegante. Suas articulações começariam a enrijecer, finalmente afetadas pelo frio do cair da noite. Naraku tateou o chão até encontrar a manta, para enfim jogá-la por cima do corpo da estrangeira.

— Você precisa descansar... — disse, rouco, acarinhando o rosto dela com o seu.

— Eu terei muito tempo para isso depois. — fechou ainda mais o enlace — Quero passar a noite com você.

— Buscarei lenha para acender uma fogueira. — afirmou, brando, e afagou os cabelos dela. Ergueram-se juntos, o hanyou vestiu a calça e jogou uma das mantas sobre as costas, fechando-a à altura do peito. Annabelle jogou apenas a túnica branca por cima da silhueta.

Ao caminhar para fora, ele percebeu que a sua protegida o seguia.

— O que está fazendo? — a encarou com o olhar estreitado.

— Eu vou com você. — disse com naturalidade.

— Não se incomode, se eu for sozinho será mais rápido. Além do mais, está escurecendo, olhos humanos não lidam bem com a escuridão. — iniciou a caminhada, os passos dela o acompanharam. — O que foi? Não confia que eu voltarei?

— Contemple. — tocou-lhe o braço e passou a frente.

Naraku respirou fundo, ligeiramente impaciente pela teimosia dela. Annabelle deu por volta de cinco passos adiante, fechou os olhos e ergueu os braços, abertos em cruz. Pontos amarelos e luminosos começaram a aparecer de todos os cantos e cercaram os amantes, eram vaga-lumes invocados pelo chamado dela.

Ele olhou ao redor, estranhamente acalmado, e observou os cabelos acobreados revolverem-se em consonância ao vento e à mata alta, toda e qualquer forma criada pela natureza parecia se comunicar juntamente a ela. Annabelle era um ponto de luminescência no breu da noite.

Inebriado, o hanyou a abraçou pelas costas, cheirou cada trecho do cangote adocicado e sibilou entrecortado:

— Você é a minha luz¹. — dessa vez fora ele em pessoa a dizer, e não o coração que tentou jogar fora em vão.

Anna abriu os olhos, sentiu-os arder e prendeu a respiração.

— Venha comigo. — Naraku ofereceu a mão, ela a segurou sem titubear e foi agarrada pelos braços firmes. Em um único pulo, o inimigo de Inuyasha estava a sobrevoar o campo a carregá-la debaixo de suas "asas". A admirar a beleza estonteante dos olhos carminados tão calmos, dos cabelos que revoavam para trás e permitiam-na ter o vislumbre perfeito do rosto dele, pensamentos perigosos do que poderia ser da vida de ambos em condições diferentes preencheram a mente dela.

— No que está pensando? — perguntou assim que pousou junto à Rosa Branca.

— Acredito que eu estava sonhando acordada. — confessou um pouco sem jeito.

— Com o quê? — ele se aproximou de uma árvore e repentinamente uma de suas mãos se transmutou em uma grande e afiada lâmina, assim o mestiço cortou um galho e começou a fatiá-lo em toras.

— Com coisas impossíveis... — resfolgou como se tentasse se conformar.

— Coisas impossíveis, hum? — ao terminar, envolveu os pedaços de madeira em sua manta e jogou para trás, como uma sacola. Então, endereçou-se a ela que o olhava de longe, a abraçar-se para espantar o frio. — Que tipo de coisa? — não era o seu forte, mas sim, tentava confortá-la como podia, devia isso a ela. Por isso, pegou uma das mãos feminis e a afagou, fitando-a intenso como sempre fora.

— Esse tipo, — sorriu de leve, apontando com o olhar a "sacola" de lenha que ele carregava — você sabe, nós dois vivendo uma vida comum, longe de toda essa confusão e essa mágoa que nos cerca.

— Para isso teríamos que ser outras pessoas, Annabelle. — pousou a mão dela em seu peito e a envolveu com um braço. Apesar de sofrido pelas frustrações, ainda terno, professou: — Mas você ficará bem.

— Como pode saber? — fechou os olhos, rendida às emoções e ao abraço.

— Você ficará, eu prometo. — soou tão convicto que a fez trepidar. — Segure firme. — indicou, sem dar espaço para aprofundarem o assunto. Ela o envolveu com firmeza, entre braços e pernas, e voaram de volta para a caverna, onde o hanyou calmamente acendeu o fogo que os esquentaria e permitiria que se enxergassem com detalhes.

Tão logo chegaram ao esconderijo, puderam ouvir o som da chuva que se iniciava.

— Annabelle... — riu breve, sabia que aquilo era obra dela.

— O som da água me acalma. — comentou, sentada ao seu lado de frente para o fogo, com a cabeça recostada em seu ombro. Metera-se por baixo de uma das mantas e ela o enlaçou, a outra pele de babuíno deixaram abaixo de seus corpos como nas horas anteriores.

— Eu nunca entenderei o que se passa dentro de você. — revelou, a cabeça reclinada sobre a dela — Ora me evita, ora não quer que eu vá embora.

— Nem eu me entendo, Naraku. Você me faz sentir coisas estranhas... — "Mas eu entendo, entendo que tudo isso só acontece porque sinto amor por você" — semicerrou os olhos.

— Você também provoca isso em mim. — cobriu a mão que pousava sobre a sua perna.

— Se a Joia de Quatro Almas não existisse, como acha que teria sido a sua vida? — perguntou e o mirou de novo.

— Não faço ideia, nunca imaginei uma vida diferente da que tenho. — mentiu descaradamente, e agiu de tal modo por achar inútil criar qualquer tipo de expectativa que jamais se realizaria.

— Você gostaria de ter vivido ao meu lado? — apertou-o mais, era cada vez mais difícil controlar a emoção que a sufocava.

Ele baixou o olhar e atentou-se na respiração descompensada, bem como os fios d'água a formarem na borda dos olhos dela.

— Sim. — respondeu, atônito com a reação dela, e a sua afirmativa foi suficiente para desmontar alguém que há muito tempo sofria com aquela situação. Annabelle cobriu os olhos e soluçou, os ombros começaram a remexer. Baixou a cabeça e a cabeleira ruiva caiu por cima de suas feições, todavia não camuflou nenhum detalhe de sua reação.

— O que foi? Por que está assim? — tocou os ombros trêmulos, sem conseguir fazê-los parar de sacudir — Não chore... — a teve em mais um enredo desesperado. — Não mereço uma lágrima sequer de você, não depois de tudo que a fiz passar. — e piorou, podia vê-la prender os gritos de desalento. — Você mesma disse que eu mereço tudo o que está por vir! Por que me chamou aqui? — acabou por agir severamente — Se não é por piedade, por que é?!

— Nós deveríamos ter mais tempo! — choramingou — Não é justo! — roçou os dedos nas pálpebras.

— Não fale como se, depois de tudo, você pudesse esquecer o passado para ficar comigo. — bronqueou amargurado — Vamos lá, onde está o seu senso de realidade? Não é possível que depois do que passou por minha causa, deixou de pensar em tudo o que aconteceu e em tudo o que fiz! Você mesma me disse que eu jamais teria outra chance!

— Eu nunca esquecerei, Naraku, olho para você e eu me lembro! — esbravejou aos prantos.

— Então pare de se lamentar, é insuportável! — falou ainda mais alto, destemperado — Insuportável, e inútil! — era duro vê-la naquele estado e ele não aguentava mais a culpa, sem perceber, acabava por agir com bruteza, intensificando ainda mais aquele choro.

— Eu nunca me esquecerei, como nunca me esquecerei das coisas boas que vivemos juntos, não entende? Não poderei esquecer você! Eu penso em tudo o que poderíamos fazer, nos lugares que conheceríamos, nas experiências que dividiríamos... — segurou as mãos dele.

"Ela não percebe que está me confundindo com Kagewaki, esses eram seus planos com ele..." — libertou-se do toque dela — "Mas..." — fixou-se atentamente na face melancólica, lavada pelas lágrimas e identificou a genuinidade de seu sofrimento. Ela choraria a sua morte, seria a única no mundo a conseguir lembrar dele com carinho e saudade. Alguma marca, sem ser uma mancha, sabia ter deixado em Annabelle. Sim, ele se pegava a pensar nas experiências que poderiam dividir se fossem outras pessoas, principalmente, se ele fosse outro. Além de surrupiar a possibilidade de viver essas coisas com Kagewaki, não poderia oferecê-las a ela. Que dor o consumiu! Sentia-se chorar por dentro, tão exasperado quanto a humana. O calvário o balançava e o enchia de dúvidas.

— Você diz que eu ficarei bem, mas como ficarei bem sem você? — a pergunta o pegou desprevenido e o acertou mais a fundo do que a flecha de Kikyou. — Eu prometi que não me envolveria nisso, no entanto, olhe só para mim, é mais forte do que eu! — tornou a abraçá-lo e começaria a enchê-lo de beijos.

— Me faça um juramento, Annabelle. — cativou-lhe o rosto, sério — Não importa o que aconteça, no momento do confronto final, você não fará nada, você não virá por mim.

— Não posso! — abanou a cabeça freneticamente — Não prometerei uma coisa dessas! — tentou tirar as mãos dele de suas maçãs, fracassou.

— Jure, quero ouvi-la jurar que não se intrometerá. — tocou os narizes, encarando-a penetrantemente.

— Naraku, não...

— Jure! — exclamou.

— Eu juro! — agiu por impulsividade — Eu juro... — arfou.

Sem querer ouvir mais uma palavra, Naraku a consumiu em um beijo ardil, decidido de que teria o néctar da Rosa Branca pela última vez que fosse, pois as horas passam rápido e logo o sol nasceria novamente. Para a sua infelicidade, não poderiam ficar ali para sempre, e aquilo era tudo o que poderia ter dela, o desejo, os restos, o que fosse. Ainda assim, as palavras sofridas, as declarações da mulher a mostrarem que algum espaço ele tinha dentro de seu coração o enlouqueciam. O hanyou nunca temera a morte como naquela noite. Cessou até mesmo os pensamentos sobre a brevidade da vida humana da ocidental, nem se importou tanto com isso. Simplesmente arrancou aquela túnica, jogou-a deitada sobre a manta e se livrou da calça com violência. Animalesco, a lambeu do pescoço aos ombros, depois desceu pela barriga, encaixou a boca à brecha incendiada e sorveu outra vez cada fluido que o corpo dela produzia, como se assim pudesse bebericar da juventude e mantê-la intacta em Annabelle. Enfim, ao deixá-la preparada, escancarou-lhe as pernas e a possuiu sem contenção. O youki queimou pela caverna, escapou pela entrada e desertificou o campo. Nem mesmo a aura branca e pura amenizou aquele furor, serviu apenas de proteção para ela. Não satisfeito em tê-la apenas naquela posição, virou-a de costas a penetrá-la atroz, memórias atravessavam cada pensamento, as boas e as ruins, entontecendo o restante de sentidos. Logo, a girou de lado, e encaixado a ela, a segurar-lhe os seios com firmeza persistiu naquela insanidade, arrancando brados da garganta feminil, de prazer, de dor, de loucura. Quando Annabelle tentou rolar por cima dele, foi atirada contra a manta outra vez, o aracnídeo não estava de brincadeira.

— Ah, Naraku! — gemeu desvairada. Algo viscoso lhe afagava o ponto fraco, melando-o e inflando-o novamente. Enfim Belle percebeu que os tentáculos saíam de várias partes do corpo dele e a envolviam como infindos braços a acarinhar-lhe as partes mais íntimas. Premeram as coxas, as ancas e os seios transpirados. As diversas facetas do descendente de Onigumo clamavam por possuí-la, a punham em estado de torpor semelhante ao que experimentava quando o fragmento da Joia alimentava a sua lascívia. Anna entendeu que a peça maldita não gerara nada em seu interior, apenas se aproveitava daquilo o que já existia.
A boca escancarada e quase salivante pediu pela dela e a jovenzinha a recebeu entre grunhidos alucinantes. De tão encharcada que sua intimidade estava, sons diferenciados soavam ao entrar e sair do sexo dele.

Finalmente, Annabelle sentiu uma explosão dentro de si como nunca antes. Quando Naraku atingiu o ápice, algo pulsou dentro da europeia com tanta força que o baixo-ventre se revolveu e ela sentiu tamanha tontura que viu o teto pedregoso girar.

Era cálido, intenso, e latejava dentro dela, como se em vez de líquido fosse maciço. E essa foi a última coisa que sentiu antes de desfalecer, esgotada pela entrega delirante, consumida pela energia a emanar lá dentro.

— Eu disse... — a recuperar os ânimos, Naraku murmurou com o nariz escondido entre os cabelos dela — é muito para o seu corpo aguentar. — levantou o rosto e a contemplou, as feições dele normalizadas no fim das contas. — Mas, sim, você é forte, sei que é. — aplainou o rosto rosado por causa do esforço, — Você suportará... porque já superou coisa muito pior. — o olhar demonstrou um fio de tristeza.

O hanyou atirou-se para o lado e a aninhou em seu peito. Esfregou a mão pelas costas e pelo braço da humana para mantê-la aquecida.


Os olhos azulados abriram-se vagarosos assim que sua audição captou sons bem sutis. Viu-o sentado diante de si, a terminar de vestir o quimono.

— Iria embora sem se despedir? — murmurou enquanto se sentava e cobria-se com a manta.

— Já deveria saber que não gosto de despedidas. — deu um riso seco e a olhou por cima do ombro.

— Naraku. — segurou-lhe o braço no exato segundo que ele se ergueria e o olhou diretamente nos olhos, certeira. — "Você tem que dizer, não pode deixá-lo ir sem saber!"

O hanyou virou-se para ela e se inclinou para ficar mais próximo. Esperava com alguma ansiedade o que a jovenzinha tinha a dizer, e ficou ainda mais curioso ao sentir a mão dela escorrer pela manga púrpura e encontrar a sua, escondida debaixo da seda.

— Eu... — bastou começar a se expressar e partiu a suar e perder o fôlego —"Fale!"— Eu preciso dizer... —"Por que não consegue, por que é tão difícil?".

— Não pode adiar a minha partida, não importa o que queira dizer. — comentou com pesar, e acabou por atrapalhar ainda mais aquele processo.

— Você tem razão. — suspirou, a conformidade querendo dominar suas atitudes — Mas... — fechou os olhos por alguns instantes, até que tomou coragem e o encarou. — Eu... — os ombros desceram derrotados — "Eu amo você" — pensou, entretanto, o que disse foi: — Eu perdoo você.

— Oh... — não esperava realmente por aquela alegação. Ao mesmo tempo que a sentiu como uma apunhalada dolorosa, sentiu o peito aliviado. Ao menos teria dela o perdão.

— Eu o perdoo por tudo o que fez, não só a mim, mas para qualquer pessoa a quem me apeguei. — uma tontura a fez segurar a testa com uma das mãos. Assim que se recompôs, mirou-o novamente — E o perdoo pelo que quer que esteja disposto a fazer no futuro. Qualquer desprezo que senti por você não durou muito mais do que o tempo de vida de uma mariposa.

— Sabe, eu não acredito em destino... — fechou a distância entre os rostos — mas me sinto bem-aventurado por tê-la encontrado naquela floresta, por você fazer parte da minha existência. Graças a você, sinto que nem tudo foi em vão...

— Você não vai mesmo desistir, não é? — relou a boca na dele.

— Por que pergunta se já sabe a resposta? — fechou os olhos e a beijou delicadamente, sem muito aprofundamento.

— Pode me fazer uma promessa? — pediu humildemente, a boca a deslizar pela dele. O híbrido concordou com um meneio de cabeça — Tome cuidado ao extrair o fragmento de Kohaku, e... por favor, poupe o menino.

— Não farei nada além de pegar o fragmento de volta, prometo. — sugou-lhe o lábio inferior.

— Como fará para o fragmento não purificá-lo assim que o tomar? — acariciou-lhe o queixo, a voz trepidou a demonstrar preocupação. Deveria sentir-se triste por Naraku ter descoberto a intenção de Kikyou, entretanto o alívio ofuscava qualquer outra sensação. Era a chance – remota que fosse – de mais alguns instantes de sobrevivência.

— Eu tenho os meus métodos. — sorriu dentro daquele beijo suave, apreciando a textura e o sabor da boca que o afagava terna. Agraciado pelos dedos que lhe contornavam a face para pousar em sua nuca, o araneídeo tornou o ósculo em um beijo de verdade, abraçando a humana com o cuidado de não unir demais os corpos, do contrário não resistiria e ficaria ali por horas a fio, a subjugar a frágil flor à sua vil vontade.

Ao findar daquele ato, Naraku se pôs de pé, ajeitou os cabelos e os prendeu novamente ao topo da cabeça. Por fim, pegou uma das peles de babuíno e se cobriu até o pescoço. Annabelle vestiu a túnica e o acompanhou até a entrada da gruta. Pouca chuva ainda molhava o campo, agora deserto em consequência da nuvem de youki que ele dispersara. O meio-youkai caminhou sem se importar que os pés afundassem em algumas poças, e antes de alçar voo para longe, virou-se e a vislumbrou uma vez mais – encostada na parede de pedras, suspirante e apreensiva. Sorriu para ela, e em retribuição recebeu um sorriso discreto, estremecido de emoção.

Assim ele partiu, sem uma palavra a mais. Dali ela sabia que era questão de tempo para que Naraku encontrasse seu fim. As costas escorregaram pelas pedras até Anna cair sentada e abraçar as próprias pernas.

"Eu não disse, não consegui!"— o pranto desceu tempestuoso —"Ele nunca saberá!"


"Você me deu algo perigoso nas mãos, tão perigoso..." — Naraku pensava a sobrevoar as terras, a barreira ao redor o tornava invisível para o mundo. A sua forma original transmutara para a atual, imponente e bem protegido. — "Esperança"— concluiu —"você me deu esperança, Annabelle"...

Continua...


¹: "Você é a minha luz" foi uma das frases que Muso disse à Annabelle no capítulo chamado "Coração" da fanfic. Finalmente o Naraku teve coragem de dizer!
Vejo vocês no próximo, tentarei postar o mais rápido possível e quem sabe, logo o capítulo final (46) estará publicado nessa plataforma também? Obrigada pelo apoio de todos, espero que tenham gostado do hentai basico que esqueci (e quando lembrei, fiquei com preguiça) de avisar no início do capítulo. Hehehehe!
Kissuuuuuuus!