Oi pessoal, tuto pom? Me perdoem imensamente pela demora. Não tem nem justificativa, porque essa fanfic está terminada e só falta atualizar, mas como me mudei de cidade, a minha vida ficou tumultuada pra caramba, agora que estou conseguindo diminuir o ritmo e fazer outras coisas. Enfim, não pretendo me prolongar, quero deixá-los com o capítulo. Antes de ir, deixo aqui todos os meus agradecimentos a quem está lendo e um muito obrigada em especial aos leitores que comentam e me incentivam a continuar. Sentirei muita saudades disso quando finalizar Teia de Mentiras aqui.
Enfim, boa leitura!

Capítulo 44 - Semente

Eu perdoo você. Naraku lembrou-a dizer docemente, e não só. Pensou naquela noite e em tudo o que viveram por horas a fio, mergulhado na sensação de cada toque e de como ela o olhava, principalmente. Era sua mente a pregar-lhe peças, ou ao rememorar os meses em que viveram juntos no castelo, concluía que aos poucos a humana deixara as muralhas ao seu redor caírem e abria o coração para ele?

Foram várias as vezes que ela pareceu olhá-lo com ternura, fosse quando ela tocava a harpa e cantava as canções celtas, ou fosse à noite, quando se deitavam juntos, antes de ele velar o sono dela. Às vezes, enquanto dormia, Annabelle sussurrava o nome dele, e o hanyou acreditava que tanto a meiguice nos gestos, quanto ouvi-la chamá-lo durante o sono fossem consequências da alma piedosa que ela sempre teve. No presente, porém, ele não saberia desvendar o que se passava dentro da estrangeira.

Primeiro a desejou, depois a odiou por amar um reles humano e quis despedaçá-la, quis se divertir às custas de seu sofrimento. Então, ao conseguir parti-la em pedaços, sentiu um remorso abissal, experiência inédita desde o dia em que nascera, e quis curá-la do mal que lhe causou. Tentou protegê-la de si mesmo, ainda que para isso precisasse ficar longe do que ele mais queria ter por perto. Ele, dentro das condições que lhe cabiam, com o pouco que compreendia sobre compaixão, tentou, tentou e tentou, e sempre a trouxe para o mesmo fim: o sofrimento, porque por mais que o aracnídeo sentisse o que sentia por ela, a sua natureza ainda era obscura e – a seu modo – impulsiva.

… e ela o perdoou. A escocesa ofereceu o perdão para ele!

Por que perde o seu tempo pensando em futilidades? É um pouco tarde para isso, não acha? — as vozes, sempre elas, a servir como uma bússola para a moral e para as atitudes dele.

De pé, a beira de um penhasco, Naraku estreitou os olhos carminados e mirou a Joia em mãos, faltava-lhe apenas um fragmento. O de Kohaku.

Já se esqueceu de que ela conspirou com a sacerdotisa para purificá-lo assim que você tocasse o fragmento? persistiram ferozmente.

"E, no entanto, quando me encontrou, Annabelle me contou tudo e traiu a confiança de Kikyou..." fechou os dedos ao redor da pérola escurecida e a apertou.

Ah, o que é isso? Sabe que não pode nos destruir. Ainda que a gema seja partida em mil pedaços, o seu poder permanecerá intacto. risos ecoaram dentro dos ouvidos dele.

Não era a primeira vez que Naraku pensava em destruir aquela peça que um dia tanto desejou. Todavia, o hanyou nunca fizera o tipo de quem alimenta ilusões, seu ceticismo era ácido e o corroía por dentro. A primeira mulher por quem se interessou fora guardiã daquela pestilência e – num momento de desespero – pediu para que seu corpo fosse queimado junto ao objeto. De uma maneira estranha, a Joia retornou dentro do corpo da reencarnação dela, Kagome, e a menina conseguiu romper as barreiras do tempo e chegar àquela época. Depois, a pérola mística foi feita em incontáveis cacos e ainda assim a sua força não se extinguiu, muitos morreram para obter o poder de um mísero fragmento.

Sim, como ele pensava naquilo! Ao remodelar o próprio corpo dentro do Monte Hakurei, Naraku divagara algumas vezes se com a força que adquiriria seria capaz de dar um fim na Joia de Quatro Almas, e se via sempre encurralado, sem ação. Por outro lado, os sussurros venenosos reverberavam dentro dele, lembrando-o da inevitável morte de Annabelle, e de que essa finitude era uma das razões pelas quais ele sempre odiou a essência humana. Assim, o seu instinto youkai tornava a se sobrepor ao de homem, e ele sucumbia à ganância e ao rancor. Quanto mais distante ficava de realizar o seu verdadeiro desejo, mais odiava Inuyasha por ter uma segunda chance de ser feliz ao lado de Kagome, mais detestava Miroku e Sango por estarem perto de concretizarem o seu amor. Até mesmo Sesshoumaru – o araneídeo queria que o Dai-Youkai queimasse no inferno por encontrar qualquer conforto ao acolher uma criança humana. E todos eles nunca o permitiriam viver em paz – por culpa dele, obviamente – mas Naraku não se importava muito com quem tinha maior razão e sim com o resultado da caçada. Jamais teria sossego, eles não deixariam.

Nos dê a alma da sacerdotisa. o coro perseverava, quase hipnótico.

Era da alma de Kagome que falavam.

— Mestre? Byakuya se aproximou pelas costas dele. Apesar de Naraku se mostrar irritado, no fundo estava aliviado por sua cria ter surgido.

— Sim, fale. virou-se de frente para o sujeito.

— Sobre a garota, já devo intervir?

— Me mostre como ela está. ordenou.

O rapaz entortou os lábios e espremeu os olhos numa careta de desagrado. Lá iria ele ter que enviar o olho atrás da ocidental e Naraku assistiria o que acontecia no mundo afora de um modo nada convencional.

"Annabelle, fique firme." a esperança que ela acendeu dentro dele o fez cometer um ato impensado, ao recobrar a razão o meio-youkai se via preocupado com o que se sucederia a ela.


Fazia uma semana que Annabelle encontrara Naraku dentro da caverna. Foram dias suficientes para pensar muito sobre o que aconteceu e, também, alimentar uma saudade sem fim.

A tristeza só não a esmorecia mais do que o mal-estar, há alguns dias sentia-se péssima. Além de algumas dores nas articulações por conta do sobre-esforço, certas vezes uma forte pontada na barriga a fazia ver estrelas, e então ela ficava tonta, gelada e suada.

Fez o cavalo parar tão bruscamente que quase foi jogada para fora da carroça. Ao menos o impulso a ajudou a pular e chegar à grama antes que vomitasse todo o almoço em cima de seus pertences. Até quando parecia que não havia mais o que sair de dentro dela, uma forte pressão no baixo-ventre a estremecia e ela botava para fora os sucos biliares.

Pensou que fosse desmaiar de fraqueza. Ofegante e quase deitada ao chão, antes de perder os sentidos percebeu uma sombra encobri-la. Ergueu fracamente o olhar e se viu diante de um gigante de olhos azuis, ficou assustada, contudo não conseguiu gritar. O corpo tombou para o lado.


Conforme os olhos abriram e a visão recuperou o foco, Annabelle enxergou uma pequena chama acesa ao seu lado, no chão de um casebre. Ouviu alguns ruídos por trás de si, virou-se com algum esforço e encontrou uma senhora idosa a bater algumas ervas em uma cuia. Quando perguntaria onde estava, a mulher a viu acordada e, um pouco rabugenta, ofereceu o receptáculo com uma espécie de remédio natural dentro:

— Tome isso, vai se sentir melhor.

— O que é? pegou a cumbuca com as duas mãos, estava um pouco traumatizada desde que Hakudoshi a obrigara a tomar aquele líquido esquisito.

— Vai melhorar os enjoos, mas se não quiser tomar não é problema meu. virou-se de costas.

Anna suspirou, um pouco aborrecida pela forma como era tratada, contudo percebeu que tecer qualquer comentário sobre o comportamento da outra talvez só a deixasse mais arredia. Olhou em volta novamente antes de perguntar:

— Como cheguei aqui?

— Meu filho a encontrou na floresta, e como tem um bom coração, resolveu trazê-la para nossa casa. bufou mal-humorada.

— Seu filho? roçou os olhos, confusa, eis que lembrou de uma presença estranha diante de si e quase deu um pulo, já sentada sobre o leito de palha.

— Escute aqui! a mulher ficou tão próxima e seu olhar era tão incisivo que Annabelle quase caiu para trás Se você chamar qualquer aldeão para vir aqui maltratar Jinenji eu juro que eu...

— Calma, senhora! a atropelou, percebendo aonde aquela conversa daria.

— Não me diga para ficar calma, você pode ser diferente, mas sei que é humana, e humanos costumam odiar o meu filho só por ele ser um meio-youkai! bradou, descontando todas as frustrações em cima dela.

Annabelle percebeu as mãos engelhadas a tremularem fechadas sobre os joelhos e simplesmente as conteve. A mulher de certa idade entreabriu os lábios diante do gesto inesperado.

— Eu entendo. a ruiva disse amena Posso não ser youkai, mas sempre sou confundida com uma, e as pessoas geralmente me temem ou me perseguem por isso.

— Oh, eu... os dedos se abriram aos poucos, o cenho dela franziu e as bochechas rosaram.

— Onde está seu filho? perguntou amistosamente, soltando as mãos dela aos poucos.

— Ficou lá fora, não queria assustá-la. baixou a cabeça, em parte triste pela condição de sua prole, em parte envergonhada por ter agido com tamanha hostilidade, era costume.

Annabelle tentou se levantar, e a tontura a fez cair sentada.

— Você precisa tomar essa emulsão, mocinha. entregou a cuia nas mãos dela novamente.

— Então chame-o, ele não precisa ficar lá fora passando frio porque estou aqui. Não terei medo por ele ser um meio-youkai.

— Entenda, a aparência do meu menino às vezes assusta as pessoas... suspirou.

A escocesa semicerrou os olhos, trazendo à tona a memória de Naraku na noite em que precisava assumir a sua verdadeira forma, e depois na noite em que a procurou quase aos pedaços, com os tentáculos pendurados para todos os lados. Sorriu e fixou-se na mãe aflita.

— Não me assustarei. disse com convicção.

— Está bem... apesar da idade, ela não parecia ter muitos problemas nas articulações, levantou-se com destreza Mas beba isso logo! apontou-lhe, autoritária. Annabelle obedeceu.

A senhora saiu e demorou alguns minutos para voltar. Depois de tomar o amargo remédio, Belle – ainda enfraquecida – conseguiu se erguer e ir até a janela. Viu o sujeito enorme sentado em frente a uma grande horta, a senhorinha era tão menor e tão mais valente que ele!
A mãe abria os braços em gestos, apontava a casa e o colosso negava com a cabeça, o rosto inteiro avermelhado. Então, a pequenina segurou-se num braço dele e começou a tentar puxá-lo. O pobre agigantado abaixou a cabeça, suspirou e veio andando, visivelmente inseguro. Apesar de titânico, parecia tão vulnerável... Os braços dele eram cheios de cicatrizes, deveria ser um sujeito muito sofrido – Annabelle concluiu.

— Esse é Jinenji. ela já entrou apresentando o seu único filho.

— Olá, eu sou Annabelle. o reverenciou.

De fato, quem o encontrasse na floresta deveria se assustar, todavia, bastava olhar bem nos grandes olhos celestes para perceber o quanto ele era inofensivo – a ocidental reparou. O seu olhar direto o fez tremular e fitar outra direção.

— E-eu... eu deixei a sua carroça do outro lado da casa e alimentei seu cavalo! a voz poderia ser grave, entretanto a forma de falar era tímida, quase infantil.

— Ele que trouxe as ervas também! a mãe contou a dar tapinhas no braço dele, orgulhosa.

— Muito obrigada. Anna agradeceu sorridente.

— Bem, esquentarei a sopa para jantarmos! a dona da casa anunciou e assim foi feito.

Quando a comida estava pronta, os três sentaram juntos e embora Annabelle ainda estivesse sentindo um forte enjoo, não quis fazer desfeita e comeu junto a eles. Enquanto jantavam, a senhora contou para Annabelle a história da vida dela e de Jinenji. A europeia ficou deveras comovida com tudo o que passaram, e pela solidão que tiveram de abraçar para viverem em paz. Enfim, a idosa comentou:

— Mas nós temos bons amigos, não é mesmo Jinenji? e contou sobre como Inuyasha e Kagome foram generosos e os ajudaram a reconquistar o respeito dos aldeões que moravam lá perto. No mesmo instante, Annabelle sentiu a sopa querer voltar por onde entrou e teve que correr para o lado de fora da casa.

— Mamãe, ela está muito doente! o gigante gentil se preocupou.

— Não, meu filho... ela pausou para tomar um gole do caldo O que ela tem é outra coisa.


Anna não contou à família que a hospedava que também conhecia aquelas pessoas. Deitou-se para dormir com o pensamento de que aquele encontro parecia coisa do destino. E dividiram-se apertados pela pequena casa, Jinenji precisava ficar sentado, ou do contrário não haveria espaço para mais nada, a matriarca ajeitou um outro leito de palha e encolheu-se sobre ele. Annabelle estava tão cansada que, mesmo a sentir o estômago se revolver e dar pontadas, caiu no sono.

Na manhã seguinte, foi até a carroça e começou a arrumar as suas coisas.

— A senhorita já vai? Jinenji perguntou um pouco entristecido. A mãe dele ainda dormia.

— Eu não quero dar trabalho para você e para sua mãe... estava aflita não só por conhecerem gente em comum, mas por sua simples presença poder representar perigo para os dois.

— Fique ao menos mais um dia, senhorita. o tom dele foi quase suplicante Olhe, eu trouxe essas ervas para você ficar boa logo. abriu a imensa mão e mostrou os pedaços de folha, como um menino que quer provar como se comportou bem.

— Oh... emocionada com a gentileza dele, aproximou-se e pegou as hortaliças Obrigada, Jinenji. olhou-o nos grandes e redondos orbes cerúleos e resfolgou sem conseguir dizer-lhe um não. Sorriu e esticou os braços. Está bem! Um dia.

Assim que a mãe do meio-youkai acordou, foi à janela e os viu sentados na horta, colhendo ervas e conversando trivialidades. Lembrou-se de Kagome, de como ela era gentil com o seu filho e sentiu o peito preencher de alegria. Annabelle seria mais uma amiga a partir de então – pensou.

— A comida está tão bonita... a ruiva comentou ao ver o almoço pronto Mas só de sentir o cheiro, sinto que minha barriga vai se virar do avesso...

— Hum... a senhora comeu um pouco do arroz, fixada em Anna Posso fazer uma pergunta um pouco íntima?

— Bem, eu... sentiu-se embaraçada Pode, não tem problema.

— Andou tendo relações com alguém ultimamente? perguntou certeira.

Quando enfim Annabelle tivera coragem de comer a primeira porção, quase cuspiu tudo.

— Nossa, pergunta íntima mesmo! riu de vergonha, o rosto rosara visivelmente. As feições dela respondiam por si só Por quê?

— Você está grávida. falou sem fazer mistério. Jinenji e a jovem coraram e quase pularam.

— Não, não! negou de pronto — "Não pode ser, eu e ele já tivemos tanta intimidade e eu nunca... eu pensei que não fosse possível!" cobriu a boca com uma mão, lá vinha um novo enjoo. Por que agora?! perguntou-se em voz alta.

A senhora arqueou uma das sobrancelhas, ao passo de que Belle correu para o lado de fora uma vez mais para botar tudo para fora. Sentiu-se tão fraca, como se as energias tivessem sido drenadas de seu corpo, precisou da ajuda do meio-youkai bondoso para retornar à casa.

Um olho flutuante, discreto, os observava.


— Então é isso? Byakuya perguntou assim que Naraku tirou o tentáculo de dentro da cavidade onde antes havia um globo ocular.

O hanyou não respondeu, mudou de assunto:

— Nas próximas horas, preciso que observe atentamente como o corpo dela se comportará. Se Annabelle entrar em colapso, quero que vá lá e tire isso de dentro dela.

— O que, eu?! perguntou histericamente.

— Há outra pessoa aqui com quem eu possa estar falando? indagou impaciente.

— Está bem, está bem! abanou as mãos. Mesmo que as expressões faciais denunciassem a aflição, ele concordou. Que escolha tinha?


"Grávida?!" a mocinha não conseguia parar de pensar sobre a possibilidade de estar em tal condição. "Mas, ainda fará uma semana desde a última vez que nos deitamos... Dá para saber tão rápido?!" sacudiu a cabeça e o ato a entonteceu. A sensação de fraqueza apenas piorava conforme o passar do dia. Ela lavou o rosto, ajoelhada diante de um riacho e quase caiu para a frente.

— A senhorita está bem? Jinenji a amparou com o braço.

— Sim, obrigada... rolou os olhos, o corpo parecia pesar uma tonelada.

— Está quente. o meio-youkai comentou Vou levá-la para casa.

Ela quis protestar e não encontrou forças, enquanto era carregada cuidadosamente pelo gigante, lembrava-se da última vez em que esteve com Naraku e da sensação de algo explodir dentro de si, diferente de todas as outras vezes em que estivera com ele. Teria sido naquele momento?

Chegaram ao casebre, a mãe de Jinenji logo ajeitou o leito de palha para que seu garoto prodígio acomodasse a pobre Annabelle. Assim que a estrangeira foi colocada sobre o feno, a senhora tocou-lhe a testa e alertou:

— Está com febre! então, encarou sua prole e ele imediatamente compreendeu o que deveria fazer. Saiu de lá de dentro e se endereçou à plantação. Não se preocupe, vamos cuidar de você.

Ao passar das horas, a Rosa Branca tomou algumas doses de um chá medicinal, no entanto o mal-estar e a temperatura alta persistiam.

— Estou com tanto frio... ela murmurou, as mãos apoiadas sobre a barriga sentiam uma estranha pulsação lá dentro. Dói! gemeu.

— Escute, preciso que me diga, a idosa ajeitou um lençol sobre o corpo dela o pai dessa criança é um homem ou um youkai?

— Meio-youkai... os olhos giravam dentro das órbitas.

— Entendo. compadecida pela situação da jovenzinha, suspirou e ajeitou-lhe a franja suada Acho melhor ficar conosco por mais tempo, eu sei bem pelo que você está passando e posso ajudá-la.

— Não posso... não suportaria causar problemas para aquela família, já bastava o perigo que Yoru correu por causa de si, e agora então, se ela realmente carregava um filho de Naraku, a situação era ainda mais delicada. Se outros descobrissem – ou melhor – quando descobrissem...

— Você percebe que a partir de agora não é mais responsável apenas pela própria vida? Há um serzinho dentro de você que precisa de cuidados! a dona da casa bronqueou Vai arriscar perder esse pequeno milagre?

As turquesas, mesmo tontas, abriram-se de súbito e fixaram-se naquela mulher sofrida, carrancuda, porém louca de amor pelo seu filho. Uma criança, uma prova de uma paixão consumada, e ainda mais: uma lembrança. Jinenji era tudo o que restara do youkai por quem aquela mulher se apaixonou. Em breve, tudo o que Annabelle teria de Naraku seriam as memórias dos momentos que viveram juntos e essa semente carregada dentro do ventre. Um nó se formou na garganta, ela engoliu vagarosamente e as pálpebras arderam.

— Farei o que for necessário pela vida dessa criança. afirmou cheia de convicção, afagando a própria barriga que vez ou outra pulsava doloridamente.

— Mesmo que ela seja como Jinenji? a senhora perguntou, aproveitando-se de que o filho estava no bosque Não sei se sabe, mas há grandes chances de o seu filho nascer com algumas... procurou a palavra certa estranhezas.

— O amarei de qualquer maneira. manteve o tom e a firmeza no olhar, e assim comoveu sua cuidadora.

— Bem, respirou fundo, a conter os ânimos, a febre acontece porque seu corpo está se acostumando com a nova condição. Afinal, não é o esperado que uma mulher comum engravide de um ente sobrenatural. Mas pelo modo como você age e fala, pelo brilho que vejo em seus olhos, tenho certeza de que resistirá como eu consegui resistir.

— Mamãe, Jinenji chamou da porta tem alguém aqui querendo ver a moça.

— Quem é? Annabelle perguntou cheia de expectativas.

— É o pai da criança? a senhora indagou.

— Não... o filho dela respondeu timidamente mas disse que veio em nome dele.

"Quem será então?" desapontada por não ser quem ela tanto queria ver, Annabelle devaneou.

Um sujeito surgiu à porta, ele caminhava de braços cruzados, pálido como a lua, lábios retos e tingidos de vermelho, olhos azulados ligeiramente perturbados. Nunca o vira antes, e ainda assim o desconhecido se sentou ao seu lado e a contemplou atentamente.

— Olá, me chamo Byakuya. fez as apresentações Você sabe quem me mandou aqui para tomar conta de você, e disse que se as coisas ficarem muito graves, devo tirar o que ele colocou aí dentro. apontou o corpo dela com a cabeça.

— Não! abraçou a si mesma, trêmula Não vai tirá-lo de mim!

— Isso dependerá de como seu corpo vai reagir, se vai aceitar bem o que recebeu. resfolgou e cruzou as pernas.

— Se ele já sabe, por que não veio me ver? perguntou-lhe entristecida.

— Ah, sabe como ele é. deu de ombros.

Annabelle selou as pálpebras e respirou fundo, era verdade, o conhecia bem. De qualquer modo, Naraku enviara alguém para zelar por ela e isso era suficiente para que a humana compreendesse a preocupação dele.

"Ninguém tirará isso de mim" virou-se para o lado e abraçou-se ainda mais firmemente, estava decidida. Naraku a fez prometer que não se envolveria quando chegasse a hora dele, então ao menos esse consolo ela teria. — "Como eu queria que pudéssemos criá-lo juntos..." entretanto, havia aquele pedaço de si que insistia no que ela não poderia ter e não a deixava se conformar completamente.


Conforme a noite se estendia, Annabelle buscava conhecer a nova cria de seu amado, fazia-lhe algumas perguntas sem se incomodar com a presença de Jinenji e sua mãe, e nem mesmo com a própria débil condição.

— Então, Kanna se foi... concluiu melancólica depois de ele ter contado — "Com Kagura não deve ter sido diferente" — o coração se remoeu, em seguida a culpa a consumiu por Kikyou. No fim das contas, foram quase amigas, poderiam certamente tê-lo sido, e sem pensar nisso Annabelle revelou a Naraku sobre o perigo que ele corria por causa do fragmento de Kohaku. O hanyou confessara a ela sobre ter participado da morte de Kikyou e assim mesmo ela contou a estratégia da sacerdotisa. As intenções dele eram as piores possíveis, e se mesmo ela pedindo clemência por Kagura ele não dera, como seria diferente com Kohaku?

O mínimo que poderia fazer pelo grupo de pessoas que a tratou com tanta decência era não se envolver, contudo, se ela fosse realmente tão virtuosa ficaria ao lado deles e confrontaria Naraku sem se importar com os próprios sentimentos.

Envergonhava-se, mas não o suficiente para tomar uma atitude. Só de lembrar ter ajudado Kikyou a purificar o fragmento suas entranhas revolviam-se, talvez fosse mais fácil perdoar a si mesma por se isentar, do que por tirar a vida dele.

— Tome essa sopa, vai fortalecê-la. a mãe de Jinenji ofereceu.

Mesmo sem fome, Annabelle tomou. Minutos depois a sopa abandonou o seu corpo em uma crise de vômito. Byakuya se prontificou a tomar uma atitude.

— Deixe-a, é normal! a outra mulher o segurou pelo braço.

— Você se acha tão sabida, não é? o youkai ilusionista riu.

— Eu sei muito bem o que é estar grávida de um ser como você. foi ríspida de início, depois ruborizou ao se lembrar da Noite de sua vida.

Enquanto a lua, em formato de sorriso, demarcou o céu acompanhada das estrelas, Byakuya se manteve vigilante ao lado de Annabelle, atento a cada novo sintoma que se desenvolvesse no corpo feminil. Foram horas de luta entre o organismo dela e o que se instalara em seu ventre até que, aos poucos, a estrangeira se adaptasse e o suor escapasse pelos poros.

Os olhos do ilusionista, bem treinados e com aptidões distintas às dos olhos humanos, contemplavam uma massa de nuvem arroxeada perpassar o interior dela e aos poucos se dissipar. O que quer que Naraku depositara dentro da jovenzinha a estava envenenando até o presente momento, porém, a aura branca dela se misturou à acidez e a foi diluindo, protegendo assim a pequena vida pulsante que se recolhia dentro do útero.

"Ela tem mesmo força de vontade." concluiu admirado "Se Naraku não fosse tão cabeça dura..." entortou a boca pintada e meneou a cabeça. Ao amanhecer, ele se despediu e sairia da casa.

— Falta muito? Annabelle perguntou, ainda deitada, chamando-lhe a atenção.

— O quê? virou a cabeça para mirá-la.

— Sabe do que estou falando... o momento se aproxima?

— Ah... olhou para os próprios pés, pensativo o tal momento, não é? Sim, será em breve.

Ela mordiscou o lábio inferior e apertou o lençol que a cobria.

— Não faça nenhuma besteira, ou vai sobrar para mim. Entendeu? soou brincalhão em vez de ameaçador.

— Sim... mirou o teto, tentando se convencer de que não deveria ser imprudente, porque estaria a arriscar a vida do bebê. Foi um prazer conhecê-lo. finalizou.

— Igualmente. ele sorriu, e saiu de dentro da casa.


— Então você vai mesmo embora? a mulher de certa idade pôs as mãos na cintura, levemente emburrada. Que teimosia...

— Tenho que ir, por favor não se aborreça. pediu, pronta para subir na carroça. Sempre serei agradecida ao que fizeram por mim durante esses três dias, mas o meio-youkai com quem me envolvi tem muitos inimigos, e assim que eles souberem que espero um filho dele, podem vir atrás de mim. Preciso partir o quanto antes... cobriu-se com a manta de babuíno guardada entre suas coisas.

— E para onde a senhorita vai? Jinenji perguntou tristonho, não queria que ela se fosse.

— Juntarei um pouco mais de dinheiro, assim que tiver a quantia necessária, voltarei à minha terra natal e criarei meu filho lá. sorriu nostálgica.

— Se eu tivesse como contribuir... a senhora, já mais entendida da situação, a aceitou e se lamentou por não ter muito a fazer.

— Não se preocupem, vocês já fizeram muito por mim, muito obrigada! acenou, despedindo-se.

— Ela é tão bondosa, me lembra a senhorita Kagome... Jinenji comentou enquanto balançava o braço e assistia a carroça se distanciar.

— Meu filho! a senhora exclamou, de costas para ele Veja aquilo! apontou à frente.

O grande híbrido virou-se com calma e sentiu o corpo petrificar ao olhar na mesma direção que a mãe. A horta que eles cultivavam, milagrosamente, abundava em ervas de todos os tipos e não só, em outra extremidade cresceu uma pluralidade de verduras, como se tivessem brotado ali do dia para a noite.

Annabelle, a guiar o cavalo, deu um riso sutil. Retribuiu os favores da forma como podia, aqueles dois teriam ervas e comida garantidas por um bom tempo. E ela, bem, precisaria arrumar um jeito de superar os enjoos e as dores para trabalhar e arranjar mais dinheiro.

Iria na direção do mar, a tomar cuidado para não esbarrar com os aldeões que um dia a ampararam.
"Yoru..." pensou na menina com carinho e saudade, seria melhor para ela e as outras não terem notícia da ocidental. — "Se eu já era um perigo para vocês, agora nem se fala..." afagou o ventre, mal apertara o espartilho para não causar riscos —"Estou por minha conta, como antigamente" e partiu desenfreada.

Debaixo de sol e chuva, Annabelle tornou pela infindável vez a peregrinar, e quando estava próxima a adentrar as trilhas que se encaminhavam ao litoral, deparou-se com o céu a escurecer arroxeado lá para trás. Era o caminho oposto ao seu.

Parou a carroça, desceu e vislumbrou aquela mutação conhecida que fazia o ar ao redor pesar, e a mata secar. Uma sombra cobriu a luz do dia bem acima de sua cabeça. A moçoila inclinou a cabeça para os céus e avistou youkais centopeia a voarem, endereçavam-se à escuridão adiante. Contemplara cena semelhante há muito tempo atrás e a mesma sensação terrível a consumiu.

Sensação de perda.

Colocou uma mão sobre o coração e outra sobre a barriga, ofegou angustiada.

Me faça um juramento, Annabelle. Não importa o que aconteça, no momento do confronto final, você não fará nada, você não virá por mim. — a voz dele ressoou dentro da consciência dela.

"Eu dei a minha palavra..." — sentia-se presa àquele voto, e ao mesmo tempo o medo de perdê-lo doía insuportavelmente. O desespero começou a tomar o controle de cada trecho do ser dela. Um frio indescritível perpassou pelo interior fazendo-a tremer nas bases e sentir que desfaleceria.

O mar era para lá, a chance de voltar para casa estava para um lado, e a chance de rever Naraku, de salvá-lo, estava para o outro.

Pensou em Inuyasha em Sango, em Shippou e em Miroku, na raiva que sentiam do hanyou e que possivelmente voltariam para ela. Pensou em Sesshoumaru e em como ele a desprezaria se ela tomasse o partido de Naraku. Provavelmente, todos desejariam a sua cabeça e ela sofreria por isso, porque tinha carinho por cada um deles.

Então lembrou-se de Hitomi, do amor que teve por ele, dos sonhos que alimentaram juntos, e do inferno que fora a dor de perdê-lo.

Por fim, rememorou as palavras de Kagome – que a fizeram despertar para os próprios sentimentos sem que percebesse.

Ele a ama.

O turbilhão a revolver-se no interior do espírito dela era o mesmo de quando Naraku quase fora aniquilado pela Ferida do Vento e da vez em que se encontraram tempos depois e ele estava aos pedaços, se não fosse por ela, o hanyou teria perecido e nunca chegaria a se esconder no Monte Hakurei. Como naquelas ocasiões, o coração da estrangeira trepidava tremendamente e a ordenava a tomar partido, a agir, ou se arrependeria pelo resto de seus dias.

A escocesa se virou, olhou para a carroça que carregava tudo o que ela tinha conquistado, fixou-se no cavalo recém-comprado, suspirou e soltou o animal das rédeas.

— Vá! incentivou o belo pangaré a correr livremente para dentro do bosque.

Então, a carregar consigo apenas a manta de babuíno, Annabelle tornou a fitar os céus e esticou a mão na direção do último youkai comprido e colorido que passava.

O véu de energia alabastrina a contornou, seus olhos brilharam em um tom índigo intenso e a fera os encarou, hipnotizada. Assim, a enorme centopeia desceu, atravessando as nuvens e parou a debater-se em frente a humana minúscula.

As mãos da abençoada pelas fadas acariciaram a lateral esverdeada do bicho e num só pulo, Anna montou o monstro domado por seus dotes misteriosos.

Sobrevoaram a neblina escurecida enquanto a mulher controlava os ímpetos de vomitar tudo o que comera naquele dia. Aos poucos, conforme as nuvens se dissipavam, ela enxergou a negra aranha colossal que flutuava encolhida, não tão distante do vilarejo de Kaede. Pensou que fosse desmaiar sem conseguir conter todas as emoções que a dominavam: medo, anseio, determinação, dentre outras.

Fez a centopeia parar diante dos inúmeros olhos do aracnídeo e o encarou afoita.

— Naraku? chamou-o.

"O que ela faz aqui?!" — enquanto diversas sombras dele faziam o papel de atormentar seus inimigos, outra parte, solitária e ligada a tentáculos, surgiu de uma parede e deparou-se com aquela criatura cintilante a oscilar no meio do miasma.

— Deixe-me entrar! ela gritou agoniada.

Atônita, a aranha abriu a bocarra. Embora aterrorizada com a ideia, Annabelle saltou de cima do youkai esguio para dentro das presas daquele monstro gigante, que era ninguém mais e ninguém menos do que o próprio Naraku – assim ela percebeu, após rolar pela superfície lisa, levantar, tocar as paredes moventes e vê-lo diante de si, despido de qualquer parafernália, os olhos avermelhados dilatados ao confrontarem os dela.

Continua...