Naruto não me pertence de forma alguma.
TRINTA DIAS A DOIS
Hinata gostava de observar Sasuke dormir. Era o momento que o rosto dele não era severo, quando ele não parecia mais velho do que realmente era, quando a beleza dele conseguia aflorar de maneira natural. Observou o nariz afilado dele, o queixo marcado, os lábios finos, os cabelos revoltos, e sorriu. Se tivessem filhos, seriam maravilhosos.
Não que já tivessem entrado no mérito de herdeiros... Mas eram uma família de negócios, afinal. Os filhos haveriam de vir.
Um dia.
Ela não pretendia pensar nisso nem em suas implicações tão cedo.
Sasuke resmungou alguma coisa e jogou um braço pesado por cima da cintura dela, puxando-a mais para perto. Hinata arregalou brevemente os olhos, mas não ousou se mexer. Sabia que, para variar, seu rosto esquentara e corara. Ele não se mexeu mais, e ela finalmente soltou a respiração leve no pescoço do marido.
– Seu ar me faz cócegas – Ele comentou displicentemente numa voz grossa de quem acabara de acordar, e ela suspirou. É claro que ele estava acordado. E aparentemente ainda imerso no clima de casal que aquele cronograma os colocara.
– Desculpe, h-heika, não era minha intenção te acordar – Ela sussurrou, erguendo-se levemente, e, num rompante de coragem (afinal, estava jogando também, não estava?), deixou um beijo no queixo masculino e escorregou para fora da cama –, mas eu preciso me levantar.
O homem abriu os olhos a tempo de ver a figura graciosa da esposa levantar-se, a elegância que ela tinha mesmo ao se espreguiçar, com os cabelos caindo pelas costas, a coluna ereta ao máximo.
– Dois – Ele disse, e ela olhou pra ele por cima do ombro, um segundo para compreender sobre o que aquilo se referia.
– Dois – Ela sorriu, muito embora, como não pudesse deixar de ser, seu rosto se avermelhasse levemente.
DOIS - disputem um jogo: pode ser videogame ou até mesmo tabuleiro.
– Então hoje é um jogo – O homem repetiu devagar num tom de voz esquisito uma vez que a moça terminou de explicar-lhe a situação. Hinata sorriu da expressão estranha dele, compreendendo a reação do Hyuuga. Jogos não eram do feitio de Sasuke. E nem do dela... Pelo menos não naquele contexto.
– E nós não temos videogame. – Ela completou, abaixando-se para amarrar as sapatilhas. Encostou a bochecha nos joelhos, abraçando seus tornozelos, completamente dobrada sobre si.
– Hinata, isso não tem nenhum sentido. – Hyuuga Neji a encarou, encostado ao batente da porta. – Por que você simplesmente não disse não?
– Eu não sei, nii-san – Respondeu baixinho, fechando os olhos. Não gostaria de admitir nenhuma das possíveis reais razões – seu orgulho não era forte o suficiente para ser usado como respaldo, Neji sabia – de ter embarcado nesse campeonato sem pé nem cabeça, então apenas evitava. Ouviu os passos de Neji trazerem-no pra perto e sentiu a mão dele pousar em sua cabeça, com cuidado para não desmanchar o coque que fizera com esmero.
– Desculpe, hime. – Ele tentou dizer de uma forma gentil. Não concordava com nada daquilo, desde o início, três anos atrás, quando seu tio decidira aquele matrimônio arranjado, mas sabia que Hinata vinha dando seu melhor pois buscava desesperadamente pelo reconhecimento e apoio paterno.
– Tudo bem, Neji. Eu sei que não tem nenhuma lógica, mas Sasuke parece estar levando a sério por alguma razão, então... Eu também.
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– Você é um idiota – Sasuke resmungou quando a voz elétrica de Naruto soou através de seu telefone. Respirou fundo, virando uma das tantas folhas que deveria assinar naquela manhã – Eu não vou jogar strip poker com Hinata.
– Ah, qual é, Teme. Não é como se vocês nunca tivessem visto um ao outro pelado. – A voz estralou de volta e ele colocou o indicador entre as sobrancelhas, se perguntando como podia ter um melhor amigo tão obtuso. Naruto não sabia dos bastidores de seu matrimônio, naturalmente, pois Sasuke era deveras reservado. Mas não precisava saber de nenhum detalhe muito complexo para saber que um jogo daqueles não cairia bem a Hinata... Bastava conversar com ela por quinze minutos. E, além do mais, eles realmente nunca tinham visto um ao outro pelado. Eram casados legalmente, viviam na mesma casa, mas Sasuke não era insensível o suficiente para tentar ter uma vida sexual com Hinata.
– Tudo bem se você e a Sakura decidiram por isso, mas não funciona assim comigo e com Hinata. – Esperava que aquilo soasse como ponto final. E, se ele ainda tivesse alguma dúvida: – Preciso trabalhar. Tchau, Naruto. – Desligou. Passou a mão pelos cabelos, pensando que não tinha mesmo tempo de pensar em algo para aquela noite, porque Se Hinata aparecesse com um jogo de flexibilidade, ele com certeza perderia.
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Os passos firmes de Sasuke atravessaram a porta de entrada, a mão afrouxando a gravata assim que o aroma do jantar beijou-lhe as faces. Cheiro de lar e de rotina. Era um ótimo lugar para terminar o dia. Mayumi aproximou-se dele, recolhendo seu paletó e maleta e entregando-lhe o uísque, saudando-lhe com um discreto boa noite.
– Hinata-sama está no banho. Pediu para avisar que tem tudo pronto para depois do jantar. – Avisou antes de se retirar. Sasuke sentou-se no sofá, brincando com o gelo do copo, fazendo-o bater contra o vidro fino do recipiente. Olhou para a parede, um retrato grande do casamento deles ornando a parede, e lembrou-se da surpresa ao ver Hinata naqueles trajes, tão bonita e tão determinada, atravessando o corredor de flores num olhar decidido e brilhante. Recordava-se de desejar que ela não fosse apenas um rosto bonito de cérebro vazio... Nunca tinha conversado muito com ela, e os poucos diálogos que tiveram não foram muito reveladores. Ela, sempre tímida e ele, fechado – além de, claro, não ter encontrado motivos suficientes para esforçar-se para conhecer a moça na ocasião do noivado. Mal sabia ele...
– Boa noite, Heika – Ouviu a voz melodiosa saudar e desviou os olhos divagantes para ela, apercebendo-se do cheiro levemente doce que ela exalava e do seu próprio, que poderia definir como burocrático e alcoólico.
– Boa noite, Hime – Hinata sentou-se ao seu lado, depositando um beijo em sua bochecha, como fazia todos os dias desde o casamento. Ele nunca entendeu a razão daquilo – principalmente no começo –, mas nunca reclamou, e ela nunca parou. Fez uma pausa, e então: – Dia cheio?
– Sim. As audiências para o especial de fim de ano estão chegando e a academia está um alvoroço – Ela suspirou, aproximando-se para retirar a gravata dele, desabotoando os primeiros botões da camisa social. – Você também deve ter tido um dia pesado… Deveria tomar um banho. – Depois de tanto tempo, cuidar dele daquela forma era algo natural.
– Claro. – Ele respondeu, então passou a mão pelos cabelos dela e se foi. Ela o observou se afastar, pensando o quão mergulhados estavam naquela rotina de casal e quais eram as reais dimensões daquilo. Não que gostasse de pensar naquilo… Geralmente evitava. Mas era sua vida, afinal. Levantou-se resignada e rumou para o escritório, afinal, precisava ocupar sua mente e o jogo não se arrumaria sozinho.
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– Tudo bem – Hinata disse quando, após o jantar, Sasuke acomodou-se de frente a si, em uma das poltronas de leitura que mantinham no quarto do casal. Entregou um pedaço de papel e uma caneta a ele, sentando-se na poltrona remanescente – Você já deve conhecer essa brincadeira, mas eu vou explicar novamente. Eu vou escrever um nome nesse papel – gesticulou para o quadradinho de celulose que segurava – e você vai colar na sua testa. Você tem que descobrir quem é a pessoa no seu papel me fazendo perguntas, mas só as que podem ser respondidas com sim ou não. A mesma coisa comigo, vou tentar adivinhar a pessoa que você escolher pra colocar na minha testa. Lembrando que tem que ser uma pessoa conhecida pelos dois. – Finalizou e deu um sorriso pequeno, as bochechas já querendo esquentar.
Sasuke quase sorriu, pensando que aquela era a única brincadeira possível e que Hinata era a única mulher possível também. Rabiscou um nome rapidamente no papel e se aproximou da esposa, colando o nome na testa dela. Ela, também, pressionou os dedos delicados em sua fronte, já com o nome. Imaginava que ela já tinha pensado em quem designar para si durante o dia. Tivera muito tempo para pensar, uma vez que fora ela quem escolhera aquela atividade. Voltou para seu lugar e encarou Hinata, recostando-se ao encosto alcochoado da poltrona.
– Eu sou uma mulher? – Perguntou, já decidido a ganhar aquilo. Rápido.
– Não – Ela sorriu – Eu sou?
– Sim. Eu sou famoso?
– Não... – Ela ponderou, pausando um pouco para pensar melhor – Bom, você é conhecido na sua área, mas famoso, como Paris Hilton ou Michael Fassbender, não. Eu sou uma política?
– Você? – Ele riu – Não. Eu sou do nosso ciclo social?
– Bom… Sim. Eu sou?
– De certa forma, sim.
Os minutos correram rápido enquanto as perguntas e respostas pinguepongueavam entre eles, de forma que não sentiram as horas escorrerem e nenhum deles chegar a conclusão nenhuma.
– Você gosta de mim? – Sasuke perguntou, as sobrancelhas um pouco franzidas. Era do ciclo social deles. Era homem. Não gostava de futebol. Gostava de blues. Não gostava de multidões. Hinata o achava bonito.
– Ah? – Ela perguntou, o rosto esquentando. Mordeu o cantinho do lábio inferior.
– O eu do jogo – Ele explicou, e a expressão dela não mudou e nem o rubor suavizou quando ela finalmente gaguejou a resposta:
– B-bom... Antes eu n-não gostava muito. Agora eu acho q-que...
– Eu sou Sasuke Uchiha – Ele interrompeu, removendo o papel de sua testa e lendo seu nome na caligrafia redonda de Hinata. Ele sorriu e ela corou ainda mais. Ele ficava mesmo muito bonito quando sorria, pena que fizesse tão pouco...
– E então, você gosta de mim? – Ele provocou, alisando a borda do papel com a ponta do dedo, observando o rosto dela assumir tons alarmantes de vermelho.
– E-eu – Hinata respirou fundo, amaldiçoando sua existência como humana. Se tivesse nascido como avestruz, poderia enfiar a cara do chão tranquilamente e fingir que não estava ali… Que ideia idiota, pensou, se repreendendo, colocar o nome de Sasuke no papel. Era obvio que perguntas constrangedoras assim apareceriam… Muito bem, Hinata. Agora dê um jeito de sair dessa situação. – S-suas perguntas já a-a-acabaram, já que você já ac-certou. – Gaguejou, já emendando sua próxima pergunta: – Eu sou uma c-companhia que você a-aprecia?
– A que eu mais aprecio, na verdade – Por algum motivo, aquele sorriso idiota se recusava a abandonar os lábios de Sasuke. Ele pigarreou, erguendo uma sobrancelha, ao ouvir a próxima pergunta:
– Eu sou… – Ela encarou os próprios dedos. Mulher, bonita (era um conceito relativo, mas uma mulher bonita aos olhos de Sasuke era algo bem específico), do meio social deles, gostava de danç… AH. – Hinata Uchiha?
– Sim, Hime, você é Hinata Uchiha. Duas vezes.
– Parece que n-não temos nenhuma criatividade. – Ela sorriu, mais uma vez aceitando que seu verdadeiro tom de pele era vermelho-tomate. Ela retirou também o seu nome de sua fronte, Hinata Uchiha em letras inclinadas e elegantes, e se aproximou de Sasuke, pegando o papel dele. Arranjou os dois na mesinha de centro, próximo a um vaso de vidro que abrigava uma flor só, e bateu uma foto.
– Ou talvez apenas pensemos igual – Ele acrescentou e beijou a testa dela.
Eu acabei de parir um filho e esse filho se chama Segundo Capítulo de Trinta Dias a Dois. SÉRIO. Desculpem a demora, eu realmente perdi o ritmo. Espero que tenham gostado! Deixem suas opiniões, s'il vous plaît. Até o próximo! (espero que mais breve, rsssssss)
